30 de novembro de 2017

Capítulo 23 - Céus de fogo

— Ganhei de novo. — Jaime baixou as cartas todas de copas. Ele sorriu em triunfo para Dru. — Não fique chateada. Cristina costumava dizer que eu tinha a sorte do diabo.
— Mas o diabo não teria azar? — Dru não se importava por perder para Jaime. Ele sempre parecia satisfeito e ela não se importava de jeito ou de outro.
Na noite anterior, ele dormira no chão, ao lado da cama dela e quando ela acordara, rolara e ficara admirando a figura dele, com o peito inflado de felicidade. Durante o sono Jaime parecia vulnerável e ficava ainda mais parecido com o irmão, embora agora ela o considerasse mais bonito do que Diego.
  Jaime era um segredo, o segredo dela. Um feito importante da parte dela, mesmo que os outros não tivessem ideia da ocorrência dele. Ela sabia que ele estava numa missão importante, uma coisa sobre a qual não podia falar muito, era como ter um espião em seu quarto, ou super-herói.
— Vou sentir sua falta. — disse ele com franqueza, trançando os dedos e esticando os braços como um gato que se espreguiça sob o sol. — Esse foi o maior descanso que já tive em muito tempo e o mais divertido também.
— Nós podemos continuar amigos depois disso, certo? — perguntou ela. — Quero dizer, quando a sua missão acabar.
— Não sei quando vai acabar. — Uma sombra cruzou o rosto dele, Jaime mudava de humor muito mais rápido que o irmão, num minuto ele estava contente; logo em seguida, ficava triste; depois pensativo e então era capaz de rir por cinco minutos seguidos. — Pode ser que demore. — Ele olhou para ela de esguelha. — Talvez você fique chateada comigo. Eu fiz você guardar um segredo da sua família.
— Eles guardam segredos de mim — falou ela. — Acham que sou jovem demais para saber alguma coisa.
Jaime franziu a testa. Dru sentiu uma pontadinha de preocupação — eles nunca tinham conversado sobre a idade dela; por que teriam que conversar? Mas normalmente as pessoas imaginavam que ela devia ter, pelo menos, uns 17 anos. Suas curvas eram bem mais acentuadas do que as das outras meninas da sua idade e Dru estava acostumada a atrair os olhares dos garotos.
Mas até então Jaime não tinha olhado, ao menos não do jeito que os outros garotos meninos costumavam olhar, como se tivessem algum direito sobre o corpo dela. Como se ela devesse ser grata por tanta atenção. E então ela se dera conta de que não queria desesperadamente que ele soubesse que ela só tinha 13 anos.
— Bem, Julian acha — emendou ela. — E Julian é meio que o responsável por tudo. A questão é que quando nós éramos menores, todos éramos “as crianças”. Mas depois que meus pais morreram e Julian Basicamente nos criou, nós nos dividimos em grupos. Eu virei a “mais nova” e de repente, Julian era o mais velho, tipo, um pai.
— Sei como é — falou Jaime. — Diego e eu costumávamos brincar feito cachorrinhos quando éramos crianças. Então ele cresceu e decidiu que precisava salvar o mundo, aí começou a me dar ordens.
— Exatamente isso — falou ela. — É isso aí mesmo.
Ele esticou a mão e puxou a bolsa de lona de baixo da cama.
— Eu não posso ficar muito tempo. — Dru ficou olhando para ele. Não era sua intenção lhe dar um laptop, era? Ele levantou a tela, um sorriso se espalhando pelo rosto. Era tipo um sorriso de Peter Pan, que dizia que ele nunca ia parar com as traquinagens. — Eu baixei A Casa que Pingava Sangue. Achei que podíamos ver juntos.
Dru bateu palmas e passou para o colchão ao lado dele. Ele se afastou e deu espaço suficiente para a menina. Ela ficou observando enquanto ele inclinava a tela para que ambos conseguissem ver. E aí finalmente conseguiu ler as palavras que davam voltas no braço dele, embora não soubesse o que significavam. La sangre in fuego hierve.
— E sim — falou ele, quando as primeiras imagens começaram a aparecer na tela. — Espero que a gente seja amigo no futuro.


