30 de novembro de 2017

Capítulo 20 - Cada vez mais

Diana sentou-se no pequeno cômodo acima da loja de armas e folheou a pasta que Jia lhe dera.
Desde a Guerra Maligna, ela não se sentava neste cômodo, mas ele era confortável e familiar — a colcha que sua avó tinha feito, dobrada aos pés da cama; na parede, as primeiras adagas de madeira (todas sem fio), que seu pai lhe dera para treinar; o xale da mãe, nas costas de uma cadeira. Ela usava um pijama de cetim vermelho-escuro que encontrara num baú velho e achou graça por se sentir tão bem-vestida.
A graça se perdeu rapidamente, porém, ao examinar o interior da pasta cor de creme. Primeiro, via-se a história de Zara, de como ela havia matado Malcolm, e que fora assinada por Samantha e Dane como testemunhas. Não que Diana teria acreditado que Samantha ou o irmão lhe tivessem dito que o céu era azul.
Zara alegava que os Centuriões tinham perseguido Malcolm da primeira vez que ele atacara, e que, na noite seguinte, ela havia patrulhado sem medo os arredores do Instituto até encontrá-lo de tocaia nas sombras e superá-lo na luta com espada. Ela alegou que o corpo dele desaparecera.
Dificilmente, Malcolm era do tipo que ficava-de-tocaia-nas-sombras e pelo que Diana vira da noite em que ele retornara, sua magia ainda estava funcionando. Ele nunca enfrentaria Zara com uma lâmina se pudesse explodi-la com fogo.
Mas nada disso era prova irrefutável de que ela estava mentindo. Diana franziu a testa ao virar as páginas e então se sentou ereta. Havia mais aqui do que apenas o relatório sobre a morte de Malcolm. Eram páginas e páginas sobre Zara. Dezenas de relatórios sobre seus feitos. Tudo reunidos era um pacote impressionante. E, ainda assim...
Conforme Diana lia e fazia anotações cuidadosas, um padrão começava a surgir. Todos os sucessos de Zara, todos os triunfos, ocorreram em locais sem ninguém por perto para testemunhar, a não ser seu círculo íntimo: Samantha, Dane ou Manuel. Frequentemente outras pessoas chegavam a tempo de ver o ninho do demônio vazio ou a evidência de um combate, mas não passava disso.
Não havia informações de Zara sendo ferida ou machucada em qualquer combate. Diana pensou nas cicatrizes que recebera durante a vida como Caçadora de Sombras e franziu mais a testa. E mais ainda quando chegou ao relatório de Marisol Garza Solcedo, de um ano atrás. Marisol afirmava ter salvado um grupo de mundanos de um ataque de demônio Druj em Portugal. Ela levou um soco e ficou inconsciente. Ao acordar, falou, estavam todos comemorando a destruição do Druj por Zara.
O relatório tinha sido enviado juntamente a uma declaração assinada por Zara, Jessica, Samantha, Dane e Manuel, afirmando que Marisol estava imaginando coisas. Zara, disseram, tinha matado o Druj depois de uma luta violenta: mais uma vez, Zara não tinha ferimentos.
Ela leva crédito pelo que outras pessoas fazem, pensou Diana. A janela balançou, provavelmente era o vento. Eu tenho que ir dormir, pensou ela. O relógio no Gard, novo desde a Guerra Maligna, badalara as primeiras horas da madrugada havia algum tempo. Mas ela continuara lendo, fascinada. Zara chegava depois, esperava a batalha acabar e anunciava a vitória como sua. Com o grupo dela para confirmar, a Clave acreditava no que ela dizia.
Mas se pudesse ser provado que ela não tinha matado Malcolm — de algum modo, isso mantinha Julian e os outros protegidos — então talvez a Tropa caísse em desgraça. Sem dúvida, a oferta dos Dearborn para tomar o Instituto de Los Angeles fracassaria...
A janela chacoalhou de novo. Ela ergueu o olhar e viu Gwyn do outro lado do vidro.
Ficou de pé com um grito de surpresa e fez os papéis voarem. Controle-se, falou para si. Não havia meio de o líder da Caçada Selvagem estar realmente do lado de fora da janela.
Ela piscou e olhou outra vez. Ele ainda estava lá e, conforme ela se aproximava da janela, notava que ele pairava no ar, pouco abaixo do parapeito, sobre as costas de um imenso cavalo cinza. Ele vestia couro marrom escuro, no entanto, seu capacete com chifre de cervo não era visível em parte alguma. Sua expressão era séria e curiosa.
Ele gesticulou para que ela abrisse a janela. Diana hesitou, então esticou o braço para soltar o trinco e levantou o caixilho. Ela não precisava deixá-lo entrar, concluiu. Eles poderiam simplesmente conversar pela janela.
O ar frio precipitou-se para dentro do quarto dela, bem como o cheiro de pinheiro e do ar da manhã. Os olhos bicolores estavam fixos nela.
— Milady — falou. — Eu tinha esperança de que me acompanhasse num passeio.
Diana enfiou um cacho de cabelo atrás da orelha.
— Por quê?
— Pelo prazer de sua companhia — retrucou Gwyn. Ele a espiou. — Vejo que está ricamente vestida. Esperava outro convidado?
Ela balançou a cabeça, divertida. Bem, o pijama era mesmo bonito.
— Você está linda — disse ele. — Tenho sorte.
Diana imaginava que ele não estivesse mentindo. Ele não conseguia mentir.
— Você não podia ter marcado este encontro com antecedência? — perguntou ela. — Mandado um recado, talvez?
Ele pareceu confuso. Tinha longos cílios e queixo quadrado — um rosto agradável. Um rosto belo. Diana com frequência tentava não pensar nessas coisas, pois só lhe traziam problemas, mas agora ela não conseguia evitar.
— Eu só descobrir que você estava em Idris esta madrugada — falou ele.
— Mas você não pode ficar aqui! — Ela ergueu e baixou o olhar pela Flintlock Street. Se alguém o visse...
Ele sorriu ao ouvir aquilo.
— Desde que os cascos do meu cavalo não pisem o chão de Alicante, o alarme não será soado.
Ainda assim, ela sentia uma bolha de tensão no peito. Ele a estava convidando para um encontro — ela não podia fingir que era outra coisa. E, embora quisesse ir, o medo... aquele velho medo que caminhava de mãos dadas com a desconfiança e a dor... a impedia.
