20 de novembro de 2017

Capítulo 20

Cinco figuras caminhavam lentamente pela terra desértica. O solo era às vezes de um cinza chato, às vezes de um marrom chato, e o resto era menos interessante ainda. Era como um pântano seco, sem qualquer vegetação, coberto com uma camada de dois centímetros de poeira. Fazia muito frio.
Zaphod estava evidentemente muito deprimido com aquela paisagem. Foi se destacando dos outros e logo se perdeu de vista atrás de uma pequena elevação.
O vento fazia arder os olhos e ouvidos de Arthur, e o ar viciado e rarefeito ressecava-lhe a garganta. Porém o que estava mais impactado era sua mente.
— É fantástico... — exclamou ele, e surpreendeu-se com o som de sua própria voz. Naquela atmosfera rarefeita, o som se propagava com dificuldade.
— Quer saber o que eu acho? O fim do mundo é isso aqui — disse Ford. — Um mictório pra gatos é mais divertido. — Sua irritação crescia. Com tantos planetas em todos os sistemas estelares da Galáxia, muitos deles selvagens e exóticos, cheios de vida, depois de 15 anos de exílio, ele tinha que ir parar numa droga daquelas! Nem mesmo uma barraquinha de cachorro-quente por perto. Abaixou-se e pegou um torrão de terra fria, mas embaixo dele não havia nada que valesse a pena viajar milhares de anos-luz para ver.
— Não — insistiu Arthur —, será que você não entende? É a primeira vez que ponho os pés em outro planeta... todo um mundo diferente... É mesmo uma pena que não tenha nada pra se ver.
Trillian, toda encolhida de frio, tremia. Havia uma expressão de dúvida em seu rosto. Ela seria capaz de jurar que tinha visto um leve movimento inesperado com o canto da vista, mas quando olhou naquela direção só viu a nave, imóvel e silenciosa, uns 100 metros atrás.
Sentiu-se aliviada quando, segundos depois, viu Zaphod no alto da elevação, fazendo sinal para que os outros se aproximassem.
Ele parecia excitado, mas não dava para ouvir o que ele dizia, por causa do vento e da atmosfera rarefeita.
Ao se aproximarem da elevação, perceberam que ela parecia ser circular uma cratera de uns 150 metros de diâmetro. Ao redor da cratera havia umas coisas pretas e vermelhas. Pararam e olharam para um dos pedaços. Era úmido. Tinha a consistência de borracha.
Horrorizados, descobriram que era carne de baleia fresca. Na beira da cratera, encontraram Zaphod.
— Vejam — disse ele, apontando para dentro da cratera.
No centro via-se a carcaça arrebentada de um cachalote que não vivera o suficiente para se decepcionar com a sua condição. O silêncio foi perturbado apenas pelos leves espasmos involuntários da garganta de Trillian.
    Acho que é bobagem enterrá-la, não é? — murmurou Arthur, e logo se arrependeu de ter falado.
— Venha — disse Zaphod, e foi descendo rumo ao centro da cratera.
— O quê? Ir aí? — disse Trillian, com extrema repulsa.
— É — disse Zaphod. — Venham. Quero mostrar uma coisa.
— Dá pra ver daqui — disse Trillian.
— Não, é outra coisa — disse Zaphod. — Venham. Todos hesitaram.
— Vamos! — insistiu Zaphod — Eu achei a entrada.
— Entrada? — exclamou Arthur, horrorizado.
A entrada do interior do planeta! Uma passagem subterrânea. O impacto da baleia rachou o chão, e é por aí que a gente pode passar. Vamos onde homem algum pisou desde cinco milhões de anos atrás, explorar as profundezas do tempo...
Marvin mais uma vez começou a cantarolar, irônico. Zaphod deu-lhe um tabefe e ele parou.
Com arrepios de asco, todos seguiram Zaphod, descendo a encosta da cratera, esforçando-se ao máximo para não olhar o ser que a criara.
— Ah, a vida — disse Marvin, lúgubre. — Pode-se odiá-la ou ignorá-la, mas é impossível gostar dela.
