30 de novembro de 2017

Capítulo 24 - Legião

O cume de Chapel Cliff era uma torre em um redemoinho: rocha lisa erguendo-se para o céu, cercada em seus três lados por um caldeirão fervilhante de oceano.
O céu acima era cinzento, raiado de preto, pairando pesadamente sobre uma rocha acima da pequena cidade e do mar além dela. A maré estava alta no porto, erguendo os barcos pesqueiros até o nível das janelas das casas perto das docas. A pequena embarcação arremessava e virava sobre as cristas das ondas.
Mais ondas quebravam contra o penhasco, borrifando cristas espumosas no ar. Emma estava parada num redemoinho de vento e água, o cheiro do mar por toda parte, o céu explodindo e raios espetando as nuvens.
Ela abriu bem os braços. Era como se os relâmpagos estivessem explodindo através dela, irradiando nas rochas a seus pés, até a água que batia nas superfícies cinza-esverdeada, quase verticais contra o céu. Ao redor dela, pináculos de granito, os quais batizavam Chapel Cliff, erguiam- se como uma floresta de pedra, como as pontas de uma coroa. A rocha sob os pés dela estava escorregadia com o musgo úmido.
Durante toda a vida, ela sempre adorara tempestades — amava as explosões que rasgavam o céu, amava a ferocidade reveladora delas. Ela sequer pensara ao sair correndo do chalé, pelo menos não logicamente, estava desesperada para ir embora antes que começasse a contar a Julian tudo o que ele jamais poderia saber. Fazê-lo pensar que ela nunca o amara, que partira o coração de Mark, que não tinha sentimentos. Fazê-lo odiá-la se isso significasse conferir a ele uma vida longa e plena.
E talvez a tempestade fosse capaz de lavá-la e limpá-la, fosse capaz de lavar de suas mãos o que parecia ser o sangue do coração de ambos.
Emma desceu para a lateral do penhasco. A rocha começou a ficar muito escorregadia e ela parou para fazer uma nova marca de Equilíbrio. A estela escorregava sobre a pele molhada. No ponto mais baixo, ela via as cavernas e piscinas naturais cobertas pelas águas brancas ondulantes. Os raios estalavam contra o horizonte, ela ergueu o rosto para provar da chuva salgada e ouviu o som distante e sinuoso de uma corneta.
Virou a cabeça abruptamente. Ela já havia ouvido um som como aquele em outra ocasião, uma vez, quando a comitiva da Caçada Selvagem chegara ao Instituto. Soou novamente, profundo, frio e solitário, e ela ficou de pé, caminhando com dificuldade para voltar à trilha rumo ao topo do penhasco.
Viu nuvens semelhantes a imensos rochedos cinzentos colidindo no céu onde elas se dividiam, passava uma luz dourada e fraca, iluminando a superfície agitada do oceano. Havia pontos negros no porto — pássaros? Não, eram grandes demais para serem aves marinhas e de qualquer forma nenhuma delas estaria ao ar livre com esse tempo.
Os pontos pretos vinham na direção de Emma. Estavam mais próximos agora, mais visíveis; não eram pontos mais. Ela conseguia enxergá-los agora: eram cavaleiros. Quatro cavaleiros, com capuz de bronze reluzente. Eles se lançavam pelo céu feito cometas.
Não eram da Caçada Selvagem. Emma percebeu isso no mesmo instante, mas sem entender como soube. Eram pouquíssimos e estavam silenciosos demais. A Caçada Selvagem cavalgara com um clamor feroz. Os cavaleiros de bronze deslizaram silenciosamente até ela, como se tivessem se formado nas nuvens.
Ela poderia correr de volta ao chalé, pensou. Mas isso os levaria até Julian, e eles tinham formado um ângulo para afastá-la da trilha de volta à casa de Malcolm. Os cavaleiros se moviam com velocidade incrível. Em segundos, estariam no penhasco.
Emma fechou a mão direita sobre o punho de Cortana e a desembainhou em seguida, praticamente sem pensar. Tocar a espada acalmou Emma e diminuiu as batidas de seu coração.
Eles voavam em círculos lá no alto. Por um momento, Emma ficou deslumbrada com a beleza curiosa daquelas criaturas — bem de perto, os cavalos mal pareciam reais, tão transparentes quanto vidro, formados por tufos de nuvem e umidade. Eles giravam no ar e mergulhavam como gaivotas atrás da presa. Quando os cascos batiam na terra sólida do penhasco, explodiam em cristas espumosas do oceano, cada cavalo causava um novo borrifo de água que desaparecia e deixava os quatros cavaleiros para trás.
E entre Emma e a trilha. Ela estava separada de tudo, menos do mar e do pequeno pedaço de rochedo atrás de si.
Os quatro Cavaleiros a encararam e ela firmou os pés. O cume era tão estreito que suas botas afundaram de cada lado da espinha do penhasco. Emma ergueu a Cortana. A espada brilhou sob a luz da tempestade, a chuva escorrendo pela lâmina.
— Quem está aí? — gritou ela.
Os quatro vultos se movimentaram em uníssono, levando as mãos à cabeça para puxar cada um dos capuzes cor de bronze. Abaixo deles, mais brilho: eram três homens altos e uma mulher, e cada um deles usava uma máscara cor de cobre, com cabelos que pareciam fios metálicos, em tranças que pendiam até metade das costas.
A armadura deles era de metal: peitorais e manoplas gravadas por toda parte com desenhos de ondas e do mar. Os olhos que se fixaram nela eram cinzentos e penetrantes.
— Emma Cordelia Carstairs — falou um deles. Ele pronunciou o nome de Emma como se fosse num idioma estrangeiro, e a língua dele se embolou um pouco. — Muito bom encontrá-la.
— Na sua opinião — resmungou Emma. Ela continuava a apertar a Cortana; cada uma das fadas (até onde ela sabia, eram fadas) à sua frente carregava um espadão, com os punhos visíveis sobre os ombros. Ela falou em voz alta: — O que uma comitiva das Cortes das Fadas poderia querer comigo?
A fada ergueu uma sobrancelha.
— Diga a ela, Fal — pediu outra fada, com o mesmo sotaque forte. Alguma coisa no sotaque fazia eriçar os pelinhos dos braços de Emma, embora ela não fosse capaz de descrever o que era.
— Nós somos os Cavaleiros de Mannan — disse Fal. — Você vai ter ouvido falar de nós.
Não era uma pergunta. Emma queria desesperadamente que Cristina estivesse com ela. Era Cristina quem possuía vasto conhecimento sobre a cultura das fadas. Se as palavras “Caçadores de Mannan” tinham algum significado para os Caçadores de Sombras, Cristina saberia.
