15 de novembro de 2017

Capítulo 21

Paul pousa a carta, obtida de um esconderijo de cartas acumuladas por membros da resistência durante a Primeira Guerra Mundial. É a única prova que ele encontrou da família de Sophie Lefèvre e, como as outras, a carta parece não ter chegado às mãos dela.
A garota que você deixou para trás é agora o caso prioritário de Paul. Ele se dá o trabalho de consultar suas fontes habituais: museus, arquivistas, casas de leilão, peritos em ações judiciais de arte internacionais. Confidencialmente, fala com fontes menos benignas: velhos conhecidos da Scotland Yard, contatos do mundo do roubo de arte, um romeno conhecido por gravar quase matematicamente o movimento clandestino de toda uma faixa de obras europeias roubadas.
Paul fez duas descobertas: que Édouard Lefèvre, até recentemente, fora o artista menos famoso da Académie Matisse. E que só existem dois acadêmicos especializados em sua obra, e nenhum dos dois sabe mais do que ele sobre A garota que você deixou para trás.
Uma fotografia e alguns diários obtidos pela família Lefèvre revelaram o fato de que o quadro estava pendurado à vista de todos no hotel conhecido como Le Coq Rouge em St Péronne, uma cidade ocupada pelos alemães durante a Primeira Guerra Mundial. O quadro desapareceu sem deixar vestígio algum tempo depois da prisão de Sophie Lefèvre.
E, depois, há um hiato de uns trinta anos até o quadro reaparecer, na posse de uma tal Louanne Baker, que o manteve em sua casa nos Estados Unidos durante trinta anos até se mudar para a Espanha, onde faleceu, e David Halston comprá-lo.
O que aconteceu entre essas datas? Se o quadro realmente foi saqueado, para onde foi levado? O que aconteceu com Sophie Lefèvre, que parece ter simplesmente sumido da história? Os fatos existem, como num quebra-cabeça que manda unir os pontos e no qual a figura nunca fica clara. Há mais escritos sobre o quadro de Sophie Lefèvre do que sobre ela.
Durante a Segunda Guerra Mundial, tesouros saqueados eram guardados em caixas-fortes subterrâneas na Alemanha, protegidos. Essas obras de arte, milhares delas, haviam sido encontradas graças à eficiência militar, com o auxílio de comerciantes e peritos inescrupulosos. Esse tipo de saque não era uma pilhagem aleatória de soldados na batalha: era sistemático, controlado, regulamentado e documentado.
Mas resta pouca documentação da Primeira Guerra Mundial, no que diz respeito à propriedade saqueada, especialmente no Norte da França. Isso significa, afirma Janey, que este é mais ou menos um caso teste. Ela diz isso com certo orgulho. Pois a verdade é que o caso é vital para a empresa deles. Há um número cada vez maior de organizações como a deles surgindo, todas especificando a origem das obras, listando obras que parentes dos falecidos passaram anos tentando localizar. Há hoje firmas que não cobram nada em caso de perda da ação judicial, que prometem mundos e fundos a pessoas dispostas a acreditar em qualquer coisa para reaver seu estimado objeto.
Sean conta que o advogado de Liv já tentou várias medidas judiciais para que a ação fosse extinta de imediato. Alegou que o prazo prescricional já havia transcorrido, que a venda de Marianne Baker a David fora “inocente”. Por diversas razões complicadas, todas essas medidas falharam. De acordo com um animado Sean, eles vão ter que enfrentar a ação judicial.
— Parece que vai ser na semana que vem. Temos o juiz Berger. Ele sempre tem decidido em favor do autor da ação nesses casos. Está parecendo bom!
— Ótimo — diz Paul.
Há uma fotocópia em papel A4 do quadro de A garota que você deixou para trás pregada em sua sala, entre outros quadros desaparecidos ou alvo de pedidos de restituição. Paul ergue os olhos para ela com frequência e todas as vezes deseja que Liv Halston não estivesse olhando para ele. Paul transfere a atenção para os documentos à sua frente. “Esta é uma imagem que não se esperaria encontrar num humilde hotel de província”, escreve o Kommandant à esposa em algum momento. “Na verdade, não consigo tirar os olhos do quadro.”
Do quadro?, Paul se pergunta. Ou da garota?

