30 de novembro de 2017

Capítulo 21 - Ao olho humano

Mark estava sentado na beirada da cama, examinando o pulso. A ferida parecia mais escura, com sangue incrustado nos cantos, e os hematomas irradiando dali tinham tons de vermelho-escuro a roxo.
— Deixe-me enfaixar — disse Kieran. Ele se sentou na mesinha de cabeceira, os pés meio que enfiados debaixo do próprio corpo. Seu cabelo estava embaraçado, e ele, descalço. Era como se uma criatura selvagem tivesse descido em alguma parte da civilização: um falcão se equilibrando na cabeça de uma estátua. — Pelo menos, me deixe fazer isso para você.
— Não adianta enfaixar — falou Mark. — Como Magnus disse, não vai curar até o feitiço acabar.
— Então faça por mim. Não suporto olhar para isso.
Mark olhou para Kieran, surpreso. Na Caçada Selvagem, eles tinham visto um bocado de ferimentos e sangue, e Kieran nunca fora impressionável.
— Tem ataduras aí dentro. — Mark indicou a gaveta da mesinha de cabeceira. Ficou observando enquanto Kieran se abaixava, pegava o que queria e voltava para a cama e para ele.
Kieran se sentou e pegou o pulso de Mark. Suas mãos eram ágeis e hábeis, com calos e unhas sem corte devido aos anos de luta e cavalgada. (As mãos de Cristina também eram calejadas, mas seus pulsos e as pontas dos dedos eram suaves e macias. Mark se lembrou do toque delas contra sua bochecha no bosque fada).
— Você está tão distante, Mark — falou Kieran. — Mais longe de mim agora do que já esteve quando eu fiquei no Reino das Fadas e você, no mundo, humano.
Mark olhou fixamente para o pulso, agora envolvido numa pulseira feita de ataduras. Kieran deu o nó habilmente e pôs a caixa de lado.
— Você não pode ficar aqui para sempre, Kier — falou Mark. — E quando se for, nós estaremos separados. Não consigo deixar de pensar nisso.
Kieran fez um muxoxo impaciente, baixinho, e desabou na cama, entre os lençóis. As cobertas já estavam jogadas no chão. Com os cabelos pretos embaraçados contra o linho branco, seu corpo se espalhava sem se importar com o recato humano: a camisa tinha subido até o início das costelas e as pernas estavam bem abertas. Kieram se assemelhava ainda mais a uma criatura selvagem.
— Venha comigo então — falou. — Fique comigo. Eu notei sua expressão quando viu os cavalos da Caçada. Você faria qualquer coisa para cavalgá-los novamente.
Subitamente furioso, Mark se reclinou em cima do outro.
— Qualquer coisa, não — falou ele. A voz pulsava com uma raiva contida.
Kieran sibilou baixinho e agarrou a camisa de Mark.
— Isso — falou. — Fique com raiva, Mark Blackthorn. Grite comigo. Sinta alguma coisa.
Mark ficou imóvel, pouco acima de Kieran.
— Você acha que eu não sinto? — perguntou ele, incrédulo.
Alguma coisa brilhou nos olhos de Kieran.
— Ponha suas mãos em mim — disse, e Mark fez o que ele pediu, sentindo-se incapaz de se controlar. Kieran agarrou os lençóis enquanto Mark o tocava, puxando a camisa e abrindo os botões à força. Suas mãos passearam pelo corpo de Kieran, do mesmo jeito que tinham feito incontáveis noites antes, e uma chama lenta nasceu em seu próprio peito, a lembrança do desejo que se tornava o presente imediato.
A chama ardeu nele: um calor luminoso, tristonho, como um fogo de sinalização numa colina distante. Kieran tirou a camisa pela cabeça, mas seus braços ficaram presos, então ele capturou Mark com as pernas, puxando-o e segurando-o com os joelhos. A boca de Kieran buscou a de Mark, e ele tinha o sabor doce do gelo das vastidões polares sob céus raiados pela aurora boreal. Mark não conseguia controlar suas mãos: o formato do ombro de Kieran era como a elevação das colinas, seus cabelos macios e escuros, como nuvens, seus olhos eram estrelas, e seu corpo se movimentava debaixo do corpo de Mark como a precipitação de uma cachoeira que nenhum olho humano jamais vira. Ele era luz das estrelas, estranheza e liberdade. Ele era uma centena de flechas lançadas ao mesmo tempo de uma centena de arcos.
E Mark estava perdido; estava caindo através de céus escuros, prateados pela poeira de diamantes das estrelas. Ele entrelaçava as pernas às de Kieran, as mãos de enredavam nos cabelos, e eles se lançavam sobre pastagens verdes, cavalgavam montarias com ferraduras de fogo sobre desertos onde a areia se erguia em nuvens de ouro. Ele gemeu, e então Kieran se precipitou para longe, como se tivesse sido erguido e retirado da cama — tudo estava se afastando dele rapidamente, e Mark abriu os olhos e se viu na biblioteca.
Tinha caído no sono, cabeça sobre os braços e o rosto contra a madeira da mesa. Ergueu-se rapidamente, arfou e viu Kieran, sentado no vão do parapeito, fitando-o.
A biblioteca estava vazia, graças ao Anjo. Ninguém estava lá, a não ser eles dois.
A mão de Mark estava latejando. Ele devia tê-la batido contra a beirada da mesa as laterais dos dedos começavam a inchar.
— Uma pena — falou Kieran, olhando para a mão de Mark pensativamente. — Ou você não teria acordado.
— Onde está todo mundo? — perguntou Mark, engolindo, apesar da secura em sua garganta.
— Alguns saíram para encontrar ingredientes para desfazer o feitiço de amarração — falou Kieran. — As crianças ficaram impacientes, e Cristina saiu com elas e com o amante de Magnus.
— Você quer dizer Alec — corrigiu Mark. — O nome dele é Alec.
Kieran deu de ombros.
— E Magnus foi a um tal lugar chamado Internet Café para imprimir as mensagens de Emma e Julian. Ficamos aqui para fazer algumas pesquisas, mas você logo dormiu.
Mark mordeu o lábio. Seu corpo ainda podia sentir o de Kieran, embora ele soubesse que o outro menino não o tocara. Ele sabia disso, mas tinha que perguntar, de qualquer forma, apesar de temer a resposta.
— E você me fez sonhar — sugeriu ele.
Não era a primeira vez que Kieran fazia isso: algumas vezes, durante as noites da Caçada em que não conseguia dormir, ele proporcionara a Mark sonhos bem agradáveis. Era um dom das fadas.
Mas isso era diferente.
— Sim — disse Kieran. Havia fios brancos em seu cabelo escuro, como linhas de minério percorrendo uma mina.
— Por quê? — perguntou Mark. A raiva se acumulando em suas veias. Ele a sentia como uma pressão no peito. Eles tiveram brigas horríveis enquanto estavam na Caçada. Daquelas com gritos, do tipo que se tem quando tudo no mundo parece estar em risco porque a outra pessoa era só o que lhe restava. Mark se lembrou de empurrar Kieran parcialmente por uma geleira e então de se jogar depois dele: de agarrá-lo enquanto os dois rolavam para um montinho de neve, abraçando-se do frio, com dedos úmidos e congelados deslizando sobre a pele de um e do outro.
O problema era que as brigas com Kieran normalmente levavam aos beijos e que, Mark sentia, isso não era um pouco útil. Provavelmente também não era saudável.
— Porque você não é sincero comigo. Seu coração está fechado e enrolado numa mortalha. Eu não consigo vê-lo — disse Kieran. — Em sonhos, achei que talvez...
— Você acha que estou mentindo para você? — Mark sentiu uma pontada de pavor no coração.
— Acho que você está mentindo para si mesmo — falou Kieran. — Você não nasceu para essa vida de política, complôs e mentiras. Seu irmão Julian nasceu. E ele é bem-sucedido nisso. Mas você não quer fazer esse tipo de barganha, na qual destrói sua alma para servir a um bem maior. Você é melhor do que isso.
Mark deixou a cabeça cair contra o espaldar da cadeira. Se ao menos ele pudesse convencer-se de que Kieran estava errado, mas não estava. Mark se detestava em todos os momentos de todos os dias por mentir para Kieran, mesmo se a mentira fosse por uma boa causa.
Kieran falou:
— Seu irmão botaria fogo no mundo se isso servisse para salvar sua família. Algumas pessoas são assim, mas você não é.
— Compreendo que você não consiga acreditar que isso importa para mim tanto quanto, Kieran — falou Mark. — Mas é a verdade.
— Lembre-se — sussurrou Kieran. Mesmo agora, no mundo mundano, havia alguma coisa arrogante e orgulhosa nos gestos dele, em sua voz. Embora estivesse usando o jeans que Mark emprestara, era como se ele devesse estar comandando um exército das fadas, erguendo o braço para reforçar suas ordens. — Lembre-se de que nada disso é real.
Mark se lembrava. Ele se lembrava de um bilhete escrito em pergaminho e enrolado na casca de uma bolota. A primeira mensagem que Kieran enviara depois de abandonar a Caçada.
— É real para mim — disse Mark. — Tudo isso é real para mim. — Ele se inclinou para a frente. — Eu preciso saber que você está nisso comigo, Kieran.
— O que é que isso significa?
— Significa que não vai mais ter raiva — falou Mark. — Que não vai mais me enviar sonhos. Eu precisei de você por tanto tempo, Kieran. Precisei tanto de você, e esse tipo de necessidade, ela dobra e deforma você. Deixa você desesperado. Faz não escolher.
Kieran tinha congelado.
— Você está dizendo que não me escolheu?
— Estou dizendo que a Caçada Selvagem nos escolheu. Estou dizendo que se você vê estranhamento em mim, e distanciamento, é porque eu não posso evitar que me pergunte sempre: em outro mundo, em outra situação, será que nós ainda teríamos escolhido um ao outro? — Ele olhou para o outro menino com expressão severa. — Você é um príncipe nobre. E eu sou meio Nephilim, contaminado no sangue e na linhagem.
 — Mark.
— Estou dizendo que as escolhas que fazemos no cativeiro nem sempre são as escolhas que fazemos em liberdade. E, portanto, nós as questionamos. É inevitável.
— Para mim, é diferente — falou Kieran. — Depois disso, volto para a Caçada. É você quem está livre.
— Eu não permitirei que você seja obrigado a voltar para a Caçada se não quiser.
O olhar de Kieran suavizou. Nesse momento, Mark acreditava que ele lhe teria prometido qualquer coisa, por mais imprudente que fosse.
— Eu gostaria que nós dois tivéssemos liberdade — disse Mark. — Para rir, para nos divertirmos juntos, para amar do jeito normal. Você é livre aqui comigo e talvez nós pudéssemos aproveitar esta oportunidade, este momento.
— Muito bem — falou Kieran, depois de uma longa pausa. — vou ficar com você. E vou ajudar com seus livros entediantes. — Ele sorriu. — Estou nisso com você, Mark, se é assim que vamos aprender a importância que temos um para o outro.
— Obrigado — falou Mark. Kieran, como a maioria das fadas, não estava acostumado a responder “De nada”; em vez disso, desceu do parapeito e foi em busca de um livro nas prateleiras. Mark ficou observando-o. Ele não tinha dito nada a Kieran que não fosse verdadeiro e ainda assim se sentia pesado por dentro, como se todas as palavras tivessem sido uma mentira.

