30 de novembro de 2017

Capítulo 22 - O mais maldito

Quando Emma acordou na manhã seguinte, descobriu que não se atara em um nó com Julian enquanto dormia. Já era um progresso. Talvez porque ela tivesse passado a noite inteira tendo pesadelos nos quais via o pai outra vez, aí ele removia o rosto e revelava, por baixo, Sebastian Morgenstern.
Luke, eu sou seu pai — murmurou ela, e ouviu Julian rindo baixinho. Ela cambaleou para fora da cama para procurar seu uniforme, de modo que não tivesse que vê-lo acordando daquele jeito adorável, com olhos sonolentos e cabelos bagunçados. Ela se vestiu no escritório enquanto Julian tomava banho e se arrumava; eles se encontraram para um café da manhã rápido constituído de torrada e suco, e partiram para encontrar Annabel.
Era quase meio-dia e o sol estava alto no céu quando eles chegaram à Igreja de Porthallow — aparentemente, o conceito de perto para as pixies não era exatamente o que os humanos chamavam de “arredores. No entanto, Emma continuava a ouvir a voz alta da pixie em sua mente. Muito, muito perto, tinha dito. Não importava, ela não gostara nem um pouco de como soara aos seus ouvidos.
A igreja tinha sido construída sobre um penhasco acima de um promontório. O mar se estendia ao longe, um carpete de azul fosco. Nuvens, que pareciam pintadas, cruzaram o céu como uma bola de algodão que alguém tivesse partido e espalhado. O ar estava tomado pelo zumbido de abelhas e pelo perfume de folhas silvestres tardias.
A região ao redor da igreja tinha crescido demais, mas o edifício propriamente dito estava bem conservado, apesar de abandonado. As janelas tinham sido cuidadosamente pregadas com tábuas de madeira e um aviso — MANTENHA DISTÂNCIA: PROPRIEDADE PARTICULAR – ENTRADA PROIBIDA — estava pregado na porta da frente. A uma pequena distância da igreja havia um cemitério, mal se viam suas lápides cinzentas e desbotadas pela chuva em meio à grama comprida. Emma ajeitou Cortana nas costas e olhou para Julian, que franzia a testa para o celular dela.
— O que você está olhando? — perguntou ela.
— Wikipédia. “A Igreja de Porthallow se localiza acima do mar, no topo do penhasco em Talland, próximo a Polperro, na Cornualha. Segundo relatos, o altar da igreja data da época do Rei Marcos, da história de Tristão e Isolda, e foi construída na junção de Lihas Ley.”
— A Wikipédia sabe sobre Linhas Ley? — Emma pegou o telefone de volta.
— A Wikipédia sabe de tudo. Ela bem que poderia ser administrada por feiticeiros.
— Você acha que é isso que eles fazem o dia todo no Labirinto Espiral? Administrar a Wikipédia?
— Admito que é meio decepcionante.
Emma enfiou o celular no bolso e apontou para a igreja.
— Então isto é outra convergência?
Julian balançou a cabeça.
— Uma convergência é onde todas as Linhas Ley na região de conectam. Isto é uma junção: duas linhas Ley se cruzando. Ainda é um local poderoso — sob a forte luz do sol, ele tirou uma lâmina serafim do cinto, segurando-a junto à lateral do corpo conforme eles se aproximavam da entrada da igreja.
— Você sabe o que vai dizer a Annabel? — murmurou Emma.
— Não faço ideia — retrucou Julian. — Acho que vou... — Ele se calou. Havia alguma coisa em seus olhos: uma expressão perturbada.
— Tem alguma coisa errada? — perguntou Emma.
Eles tinham se aproximado das portas da igreja.
— Não — falou Julian, após um longo momento, e embora Emma botasse que ele não falava a verdade, deixou para lá. Ela sacou Cortana das costas, para o caso de precisar.
Julian empurrou as portas com o ombro. O pequeno ferrolho que as mantinha fechadas estourou e eles entraram, Julian alguns passos à frente de Emma. Estava um breu lá dentro.
Arariel — murmurou ele, e sua lâmina serafim se iluminou como uma pequena fogueira, clareando o interior.
Uma arcada de pedra se estendia num dos lados da igreja, os bancos aninhados ente os arcos. A pedra era entalhada com delicados desenhos de folhas. A neve e o transepto, onde o altar costumava ficar, estavam em profunda sombra.
Emma ouviu Julian respirando fundo.
— Foi aqui que Malcolm ressuscitou Annabel — falou ele. — Eu me lembro por causa do cristal da vidência. Foi aqui que Arthur morreu.
— Tem certeza?
— Sim. — Julian abaixou a cabeça. — Ave atque vale, Arthur Blackthorn. — Sua voz estava cheia de tristeza. — Você morreu bravamente e pela sua família.
— Jules... — Ela quis esticar a mão e tocá-lo, mas ele já havia se endireitado; qualquer tristeza que tivesse sentido agora estava disfarçada  sob a capa de Nephilim.
— Não sei por que Annabel iria querer ficar aqui — falou ele, iluminando o interior da igreja com a luz de sua lâmina serafim. Estava cheio de poeira. — Não pode ser um lugar com boas lembranças para ela.
— Mas se ela estiver desesperada por um esconderijo...
— Veja. — Julian apontou o altar, apoiado sobre uma laje de granito com alguns centímetros de espessura. Tinha um tampo de madeira sobre a pedra, e alguma coisa branca reluziu contra a madeira. Um pedaço de papel dobrado, preso por uma faca.
O nome de Julian estava rabiscado nele, com uma letra escura e feminina.
Emma arrancou o papel e o entregou a Jules, que o abriu rapidamente, segurando-o onde ambos pudessem ler sob a luz da lâmina.

Julian,
Você pode considerar isso um teste.  Se estiver aqui, lendo este bilhete, você fracassou.

Emma ouviu Julian prender a respiração. Eles continuaram lendo:

Eu disse às pixies que estava morando aqui, na igreja. Não é verdade. Eu não ficaria onde tanto sangue foi derramado. Mas eu sabia que vocês não deixariam meu paradeiro em paz, que perguntariam às pixies onde eu estava, que iriam procurar por mim.