No ponto em que caíra a baleia, o chão havia cedido, revelando uma rede de galerias e passagens, muitas delas obstruídas por terra e entranhas de baleia. Zaphod havia começado a desobstruir uma delas, mas Marvin era bem mais rápido nessa tarefa. Um ar úmido saía das cavernas escuras, e, quando Zaphod iluminou a passagem com uma lanterna, não se viu quase nada.
— Reza a lenda — disse ele — que os magratheanos passavam a maior parte do tempo debaixo da terra.
— Por quê? — perguntou Arthur. — Por que a superfície tornou-se muito poluída ou super povoada? Não, acho que não — disse Zaphod. — Creio que eles simplesmente não gostavam muito dela.
— Você sabe mesmo o que está fazendo? — perguntou Trillian, olhando nervosa para as trevas. — Nós já sofremos um ataque, não é?
— Escute, menina, eu garanto que a população deste planeta é de zero mais nós quatro. Vamos entrar, ô, terráqueo...
— Arthur — disse Arthur.
— Pois é, será que dava pra você ficar com esse robô e tomar conta dessa entrada?
— Tomar conta? — perguntou Arthur. — Pra quê? Você não acabou de dizer que não tem ninguém neste planeta?
— É, pois é, mas, você sabe, só por segurança, está bem? — insistiu Zaphod.
— A sua segurança ou a minha?
— Então estamos combinados. Vamos lá.
Zaphod enfiou-se na passagem, seguido de Trillian e Ford.
— Tomara que vocês não se divirtam nem um pouco — disse Arthur.
— Não se preocupe — disse Marvin. — Não há perigo de eles se divertirem. Segundos depois, eles já haviam desaparecido.
Arthur ficou andando de um lado para o outro, batendo com os pés no chão, e depois concluiu que túmulo de baleia não é um bom lugar para ficar andando e batendo com os pés no chão.
Marvin dirigiu-lhe um olhar assassino e em seguida desligou-se.
Zaphod descia rapidamente a passagem, nervosíssimo, mas tentava disfarçar o nervosismo andando depressa. Apontou a lanterna para todas as direções. As paredes eram recobertas de ladrilhos escuros e frios; no ar havia um cheiro pesado de podridão.
— Está vendo, eu não disse? — exclamou ele. — Um planeta habitado, Magrathea. — E seguiu em frente, caminhando por entre os montes de terra e detritos que enchiam o chão de ladrilhos.
Trillian, naturalmente, lembrou-se do metrô de Londres, só que ali era bem mais limpo.
De vez em quando, os ladrilhos das paredes eram interrompidos por grandes mosaicos, formando desenhos simples e angulosos, em cores vivas. Trillian parou e examinou um deles, mas não conseguiu interpretar seu significado. Dirigiu-se a Zaphod:
— Você faz alguma ideia do que representam esses símbolos estranhos? Acho que são símbolos estranhos de alguma espécie — disse Zaphod, sem sequer olhar para trás.
Trillian deu de ombros e seguiu-o.
De vez em quando havia uma porta à esquerda ou à direita. Essas portas davam para pequenos recintos que, conforme constatou Ford, continham equipamentos de computador abandonado. Ford arrastou Zaphod para dentro de um desses cubículos para mostrar-lhe o que havia lá. Trillian entrou também.
— Escute — disse Ford —, você acha que estamos em Magrathea...
— Acho — disse Zaphod —, e a voz confirmou, não é?
— Está bem. Então aceito que estamos mesmo em Magrathea, para fins de discussão. Só que até agora você não explicou como foi que descobriu este planeta. Garanto que não foi ao consultar um atlas de astronomia.
Pesquisas. Arquivos do governo. Trabalhos de detetive. Algumas intuições felizes. Fácil.
— E aí você roubou a nave Coração de Ouro pra vir até aqui?
— Roubei a nave pra procurar um monte de coisas.
— Um monte de coisas? — exclamou Ford, surpreso. — Por exemplo?
— Sei lá.
— O quê?
— Sei lá o que eu estou procurando.
