15 de novembro de 2017

Capítulo 23

1917

O caminhão de gado ia gemendo e sacolejando pelas estradas esburacadas, desviando de vez em quando, com uma guinada, para a relva do acostamento quando cruzava com outro grande demais. Uma chuva fina abafava os ruídos, fazendo as rodas girarem na terra solta, o motor roncando o seu protesto e levantando torrões de lama enquanto as rodas tentavam encontrar um ponto de apoio.
Após dois anos no sossego de nossa cidadezinha isolada, eu estava chocada com a vida e a destruição que havia para além dela. A apenas poucos quilômetros de St Péronne havia aldeias e cidades inteiras irreconhecíveis, destruídas pelos bombardeios, lojas e casas transformadas em escombros. No meio desses escombros, grandes crateras cheias de água, cuja infestação de algas verdes e plantas aquáticas indicava o longo tempo que lá estavam; os aldeões mudos assistiam à nossa passagem. Passei por três cidades sem conseguir identificar onde estávamos e aos poucos entendi a escala do que andara ocorrendo à nossa volta.
Pela aba da lona que balançava, eu via colunas de soldados da cavalaria passando montados em seus cavalos esqueléticos, seus homens de feições pálidas arrastando macas, os uniformes escuros e molhados, os caminhões sem estabilidade de dentro dos quais rostos preocupados olhavam com uma expressão vazia e insondável. Às vezes, o motorista parava o caminhão e trocava algumas palavras com outro motorista, e eu desejava saber um pouco de alemão para poder ter uma ideia sobre aonde estava indo. A visão na noite não era nítida, em função da chuva, mas parecia que seguíamos para sudoeste. A direção de Ardennes, eu disse a mim mesma, tentando manter a respiração sob controle. Eu decidira que a única forma de controlar o medo visceral que ameaçava me sufocar era me convencer de que ia ao encontro de Édouard.
Na verdade, eu me sentia entorpecida. Naquelas primeiras horas na traseira do caminhão, eu não seria capaz de formar uma frase se me pedissem. Ia ali sentada, com as palavras duras dos meus conterrâneos ainda ecoando em meus ouvidos, a expressão de nojo do meu irmão em minha cabeça, a realidade do que acabara de acontecer me deixando com a boca inteiramente seca. Via minha irmã, seu rosto contraído de dor, e sentia a força feroz com que os bracinhos de Édith tentavam se agarrar a mim. Meu medo naqueles momentos era tão intenso que me ocorreu que eu poderia me desgraçar. Vinha em ondas, fazendo minhas pernas tremerem e meu queixo bater. Então, olhando as cidades em ruínas, eu via que, para muitos, o pior já havia passado, e dizia a mim mesma para ter calma: isso era meramente uma etapa necessária para o meu reencontro com Édouard. Era o que eu pedira. Eu tinha que acreditar nisso.
A uma hora de St Péronne, o guarda na minha frente já cochilava de braços cruzados, com a cabeça inclinada para trás, encostada na carroceria do caminhão. Obviamente, decidira que eu não era nenhuma ameaça, ou talvez estivesse tão exausto que não tivesse conseguido resistir ao balanço do veículo.
Quando o medo tornava a se insinuar em mim, como um animal predador, eu fechava os olhos, apertava as mãos em cima da bolsa e pensava em meu marido...

* * *

Édouard ria sozinho.
— O quê? — Entrelacei os braços ao redor do pescoço dele, deixando suas palavras caírem devagarinho em minha pele.
— Estou me lembrando de você ontem à noite, botando Monsieur Farage para correr em volta do próprio balcão dele.
Nossas dívidas haviam ficado muito grandes. Eu arrastara Édouard pelos bares de Pigalle, cobrando o dinheiro dos que lhe deviam, negando-me a sair até nos pagarem. Depois que Farage se recusara e me xingara, Édouard, que normalmente custava a se enfurecer, acertara-lhe um murro com aquele punho pesado. O homem desmaiara antes mesmo de cair duro no chão. Havíamos deixado o bar de pernas para o ar, mesas viradas, copos voando em volta dos nossos ouvidos. Eu me recusara a correr, mas levantara a saia e saíra com calma, parando no caixa para pegar a quantia exata devida a Édouard.
— Você é destemida, mulherzinha.
— Com você ao meu lado, eu sou.