Apesar de eu ter pedido que não o fizessem.
Agora vocês estão aqui neste lugar. Eu preferiria que não estivesse, pois não fui a única criatura que Malcolm Fade e o sangue de seu tio ressuscitaram. Mas vocês tinham que ver o que o Volume Negro pode fazer.
Annabel


Cristina estava sentada no vão da janela da biblioteca, lendo, quando olhou para fora e viu um vulto escuro e familiar esgueirando-se pelos portões principais.
Ela havia passado horas na biblioteca, estudando obedientemente os livros nos idiomas que sabia melhor: espanhol, grego antigo, castelhano antigo e aramaico, em busca de citações do Volume Negro. Não que tivesse conseguido se concentrar.
Lembranças da noite anterior continuavam a incomodá-la em momentos estranhos, tipo quando ela estava passando o açúcar a Ty e quase o derrubou no seu calo. Será que ela realmente havia beijado Mark? Dançado com Kieran? Gostado de dançar com Kieran?
Não, pensou ela, precisava ser sincera consigo: ela havia gostado, sim. Tinha sido como cavalgar com a Caçada Selvagem. Ela sentira que saíra do próprio corpo, rodopiando em meio às estrelas e nuvens. Fora como nas histórias sobre as festas contadas por sua mãe quando Cristina era pequena, nas quais mortais se perdiam nas danças com as fadas e morriam na bela alegria daquilo.
Claro, depois todos eles simplesmente seguiram para seus respectivos quartos. Kieran, calmamente; Mark e Cristina, parecendo abalados. E Cristina permanecera ali um longo tempo, sem dormir, olhando para o teto e se perguntando em que tipo de encrenca tinha se metido.
Ela pousou o livro com um suspiro. Não ajudava em nada o fato de estar sozinha na biblioteca — Magnus ficava indo e voltando da enfermaria, onde Alec o ajudava a arrumar o equipamento para misturar a cura para o feitiço de amarração, e Dru estava ajudando Alec a tomar conta das crianças em um dos quartos vagos. Livvy, Ty e Kit tinham saído para pegar os ingredientes na loja de Hypatia Vex. Bridget a toda hora entrava e saía com bandejas de sanduíches e chá, resmungando que seus pés a estavam matando e que a casa estava mais cheia do que uma estação de trem. E Kieran... não estava em parte alguma.
Cristina crescera acostumada a uma certa quantidade de caos controlado em Los Angeles, mas se flagrara com saudade da tranquilidade do Instituto da Cidade do México, do silêncio do roseiral de sua mãe, e até das tardes oníricas que ela havia passado com Diego e, às vezes, com Jaime no Bosque de Chapultepec.
E ela sentia falta de Emma. Seus pensamentos eram um redemoinho de confusão — tudo era — e ela queria que Emma estivesse aqui, para fazer tranças em seus cabelos, contar piadas sem graça e fazê-la rir. Talvez Emma fosse capaz de dar algum sentido ao que tinha acontecido na noite anterior.
Ela esticou a mão para pegar o telefone e então recuou. Não ia começar a mandar mensagens para Emma relatando todos os seus problemas, não quando eles estavam no meio de tanta coisa. Em vez disso, lançou um olhar resoluto pela janela... e viu Kieran cruzando o pátio.
Ele estava todo de preto. Ela não sabia onde ele havia arrumado as roupas, mas elas o faziam parecer uma sombra esguia debaixo do céu cinzento e chuvoso que tinha substituído o azul da manhã. Seu cabelo estava azul e preto, e as mãos, escondidas sob luvas.
Não havia nenhuma regra que impedisse Kieran de sair do Instituto, não de fato. Mas Kieran odiava a cidade, dissera Mark. Aço e ferro frio por toda parte. Além disso, era esperado que eles o mantivessem em segurança e não que permitissem sua fuga antes de testemunhar diante da Clave. Era esperado que não deixassem nada acontecer a ele.
E talvez ele estivesse chateado. Ou mesmo com raiva de Mark, com ciúmes, embora não tivesse demonstrado nada disso na noite anterior. Cristina desceu do parapeito. Kieran já estava passando pela abertura do portão, rumo às sombras, onde ele pareceu cintilar e sumir, tal como as fadas faziam.
Cristina saiu em disparada da biblioteca. Pensou ter ouvido alguém chamá-la enquanto cruzava o corredor, mas não se preocupou em parar. Kieran era rápido, e ela o perderia.
Não havia tempo de parar e fazer a Marca do Silêncio, nem tempo para procurar sua estela. Ela desceu a escadaria correndo e pegou um casaco pendurado na entrada. Meteu os braços dentro ele e correu para o pátio.
Aí sentiu uma pontada no pulso. Era a dor alertando que Mark ficara para trás. Cristina a ignorou e seguiu Kieran pelo portão.
Talvez ele não estivesse fazendo nada errado, falou ela para si, tentando ser justa. Ele não era prisioneiro no Instituto. Talvez Mark estivesse ciente desta saída.
Kieran seguia apressado pela rua estreita, passando de sombra em sombra. Havia algo furtivo no modo como ele se movia. Cristina tinha certeza disso.
Ela se manteve junto à lateral da estrada enquanto o seguia. As ruas estavam desertas, úmidas com um salpico de chuva. Sem uma Marca de disfarce, Cristina estava totalmente consciente para não ser flagrada por um mundano; suas marcas estavam visíveis, e ela não tinha como saber ao certo se eles reagiriam de modo a alertar Kieran.
Ela temia que em algum momento eles chegariam a uma rua mais movimentada, e aí ela seria vista. Seu braço fazia mais do que latejar agora; uma dor aguda lancetava ao redor dele, como se um arame de aço estivesse sendo apertado ao redor do pulso.
Ainda assim, Kieran se embrenhava cada vez mais para o coração da cidade, as ruas pareciam ficar mais estreitas em vez de mais largas. As lâmpadas elétricas ficaram monofásicas. As pequenas cercas de ferro em torno das árvores desapareceram, e os galhos acima dela começaram a se tocar pelas estradas, formando um toldo verde.