— Jules — chamou Emma, apoiando-se na parede da igreja. — Você tem certeza de que é uma boa ideia? Não parece sacrilégio incendiar uma igreja?
— Está abandonada. Deixou de ser sagrada. — Julian arregaçou as mangas do casaco. Ele estava marcando com o símbolo de Força, de modo limpo e preciso, na parte interna do antebraço. Atrás dele, Emma via a curva da baía, a água batendo em ondas azuis contra a praia.
— Ainda assim... nós respeitamos todas as religiões. Toda religião paga dizimo aos Caçadores de Sombras e é assim que vivemos. Isso parece...
— Desrespeitoso? — Julian sorriu com pouco humor. — Emma, você não viu o que eu vi. O que Malcolm fez. Ele derramou sangue e depois o sangue dele foi derramado. E quando uma igreja se torna um matadouro desse jeito, é pior do que se fosse outro tipo de construção — ele passou uma das mãos pelo cabelo. — Lembra o que Valentim fez com a Espada Mortal? Quando ele a levou a Cidade do Silêncio?
  Emma assentiu. Todos conheciam a história. Era parte da história dos Caçadores de Sombras.
— Ele mudou sua aliança de angelical para infernal. Mudou do bem para o mal.
— E a igreja foi modificada também. — Ele inclinou a cabeça para trás e fitou a torre. — Por mais sacrossanto que o local tenha sido, agora é profano. E demônios continuarão sendo atraídos para ela, continuarão passando por aqui e não vão ficar sossegados... eles vão para a aldeia. Serão um perigo para os mundanos que vivem lá. E para nós.
— Diga-me que não é só você querendo queimar a igreja porque deseja afirmar seu poder.
Julian deu um sorriso tranquilo para Emma, o tipo de sorriso que fazia todo mundo confiar nele e amá-lo, que o fazia parecer inofensivo. Esquecível até. Mas Emma enxergava sua verdadeira natureza até os ossos.
— Não acho que alguém queira saber das minhas afirmações de poder.
  Emma suspirou.
— É um edifício de pedra. Não dá para simplesmente desenhar um símbolo de fogo nele e esperar que acenda feito um fósforo.
  Ele a fitou sem emoção.
— Eu lembro do que aconteceu no carro — falou ele. — Quando você me curou. Sei o que uma Marca é capaz de fazer quando retiramos energia uma do outro.
— Você quer minha ajuda para isso?
  Julian se virou de modo a encarar a parede da igreja, uma parede cinza de granito pontuada por janelas cobertas com tábuas de madeira. A grama crescia descontroladamente ao redor dos pés deles, salpicada por dentes de leão. Ao longe, Emma ouvia os gritos das crianças na enseada.
Ele esticou a mão com a estela e desenhou na pedra da parede. O símbolo tremeluziu, minúsculas chamas lambendo suas beiradas. Fogo. Mas as chamas se apagaram rapidamente, absorvidas pela pedra.
— Ponha as mãos em mim — pediu Julian.
— O quê? — Emma não sabia ao certo se havia ouvido direito.
— Ajudaria se a gente se tocasse — falou ele, friamente. — Ponha as mãos nas minhas costas, sei lá, ou em meus ombros.
Emma ficou de pé atrás dele. Ele era mais alto que ela; erguer as mãos para os ombros dele significaria esticar o corpo numa posição estranha. E tão pertinho assim dele, ele sentia as costelas de Julian se expandindo quando ele respirava, via as minúsculas sardas na nuca dele, onde o vento tinha soprado o cabelo para o lado. Via o arco dos ombros largos que ia se estreitando até a cintura e o quadril, via o comprimento das pernas.
Ela colocou as mãos na cintura dele, como se estivesse na garupa de uma motocicleta, sob o casaco, porém sobre a camiseta. A pele dele era quente através do algodão.
— Muito bem — disse ela. Sua respiração deu uma leve soprada no cabelo dele, um calafrio lhe percorreu a pele. Ela podia sentir e engoliu seco. — Vá em frente.
Emma semicerrou os olhos enquanto a estela arranhava a parede. Julian tinha cheiro de grama recém-aparada, o que não era exatamente uma surpresa, considerando que ele havia rolado no solo ao lutar com a pixie.
— Por que ninguém iria querer saber? — perguntou ela.
— Saber o quê? — Julian ergueu o braço. A camiseta subiu e de repente Emma flagrou suas mãos na pele nua e tensa, sobre os músculos oblíquos. Ela prendeu a respiração.