— Vocês fazem parte da Caçada Selvagem? — perguntou ela.
Consternação. Um resmungo baixinho vibrou entre os quatro e Fal se curvou para o lado e cuspiu. Uma fada com um queixo pontudo e expressão de desdém respondeu por ele:
— Eu sou Airmed, filho de Mannan — falou. — Nós somos filhos de um deus, compreende. Somos muito mais velhos do que a Caçada Selvagem, e muito mais poderosos.
Emma percebeu então qual era a peculiaridade no sotaque deles. Não era distância ou fato de serem estrangeiros; era a idade, uma idade assustadora, que se estendia até o início do mundo.
— Nós procuramos — disse Fal. — E nós encontramos. Nós somos responsáveis pelas buscas. Para buscar, estivemos acima e abaixo das ondas. Estivemos no Reino das Fadas, e nos domínios dos condenados, e nos campos de batalha e na escuridão da noite e na claridade do dia. Em todas as novas vidas, houve uma única coisa que buscamos e não encontramos.
— Senso de humor? — sugeriu Emma.
— Ela devia calar a boca — falou a Amazona. — Você devia silenciá-la, Fal.
— Ainda não, Ethna — retrucou Fal. — Precisamos de suas palavras para saber a localização do que buscamos.
A mão de Emma agora estava quente e escorregadia no cabo da Cortana.
— O que é que vocês buscam?
— O Volume Negro — falou Airmed. — Nós buscamos o mesmo objeto que você e seu parabatai. O objeto que foi levado por Annabel Blackthorn.
Emma deu um passo involuntário para trás.
— Vocês estão procurando Annabel?
— Procurando o livro — falou o quarto Cavaleiro, com voz grave e rouca. — Diga-nos onde está e nós vamos deixá-la em paz.
— Eu não estou com o livro — retrucou Emma. — Nem Julian.
— Ela é uma mentirosa, Delan — falou a mulher, Ethna.
Ele deu um sorrisinho.
— Todos os Nephilim são mentirosos. Não nos trate como tolos, Caçadora de Sombras, ou vamos amarrar suas vísceras na árvore mais próxima.
— Experimentem — falou Emma. — Vou enfiar a árvore pela sua garganta até os galhos começarem a sair pela...
— Pelas orelhas? — Era Julian. Provavelmente tinha desenhado em si um símbolo de Silêncio porque Emma sequer ouvira sua aproximação. Ele estava empoleirado num galho úmido na lateral da trilha que levava ao chalé como se simplesmente tivesse aparecido ali, materializando-se em meio à chuva e às nuvens. Ele estava bem disposto, o cabelo molhado, uma lâmina serafim apagada na mão. — Tenho certeza de que você ia dizer orelhas.
— Com certeza. — Emma sorriu para ele; não pode evitar. Apesar da briga que tiveram, ele estava aqui, cuidando dela, sendo seu parabatai. E agora os Cavaleiros estavam cercados, encurralados entre os dois.
As coisas estavam melhorando.
— Julian Blackthorn. — Fal pronunciou o nome dele bem devagar, sem nem olhá-lo direito. — Os famosos parabatai. Ouvi dizer que os dois fizeram uma apresentação e tanto na Corte Unseelie.
— Tenho certeza de que o Rei não parou de nos elogiar — falou Julian. — Ouçam, o que faz vocês pensarem que sabemos onde está Annabel ou o Volume Negro?
— Em todas as Cortes há espiões — falou Ethna. — Sabemos que a Rainha enviou vocês para encontrarem o livro. O Rei deve colocar as mãos nele antes que ela faça.
— Mas nós prometemos à Rainha — disse Julian —, e uma promessa como essa não pode ser quebrada.
Delan rosnou e, de repente, sua mão estava no punho da espada. Seu movimento foi tão veloz que ele virou praticamente um borrão.
— Vocês são humanos e mentirosos — acusou. — Podem quebrar qualquer promessa que façam, e vão quebrar, assim que seus pescocinhos estiverem em jogo. Como agora. — Ele meneou o queixo na direção do chalé. — Viemos atrás dos livros e da papelada do feiticeiro. Se vocês não nos revelarem nada, então simplesmente entreguem a coisa toda e iremos embora.
— Entregar a vocês? — Julian pareceu confuso. — Por que vocês não... — Os olhos dele encontraram os de Emma. Ela sabia o que ele estava pensando: Por que eles não entraram e pegaram?  — Vocês não conseguem entrar, não é?
— As barreiras de proteção — confirmou Emma.
As Fadas não disseram nada, mas dava para ver pelos maxilares travados de irritação que ela estava certa.
— O que o Rei Unseelie nos dará em troca pelo livro? —perguntou Julian.
— Jules — sibilou Emma. Como ele poderia estar tramando algo numa hora dessas?
Fal deu risada. Emma notou, pela primeira vez, que as roupas e armaduras das fadas estavam secas, como se a chuva não as atingisse. O olhar da fada para Julian estava cheio de desprezo.
— Vocês não têm vantagem aqui, filho dos espinhos. Dê-nos o que buscamos, ou quando encontrarmos o restante de sua família, vamos enfiar atiçadores quentes nos olhos de cada um, até nos olhos dos mais novinhos.
Tavvy. As palavras perfuraram Emma como uma flecha. Ela sentiu o impacto, sentiu o corpo estremecer e o frio a dominou, o gelo frio da batalha. Ela avançou para Fal, baixando Cortana numa pancada cruel por cima do ombro.
Ethna gritou, e Fal se moveu mais rápido do que uma corrente no oceano, desviando-se do golpe de Emma. Cortana assobiou no ar. Houve um clamor quando as outras fadas pegaram suas espadas.
E um brilho quando a lâmina serafim de Julian explodiu em luz, iluminando a chuva. Fios brilhantes teceram ao redor de Emma enquanto a menina girava, defendendo-se de um golpe de Ethna. Cortana apartou a espada da fada com força suficiente para fazer Ethna cambalear para trás.
O rosto de Fal se contorceu de surpresa. Emma arfou, encharcada, inalando a água da chuva, mas sem sentir o impacto do frio. O mundo era um topo cinza, girando; ela correu na direção de um dos pináculos de rocha e escalou.
— Covarde! — gritou Airmed. — Como ousa fugir?
Emma ouviu a risada de Julian quando ela chegou ao topo e pulou lá de cima. A descida lhe deu velocidade e ela atingiu Airmed com força suficiente para derrubá-lo no chão. Ele tentou rolar para longe, mas congelou quando ela bateu o punho de Cortana em sua têmpora. Ele engasgou com a dor.
— Cale a boca — sibilou Emma. — Não ouse tocar nos Blackthorn nem sequer mencione o nome deles...