* * *

Devia ter cochilado e acordei com o tranco do caminhão parando, quando bati com a cabeça no teto. O guarda estava fora do veículo, conversando com outro soldado. Olhei para fora, esfregando a cabeça, esticando as pernas e os braços frios e enrijecidos. Estávamos numa cidade, mas a estação de trem tinha um nome alemão diferente, que eu não identificava. As sombras haviam se alongado, sugerindo que a noite não estava longe. A lona subiu e o rosto de um soldado alemão surgiu. Ele pareceu espantado de me ver sozinha lá dentro. Deu um grito, e gesticulou para que eu saltasse. Como não andei agilmente, ele me arrastou pelo braço, eu tropecei e deixei a bolsa cair no chão molhado.
Fazia dois anos que eu não via tanta gente junta. A estação, que compreendia duas plataformas, estava apinhada, principalmente de soldados e prisioneiros, até onde eu podia ver. As braçadeiras e as encardidas roupas listradas identificavam os prisioneiros. Eles mantinham a cabeça baixa. Peguei-me examinando seus rostos à procura de Édouard enquanto me empurravam no meio daquela aglomeração, mas, como me apressavam, as feições ficavam indistintas.
— Hier! Hier!
Uma porta deslizou para o lado e fui jogada dentro de um vagão de carga, cujas laterais de tábuas revelaram uma massa imprecisa de corpos no interior. Procurei não largar a bolsa e ouvi a porta bater atrás de mim enquanto minha vista se ajustava à meia-luz.
Lá dentro, dois bancos estreitos de madeira ao longo de cada lado estavam repletos de pessoas, praticamente coladas umas nas outras. No chão, havia mais. Nas extremidades, alguns iam deitados, descansando a cabeça em pequenas trouxas do que poderiam ser roupas. Tudo era tão imundo que era difícil dizer. O ar estava impregnado do fedor daqueles que, havia algum tempo, não tinham conseguido tomar banho, ou coisa pior.
— Français? — disse eu no silêncio. Vários rostos me olharam inexpressivamente. Tentei de novo.
— Ici — disse uma voz perto da parede do fundo.
Fui andando com cuidado por toda a extensão do vagão, tentando não perturbar quem dormia. Ouvi falarem numa língua que poderia ser russo. Pisei no cabelo de alguém e fui xingada. Finalmente, cheguei ao fundo do vagão. Um homem de cabeça raspada me olhou. Seu rosto era todo marcado, como se tivesse acabado de ter catapora, e as maçãs do rosto eram proeminentes como as de uma caveira.
— Français? — disse ele.
— Sim — respondi. — O que é isso? Aonde estamos indo?
— Aonde estamos indo?
Ele me olhou espantado, e então, quando entendeu que minha pergunta era séria, riu sem achar graça.
— Tours, Amiens, Lille. Como vou saber? Eles ficam rodando com a gente pelo país afora para ninguém aqui saber onde está.
Eu já ia falar de novo quando vi um vulto no chão. Um casaco preto tão familiar que, a princípio, não me atrevi a olhar mais de perto. Dei um passo à frente, passando pelo homem, e me ajoelhei.
— Liliane? — Vi o rosto dela, ainda machucado, embaixo do que lhe restava de cabelo. Ela abriu um dos olhos, como se não confiasse em seus ouvidos. — Liliane! É Sophie.
Ela olhou para mim.
— Sophie — murmurou. Depois, levantou a mão e tocou na minha. — Édith?
Mesmo naquele seu estado frágil, deu para notar o medo em sua voz.
— Está com Hélène. Está a salvo.
Os olhos se fecharam.
— Você está doente?
Foi então que vi o sangue, seco, em volta de sua saia. Sua palidez cadavérica.
— Ela está assim há muito tempo?
O francês deu de ombros, como se já tivesse visto muitos na situação de Liliane para sentir alguma compaixão.
— Ela estava aí quando embarcamos há algumas horas.
Liliane tinha os lábios rachados, os olhos encovados.
— Alguém tem água? — gritei.
Alguns olhares se voltaram para mim.
— Acha que isso é um vagão-restaurante? — perguntou o francês com sarcasmo.
Tentei de novo, falando mais alto.
— Alguém tem um gole d’água?
Eu via as pessoas se entreolhando.
— Essa mulher arriscou a vida para levar informações à nossa cidade. Se alguém tiver água, por favor, só umas gotinhas. — Um murmúrio atravessou o vagão. — Por favor! Pelo amor de Deus!
Então, surpreendentemente, minutos depois, uma tigela de ágata foi passada de mão em mão. Continha no fundo um dedo do que poderia ter sido água da chuva. Agradeci em voz alta e levantei a cabeça de Liliane com delicadeza, vertendo as preciosas gotas em sua boca.
O francês pareceu animado por um instante.
— Devíamos estender xícaras, tigelas, qualquer coisa para fora do vagão se possível, enquanto está chovendo. Não sabemos quando será a próxima vez que receberemos comida ou água.
Liliane engoliu penosamente. Posicionei-me no chão para ela poder descansar encostada em mim. Com um guincho e o ruído duro do atrito do ferro com os trilhos, o trem seguiu para o interior.