— Das suas afirmações de poder, sabe, a respeito de qualquer coisa — falou Emma quando os pés dele voltaram a se firmar no chão. Agora ela estava enrolando as mãos no tecido da camiseta. Ela ergueu o olhar e viu um segundo símbolo de Fogo, este era mais profundo, mais escuro, e as chamas nas beiradas brilhavam com mais intensidade. A pedra ao redor de começou a rachar...
E o fogo surgiu.
— Pode ser que não funcione — falou Emma, com o coração acelerado. Ela queria que funcionasse e ao mesmo tempo, não queria. Suas Marcas deviam ser mais poderosas quando criadas juntas; esse era o caso para todos os parabatai. Mas havia um limite para tal poder. A menos que dois parabatai estivessem apaixonados. Do jeito que Jem falara, o poder deles naquela época poderia ser quase infinito, poderia crescer até destruí-los.
Julian não a amava mais, ela vira isso no modo como ele beijara aquela garota fada. Ainda assim, seria difícil ter que contestar isso.
Mas talvez fosse a melhor coisa para ela. Mais cedo ou mais tarde ela precisaria encarar a realidade.
Ela passou os braços ao redor de Julian, apertando-os sobre a barriga dele. O gesto fez o corpo dela pressionar o dele ainda mais e o peito de Emma se moldou as costas dele. Ela o sentiu tenso de surpresa.
— Tente mais uma vez — falou ela. — Vá devagar.
Ela ouviu a respiração dele acelerar. Ele ergueu o braço e a estela começou a arranhar outro símbolo contra a pedra.
Instintivamente, as mãos de Emma subiram para o peito dele. Ela ouvira o deslizar da estela no atrito. A palma da mão se acomodou sobre o coração dele, que martelava e golpeava as costelas.
As batidas do coração de Julian. Nas centenas de milhares de outras vezes em que Emma ouvira ou sentira aquele ribombar, ela fora atingida como se o som fosse um trem expresso. Aos seis anos de idade, ela caíra de um muro no qual tentava se equilibrar e fora apartada por Julian; eles acabaram tombando juntos e ela ouvira as batidas de seu coração. Ela se lembrava da pulsação na garganta dele enquanto segurava a Espada Mortal no Salão do Conselho. Correndo pela praia, pondo os dedos no pulso e contando os batimentos cardíacos depois. O ritmo sincopado quando as batidas dos corações se igualaram durante a cerimônia parabatai. O som do sangue de Jules rugindo quando ele a carregou para longe do oceano. A batida constante daquele mesmo coração quando ela encostara a cabeça no peito dele naquela noite.
O corpo de Emma estremeceu com o poder da lembrança e ela sentiu a energia daquele calafrio pulsando através dela, através de Julian, conduzindo a força do símbolo como um chicote pelo braço, pela mão, pela estela. Fogo.
Julian respirou fundo, deixando a estela cair; a ponta dela brilhava, vermelha. Ele recuou e Emma retirou as mãos dele; ela praticamente tropeçou, mas ele a segurou, puxando-a para longe do prédio e para o pátio da igreja.
Ofegantes, ambos ficaram observando; o símbolo que Julian desenhara tinha queimado e aberto caminho pelas pedras. A madeira sobre as janelas rachou e línguas de fogo alaranjadas surgiram.
Julian olhou para Emma. O fogo faiscava e estalavam nos olhos dele, mais do que um reflexo.
— Nós fizemos isso — falou ele, a voz se elevando. — Nós fizemos isso.
Emma o encarava. Ela apertava os braços dele, pouco acima dos cotovelos, musculatura rija do os dedos dela. Jules pareceu se iluminar de dentro para fora ardendo de empolgação. Sua pele era quente ao toque de Emma.
Os olhares de ambos se encontraram. E era Julian, seu Julian, sem persianas fechadas sobre sua expressão, nada a esconder, somente o brilho límpido de seus olhos e o calor de seu olhar. Emma sentia como se o coração estivesse rasgando seu peito. Ela ouvia o crepitar alto das chamas ao redor. Julian se aproximou, cada vez mais perto, estilhaçando a consciência dela da necessidade de mantê-lo distante, de qualquer outra coisa que não fosse ele.
O som de sirenes ecoou nos ouvidos de Emma, o uivo da brigada do fogo, precipitando-se na direção da igreja. Julian se afastou apenas o suficiente para segurar a mão dela e eles fugiram no momento em que o primeiro dos veículos chegou.