— Solte-o! — gritou Ethna, e Delan pulou na direção deles e acabou sendo impedido por Julian e o varrer da lâmina serafim. O penhasco explodiu com luz, a chuva pareceu pender, imóvel, quando a lâmina baixou e bateu no peitoral do guerreiro fada.
E se estilhaçou. Ela quebrou como se fosse feita de gelo, e Julian foi lançado para trás pela força do ricochete, jogado contra as pedras e a areia úmida.
Delan gargalhou, indo até Julian. Emma abandonou Airmed e pulou atrás do guerreiro fada quando este levantou a espada acima de Jules e deu o golpe...
Julian rolou depressa para a direita, girou e enfiou uma adaga na pele desprotegida da panturrilha de Delan. O guerreiro fada gritou de dor e de raiva, girando para atingir o corpo de seu oponente com a ponta da espada. Mas Jules tinha se impulsionado para cima; estava de pé, com a adaga na mão.
De repente, uma luz desceu por entre as nuvens, e Emma viu as sombras no chão antes mesmo de virar; alguém estava atrás dela. Ela se afastou no momento em que uma lâmina baixou, por pouco errando seu ombro. Deu meia-volta e viu Ethna atrás de si: Fal estava inclinado sobre Airmed no chão, ajudando-o a ficar de pé. Por um momento, eram apenas Emma e a mulher fada em guarda, e Emma segurou o punho de Cortana usando as duas mãos e girou.
Ethna correu, recuando, mas ela estava rindo.
— Sua Nephilim — zombou —, vocês se intitulam guerreiros, se marcam com seus símbolos de proteção e suas lâminas angelicais! Sem eles, vocês não seriam nada... E vocês ficarão sem eles em breve! Vocês não serão nada e nós tiraremos tudo de vocês! Tudo que vocês têm! Tudo!
— Você quer dizer isso outra vez? — perguntou Emma, esquivando-se por pouco da espada de Ethna com um giro. Saltou para um pedregulho, baixando os olhos. — A parte do tudo? Acho que não entendi da primeira vez.
Ethna rosnou e saltou atrás da menina. E por longos instantes foi apenas a batalha, o vapor luminoso da chuva, o mar quebrando e ribombando nas piscinas naturais abaixo do penhasco e tudo diminuindo de ritmo quando Emma jogou Ethna para o lado e foi atrás de Airmed e Fal, com a espada retinindo nas armas deles.
Eles eram bons: melhor que bons, rápidos e ofuscantemente fortes. Mas Cortana parecia uma criatura viva nas mãos de Emma. A raiva lhe dava poderes, uma corrente elétrica que percorria suas veias, conduzindo a espada em sua mão, martelando a lâmina contra as armas erguidas em desafio à dela, o retinir do metal abafando o som do mar. Ela sentia gosto de sal, sangue ou espuma do mar, não sabia ao certo. Os cabelos molhados açoitavam ao redor conforme ela rodopiava, e Cortana ia encontrando as espadas das fadas, golpe após golpe.
Uma risada feia cortou o sonho violento que a dominava. Ela ergueu o olhar e viu que Fal tinha feito Julian recuar até a beirada do penhasco, que tombava íngreme atrás dele; Julian estava enquadrado contra o céu cinzento, seus cabelos escuros colados à cabeça.
O pânico explodiu dentro dela. Emma tomou o impulso a partir da lateral de uma superfície de granito, dando um chute que acertou solidamente o corpo de Airmed. a fada caiu para trás com um resmungo, e Emma correu, tendo uma imagem mental de Julian transpassado por uma espada ou derrubado da beirada do penhasco para se arrebentar nas pedras ou se afogar no redemoinho lá embaixo.
Fal ainda ria. Ele tinha desembainhado a espada. Julian deu mais um passo para trás... e aí se abaixou, rápido e ágil, para pegar uma besta escondida atrás das pedras caídas. Ele a ergueu no ombro no momento em que Emma colidiu com Fal, com a espada desembainhada; ela não diminuiu a velocidade nem parou, simplesmente desferiu um golpe com Cortana, de ponta, bem entre as omoplatas do Cavaleiro.
Ela partiu a armadura do guerreiro e a atravessou. Emma sentiu a ponta parando com força do outro lado do corpo, rasgando o peitoral de metal.
Ouviu-se um guincho atrás de Emma. Era Ethna. Tinha jogado a cabeça para trás, agarrando os cabelos num gesto de desespero. Ela se lamentava numa língua que Emma não conhecia, mas percebia que a fada repetia o nome do irmão. Fal. Fal.
Ethna afundou de joelhos. Delan fez menção de apará-la, o rosto dele muito pálido e chocado. Com um rugido, Airmed ergueu a espada e avançou para Emma, que estava lutando para livrar Cortana do corpo murcho de Fal. Ela se retesou e puxou; a espada se soltou num jorro de sangue, mas não havia tempo para Emma se virar...
Julian disparou a flecha da besta. Ela assobiou pelo ar, um som mais baixo do que a da chuva, e atingiu a espada na mão de Airmed, arrancando-a de sua mão. Airmed uivou. Sua mão estava escarlate.
Emma se virou, firmando os pés, e ergueu a espada. Sangue e chuva desciam da lâmina de Cortana.
— Quem quer brincar comigo? — gritou ela, e suas palavras foram deturpadas pelo vento e pela água. — Quem quer ser o próximo?
— Deixem-me matá-la! — Ethna lutava contra o aperto de Delan. — Ela matou Fal! Deixem-me cortar sua garganta!
Mas Delan balançava a cabeça e dizia alguma coisa, algo sobre Cortana. Emma deu um passo para a frente — se eles não precisariam vir a ela para serem mortos, ela iria atrás deles com prazer.
Airmed ergueu uma das mãos; Emma viu a luz tremeluzir de seus dedos, um verde muito claro no ar cinzento. O rosto do guerreiro fada estava contorcido num esgar de concentração.
— Emma! — Jules a agarrou por trás antes que ela pudesse dar mais um passo, erguendo suas costas contra ele assim que a chuva explodiu nas formas de três cavalos, criaturas rodopiantes feitas de vento e espuma, resfolegando e batendo as patas no ar entre Emma e o restante dos Cavaleiros. Fal estava deitado, e seu sangue encharcava o solo da Cornualha quando seus irmãos e irmã saltaram sobre as costas nuas de seus corcéis.
Emma começou a tremer violentamente. Apenas um dos Cavaleiros parou por tempo suficiente para olhar para ela antes de os cavalos se lançarem no céu e se perderem por entre as nuvens e a chuva. Foi Ethna. Os olhos dela estavam homicidas, incrédulos.
Você matou uma criatura antiga e primitiva, seu olhar parecia dizer. Prepare-se para a vingança igualmente antiga. Igualmente primitiva.