* * *

Não sei dizer quanto tempo ficamos naquele trem. Ele andava devagar, parando com frequência sem razões claras. Segurando nos braços a sonolenta Liliane, eu olhava pelas frestas das tábuas cheias de farpas, observando o movimento interminável das tropas, prisioneiros e civis através do meu país castigado. A chuva ficou mais forte, e houve mais murmúrios de satisfação quando os ocupantes fizeram circular a água que haviam coletado. Eu estava com frio, mas feliz com a chuva e a baixa temperatura: não dava para imaginar quão infernal esse vagão ficaria no calor quando os odores piorassem.
As horas se estendiam, e o francês e eu conversávamos. Perguntei sobre a placa em seu quepe, a listra vermelha em seu casaco, e ele me disse ter vindo do ZAB — Zivilarbeiter Battalione, prisioneiros que eram usados para os piores trabalhos, enviados para o front, expostos ao fogo aliado. Contou-me dos trens que ele via todas as semanas, lotados de meninos, mulheres e meninas, atravessando o país para Somme, Escaut e as Ardennes, para servir de mão de obra escrava para os alemães. Naquela noite, disse, pernoitaríamos em quartéis, fábricas ou escolas em ruínas em aldeias evacuadas. Ele não sabia se seríamos levados para um campo de prisioneiros ou para um batalhão de trabalho.
— Eles nos mantêm em estado de inanição para não termos forças para tentar fugir. Quase todo mundo aqui está agradecido só por continuar vivo. — Ele perguntou se eu tinha comida na bolsa e ficou desapontado quando tive de dizer que não. Dei-lhe um lenço que Hélène pusera lá dentro, sentindo-me na obrigação de lhe dar algo. Ele olhou para aquele pano limpo de algodão como se fosse uma meada de seda. Depois me devolveu. — Guarde-o — disse e fechou a cara. — Use-o para a sua amiga. O que ela fez?
Quando lhe contei da coragem de Liliane, da linha vital de informações que ela trouxera à nossa cidade, ele olhou para ela de outra maneira, como se já não estivesse vendo um corpo, mas sim um ser humano. Eu lhe disse que estava procurando notícias do meu marido e que ele fora enviado para Ardennes. O semblante do francês estava carregado.
— Passei várias semanas lá. Soube que houve epidemia de tifo? Tomara que seu marido tenha sobrevivido.
O medo me fechou a garganta.
— Onde está o restante do seu batalhão? — perguntei-lhe, tentando mudar de assunto.
O trem reduziu a velocidade e passamos por outra coluna de prisioneiros seguindo a pé. Nenhum deles olhou para o trem, como se aquela escravidão forçada os enchesse de vergonha. Olhei bem o rosto de cada um, temendo que Édouard pudesse estar entre eles.
O francês custou um pouco a falar.
— Sou o único que sobrou.