Ele esticou uma das mãos.
— Venha comigo. O céu está à espera.
Ela o encarou. Ele não era jovem, mas também não parecia velho. Parecia eternamente jovem, assim como as fadas pareciam às vezes, e embora fosse sólido e introspectivo, ele trazia consigo a promessa de ar e céu. Quando você vai ter uma chance de cavalgar um cavalo fada? Diana se perguntou. Quando mais você vai ter a chance de voar?
— Você vai arrumar uma tremenda encrenca — murmurou — se eles o descobrirem aqui.
Ele deu de ombros, ainda ofertando a mão a ela.
— Então é melhor vir depressa.
Ela começou a subir pela janela.


O café da manhã estava atrasado. Kit deu um jeito de dormir umas poucas horas e de tomar um banho antes de se arrastar até a sala de jantar e encontrar todos os outros já sentados.
Bem, todos, menos Evelyn. Bridget servia o chá, com a cara fechada de sempre. Alec e Magnus, cada um com um dos filhos no colo, os apresentaram a Kit: Max era o feiticeiro azul e pequeno que estava derramando molho marrom na camisa de marca de Magnus, e Rafe era o menino de olhos castanhos que estava esmigalhando a torrada.
Kieran não estava por ali, o que não era incomum nas refeições. Mark estava sentado ao lado de Cristina, que bebia o café em silêncio. Ela estava arrumada e contida como sempre, apesar da marca vermelha no pulso. Cristina era um mistério interessante, pensou Kit, como ele, não era uma Blackthorn, mas estava irremediavelmente ligada a eles.
E então havia Livvy e Ty, que estava com os fones de ouvido. Livvy parecia cansada, mas totalmente saudável. Somente as leves olheiras de Ty demonstravam a Kir que ele não tinha sonhado com tudo que acontecera na noite anterior.
— O que nós encontramos na Casa dos Blackthorn era um cristal de alétheia — estava dizendo Ty quando Kit se sentou. — No passado, os cristais eram usados pela Clave para guardar evidências. Evidências das lembranças.
Ouviu-se um murmúrio de vozes curiosas. A voz de Cristina se elevou acima das outras — era um talento impressionante, se fazer ouvir sem sequer gritar.
— Lembranças de quê?
— De um tipo de julgamento — falou Livvy. — Em Idris, com o Inquisidor lá. Muitas famílias conhecidas: Herondale, Blackthorn, claro, Dearborn.
— Algum Lightwood?
— Um ou dois talvez fossem — Livvy franziu a testa.
— Os Herondale sempre foram famosos pela boa aparência — comentou Bridget — mas se me perguntarem, os Lightwood são os mais sexualmente carismáticos de todos.
Alec cuspiu o chá. Magnus pareceu manter uma expressão séria, mas com esforço.
— Eu deveria examinar as lembranças — falou Magnus. — Ver se reconheço alguém daquela época.
— Se Annabel tem raiva dos Caçadores de Sombras — falou Livvy — acho que tem uma boa razão para isso.
— Muita gente tem uma boa razão para ter raiva dos Nephilim — falou Mark. — Malcolm tinha também. Mas aqueles que a machucaram estão mortos e os descendentes deles não têm culpa. Esse é o problema da vingança: você acaba destruindo os inocentes junto com os culpados.
— Mas ela sabe disso? — Ty franziu a sobrancelha. — Nós não conseguimos entendê-la. Não sabemos o que ela pensa ou sente.
Ele parecia ansioso, as olheiras mais pronunciadas agora. Kit queria cruzar a mesa e pôr os braços ao redor de Ty do mesmo jeito que tinha feito na noite anterior, no telhado. Seu senso de proteção em relação ao menino estava muito intenso, de um jeito estranho e irritante. Antes ele costumava se importar com as pessoas, sobretudo seu pai, mas nunca tinha querido protegê-las.
Ele queria matar qualquer um que tentasse machucar Ty. Era um sentimento muito peculiar.
— Todos deveriam ver as cenas no cristal — anunciou Magnus. — Nesse meio-tempo, Alec e eu temos algumas novidades.
— Vocês vão se casar — falou Livvy, com um sorriso. — Eu adoro casamentos.
— Não, ainda não vamos nos casar nesse minuto — falou Alec.
Kit se perguntou por que não; era evidente que eles eram um casal comprometido. Mas isso não era da conta dele, na verdade.
— Evelyn nos deixou — falou Magnu. Por alguma razão. Ele conseguiu manter o sangue-frio, apesar de estar com o bebê choramingando em seu colo. — De acordo com Jia, o Instituto está temporariamente sob a responsabilidade de Alec.
— Há anos eles tentam me empurrar um Instituto em algum lugar — falou Alec. — Jia deve estar emocionada.
— Evelyn nos deixou? — Os olhos de Dru estavam arregalados. — Você quer dizer que ela morreu?
Magnus começou a tossir.
— Claro que não. Na verdade, ela foi visitar a tia-avó Marjorie, no interior.
— Isso é tipo quando o cão da família morre e eles dizem que ele está morando numa fazendo agora? — perguntou Kit, curioso.
Foi a vez de Alec engasgar. Kit desconfiou fortemente que ele estava rindo e tentando não demonstrar.
— De modo algum — falou Magnus. — Ela simplesmente concluiu que preferia ficar longe da agitação.
— Ela está com Marjorie — confirmou Mark. — Recebi uma mensagem de fogo sobre isso, de manhã. Ela deixou Bridget, obviamente, para ajudar com a casa.
Kit pensou no modo como Evelyn reagira à presença de fadas no Instituto. Ele podia imaginar como ela se sentira em relação aos dois feiticeiros acrescentados à situação. Provavelmente tinha deixado marcas de pneu ao sair correndo do lugar.
— Isso quer dizer que não temos que comer o nosso mingau? — perguntou Tavvy, fitando a comida acinzentada com nojo.
Magnus sorriu.
— Na verdade...
Ele estalou os dedos e uma sacola de Primrose Bakery apareceu no meio da mesa. Ela tombou e deixou muffins, croissants e bolos com glacê.