* * *

O céu sobre Londres estava sem nuvens, belo e azul. A água do rio Tâmisa, abrindo-se de cada lado do barco, estava quase azul. Meio cor de chá, pensou Kit, depois de se jogar corante azul nele.
O lugar aonde iam — Ty estava com o endereço — ficava na Gill Street, explicara Magnus, em Limehouse.
— Costumava ser uma vizinhança horrível — falou ele.  — Cheia de covis de ópio e casas de jogo. Meu Deus, como era divertida aquela época.
No mesmo instante, Mark assumira uma expressão de pânico.
— Não se preocupe — emendou Magnus. — Agora está muito careta. Só condomínios sofisticados e bares gourmet. Muito seguro.
Julian teria proibido esta excursão, Kit tinha certeza. Mas Mark não hesitara — ele parecia considerar, muito mais do que o irmão, Livvy e Ty como Caçadores de Sombras adultos que simplesmente esperavam trabalhar como o outros.
Fora Ty quem hesitara por um momento, fitando a irmã, preocupado. Livvy parecia absolutamente bem agora — eles estavam na parte de cima do barco, uma parte aberta, e ela erguia o roto para o vento com prazer descarado, deixando que a brisa erguesse e agitasse seus cabelos.
Ty observava tudo ao redor com fascinação absorta, como se estivesse memorizando todos os prédios, todas as ruas. Seus dedos tamborilavam na grade de metal, mas Kit não achava que isso indicasse ansiedade. Ele notara que os gestos de Ty nem sempre correspondiam a mau humor. Às vezes, eles correspondiam a bom humor: se ele se sentia relaxado, ficava observando os próprios dedos traçando desenhos preguiçosos no ar, do modo que talvez um meteorologista indicasse o movimento das nuvens.
— Se eu me tornar um Caçador de Sombras — falou Kit para nenhum dos gêmeos especificamente —, ainda terei que fazer um monte de dever de casa? Ou poderia apenas, tipo, começar a fazer?
Os olhos de Livvy brilharam.
— Você já está fazendo.
— Sim, mas este é um estado de emergência — falou Ty. — Ele tem razão... Seria necessário recuperar o tempo perdido em algumas disciplinas. Não é como se você fosse tão ignorante quanto um mundano seria — emendou ele para Kit —, mas tem algumas coisas que você provavelmente precisaria aprender: classes de demônios, idiomas, esse tipo de coisa.
Kit fez uma careta.
— Eu tinha esperança de poder aprender durante a execução do trabalho.
Livvy deu risada.
— Você sempre poderia defender seu ponto de vista diante do Conselho.
— O Conselho? — repetiu Kit. — Em que eles são diferentes da Clave?
Livvy riu com mais intensidade ainda.
— Dá pra ver que seu caso poderia não ser bem-sucedido — observou Ty. — Embora eu suponha que poderíamos te ensinar um pouco.
— Um pouco? — perguntou kit.
Ty deu seu sorriso raro e deslumbrante.
— Um pouco. Tenho coisas importantes a fazer.
Kit pensou em Ty no telhado na noite anterior, em como ele parecia desesperado. Agora o menino tinha voltado a ser o Ty de sempre, como se a recuperação de Livvy o tivesse recuperado também. Ele apoiou os cotovelos na grade enquanto o barco passava ruidosamente por uma imponente construção, semelhante a uma fortaleza, que se agigantava à margem.
— A Torre de Londres — disse Livvy, notando o olhar de Kit.
— As histórias dizem que seis corvos devem sempre guardar a Torre — falou Ty — ou a monarquia cairá.
— Todas as histórias são verdadeiras — falou Livvy baixinho, e um calafrio subiu pela espinha de Kit.
Ty virou a cabeça.
— Não era um corvo que levava as mensagens de Annabel e Malcolm? — falou ele. — Acho que estava nas anotações de Emma e Julian.
— Não parece confiável — falou Kit. — E se o corvo ficar entediado, se distrair ou encontrar um falcão bonitão no caminho?
— Ou for interceptado por fadas — falou Livvy.
— Nem todas as fadas são más — disse Ty.
— Algumas fadas são boas, outras são más, como qualquer um — falou Kit. — Mas isso deve ser muito complicado para a Clave.
— É muito complicado para a maioria das pessoas — observou Ty.
Se qualquer outra pessoa tivesse dito aquilo, Kit teria considerado o comentário uma espécie de reprovação. Ty, porém, provavelmente estava falando sendo literal. O que era estranhamente agradável de se saber.
— Eu não gosto do que andamos ouvindo de Diana — falou Livvy. — Sobre como Zara anda alegando por aí que matou Malcolm.
— Meu pai costumava dizer que em geral é mais fácil contar uma mentira grandiosa do que uma pequenina — falou Kit.
— Bem, com sorte, ele estava errado — falou Livvy, um pouco abrupta. — Eu não suporto a ideia de ver Zara e pessoas como ela sendo chamadas de heróis. Mesmo de eles não soubessem que ela está mentindo sobre Malcolm, os planos da Tropa são desprezíveis.
— Uma pena que nenhum de vocês possa simplesmente dizer a Clave o que Julian viu acontecendo no cristal da vidência — falou Kit.
— Se soubessem que ele foi ao Reino das Fadas, ele poderia ser exilado — falou Livvy, e havia um vestígio de medo genuíno em sua voz. — Ou ter as Marcas removidas.
— Eu podia fingir que fui eu quem viu... não vai ser lá grande coisa se eu for expulso dos Nephilim — falou Kit.
Kit tinha pensado em levantar o ânimo com uma piada óbvia, mas os gêmeos parecem desconcertados.
— Você não quer ficar? — A pergunta de Ty foi direta e afiada como uma faca.
Kit não tinha resposta. Ouviu-se um vozerio, e o barco parou com um solavanco. Tinham atracado e os três se apressaram — estavam sem o feitiço de disfarce e, enquanto empurravam vários mundanos para chegar à saída, Kit ouviu um deles resmungando que jovens estavam se tatuando cedo demais atualmente.
Ty fizera uma careta diante de toda aquela barulheira e agora havia colocado os fones de ouvido enquanto eles seguiam pelas ruas. O ar tinha o cheiro da água do rio, mas Magnus estava certo: as docas desapareciam rapidamente, substituídas por estradas sinuosas, cheias de imensas construções de fábricas antigas transformadas em lofts.
Ty segurava o mapa, e Livvy e Kit seguiam um pouco atrás dele. A mão da menina estava apoiada casualmente na cintura, bem onde o cinto de armas se escondia sob o casaco.
— Ele usa menos os fones de ouvido quando você está por perto — falou, com os olhos fixos no irmão, embora as palavras se dirigissem a Kit.
— Isso é bom? — Kit estava surpreso.
Livvy deu de ombros.
— Não é bom nem ruim. É só uma coisa que eu percebi. Não é magia ou coisa assim. — Ela o fitou de lado. — Acho que ele simplesmente não quer perder nada do que você diz.
