15 de novembro de 2017

Capítulo 22

Liv encontra Mo na St Pancras às cinco e meia da tarde, e, ao vê-la acenando laconicamente com um cigarro na mão em frente a um café, percebe que está quase aliviada com a perspectiva de passar dois dias fora. Dois dias longe do silêncio mortal da Casa de Vidro. Dois dias longe do telefone, que ela passou a considerar praticamente radioativo: quatorze jornalistas diferentes já deixaram mensagens de graus variados de simpatia em sua secretária eletrônica. Dois dias longe de Paul, cuja própria existência lhe lembra de tudo que ela entendeu mal.
Na noite anterior, ela contara seu plano a Sven, e ele dissera imediatamente:
— Você pode arcar com essa despesa?
— Posso arcar com qualquer despesa. Hipotequei de novo a casa.
O silêncio dele foi pungente.
— Tive que fazer isso. O escritório de advocacia queria garantias. As custas legais estão comendo tudo. Só o advogado de tribunal lhe custa quinhentas libras por hora, e ele ainda nem se apresentou perante o juiz.
— Ficará tudo bem quando o quadro for meu novamente — diz com esperança.
Àquela hora, Londres está envolvida num nevoeiro de fim de tarde e o sol poente lança reflexos laranja no céu arroxeado.
— Tomara que eu não tenha tirado você de nada — diz ela, ao se instalarem em seus assentos.
— Só do karaokê mensal do Comfort Lodge. — Mo coloca na frente delas uma pilha de revistas e uns chocolates. — E as mudanças de acorde de “We’re Going to Hang Out the Washing on the Siegfried Line” não têm mais surpresas para mim. Então, quem é esse homem que vamos encontrar, e que relação ele tem com o seu caso?
Philippe Bessette é filho de Aurélien Bessette, o irmão caçula de Sophie Lefèvre. Aurélien, explica Liv, morava no Le Coq Rouge nos anos de ocupação. Ele estava presente quando Sophie foi levada e continuou na cidade ainda por muitos anos.
— Ele é o único que poderia saber como o quadro desapareceu. Falei com a diretora do asilo onde ele mora, e ela disse que ele continua bastante lúcido, pode conversar, mas tem que ser pessoalmente, e não por telefone, pois ele é bem surdo.
— Bem, estou feliz por ajudar.
— Obrigada.
— Mas você sabe que eu não falo bem francês.
Liv vira a cabeça. Mo está servindo vinho de uma garrafinha em dois copos de plástico.
— O quê?
— Eu não falo francês. Mas sou boa em entender fala enrolada de velho. Talvez consiga pegar alguma coisa.
Liv desaba nas cadeiras.
— Estou brincando, você acredita em tudo.
Mo lhe entrega o vinho e bebe um bom gole.
— Às vezes eu me preocupo com você. De verdade.
Mais tarde, ela pouco se lembra da viagem de trem que fizeram. Elas bebem o vinho, e mais duas garrafinhas enquanto conversam. Aquilo é o que mais se aproxima de uma noitada que ela faz em semanas. Mo fala de seu afastamento dos pais, que não conseguem entender sua falta de ambição, e do lar de idosos, que ela adora.
— Ah, sei que nós, cuidadores, estamos no nível mais baixo de todos, mas os velhos são bons. Tem uns espertíssimos, outros, engraçados. Gosto mais deles do que da maioria das pessoas da nossa idade.
Liv espera o “não estou incluindo você” e tenta não se ofender quando a ressalva não vem. Conta a Mo, finalmente, sobre Paul. E Mo fica calada por um tempo.
— Você dormiu com esse cara sem dar um Google nele? — diz ela, quando recupera a fala. — Ai, meu Deus, quando você disse que finalmente tinha ficado com alguém, eu nem por um minuto pensei... Não se dorme com uma pessoa sem pesquisar os antecedentes. Caramba.
Ela se recosta e reabastece o copo. Só por um instante, parece estranhamente animada.
— Nossa. Acabei de me dar conta de uma coisa: você, Liv Halston, talvez venha a ser a pessoa que teve a Transa Mais Cara da História.