Mark não entendeu direito como todos entraram na biblioteca. Ele se lembrava vagamente de ter ido verificar Tavvy, que construía uma elaborada torre de blocos com Rafe e Max e então de bater à porta de Dru, que estava no próprio quarto e pouco inclinada a sair, o que parecia uma boa situação. Não havia razão para alarmá-la antes que fosse necessário.
Ainda assim, Mark teria gostado de vê-la. Com Julian e Helen fora e agora com Ty e Livvy em alguma parte de Londres, em perigo, ele se sentia como uma casa perdendo as fundações. Estava desesperadamente grato por Dru e Tavvy estarem em segurança e também pelo fato de não estarem precisando dele neste momento. Ele não sabia como Julian tinha dado conta durante todos aqueles anos; como era esperando que ele fosse forte para as outras pessoas quando ele mesmo não sabia como ser forte para si. Ele sabia que era ligeiramente ridículo que ele, um adulto, estivesse desejando a companhia da irmã de 13 anos para fortalecer sua resolução, mas era isso. E ele se envergonhava disso.
Mark estava ciente da presença de Cristina, falando rapidamente em espanhol com Magnus. De Kieran, inclinando-se em uma das mesas, com a cabeça pendendo para baixo; seu cabelo estava preto e roxo, como a parte mais escura da água. Alec voltou do corredor carregando uma pilha de roupas.
— São de Ty, Livvy e Kit — falou, estendendo-as para Magnus. — Peguei no quarto deles.
Magnus olhou para Mark.
— Nada ainda no telefone?
Mark respirou profundamente. Ele tinha ligado para Emma e Julian e tinha enviado mensagens, mas não obteve resposta. Cristina dissera ter recebido notícias de Emma enquanto estavam na biblioteca e que os dois pareciam bem. Mark sabia que Emma e Julian eram inteligentes e cuidadosos e que não havia guerreira melhor do que Emma. Mas ainda assim, a preocupação apertava seu coração.
No entanto ele precisava manter o foco em Livvy, Ty e Kit, que não tinha praticamente treino nenhum, e Livvy e Ty eram muito jovens. Ele tinha a noção de que era da mesma idade dos dois quando fora levado pela Caçada, mas mesmo assim, na visão dele ambos ainda eram crianças.
— Nada de Emma e Jules — disse ele. — Eu tentei falar com Ty dez, vinte vezes já. Sem resposta. — Ele engoliu seco o medo. Havia milhões de motivos para Ty não pegar o telefone que não tinham a ver com os Cavaleiros.
Os cavaleiros de Mannan. Embora ele soubesse que estava na biblioteca do Instituto de Londres, observando Magnus Bane distribuindo as roupas da pilha e começando o feitiço de rastreamento, parte dele estava no Reino das Fadas, ouvindo as histórias sobre os Cavaleiros, os assassinos sanguinários da Corte de Unseelie. Eles dormiam debaixo de uma montanha até serem despertados, normalmente em épocas de guerra. Ele tinha ouvido dizer que também eram chamados de Cães do Rei, pois assim que farejavam suas presas, podiam segui-las por quilômetros de mar, terra e céu a fim de ceifar suas vidas.
O Rei devia estar querendo muito o Volume Negro para envolver os Cavaleiros nisso. Em épocas remotas, eles haviam caçado gigantes e monstros. Agora estavam atrás dos Blackthorn. Mark sentiu o frio penetrá-lo.
Agora Mark ouvia Magnus falando baixinho; ele também explicava os Sete; quem eram e o que faziam. Alec dera a Cristina uma camiseta cinza que provavelmente era de Ty; ela a segurava, com um símbolo de Rastreamento nas costas da mão, mas balançava a cabeça mesmo enquanto apertava a peça de roupa.
— Não está funcionando — disse ela. — Talvez se Mark tentar... dê alguma coisa de Livvy para ele.
Um vestido preto de babados foi empurrado para as mãos de Mark. Ele não conseguia imaginar a irmã vestindo algo assim, mas supunha que aquela não era a questão. Ele o apertou com força, fazendo um desenho torto de um símbolo de Rastreamento nas costas da mão direita, tentando se lembrar do modo como os Caçadores de Sombras faziam isso; o modo como eles limpavam a mente e alcançavam o nada, tentando encontrar a faísca da pessoa procurada no outro extremo da própria imaginação.
Mas nada havia ali. O vestido parecia uma coisa morta ao toque. Não tinha nada de Livvy dentro dele. Não havia Livvy em parte alguma.
Ele abriu os olhos, arfando.
— Não acho que isso vá funcionar.
Magnus pareceu confuso.
— Mas...
— Não são as roupas deles — falou Kieran, erguendo a cabeça. — Vocês não se lembram? As roupas foram emprestadas quando eles chegaram aqui. Eu os ouvi reclamando disso.
Mark jamais imaginaria que Kieran prestasse atenção suficiente ao que os Blackthorn diziam para gravar tais detalhes. Aparentemente, ele tinha mesmo prestado atenção.
Mas esse era o jeito dos Caçadores, não era? Parecer que não prestava atenção mas assimilar cada detalhe, era o que Gwyn frequentemente dizia. A vida de um Caçador pode depender do que ele sabe.
— Não tem mesmo nada deles? — quis saber Magnus, com uma ponta de pânico na voz. — As roupas que eles vestiam quando chegaram aqui...
— Bridget jogou fora — falou Cristina.
— As estelas deles...
— Devem estar com eles — retrucou Mark. — As outras armas foram emprestadas. — O coração dele martelava. — Não tem nada que você possa fazer?
— Que tal viajar via Portal até o Instituto de Los Angeles? — sugeriu Alec. — Pegar alguma coisa deles lá...
Magnus tinha começado a passear de um lado a outro.
— Neste momento, o Instituto está protegido contra viagens. Questões de segurança. Eu poderia procurar um novo feitiço, nós poderíamos mandar alguém para desmanchar o bloqueio sobre o Instituto da Califórnia, mas essas coisas levam tempo...
— Não há tempo — retrucou Kieran, se aprumando. — Deixe-me ir atrás das crianças. Juro pela minha vida que farei de tudo para encontrá-las.