* * *

— Corram — falou Livvy.
Era a última coisa que Kit esperara. Caçadores de Sombras não corriam. Foi isso que sempre lhe disseram. Mas Livvy disparou feito uma bala, faiscando pelo Cavaleiro na trilha diante dela, e Ty a seguiu.
Kit correu atrás deles. Passaram como um raio pelas fadas e entraram na multidão de pedestres na Trilha do Tâmisa. Kit se esforçava para acompanhar Livvy e Ty, embora estivesse ofegante, ao contrário das duas crianças.
Ele ouvia o rimbombar atrás de si. Batidas de cascos. Nós não conseguimos correr mais do que eles, pensou, mas não tinha fôlego para dizê-lo. O ar cinzento, semelhante a chumbo, bateu pesadamente quando foi sorvido pelos seus pulmões. Os cabelos escuros de Livvy fluíram ao vento quando ela pulou um portão na grade que separava a trilha do rio.
Por um momento, ela pareceu ficar suspensa, os braços erguidos, o casaco balançando — e então ela planou e desceu, desaparecendo da vista. E Ty a seguiu, pulando de lado sobre o portão e desaparecendo ao cair.
Dentro do rio?, pensou Kit, confuso, mas não parou; seus músculos já estavam começando a apresentar aquela ardência agora um tanto familiar; sua mente se retesou e se concentrou. Ele agarrou o topo do portão e tomou impulso para cima e para além dele.
Kit caiu apenas alguns centímetros e aterrissou agachado numa plataforma de cimento que se estendia para dentro do rio Tâmisa, cercada por uma grande baixa de ferro quebrada em várias partes. Ty e Livvy já estavam lá, depois de tirar os casacos para liberar os braços, com as lâminas serafim na mão. Livvy jogou uma espada curta para Kit enquanto este se ajeitava e percebia por que ela havia corrido — não era uma fuga, mas eles precisavam de espaço para lutar.
E, com sorte, entrar em contato com o Instituto. Ty pegara o telefone e digitava no teclado mesmo com a lâmina serafim erguida, sua luz ardendo fracamente contra as nuvens.
Kit se virou no instante em que os três Cavaleiros voaram sobre o portão e se juntaram a eles, brilhando em bronze e dourado ao aterrissar. Suas espadas giravam livre com velocidade ofuscante.
— Detenham-no! — rosnou Karn, e seus dois irmãos se lançaram para cima de Ty.
Livvy e Kit agiram em uníssono, e se jogaram na frente de Tiberius. O borrão frio e duro da luta estava em cima de Kit, mas os Cavaleiros eram mais ágeis do que os demônios, e mais fortes também. Kit girou a espada curta na direção de Eochaid, mas a fada não estava mais lá: pulara até o outro lado da plataforma. O Cavaleiro riu da expressão de Kit, e mais ainda quando Etarlam deu um golpe que derrubou o celular da mão de Ty. O aparelho deslizou pelo concreto e caiu dentro do rio.
Uma sombra desceu sobre Kit, e ele reagiu sem perda de tempo, investindo sua espada. Ele ouviu um arfar e Karn caiu, gotas escuras de sangue salpicando o chão a seus pés. Kit avançou mais uma vez, atacando Eochaid, porém Livvy e Ty se adiantaram a ele, borrões de luz enquanto suas lâminas serafim cortavam o ar em torno dos Cavaleiros.
Mas apenas o ar. Kit não deixou de notar que as lâminas angelicais não pareciam cortar a armadura dos Cavaleiros, nem mesmo arranhar sua pele quando ele tentava fazer com a espada curta. Havia confusão no rosto de Ty e raiva no de Livvy quando apunhalou o coração de Eochaid com lâmina serafim.
A arma se partiu do cabo, a força do rebote a fez cambalear quase para dentro do rio. Ty girou o olhar para ela — Eochaid ergueu sua espada e a golpeou num arco amplo na direção do menino —, e Kit disparou pela plataforma, derrubando Tiberius no chão.
A lâmina de Ty saiu voando e afundou no rio Tâmisa, fazendo um monte de gotas abrasadoras vir a superfície. Kit aterrissara sobre Ty, batendo a cabeça com força num pedaço de madeira que se projetava; ele sentiu que ty tentava empurrá-lo e rolou ao ver Eochaid de pé acima dos dois.
Livvy lutava contra os outros dois Cavaleiros, combatendo-os desesperadamente, um redemoinho de armas reluzentes. Mas ela estava do outro lado da plataforma. Kit lutava para recuperar o fôlego, aí ergueu a espada...
Eochaid continuou firme, os olhos brilhando por trás das aberturas da máscara. As íris também tinham a cor do bronze.
— Eu conheço você — falou. — Conheço seu rosto.
Kit abriu a boca. Um segundo depois, Eochaid erguia a espada, dando um sorriso — e então uma sombra caiu sobre todos eles. O cavaleiro ergueu o olhar e o espanto cruzou seu rosto quando um braço forte surgiu acima dele e o agarrou. Um segundo depois ele estava voando, gritando. Kit ouviu o barulho de algo caindo na água; o Cavaleiro tinha sido lançado dentro do rio.
Kit fez esforço para se sentar, com Ty ao lado dele. Livvy tinha se virado para encará-los, boquiaberta; os outros dois Cavaleiros estavam igualmente estupefatos, e suas espadas pendiam nas laterais do corpo enquanto aquela massa rodopiante e trovejante aterrissava no centro da plataforma.
Era um cavalo, e no dorso do cavalo estava, Gwyn, imenso, em seu capacete e armadura semelhantes a uma casca de árvore. Foi o braço com a manopla que lançara Eochaid no rio — mas agora o Cavaleiro nadara de volta e estava subindo na plataforma, com movimentos lentos por causa da armadura pesada.
Agarrada à cintura de Gwyn, via-se Diana; seus cabelos escuros eram uma fartura de cachos, totalmente soltos, e seus olhos estavam arregalados.
Ty ficou de pé e Kit fez um esforço para se levantar também. Havia manchas de sangue na gola do casaco com capuz de Ty. Kit se deu conta de que não sabia se era dele mesmo ou do menino.
— Cavaleiros! — chamou Gwyn, com voz estrondosa. Via-se um corte imenso no braço de Eochaid, provavelmente devido a um golpe. — Parem.
Diana desceu do cavalo e cruzou a plataforma de concreto até onde o Cavaleiro estava saindo da água. Ela sacou a espada da bainha, girou-a e apontou diretamente para o peito dele.
— Não se mexa — falou.
O Cavaleiro se abaixou, com os dentes à mostra num rosnado silencioso.
— Isso não é da sua conta, Gwyn — falou Karn. — É um problema da Corte Unseelie.
— A Caçada Selvagem não obedece a lei alguma — retrucou Gwyn. — Nossa vontade é a vontade do vento. E minha vontade agora é afastar vocês destas crianças. Elas estão sob minha proteção.
— Elas são Nephilim — cuspiu Etarlam. — Arquitetos da Paz Fria, perversa e cruel.
— Vocês não são melhores do que isso — retrucou Gwyn. — Vocês são os cães de caça do Rei e nunca demonstraram compaixão.
Karn e Etarlam encaram Gwyn. Eochaid, se ajoelhando, pingava no concreto. O momento se estendeu feito borracha, e aquele tempo pareceu uma eternidade.
De repente, Eochaid ficou de pé e arfou, parecendo um tanto despreocupado com a espada de Diana, que acompanhava com precisão.
— Fal — começou ele — está morto.
— Isso é impossível — comentou Karn. — Impossível. Um Cavaleiro não pode morrer.
Mas Etarlam soltou um grito de lamento alto, e sua espada caiu no chão ao mesmo tempo que a mão cobriu o peito.
— Ele se foi — lamentou ele. — Eu sinto. Nosso irmão se foi.
— Um Cavaleiro passou para as Terras das Sombras — disse Gwyn. — Vocês gostariam que eu tocasse o chifre berrante por ele?
Embora Gwyn tivesse parecido sincero na visão de Kit, Eochaid rosnou e gesticulou como se fosse atacar o Caçador, mas a espada de Diana beijou sua garganta assim que ele se mexeu, tirando sangue. Gotas grossas e escuras desceram pela lâmina.
— Chega! — falou Karn. — Gwyn, você pagará pela traição. Etar, Eochaid, para o meu lado. Vamos até nossos irmãos e irmã.
Diana baixou a espada quando Eochaid passou por ela, dando-lhe um safanão com o ombro, e se juntou aos outros dois Cavaleiros. Eles pularam da plataforma em direção ao ar, saltos longos que os levaram bem alto até eles segurarem as crinas dos cavalos de bronze reluzentes e se virarem para cavalgar.
Assim que eles se precipitaram acima da água, a voz de Eochaid ecoou nos ouvidos ressonantes de Kit:
Eu conheço você. Eu conheço seu rosto.