* * *

Elas passam a noite no hotel barato, num bairro da periferia de Paris, onde o banheiro é moldado de uma única peça de plástico amarelo e o xampu é exatamente da mesma cor do detergente para lavar louças. Após um croissant duro e gorduroso e uma xícara de café, elas ligam para o lar de idosos. Liv arruma suas coisas, já sentindo um aperto no estômago de nervoso.
— Bem, melou — diz Mo, ao desligar o telefone.
— O quê?
— Ele não está bem. Não vai receber ninguém hoje.
Liv, que estava se maquiando, olha para ela chocada.
— Você disse a eles que a gente veio de Londres?
— Disse que tínhamos vindo de Sydney. Mas a mulher falou que ele estava fraco e ia só ficar dormindo se a gente fosse lá. Dei a ela o número do meu celular, e ela prometeu ligar se ele melhorar.
— E se ele morrer?
— É um resfriado, Liv.
— Mas ele é idoso.
— Calma. Vamos beber algo e olhar roupas que não temos condições de comprar. Se ela ligar, a gente pode entrar num táxi antes de você poder dizer Gérard Depardieu.
Elas passam a manhã perambulando pelas várias seções das Galeries Lafayette, que estão enfeitadas com bolas e repletas de gente fazendo compras de Natal. Liv tenta se distrair, aproveitar o câmbio, mas está profundamente consciente do preço de tudo. Desde quando duzentas libras é um preço aceitável para uma calça jeans? Será que um hidratante de cem libras realmente elimina as rugas? Ela se vê largando os cabides quase tão depressa quanto os pega.
— A situação está tão ruim assim?
— O advogado que vai me representar no tribunal cobra quinhentas libras por hora.
Mo espera um minuto pela piada que não chega.
— Ai. Espero que esse quadro valha isso — diz ela.
— Henry parece achar que temos uma boa defesa. Diz que nossos advogados falam de um jeito convincente.
— Então, pare de se preocupar, Liv, pelo amor de Deus. Divirta-se um pouco. Vamos, este é o fim de semana em que você vai virar o jogo.
Mas Liv não consegue se divertir. Está lá para conseguir informações de um velho de oitenta anos, que pode ou não ter condições de falar com ela. As sessões no tribunal devem começar na segunda-feira, e ela precisa de um poder de fogo maior do que o que já tem.
— Mo.
— Hum?
Mo está segurando um vestido de seda preta. Fica olhando para as câmeras de segurança de um jeito ligeiramente nervoso.
— Posso sugerir outra coisa?
— Claro. Aonde quer ir? Ao Palais Royal? Ao Marais? Quem sabe a gente podia achar um bar para você dançar se estiver de novo naquela de tentar se encontrar.
Ela saca da bolsa o mapa das ruas e começa a abri-lo.
— Não. Quero ir a St Péronne.