— Não — interveio Mark, um tanto furiosamente. Ele notou o olhar magoado que passou no rosto de Kieran. Mas não havia tempo para explicar, nem esclarecer. — Diana...
— Está em Idris e não pode ajudar — falou Kieran. Mark tinha enfiado a mão no bolso. Seus dedos fecharam em alguma coisa pequena, lisa e fina.
— Talvez seja hora de chamar os Irmãos do Silêncio — falou Magnus. — Sem nos importarmos com as consequências.
Cristina estremeceu. Mark sabia que ela estava pensando em Emma e Jules, na reunião da Clave em Idris, na ruína e no perigo que os Blackthorn enfrentavam. Uma ruína que aconteceria sob a responsabilidade de Mark. Algo que Julian nunca teria deixado acontecer. Desastres não ocorriam sob a responsabilidade de Jules, não aqueles que ele não podia consertar.
No entanto, Mark não podia pensar nisso. Todo seu pensamento, seu coração, estavam tomados de imagens do irmão e da irmã em perigo. E eles eram mais do que Julian sentia ao olhar para eles. Eles eram seus filhos, sua responsabilidade e ele morreria para salvá-los.
Mark tirou a mão do bolso. A bolota dourada reduziu no ar quando ele a jogou. Ela bateu na parede diante dele e se partiu.
Cristina girou.
— Mark, o que você está...?
Não houve mudança visível na biblioteca, mas um perfume encheu o cômodo e por um instante, foi como se eles estivessem de pé numa clareira no Reino das Fadas. Mark conseguia sentir o ar fresco, o solo e as folhas, a terra e as flores, a água tingida de cobre.
Kieran se retesou totalmente, os olhos tomados de uma mistura de esperança e medo.
— Alec — chamou Magnus, esticando uma das mãos. Sua voz foi menos uma advertência do que um tipo de necessidade crua. A estranheza do Reino das Fadas tinha entrado no cômodo e Magnus tomava providências para proteger quem amava. Alec, porém, não saiu do lugar, simplesmente ficou observando, os olhos azuis fixados quando uma sombra surgiu na parede oposta. Uma sombra projetada pelo nada.
Ela cresceu. A sombra de um homem, de cabeça abaixada e ombros largos, caídos. Cristina levou a mão ao pingente em seu pescoço e murmurou alguma coisa: uma oração, supôs Mark.
A luz no cômodo aumentou. A sombra já não era uma sombra mais. Tinha assumido cor e forma, e era Gwyn ap Nudd, com os braços cruzados sobre o peito largo e olhos bicolores brilhando abaixo das sobrancelhas pesadas.
— Mark Blackthorn — falou ele, sua voz um estrondo. — Eu não lhe dei esta lembrança, nem ela deveria ser usada por você.
— Você está mesmo aqui? — quis saber Mark, fascinado. Gwyn parecia sólido suficiente, mas se Mark olhasse com atenção, tinha a impressão que poderia enxergar as beiradas das molduras da janela através do corpanzil dele.
— É uma Projeção. — falou Magnus. — Saudações, Gwyn ap Nudd, escolta do túmulo, pai dos mortos. — Ele fez uma leve mensura.
— Magnus Bane — falou Gwyn. — Faz muito tempo.
Alec chutou Magnus no tornozelo, provavelmente, suspeitou Mark, para evitar que o feiticeiro fizesse qualquer comentário para dizer que nem fazia tanto tempo assim.
— Eu preciso de você, Gwyn — falou Mark. — Nós precisamos de você.
Gwyn se mostrou decepcionado.
— Se eu quisesse que você fosse capaz de me chamar quando lhe desse vontade, eu teria dado a bolota para você.
— Você veio até mim — disse Mark. — Veio até mim e pediu que eu ajudasse Kieran e então eu o resgatei do Rei Unseelie e agora os Cavaleiros de Mannan estão caçando meus irmãos e irmãs, que são apenas crianças.
— Eu carreguei uma quantidade incontável de corpos de criança do campo de batalha — falou Gwyn.
Mark sabia que o grandalhão não pretendia ser cruel. Gwyn simplesmente tinha a própria realidade, de sangue, morte e guerra. Nunca houve uma época de paz para ele e para a Caçada Selvagem: em alguma parte do mundo, sempre havia guerra e a missão deles era servi-la.
— Se você não ajudar — disse Mark. — Então é melhor ser um servo do Rei Unseelie, protegendo seus interesses e planos.
— É assim que você tenta obter vantagens? — perguntou Gwyn baixinho.
— Ele não está tentando obter vantagens — retrucou Kieran. — O Rei meu pai, quer iniciar uma guerra; se você não tomar posição contra ele, ele vai supor que você está a favor dele.
— A Caçada não fica do lado de ninguém — falou Gwyn.
— E se você não agir agora, quem vai acreditar nesta afirmação será justamente isso aí; ninguém — disse Mark.
— A Caçada pode encontrar Livvy, Ty e Kit — falou Cristina. — Vocês são os maiores rastreadores que o mundo já conheceu, muito mais grandioso do que os Sete Cavaleiros.
Gwyn lhe deu uma olhada ligeiramente incrédula, quase como se não conseguisse acreditar que ela havia falado. Ele pareceu meio divertido e meio exasperado pelo elogio. Kieran, por outro lado, ficou impressionado.
— Muito bem — disse Gwyn. — Eu tentarei. Não prometo nada — emendou ele sombriamente e desapareceu.
Mark ficou observando o local onde Gwyn desaparecera, a parede branca da biblioteca, sem marcas de sombras.
Cristina lhe deu um sorriso preocupado. Ela era sempre uma revelação, pensou ele. Gentil e sincera, mas extraordinariamente capaz de usar truques das fadas, se necessário. Suas palavras para Gwyn tinham soado absolutamente sinceras.
— Ele pode parecer relutante, mas se Gwyn diz que vai tentar alguma coisa, ele não deixará pedra sobre pedra — falou Magnus. Ele parecia exausto de um modo que Mark não se lembrava de já ter visto. Exausto e soturno. — Vou precisar da sua ajuda, Alec. Está na hora de tomarmos o Portal até Cornualha. Precisamos achar Emma e Julian antes que os Cavaleiros os encontrem.