* * *

Várias horas depois de ter anoitecido, entramos num desvio. As portas de correr se abriram ruidosamente, e gritaram em alemão para que saltássemos. Os corpos se levantaram do chão cheios de cansaço, segurando tigelas de ágata, e se encaminharam para um ramal desativado. Nosso caminho estava ladeado de soldados da infantaria alemã, cutucando-nos com suas espingardas para que andássemos em fila. Senti-me como um bicho, conduzida assim, como se não fosse mais humana. Recordei-me da fuga desesperada do jovem prisioneiro em St Péronne, e subitamente tive uma vaga ideia do que o levara a fugir, mesmo sabendo das poucas chances que tinha.
Eu segurava Liliane junto a mim, apoiando-a pelas axilas. Ela andava devagar, muito devagar. Um alemão colocou-se atrás de nós e a chutou.
— Deixe-a! — protestei, e ele me deu com a coronha do rifle na cabeça, fazendo-me tropeçar e cair no chão. Senti mãos me puxando para cima e depois já estava andando de novo, atordoada, com a vista enevoada. Quando botei a mão na têmpora, senti a viscosidade do sangue.
Fomos conduzidos para uma enorme fábrica deserta. O chão coalhado de cacos de vidro rangia sob nossos pés, e um vento forte assobiava pelas janelas. Ao longe, ouvíamos o rugido dos canhões, até víamos o clarão de uma ou outra explosão. Olhei para fora, perguntando-me onde estávamos, mas tudo em volta estava envolvido pelo manto da noite.
— Aqui — disse uma voz, e o francês se pôs entre nós duas, dando-nos apoio, conduzindo-nos para um canto. — Olhem, tem comida.
Sopa, servida por outros prisioneiros em uma mesa comprida com dois enormes potes. Eu não comia desde de manhã cedo. A sopa era aguada, cheia de formas indistintas, mas meu estômago estava apertado de ansiedade. O francês encheu sua tigela de ágata, e uma xícara que Hélène pusera em minha bolsa, e com três pedaços de pão preto, sentamo-nos num canto e comemos, dando goles para Liliane (que tinha os dedos de uma das mãos quebrados e não podia usá-los), limpando a tigela com os nossos dedos para não desperdiçar nada.
— Nem sempre há comida. Talvez nossa sorte esteja mudando — disse o francês, mas sem convicção. Desapareceu em direção à mesa com os potes onde uma multidão já se reunia na esperança de repetir, e eu me amaldiçoei por não ter agilidade suficiente para ir até lá. Tive medo de deixar Liliane, mesmo por um instante. Minutos depois ele voltou com a tigela cheia. Ficou ao nosso lado, me entregou a tigela e apontou para Liliane.
— Aqui — disse. — Ela precisa de força.
Liliane levantou a cabeça. Olhou para ele como se não se lembrasse como era ser tratada com bondade, e meus olhos se encheram de lágrimas. O francês fez um cumprimento de cabeça para nós, como se estivéssemos em outro mundo e ele estivesse educadamente nos dando boa-noite, depois se retirou para onde os homens dormiam. Sentei-me e alimentei Liliane Béthune, gole por gole, como faria com uma criança. Quando terminou a segunda tigela, ela deu um suspiro trêmulo, encostou a cabeça em mim e adormeceu. Fiquei ali sentada no escuro, rodeada de corpos se mexendo em silêncio, uns tossindo, outros chorando, ouvindo os sotaques de russos, ingleses e poloneses perdidos. No chão, eu às vezes sentia a vibração de um projétil que acertava o alvo, uma vibração que parecia não surpreender mais ninguém. Eu ouvia os canhões distantes e o murmúrio dos outros prisioneiros, e, quando a temperatura caiu, comecei a tremer. Visualizei minha casa, Hélène dormindo a meu lado, as mãos da pequena Édith enroscadas no meu cabelo. E chorei em silêncio no escuro, até que finalmente, vencida pelo cansaço, também adormeci.