Kit sentiu uma pontada de emoção que o surpreendeu. Ele olhou de soslaio para Livvy. Desde que tinham deixado Los Angeles, ela não havia oferecido nenhum indicativo de que gostaria de repetir o beijo deles. E Kit descobrira que nem ele. Não que não gostasse de Livvy ou não a achasse bonita. Mas alguma coisa parecia estranha em relação a isso agora — como se fosse errado.
Talvez pelo fato de ele ainda não saber se queria ser um Caçador de Sombras, no fim das contas.
— Chegamos. — Ty abaixou os fones de ouvido, a cordinha branca contrastando com os cabelos escuros. Só ele, dentro todos os Blackthorn vivos, tinha cabelos assim, embora Kit tivesse visto imagens de seus ancestrais no Instituto, e alguns tinham os mesmos cabelos escuros e olhos cinzentos-prateados. — Isso deve ser esclarecedor. Lojas assim têm que cumprir os Acordos, ao contrário do Mercado de Sombras, mas também são administradas por especialistas. — Ty parecia imensamente feliz ao pensar em todo aquele conhecimento especializado.
Eles tinham passado pela imensa via pública de Narrow Street e agora estavam provavelmente em Gill Street, do lado oposto a única loja aberta. As janelas eram mal iluminadas e o nome do proprietário estava escrito em letras de latão acima da porta: PROPRIETÁRIO: F. SALLOWS. Não se via descrição sobre o tipo de loja, mas Kit imaginou que quem comprava ali sabia o que estava comprando.
Ty já havia atravessado a rua e estava abrindo a porta. Livvy correu atrás dele. Kit foi o último — cauteloso e um pouco menos ansioso. Ele tinha crescido próximo a vendedores de magia e seus mecenas, e desconfiava de ambos.
O interior da loja não oferecia muitos motivos para melhorar sua opinião. As janelas foscas deixavam a claridade entrar, mas não a luz. Pelo menos, o lugar era limpo, com prateleiras compridas repletas de algumas coisas que ele já tinha visto: presas de dragão, água benta, pregos bentos, pós cosméticos encantados, amuletos da sorte — e alguns itens que ele ainda não vira. Os relógios andavam para trás, embora ele não fizesse ideia do motivo. Havia esqueletos de animais que ele jamais tinha visto até então, montados com arame. Dentes de tubarão grandes demais para pertencer a qualquer tubarão na Terra. Vários jarros com asas de borboleta em cores explosivas: rosa-choque, amarelo néon e verde-limão. Garrafas com água azul cuja superfície ondulava como pequenos mares.
Havia um sino de cobre empoeirado no balcão da frente. Livvy o segurou e balançou enquanto Ty estudava os mapas nas paredes. O mapa que ele observava estava assinalado com nomes que Kit nunca tinha ouvido: as Montanhas de Espinhos, a Cidade Vazia, a Floresta Fragmentada.
— O Reino das Fadas — falou Ty com a voz estranhamente baixa. — É difícil ter mapas de lá, pois a geografia tende a mudar, mas vi alguns quando Mark estava desaparecido.
O estalar de saltos no soalho anunciou a chegada da dona da loja. Para surpresa de Kit, ela era conhecida — pele escura, cabelos cor de bronze, e hoje estava com um vestido tubinho preto simples. Hypatia Vex.
— Nephilim — falou com um suspiro. — Odeio Nephilim.
— Imagino que este aqui não seja o tipo de lugar onde o cliente tem sempre razão — disse Livvy.
— Você não é Sallows — falou Ty. — Você é Hypatia Vex. Nós nos conhecemos ontem.
— Sallows morreu anos atrás — disse ela. — Foi morto por um Nephilim, por falar nisso.
Estranho, pensou Kit.
— Temos uma lista de certas coisas de que precisamos. — Livvy empurrou o papel no balcão. — Para Magnus Bane.
Hypatia ergueu uma das sobrancelhas.
— Ah, Bane, seu grande defensor. Que pessoa irritante ele é — ela pegou o papel. — Algumas dessas coisas vão precisar de, pelo menos, um dia para serem preparadas. Vocês podem voltar amanhã?
— E por acaso temos escolha? — falou Livvy, com um sorriso encantador.
— Não — falou Hypatia. — E vocês vão pagar em ouro. Não estou interessada em dinheiro mundano.
— Só nos dia quanto — falou Ty, aí pegou uma caneta e começou a escrever. — E também... tem uma coisa que quero perguntar a você.
Ele olhou para trás, para Kit e Livvy, que entendeu a deixa primeiro e puxou Kit pela loja até chegarem à rua. O sol aquecia seus cabelos e pele; ele se perguntava o que os mundanos viam quando olhavam para a loja. Talvez uma loja de conveniência empoeirada ou um lugar que vendia lápides. O tipo de local onde você jamais desejaria entrar.
— Por quanto tempo você está planejando ser amigo do meu irmão? — perguntou Livvy, abruptamente.
Kit se sobressaltou.
— Eu... o quê?
— Você me ouviu — falou ela. Os olhos de Livvy eram muito mais azuis que o Tâmisa. Os olhos de Ty, na verdade, eram mais da cor do rio.
— As pessoas não pensam em amizade desse jeito — falou Kit. — Depende de quanto tempo você conhece a pessoa... Há quanto tempo está no mesmo lugar.
— A escolha é sua — falou ela, as pupilas dilatando. — Você pode ficar com a gente pelo tempo que quiser.
— Posso? E quanto à Academia? E quanto a aprender a ser um Caçador de Sombras? Como eu vou acompanhar vocês quando já estão um milhão de anos na minha frente?
— A gente não se importa com isso...
— Talvez eu me importe.
Livvy falou com voz firme:
— Quando éramos pequenos, os Ashdown costumavam brincar em casa com a gente. Nossos pais achavam que devíamos conviver com mais crianças de fora da família, e Paige Ashdown tinha mais ou menos a minha idade, então ela foi empurrada para mim e para Ty. E uma vez ele estava falando sobre sua obsessão... Na época, eram carros, antes de Sherlock. E ela falou sarcasticamente que ele devia aparecer na casa dela e lhe contar tudo porque era muito interessante.
— E o que aconteceu?
— Ele foi até a casa dela para conversar sobre carros e ela não estava, e quando ela voltou, riu dele e falou para ele ir embora, que ela não tinha falado sério, e ficou questionando se ele era burro.
Kit sentiu ferver a raiva por uma garota que ele jamais conhecera.
— Eu nunca faria isso.
— Olha — falou Livvy — desde então, Ty aprendeu muito sobre pessoas que dizem coisas sem qualquer sinceridade, sobre o tom da voz não combinar com a expressão e por aí vai. Mas ele confia em você, deixou você se aproximar. Nem sempre ele vai se lembrar de aplicar essas coisas a você. Só estou dizendo: não minta para ele. Não o engane.
— Eu não... — começou Kit, quando então sino tocou e a porta da loja se abriu. Era Ty, puxando o capuz por causa da brisa.
— Pronto — falou. — Vamos voltar.
Se ele tinha percebido alguma atmosfera de tensão, não disse nada e, durante todo o retorno para casa, eles conversaram sobre coisas sem importância.