* * *

Emma estava tremendo quando voltaram ao chalé. Uma combinação de frio e reação tinha começado. O cabelo e as roupas estavam grudados nela, e ela desconfiava estar com a aparência de um rato afogado.
Ela apoiou Cortana contra a parede e, cansada, começou a tirar o casaco e os sapatos. Estava consciente de Julian trancando a porta atrás deles, consciente dos sons dele enquanto se movimentava pelo cômodo. E do calor também. Provavelmente ele acendera a lareira antes de sair.
Um instante depois, alguma coisa macia estava sendo colocada em suas mãos. Julian estava de pé, diante dela, com uma expressão indecifrável, oferecendo uma toalha de banho levemente puída. Emma a aceitou e começou a secar o cabelo.
Jules ainda estava usando as roupas úmidas, embora estivesse descalço e tivesse vestido um suéter seco por cima de tudo. A água reluzia nas pontas de seu cabelo, nas pontas dos cílios.
Emma pensou no retinir entre as espadas, na beleza do turbilhão da batalha, no mar e no céu. E se perguntou se era assim que Mark se sentira na Caçada Selvagem. Quando não havia nada entre você e os elementos era fácil se esquecer daquilo que o oprimia.
Ela pensou no sangue em Cortana, no sangue escorrendo em filetes de baixo do corpo de Fal, misturado à chuva. Eles tinham rolado o corpo para baixo de uma saliência rochosa, não queriam deixá-lo ali, exposto ao tempo, embora ele estivesse longe de se importar.
— Eu matei um dos Cavaleiros — dizia ela agora, num quase sussurro.
— Você teve que matar. — As mãos de Julian eram fortes em seu ombro, os dedos o apertavam. — Emma, foi uma luta até a morte.
— A Clave...
— A Clave vai entender.
— O Povo das Fadas não. O Rei Unseelie não vai.
O mais leve esboço de sorriso passou pelo rosto de Julian.
— De qualquer forma, eu não acho que ele goste da gente.
Emma respirou fundo, tensa.
— Fal tinha empurrado você contra a beirada do precipício — disse ela. — Pensei que ele fosse te matar.
O sorriso de Julian desapareceu.
— Eu sinto muito — falou ele. — Eu tinha escondido a besta antes...
— Eu não sabia — retrucou ela. — É meu dever perceber o que está acontecendo com você em combate, entender, prever, mas eu não sabia. — Ela jogou a toalha de banho, que caiu no chão da cozinha. A caneca que Julian tinha quebrado antes se fora. Ele provavelmente limpou tudo.
O desespero borbulhava dentro dela. Nada que ela fizera tinha funcionado. Eles estavam exatamente no mesmo lugar de antes, mas Julian não sabia disso. Isso fora tudo que mudara.
— Eu fiz um esforço tremendo — murmurou ela.
O rosto dele se enrugou, confuso.
— No combate? Emma, você fez tudo que podia...
— Não no combate. Para fazer você não me amar. Eu tentei — disse ela.
Ela sentiu quando ele se retraiu, não tanto externamente, mas internamente, como se sua alma tivesse se encolhido.
— É tão terrível assim? O fato de eu amar você?
Ela havia recomeçado a tremer, embora não pelo frio.
— Foi a melhor coisa do mundo — disse ela. —E depois foi a pior. E eu nem sequer tive uma chance de...
Ela se calou. Ele balançava a cabeça, espalhando gotas de água.
— Você vai ter que aprender a conviver com isso — falou. — Mesmo que isso te deixe horrorizada. Mesmo que isso te deixe enojada. Assim como eu vou ter que aprender a conviver com os outros namorados porque, não importa como, nós somos para sempre, Emma, não importa como você queira chamar o que temos, nós sempre seremos nós.
— Não vai ter outros namorados — disse ela.
Ele a encarou, surpreso.
— Aquilo que você falou mais cedo, sobre pensar e ficar obcecado, e querer só uma coisa — acrescentou Emma —, é assim que eu me sinto em relação a você.
Ele ficou chocado. Ela ergueu as mãos e as colocou delicadamente nas bochechas dele, roçando os dedos na pele úmida. Dava para sentir a pulsação martelando no pescoço de Julian. Havia um arranhão no rosto dele, longo, que ia da têmpora ao queixo. Emma se perguntava se ele tinha acabado de adquiri-lo na briga ou já estaria ali e ela não percebera por estar se esforçando para não olhar para ele. Ela se perguntava se um dia ele ia voltar a falar.
— Jules, diga alguma coisa, por favor.
As mãos dele apertaram os ombros de Emma convulsivamente. Ela arfou quando o corpo dele colou ao dela, empurrando-a para trás até suas costas tocarem a parede. Os olhos dele baixaram para os dela, absurdamente brilhantes, radiantes como vidro marinho.
— Julian — corrigiu ele. — Eu quero que você me chame de Julian. Só assim para sempre.
— Julian — falou ela, e então a boca de Julian pousou sobre a dela, seca e ardente, e o coração de Emma pareceu parar e recomeçar a bater, um motor embalado a uma velocidade impossivelmente alta.