* * *

A vários quilômetros dali, Liv também está trabalhando. Levanta-se às sete, calça os tênis de corrida e sai de casa, corre ao longo do rio ouvindo música, com o coração batendo no compasso das suas passadas. Chega em casa depois que Mo sai para trabalhar, toma banho, faz o seu café, toma um chá com Fran; mas agora sai da Casa de Vidro e passa os dias em bibliotecas especializadas em arte, em arquivos de galerias, navegando na internet à caça de pistas. Ela está diariamente em contato com Henry, aparecendo no escritório dele sempre que ele convoca uma reunião, explicando a importância do depoimento francês em juízo, a dificuldade de encontrar testemunhas peritas.
— Portanto, basicamente — diz ela —, você quer que eu chegue com provas concretas de um quadro sobre o qual nada foi registrado, representando uma mulher que parece não existir.
Henry sorri apreensivo para ela. Ele faz isso com frequência.
Ela vive e respira o quadro. Não toma conhecimento da chegada do Natal, das ligações queixosas do pai. Não consegue enxergar nada além da sua determinação de não deixar Paul tomar a tela. Henry lhe deu todos os arquivos apresentados da outra parte — cópias de cartas trocadas entre Sophie e o marido, referências ao quadro e à cidadezinha onde eles moravam.
Ela lê centenas de estudos acadêmicos e políticos, reportagens de jornal a respeito de restituições: sobre famílias destruídas em Dachau, seus netos sobreviventes pedindo dinheiro emprestado para recuperar um Ticiano; uma família polonesa cujo único membro sobrevivente morreu feliz dois meses após a devolução da pequena escultura de Rodin pertencente ao seu pai. Quase todos esses artigos são escritos do ponto de vista do autor da ação — a família que perdeu tudo e encontrou o quadro dos avós contra todas as probabilidades. O leitor é convidado a comemorar com eles a recuperação da obra. A palavra “injustiça” aparece em quase todos os parágrafos. Os artigos raramente apresentam a opinião da pessoa que a comprou de boa-fé e a perdeu.
E em todo lugar que vai, ela detecta as pegadas de Paul, como se estivesse fazendo as perguntas erradas, procurando nos lugares errados, apenas processando informações já conseguidas por ele.
Ela se levanta e se alonga, andando pelo estúdio. Mudou A garota que você deixou para trás para uma prateleira enquanto trabalha, como se ela pudesse lhe dar alguma inspiração. Pega-se olhando para ela o tempo todo, como se tivesse consciência de que teriam um tempo de convivência limitado. E a data do julgamento está cada vez mais próxima, sempre presente, como o rufar de tambores de uma batalha distante. Me dê as respostas, Sophie. Pelo menos uma pista, droga!

* * *

— Oi.
Mo aparece à porta, comendo um pote de iogurte. Já se passaram seis semanas e ela continua morando na Casa de Vidro. Liv está agradecida por sua presença. Ela se alonga e olha o relógio.
— Já são três horas? Nossa, quase não cheguei a lugar nenhum hoje.
— Talvez você queira dar uma olhada nisso. — Mo saca um exemplar do jornal vespertino de Londres de debaixo do braço e o entrega a Liv. — Página três.
Liv abre o jornal.
Viúva de arquiteto premiado briga por obra de arte de milhões de libras saqueada por nazistas, diz a manchete. Embaixo, há uma foto de meia página de David e ela num evento beneficente anos antes. Ela está com um vestido azul cintilante e tem uma taça de champanhe na mão, fazendo um brinde à câmera. Ao lado, está inserida uma pequena reprodução de A garota que você deixou para trás com a legenda: “Quadro impressionista ‘roubado por alemães’ vale milhões”.
— Bonito vestido — diz Mo.
O sangue foge do rosto de Liv. Ela não reconhece a festeira sorridente da foto, uma mulher de outra vida.
— Ai, meu Deus...
Sente-se como se tivessem escancarado as portas da sua casa, do seu quarto.
— Acho que eles têm interesse em mostrar você como uma espécie de bruxa da alta sociedade. Assim podem contar a história do pobre francês vitimado.
Liv fecha os olhos. Se não os abrir, talvez aquilo simplesmente desapareça.
— Está historicamente errado, é óbvio. Quer dizer, não havia nazistas na Primeira Guerra Mundial. Portanto, duvido que alguém leve em conta. Eu não me preocuparia. — Há um longo silêncio. — E acho que ninguém vai reconhecê-la. Você está muito diferente agora. Muito... — Mo procura as palavras — ... mais pobre. E mais velha.
Liv abre os olhos. Lá está ela, em pé ao lado de David, parecendo uma versão rica e descontraída dela mesma.
Mo tira a colher da boca e a observa.
— Só não olhe a versão on-line, está bem? Alguns dos comentários dos leitores estão um pouco... fortes.
Liv ergue os olhos.
— Ah, você sabe. Todo mundo tem uma opinião hoje em dia. É tudo besteira. — Mo liga a chaleira. — Olhe, tudo bem para você se o Ranic vier para cá este fim de semana? Ele divide a casa com umas quinze pessoas. É bem legal poder esticar as pernas na frente da televisão sem chutar a bunda de alguém.

