20 de novembro de 2017

Capítulo 22

O velho estava de costas para Arthur, contemplando os últimos vestígios de luz que desapareciam no horizonte. Era um velho alto, que trajava uma longa túnica cinzenta. Quando se virou, revelou um rosto fino e nobre, envelhecido porém bondoso, o tipo de rosto que você gosta de ver no gerente do seu banco. Mas ele não se virou nem mesmo quando Arthur soltou uma interjeição de espanto.
Por fim, os últimos raios de luz morreram completamente, e só então ele se virou. Seu rosto ainda estava iluminado por alguma luz, e, quando Arthur procurou a fonte de onde ela vinha, viu que a alguns metros dali havia uma pequena nave, uma espécie de pequeno hovercraft. A seu redor havia um pálido círculo de luz.
O homem olhou para Arthur, com um olhar aparentemente triste.
— Você escolheu uma noite fria para visitar nosso planeta morto — disse ele. Quem... quem é você? — gaguejou Arthur.
O homem virou o rosto. Novamente surgiu uma expressão de tristeza em sua fisionomia.
— Meu nome não é importante — disse.
Parecia estar pensando em alguma coisa. Pelo visto, não estava com pressa de começar a conversa.
Arthur sentiu-se pouco à vontade.
— Eu... aaah... o senhor me deu um susto — disse, por falta do que dizer.
O homem virou-se e olhou para ele de novo, arqueando de leve as sobrancelhas. — Hum?
— Eu disse que o senhor me assustou.
— Não tenha medo, não vou lhe fazer mal.
Arthur franziu a testa.
— Mas o senhor nos atacou! Os mísseis...
O homem olhou para o centro da cratera. A luzinha fraca que saía dos olhos de Marvin projetava débeis sombras vermelhas sobre a enorme carcaça da baleia.
O homem deu uma risadinha.
— É um sistema automático — disse, e suspirou. — Há milênios que esses computadores funcionam no interior do planeta, e seus empoeirados bancos de dados aguardam há muitas eras algum acontecimento. Acho que de vez em quando eles soltam um míssil só pra quebrar a monotonia. — Dirigiu um olhar sério a Arthur e acrescentou: — Eu gosto muito de ciência, sabe.
— Ah... é mesmo? — perguntou Arthur, que estava começando a ficar desconcertado com o jeito cortês e curioso do velho.
— Gosto, sim — respondeu o velho, e calou-se de novo.
— Ah... — disse Arthur. — É... — Sentia-se como um homem que, apanhado em flagrante de adultério, quando o marido da amante entra no quarto, vê o marido mudar as calças, comentar o tempo que está fazendo e ir embora.
— Você parece desconcertado — disse o homem, atencioso.
— Não, quero dizer... é, estou, sim. O senhor sabe, é que a gente não esperava encontrar ninguém aqui. Eu pensava que vocês todos já tinham morrido, sei lá...
— Morrido? — disse o velho. — Não, que ideia! Estávamos apenas dormindo.
— Dormindo? — exclamou Arthur, surpreso.
— É, por causa da recessão econômica, sabe — disse o velho, aparentemente pouco ligando se Arthur entendia o que ele estava dizendo ou não.
Arthur foi obrigado a perguntar:
 — Ah... recessão econômica?
— Bem, há uns cinco milhões de anos a economia galáctica entrou em crise, e como os planetas sob medida são um luxo supérfluo, você entende...
Fez uma pausa e olhou para Arthur.
— Você sabe que a gente construía planetas, não sabe?
— Ah, claro — disse Arthur. — Era o que eu imaginava...
— Uma atividade fascinante — disse o velho, com um olhar nostálgico. — O que eu preferia era fazer os litorais. Como eu me divertia, caprichando nos fiordes... Mas, como eu ia dizendo — disse ele, tentando retomar o fio da meada —, veio a recessão e resolvemos que o melhor a fazer seria dormir por uns tempos. Assim, programamos os computadores para nos acordarem quando tudo tivesse voltado ao normal. — O velho sufocou um leve bocejo e prosseguiu: — Os computadores estavam ligados à bolsa de valores da Galáxia, de modo que seríamos acordados quando a economia já tivesse recuperado o bastante para as pessoas voltarem a se interessar por nossos produtos, que são um tanto caros.
Arthur, que lia The Guardian regularmente, ficou muito chocado.
— Mas isso é um comportamento imperdoável, não acha?
— Você acha? — perguntou o velho, cortês. — Desculpe, ando meio desatualizado. — Apontou para o fundo da cratera. — Aquele robô é seu?
— Não — respondeu uma vozinha metálica, vindo do fundo da cratera. — Sou meu, mesmo.
— Se é que isso é um robô — murmurou Arthur. — É mais uma espécie de gerador eletrônico de mau humor.
— Traga-o aqui — disse o homem, surpreendendo Arthur com o tom de voz autoritário que de repente surgiu em sua voz. Arthur chamou Marvin, que subiu à borda da cratera mancando ostensivamente, embora não fosse manco.
— Pensando bem — disse o velho —, é melhor deixá-lo aí. Venha comigo. Coisas importantes estão acontecendo.
Virou-se para seu veículo, o qual, embora aparentemente o velho não tivesse feito nenhum sinal para ele, vinha deslizando silenciosamente na direção deles, na escuridão.
Arthur olhou para Marvin, que agora ostensivamente virou-se com dificuldade e começou a descer de volta para o centro da cratera, resmungando.
— Venha — disse o velho. — Venha logo, senão você chegará tarde.
— Tarde? — exclamou Arthur. — Tarde pra quê?
— Como você se chama, humano?
— Dent. Arthur Dent.
 — Tarde, como em “tarde demais”, Dentarthurdent — disse o velho, friamente. — É uma espécie de ameaça. — Novamente seus olhos cansados assumiram uma expressão melancólica. — Nunca fui muito bom em matéria de ameaças, mas dizem que às vezes ameaçar funciona, mesmo.
Arthur arregalou os olhos.
— Que criatura extraordinária — murmurou.
— Como? — perguntou o velho.
— Ah, nada, desculpe — disse Arthur, sem jeito. — Bem, para onde vamos?
— Vamos pegar meu aeromóvel — disse o velho, fazendo sinal para que Arthur entrasse no veículo, que já estava parado a seu lado. — Vamos nos aprofundar no interior deste planeta, onde nesse exato momento nossa espécie está despertando após um sono de cinco milhões de anos. Magrathea está acordando.
Arthur estremeceu sem querer, ao sentar-se ao lado do velho. Perturbava-o a estranheza do movimento daquele veículo, que balançava de leve ao elevar-se no ar.
Arthur olhou para o velho, cujo rosto estava iluminado pelas luzinhas do painel de controle.
— Desculpe — perguntou —, mas qual é seu nome mesmo?
— Meu nome? — disse o velho, e a mesma tristeza nostálgica apareceu em seu rosto. Fez uma pausa. — Meu nome... é Slartibartfast.
Arthur quase se engasgou.
Como?
— Slartibartfast — repetiu o velho, tranquilo.
— Slartibartfast?
O velho dirigiu-lhe um olhar sério.
— Eu disse que meu nome não era importante. O aeromóvel singrou o céu escuro.

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