O relógio do Salão do Conselho tocava através do Gard, soando como o repicar de um imenso sino. Diana, tendo terminado seu relato minutos antes, cruzou as mãos sobre a mesa da Consulesa.
— Jia, por favor, diga alguma coisa — implorou.
  A Consulesa se levantou do assento atrás da mesa. Ela usava um vestido fluido cujas mangas tinham arremate de brocado. As costas estavam muito rijas.
— Parece trabalho de demônios — falou ela com tensão na voz. — Mas não há demônios em Idris. Não desde a Guerra Mortal.
O Cônsul anterior tinha morrido nessa guerra. Jia permanecera no poder desde então e nenhum demônio entrara em Idris. Mas demônios não eram os únicos seres a um dia almejar fazer mal aos Caçadores de Sombras.
— Helen e Aline saberiam se tivesse ocorrido atividade demoníaca em Brocelind — emendou Jia. — Há todos os tipos de mapas, cartas e instrumentos sensíveis na Ilha de Wrangel. Elas viram quando Malcolm rompeu as barreiras de proteção em torno do Instituto e me informaram antes mesmo de você.
— Isso não foi obra de demônios — falou Diana. — Não tinha aquela sensação, o fedor de demônios... Era a morte da natureza, uma praga na terra. Foi a... a mesma coisa descrita por Kieran em relação às Terras Unseelie.
Cuidado, falou Diana para si. Ela quase deixara escapar que Julian fora o agente da descrição. Jia seria uma aliada, ela torcia, mas ainda não tinha se mostrado uma. E ela continuava sendo parte da Clave, sua mais alta representante, na verdade.
Ouviu-se uma batida à porta. Era Robert Lightwood, o Inquisidor. Ele estava tirando as luvas de cavalgada.
— O que a Srta. Wrayburn disse é verdade — falou ele, sem preâmbulos. — Há um espaço atingido pela praga no centro da floresta, talvez a um quilometro e meio da mansão Herandale. Os sensores confirmam que não há presença demoníaca.
— Você estava sozinho quando foi verificar? — quis saber Diana.
Robert pareceu ligeiramente surpreso.
— Havia outros comigo. Patrick Penhallow, alguns Centuriões mais jovens.
— Deixe-me adivinhar — falou Diana. — Manuel Villalobos.
— Não me dei conta de que deveres ser uma missão confidencial — falou Robert, erguendo as sobrancelhas. — A presença dele tem alguma importância?
Diana não disse nada, apenas fitou Jia, cujos olhos escuros estavam cansados.
— Espero que tenha trazido algumas amostras, Robert — falou Jia.
— Patrick está com elas. Eles as está levando para os Irmãos do Silêncio agora — Robert enfiou as luvas no bolso e olhou de soslaio para Diana. — Vale mencionar que pensei em sua solicitação e acredito que uma reunião do Conselho sobre os problemas da Tropa e do mensageiro das Fadas seria útil.
Ele inclinou a cabeça para Diana numa despedida e deixou o cômodo.
— É melhor que ele traga Manuel e os outros — falou Jia em voz baixa. — Eles não podem negar o que viram, se chegar a esse ponto.
Diana se levantou da cadeira.
— O que você acha que eles viram?
— Eu não sei — falou Jia com sinceridade. — Você tentou usar sua lâmina serafim ou Marca quando estava na floresta?
Diana balançou a cabeça. Ela não revelaria a Jia o que estivera fazendo em Brocelind ao amanhecer, certamente não que estivera num quase-encontro com uma fada, ainda por cima usando pijamas.
— Você vai argumentar que isto é um sinal de incursão da Corte Unseelie em nossas terras — falou Jia.
— Kieran disse que o Rei Unseelie não ia parar nas próprias terras. Que ele viria até as nossas. Por isso precisamos da ajuda da Rainha Seelie.
Diana sabia que isso era possível se eles encontrassem o Volume Negro, embora não o tivesse dito a Jia. Livrar-se da Tropa era importante demais.
— Eu li o arquivo que você me deu — emendou ela. — Acho que talvez você tenha se esquecido de retirar alguns papéis sobre o histórico de Zara.
— Oh céus — falou Jia, sem inflexão.
— Você me deu aquela papelada porque sabia que era verdade — retrucou Diana. — Que Zara mentiu para o Conselho. Que se ela é considerada uma heroína, é por causa daquelas mentiras.
— Você pode provar isso? — Jia tinha ido até a janela. A forte luz do sol iluminava as rugas em seu rosto.
— Você pode?
— Não — respondeu Jia, ainda olhando através da vidraça. — Mas posso lhe dizer uma coisa que eu não deveria. Eu falei de Aline e Helen e do que elas sabem. Algum tempo atrás, elas informaram que viram alguma coisa perturbando os mapas de Alicante, na região de Brocelind. Uma coisa muito estranha, pontos escuros, como se as próprias árvores estivessem praticando magia do mal. Nós cavalgamos por lá, mas não vimos nada... Talvez os trechos ainda não tivessem crescido o suficiente para ficarem visíveis. Foi descartado como sendo um mau funcionamento do equipamento.
— Elas teriam que verificar de novo — falou Diana, mas seu coração estava agitado. Mais uma prova de que o Rei Unseelie era uma ameaça. Um perigo claro e presente em Idris. — Se os locais escuros corresponderem às áreas da praga, então elas devem vir para testemunhar... para mostrar à Clave...
— Devagar, Diana — falou Jia. — Andei pensando um bocado em você. Sei que há coisas que não está me contando. Razões pelas quais você sabe tanto sobre os planos do Rei Unseelie. Desde a primeira vez que convidei Julian Blackthorn e Emma Carstairs para meu escritório, eles me confundiram e esconderam coisas da Clave. Assim como você está escondendo coisas agora — ela tocou a vidraça com os dedos. — Mas estou cansada. Da Paz Fria, que afasta minha filha de mim. Da Tropa e do clima de ódio que eles criam. O que você me oferece é um fio frágil para amarrar todas as nossas esperanças.
— Mas é melhor do que nada — falou Diana.
— Sim — Jia se virou para ela outra vez. — É melhor do que nada.
Quando Diana saiu do Gard, alguns minutos depois, rumo à luz cinza e branca do dia, estava tomada pelo ânimo. Ela conseguira. Ia haver uma reunião; Kieran testemunharia; eles teriam chance de recuperar o Instituto e talvez esmagar a Tropa.
Ela pensou em Emma e Julian e no Volume Negro. Tanto peso em umbros tão jovens sendo forçados a suportá-los. Ela se lembrou dos dois quando eram crianças, no Salão dos Acordos, suas espadas desembainhadas enquanto eles circulavam os Blackthorn menores, prontos a morrer por eles.
De soslaio, ela notou um brilho forte por um instante. Alguma coisa caiu ao chão aos seus pés. Ela ouviu algo esvoaçando acima, uma perturbação entre as nuvens pesadas. Ao se abaixar e rapidamente guardar no bolso a pequena bolota oca, ela já sabia de quem era a mensagem.
Ainda assim, esperou até metade do caminho até Alicante para ler. Gwyn devia ter alguma coisa séria a dizer para levar uma mensagem até ela no meio do dia, mesmo sob o disfarce da nuvem.
Dentro da bolota havia um pedaço de papel minúsculo com os seguintes dizeres:

Venha ao meu encontro agora, fora dos muros da cidade. É importante. As crianças Blackthorn estão em perigo.

Jogando fora a bolota, Diana desceu correndo a colina.


A chuva começou assim que Julian e Emma voltaram da Igreja em Porthallow, em silêncio. Ele parecia se lembrar perfeitamente do caminho, cortando através dos promontórios numa trilha que os conduziu diretamente para Warren.
Os banhistas na doca e nas piscinas sob Chapel Rock se apressavam para recolher suas coisas às primeiras gotas; as mães vestiam as roupas nas crianças relutantes em seus pequeninos trajes de banho; toalhas em cores fortes eram dobradas e os guarda-sóis, recolhidos.
Emma se lembrou de como seu pai adorava tempestades na praia. Ela se recordou dos momentos nos braços dele quando os trovões ribombavam acima da Baia de Santa Monica e ele lhe dizia que, quando os relâmpagos atingiam a praia, transformavam a areia em vidro.
Ela ouvia o rugido neste momento, mais alto do que o som do mar quando se erguia e começava a bater nas pedras dos lados do porto. Mais alto do que a própria respiração enquanto ela e Jules corriam pela trilha molhada e escorregadia até o chalé e entravam no exato instante em que o céu se abria e a água descia como a enxurrada de uma represa rachada.
Tudo dentro do chalé parecia quase assustador em sua mediocridade. A chaleira silenciosa no fogão. Xícaras canecas de café pratos vazios espalhados pelo tapete de retalhos diante lareira. O moletom de Julian estava no chão, no mesmo local onde Emma o afofara e transformara em travesseiro na noite anterior.
— Emma? — Julian estava encostado na bancada da cozinha. Gotas de água salpicavam seu rosto e o cabelo estava cacheando do jeito que sempre acontecia quando estava úmido ou molhado. Ele tinha a expressão de alguém preparado para ouvir algo ruim, algum tipo de notícia horrível. — Você não disse nada desde que saímos da igreja.
— Você está apaixonado por mim — falou Emma. — Ainda.
O que quer que ele estivesse esperando, não tinha sido isso. Ele estava abrindo o zíper do casaco e suas mãos congelaram no meio do gesto, os dedos ainda esticados. Ela viu o movimento da garganta quando ele engoliu seco e ele falou:
— Do que você está falando?
— Eu pensei que você não me amasse mais — falou ela, tirando o casaco e esticando o braço para pendurá-lo junto a porta, mas as mãos tremiam tanto que a roupa caiu no chão. — Mas isso não é verdade, é?
Ela o ouviu inspirar fundo, lentamente.
— Por que está dizendo isso? Por que agora?
— Por causa da igreja. Por causa do que aconteceu. Nós incendiamos uma igreja, Julian, nós derretemos pedra.
Ele abriu o zíper com um puxão violento e jogou o casaco, com um estrondo no armário da cozinha. Por baixo do agasalho, a camisa estava úmida com suor e chuva.
— O que tem a ver com alguma coisa?
— Tem tudo a ver com... — ela se calou, sua voz estava muito trêmula. — Eu não entendo. Você não pode.
— Você tem razão — ele se afastou dela, deu meia volta e de repente chutou com violência uma das canecas no chão. A louça voou e se espatifou com a parede. — Eu não entendo. Eu não entendo nada disso. Emma, não entendo por que, de repente, você decidiu que não me queria, que queria Mark, depois decidiu que não queria ele também e você o dispensou como se ele fosse um nada, na frente de todo mundo. Que diabos você está pensando...
— E por que você se importa? — ela quis saber. — Por que você se importa com meus sentimentos em relação a Mark?
— Por que eu precisava que você o amasse — falou Julian. Seu rosto tinha cor das cinzas na lareira. — Por que se você me jogou fora e jogou fora tudo o que tínhamos, era melhor que fosse por alguma coisa que significava mais para você, era melhor que fosse por alguma coisa real, mas talvez nada disso seja real para você...