Kieran caminhava com passo constante à frente dela, uma sombra entre sombras.
Finalmente eles chegaram a um bloco de edifícios de tijolos voltados para dentro, com as fachadas cobertas de hera e treliças verdes. No centro do bloco, via-se um pequeno trecho de folhagens urbanas comuns: algumas árvores, grama plana e bem cuidada, e uma fonte de pedra no meio. Cristina ouviu o borrifar das águas bem baixinho quando se esgueirou por trás de uma árvore, encostando-se no tronco, e então espiou ao redor de Kieran.
Ele tinha parado junto à fonte e um vulto de capa verde se aproximava dele lentamente, do lado mais distante do pequeno parque. Seu rosto era familiar. Ele tinha pele morena clara e olhos que brilhavam mesmo naquela escuridão. Suas mãos eram compridas e esguias; debaixo da capa, ele vestia um gibão bordado com a coroa partida da Corte Unseelie. Era Adaon.
— Kieran — falou ele, cansado. — Por que você me chamou?
Kieran fez uma pequena mesura. Cristina sentia a tensão dele. Era surpreendente que ela conhecesse Kieran o suficiente para saber quando ele estava tenso. Caso perguntasse, ela diria que ele era praticamente um desconhecido.
— Adaon, meu irmão — disse ele. — Preciso de sua ajuda. Preciso do seu conhecimento sobre feitiços.
O irmão de Kieran levantou uma sobrancelha.
— Se eu fosse você, meu pequeno moreno, eu não lançaria feitiços no mundo mundano. Você está entre os Nephilim, e eles vão reprovar esse tipo de coisa, assim como os feiticeiros e bruxas deste lugar.
— Eu não quero lançar um feitiço. Quero desfazer um. Um feitiço de amarração.
— Ah — falou Adaon. — A quem o feitiço está amarrando?
— Mark — respondeu Kieran.
Mark — repetiu Adaon, um pouco zombeteiro. — O que ele de tão especial para você se preocupar se ele está amarrado? Ou será que ele deveria estar amarrado somente a você?
— Eu não gostaria de algo assim — falou Kieran ferozmente. — Eu jamais iria querer isso. Ele deveria me amar livremente.
— Amarração não é amor, embora possa revelar sentimentos de outra forma enterrados. — Adaon pareceu pensativo. — Eu jamais imaginaria vê-lo falando assim, meu pequeno moreno. Quando era criança, você pegava o que queria sem pensar nas consequências.
— Ninguém permanece criança na Caçada Selvagem — falou Kieran.
— Uma pena você ter sido mandado embora — falou Adaon. — Teria dado um belo Rei depois do nosso pai, e a Corte amava você.
Kieran balançou a cabeça.
— Eu não queria ser Rei.
— Porque você teria que abrir mão de Mark — falou Adaon. — Mas todo rei abre mão de alguma coisa. É a natureza dos reis.
— Mas reis não estão em minha natureza — Kieran inclinou a cabeça para trás e olhou para o irmão mais alto. — Acho que você daria um bom regente, irmão. Alguém tem que trazer a paz de volta às Terras.
— Isso não tem a ver com o feitiço de amarração, não é? — falou Adaon. — Há algo mais. Nosso pai acredita que você se refugiou com os Caçadores de Sombras para escapar de sua ira; admito, imaginei o mesmo. Há algo mais?
— Poderia haver. Sei que você não vai agir contra nosso pai, mas também sei que você não é como ele, ou mesmo que considere seu governo justo. Se o trono estivesse vago, você o aceitaria?
Kieran — falou Adaon. — Há coisas sobre as quais não falamos.
— Tem havido derramamento de sangue há tanto tempo, e nenhuma esperança. Não é só sobre minha segurança. Você precisa acreditar nisso.
— O que está planejando, Kieran? — quis saber Adaon. — Em que tipo de encrenca você se meteu agora?
A mão de alguém cobriu a boca de Cristina. Outro braço a enlaçou, apertando-a. ela dobrou o corpo em surpresa e sentiu o aperto afrouxar. Jogando a cabeça para trás, golpeou o rosto de alguém e ouviu um uivo de dor.
— Quem está aí? — Adaon girou, a mão no cabo da espada. — Apareça!
Alguma coisa tocou o pescoço de Cristina — uma coisa comprida e afiada. A lâmina de uma faca. Ela congelou.

* * *

— É melhor nós irmos — murmurou Emma. Ela não perguntou a Julian o que Annabel queria dizer. Desconfiava que ambos já soubessem.
Uma coisa escura e escorregadia brilhou no transepto, e se movimentava com fluidez grotesca. O cômodo pareceu escurecer. Emma franziu o nariz — de repente o cheiro podre da presença demoníaca estava em toda parte, como se ela tivesse aberto uma caixa cheia de um pot-pourri horroroso.
A palidez do rosto de Julian realçava nas sombras. Ele amassou a carta e eles começaram a sair da igreja com passos cuidados, a lâmina serafim oferecendo uma iluminação bruxuleante. Estavam a meio caminho da saída quando ouviram uma violenta pancada: as duas grandes portas da frente tinham se fechado com força.
Emma ouviu uma pixie rir, bem baixinho.
Eles se viraram quando o altar foi derrubado e atingiu o chão com uma pancada, espatifando-se.
— Você vai para a esquerda — sussurrou Emma. — Eu vou para a direita.
Julian se esgueirou sem fazer barulho. Emma ainda conseguia senti-lo ali, bem próximo. Durante o trajeto até a igreja eles tinham parado para marcar um ao outro, num lugar com vista para a Baía Talland e o oceano azul. Agora tais marcas pinicavam e ganhavam vida conforme Emma passava por um banco comprido e acompanhava a parede da igreja.
Ela chegou à nave. As sombras se acumulavam densamente aqui, mas a Marca de visão noturna estava cintilando e assim era mais fácil enxergar. Dava para ver o altar tombado, a imensa mancha de sangue seco que manchava o soalho de pedra. Havia a impressão sangrenta da mão de alguém numa das pilastras próximas. Parecia errado e horrível, assim, dentro de uma igreja; aquilo a fazia pensar num Instituto contaminado.