* * *

Elas alugam um carro e seguem para o norte. Como Mo não dirige, Liv pega o volante, obrigando-se a se lembrar de manter-se na mão direita da estrada. Faz anos que não dirige. Sente a aproximação de St Péronne como o rufar distante de um tambor. A periferia leva a terras agrícolas, enormes propriedades industriais, e então, finalmente, quase duas horas depois, à planície do Nordeste.
Elas seguem as placas, perdem-se por um momento, dão marcha a ré e, pouco antes das quatro da tarde, estão descendo devagar a rua principal da cidade. A rua é sossegada, algumas barracas da feira estão sendo desmontadas e há poucas pessoas na praça calçada de pedras cinzentas.
— Estou seca. Sabe onde fica o bar mais próximo?
Elas estacionam, olhando para o hotel na praça. Liv abaixa o vidro e contempla a fachada de tijolos.
— É esse aí.
— É esse aí o quê?
— O Le Coq Rouge. É o hotel em que todos eles moravam.
Ela salta do carro devagar, franzindo o olhar para a placa. Aquilo parece reportar à primeira metade do século XX. As janelas estão pintadas de cores vivas, as jardineiras, cheias de cíclames de Natal. No suporte de ferro fundido, há uma placa balançando. Pelo arco que leva a um pátio de cascalho, ela vê vários carros caros. Algo dentro dela se contrai de nervoso ou expectativa, ela não sabe o quê.
— Está indicado pelo Michelin. Excelente.
Liv fica olhando para ela.
— Ora. Todo mundo sabe que os restaurantes estrelados do Michelin têm os funcionários mais bonitos.
— E... Ranic?
— Regras estrangeiras. Todo mundo sabe que quando a gente está em outro país, não conta.
Mo entra no bar. Um homem jovem e incrivelmente bonito, com um avental engomado, a cumprimenta. Liv fica ao lado enquanto Mo conversa com ele em francês.
Liv aspira os aromas de comida no fogo, cera de abelha, rosas perfumadas em vasos, e olha para as paredes. Seu quadro morava ali. Quase cem anos antes, A garota que você deixou para trás estava ali, ao lado de quem foi o seu tema. Algo nela espera que o quadro apareça numa parede, como se seu lugar fosse ali.
Ela se vira para Mo.
— Pergunte a ele se os Bessette ainda são donos deste hotel.
— Bessette? Non.
— Não. Pertence a um letão, aparentemente. Ele tem uma cadeia de hotéis.
Ela fica desapontada. Imagina o bar cheio de alemães, a garota ruiva atarefada atrás do balcão, o olhar ressentido.
— Será que ele sabe da história do bar? — Ela tira a fotocópia da bolsa e mostra-a.
Mo repete a pergunta num francês fluente. O barman se debruça, dá de ombros.
— Ele só trabalha aqui desde agosto. Diz que não sabe de nada.
O barman torna a falar, e Mo acrescenta:
— Ele diz que ela é uma moça bonita. — Levanta os olhos para o céu. — E que você é a segunda pessoa a fazer essas perguntas.
— O quê?
— Foi o que ele disse.
— Pergunte a ele como era o homem.
Ele nem precisava dizer. Trinta e tantos anos, cerca de um metro e oitenta, fios precocemente grisalhos no cabelo curto.
— Comme un gendarme. Deixou o cartão dele — diz o garçom, e o entrega a Liv.

Paul McCafferty
Diretor, TARP

É como se ela tivesse entrado em combustão interna. De novo? Até aqui você chegou antes de mim? Ela tem a sensação de que ele está zombando dela.
— Posso ficar com isto? — pergunta.
— Mais bien sûr. — O garçom dá de ombros. — Querem que eu lhes arrume uma mesa, mesdames?
Liv cora. Não podemos pagar.
Mas Mo indica que sim com a cabeça, lendo o menu.
— Sim. É Natal. Vamos fazer uma única refeição incrível.
— Mas...
— Eu convido. Passo a vida servindo comida para os outros. Se vou cometer uma extravagância, vai ser aqui, num restaurante estrelado do Michelin, cercado de Jean-Pierres bonitos. Eu mereço isso. E, vamos combinar, eu devo uma a você.
Elas comem no restaurante. Mo não para de falar, flerta com a equipe de garçons, exclama de uma maneira que não é típica dela ao ver cada prato, queima de maneira ritualística o cartão de visitas de Paul na vela branca alta.
Liv tenta parecer envolvida. A comida está deliciosa, sim. Os garçons são atenciosos, competentes. É comida nirvana, como Mo diz. Mas, enquanto ela está ali sentada no restaurante lotado, algo estranho acontece: ela não consegue enxergá-lo apenas como uma sala de jantar. Vê Sophie Lefèvre no bar, ouve o eco das botas dos alemães batendo nas tábuas antigas de olmo do assoalho. Vê o fogo de lenha na grade, ouve as tropas marchando, o rugido distante dos canhões. Vê a calçada lá fora, uma mulher sendo arrastada para um caminhão militar, uma irmã chorando, a cabeça inclinada neste mesmo bar, prostrada de dor.
— É só um quadro — diz Mo de um jeito meio impaciente quando Liv rejeita o fondant de chocolate e confessa o que está pensando.
— Eu sei.
Quando elas finalmente voltam para o hotel, ela leva a pasta de documentos para o banheiro de plástico e, enquanto Mo dorme, Liv lê e relê à luz fria da lâmpada fluorescente, tentando descobrir o que deixou de ver.