* * *

Acordei e, por alguns segundos, não sabia onde estava. O braço de Édouard me envolvia, eu sentia o peso do seu corpo. Havia uma pequena fenda no tempo através da qual jorrou o alívio — ele estava ali — até eu perceber que não era meu marido encostado em mim. A mão de um homem, furtiva e insistente, se insinuava por dentro da minha saia, protegida pelo escuro, talvez pela certeza dele do meu medo e cansaço. Será que eu devia gritar? Alguém ligaria se eu gritasse? Será que os alemães tomariam isso como mais um pretexto para me punir? Quando tirei meu braço devagarinho de sob meu corpo, encostei a mão num caco de vidro, frio e afiado, lançado quando a janela se estilhaçou. Fechei os dedos envolvendo o estilhaço e, quase antes de pensar no que fazia, rolei para o lado e pus a ponta afiada colada à garganta do atrevido desconhecido.
— Encoste em mim de novo e eu passo isso em você — sussurrei.
Eu podia sentir seu mau hálito e seu choque. Ele não esperava resistência. Nem tive certeza se ele entendeu o que eu disse. Mas ele entendeu aquele caco afiado. Levantou as mãos, um gesto de rendição, talvez de desculpas. Fiquei mais um instante com o vidro naquela posição, confirmando minha intenção. Na escuridão quase absoluta, meu olhar cruzou com o dele e vi que ele estava com medo. Ele também encontrara um mundo onde não havia regras, não havia ordem. Se aquele era um mundo onde ele podia atacar uma estranha, também era um mundo onde ela podia degolá-lo. Tão logo afrouxei a pressão, o homem se levantou afobadamente. Mal deu para distinguir seu vulto tropeçando por cima das pessoas dormindo para chegar ao outro lado da fábrica.
Meti o fragmento de vidro no bolso da saia, sentei com as costas retas, protegendo com os braços a forma adormecida de Liliane, e esperei.