Pensou em Sebastian, derramando sangue no limiar da fortaleza dos Caçadores de Sombras em Los Angeles.
Ela se encolheu e, durante aquele breve lampejo de lembrança, seu foco se desviou. Alguma coisa brilhou na periferia de sua visão ao mesmo tempo que a voz de Julian explodiu aos seus ouvidos:
Emma, cuidado!
Ela se jogou para o lado, longe da sombra bruxuleante, e aterrissou no altar revirado, girando para flagrar um horror ondulante erguendo-se à sua frente. Era preto e escarlate, cor de sangue — e era sangue, uma formação em vermelho coagulado e semissólido, com dois olhos brancos ardentes. As mãos da criatura terminavam em pontas planas, como a extremidade de uma pá, cada uma com uma única garra preta e curvada, projetando-se. As garras pingavam com uma gosma rala e luminosa.
A coisa falou. Sangue escorria de sua boca, uma fenda negra no rosto rubro.
Eu sou Sabnock, de Thule. Como ousa ficar diante de mim, humana horrenda?
Emma ficou surpresa ao não ser chamada de Caçadora de Sombras — a maioria dos demônios conhecia os Nephilim. Mas ela não demonstrou.
— Isso é pessoal. Estou magoada — falou ela.
Não compreendo as suas palavras — Sabnock deslizou na direção dela. Emma recuou para o altar. Sentia Julian em algum lugar atrás dela; sabia que ele estava ali sem nem precisar olhar.
— A maioria não compreende — continuou — ser sarcástica é um fardo.
O sangue me trouxe até aqui — disse a coisa. — Sangue é o que eu sou. Sangue derramado no ódio e fúria. Sangue derramado no amor frustrado. Sangue derramado no desespero.
— Você é um demônio — falou Emma, empunhando Cortana, reta e equilibrada. — Eu não preciso saber por que ou como. Eu só preciso que você volte ao lugar de onde veio.
Eu venho do sangue e ao sangue retornarei — retrucou o demônio, e deu um salto, expondo seus dentes e garras. Emma sequer tinha percebido que a coisa tinha dentes, mas lá estavam, como lascas de vidro vermelho.
Ela se jogou para trás, dando uma cambalhota para longe da criatura. A coisa atingiu o altar com o som de fluido batendo contra um objeto sólido. O mundo girou em torno de Emma quando ela se virou. Ela sentiu-se gelar terrivelmente até os ossos, a calma congelante da batalha que desacelerava tudo no mundo ao redor dela.
Ela aterrissou, pondo-se de pé. O demônio estava agachado na beirada do altar, grunhindo. A coisa saltou de novo e, desta vez, Emma a atingiu com um golpe rápido para cima.
Cortana não encontrou resistência. A lâmina deslizou pelo ombro da criatura: o sangue borrifou no pulso e no antebraço de Emma. Sangue viscoso, coagulado, podre. Ela engasgou quando a coisa rodopiou como um tornado, açoitando-a com uma garra quase transparente. Ela e o demônio giraram pelo chão da igreja num tipo de dança, Cortana faiscando e brilhando. Era impossível ferir a coisa — os cortes e dilacerações simplesmente abriam um buraco temporário, como um entalhe na água, que se fechava imediatamente.
Ela não ousava desviar os olhos do demônio por tempo suficiente para procurar Julian. Sabia que ele estava ali, mas parecia que estava muito longe, como se tivesse ido para o outro lado da igreja. Ela também não conseguia enxergar a estrela faiscante e distante da lâmina serafim dele. Jules, pensou. Uma ajudinha agora seria bom.
Com um rosnado de frustração, o demônio atacou outra vez. Emma girou, um corte enérgico acima da cabeça do bicho, e o demônio uivou; ela conseguira quebrar alguns dos dentes da coisa, e uma dor aguda perfurou seu braço. Ela girou a espada, esmagando a cabeça do demônio, assimilando o prazer de seus gritos.
A luz explodiu no mundo. Emma cambaleou para trás, os olhos ardendo. Um quadrado se abria no telhado, bem acima deles, como o teto solar de um carro. Ela viu uma sombra contra o sol; Julian, empoleirado sobre um dos caibros mais altos da igreja, e então a luz do sol passou pela abertura e o demônio começou a queimar.
Enquanto queimava, a criatura guinchava. Com as bordas escurecendo, a coisa cambaleou para trás. O recinto fedia a sangue fervendo. Julian desceu dos caibros e aterrissou no altar: sua estela numa das mãos e a lâmina serafim na outra.
Emma esticou para ele a mão livre, a que não segurava Cortana. Ele sabia o que ela queria, nem foi preciso perguntar. A lâmina serafim traçou um arco no ar na direção dela como fogos de artifício. Emma a pegou, girou e cravou no demônio que queimava, já enfraquecido.
Com um último guinchar, a criatura desapareceu.
O silêncio que se seguiu foi impressionante. Emma arfou, suas orelhas zumbiam, e ela se virou para Jules.
— Isso foi incrível...
Jules saltou do altar, tirando a lâmina serafim suja de icor da mão dela. E peça já estava começando a se deformar, entupida de sangue demoníaco. Ele a jogou para o lado e pegou a mão de Emma, virando-a para que pudesse ver o arranhão comprido que ia das costas da mão até o antebraço.
Ele ficou totalmente pálido.
— O que foi que aconteceu? A coisa mordeu você?
— Não exatamente. Eu me cortei nos dentes dele.
Julian passou os dedos pelo braço dela, que estremeceu. Era um corte comprido e estreito, mas não era superficial.
— Está queimando? Pinicando?
— Eu estou bem — disse ela. — Jules, estou bem.
Ele a encarou por um momento. Seus olhos estavam ferozes e secos sob a luz abrupta que vinha de cima. Ele se afastou sem dizer mais nenhuma palavra e seguiu pela nave da igreja, em direção às portas.