* * *

Liv trabalha a noite inteira, tentando acalmar a ansiedade crescente. Continua vendo aquela matéria do jornal: a manchete, a socialite com aquela taça de champanhe erguida. Liga para Henry, que lhe diz para não dar importância a isso, que não se poderia esperar outra coisa. Ela se vê prestando uma atenção quase judiciária ao seu tom de voz, tentando avaliar se ele tem a segurança que transmite.
— Olhe, Liv. É um caso importante. Eles vão jogar sujo. Você precisa se preparar.
Henry contratou um advogado de tribunal. Diz o nome do homem, como se ela tivesse obrigação de ter ouvido falar nele. Ela pergunta quanto vai custar e ouve Henry mexendo em papéis. Quando ele lhe diz o valor, é como se ela tivesse levado um soco que a deixasse sem ar nos pulmões.
O telefone toca três vezes. A primeira ligação é de seu pai, ele conta que está trabalhando numa pequena produção itinerante de Run For Your Wife. Liv lhe diz distraidamente que está contente por ele, insiste para que ele não dê em cima de mais ninguém.
— Foi exatamente o que Caroline disse! — exclama ele e desliga.
O segundo telefonema é de Kristen.
— Ai, meu Deus — diz ela, entrando no assunto sem sequer dizer alô. — Acabei de ver o jornal.
— Sim. Não é a melhor leitura da tarde.
Liv percebe a mão de Kristen no fone, abafando sua voz.
— Sven disse para você não falar com ninguém. Não diga uma palavra.
— Eu não disse.
— Então onde arranjaram essa matéria horrível?
— Henry acha que deve ter saído da TARP. É do interesse deles vazar informações que façam o caso parecer o pior possível.
— Quer que eu vá aí? Não estou muito ocupada agora.
— Você é um amor, Kristen, mas estou bem.
Liv não quer falar com ninguém.
— Bem, eu posso ir ao tribunal com você se quiser. Ou se quiser que eu divulgue o seu lado da história, garanto que tenho contatos. Talvez algo na Hello?
— Isso... não. Obrigada.
Liv pousa o telefone. O assunto vai se espalhar agora. Kristen é uma divulgadora de informações muito mais eficiente que o jornal vespertino. Liv pode antever-se tendo que se explicar para amigos e conhecidos. O quadro, de certa forma, já não é mais seu. É matéria pública, foco de discussão, símbolo de uma injustiça.
Quando ela desliga o telefone, ele imediatamente torna a tocar, assustando-a.
— Kristen, eu...
— É Olívia Halston?
Uma voz masculina.
Liv hesita.
— Sim.
— Meu nome é Robert Schiller. Sou correspondente de arte do The Times. Peço desculpas se estou ligando num momento inoportuno, mas estou montando um artigo informativo sobre seu quadro e estava me perguntando se você...
— Não. Não, obrigada.
Ela bate o telefone. Fica olhando desconfiada para o aparelho, depois o tira do gancho, como se temendo que toque de novo. Por três vezes, coloca-o no lugar, e, em todas elas, ele toca na mesma hora. Jornalistas deixam seus nomes e números de telefone. Parecem simpáticos, amáveis. Prometem justiça, desculpam-se por tomar o tempo dela. Ela fica sentada na casa vazia, ouvindo seu coração bater com muita força.