* * *

Domingo pela manhã, quando Liv já roeu quase todas as unhas, a diretora do lar de idosos telefona. Ela lhes dá um endereço a nordeste da cidade, e Liv e Mo se dirigem para lá no pequeno carro alugado, brigando com as ruas desconhecidas, a boulevard Périphérique engarrafada. Mo, que bebera quase duas garrafas de vinho na véspera, está desanimada e sensível. Liv também está calada, exausta em função da falta de sono, mil perguntas lhe passando pela cabeça.
Ela de certa forma esperara uma construção deprimente. Um caixote dos anos 1970 de tijolos cor marrom com janelas de PVC e um estacionamento em ordem. Mas o prédio diante do qual estacionam é uma casa de quatro andares, com janelas elegantes, emolduradas por venezianas, e a fachada coberta de hera. É cercado de jardins bem cuidados, com um portão de duas folhas de ferro fundido e caminhos calçados que conduzem a áreas isoladas delimitadas.
Liv toca a campainha e aguarda enquanto Mo retoca o batom.
— Quem é você? — diz Liv, observando-a. — Anna Nicole Smith?
Mo cai na gargalhada, e a tensão se dissipa.
Elas ficam alguns minutos em pé na recepção até que lhes deem alguma atenção. Pelas portas de vidro à esquerda, ouvem um coro de vozes trêmulas, acompanhadas por um órgão elétrico tocado por uma jovem de cabelos curtos. Numa pequena sala, duas mulheres de meia-idade trabalham num gráfico. Finalmente uma delas se vira.
— Bonjour.
— Bonjour — diz Mo. — Estamos aqui por quem mesmo?
— Monsieur Bessette.
Mo fala com a mulher num francês impecável.
Ela faz um movimento positivo com a cabeça.
— Inglesas?
— Sim.
— Por favor. Assinem o livro de registro. Lavem as mãos. Depois venham por aqui.
Elas assinam o livro, depois a mulher lhes aponta um dosador de líquido bactericida, que elas esfregam ostensivamente em todos os dedos.
— Lugar simpático — murmura Mo, com ar de entendida.
Então, elas acompanham o passo enérgico da mulher por um labirinto de corredores até chegarem a uma porta entreaberta.
— Monsieur? Vous avez des visiteurs.
Elas aguardam sem jeito à porta enquanto a mulher entra e mantém um diálogo em velocidade de metralhadora com o que parece o espaldar de uma poltrona. E depois sai.
— Podem entrar — diz. E em seguida: — Espero que tenham algo para ele.
— A diretora disse que eu devia lhe trazer uns macarons.
Ela olha para a caixa luxuosamente embrulhada que Liv tira da bolsa.
— Ah, oui — diz e dá um sorrisinho. — Desses ele gosta.
— Antes das cinco, já estarão na sala dos funcionários — murmura Mo quando ela sai.
Philippe Bessette está sentado numa bergère, olhando para um pequeno pátio com um chafariz. Um balão de oxigênio em cima de um carrinho liga-se a um pequeno tubo preso à sua narina. Seu rosto é pálido, enrugado, como se tivesse murchado; a pele, transparente em alguns lugares, revela o delicado traçado das veias. Ele tem uma vasta cabeleira branca, e o movimento de seus olhos sugere algo mais vivo do que o que os rodeia.
Elas dão a volta na cadeira, colocando-se diante dele, e Mo se abaixa, diminuindo a diferença de altura. Parece sentir-se logo em casa, pensa Liv. Como se já estivesse enturmada.
— Bonjour — diz ela e faz as apresentações. Apertam-se as mãos, e Liv oferece os macarons. Ele as observa por um instante, depois dá um tapinha na tampa da caixa. Liv a abre e lhe oferece a bandeja. Ele faz um gesto para ela se servir primeiro, e, quando ela declina, ele escolhe um e aguarda.
— Talvez ele precise que você ponha o doce na boca dele — murmura Mo.
Liv hesita, depois oferece o macaron. Bessette abre a boca como um filhote de passarinho, depois a fecha, cerrando os olhos enquanto se permite saborear a iguaria.
— Diga a ele que gostaríamos de lhe fazer umas perguntas sobre a família de Édouard Lefèvre.