Emma examinou a própria mão. A ferida era bem comum, pensou ela. Seria necessário limpar, mas não era nada diferente dos ferimentos normais de combate. Enfiou Cortana outra vez na bainha e seguiu Julian para fora da igreja.
Por um momento, ela não o viu. Era como se ele tivesse desaparecido e só restasse a vista da igreja. Campos verdes desbotando a um tom apagado de azul: mar azul, céu azul, a bruma azulada das montanhas distantes.
Ela ouviu um grito, fino e baixinho, e correu na direção dele, na direção do cemitério onde lápides gastas e apagadas pelo tempo se inclinavam para a frente e para trás como um baralho de cartas espalhadas.
Ouviu-se um grunhido alto.
— Solte-me! Solte-me!
Emma girou e viu a grama se mexendo; a pixie menorzinha estava se retorcendo loucamente, presa ao solo por Jules, cuja expressão sombriamente fria causou calafrios em Emma.
— Você nos trancou lá dentro com aquela coisa — acusou Julian, o braço sobre o pescoço da pixie. — Não foi?
— Eu não sabia que aquilo estava lá! Não sabia! — guinchou a pixie, contorcendo-se no aperto dele.
— Que diferença faz? — protestou Emma. — Julian. Não...
— Foi Necromancia o que aconteceu ali naquela igreja. Ela abriu um buraco entre as dimensões, que deixa um demônio passar por vez. Aquela coisa poderia ter estraçalhado a gente.
— Não sabia! — choramingou a pixie.
— Quem não sabia? — questionou Julian. — Porque eu vou apostar que você sabia.
A pixie amoleceu, molenga. Julian a prendeu com um joelho.
— A moça mandou dizer para vocês irem lá. Disse que vocês eram perigosos. Que matariam as fadas.
— Eu já devia saber — retrucou Julian.
— Está tudo bem, Julian — falou Emma. Ela sabia que a pixie não era a criatura inocente e infantil que aparentava ser. Mas vê-la se contorcendo e choramingando daquele jeito a deixava enjoada.
— Não está tudo bem. Você está ferida — falou Julian, e o tom frio em sua voz a fez lembrar da expressão dele quando Alselm Nightshade foi levado. Julian, você me assustou um pouco, dissera ela à época.
Mas daí, Nightshade se revelara mesmo culpado. Clary confirmara.
— Deixe-o em paz! — Outra pixie se agitou fracamente na grama. Uma pixie do sexo feminino, a julgar pelas roupas e pelo comprimento do cabelo. Ela agitava as mãozinhas para Julian, em vão. — Ele não sabe de nada!
Julian não se mexeu. E encarou a fada com frieza. Parecia uma estátua de um anjo vingador, alguma coisa desprovida de expressão e compaixão.
— Não se aproxime da gente outra vez — falou. — Não fale disso para ninguém ou nós vamos achar você e fazer com que pague por isso.
A pixie assentiu desesperadamente. Julian ficou de pé e as fadas desapareceram como se o chão as tivesse engolido.
— Você precisava assustá-las tanto assim? — perguntou Emma, com um pouco de hesitação. Julian ainda carregava aquela expressão vazia e assustadora, como se seu corpo estivesse presente, mas a mente estivesse a milhares de quilômetros.
— Melhor assustadas do que criando problema. — Julian se virou para Emma. A cor estava voltando à sua pele. — Você precisa de um iratze.
— Está tudo bem. Não dói tanto assim e, além disso, eu quero limpar primeiro.
Iratzes eram capazes de cicatrizar qualquer ferida, mas às vezes isso significava selar uma infecção ou sujeira.
A preocupação cintilou nos olhos dele.
— Nesse caso, é melhor a gente voltar para o chalé. Mas primeiro preciso de sua ajuda com uma coisa.
Emma pensou no altar quebrado, no sangue derramado, e gemeu.
— Não diga limpar tudo.
— Nós não vamos limpar a igreja — falou Julian. — Nós vamos queimá-la.


Quem quer que estivesse segurando Cristina agora, era mais forte do que um mundano humano.
— Agora dê um passo à frente, e me obedeça — disse a voz atrás dela, elegante, porém grave e confiante. Ela se viu empurrada para o centro do parque. Foi arrastada na direção da fonte e das duas fadas de pé ali. Ambas se viraram: Kieran olhava para ela; o irmão dele, um pouco acima de sua cabeça.
— Erec — falou Adaon, com voz cansada. — O que você está fazendo aqui?
— Eu o segui. — A voz de Erec ecoou atrás de Cristina. Ela se lembrou dele com um lampejo de ódio, lembrou-se dele no Reino das Fadas, a faca de Julian colada no pescoço do sujeito assim como estava sendo feito contra ela agora. — Eu estava curioso quanto ao seu objetivo aqui. E também queria ver o meu irmão caçula.
— Solte-a — falou Kieran com um gesto para Cristina. — Ela não tem nada a ver com isso. É só uma Caçadora de Sombras espionando sem meu conhecimento.
— Você disse que ela não tem nada a ver com você — zombou Erec. — Não que não se importa com ela. — Uma dor quente e prateada faiscou no pescoço de Cristina. Ela sentiu a quentura do sangue escorrendo, e enrijeceu a coluna, recusando-se a se encolher.
— Deixe a garota em paz. — O rosto de Kieran era a máscara pálida de ódio. — Você quer os Nephilim atrás de você, Erec? Você é tolo? Eu sei que você é um torturador... você costumava me torturar. — Ele deu um passo na direção de Cristina e Erec. — Você se lembra? Você causou estas aqui. — Ele puxou a manga negra e frouxa, e Cristina viu as longas cicatrizes no braço. — E as cicatrizes nas minhas costas.
— Você era uma criança frouxa — disse Erec. — Frouxa demais para ser o filho de um rei. A bondade não tem lugar na corte de uma coroa partida. — Ele deu uma risadinha. — Além do mais, venho trazer notícias. Nosso pai enviou os Sete.
Kieran empalideceu ainda mais.
— Os Sete de Mannan? Enviou para onde?
— Para cá. Para o mundo mundano. A missão deles é recuperar o Volume Negro, agora que todos já sabem sobre a morte de Malcolm. E vão encontrá-lo. Antes de você.