Ouviu-se um grande grito de felicidade e todos atacaram os bolos. Uma pequena guerra por cookies de chocolate foi vencida por Ty, que os dividiu com Livvy.
Max engatinhou sobre a mesa, esticando a mão para pegar um muffin. Magnus se apoiou nos cotovelos, os olhos felinos atentos.
— E depois do café da manhã — falou ele — talvez nós possamos ir à biblioteca e conversar sobre o que sabemos a respeito da presente situação.
Todos assentiram; apenas Mark o fitou com olhos ligeiramente cerrados. Kit entendeu; Magnus se livrara de Evelyn por causa deles, trouxera o café da manhã e os deixara de bom humor. Agora ia ver o que eles sabiam. Um vigarista que não fazia rodeios.
Olhando para os rostos animados ao redor da mesa, por um momento Kit odiou o o próprio pai, por destruir sua habilidade de acreditar que alguém poderia estar disposto a dar qualquer coisa a troco de nada.


Kieran achou toda a história de comer o jantar e o café da manhã em grupo bizarra e de pouco interesse. Mark ficava trazendo as refeições tão simples quanto as que Bridget conseguia preparar: carne, arroz e pão, frutas e vegetais crus.
Mas Kieran apenas beliscava. Quando Mark entrou no quarto dele após o café da manhã, o príncipe fada olhava a cidade pela janela com um nojo fatigado. Seus cabelos tinham clareado para branco-azulado, enrolando ao redor das orelhas e têmporas como a rebentação quebrando na beira da água.
— Ouça isto — falou Kieran. Ele tinha um livro aberto em seu colo.

A Terra das Fadas,
Onde ninguém fica velho, reverente e sisudo,
Onde ninguém fica velho, ladino e sábio,
Onde ninguém fica velho, nem amargo.

Ele ergueu o olhar para Mark com olhos luminosos.
— Isso é ridículo.
— Isso é Yeats — falou Mark, lhe entregando algumas framboesas. — Era um poeta mundano muito famoso.
— Ele não sabia nada sobre fadas. Ninguém fica amargo? Rá! — Kieran engoliu as framboesas e desceu do parapeito da janela. — Para onde vamos agora?
— Eu estava indo para a biblioteca — falou Mark. — Tem uma espécie de... reunião... sobre o que vamos fazer a seguir.
— Então eu gostaria de ir — falou Kieran.
A mente de Mark acelerou. Será que havia alguma razão pela qual Kieran não deveria ir? Até onde Magnus e Alec sabiam, o relacionamento com Kieran era o que ele dissesse que era. Não que fosse bom pra Kieran, nem para o relacionamento tenso entre eles, que o príncipe passasse o tempo todo no quartinho apertado, odiando os mais inventivos poetas irlandeses.
— Bem — falou Mark. — Se você tem certeza.
Quando eles entraram na biblioteca, Magnus examinava o cristal de alétheia enquanto os outros tentavam lhe pôr à par de tudo o que acontecera antes de sua chegada. O feiticeiro estava deitado em uma das mesas e erguia o cristal delicadamente.
Cristina, Ty, Livvy e Dru estavam sentados em volta da mesa comprida da biblioteca. Alec sentava-se no chão do cômodo com três crianças amontoadas em volta: os dois filhos e Tavvy, que estava encantado por ter alguém com quem brincar. O menino de sete anos explicava a Max e Rafe como tinha feito cidades e aldeias com livros, e mostrava como dava para fazer túneis para os trens passarem usando livros abertos.
Magnus fez um gesto para Mark vir olhar no cristal de alétheia, que brilhava com uma luz estranha. Os sons no cômodo ao redor diminuíram conforme Mark observava o julgamento, vendo Annabel implorar e protestar, e acompanhava os Blackthorn amaldiçoando-a com seu destino.
Quando finalmente desviou o olhar, ele se sentiu congelar por inteiro. Precisou de alguns minutos para que a biblioteca entrasse em foco outra vez. Para a surpresa de Mark, Kieran havia pegado Max e agora o segurava no ar, evidentemente encantado com a pele azul e os brotos de chifres.
Max enfiou a mão nos cabelos ondulados de Kieran e puxou. O príncipe fada apenas riu.
— Muito bem, ele muda de cor, seu feiticeirozinho com cara de nixie — falou ele. — Olhe. — E o cabelo passou de preto-azulado para um tom vivo de azul num instante. Max deu uma risadinha.
— Eu não sabia que você podia fazer isso quando quisesse — falou Mark, que sempre tinha imaginado que os cabelos de Kieran fossem um reflexo de seu humor, incontroláveis como as marés.
— Você não sabe um monte de coisas a meu respeito, Mark Blackthorn — falou Kieran, pondo Max no chão.
Alec e Magnus trocaram um olhar ao ver a cena, o tipo de olhar que fazia Mark se sentir como se eles tivessem chegado a um consenso silencioso sobre o relacionamento dele com Kieran.
— Então — falou Magnus, olhando para Kieran com algum interesse. — Você é filho do Rei Unseelie?
Kieran tinha assumido a expressão que Mark pensava ser o ar da Corte, inexpressivo e superior como cabia a um príncipe.
— E você é o feiticeiro Magnus Bane.
— O próprio — retrucou Magnus. — Mas foi fácil de adivinhar, porque só tem um de mim e cinquenta de você.
Ty pareceu confuso.
— Cinquenta filhos do Rei Unseelie — explicou Livvy. — Acho que foi uma piada.
— Não foi das melhores — falou Magnus para Kieran. — Eu peço desculpas... não sou um grande fã do seu pai.
— Meu pai não tem fãs. — Kieran se inclinou na beirada da mesa. — Ele tem súditos. E inimigos.
— E filhos.
— Os filhos são seus inimigos — falou Kieran, sem modular a voz.
Magnus o encarou com um lampejo de interesse extra.
— Muito bem — falou ele, sentando direito. — Diana explicou parte disso para nós, mas é mais complicado do que eu pensava. Annabel Blackthorn, que voltou dos mortos por causa de Malcolm, que também meio que estava morto antes, mas que agora está definitivamente morto, está com o Volume Negro. E a Rainha Seelie o quer, não é?
— Ela quer — falou Mark. — Ela foi bem clara em relação a isso.
— E ela fez um acordo com vocês — falou Alec, do cão. — Ela sempre faz acordos.