As pixies estavam sentadas numa fileira triste sobre as pedras na beirada do jardim do chalé. Depois de tirá-las do buraco, Emma e Jules lhes ofereceram comida, mas somente uma delas aceitara, e neste momento estava abaixada numa tigela de leite.
A mais alta das fadas falou numa voz aguda.
— Malcolm Fade? Onde está Malcolm Fade?
— Aqui não está — respondeu Julian.
— Foi visitar um parente doente — falou Emma, olhando as pixies, fascinada.
— Feiticeiros não têm parentes — retornou a pixie.
— Ninguém entende minhas referências — resmungou Emma.
— Somos amigos de Malcolm — disse Julian, após um instante. Se Emma não o conhecesse, teria acreditado nele. Seu rosto ficava totalmente inocente quando ele mentia. — Ele nos pediu para tomar conta do lugar enquanto estiver fora.
As pixies cochicharam entre si num tom cauteloso e agudo. Emma tentou prestar atenção, mas não conseguiu entendê-las. Elas não falavam a língua nobre do Reino das Fadas, mas um idioma mais simples aparentemente antigo. Tinha um murmúrio da água sobre as pedras, a acidez aguda da grama verde.
— Vocês também são feiticeiros? — perguntou a mais alta das pixies, afastando-se do grupo. Seus olhos eram raiados de cinza e prata, feitos as rochas da Cornualha.
Julian balançou a cabeça e estendeu o braço, virando-o para o símbolo da Visão no braço ficasse perceptível, destacando-se contra a pele.
— Somos Nephilim.
As pixies voltaram aos cochichos.
— Estamos procurando Annabel Blackthorn — falou Julian. — Queremos levá-la para casa, onde ela terá proteção.
As pixies o fitaram, desconfiadas.
— Ela falou que vocês sabiam onde ela estava — disse Julian. — Vocês andaram conversando com ela?
— Nós a conhecemos anos atrás, conhecemos Malcolm também — falou a pixie. — Não é sempre que um mortal vive por tanto tempo. Ficamos curiosas.
— Vocês podiam contar para nós — falou Emma. — Vamos deixar vocês irem embora, se fizerem isso.
— E se não fizermos? — perguntou a pixie menorzinha.
— Aí não vamos libertar vocês — disse Julian.
— Ela está na Igreja de Porthallow — falou a menor, em nome do grupo. — O local tem ficado vazio todos esses anos. Ela sabe disso e se sente em segurança lá, e tem uns poucos do Povo Alto na região, na maior parte do tempo.
— A Igreja de Porthallow fica perto daqui? — quis saber Julian. — Fica perto da cidade?
— Muito perto — falou a pixie mais alta. — Muito, muito perto. — Ele ergueu as mãos finas e pálidas, apontando. — Mas vocês não podem ir hoje. É domingo, quando o Povo Alto se reúne para pesquisar o cemitério atrás da igreja.
— Obrigado — falou Julian. — Vocês foram muito prestativas, de fato.


Dru abriu a porta do quarto dela com um empurrão.
— Jaime? — murmurou.
Não houve resposta. Ele se esgueirou para dentro, fechando a porta atrás de si. Carregava um prato de bolinhos que Bridget tinha feito. Quando ela pedira o prato todo, Bridget sorrira para alguma coisa da qual evidentemente só ela se lembrava, então dissera abruptamente para Dru não comer todos ou ficaria ainda mais gorda.
Há muito Dru aprendera a não comer muito na frente de desconhecidos ou a não parecer que estava faminta ou a não botar comida demais no prato. Ela odiava o modo como eles a olhavam quando ela fazia algo assim, como se dissessem, ahé por isso que ela não é magra.
Mas ela se dispusera a parecer gulosa por Jaime. Depois que ele se acomodara no quarto dela — jogando-se na cama como se estivesse dormindo lá há dias, depois levantando-se rapidamente e perguntando se podia usar o chuveiro —, ela se perguntara se ele estaria com fome e ele baixara os cílios, sorrindo para ela.
— Eu não queria ser um fardo, mas...
Ela então correra para a cozinha, não querendo voltar de mãos vazias. Isso era algo que uma garota assustada de 13 anos faria, mas não uma de 16. Ou sabe-se lá qual idade ele imaginava que ela tivesse. Ela não fora especifica.
— Jaime?
Ele saiu do banheiro de jeans e vestindo a camiseta. Ela entreviu uma tatuagem negra — não era uma Marca, mas uma frase comum no alfabeto romano —, serpenteando pela pele lisa e morena antes que a camiseta cobrisse sua barriga. Ela ficou fitando-o calada enquanto ele chegava mais perto e pegava um bolinho. Jaime piscou para ela.
— Obrigado.
— De nada — disse ela com a voz fraca.
Ele se sentou na cama, espalhando migalhas para todos os lados, com os cabelos úmidos cacheando por causa da umidade. Dru colocou o prato sobre a penteadeira com cuidado. Quando ela se virou, Jaime já havia adormecido, a cabeça apoiada no braço.
Ela se empoleirou na mesinha de cabeceira por um momento, abraçando o próprio corpo. Conseguia enxergar Diego nas cores e curvas do rosto de Jaime. Era como se alguém tivesse pegado Diego e talhado suas feições, deixando todos os ângulos mais proeminentes. Uma tatuagem com mais letras dava volta num dos pulsos morenos de Jaime e desaparecia sob a manga da camisa; ela desejava ter mais conhecimentos de espanhol para poder traduzi-la.
Dru começou a se virar na direção da porta, pois pretendia deixá-lo sozinho para descansar.
— Não vá — pediu ele. Ela deu meia-volta e notou que os olhos dele estavam semicerrados, e os cílios lançavam sombras nas bochechas bem marcadas. — Faz muito tempo que não tenho com quem conversar.
Ela se sentou na beirada da cama. Jaime rolou e ficou deitado de costas, com os braços cruzados atrás da cabeça. Ele era todo pernas e braços compridos, cabelos pretos e cílios como patinhas de aranha. Tudo nele era ligeiramente desproporcional, ao contrário de Diego, que era todo linhas regulares, feito uma história em quadrinhos. Dru estava tentando não encarar Jaime.
— Eu estava olhando os adesivos na sua mesinha de cabeceira — falou ele. Dru tinha comprado numa loja na Fleet Street quando saíra com Diana para comprar sanduiches. — São todos de filmes de terror.
— Eu gosto de filmes de terror.
Ele sorriu. Os cabelos pretos caíram nos olhos, e ele os jogou para trás.
— Você gosta de se assustar?
— Filmes de terror não me assustam.
— Mas não deveriam? — Ele parecia sinceramente interessado. Dru não conseguia se lembrar da última vez que alguém se mostrara genuinamente interessado em seu amor por filmes de terror antigos e filmes de psicopatas. Às vezes, Julian ficava acordado para ver A Cidade dos Mortos com ela, mas Dru sabia que era apenas gentileza de irmão mais velho.
— Eu me lembro da Guerra Maligna — disse ela. — Lembro-me de ver as pessoas morrendo na minha frente. Meu pai foi um dos Crepusculares. Ele voltou, mas não era... não era ele. — Ela engoliu em seco. — Quando vejo um filme de terror, eu sei o que acontece, e sempre vou ficar bem quando acabar. Sei que as pessoas no filme são apenas atores, que vão embora para casa depois que tudo acaba. O sangue é falso e sai com água e sabão.
Os olhos de Jaime estavam sombrios e impenetráveis.
— Quase faz você acreditar que nenhuma daquelas coisas existe — disse ele. — Imagine se não existissem.
Ela deu um sorriso um pouco triste.
 — Nós somos Caçadores de Sombras — disse ela. — Nós não temos que imaginar isso.