* * *

Parecia que eu tinha acabado de adormecer quando fomos acordados com uma gritaria. Guardas alemães se movimentavam pelo meio da sala, despertando as pessoas a coronhadas e pontapés. Endireitei-me. Senti uma dor na cabeça, e engoli um grito. Pela minha visão turvada, vi os soldados se dirigindo para nós e dei um puxão em Liliane, tentando fazê-la se endireitar antes que eles pudessem nos bater.
Na dura luz azul do amanhecer, eu via claramente o que nos cercava. A fábrica era enorme e semiabandonada, com um rombo irregular no meio do teto, vigas e janelas espalhadas pelo chão. Na outra extremidade, as mesas de cavalete estavam servidas de algo que poderia ser café, e um naco de pão preto.
Levantei Liliane; eu tinha que atravessar com ela aquele amplo espaço antes que a comida acabasse.
— Onde estamos? — perguntou ela, espiando pela janela quebrada. Uma explosão distante nos disse que devíamos estar perto do front.
— Não tenho ideia — eu disse, aliviada por ela se sentir bem o bastante para puxar uma pequena conversa comigo.
Enchemos a xícara de café e conseguimos mais um pouco para a tigela do francês. Procurei-o, aflita com a possibilidade de ele estar se privando por nossa causa, mas um oficial alemão já estava separando os homens em grupos, e alguns deles se afastavam da fábrica em fila. Liliane e eu recebemos ordens de entrar em um grupo separado, predominantemente feminino, e fomos direcionadas para um banheiro comum. De dia, dava para eu ver a sujeira entranhada na pele das outras mulheres, os piolhos cinzentos andando na cabeça delas. Senti coceira, e vi um na minha saia. Espanei-o com a mão, sentindo que isso era inútil. Não escaparia deles, eu sabia. Era impossível passar tanto tempo em contato direto com outros e evitá-los.
Devia haver trezentas mulheres tentando se lavar e usar o banheiro em paz num espaço planejado para doze pessoas. Quando consegui trazer Liliane para perto dos cubículos, ambas tivemos ânsias de vômito diante do que encontramos.
Limpamo-nos na bomba de água fria como pudemos, seguindo o exemplo das outras mulheres: elas mal se despiam, e olhavam em volta preocupadas, como se esperando algum subterfúgio dos alemães.
— Às vezes, eles irrompem banheiro adentro — disse Liliane. — É mais fácil, e mais seguro, ficar vestida.
Enquanto os alemães estavam ocupados com os homens, saí para catar gravetos e pedaços de barbantes entre os escombros, depois fui me sentar com Liliane. Na fraca claridade, entalei os dedos quebrados de sua mão esquerda.
Ela foi muito corajosa, aguentando firme mesmo quando eu sabia que devia estar machucando-a. Ela parara de sangrar, mas ainda andava com cuidado, como se sentisse dor. Não me atrevi a perguntar o que lhe acontecera.
— É bom ver você, Sophie — disse ela, examinando a mão.
Lá no fundo, pensei, ainda devia haver uma sombra da mulher que conheci em St Péronne.
— Nunca fiquei tão feliz em ver outro ser humano — eu disse, enxugando seu rosto com meu lenço limpo, e estava sendo sincera.
Os homens foram enviados para realizar um trabalho. Dava para ouvi-los ao longe, fazendo fila para receber pás e picaretas, formados em colunas para marchar em direção ao barulho infernal no horizonte. Fiz uma prece silenciosa para que nada acontecesse com nosso francês caridoso, depois fiz outra, como sempre fazia, por Édouard. As mulheres, enquanto isso, foram direcionadas para um vagão de trem. Fiquei desanimada com a ideia da próxima viagem demorada e fedida, mas aí me censurei. Pode ser que eu só esteja a algumas horas de Édouard, pensei. Pode ser que este seja o trem que me leve a ele.
Embarquei sem reclamar. Embora esse vagão fosse menor, parecia que esperavam embarcar nele todas as trezentas mulheres. Ouviam-se xingamentos e algumas discussões abafadas enquanto tentávamos sentar. Liliane e eu encontramos uma pequena vaga no banco. Sentei-me aos seus pés e soquei a bolsa embaixo dela. Eu cuidava daquela bolsa com zelo, como se ela fosse um bebê. Alguém gritou ao sentir o trem chacoalhar com a explosão de um projétil nas imediações.
— Me conte sobre Édith — disse ela quando o trem partiu.
— Ela está bem-disposta. — Falei com a voz mais convincente possível. — Come bem, dome tranquila, e ela e Mimi estão inseparáveis. Ela adora o bebê, e ele a adora também.
Enquanto eu falava, descrevendo a vida da filha em St Péronne, ela manteve os olhos fechados. Não sei se aliviada ou agoniada.
— Ela está feliz?
Respondi com cuidado:
— Ela é uma criança. Quer a maman dela. Mas sabe que está em segurança no Le Coq Rouge.
Eu não podia lhe contar mais nada, mas isso pareceu ser suficiente. Não lhe contei dos pesadelos de Édith, das noites que ela passara soluçando pela mãe. Liliane não era burra: eu desconfiava que, no fundo, ela já sabia de tudo isso.
Quando terminei, ela ficou um bom tempo olhando pela janela, pensativa.
— E, Sophie, o que levou você a isso? — perguntou ela, afinal olhando para mim.
Provavelmente não havia ninguém mais no mundo que entenderia melhor que Liliane. Observei o rosto dela, com medo, mesmo naquele momento. Mas a perspectiva de ser capaz de dividir o meu fardo com outro ser humano era um atrativo muito grande.
Contei-lhe. Contei-lhe sobre o Kommandant, a noite em que fui ao alojamento dele, e o trato que lhe propus. Ela ficou me olhando. Não me disse que eu era uma idiota, nem que eu não devia ter acreditado nele, nem que eu poderia morrer, ou causar a morte das pessoas que eu amava por não ter satisfeito os desejos do Kommandant.
Ela não disse absolutamente nada.
— Estou convencida de que ele vai manter a parte dele no trato. Estou convencida de que ele vai me levar até Édouard.
Eu disse isso com toda a fé que consegui juntar. Ela esticou a mão boa e apertou a minha.