— O Volume Negro não tem nada a ver comigo — falou Kieran.
— Mas tem a ver com nosso pai — falou Adaon. — Ele o quer desde que o Primeiro Herdeiro foi roubado.
— Há mais tempo do que ele odeia os Nephilim? — perguntou Kieran.
Erec cuspiu.
— Os Nephilim que você tanto ama. São uma raça amaldiçoada. Você está se desgastando à toa, Kieran, quando poderia ser muito mais.
— Deixe-o em paz, Erec — falou Adaon. — O que você imagina que nosso Pai faria se Kieran voltasse para casa, além de matá-lo?
— Se nosso Pai estiver vivo para matar alguém.
— Chega de intriga! — rugiu Adaon. — Basta, Erec!
— Então deixe que ele prove que é leal! — Erec retirou a faca do pescoço de Cristina com um gesto abrupto; ela balbuciou e tossiu. Seu pulso era pura dor lancinante e as mãos de Erec pareciam braçadeiras de ferro em seus braços. Ele a empurrou, na direção dos irmãos, sem afrouxar o aperto. — Mate a Caçadora de Sombras — gritou para Kieran. — Adaon, dê-lhe sua arma. Atravesse o coração dela, Kieran. Mostre que você é leal e intercederei por você com nosso Pai. Você pode ser bem-vindo de volta à Corte em vez de ser morto ou exilado na Caçada.
Adaon levou a mão à lateral do corpo para pegar a espada, mas Kieran já a havia alcançado. Cristina lutou, esperneando, mas não conseguiu se desvencilhar de Erec. O terror a invadiu quando Kieran se aproximou dos dois, a lâmina das fadas reluzindo em sua mão, os olhos lisos como espelhos.
Cristina começou a rezar. Anjo, mantenha-me em segurança. Raziel, ajude-me. Ela permaneceu de olhos abertos. Não ia fechá-los. Senão, seria a morte de um covarde. Se o Anjo desejava que ela morresse agora, então ela morreria de pé, de olhos abertos como Jonathan Caçador de Sombras. Ela ia...
Os olhos de Kieran faiscaram minimamente, a cabeça inclinada para o lado. Ela acompanhou o movimento, compreendendo de repente quando ele ergueu a espada. Ele investiu... e ela abaixou a cabeça;
A espada cortou o ar com precisão acima dela. Alguma coisa quente, úmida e com cheiro cuproso espirrou em suas costas. Ela gritou e girou quando os braços de Erec a soltaram, a garganta dele cortada até a espinha, e então o corpo tombou sobre a trilha de seixos.
Kieran — murmurou Adaon, horrorizado. Kieran ficou parado sobre o corpo de Erec, com a espada suja de sangue na mão. — O que foi que você fez?
— Ele a teria matado — falou Kieran. — E ela é minha... e Mark....
Cristina segurou-se na fonte para se firmar. Suas pernas estavam dormentes e a pontada em seu braço era como fogo.
Adaon avançou e tomou a espada da mão de Kieran.
— Iarlath não tinha seu sangue — falou. Ele parecia em choque. Imóvel. — Mas Erec tinha. Você será denunciado como assassino dos seus se alguém descobrir o que fez.
Kieran ergueu a cabeça. Seus olhos ardiam nos olhos do irmão.
Você vai contar para eles?
Adaon puxou o capuz sobre o rosto. O vento tinha começado a soprar através da praça — uma rajada fria e cortante. A capa de Adaon balançava como asas.
— Vá, Kieran. Busque a segurança do Instituto.
Adaon se abaixou sobre o corpo de Erec. Estava contorcido num ângulo violento, o sangue escorrendo entre os seixos e a grama. Quando ele se ajoelhou, Kieran começou a caminhar para sair do parque... aí parou.
Lentamente, ele se virou e olhou para Cristina.
— Você não vem?
— Sim. — Ela ficou surpresa ao ouvir a firmeza na própria voz, mas seu corpo a traiu. Quando ficou de pé, a agonia percorre seu braço até a lateral do corpo e ela se abaixou, arfando.
Um momento depois alguém a tocava, sem qualquer sutileza, ela sentiu que era erguida do chão. Sobressaltou-se — Kieran a pegara no colo e a estava carregando para fora do parque.
Ela deixou os braços penderem, sem saber o que mais fazer. Não conseguia falar. Apesar da dança da véspera, era estranho que Kieran a segurasse dessa maneira. Antes Mark estivera presente, mas agora eles estavam a sós.
— Não seja boba — falou Kieran. — Ponha seus braços em volta de mim. Não quero derrubar você e depois ter que explicar as coisas para Mark.
Ele a teria matado. E ela é minha... e Mark...
Ela se perguntava o que ele estivera pretendendo dizer. Mark teria ficado zangado? Mark teria ficado decepcionado? Ela é minha amiga?
Não, ele jamais pensaria em dizer algo assim. Kieran não gostava dela. Cristina tinha certeza disso. E talvez ele não tivesse dito nada daquilo. Suas lembranças estavam ficando confusas por causa da dor.
Eles passavam por uma rua onde as luzes pareciam mudar de gás para elétricas conforme seguiam. A iluminação piscava nas janelas acima. Cristina ergueu os braços e os colocou ao redor do pescoço de Kieran. Entrelaçou os dedos, mordendo o lábio devido à dor do feitiço de amarração.
O cabelo de Kieran fazia cócegas em seus dedos. Era macio, surpreendentemente macio. A pele dele também era incrivelmente delicada, mais do que a de qualquer humano, como a superfície de porcelana polida. Ela se lembrou de Mark beijando Kieran contra uma árvore no deserto, com as mãos em seus cabelos, puxando a gola do suéter para alcançar sua pele, seus ossos, seu corpo. E corou.
— Por que você me seguiu? — falou Kieran, rigidamente.
— Eu vi você pela janela da biblioteca — respondeu Cristina. — Pensei que estivesse fugindo.
— Saí para ver Adaon, como prometi que faria, só isso. Além do mais... — Ele deu uma risada breve. — Aonde eu iria?