— As pessoas fazem qualquer coisa para fugir do dever de casa — falou Julian.
— Menos você — retrucou Emma, deitada, com as pernas no braço do sofá.
Como eles não podiam seguir Annabel até a igreja hoje, tinham decidido passar a tarde lendo os diários de Malcolm e estudando os desenhos de Annabel. Quando o sol começou a baixar, eles tinham uma quantidade significativa de anotações sistematicamente organizadas em pilhas, por todo o chalé. Anotações sobre cronologia; quando Malcolm tinha se unido à família de Annabel, como eles (que dirigiam o Instituto da Cornualha) o adotaram quando ele era pequeno. A intensidade do amor de Annabel pela mansão Blackthorn, o lar ancestral dos Blackthorn nas colinas verdes de Idris, e como eles tinham brincado juntos na Floresta Brocelind. Quando Malcolm tinha começado a planejar o futuro deles e construído o chalé em Polperro, e como ele e Annabel esconderam o relacionamento, trocando todas as mensagens através do corvo de Annabel. Quando o pai dela descobrira a respeito deles, expulsara a filha de casa dos Blackthorn, e como Malcolm a encontrara na manhã seguinte, chorando sozinha na praia.
A partir daí Malcolm determinara que eles iam precisar de proteção da Clave. Ele ficara sabendo sobre a coleção de livros de feitiço do Instituto da Cornualha. E precisaria de um protetor poderoso, concluíra. Alguém com quem pudesse trocar o Volume Negro, que, por sua vez, manteria o Conselho longe deles.
Emma lia os diários em voz alta e Julian tomava notas. De vez em quando eles paravam, tiravam fotos das anotações e das perguntas com o celular e mandavam para o Instituto. Às vezes, eles recebiam novas perguntas e faziam um esforço para responder rápido; outras vezes, não recebiam nada. Uma vez, receberam uma foto de Ty, que se deparara com uma fileira inteira de primeiras edições de Sherlock Holmes na biblioteca e estava radiante. Em outra vez, receberam uma foto do pé de Mark e nenhum dos dois entendeu o motivo.
A certa altura, Julian se espreguiçou, foi até a cozinha e preparou para ambos sanduiches de queijo quente no imenso fogão de ferro que irradiava calor através do cômodo.
Isso é ruim, pensou ele, baixando o olhar para as mãos enquanto ajeitava os sanduiches nos pratos e se lembrava de que Emma gostava do pão sem a casca. Ele costumava fazer piada com isso. Pegou uma faca, o gesto mecânico, habitual.
Ele se imaginou fazendo isso todos os dias. Morando na casa que ele mesmo havia projetado; assim como esta, a casa teria vista para o mar. Um imenso estúdio onde poderia pintar. Um cômodo para Emma treinar. Ele se imaginou acordando todas as manhãs para encontrá-la ao lado dele ou sentada à mesa da cozinha, com o cereal matinal, cantarolando e erguendo o rosto para sorrir quando ele entrasse.
Uma onda de desejo — não apenas por pensar no corpo dela, mas pelo sonho dessa vida — o invadiu e quase o fez engasgar. Era perigoso sonhar, recordou-se. Tão perigoso quanto era para a Bela Adormecida em seu castelo, onde ela caíra em sonhos que a devoraram por um século.
Ele foi se juntar a Emma perto da lareira. Os olhos dela estavam brilhantes e Emma sorriu ao pegar o prato da mão dele.
— Sabe o que me preocupa?
O coração dele se contorceu lentamente no peito.
— O quê?
— Church — falou ela. — Ele está sozinho no Instituto de Los Angeles.
— Não, não está. Está cercado por Centuriões.
— E se um deles tentar roubá-lo?
— Então será punido adequadamente — falou Julian, aproximando-se um pouco mais do fogo.
— Qual é a punição adequada por se roubar um gato? — perguntou Emma enquanto mordia o sanduíche.
— No caso de Church, ter que ficar com ele — falou Julian.
Emma fez uma careta.
— Se tivesse casca neste sanduiche, eu as jogaria em você.
— Por que você não joga o sanduiche?
Ela pareceu horrorizada.
— E abrir mão deste queijo delicioso? Eu nunca, nunca abriria mão de um queijo delicioso.
— Foi mal. — Julian jogou outro pedaço de lenha no fogo. Uma bolha de felicidade cresceu em seu peito, doce e desconhecida.
— Não é todo dia que aparece um queijo gostoso assim — informou ela. — Você sabe o que o tornaria ainda melhor?
— O quê? — Ele se sentou nos calcanhares.
— Outro sanduiche. — Ela ergueu o prato vazio, dando risada. Julian o pegou, e foi um momento totalmente comum, mas também foi tudo o que ele sempre quis e nunca se permitiu imaginar. Uma casa, com Emma; juntos, rindo perto de uma lareira.
A única coisa melhor do que isso seria seus irmãos e irmãs em algum lugar por perto, onde ele pudesse vê-los todos os dias, onde pudesse lutar com Livvy, assistir a filmes com Dru e ajudar Tavvy a aprender a atirar com a besta. Onde ele pudesse procurar animais com Ty, caranguejos-eremitas na beirada da água, escavando debaixo das próprias conchas. Onde ele pudesse preparar grandes jantares com Mark, Helen e Aline, e todos eles comeriam juntos, ao ar livre, sob as estrelas e o ar do deserto.
Onde ele pudesse ouvir o mar, assim como ele podia ouvir agora. E onde pudesse ver Emma, sempre Emma, a metade melhor e mais brilhante dele, que compensava sua falta de compaixão, que o forçava a reconhecer a luz quando ele só via a escuridão.
Mas todos eles teriam que estar juntos, pensou. Há muito tempo, os pedaços de sua alma tinham sido espalhados, e cada pedacinho vivia em um de seus irmãos. Menos o pedaço que vivia em Emma, que fora queimado e transformado em lar nela mesma pela chama da cerimônia parabatai, e pela pressão do próprio coração.
Mas isso era impossível. Uma coisa impossível que podia nunca acontecer. Mesmo se, por algum milagre, sua família passasse por tudo isso unida e ilesa — e se Helen e Aline pudessem voltar para eles —, mesmo nesse caso, Emma, sua Emma, um dia teria a própria família e a própria vida.
Ele se perguntava se seria o suggenes dela, se ele entraria com ela em seu casamento. Era o que costumava acontecer quando se era parabatai.
O pensamento o fez sentir como se estivesse sendo dilacerado por dentro com lâminas.
— Você se lembra — estava dizendo ela com a voz baixinha, provocadora — quando você falou que poderia trazer Church para dentro da sala de aula sem que Diana percebesse, e então ele te mordeu no meio da apresentação sobre Jonathan Caçador de Sombras?
— De jeito nenhum. — Julian se ajeitou no chão, com um dos diários à mão. O calor do ambiente, o cheiro de chá e pão queimado, o brilho da luz da lareira nos cabelos de Emma o estavam deixando sonolento. Ele se sentia tão intensamente feliz quanto se sentia infeliz, e ser puxado para aquelas duas direções tão diferentes simultaneamente o estava deixando esgotado.
— Você gritou — disse ela. — E então você falou para Diana que era porque estava muito empolgado por aprender.
— Tem algum motivo para você se lembrar de todas as coisas constrangedoras que acontecem comigo? — refletiu ele em voz alta.
— Alguém tem que se lembrar — falou Emma. As bochechas dela estavam rosadas com a luz da lareira. A pulseira de vidro no pulso de Julian cintilava fria contra a bochecha, quando ele baixou a cabeça.
Ele temera que, sem Cristina aqui, eles fossem brigar e discutir. Temera que fossem ficar amargos um com o outro, mas, em vez disso, tudo estava perfeito. E ao seu modo, isso era muito pior.