— Se nós lhe dermos o Volume Negro, ela vai usá-lo contra o Rei Unseelie — falou Mark e hesitou. Você pode confiar em Magnus e Alec, Julian tinha escrito mais cedo. Conte tudo a eles. — Ela jurou não usá-lo para nos machucar. Na verdade, prometeu ajudar. Fez de Kieran seu mensageiro. Ele vai testemunhar diante do Conselho sobre os planos do Rei Unseelie de fazer uma guerra em Alicante. Assim que a Rainha tiver o Volume Negro, ela autorizará soldados Seelie a lutarem ao lado dos Caçadores de Sombras contra o Rei, mas se quiser a ajuda dela, a Clave terá que acabar com todas as leis que proíbem cooperação com as fadas.
— Coisa que a Clave vai querer — falou Magnus. — Seria muito mais fácil travar uma guerra contra o Reino das Fadas com as fadas do nosso lado.
Mark fez que sim com a cabeça.
— Temos esperança de não apenas derrotar o Rei, mas também de esmagar a Tropa e pôr um fim na Paz Fria.
— Ah, a Tropa — falou Magnus, trocando um olhar com Alec. — Nós os conhecemos bem. Horace Dearborn e sua filha, Zara.
— Horace? — Mark estava confuso.
— Infelizmente — falou Magnus — é o nome dele. Por isso, a vida de maldades.
— Não que os Dearborn sejam os únicos da Tropa — falou Alec. — Tem um monte de preconceituosos na Clave, felizes em se reunir debaixo do guarda-chuva para expulsar os integrantes do Submundo e conceder a antiga glória da Clave.
— Glória? — Kieran ergueu uma sobrancelha. — Eles estão falando da época em que matavam livremente os integrantes do Submundo? Quando nosso sangue corria nas ruas e as casas estavam cheias de espólios de sua guerra unilateral?
— Sim — falou Magnus — mas eles não as descreveriam desse jeito.
— Liderando a Aliança, nós ouvimos falar bem mais da Tropa — emendou Alec. — Os esforços para limitar o uso da magia dos feiticeiros, para centralizar o fornecimento de sangue para os vampiros, a fim de que a Clave possa monitorá-los... essas coisas não passaram despercebidas.
— Não se deve permitir que ponham as mãos num Instituto — falou Magnus. — Isso poderia ser desastrosos. — Ele suspirou e passou as pernas pela borda da mesa. — Entendo que devamos entregar o Volume Negro à Rainha. Mas não gosto disso, sobretudo porque ele parece duplamente importante aqui.
— Você se refere ao fato de Annabel e Malcolm o terem roubado do Instituto da Cornualha — falou Ty. — E então de Malcolm tê-lo roubado outra vez, do Instituto de Los Angeles.
— Da primeira vez, eles iam negociá-lo com alguém que eles imaginavam poder protegê-los da Clave — falou Livvy. — Da segunda vez, foi com a ajuda do Rei Unseelie. Pelo menos, de acordo com Emma e Jules.
— E como foi que eles descobriram isso? — perguntou Magnus.
— Estava em um dos livros que encontraram — falou Cristina. — Um diário. Isso explica por que nós encontramos uma luva da Corte Unseelie nas ruínas da casa de Malcolm. Ele deve ter se encontrado com o Rei ou um de seus filhos ali.
— Que coisa esquisita para se escrever num diário — resmungou Magnus. — Planos traidores com o Rei Unseelie em andamento hoje, olha só.
— Mais estranho foi Malcolm ter desaparecido da Cidade do Silêncio depois do primeiro roubo — falou Mark — e deixado Annabel levar a culpa e punição.
— Por que foi estranho? — falou Livvy. — Ele era uma pessoa horrível.
— Mas ele amava Annabel — falou Cristina. — Tudo o que ele fez: os crimes, os assassinatos, todas as escolhas dele foram feitas por amor a ela. E quando ele descobriu que ela não tinha se tornado uma Irmã de Ferro, e sim assassinada por sua família, ele foi até o Rei das Fadas e pediu ajuda para trazê-la de volta. Não se lembram?
Mas se lembrava, a história no livro antigo que Tavvy encontrara e que, no fim das contas, era verdade.
— O que explica por que Malcolm invadiu o Instituto de Los Angeles para pegar o livro, há cinco anos — falou ele. — Para trazer Annabel de volta. Mas para quê ele realmente o quereria duzentos anos antes? Com quem ele estava planejando trocá-lo? A maioria dos necromantes não poderia ajudá-lo com proteção. E se fosse um feiticeiro, deveria ter sido um mais forte do que o próprio Malcolm.
— O poderoso aliado de Face — falou Ty, citando a cena do cristal.
— Nós não achamos que poderia ter sido o Rei Unseelie? — falou Livvy. — Nas duas vezes?
— O Rei Unseelie não odiava os Caçadores de Sombras em 1812 — falou Magnus. — Pelo menos, não tanto assim.
— E Malcolm disse a Emma que, quando ele foi até o Rei Unseelie, após descobrir que Annabel não estava morta, pensou que o Rei o mataria, pois não gostava de feiticeiros — lembrou Cristina. — Ele não teria motivos para não gostar de feiticeiros se já tivesse trabalhado com Malcolm antes, teria?
Magnus ficou de pé.
— Muito bem, já chega de adivinhação. Nós temos duas tarefas para hoje. Primeiro, não devemos perder de vista o feitiço de amarração sobre Mark e Cristina. É mais do que um mero aborrecimento; é um perigo para ambos.
Mark não conseguiu evitar dar uma olhadela para Cristina. Ela estava fitando a mesa, e não a ele. Ele se lembrou da noite anterior, do calor do corpo dela ao lado dele na cama, da sua respiração no seu ouvido.
Mark voltou à realidade com um susto, ao notar que estavam discutindo aonde iam para obter os ingredientes para um feitiço antiamarração.
— Depois do que aconteceu no Mercado das Sombras ontem — acrescentou Magnus — nenhum de nós será bem-vindo lá outra vez. No entanto, tem uma loja aqui em Londres que vende o que eu preciso. Se eu der o endereço, será que Kit, Ty e Livvy serão capazes de encontrá-la?