— Não é real para mim? — A voz de Emma saiu com tanta força que sua garganta doeu. Era como se houvesse faíscas elétricas correndo sob suas veias e lhe dando choques, levando sua raiva a níveis cada vez mais altos e ela não estava zangada com Jules, ela estava zangada consigo mesma, estava zangada com o mundo por fazer isso com eles, por fazer dela a única a saber, a guardiã de um segredo pernicioso, que a envenenava. — Você não sabe do que está falando, Julian Blackthorn! Você não sabe do que abri mãos, quais são minhas razões para qualquer coisa, você não sabe o que estou tentando fazer...
— O que você está tentando fazer? E quanto ao que você fez? E quanto a você partir meu coração, o de Cameron e o de Mark? — ele fez uma careta. — Ora, será que eu estou me esquecendo de alguém, outra pessoa cuja vida você quer destruir para sempre?
— Sua vida não está destruída. Você está vivo. Você pode ter uma boa vida. Você beijou aquela garota fada...
— Ela era uma leanansidhe! Uma transformadora! Eu pensei que ela fosse você!
— Oh. — Emma ficou parada por um momento, travada no meio do gesto. — Oh.
— Sim, oh. Você acha mesmo que eu ia me apaixonar por outra pessoa? — quis saber Julian. — Você achou que consigo fazer isso? Eu não sou você, eu não me apaixono toda semana por alguém diferente. Eu queria que não fosse você Emma, mas é, sempre será você, então não me diga que minha vida não está destruída quando você não sabe nada sobre isso!
Emma socou a parede. O gesso rachou num zigue-zague a partir do ponto de impacto. Ela sentiu a dor muito distante. Uma onda negra e turbulenta de desespero se ergueu, ameaçando dominá-la.
— O que você quer de mim, Jules? — perguntou. — O que você quer que eu faça?
Julian deu um passo para frente; era como se seu rosto tivesse sido entalhado em mármore ou alguma coisa ainda mais dura, ainda mais inflexível.
— O que eu quero? — repetiu ele. — Quero que você saiba como é. Como é ser torturado o tempo todo, noite e dia, desejando desesperadamente o que você sabe que nunca deveria desejar, aquilo que sequer deseja você de volta. Saber como é entender que uma decisão tomada quando você tinha 12 anos significa que você nunca pode ter a única coisa que realmente te faria feliz. Eu quero que você sonhe com apenas uma coisa e deseje só uma coisa e fique obcecada com uma única coisa assim como eu...
— Julian... — arquejou ela, desesperada para fazê-lo para, para fazê-lo para antes que fosse tarde demais.
— ... assim como eu me sinto em relação a você! — concluiu ele, as palavras cuspidas de modo quase selvagem. — Assim como me sinto em relação a você, Emma. — A raiva parecia ter abandonado o corpo dele; em vez disso, agora Julian tremia, como se incapaz de controlar o choque. — Eu pensei que você me amasse — falou, quase num sussurro. — Eu não sei como pude me enganar tanto.
O coração de Emma se partiu. Ela deu meia-volta, afastando-se do campo de visão dele, longe da destruição de todos os planos cuidadosamente construídos. Ela agarrou a porta aberta e ouvia Julian chamar seu nome, mas já havia precipitado para fora do chalé, no meio da tempestade.

3 comentários:

  1. FINALMENTE eles tiveram um conversa direta sobre o assunto...achei que ia passar o livro todo sem isso acontecer

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  2. COMO ELE NÃO PERCEBE QUE ELA TAMBÉM AMA ELE? E POR QUE ELA NÃO PODIA GRITAR ALGO COMO "Eu nunca amei o Mark! Eu só queria te esquecer e ele sabia disso!"

    Isso é igual minha vida amorosa, tirando a parte onde é correspondido... O Julian me representa.

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  3. A Emma é muito forte, caramba.
    Ela sabe que se falar que ame ele ou disser que nunca amou o Mark, o Julian vai querer mais, vai querer saber o porquê... E ela não pode dizer. Se bem que por quê não explica pra ele? Será que a Rainha Seelie não disse pra ele como quebrar a maldição?

    #MEDO PELA EMMA E OS BLACKTHORN!😱

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Boa leitura :)