* * *

Mo chega pouco depois da uma da manhã e a encontra na frente do computador, o telefone fora do gancho. Liv está enviando e-mails para todos os especialistas vivos em arte francesa da virada do século XX. Pergunto-me se o senhor saberia algo sobre...; estou tentando completar as lacunas da história do...; qualquer coisa que tiver, ou souber — qualquer coisa mesmo...
— Quer um chá? — pergunta Mo, tirando o casaco.
— Obrigada.
Liv não ergue os olhos. Sua vista dói. Ela sabe que chegou a um ponto em que só está pulando às cegas de um site para outro, verificando e tornando a verificar sua caixa de mensagens, mas não consegue parar. Sentir que está fazendo algo, por mais inútil que seja, é melhor que a alternativa.
Mo senta-se à sua frente na cozinha e empurra uma caneca para ela.
— Você está com uma cara péssima.
— Obrigada.
Mo observa-a digitar com indiferença, dá um gole no chá, depois puxa a cadeira mais para perto de Liv.
— Tudo bem. Então vamos ver se minha graduação em História da Arte pode ajudar. Já consultou todos os arquivos dos museus? Os catálogos de leilões? Os marchands?
Liv fecha o computador.
— Já fiz tudo isso.
— Você disse que David comprou o quadro de uma americana. Não poderia perguntar onde a mãe dela o conseguiu?
Ela remexe nos papéis.
— A... outra parte já perguntou a ela. Ela não sabe. Louanne Baker tinha o quadro, e depois a gente comprou. É só o que ela sabe. É só o que precisava saber, droga.
Ela olha para o exemplar do vespertino com aquelas insinuações de que David e ela, pelo fato de serem donos do quadro, estavam, de certa forma, agindo mal, sendo imorais. Ela visualiza o rosto de Paul, seus olhos em cima dela no escritório de advocacia.
O tom de voz de Mo está mais baixo que o normal.
— Você está bem?
— Sim. Não. Adoro esse quadro, Mo. De verdade. Sei que parece idiota, mas a ideia de perdê-lo é... É como perder uma parte de mim.
Mo faz uma cara de espanto.
— Desculpe. Só que... aparecer no jornal como inimiga pública número um é... Ah, poxa vida, Mo, não sei que diabo estou fazendo. Estou brigando com um homem experiente, que faz isso para viver, e estou tentando encontrar indícios e não tenho nenhuma maldita pista.
Ela percebe, humilhada, que está quase chorando.
Mo puxa as pastas.
— Vá lá fora — diz. — Vá lá no deque olhar o céu por dez minutos e lembre-se de que, em última instância, nossa existência é sem sentido e inútil, e que nosso pequeno planeta provavelmente vai ser engolido por um buraco negro, de modo que isso tudo não vai servir para nada. E vou ver se posso ajudar.
Liv suspira.
— Mas você deve estar exausta.
— Nah. Preciso esfriar a cabeça depois de um turno. Isso vai me preparar para dormir bem. Vá em frente.
Ela começa a remexer nas pastas sobre a mesa.
Liv esfrega os olhos, veste um suéter e sai para o deque. Lá fora, sente-se curiosamente leve, no escuro sem fim da noite. Olha para a vasta cidade que se espalha lá embaixo, inspira o ar frio. Alonga-se, sentindo a tensão nos ombros, a rigidez no pescoço. E sempre, lá no fundo, a sensação de que está deixando escapar alguma coisa, segredos que flutuam invisíveis.
Quando entra na cozinha dez minutos depois, Mo está fazendo anotações no bloco.
— Você se lembra do Sr. Chambers?
— Chambers?
— Pintura medieval. Tenho certeza de que você fez essa cadeira. Fico pensando em algo que ele disse que eu memorizei. Foi a única coisa que ficou. Ele disse que às vezes a história de um quadro não é só sobre um quadro. É também a história de uma família, com todos os seus segredos e transgressões. — Mo tamborila com a caneta na mesa. — Bem, estou totalmente confusa aqui, mas também curiosa. Se ela morava com a família quando o quadro desapareceu, quando ela desapareceu, e eles todos pareciam bem chegados, por que em nenhum lugar há provas da família de Sophie?

* * *

Liv passa a noite sentada, examinando as grossas pastas de documentos, conferindo e reconferindo. Pesquisa na internet, os óculos na ponta do nariz. Quando finalmente encontra o que está procurando, pouco depois das cinco, agradece a Deus a meticulosidade dos registros civis franceses. Fica então esperando Mo acordar.
— Tem algum jeito de eu poder tirar você do Ranic este fim de semana? — pergunta ela quando Mo surge ainda sonolenta à porta, com o cabelo parecendo um corvo pousado em seus ombros.
Sem o grosso delineador preto, seu rosto se mostra curiosamente rosado e vulnerável.
— Não quero ir correr, obrigada. Nem nada que me faça suar.
— Você falava francês fluentemente, não é? Quer vir a Paris comigo?
Mo vai até a chaleira.
— Esse é o seu jeito de me dizer que passou para o outro lado? Porque, embora eu adore Paris, não gosto de mulher.
— Não. É o meu jeito de dizer que preciso de seu conhecimento como falante de francês para conversar com um homem de oitenta anos.
— O tipo de fim de semana de que mais gosto.
— E posso oferecer um hotel de uma estrela de quinta categoria. E quem sabe um dia nas Galeries Lafayette. Olhando vitrines.
Mo vira para ela e franze os olhos.
— Como posso recusar? A que horas partimos?

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Boa leitura :)