* * *

À tardinha, numa pequena floresta, o trem parou de repente. Aguardamos que ele tornasse a andar, mas, dessa vez, as portas de correr abriram na traseira, e as passageiras, muitas das quais haviam acabado de adormecer, resmungaram. Eu estava cochilando e acordei com a voz de Liliane em meu ouvido.
— Sophie. Acorde. Acorde.
Um guarda alemão estava postado à porta. Custei um pouco a perceber que ele chamava meu nome. Levantei-me de um pulo, lembrando-me de pegar a bolsa, e fiz sinal para Liliane vir comigo.
— Karten — exigiu ele.
Liliane e eu apresentamos nossas carteiras de identidade. Ele conferiu nossos nomes numa lista e apontou para um caminhão. Ouvimos as outras mulheres chiarem desapontadas quando as portas bateram às nossas costas.
Liliane e eu fomos empurradas para um caminhão. Senti que ela ficava um pouco para trás.
— O que foi? — perguntei.
— Não estou gostando disso — disse ela, olhando para trás, quando o trem tornou a se pôr em marcha.
— É bom — insisti. — Acho que quer dizer que estamos sendo separadas. Isso deve ser coisa do Kommandant.
— É disso que não estou gostando — disse ela.
— E, ouça, não dá para ouvir os canhões. Devemos estar nos afastando do front. Isso é bom, com certeza.
Fomos hesitantes para trás do caminhão, e ajudei-a a subir na caçamba, coçando minha nuca. Eu começara a sentir coceira e detectara piolhos na roupa. Tentei ignorá-los. Tinha que ser um bom sinal o fato de terem nos retirado do trem.
— Tenha fé — eu disse e apertei o braço dela. — Pelo menos, temos espaço para mexer as pernas.
Um guarda jovem subiu na caçamba, e nos lançou um olhar furioso. Tentei sorrir, para convencê-lo de que era improvável eu tentar fugir, mas ele me olhou com nojo e colocou o rifle entre nós, como um alerta. Vi então que eu também cheirava mal, e que, com aquela promiscuidade forçada, a minha própria cabeça logo estaria infestada de insetos, e me entretive revistando minhas roupas e catando os que encontrava.
O caminhão partiu e Liliane contraía o rosto a cada solavanco. Não demorou muito para que ela caísse no sono outra vez, exaurida pela dor. Minha própria cabeça latejava, e fiquei agradecida pelo silêncio dos canhões. Tenha fé, apelei em silêncio para que conseguíssemos ter força de vontade.
Estávamos havia quase uma hora na estrada aberta, o sol de inverno se pondo lentamente atrás das montanhas ao longe, cristais de gelo brilhando às margens do caminho, quando a lona esvoaçou e deu para entrever uma placa de sinalização. Devo ter me enganado, pensei. Inclinei-me para a frente, levantando a ponta da lona para não perder a placa seguinte, franzindo os olhos por causa da claridade. E lá estava.
Mannheim.
O mundo pareceu parar à minha volta
— Liliane? — murmurei, sacudindo-a para acordá-la. — Liliane. Olha lá. O que vê?
O caminhão diminuíra a velocidade ao contornar umas crateras, então, quando ela olhou, eu sabia que ela devia ter visto.
— Devíamos estar indo na direção do sul — eu disse. — Para Ardennes. — Agora eu via que a escuridão estava atrás de nós. Íamos para leste, e já havia um bom tempo. — Mas Édouard está em Ardennes. — Eu não conseguia disfarçar o pânico na voz. — Tive notícias de que ele estava lá. A gente devia estar indo para Ardennes. Ao sul.
Liliane soltou a ponta da lona. Falou sem olhar para mim. Seu rosto perdera todo resquício de cor que ainda tinha.
— Sophie, não ouvimos mais os canhões porque já atravessamos o front — disse ela num tom apático. — Estamos entrando na Alemanha.

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