Ela o apertou com o mesmo desespero, agarrando-se a ele enquanto ele sorvia a chuva de sua boca, os lábios se abrindo para prová-lo: cravo e chá. Ela tirou o suéter dele pela cabeça. Por baixo, era só uma camiseta, e o tecido fino e molhado não representou barreira alguma quando ele a encostou outra vez na parede. O jeans também estava molhado e colado ao corpo dele. Ela sentiu quanto ele a desejava, e ela o desejava na mesma medida.
O mundo se fora: havia apenas Julian; o calor de sua pele, a necessidade de ficar mais perto dele, de se encaixar nele. Todos os movimentos do corpo dele contra o dela enviavam raios pelas terminações nervosas de Emma.
— Emma. Meu Deus, Emma. — Ele enterrou o rosto no dela, beijando a bochecha, o pescoço, enquanto passava os polegares sob o cós do jeans e empurrava o tecido para baixo. Ela chutou o montinho úmido de pano. — Eu te amo tanto.
Era como se tivessem se passado mil anos desde a noite na praia. As mãos de Emma redescobriram o corpo dele, as partes duras, as cicatrizes grossas sob as palmas. Ele um dia fora tão magro — ela ainda conseguia enxergá-lo tal como ele tinha sido dois anos atrás, magricela e desengonçado. Ela o amava na época, mesmo que não se desse conta disso, ela o amara desde o centro dos ossos até a superfície da pele.
Agora esses mesmos ossos estavam vestidos e cobertos pela musculatura lisa, dura e sólida. Ela passou as mãos por baixo da camisa dele, reaprendendo-o, trilhando-o, enterrando a sensação e a textura dele de sua memória.
— Julian — disse ela. — Eu...
Eu te amo, era o que Emma ia dizer. Nunca foi Cameron ou Mark, sempre foi você, sempre será você, você é como a medula para meus ossos, assim como as células que constituem nosso sangue. Mas ele a interrompeu com um beijo vigoroso.
— Não — murmurou. — Não quero ouvir nada sensato, não agora. Não quero lógica. Eu quero isto.
— Mas você precisa saber...
Ele balançou a cabeça.
— Não preciso. — E esticou a mão, segurou a bainha da própria camiseta e a tirou. Seus cabelos úmidos pingaram nos dois. — Eu estou incompleto há semanas — falou ele, com voz entrecortada, e ela soube o quanto isso lhe custava: admitir a falta de controle. — Eu preciso ser inteiro outra vez, mesmo que não dure.
— Não pode durar — disse ela, encarando-o porque como poderia, se eles nunca poderiam manter o que tinham? — Isso vai partir nossos corações.
Ele segurou o pulso dela sobre o coração, que golpeava como um punho abrindo caminho socando o esterno.
— Pode partir meu coração — falou ele. — Deixe-o em pedacinhos. Eu te dou permissão.
O azul dos olhos de Jules quase tinha desaparecido atrás das bordas de suas pupilas dilatadas.
Antes, na praia, Emma não soubera o que estava acontecendo. Como a coisa ia ficar entre eles. Agora sabia. Havia coisas na vida que você não podia recusar. Ninguém tinha tanta força de vontade assim.
Ninguém.
Ela estava fazendo que sim com a cabeça, sem se dar conta.
— Julian, sim — falou. — Sim.
Ela o ouviu soltar um som quase angustiado. Então as mãos dele estavam em seu quadril e ele a ergueu de tal modo que Emma ficou encurralada entre o corpo dele e a parede. Parecia desesperado, como se fosse o fim do mundo, e ela se perguntava se haveria alguma vez que não seria assim, em que seria suave, lendo e silenciosamente terno.
Jules a beijou ferozmente e ela se esqueceu da delicadeza ou de qualquer desejo por isto. Só havia isso, ele murmurando o nome dela enquanto ambos tiravam e jogavam as roupas que precisavam ser tiradas e jogadas de lado. Ele estava arfando, uma leve camada de suor sobre a pele, os cabelos úmidos colados na testa; ele a ergueu mais, colando-se a ela tão depressa que seus corpos se colidiram. Ela ouviu o gemido entrecortado se arrastando da garganta dele. Quando Jules ergueu o rosto, os olhos escuros de desejo, ela o fitou, com olhos arregalados.
— Você está bem? — murmurou ele.
Ela assentiu.
— Não pare.
A boca de Julian encontrou a dela, hesitante, as mãos dele trêmulas ao tocá-la. Emma sabia que ele estava lutando por cada segundo de controle. Ela queria lhe dizer que estava tudo bem, que estava tudo certo, mas a coerência a abandonara. Dava para ouvir as ondas lá fora, batendo brutalmente contra as rochas; ela fechou os olhos e o ouviu dizer que a amava, e então seus braços estavam em volta dele, envolvendo-o ao mesmo tempo que os joelhos dele cederam e eles caíram no chão, agarrando-se com sobreviventes de um navio encalhado em alguma praia distante e lendária.