A dor acordou Mark no meio da noite, a sensação de que seu pulso estava cheio de pregos.
Eles tinham ficado trabalhando na biblioteca até tarde: Magnus, ocupado com a receita do antídoto do feitiço de amarração e o restante lendo livros antigos sobre o Volume Negro. A combinação das lembranças do cristal de alétheia e as informações das anotações enviadas por Emma e Julian começava a criar um retrato mais completo de Annabel e Malcolm, porém, Mark não conseguia evitar se perguntar se aquilo estava fazendo algum bem. O que eles precisavam era do Volume Negro, e mesmo se sua história estivesse tecida no passado, será que ia ajudar os Blackthorn a encontrarem o livro no presente?
A parte boa é que ele tinha conseguido convencer Kieran a comer quase uma refeição inteira que Alec trouxera de uma cafeteria na Fleet Street, embora o outro tivesse passado o tempo inteiro dizendo que o suco não era suco e que chutney não existia.
— Não pode ser assim — dissera ele, fazendo cara feia para o sanduiche.
Agora ele estava dormindo, aninhado num cobertor amarrado debaixo da janela de Mark, a cabeça apoiada numa pilha de livros de poesia que ele tinha trazido da biblioteca. Quase todos eles tinham sido rabiscados na primeira página por um tal James Herondale, que anotara cuidadosamente seus versos favoritos.
O pulso de Mark latejou outra vez, e com a dor veio uma sensação de inquietação. Cristina, pensou ele. Eles mal tinham se falado aquele dia, evitando-se. Em parte, era por causa de Kieran, mas era ainda mais por causa do feitiço de amarração, da terrível realidade que se apresentava entre eles.
Mark ficou de pé com dificuldade e vestiu jeans e camiseta. Não conseguia dormir, não assim, preocupado com ela. Descalço, cruzou o corredor até o quarto dela.
Mas estava vazio. A cama estava arrumada, a coberta lisinha no lugar e a luz do luar refletia em cima dela.
Confuso, ele seguiu pelo corredor, deixando o feitiço de amarração conduzi-lo. Era como seguir a música de uma festa ao longe. Ele quase era capaz de ouvi-la: ela estava em alguma parte do Instituto.
Ele passou pela porta de Kit e ouviu vozes altas, e alguém riu... Ty. Mark pensou no modo como Ty parecera precisar dele quando ele voltara pela primeira vez, e agora isso tinha acabado: Kit tinha criado um tipo curioso de magia, complementado o que os gêmeos já possuíam num trio em equilíbrio. Ty não olhava mais para Mark da mesma forma, como se estivesse procurando alguém que o compreendesse.
O que era bom, pensou Mark ao descer dois degraus por vez na escada. Porque ele não tinha muito jeito para compreender quem quer que fosse. Ele nem mesmo compreendia a si mesmo.
Um corredor comprido o levou a duas portas duplas, pintadas de branco. Uma delas estava aberta. O interior era um cômodo imenso, empoeirado e com pouca iluminação.
Era evidente que o cômodo não era usado havia muitos anos, embora estivesse limpo, a não ser pela poeira. Lençóis brancos cobriam a maior parte dos móveis. Janelas em arco davam para um pátio e para a noite que cintilava com estrelas.
Cristina estava lá, no meio do cômodo, olhando para um dos candelabros. Havia uma fileira com três deles, apagados, porém, reluzindo com as gotas de cristal.
Ele deixou a porta bater atrás de si e ela se virou. Não pareceu surpresa ao vê-lo. Ela usava um vestido simples preto, que parecia ter sido feito para alguém mais baixa do que ela, e seu cabelo estava preso no alto, longe do rosto.
— Mark. Não conseguiu dormir? — disse ela.
— Não muito bem. — Ele olhou pesaroso, para o próprio pulso, embora a dor tivesse desaparecido agora que ele estava com Cristina. — Você também?
Ela fez que sim com a cabeça. Seus olhos brilhavam.
 — Minha mãe sempre dizia que o salão de baile do Instituto de Londres era o mais bonito que ela já vira. — A menina olhou ao redor, para o papel de parede listrado eduardiano, as cortinas de veludo pesado, amarradas e deixado livre a visão da janela. — Mas ela deve ter visto o salão muito vivo e cheio de gente. Agora parece o castelo da Bela Adormecida. Como se a Guerra Maligna o tivesse envolvido com espinhos e desde então ele estivesse adormecido.
Mark esticou a mão, a ferida da amarração que contornava seu pulso como a pulseira de vidro marinho que contornava o pulso de Julian.
— Vamos acordá-lo — falou. — Dance comigo.
— Mas não tem música. — Ainda assim, ela oscilou um pouco na direção dele ao falar.
— Eu já dancei em muitas festas onde não havia flauta nem violino, onde havia somente a música do vento e das estrelas. Posso te mostrar.
Ela se aproximou dele, o pingente dourado no pescoço reluzindo.
— Que mágico — disse ela, e seus olhos estavam imensos, escuros e luminosos por causa da travessura. — Ou eu poderia fazer isso.
Ela sacou o celular do bolso e apertou alguns botões. A música saiu dos pequenos alto-falantes: não estava alta, mas Mark poda senti-la — não era uma música que ele conhecia, mas era rápida e vigorosa, latejando junto ao seu sangue.
Ele ofereceu as mãos. Pousando o celular no parapeito da janela, Cristina pegou as mãos dele, rindo enquanto ele a puxava para si. Seus corpos se tocaram uma vez, levemente, e ela girou para longe dele, forçando-o a acompanhá-la. Se ele tinha pensado que a conduziria, percebeu, estava errado.
Ele caminhou atrás dela enquanto Cristina se movimentava como fogo, sempre um pouco à frente dele, girando até seus cabelos se soltarem e flutuarem ao redor do rosto. Os candelabros giravam acima como chuva, e Mark segurou sua mão. Ele a rodopiou num círculo; ao virar, o corpo dela roçou no dele, e ele segurou seu quadril, puxando Cristina para si.
E agora ela estava em seus braços, movimentando-se, e em todos os pontos que os corpos deles se tocavam parecia nascer uma centelha. Todas as coisas saíram da cabeça de Mark, menos Cristina. A luz na pele morena, o rosto afogueado, o modo como a saia subia quando ela girava, permitindo que ele entrevisse as coxas macias que tanto havia imaginado centenas de vezes.
Ele a segurou pela cintura e ela requebrou para trás nos braços dele, flexível, os cabelos roçando o chão. Quando ela se ergueu outra vez, os olhos semicerrados, ele não conseguiu mais se conter. Puxou-a para si e a beijou.
Ela ergueu as mãos e se agarrou aos cabelos dele, os dedos puxando-o e trazendo-o para mais perto. Cristina tinha gosto de água fresca e límpida, e ele sorveu sua boca como se estivesse com muita sede. Seu corpo inteiro parecia um desejo desesperado. E quando ela se afastou dele, ele gemeu baixinho. Mas ela estava rindo e olhando para ele, dançando levemente para trás com as mãos esticadas. A pele de Mark parecia estar toda rígida; ele estava desesperado para beijá-la outra vez, para deixar suas mãos passearem por onde os olhos estiveram antes: deslizando pelas laterais de suas pernas compridas, sob a saia, ao longo da cintura, por suas costas, onde os músculos eram macios e longos nas laterais da coluna.
Ele a queria, e era um desejo muito humano; não era luz das estrelas e estranhamento, mas era o aqui e agora. Ele foi até ela, buscando suas mãos.
— Cristina...
Ela congelou e, por um momento de temor, ele pensou que fosse por causa dele. Mas ela olhava além. Mark se virou e viu Kieran à porta, encostado no batente e olhando muito fixamente para os dois.
Mark se retesou. Em um momento atrasado de clareza, ele percebeu que fora estúpido, assustadoramente estúpido ter feito o que estivera fazendo. Mas nada disso era culpa de Cristina. Se Kieran descontasse nela...
Mas quando Kieran falou, estava animado.
— Mark — disse ele —, você não tem ideia, tem? Você devia mostrar a ela o jeito certo de fazer isso.
Ele caminhou até eles, um verdadeiro príncipe do Reino das Fadas em toda sua graça. Ele usava camiseta e calças brancas, e os cabelos negros caíam parcialmente sobre os ombros. Ele parou no meio do cômodo e estendeu uma das mãos para Cristina.
— Milady — falou, e fez uma mesura. — Poderia me conceder uma dança?
Cristina hesitou por um instante e então assentiu.
— Você não precisa fazer isso — murmurou Mark. Ela apenas lhe deu um olhar demorado, e então seguiu Kieran até o meio do salão.
— Agora — falou Kieran, e começou a se movimentar.
Mark não achava que já tivesse dançado com Kieran antes, não numa festa; eles sempre tinham tentado esconder o relacionamento diante do mundo maior do Reino das Fadas. E Kieran, se não pudesse dançar com o parceiro de sua escolha, não dançaria com ninguém.
Mas ele estava dançando agora. E se Cristina se movimentava como fogo, Kieran se movimentava como um raio. Após um instante de hesitação, Cristina o acompanhou — ele a pegou nos braços, a aparou e a ergueu com a força fácil das fadas, girando-a ao redor dele. Ela arfou, e seu rosto se iluminou com o prazer da música e do movimento.
Mark ficou onde estava, sentindo-se estranho e confuso na mesma medida. O que Kieran estava fazendo? O que ele estava pensando? Será que aquilo era algum tipo de advertência? Mas não parecia ser. Quanto será que Kieran tinha visto? O beijo ou só a dança?
Ele ouviu Cristina dando risada. Arregalou os olhos. Incrível. Ela e Kieran pareciam estrelas girando juntas, só se tocando pelas beiradas, porém explodindo numa chuva de faíscas e fogo quando entravam em contato. E Kieran estava sorrindo, sorrindo de verdade. Aquilo mudou o rosto dele e fez com que parecesse mais jovem do que realmente era.
A música terminou. Cristina parou de dançar e de repente pareceu tímida. Kieran ergueu a mão para tocar os longos cabelos escuros dela, jogando-os por cima do ombro para que ele pudesse se inclinar e beijá-la na bochecha. Ela arregalou os olhos de surpresa.
Somente então, quando ele se afastou, foi que olhou para Mark.
— Pronto — falou ele. — É assim que dança o sangue do Povo das Fadas.