Bessette ouve, e suspira alto.
— O senhor conheceu Édouard Lefèvre?
Ela aguarda enquanto Mo traduz.
— Eu nunca estive com ele.
Ele fala devagar, como se as próprias palavras fossem um esforço.
— Mas seu pai, Aurélien, o conhecia?
— Meu pai esteve com ele em várias ocasiões.
— Seu pai morava em St Péronne?
— Toda a minha família morava em St Péronne, até os meus onze anos. Minha tia Hélène morava no hotel, meu pai, em cima do tabac.
— Estivemos no hotel ontem à noite — diz Liv. Mas ele não parece registrar. Ela mostra a fotocópia. — Seu pai alguma vez mencionou este quadro?
Ele olha para a garota.
— Aparentemente, o quadro estava no Le Coq Rouge, mas desapareceu. Estamos tentando descobrir mais coisas sobre a história dele.
— Sophie — diz ele afinal.
— Sim — diz Liv, balançando animadamente a cabeça. — Sophie.
Ela sente um vislumbre de empolgação.
Ele contempla a imagem, com os olhos encovados e remelentos, impenetráveis, como se carregassem as alegrias e as tristezas do passado. Ele pisca, com suas pálpebras enrugadas se fechando em câmera lenta, e é como ver uma estranha criatura pré-histórica. Finalmente, ele levanta a cabeça.
— Não posso lhes contar. Não nos incentivavam a falar dela.
Liv olha para Mo.
— O quê?
— O nome de Sophie... não era mencionado na nossa casa.
Liv pisca.
— Mas... mas ela era sua tia, não é? Era casada com um grande artista.
— Meu pai nunca falava sobre isso.
— Não entendo.
— Nem tudo o que acontece numa família é passível de explicação.
O quarto fica em silêncio. Mo parece sem jeito. Liv tenta mudar de assunto.
— Então... o senhor sabe algo sobre Monsieur Lefèvre?
— Não. Mas tive duas obras dele. Depois que Sophie desapareceu, alguns quadros foram mandados por um marchand de Paris para o hotel. Isso foi algum tempo antes de eu nascer. Como Sophie não estava na cidade, Hélène ficou com dois e deu dois ao meu pai. Ele disse a ela que não queria os quadros, mas, depois que ele morreu, eu os encontrei no nosso sótão. Foi uma grande surpresa quando descobri quanto valiam. Dei um para a minha filha, que mora em Nantes. O outro vendi algum tempo atrás. Com o dinheiro da venda, eu me mantenho aqui. Este é um lugar simpático para se morar. Então... talvez eu ache que o meu relacionamento com a minha tia Sophie fosse bom, apesar de tudo.
Sua expressão se descontrai por um instante.
Liv se inclina para a frente.
— Apesar de tudo?
A expressão do velho é inescrutável. Ela se pergunta, por um instante, se ele cochilou. Mas então ele começa a falar.
— Corria um boato... uma fofoca... em St Péronne, que dizia que minha tia foi colaboracionista. Por isso meu pai não queria que a gente tocasse no nome dela. Era mais fácil agir como se ela não existisse. Nem meu pai nem minha tia falavam nela quando eu era menino.
— Colaboracionista? Tipo espiã?
Ele aguarda um instante antes de responder.
— Não. Que a relação dela com os ocupantes alemães não era... correta. — Ele olha para as duas. — Foi muito doloroso para nossa família. Se vocês não viveram essa época, se não são de uma família que veio de uma cidade pequena, vocês não podem entender como era para nós. Nada de cartas, nada de imagens, nada de fotografias. A partir do momento em que foi levada, minha tia deixou de existir para meu pai. Ele era... — o velho suspira — um homem implacável. Infelizmente, o resto da família também resolveu apagá-la da nossa história.
— Até a irmã?
— Até Hélène.
Liv está pasma. Durante muito tempo considerou Sophie uma dessas grandes sobreviventes, com aquela expressão triunfante, a adoração pelo marido estampada no rosto. Ela se esforça para conciliar a sua Sophie com a imagem dessa mulher não amada, descartada.