Livvy e Ty concordaram com uma comemoração, nitidamente empolgados por ter uma missão. Kit estava mais quieto, mas deu um sorrisinho. Por alguma razão, o mais jovem dos Herondale tinha se tornado tão ligados aos gêmeos que até Magnus pensava neles como uma equipe.
— Você realmente acha prudente eles irem? — interrompeu Mark. — Depois do que aconteceu ontem, com eles se esgueirando até o Mercado das Sombras e quase matando Livvy?
— Mas Mark... — protestou Ty.
— Bem — falou Magnus — você e Cristina deveriam ficar no Instituto. Feitiços de amarração são perigosos e vocês não precisariam ficar muito longe um do outro. Alec é o diretor do Instituto; ele deveria ficar aqui e, de qualquer forma... o proprietário da loja tem um certo, digamos assim, histórico comigo. É melhor eu não ir.
— Eu poderia ir — falou Dru, baixinho.
— Não sozinha, Dru — falou Mark — e estes três — ele indicou Kit, Ty e Livvy — vão meter você em encrenca.
— Eu posso botar um feitiço de rastreamento em um deles — falou Magnus. — Se eles perambularem para fora do caminho que devem seguir, ele fará um terrível barulho que os mundanos podem ouvir.
— Encantador — falou Mark ao mesmo tempo em que os gêmeos protestaram. Kit não disse nada; ele raramente reclamava. Mark desconfiava que ele estava tramando silenciosamente para se vingar, possivelmente de todo mundo que já encontrara na vida.
Magnus examinou um grande anel azul em seu dedo.
— Vamos pesquisar na biblioteca. Mais sobre a história do Volume Negro. Nós não sabemos quem o criou, mas talvez consigamos descobrir seus proprietários anteriores, para quê ele era sado, qualquer coisa que possa apontar para quem Malcolm estava trabalhando em 1812.
— E lembre-se da coisa com a qual Julian e Emma pediram nossa ajuda — falou Cristina, dando um tapinha no celular em seu bolso. — Deve levar uns minutos para procurar...
Mark não conseguia evitar olhar para ela. Ela estava enfiando o cabelo preto atrás das orelhas e, assim que fez o gesto, a manda do suéter escorregou e ele viu a marca vermelha no pulso. Queria ir até ela, beijar a marca e passar toda a dor dela para sai mesmo.
Ele desviou o olhar, mas não antes de ver Kieran de rabo de olho. Ty, Livvy e Kit estavam saindo das cadeiras, conversando animadamente, ansiosos por sair em sua jornada. Dru estava sentada, os braços cruzados. E Magnus olhava entre Cristina, Mark e Kieran pensativamente, seus olhos felinos lentos e reflexivos.
— Nós não deveríamos precisar procurar de modo algum — falou Magnus. — Temos uma fonte primária bem aqui. Kieran, o que você sabe sobre capturar pixies?


Emma acordou tarde naquela manhã, cercada pelo calor. A luz entrava pelas janelas desprovidas de cortinas e formava desenhos nas paredes, como ondas dançantes. Através da janela, ela viu lampejos azuis de céu e da água: uma visão de feriado.
Ela bocejou, se espreguiçou — e ficou parada ao perceber por que estava tão aquecida. De algum modo, ela e Julian tinham se abraçado durante a noite.
Emma ficou congelada de pavor. Tinha passado o braço esquerdo por cima do corpo de Julian, mas não conseguia retirá-lo. Ele tinha se virado para ela, os próprios braços em torno das costas dela, apoiando-a. A bochecha dela roçava a pele macia da clavícula dele. As pernas de ambos estavam trançadas também, e o pé dela se apoiava no dele.
Aos poucos, Emma começou a se soltar. Ai, Deus. Se Julian acordasse seria muito constrangedor, e tudo estivera indo tão bem. A conversa no trem... encontrar o chalé... falar sobre Annabel... tudo estivera tão confortável. Ela não queria perder isso, não agora.
Ficou de lado e deslizou os dedos para longe dos dele — para mais perto da beirada da cama — e caiu com uma virada desajeitada. Ela aterrissou com uma pancada e um grito que acordaram Julian. Ele olhou por cima da lateral da cama, confuso.
— Por que você está no chão?
— Ouvi dizer que rolar da cama de manhã ajuda a aumentar a resistência a ataques surpresa — disse Emma, esparramando-se sobre o soalho de madeira.
— Ah, é? — Ele se sentou e esfregou os olhos. — E o que gritar “Que merda!” tem a ver com isso?
— Essa é a parte opcional — falou ela, ficando de pé com toda a dignidade que conseguiu reunir. — Então — falou. — O que é que vai ter pro café da manhã?
Ele deu um sorriso discreto e se esticou. Ela não olhou para o local onde a camisa dele subiu. Não havia razão para navegar pelo Rio dos Pensamentos Sensuais até o Mar da Perversão quando isto não levava a lugar nenhum.
— Com fome?
— Quando é que eu não estou com fome? — Ela foi até a mesa e remexeu na bolsa, caçando seu celular. Algumas mensagens de texto de Cristina. A maioria sobre como Cristina estava bem e que Emma não precisava se preocupar, e que precisava parar de mandar mensagens porque Magnus ia acabar com o feitiço de amarração. Emma enviou um emoji preocupado e deslizou a barra de rolagem.
— Alguma coisa sobre técnicas para capturar pixies? — perguntou Julian.
— Até agora nada.
Julian não disse mais nada. Emma ficou só de short e blusa de alcinha. Ela notou Julian desviando o olhar, embora não fosse nada que ele já não tivesse visto; suas roupas neste momento cobriam mais do que um biquíni. Pegou a toalha e o sabonete.
— Vou tomar um banho.
Talvez ela estivesse imaginando a reação dele. Ele apenas assentiu, foi para a cozinha e acendeu o fogão.
— Nada de panquecas — falou. — Eles não têm os ingredientes certos aqui.
— Surpreenda-me — falou Emma, e foi para o banheiro.
Quando saiu, quinze minutos depois, limpa e com os cabelos presos em duas tranças úmidas que pingavam na camiseta, Julian já havia posto a mesa com o café: torrada, ovos, chocolate quente para ela e café para ele. Ele deslizou graciosamente para uma cadeira.
— Você tem cheiro de eucalipto — falou ele, entregando um garfo a Emma.