— As pessoas costumam fugir mesmo quando não têm para onde ir — disse Cristina. — É mais uma questão do quanto alguém consegue suportar no lugar onde se encontra.
Fez-se um longo silêncio, demorado o suficiente para que Cristina imaginasse que Kieran não pretendia responder. Então ele falou:
— Tenho a sensação de que fiz algum tipo de maldade com Mark. Não sei o que foi, mas vejo isso em seus olhos quando ele me encara. Ele acha que está escondendo, mas não está. Embora possa mentir com a boca, ele jamais aprendeu a esconder a verdade em seus olhos.
— Você vai ter que perguntar a Mark — retrucou Cristina. Eles tinham chegado à rua que conduzia ao Instituto. Cristina viu o pináculo do edifício erguendo-se ao longe. — Quando Adaon falou que, se você se tornasse Rei, teria que abrir mão de Mark, a que ele se referia?
— No Reino das Fadas, um rei não pode ter um consorte humano. — Ele a encarou com aqueles olhos semelhantes a estrelas. — Mark mente sobre você. Mas eu vi o modo como ele te olha. Na noite passada, quando nós dançamos. Ele mais do que deseja você.
— Você... você se importa? — perguntou Cristina.
— Não com você — respondeu Kieran. — Pensei que fosse ligar, mas não me importo. Você tem um algo a mais. Você é bonita, é gentil, e você é... boa. Não sei por que isso faria diferença. Mas faz.
Ele soou quase surpreso. Cristina nada disse. Seu sangue estava manchando a camisa de Kieran. Era uma visão surreal. O corpo dele estava quente, não frio como mármore, como ela sempre imaginara. Ele tinha um leve cheiro de noite e florestas, um aroma límpido, intocado pela cidade.
— Mark precisa de gentileza — falou Kieran, após uma longa pausa. — E eu também.
Eles chegaram ao Instituto e Kieran subiu os degraus rapidamente, parando no topo. Seus braços enrijeceram ao redor dela.
Cristina o encarou, confusa. Então ela compreendeu.
— Você não consegue abrir a porta. Você não é um Caçador de Sombras.
— É o que parece — Kieran piscou para as portas, como se elas o tivessem surpreendido.
— E se você tivesse voltado sem mim? — Cristina teve a vontade mais estranha de rir, embora nada até então tivesse sido engraçado, e o sangue de Erec ainda estivesse endurecendo suas roupas na parte de trás. Ela se perguntava quantos banhos precisaria tomar até se sentir ao menos um pouco limpa. — Eu realmente teria imaginado que você seria mais precavido.
— Parece que assimilei um pouco da sua impulsividade humana — falou Kieran.
Ele falou como se estivesse chocado consigo. Com pena, Cristina começou a afrouxar os dedos no pescoço dele.
Ela esticou o braço para a porta, mas ela abriu por dentro. A luz brilhou na entrada e à soleira estava Mark olhando de um para o outro, atônito.
— Onde vocês estavam? — quis saber. — Pelo Anjo... Kieran, Cristina... — Ele esticou os braços como se fosse tomá-la dos braços do outro.
— Está tudo bem — falou Cristina. — Eu consigo ficar de pé.
Kieran a colocou no chão delicadamente. A dor no braço dela começou a desaparecer, embora encarar o pulso de Mark — vermelho, inchado, com um círculo de sangue — a enchesse de culpa. Era tão difícil de acreditar, mesmo agora, que a dor que ela sentia também era dele; o sangue dela, o sangue dele.
Mark passou a mão pela manga dela, que já estava endurecida pelo sangramento de Erec.
— Todo este sangue... não é só do seu pulso... e por que você sairia, vocês dois...?
— Não é sangue dela — falou Kieran. — É do meu irmão.
Todos eles estavam à entrada agora. Kieran esticou a mão atrás de si e deliberadamente fechou as imensas portas da frente com uma pancada alta. Cristina ouvia passos, alguém se apressando para descer.
— Do seu irmão? — repetiu Mark. Nas roupas escuras de Kieran, o sangue mal era visível, mas Mark parecia olhar com mais atenção agora e notou os respingos de escarlate no pescoço e na bochecha dele. — Você quer dizer... Adaon?
Kieran pareceu atordoado.
— Eu fui encontrá-lo, falar o feitiço de amarração e de sua possível subida ao trono.
— E houve derramamento de sangue? Por quê? — Mark tocou bem de leve a bochecha de Kieran. — Se sós soubéssemos que poderia haver uma briga, jamais teríamos deixado que você falasse com ele em nosso nome. E por que foi sozinho? Por que não me falou nem me levou com você?
Kieran fechou os olhos por um momento, virando a bochecha na mão em concha de Mark.
— Eu não queria colocar você em risco — respondeu em voz baixa.
Mark encarou Cristina nos olhos, por cima do ombro de Kieran.
— Não foi Adaon quem quis brigar — disse ela esfregando o pulso. — Foi Erec.
Kieran abriu os olhos, delicadamente retirando a mão de Mark de seu rosto e em seguida entrelaçando seus dedos no do outro menino.
— Ele deve ter seguido Adaon até nosso local de encontro — explicou. — Eu nem sequer tive a oportunidade de contar a Adaon nossos planos para ele e o trono. — Seus olhos ficaram sombrio. — Mark, tem uma coisa que você deve saber...
Magnus irrompeu no vestíbulo, com Alec atrás dele. Ambos ofegavam.
— O que está acontecendo? — perguntou Alec.
— Onde estão as crianças? — indagou Kieran. — Os pequenos, e o garoto azul com chifrinhos?
Alec piscou.
— Bridget está tomando conta deles — falou. — Por quê?
— Explicarei detalhadamente quando puder — disse Kieran. — Por enquanto, acho que vocês devem saber o seguinte: o Rei, meu pai, enviou os Sete Cavaleiros para encontrar o Volume Negro, e eles estão aqui, em Londres. Imagino que ele acredite que o paradeiro do Volume Negro seja conhecido por nós do Instituto. O perigo é grande. Por enquanto, estamos em segurança no interior destas paredes, mas...
Mark empalidecera.