Há um mundo de dor na respiração longa e cansada do velho. Liv de repente se sente culpada por ter feito com que ele revivesse aquela história.
— Sinto muito — fala, sem saber o que mais dizer.
Vê que agora elas não vão conseguir nada. Não admira que Paul não tenha se dado o trabalho de ir até ali.
O silêncio se estende. Mo furtivamente come um macaron. Quando Liv ergue os olhos, Philippe Bessette está olhando para ela.
— Obrigada por nos receber, Monsieur. — Toca no braço dele. — Acho difícil associar a mulher que o senhor descreve com a que eu vejo. Eu... tenho o retrato dela. Sempre adorei esse retrato.
Ele levanta um pouco a cabeça. Olha para ela fixamente enquanto Mo traduz.
— Eu sinceramente achava que ela era uma pessoa que se sentia amada. Ela parecia ter coragem.
A enfermeira aparece à porta, observando. Atrás dela, uma mulher com um carrinho olha para dentro com impaciência. Um cheiro de comida penetra no quarto.
Ela se levanta para sair. Mas, aí, Bessette levanta a mão.
— Espere — diz ele, apontando com o indicador para uma estante. — A vermelha.
Liv corre o dedo pelas lombadas até ele fazer que sim com a cabeça. Ela puxa uma pasta surrada da prateleira.
— Esses papéis eram da minha tia Sophie, a correspondência dela. Tem um pouco sobre a relação dela com Édouard Lefèvre, coisas que estavam escondidas e descobriram pelo quarto dela. Nada sobre seu quadro, ao que me lembre. Mas isso pode lhe dar uma imagem mais clara dela. Numa época em que o nome dela estava sendo denegrido essas cartas me revelaram a minha tia como... humana. Um ser humano maravilhoso.
Liv abre a pasta com cuidado. Há cartões-postais, cartas frágeis, pequenos desenhos guardados lá dentro. Ela vê uma letra sinuosa num pedaço de papel frágil, a assinatura de Sophie. Ela fica engasgada.
— Achei isso nas coisas do meu pai depois que ele morreu. Ele contou a Hélène que tinha queimado tudo. Ela foi para o túmulo achando que tudo de Sophie estava destruído. Este é o tipo de homem que ele era.
Ela não consegue tirar os olhos das cartas.
— Vou copiá-las e devolvê-las imediatamente ao senhor — gagueja.
Ele faz um gesto de desdém com a mão.
— Para que eu quero isso? Já não consigo ler.
— Monsieur, tenho que perguntar. Não entendo. Com certeza a família Lefèvre haveria de querer ver esse material todo.
— Sim.
Ela e Mo se entreolham.
— Então, por que não entrega a eles?
Um véu parece baixar sobre os olhos do velho.
— Foi a primeira vez que eles me visitaram. O que eu sabia sobre o quadro? Será que eu tinha algo para ajudá-los? Perguntas, perguntas... — Ele balança a cabeça, levantando a voz. — Nunca estiveram interessados em Sophie. Por que devem lucrar às custas dela agora? A família de Édouard não se interessa por ninguém a não ser eles. É só dinheiro, dinheiro, dinheiro. Eu ficaria feliz se eles perdessem a ação.
Sua expressão é obstinada. A conversa está aparentemente encerrada. A enfermeira ronda a porta, sinalizando em silêncio com o relógio. Liv sabe que elas já ficaram mais tempo do que deveriam. Ela alcança seu casaco.
— Monsieur, sabe algo do que aconteceu com sua tia Sophie depois que ela saiu do hotel? Alguma vez descobriu?
Ele olha para o retrato e pousa a mão ali. Seu suspiro vem lá do fundo.
— Ela foi presa e levada pelos alemães para os campos de prisioneiros. E, como tantos outros, desde o dia em que ela foi embora, minha família nunca mais a viu nem soube dela.

2 comentários:

  1. O quadro era de Sophia, então ele como sobrinho também tinha direito de requer o quadro para si.

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  2. Claro, tanto quanto os Lefévre... Amando esse livro, já contive as lágrimas algumas vezes...

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Boa leitura :)