— Tem gel de banho de eucalipto no banheiro — Emma comeu os ovos. — De Malcolm, eu acho — ela fez uma pausa — eu nunca pensei que assassinos em série tivessem gel de banho.
— Ninguém gosta de um feiticeiro porco — falou Julian.
Emma piscou.
— Algumas pessoas talvez discordassem.
— Nem vou comentar — falou Julian, espalhando manteiga de amendoim e Nutella na torrada. — Temos uma resposta para a nossa pergunta. — Ele levantou o telefone de Emma. — Instruções sobre como pegar as pixies. De Mark, mas provavelmente são mesmo de Kieran. Então, primeiro, coma e depois... caça às pixies.
— Estou tão pronta para caçar essas criaturinhas adoráveis e torturá-las — falou Emma. — TÃO PRONTA.
— Emma...
— Acho que até vou amarrar lacinhos na cabeça delas.
— Nós temos que interrogá-las.
— Posso fazer uma selfie com uma delas primeiro?
— Coma a sua torrada, Emma.


Tudo era uma porcaria, pensou Dru. Ela estava deitada debaixo da mesa, na saleta, com os braços atrás da cabeça. Alguns centímetros acima, podia ver uma mensagem riscada na madeira, já borrada devido ao passar dos anos.
O cômodo estava silencioso, somente o relógio fazia tique-taque. A quietude era um lembrete de como ela estava solitária, e também um alívio. Ninguém lhe dizendo para tomar conta de Tavvy nem perguntando se ela ia brincar de demônios e Caçadores de Sombras pela milionésima vez. Ninguém a estava mandando entregar recados ou barquinhos de papel para lá e para cá na biblioteca. Ninguém estava falando a respeito dela, e não lhe dando ouvidos.
Ninguém estava lhe dizendo que ela era jovem demais. Na opinião de Dru, idade era um questão de maturidade, não de cronologia, e ela era bem madura. Tinha oito anos quando defendera o berço do irmãozinho com uma espada. Tinha oito anos quando vira Julian matar a criatura que usava o rosto de seu pai, quando fugira pela capital de Idris, enquanto a cidade se destruía em chamas e sangue.
E ela permanecera bem calma fazia uns dias, quando Livvy tinha vindo contar que o tio Arthur jamais dirigira o Instituto; que sempre tinha sido Julian. Ela agira de modo bem casual diante da revelação, como se não fosse nada de mais, e ignorara o fato de Diana sequer ter se dado ao trabalho de convidar Dru para a reunião na qual ela aparentemente dera a notícia. Até onde Livvy sabia, parecia que a novidade era útil sobretudo para ocupar Dru com mais tarefas de babá.
Não que ela odiasse tomar conta de Tavvy. Não era isso. Era que ela sentia que merecia algum crédito quando fazia um esforço. Sem mencionar que teve que aguentar a tia-avó Marjorie chamando-a de gorda por dois meses durante o verão sem assassinar a dita cuja, o que, na opinião de Dru, era um sinal épico de maturidade e autocontrole.
Ela baixou o olhar para o próprio corpo arredondado e suspirou. Jamais fora magra. A maioria dos Caçadores de Sombras era — o treinamento de 14 horas por dia tinha esse efeito — mas ela sempre fora curvilínea e arredondada, não importava o que fizesse. Ela era forte e musculosa, seu corpo estava em forma e era hábil, mas sempre fora dotado de muito quadril, seios e fofice. Ela se resignava. Infelizmente, as tias-avós Marjorie do mundo, não.
Ela ouviu uma pancada. Alguma coisa no cômodo tinha caído. Dru congelou. Será que havia alguém aqui com ela? Ouviu uma voz baixinha xingando, não em inglês, mas em espanhol. No entanto, não podia ser Cristina. Cristina nunca falava palavrão e, além disso, a voz era masculina.
Diego? O coração de Dru quase parou de bater por causa da paixonite por Diego, e ela saiu detrás da mesa.
Não era Diego. Era um menino Caçador de Sombras mais ou menos da idade de Julian, alto e magro, com uma fartura de cabelos pretos que contrastava com a pele morena. Ele estava coberto de Marcas, mas não apenas de Marcas, havia tatuagens também: palavras subiam e desciam pelos antebraços e serpenteavam pela clavícula.
— O que... o que está acontecendo? — quis saber Dru, espanando a poeira dos cabelos. — Quem é você? O que está fazendo aqui?
Ela pensou em gritar. Qualquer Caçador de Sombras podia entrar no Instituto, claro, normalmente eles, pelo menos, tocavam a campainha.
O menino parecia assustado. Ele ergueu uma das mãos para detê-la, e ela viu o brilho do anel em seu dedo, entalhado com um desenho de rosas.
— Eu... — começou ele.
— Oh, você é Jaime — falou Dru, e ela bufou de alívio. — Você é Jaime, irmão de Diego.
A expressão do menino ficou sombria.
— Você conhece meu irmão?
Ele tinha um leve sotaque, mais perceptível do que o de Diego ou o de Cristina. Isso dava densidade à textura da voz dele.
— Um pouco — falou Dru e pigarreou. — Eu moro no Instituto de Los Angeles.
— Você é uma Blackthorn?
— Sou Drusilla — ela ofereceu a mão. — Drusilla Blackthorn. Pode me chamar de Dru.
Ele deu um tipo de risadinha seca e apertou a mão dela. A mão dele era quente.
— Um nome bonito para uma menina bonita.
Dru sentiu-se corar. Jaime não era tão perfeito e lindo como Diego Perfeito; o nariz era meio grande demais, a boca larga e se mexia demais, mas os olhos tinham um castanho brilhante, com cílios maliciosamente longos e negros. E havia alguma coisa nele, um tipo de energia que Diego não tinha, por mais bonito que fosse.
— Cristina deve ter lhe dito coisas terríveis a meu respeito — falou ele.
Ela balançou a cabeça, recuando a mão.
— Ela não falou muito sobre você para mim.
Cristina não teria falado, pensou Dru. Ela teria achado que Dru não tinha idade suficiente para ouvir tais confidências, para ser confiada a tais segredos. Dru só sabia o que as outras meninas tinham deixado escapar nas conversas.
Não que ela fosse admitir isso para Jaime.