* * *

Foi fácil localizar Tavvy, Rafe e Max. Eles tinham estado sob os cuidados de Bridget, que se divertia deixando-os chatear Jessamine até ela jogar as coisas fora das prateleiras altas, provocando, com isso, um sermão estilo “Não provoque os fantasmas”, de Magnus.
Dru, por outro lado, não fora vista em parte alguma. ela não estava mais no quarto, nem se escondendo na biblioteca ou na saleta, e as crianças também não a tinham visto. Provavelmente Jessamine poderia ter ajudado mais, mas Bridget informara que ela saíra do cômodo irritada, depois que as crianças se cansaram de perturbá-la e, além disso, ela só gostava de conversar com Kit.
— Dru não sairia do Instituto, sairia? — perguntou Mark. Ele percorria o corredor, abrindo as portas à esquerda e à direita. — Por que ela faria uma coisa dessas?
— Mark. — Kieran segurou o outro pelos ombros e o virou para que eles ficassem frente a frente. Cristina sentiu o pulso latejar, como se a aflição de Mark se transmitisse a ela através da amarração.
Claro, Mark e Kieran dividiam outro tipo de amarração. A amarração da experiência e da emoção compartilhada. Kieran segurava Mark pelos ombros, concentrando-se apenas nele, daquele jeito que as fadas faziam. Aos poucos, Mark foi relaxando, e um pouco da tensão abandonou seu corpo.
— Sua irmã está aqui — falou Kieran. — E nós vamos encontrá-la.
— Vamos nos separar e procurar — falou Alec. — Magnus...
Magnus ninava Max e cruzou o corredor com as outras duas crianças atrás de si. O restante concordou em se encontrar outra vez na biblioteca em vinte minutos. Cada um deles tinha um quadrante do Instituto para revistar. Cristina ficou com a parte oeste, o que levou para o primeiro andar até o salão de baile.
Ela queria não ter ficado com essa parte; as lembranças da dança com Mark, e depois com Kieran, eram confusas e a distraíam. E ela não precisava de distrações agora; precisava encontrar Dru.
Ela foi para a escadaria... e congelou. Dru estava no patamar, toda vestida de preto, as tranças castanhas presas com fita preta. Ela voltou o rosto pálido e ansioso para Cristina.
— Eu estava esperando você — falou.
— Todo mundo está procurando você! — retrucou Cristina. — Ty e Livvy...
— Eu sei. Eu ouvi. Estava prestando atenção — falou Dru.
— Mas você não estava na biblioteca...
— Por favor, você tem que vir comigo. Não há muito tempo — interrompeu Dru.
Ela se virou e subiu correndo os degraus. Depois de um instante, Cristina a seguiu.
— Dru, Mark está preocupado. Os Cavaleiros são terrivelmente perigosos. Ele precisa saber que você está bem.
— Eu vou dizer a ele que estou bem daqui a um segundo — falou Dru. — Mas preciso que você venha comigo.
— Dru... — Elas chegaram ao corredor onde ficava a maior parte dos quartos vagos.
— Preste atenção — disse Dru. — Eu só preciso que você faça isso, está bem? Se você tentar gritar, chamando Mark, eu juro que tem lugares neste Instituto onde posso me esconder que vão fazer vocês levarem dias para me encontrar.
Cristina não conseguiu controlar a curiosidade.
— Como você conhece o Instituto tão bem?
— Você conheceria, se sempre que mostrasse sua cara, tentassem fazer você tomar conta de alguém — falou Dru. Elas chegaram ao quarto de Dru. A menina ficou parada, hesitante, com a mão na maçaneta da porta.
— Mas nós olhamos no seu quarto — protestou Cristina.
— Estou dizendo — falou Dru. — Esconderijos. — Ela respirou fundo. — Muito bem. Você entra. Mas não surte.
O rosto pequenino de Dru estava controlado e determinado, como se ela estivesse tomando coragem para fazer algo desagradável.
— Está tudo bem? — perguntou Cristina. — Você tem certeza de que não prefere conversar com Mark no meu lugar?
— Não sou eu que quero conversar com você — falou a menina, e empurrou a porta. Cristina entrou, sentindo-se mais confusa do que nunca.
No início, ela viu uma sombra, um vulto diante do parapeito da janela. Então ele ficou de pé e o coração dela foi parar na garganta.
Pele morena, cabelos pretos emaranhados, traços marcados, cílios longos. Os ombros levemente curvados dos quais ela se lembrava, e sobre os quais costumava comentar que sempre o faziam parecer como se ele estivesse andando contra uma ventania muito forte.
— Jaime — murmurou ela.
Ele esticou os braços e um instante depois ela o abraçava com força. Jaime sempre fora magro, mas agora ele parecia decididamente anguloso, com clavículas pontudas e cotovelos finos. Ele a abraçou também, com força, e Cristina ouviu a porta do quarto se fechar silenciosamente, bem como o estalo do trinco.
Ela recuou e olhou para o rosto de Jaime. A aparência dele era a mesma de sempre: olhos brilhantes, com uma pontada de travessura.
— Então — falou ele. — Você realmente sentiu minha falta.
Todas as noites em que ela ficara acordada, chorando por ele — porque ele estava desaparecido, porque ela o odiava, porque ele fora seu melhor amigo e ela odiava odiá-lo — explodiram. A palma da mão esquerda de Cristina estalou na bochecha dele, e logo ela estava lhe dando outros tapas, nos ombros dele, no peito, onde conseguisse alcançar.
— Ai! — Ele se contorceu e se afastou. — Isso dói!
— ¡Me vale Madre! — Ela bateu nele outra vez. — Como você ousa desaparecer assim! Todo mundo estava preocupado! Eu pensei que talvez você estivesse morto. E agora você aparece, escondido no quarto de Drusilla Blackthorn... E, por sinal, se os irmãos dela descobrirem, pode se considerar morto...
— Não foi desse jeito! — Jaime girava os braços como se quisesse se proteger dos golpes dela. — Eu estava procurando você.
Ela pôs as mãos no quadril.
— Depois de todo esse tempo me evitando, de repente você me procura?
— Eu não estava te evitando — retrucou ele. E tirou um envelope amassado do bolso, estendendo-o para ela. Com uma pontada, Cristina reconheceu a letra de Diego.
— Se Diego quisesse me escrever, não precisaria mandar entregar a mensagem em mãos — disse ela. — O que ele pensa que você é, um pombo-correio?
— Ele não tem como escrever para você — explicou Jaime. — Zara fiscaliza toda a correspondência dele.