— Como assim?
— Porque... porque... acho que porque... se soubessem o que eu procurava, eu não poderia procurar.
— Você está maluco?
— É uma possibilidade que ainda não excluí — disse Zaphod, em voz baixa.
— De mim mesmo só sei o que meu cérebro consegue entender nas atuais circunstâncias. Que não são nada boas. Durante um bom tempo ninguém disse nada. Ford ficou olhando para Zaphod, bastante preocupado.
— Escute, meu amigo, se você quer... — começou Ford.
— Não, espere... vou lhe dizer uma coisa — disse Zaphod. — Eu vivo rodando por aí. Eu tenho uma ideia, penso em fazer uma coisa, eu vou e faço. Resolvo virar presidente da Galáxia, e pronto, é fácil. Resolvo roubar esta nave. Resolvo procurar Magrathea, e pronto, tudo acontece. É, eu vejo qual é a melhor maneira de agir e sempre acerto. É como se eu tivesse um cartão Galaxicred que sempre é aceito, embora eu nem precise mandar o cheque. E aí, quando eu paro e penso: por que eu quis fazer isso? Como foi que eu consegui? — aí eu sinto uma tremenda vontade de parar de pensar nisso. Como agora, por exemplo. Tenho que fazer o maior esforço só pra conseguir falar sobre esse assunto.
Zaphod fez uma pausa. Fez-se silêncio por algum tempo. Depois Zaphod franziu as sobrancelhas e disse:
— Ontem à noite eu estava pensando nisso outra vez. Esse problema de uma parte do meu cérebro não funcionar direito. Depois me ocorreu que o que parecia era que alguém estava usando minha mente para ter boas ideias, sem me dizer nada. Juntei as duas ideias e concluí que talvez alguém tenha reservado uma parte do meu cérebro para isso, e por isso eu não tenho acesso a ela. Aí resolvi encontrar um jeito de verificar se era isso mesmo.
“Fui ao compartimento médico da nave e me liguei ao encefalógrafo. Fiz todos os testes mais importantes com minhas duas cabeças, todos os testes que eu tive que fazer com os médicos do governo para poder ratificar minha nomeação para a presidência. Não deu nada. Quero dizer, nada de inesperado. Deu que era inteligente, cheio de imaginação, irresponsável, nada confiável, extrovertido, tudo o que vocês já sabem. Nenhuma outra anomalia. Então comecei a inventar outros testes, completamente aleatórios. Nada. Aí tentei fazer uma superposição dos resultados referentes a uma das cabeças com os da outra. Nada. Aí resolvi que era só paranoia. Antes de guardar os equipamentos, peguei a foto da superposição e olhei pra ela através de um filtro verde. Você se lembra da minha superstição em relação à cor verde quando eu era garoto? Eu sempre quis ser astronauta mercante. Ford concordou com a cabeça.
—E não deu outra — disse Zaphod. — No meio dos cérebros havia em cada um deles uma seção, e elas só estavam relacionadas uma com a outra, mas sem relação com o que estava em volta delas. Algum sacana cauterizou todas as sinapses e traumatizou eletronicamente aqueles dois pedaços do cérebro.
Ford arregalou os olhos. Trillian estava branca.
— Alguém fez isso com você? — sussurrou Ford.
— É.
— Mas você faz alguma ideia de quem foi? E por quê?
— Por quê? Tenho uns palpites, só isso. Mas sei quem foi o sacana.
— Sabe? Como?
— Porque deixaram as iniciais marcadas nas sinapses cauterizadas. De propósito, pra eu saber.
Ford olhou para ele horrorizado; estava todo arrepiado.
— Iniciais? Marcadas no seu cérebro?
— É.
— Mas quais eram as iniciais, afinal?
Zaphod olhou para ele em silêncio por um momento. Então desviou a vista.
 Z. B. — disse, em voz baixa.
Neste momento, uma porta de aço fechou-se atrás dele e o recinto começou a encher-se de gás.
— Depois eu explico — disse Zaphod, tossindo, e os três desmaiaram.

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