— Isso é muito decepcionante — disse ele. — Se eu fosse ela, não seria capaz de parar a meu respeito. — Os olhos dele enrugaram nos cantinhos. — Você quer se sentar?
Sentindo-se ligeiramente agitada, Dru se sentou ao lado dele.
— Vou confiar em você — falou ele. Parecia um anúncio importante, como se ele tivesse chegado a essa conclusão ali mesmo e sentisse que era importante torná-la pública o mais rápido possível.
— Sério? — Dru não sabia ao certo se alguém já havia confiado nela antes. A maioria dos irmãos a consideravam jovem demais, e Tavvy não tinha segredos;
— Eu vim aqui para ver Cristina, mas ela não pode saber que ainda estou aqui. Tenho que me comunicar primeiro com meu irmão.
— Diego está bem? — perguntou Dru. — Da última vez que o vi... quer dizer, eu ouvi dizer que ele estava bem depois da luta com Malcolm, mas não o vi nem ouvi falar dele, e ele e Cristina...
Ela se calou.
Ele deu uma risada baixinha.
— Está tudo bem. Eu sei. Ellos terminaron.
— Terminaram — traduziu ela. — Sim.
O menino pareceu surpreso.
— Você fala espanhol?
— Estou aprendendo. Eu gostaria de ir para o Instituto da Cidade do México para o meu ano de intercâmbio, ou talvez para a Argentina para ajudar a reconstruir.
Ela viu os cílios compridos baixarem quando ele piscou.
— Você ainda não tem 18 anos, então? — falou. — Está tudo bem. Eu também não tenho.
Não estou nem perto disso. Mas Drusilla apenas sorriu, nervosa.
— O que é que você ia contar?
— Eu estou me escondendo. Não posso te contar o porquê, só que é importante. Por favor, não conte a ninguém que estou aqui até eu poder conversar com Cristina.
— Você não cometeu um crime ou alguma coisa assim, cometeu?
Ele não sorriu.
— Se eu dissesse que não, mas que talvez soubesse quem cometeu, você acreditaria em mim?
Ele a observava fixamente. Provavelmente, ela não deveria ajudá-lo, pensou. Afinal, ela não o conhecia, e pelas poucas coisas que Diego contara a respeito do irmão, ficara claro que ele considerava Jaime encrenca.
Por outro lado, aqui estava alguém disposto a confiar nela, a pôr seus planos e sua segurança nas mãos dela, em vez de mandá-la ficar quieta porque era novinha demais ou porque deveria tomar conta de Tavvy.
Ela deu um suspiro e olhou nos olhos de Jaime.
— Muito bem — falou. — Como é que você estava planejando não ser visto até poder falar com Cristina?
O sorriso dele era ofuscante. Ela se perguntava como fora capaz de pensar que ele não era tão bonito quanto Diego.
— É nisso que você pode me ajudar — falou.


Depois de ter escalado a lateral do chalé e ido para o telhado, Emma esticou a mão para ajudar Julian a subir depois dela. Mas ele rejeitou a ajuda, lançando-se facilmente para a superfície de telhas.
O telhado do chalé de Malcolm era inclinado num ângulo sutil, projetando-se na parte da frente e na detrás da casa. Emma foi até a beirada, onde ele se projetava por cima da porta.
A partir daqui, a armadilha era visível. Mark tinha lhes dito qual isca era melhor: pixies adoravam leite, pão e mel. Elas também adoravam ratos mortos, mas Emma não estava disposta e ir tão longe. Ela gostava de ratos, apesar do antagonismo profundamente arraigado de Church em relação a eles.
— E agora nós aguardamos — falou Julian, sentando-se na beira do telhado. As tigelas de leite e mel e o prato de pão estavam do lado de fora, brilhando tentadoramente em cima de uma pilha de folhas perto da trilha que dava na porta.
Emma se acomodou ao lado de Jules. O céu estava azul e sem nuvens, esticando-se até encontrava o mar mais escuro no horizonte. Barcos de pesca morosos traçavam desenhos brancos na superfície do mar e o estrondo entorpecido das ondas era um contraponto suave ao vento quente.
Ela não conseguia evitar se lembrar de todas as vezes em que ela e Julian tinha se sentado no telhado do Instituto, conversando e admirando o oceano. Uma praia totalmente diferente, talvez, mas todos os mares estavam ligados.
— Tenho certeza de que tem algum tipo de lei sobre não capturar pixies sem a permissão da Clave — falou Emma.
Lex malla, lex nulla — falou Julian com um aceno arrependido. Era o lema da família Blackthorn: uma lei ruim não é lei.
— Eu me pergunto quais são os outros lemas de família — refletiu Emma. — Você conhece algum?
— O lema da família Lightwood é “Nós temos a melhor das intenções”.
— Muito engraçado.
Julian olhou para ela.
— Não, sério, é o lema mesmo.
— Sério? Então qual é o lema dos Herondale? “Talhado, mas angustiado?”
Ele deu de ombros.
— “Se você não conhece seu sobrenome, provavelmente é Herondale”?
Emma explodiu numa gargalhada.
— E quanto a Carstairs? — perguntou ela, dando um tapinha em Cortana. — “Nós temos uma espada”? “Instrumentos sem fio são para perdedores”?
— Morgenstern — sugeriu Julian. — “Na dúvida, comece uma guerra”?
— Que tal “Algum de nós já foi bonzinho, tipo, alguma vez, sério”?
— Parece longo — falou Julian. — E meio que direto.
Os dois estavam rindo demais para falar. Emma se inclinou para a frente... e arfou, o que se misturou com a risada num tipo de tosse. Ela cobriu a boca com a mão.
— Pixies! — murmurou entre os dedos, e apontou.
Julian se moveu silenciosamente até a beira do telhado, com Emma ao seu lado. De pé, próximo à armadilha, via-se um grupo de vultos pálidos e muito magros, vestidos com trapos. Elas tinham pele quase transparente, cabelos claros como palha e pés descalços. Grandes olhos negros, sem pupilas, saltavam de rostos delicados como porcelana.
Elas eram iguais aos desenhos na parede da pousada onde eles tinham comido na véspera. Emma não tinha visto nenhuma no Reino das Fadas — na verdade, parecia que realmente tinham sido exiladas no mundo mundano.
