15 de novembro de 2017

Capítulo 20

Fevereiro de 1917

Querida irmã,
Faz três semanas e quatro dias que você foi embora. Não sei se esta carta vai chegar às suas mãos nem se as outras chegaram. O prefeito montou uma nova linha de comunicação e promete que enviará esta carta quando for avisado de que é seguro. Então, eu espero e rezo.
Chove há quatorze dias, transformando o que restava das ruas em lama, que suga as nossas pernas e arranca as ferraduras dos cascos dos cavalos. Raramente nos aventuramos além da praça: está muito frio e muito difícil, e, na verdade, eu já não quero deixar as crianças, nem por alguns minutos. Édith passou três dias sentada junto à janela depois que você foi embora, sem querer se mexer, até eu achar que ela fosse ficar doente e obrigá-la a ir para a mesa e, depois, para a cama. Ela não fala mais, vive com o olhar parado em estado de alerta, as mãos sempre agarradas à barra das minhas saias, como se esperasse que alguém viesse me levar para longe também. Temo quase não ter tido tempo de consolá-la. Já não vêm tantos alemães à noite, mas é a conta para eu ter que trabalhar todo dia até meia-noite só para alimentá-los e arrumar tudo depois que eles vão embora.
Aurélien desapareceu. Foi embora pouco depois de você. Eu soube por Madame Louvier que ele continua em St Péronne, morando com Jacques Arriège em cima do tabac, mas na verdade não tenho vontade de vê-lo. Ele não é diferente do Kommandant Hencken na traição que lhe fez. Apesar de toda a sua confiança na bondade das pessoas, não posso acreditar que, se quisesse mesmo o seu bem, Herr Kommandant a teria arrancado dos nossos braços daquele jeito, para a cidade inteira ficar sabendo dos seus supostos pecados. Não consigo ver nenhum sinal de humanidade nos atos de nenhum deles. Simplesmente não consigo.
Rezo por você, Sophie. Vejo o seu rosto quando acordo de manhã, e quando me viro, uma parte de mim se espanta pelo fato de você não estar ali no outro travesseiro, com o cabelo preso naquela trança grossa, fazendo-me rir e fazendo aparecer comida da sua imaginação. Eu me viro para chamá-la no bar e onde você devia estar só há silêncio. Mimi vai até seu quarto espiar, como se ela também esperasse encontrá-la sentada diante da sua escrivaninha, escrevendo ou olhando para o nada, com a cabeça cheia de sonhos. Você se lembra de quando ficávamos na janela imaginando o que havia além? Quando sonhávamos com fadas e princesas e aqueles nobres que poderiam vir nos resgatar? Eu me pergunto como os nossos olhos infantis veriam este lugar agora, com as suas ruas esburacadas, seus homens como espectros andrajosos e suas crianças famintas.
A cidade anda muito calma depois da sua partida. É como se a alma dela tivesse partido com você. Madame Louvier chega, perversa até o fim, e insiste em fazer todos ouvirem o seu nome. Ela discursa para quem quiser ouvir. Herr Kommandant não está entre os poucos alemães que chegam para jantar. Acho realmente que ele não consegue me olhar nos olhos. Ou, talvez, saiba que eu gostaria de atravessá-lo com a minha boa faca de cozinha e tenha decidido ficar longe.
Algumas poucas informações ainda chegam: um pedaço de papel embaixo da minha porta outro dia falava de outro surto de gripe perto de Lille, um comboio de soldados aliados capturado em Douai, gente matando os cavalos para ter carne para comer na fronteira da Bélgica. Nada de notícias de Jean-Michel.
Nada de notícias suas.
Tem dias que me sinto sepultada numa mina, como se só pudesse ouvir ecos de vozes ao longe. Todas as pessoas que amo, à parte as crianças, foram levadas para longe de mim, e eu já não sei se qualquer um de vocês está vivo ou morto.
Às vezes meu temor por causa de vocês fica tão grande que eu me vejo paralisada, isso acontece quando estou preparando uma sopa ou botando a mesa, e tenho que me obrigar a respirar, dizer a mim mesma que preciso ser forte por causa das crianças. Acima de tudo, preciso ter fé. O que Sophie faria?, pergunto a mim mesma com firmeza, e a resposta é sempre clara.
Por favor, querida irmã, tome cuidado. Não inflame mais os alemães, ainda que eles sejam os seus captores. Não se arrisque, por maior que seja o impulso.
Tudo o que importa é você voltar para nós sã e salva. Você, Jean-Michel e seu amado Édouard. Digo a mim mesma que esta carta vai chegar às suas mãos. Digo a mim mesma que talvez, apenas talvez, vocês dois estejam juntos, e não do jeito que eu mais temo. Digo a mim mesma que Deus deve ser justo, por mais que escolha brincar com nossos futuros neste dia sinistro.
Seja prudente, Sophie.
Um beijo carinhoso da sua irmã,
Hélène

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)