— Acorde.
Kit gemeu e rolou. Ele finalmente tinha dormido, e sonhava com alguma coisa agradável, algo como estar numa praia com seu pai. Não que seu pai o tivesse levado à praia realmente, mas era para isso que os sonhos serviam, não era?
No sonho, o pai tocara seu ombro e dissera: Eu sempre soube que você daria um bom Caçador de Sombras.
Não importava que Johnny Rook preferisse ver o filho tornando um assassino em série a ser um Nephilim. Fazendo um esforço para acordar, Kit se lembrou do sorriso do pai e da última vez que ele o vira, na manhã do dia em que os demônios de Malcolm Fade o tinham feito em pedaços.
— Você não me ouviu? — A voz que tirava Kit do sono se tornou mais urgente. — Acorde!
Kit abriu os olhos. O quarto estava tomado pelo brilho pálido da pedra de luz enfeitiçada, e uma sombra pairava acima da cama. Com a lembrança recente dos demônios Mantis no limite de sua consciência, Kit se levantou rápido.
A sombra recuou sem perda de tempo e por pouco não colidiu contra Kit. A pedra de luz enfeitiçada apontou para cima, iluminando Ty; seu cabelo escuro e macio estava bagunçado, como se ele tivesse rolado da cama e vindo para o quarto de Ty sem se pentear. Ele usava um moletom de capuz que Julian lhe dera antes de ir a Cornualha, provavelmente metade por conveniência e metade para proporcionar consolo. O fio dos fones de ouvido saía do bolso e se enrolava no pescoço.
— Watson — falou. — Eu quero ver você.
Kit resmungou e esfregou os olhos.
— O quê? Que horas são?
Ty girou a pedra de luz enfeitiçada nos dedos.
— Você sabia que as primeiras palavras faladas ao telefone foram “Watson, venha aqui, quero ver você?”
— Mas era um Watson totalmente diferente — observou Kit.
— Eu sei — retrucou Ty. — Só achei interessante. — Ele puxou os fones de ouvido pelo fio. — Eu queria ver você mesmo. Ou, pelo menos, tem uma coisa que preciso fazer e preferiria que você visse comigo. Na verdade, foi uma coisa que você disse que me deu a ideia de fazer a pesquisa.
Kit chutou as cobertas. De qualquer forma, tinha dormido usando as roupas do dia a dia, um hábito incutido durante a época em que seu pai estivera envolvido em negócios que deram errado, por isso eles dormiam totalmente vestidos por dias, para o caso de precisarem pegar as coisas e fugir apressados.
— Pesquisa? — perguntou ele.
— Está na biblioteca — falou Ty. — Posso mostrar antes de irmos. Se você quiser.
— Eu gostaria de ver.
Kit saiu da cama e meteu os pés nos sapatos, pegando um casaco antes de seguir Ty pelo corredor. Ele sabia que deveria estar exausto, mas havia alguma coisa na energia de Ty, no brilhantismo e na concentração do seu foco, que estimulavam Kit como cafeína. Isso o acordava por dentro com uma sensação de promessa, como se os momentos a sua frente de repente incluíssem infinitas possibilidades.
Na biblioteca, Ty cobrira uma das mesas com as anotações enviadas da Cornualha por Emma e Julian, além de cópias impressas dos desenhos de Annabel. Ainda parecia a mesma bagunça para Kit, mas Ty passava a pedra de luz enfeitiçada sobre as páginas com confiança.
— Lembra quando a gente estava conversando sobre como um corvo levava os recados entre Malcolm e Annabel? No barco? E você disse que não parecia confiável?
— Lembro — falou Kit.
— Isso me deu uma ideia — disse Ty. — Você é bom em me incitar ideias. Não sei por quê. — E deu de ombros. — De qualquer forma. Nós vamos para a Cornualha.
— Por quê? Vamos exumar a ave e interrogá-la?
— Claro que não.
— Isso foi uma piada, Ty... — Kit s calou, o impacto das palavras do outro menino o atingindo com atraso. — O quê? Vamos aonde?
— Eu sei que foi uma piada — falou Ty, pegando um dos desenhos impressos. — Livvy me falou que, quando as pessoas fazem piadas que não são engraçadas, a coisa mais educada a se fazer é ignorá-las. Não é verdade?
Ele parecia ansioso e Kit queria abraçá-lo, do mesmo jeito que tinha feito na outra noite, no telhado.
— Não, é verdade — respondeu ele, apressando-se atrás de Ty ao saírem da biblioteca. — É só que humor é subjetivo. Nem todo mundo concorda que as mesmas coisas são engraçadas, ou que não são.
Ty olhou para ele com simpatia sincera.
— Tenho certeza de que as pessoas acham você hilário.
— Com certeza. — Eles se apressavam na direção da escada. Esgueirando-se nas sombras. Kit se perguntava por que estavam indo à Cornualha, mas isso não parecia ter importância. Ele sentia a ligação faiscando nas pontas dos dedos, a promessa de aventura. — Mas Cornualha, é sério? Como? E quanto a Livvy?
Ty não se virou.
— Não quero levá-la hoje.
Eles tinham chegado aos pés da escada. Uma porta dava para um imenso cômodo de pedra. A cripta de uma catedral. O soalho e as paredes eram feitos de imensas lajes de pedra escura, lixarem até ficarem lisas, e havia suportes de latão presos a colunas de pedra que, provavelmente, costumavam servir de suporte aos lampiões. Agora a luz vinha da pedra de luz enfeitiçada, jorrando através dos dedos em concha de Ty.
— O que estamos fazendo exatamente? — falou kit.
— Lembra-se de quando fiquei na loja para conversar com Hypatia Vex? — perguntou Ty. — Ela me disse que tem um Portal permanente aqui embaixo. É antigo, talvez um dos primeiros existentes, criado mais ou menos em 1903. Ele só vai até o Instituto da Cornualha. A Clave não sabe dele ou não o controla.
— Um Portal que não é controlado? — falou Kit. Ty estava caminhando em volta do recinto, fazendo a pedra de luz enfeitiçada refletir nas paredes, em fissuras e cantos. — Isso não é perigoso?
Ty não disse nada. Tapeçarias compridas pendiam a intervalos nas paredes. Ele olhava atrás de cada uma delas, passando a luz acima e abaixo na parede. Ela refletia na pedra e iluminava o cômodo feito vaga-lumes.
— Por isso você não queria que Livvy viesse — falou Kit. — Porque é perigoso.
Ty se endireitou. Seu cabelo estava bagunçado.
— Ela já se machucou por minha causa — falou.
— Ty...
— Eu preciso encontrar o Portal. — Ty se inclinou na direção da parede, seus dedos tamborilando nela. — Eu olhei atrás de todas as tapeçarias.
— Que tal olhar nelas? — sugeriu Kit.
Ty lhe ofereceu um olhar demorado, pensativo, com uma pitada de surpresa. Kit captou apenas um lampejo dos olhos cinzentos quando o menino se virou outra vez para examinar as tapeçarias. Cada uma delas mostrava uma cena do que parecia uma paisagem medieval: castelos, muros de pedra compridos, torres e estradas, cavalos e batalhas. Ty parou diante de uma que mostrava uma cerca alta, no meio da qual se via uma abertura em arco. Através dela, via-se o mar.
Ele encostou a mão na peça, um gesto hesitante, desconfiado. Houve um brilho de luz. Kit avançou correndo quando a tapeçaria brilhou e se tornou reluzente e colorida como uma superfície oleosa.
Ty olhou outra vez para o desenho que ele segurava, então se virou, com a outra mão esticada para Kit.
— Não seja molenga.
Kit esticou a mão para ele. Seus dedos se fecharam em torno dos dedos de Ty, quentes e firmes mediante o aperto. Ty deu um passo adiante, para dentro do Portal, com as cores dividindo-se e voltando a se formar ao redor dele — ele já estava meio invisível — e sua mão apertou a de Kit, puxando-o atrás de si.
Kit segurou com firmeza. Mas em alguma parte do caos giratório do Portal, sua mão se soltou da de Ty. Um pânico irracional o invadiu e ele gritou algo bem alto — sem saber ao certo o quê —, antes que os ventos do Portal o girassem através de uma passagem e os cuspissem ar frio, sobre um declive de grama úmida.