— Então você sabe sobre Zara — falou Cristina, pegando o envelope. — Há quanto tempo?
Jaime afundou contra uma grande escrivaninha de carvalho, as mãos apoiadas atrás da cabeça.
— Há quanto tempo eles estão noivos? Desde que vocês dois terminaram pela primeira vez. Mas não é um noivado de verdade, Cristina.
Ela se sentou na cama de Dru.
— Parecia bem genuíno.
Jaime passou uma das mãos pelos cabelos pretos. Ele se parecia só um bocadinho com Diego, talvez o formato da boca, o formato dos olhos. Jaime sempre fora brincalhão, e Diego, sério. Agora, magro e cansado, ele se assemelhava aos garotos melancólicos e estilosos que ficavam nas cafeterias de Colonia Roma.
— Eu sei que provavelmente você me odeia — disse ele. — E tem toda razão. Você acha que eu queria que o nosso lado da família tomasse o Instituto porque eu tinha gana de poder e não ligava para você. Mas a verdade é que eu tinha uma boa razão.
— Eu não acredito em você — falou Cristina.
Jaime fez um ruído impaciente.
— Não é autossacrifício, Tina — falou ele. — É Diego, não eu. Eu queria nossa família longe de problemas.
Cristina enterrou as mãos na colcha da cama.
— Que tipo de problemas?
— Você sabe que sempre tivemos ligação com as fadas — falou Jaime. — Este seu colar vem daí. Mas sempre foi mais do que isso. A maior parte não tinha importância até a Paz Fria. Então era esperado que nossa família entregasse tudo à Clave: todas as informações, tudo que as fadas já haviam lhes dado.
— Mas não foi o que fizeram — adivinhou Cristina.
— Eles não fizeram isso. Concluíram que a relação com as fadas era mais importante que a Paz Fria. — Ele deu de ombros levemente. — Tem um bem de família. Ele possui um poder que nem eu entendo. Os Dearborn e a Tropa o exigiram, e nós lhes dissemos que só um Rosales poderia fazer o tal objeto funcionar.
Cristina compreendeu tudo com um choque forte.
— Por isso o noivado de mentira — falou. — Para que Zara pudesse pensar que ia se tornar uma Rosales.
— Exatamente — falou Jaime. — Diego fica ligado à Tropa. E eu... eu pego o bem da família e fujo. E assim Diego pode me culpar; “seu irmão caçula fugiu com ele”. E o noivado se arrasta e eles não encontram nada.
— É esse seu único plano? — perguntou Cristina. — Adiar eternamente?
Jaime franziu a testa para ela.
— Não acho eu você tenha avaliado direito o fato de que, muito corajosamente, tenho passado meses em fuga — falou ele. — Muito corajosamente.
— Nós somos Nephilim, Jaime. É nossa função sermos corajosos.
— Alguns de nós são melhores do que os outros — falou Jaime. — De qualquer forma, eu não diria que o plano todo é arrastar o noivado, não. Diego trabalha para descobrir quais são as fraquezas da Tropa. E eu trabalho para descobrir o que essa tal relíquia de família faz exatamente.
— Você não sabe?
Ele balançou a cabeça.
— Sei que ajuda a entrar no Reino das Fadas sem ser percebido.
— E a Tropa quer entrar no Reino das Fadas para começar uma guerra? — sugeriu Cristina.
— Isso faria sentido — disse Jaime. — Para eles, pelo menos.
Cristina ficou sentada na cama, em silêncio. Uma chuva havia começado lá fora. A água escorria pelo vidro da janela. Ela pensou na chuva sobre as árvores no Bosque, e em quando estivera sentada lá com Jaime, observando-o comer sacos de Dorilocos e lamber o sal dos dedos. E de conversar... conversar por horas, sobre tudo, literalmente, sobre o que eles fariam quando fossem parabatai e pudessem viajar para qualquer parte do mundo.
— Para onde você vai? — perguntou ela finalmente, tentando manter a voz calma.
— Não posso dizer. — Ele se afastou da mesa. — Não posso dizer a ninguém. Sou um bom artista da fuga, Cristina, mas só se nunca disser onde me escondo.
— Você não sabe, não é? — insistiu ela. — Você vai improvisar.
— Ninguém me conhece melhor do que você.
— E Diego? — A voz de Cristina ficou trêmula. — Por que ele nunca me contou nada disso?
— As pessoas fazem coisas tolas quando amam — falou Jaime, com a voz de alguém que nunca tinha amado. — Além disso, eu pedi para ele não contar.
— E por que está me contando agora?
— Por dois motivos — falou ele. — No Submundo, estão dizendo que os Blackthorn vão enfrentar a Tropa. Se chegar a uma batalha, quero estar nela. Mande-me uma mensagem de fogo que eu virei. — Seu tom era solene. — E, em segundo lugar, para entregar o recado de Diego. Ele falou que talvez você estivesse zangada demais para ler. Mas eu tinha esperança de que agora... você não estivesse.
Ela baixou o olhar para o envelope na mão dele. Tinha sido dobrado e amassado muitas vezes.
— Eu vou ler — falou ela baixinho. — Não vai ficar, Jaime? Faça uma refeição com a gente. Você parece faminto.
Ele balançou a cabeça.
— Ninguém pode saber que estou aqui, Tina. Jure pelo fato de nossa pretensa relação parabatai.
— Isso não é justo — murmurou ela. — Além disso, Drusilla sabe.
— Ela não vai contar a ninguém... — começou Jaime.
— Cristina! — Era a voz de Mark, ecoando pelo corredor. — Cristina, onde você está?
De repente, os braços de Jaime estavam em volta dela, finos, porém fortes, envolvendo-a num abraço. Quando ele a soltou, ela tocou o rosto dele levemente. Queria dizer um milhão de coisas; ten cuidado mais do que qualquer coisa: se cuide, tome cuidado. Mas ele já estava se afastando dela, em direção à janela. Ele a abriu e saiu como uma sombra, desaparecendo na noite chuvosa.

8 comentários:

  1. Nossa, se a Emma e o Julian não ficarem juntos, o livro vai perder toda a graça :(

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  2. Até que enfim Emma e Julius❤
    Ana Santos

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  3. Meu Deus, que desespero! 😭

    Não importa os motivos do Diego..
    Meu shipp sempre vai ser pra Mark&Cristina.

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  4. Na página idris tem a cena deles completa e no ponto de vista do Julian. É maior que esse, é mais quente e lindo de mais!

    Flavia

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    1. Qual e o site? Amando demais 😍😍😍

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Boa leitura :)