— Mas Livvy e Ty não estão no interior destas paredes — disse ele. — Eles saíram com Kit para pegar os ingredientes para o feitiço de amarração. Estão em algum lugar da cidade.
Ouviu-se um balbucio, Alec perguntou alguma coisa abruptamente, Magnus fez um gesto. Mas a dor e o choque — não apenas dela, mas de Mark — embaçaram a visão de Cristina, por mais que ela estivesse se esforçando para manter a consciência. Ela tentou dizer alguma coisa, mas as palavras desapareceram, tudo lhe escapando assim que ela desfaleceu nas sombras.
Ela não soube ao certo quem aparou sua queda, se Mark ou Kieran.


Nuvens de chuva tinha substituído o céu azul de Londres. Depois de pegar os ingredientes de Magnus com Hypatia, Ty, Kit e Livvy resolveram caminhar em vez de aguardar pelo barco na fila úmida e agitada.
Kit se divertia pisando nas poças da trilha do Tâmisa, a qual serpenteava como uma cobra de granito na lateral do rio. Eles tinham passado outra vez pela Torre de Londres, e Ty indicara o Portão dos Traidores, por onde antigamente criminosos condenados entravam para subir à torre, de encontro à decapitação.
Livvy suspirara.
— Eu queria que Dru estivesse com a gente. Ela teria gostado disso. Ultimamente ela mal sai do quarto.
— Acho que ela teme ser obrigada a cuidar de alguém, se sair — falou Kit. Ele ainda não tinha uma impressão clara de Dru; estava mais para uma percepção borrada do rosto redondo, das bochechas coradas e de um monte de roupas pretas. Ela possuía os olhos dos Blackthorn, mas, em geral, eles estavam concentrados em outra coisa.
— Acho que ela está guardando algum segredo — falou Livvy. Eles tinham passado pela Millenium Bridge, uma linha de ferro comprida que cruzava o rio, e estavam se aproximando de uma ponte mais desgastada, pintada em vermelho e cinza.
Ty estava murmurando sozinho, perdido nos pensamentos. Hoje o rio tinha a mesma cor dos olhos dele, um tipo de cinza metálico, com fragmentos prateados. A alça branca dos fones de ouvido estava em volta do pescoço, prendendo os cabelos pretos desgrenhados debaixo dela. O menino parecia confuso.
— Por que ela faria isso?
— É só um pressentimento — disse Livvy. — Não posso provar... — A voz falhou. Ela forçou a vista para enxergar ao longe, com a mão erguida para bloquear a luz acinzentada da tarde que batia em seu rosto. — O que é aquilo?
Kit acompanhou o olhar da menina e sentiu um calafrio. Havia algumas figuras se movimentando pelo céu, uma fileira de vultos em velocidade, delineados contra as nuvens. Três cavalos, distintos como esboços no papel, com três cavaleiros nas costas.
Ele olhou ao redor, agitado. Mundanos estavam por toda parte, prestando pouca ou nenhuma atenção aos três adolescentes de jeans e capas de chuva com capuz correndo com suas bolsas cheias de pós mágicos.
— A Caçada Selvagem? — falou Kit. — Mas por quê?
— Não acho que seja a Caçada Selvagem — retrucou Livvy. — Eles cavalgam à noite. Estamos em plena luz do dia. — Ela pôs a mão na lateral do corpo, onde pendiam as lâminas serafim.
— Não estou gostando nada disso — falou Ty, ofegante. Os vultos estavam incrivelmente próximos agora, deslizando pelo topo da ponte, inclinando-se para baixo. — Estão vindo na nossa direção.
Eles se viraram, mas era tarde demais. Kit sentiu a brisa desmanchar seu cabelo quando cavalos e cavaleiros passaram acima deles. Um instante depois, ouviu-se um estrondo quando os três aterrissaram ordenadamente ao redor de Kit, Livvy e Ty, impedindo a fuga.
Os cavalos tinham um tom de bronze faiscante e seus cavaleiros também tinha pele e cabelos cor de bronze. Além disso, usavam máscaras na metade do rosto, de um metal reluzente. Eles eram belos, estranhos e sobrenaturais, totalmente deslocados nas sombras da ponte enquanto os táxis aquáticos passavam nos arredores e a via zumbia com o trânsito.
Eram nitidamente fadas, mas não como as que Kit tinha visto antes, no Mercado das Sombras. Eram maiores e mais altos, e estavam armados, apesar dos éditos da Paz Fria. Cada um trazia uma espada imensa na cintura.
— Nephilim — falou um deles, com uma voz semelhante a geleiras se partindo. — Sou Eochaid dos Sete Cavaleiros, e estes são meus irmãos, Etarlam e Karn. Onde está o Volume Negro?
— O Volume Negro? — repetiu Livvy. Os três estavam espremidos no muro da trilha. Kit percebeu que os passantes lançavam olhares curiosos, e ele sabia que era como se eles três estivessem olhando para o nada.
— Sim — falou Etarlam. — Nosso Rei está em busca dele. Vocês vão encontrá-lo.
— Nós não estamos com ele — retrucou Ty. — E não sabemos onde está.
Karn deu uma risada.
— Vocês não passam de crianças, por isso estamos inclinados a ser tolerantes — falou. — Mas entendam uma coisa. Os Cavaleiros de Mannan têm feito o que o Rei Unseelie ordena há milhares de anos. Nesse meio-tempo, muitos caíram sob nossas lâminas, e não poupamos ninguém por nenhuma razão, nem por idade, fraqueza ou enfermidade. E não pouparemos ninguém agora. — Ele se inclinou sobre a crina do cavalo, e Kit notou que o animal tinha olhos de tubarão, escuros, achatados e mortais. — Ou vocês sabem onde está o Volume Negro, ou vocês serão prisioneiros úteis para incentivar quem sabe. O que vai ser, Caçadores de Sombras?

Um comentário:

  1. Pelo Anjo! Estou apavorada... Nunca imaginei isso tudo acontecer.
    Pobre Jules, quando voltar vai ter um ataque cardíaco 😱😱😱

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Boa leitura :)