— Sim? — Ty estava de pé acima dele, com a pedra de luz na mão. O céu atrás dele era imponente e escuro, reluzindo com um milhão de estrelas.
Kit ficou de pé, encolhendo-se. Ele estava se acostumando a fazer viagens via Portal, mas ainda não gostava disso.
— O que foi? — O olhar de Ty não encontrou o de Kit, e sim se pôs a analisá-lo, como se à procura de algum machucado. — Você estava chamando meu nome.
— Estava? — Kit olhou ao redor. Gramados verdes inclinavam-se para três direções abaixo e aí se erguiam numa quarta ao encontro de uma imensa igreja cinza. — Acho que fiquei com medo de você se perder no Portal.
— Isso só aconteceu algumas vezes. Estatisticamente é muito improvável. — Ty ergueu a pedra de luz enfeitiçada. — Este é o Instituto da Cornualha.
A longe, Kit via o brilho do luar sobre a água negra. O mar. Acima deles, a igreja era um monte de pedra cinza com janelas negras quebradas e sem a porta da frente. A torre da igreja estocava os redemoinhos de nuvens, iluminada pela lua atrás dela. Ele assoviou entredentes.
— Há quanto tempo ele foi abandonado?
— Há poucos anos. Não havia Caçadores de Sombras suficientes para ocupar todos os Institutos. Não desde a Guerra Maligna. — Ty revezava o olhar entre o desenho em sua mão e os arredores. Kit notava os resquícios de um jardim destruído: ervas daninhas cresciam entre as roseiras mortas, a grama estava comprida demais, precisando ser aparada, o musgo cobria as dezenas de estatuas espalhadas ao redor do jardim, como vítimas de Medusa. Um cavalo empinava no ar ao lado de um menino com um pássaro empoleirado no pulso. Uma mulher de pedra segurava uma graciosa sombrinha. Minúsculos coelhos de pedra espreitavam entre as ervas daninhas.
— E nós vamos entrar? — perguntou Kit, desconfiado. Ele não gostava nadinha da aparência daquelas janelas escuras. — Não seria melhor vir durante o dia?
— Nós não vamos entrar. — Ty ergueu o desenho que havia trazido. Sob a luz enfeitiçada, Kit via um desenho à tinta do Instituto e de seus jardins, feito durante o dia. O local não mudara muito nos últimos duzentos anos. As mesmas roseiras, as mesmas estátuas. Mas era como se o desenho tivesse sido feito no inverno, quando os galhos das arvores eram esqueletos. — Aquilo de que precisamos está aqui.
— Do que é que nós precisamos? — perguntou Kit. — Faça-me esse favor. Explique o que isso tem a ver com meu comentário casual sobre corvos não serem confiáveis.
— Que não seria confiável. A questão é que Malcolm não disse que o corvo estava vivo nem que era um corvo real. Nós só presumimos.
— Não, mas... — Kit fez uma pausa. Ele estivera prestes a dizer que não fazia sentido entregar seus recados a um corvo morto, mas alguma coisa na expressão de Ty o fez calar.
— Na verdade, faz mais sentido que eles simplesmente tivessem deixado recadinhos num esconderijo — falou Ty. — Um ao qual os dois pudessem ter acesso facilmente. — Ele cruzou a grama até a estátua do garoto com o pássaro no pulso.
Um pequeno choque percorreu Kit. Ele não sabia muito sobre aves, mas esta fora entalhada em pedra negra e reluzente. E parecia bastante com os desenhos que ele tinha visto dos corvos.
Ty esticou o braço para passar os dedos no pássaro de padra. Aí ouviu um clique e o rangido de dobradiças. Kit correu até o menino, bisbilhotando uma pequena abertura nas costas da ave.
— Tem alguma coisa aí dentro?
Ty balançou a cabeça.
— Está vazio. — Ele enfiou a mão no bolso, pegou um pedaço de papel dobrado e o deixou cair na abertura antes de fechá-la outra vez.
Kit parou de repente.
— Você deixou um bilhete.
Ty fez que sim com a cabeça. Ele tinha dobrado o desenho e guardado no bolso. Sua mão pendia solta junto à lateral do corpo, segurando a pedra de luz enfeitiçada: a luz tinha diminuído e a lua proporcionava iluminação suficiente para os dois enxergarem.
— Para Annabel? — perguntou Kit.
Ty hesitou.
— Não conte a ninguém — falou ele, finalmente. — Foi só uma ideia que eu tive.
— Isso foi sagaz — falou Kit. — Muito sagaz... Não creio que outra pessoa teria adivinhado sobre a estátua. Não creio que outra pessoa poderia ter feito isso.
— Mas isso pode não ter importância — falou Ty. — Nesse caso, eu teria falhado. E eu prefiro que ninguém saiba. — Ele começou a murmurar baixinho, daquele jeito que fazia às vezes.
— Eu vou saber.
Ty parou de murmurar.
— Não ligo — falou —, se for você.
Kit queria perguntar por que não, queria muito perguntar, mas era como se o próprio Ty não soubesse ao certo a resposta. E ele ainda estava murmurando, o mesmo fluxo suave de palavras que ficava em alguma parte entre um suspiro e uma canção.
— O que você está dizendo? — perguntou Kit, finalmente, sem saber se estava tudo bem em perguntar, mas incapaz de evitar a curiosidade.
Ty olhou para a lua através dos cílios. Eles eram grossos e escuros, quase infantis. E conferiam ao rosto dele uma aparência de inocência que o fazia parecer mais jovem — um efeito esquisito, o oposto de sua mente quase que assustadoramente sagaz.
— São só palavras que eu gosto — falou ele. — Quando fico repetindo-as, minha mente fica... mais calma. Isso te incomoda?
— Não! — falou Kit rapidamente. — Eu só estava curioso para saber de quais palavras você gostava.
Ty mordeu o lábio. Por um momento, Kit pensou que o menino não fosse dizer nada.
— Não é o significado, é apenas o som — falou ele. — Vidro, gêmeo, maçã, sussurro, estrelas, cristal, sombra, canção. — Ele desviou o olhar de Kit, um vulto trêmulo no moletom com capuz grande demais, os cabelos negros absorvendo o luar sem refletir a claridade.
— Sussurro seria uma das minhas também — falou Kit. Ele deu um passo na direção do outro, tocando levemente o ombro dele. — Nuvem, segredo, estrada, furacão, espelho, castelo, espinhos.
— Espinhos negros, os Blackthorn — falou Ty, com um sorriso encantador, e Kit soube, naquele instante, que não importava o que ele tivesse andado dizendo a si sobre fugir nos últimos dias: tinha sido uma mentira. E talvez tivesse sido mentira à qual Livvy andara reagindo, quando ela o interpelara com raiva diante da loja de magia aquele dia — o núcleo em seu próprio coração que lhe dissera que talvez ele ainda devesse ir embora.
Mas agora ele sabia que poderia tranquilizá-la. Ele não ia abandonar os Caçadores de Sombras. Ele não ia a parte alguma. Porque onde os Blackthorn estivessem, agora era o seu lar.

9 comentários:

  1. — Nem vou comentar — falou Julian, espalhando manteiga de amendoim e Nutella na torrada.

    ATÉ PERSONAGEM ANDA COMENDO NUTELLA!

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  2. To adorando a relação de Kit e Ty. Será que é só amizade ou algo a mais?

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  3. Que bonitinho *-*
    Ana Santos

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  4. Que bonitinho *-*
    Ana Santos

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  5. Ont ♡
    esses dois são razão fofos *-*

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  6. Só eu q tô pensando que Cristina Mark e Kieran podem acabar num relacionamento a três? Tá me confundindo mas as vezes parece que o Kieran tbm acha a Cristina atraente.

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  7. Mark e Cristina <3
    Queria muito que acontecesse.

    Não entendo as atitudes do Kieran?

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Boa leitura :)