Sem dizer uma palavra, elas caíram em cima do prato e das tigelas de pão, leite e mel — e o chão cedeu debaixo delas. A pilha frágil de galhos e folhas que Emma tinha posto sobre a boca do buraco que Julian cavara cedera, ao peso, e as pixies rolaram para dentro da armadilha.


Gwyn não fez tentativa alguma de bater papo enquanto seu cavalo voava sobre Alicante e depois sobre os bosques da Floresta Brocelind. Diana estava grata por isso. Com o vento nos cabelos, fresco e suave, e a floresta que se espalhava abaixo dela numa sombra verde-escura, ela se sentia mais livre do que já se sentira no que parecia muito tempo. Conversar teria sido uma distração.
A aurora deu lugar à luz do dia enquanto ela observava o mundo precipitando-se abaixo: o súbito clarão de água, as formas graciosas dos abetos e pinheiros. Quando Gwyn apontou a cabeça do cavalo para baixo e começou a descer, ela sentiu uma pontada de decepção e um lampejo súbito de afinidade com Mark. Não era de se admirar que sentisse falta da Caçada; não era de se admirar que, mesmo estando de volta à sua família, sentisse saudade do céu.
Eles aterrissaram numa pequena clareira de tílias. Gwyn desceu do dorso do cavalo e ofereceu a mão a Diana para que ela descesse até o chão: o musgo verde e denso era macio sob os pés descalços. Ela caminhou por entre as flores brancas e admirou o azul do céu enquanto ele estendia uma toalha de linho e arrumava comida tirada de seu alforje.
Ela não conseguiu controlar a vontade de rir; lá estava ela, Diana Wrayburn, da respeitável e cumpridora da lei família Wrayburn, prestes a fazer um piquenique com o líder da Caçada Selvagem.
— Venha — falou ele depois de terminar e se sentar no chão. O cavalo se afastou para pastar na beira da clareira. — Você deve estar faminta.
Para surpresa de Diana, ela descobriu que estava mesmo — e mais faminta ainda depois de provar a comida: frutas deliciosas, carne curada, pão rústico e mel, além de taças de um vinho cujo sabor remetia à aparência dos rubis.
Talvez fosse o vinho, mas ela descobriu que Gwyn, apesar da natureza quieta, era alguém com quem a conversa fluía facilmente. Ele perguntou coisas a respeito dela, embora não sobre seu passado; suas paixões, interesses e sonhos. Ela se flagrou contando a ele sobre seu amor pelo ensino, que um dia queria lecionar na Academia. Ele perguntou sobre os Blackthorn e se Mark estava se adaptando, e assentiu solenemente ao ouvir as respostas.
Ele não era belo à maneira de muitas fadas, mas ela achava seu rosto mais agradável por isso. O cabelo era castanho e volumoso, as mãos, grandes, hábeis e fortes. Havia cicatrizes em sua pele; no pescoço e no peito, e nas costas das mãos — mas isto a fez pensar nas próprias cicatrizes e no fato de ser uma Caçadora de Sombras. Era um conforto em sua familiaridade.
— Por que não há mulheres na Caçada Selvagem? — perguntou ela. Era uma coisa que Diana tinha se perguntado.
— As mulheres são muito selvagens — falou ele com um sorriso. — Nós ceifamos os mortos. Descobriu-se que quando as Damas de Rhiannon corriam com a Caçada, não estavam dispostas a esperar que os mortos estivessem mortos.
Diana riu.
— Rhiannon. O nome é familiar.
— As mulheres deixaram a Caçada e se tornaram Adar Rhiannon. As aves de Rhiannon. Alguns as chamam de “Valquírias”.
Ela sorriu tristemente para ele.
— Fadas podem ser adoráveis — falou ela. — E ainda assim tão terríveis.
— Você está pensando em Mark?
— Mark ama sua família. E eles estão felizes por tê-lo de volta. Mas ele sente falta da Caçada. O que é difícil de entender às vezes. Quando ele voltou para nós, estava tão machucado, no corpo e na mente.
— Muitos Caçadores de Sombras estão machucados — falou ele. — Isso não significa que não querem mais ser Caçadores de Sombras.
— Não sei ao certo se é a mesma coisa.
— Não sei ao certo se é tão diferente. — Ele se reclinou contra uma grande rocha acinzentada. — Mark era um bom Caçador de Sombras, mas seu coração não estava nisso. Não é das Caçada que ele sente falta, mas da liberdade do céu aberto, e talvez de Kieran.
— Você sabia que eles tinham brigado — falou Diana — mas quando veio até nós, estava seguro de que Mark o salvaria.
— Caçadores de Sombras sempre querem salvar alguém. E mais ainda quando há amor.
— Você acha que Mark ainda ama Kieran?
— Acho que não se pode arrancar o amor inteiramente. Acredito que onde houve amor, sempre haverá brasas, como os resquícios de uma fogueira preservando a chama.
— Mas elas morrem um dia. Tornam-se cinzas.
Gwyn inclinou o corpo para a frente. Seus olhos, azul e preto, estavam fixados nela.
— Você já amou?
Ela balançou a cabeça. Podia sentir o tremor em seus nervos: a expectativa e o medo.
— Não assim. — Ela deveria lhe dizer o porquê, pensou. Mas palavras não apareceram.
— É uma pena — disse ele. — Creio que ser amado por você seria uma tremenda honra.
— Você mal me conhece — falou Diana. Eu não deveria ser afetada pelas palavras dele. Não deveria querer isso. Mas ela queria, de um modo que tinha tentado enterrar havia muito tempo.
— Eu vi quem você é, em seus olhos, na noite em que fui ao Instituto — falou Gwyn. — Sua bravura.
— Bravura — repetiu Diana. — Do tipo que mata demônios, sim, no entanto, existem muitos tipos de bravura.
Os olhos profundos dele brilharam.
— Diana...
Mas ela já estava de pé, caminhando para a beira da clareira, mais para obter alívio com o movimento do que outra coisa. O cavalo de Gwyn gemeu quando ela se aproximou, recuando.
Cuidado — falou Gwyn. Ele estava de pé também, mas não a acompanhava. — Meus cavalos da Caçada Selvagem podem ficar inquietos perto de mulheres. Eles têm pouca experiência com elas.
Diana parou por um instante, em seguida, contornou o cavalo, mantendo distância. Ao se aproximar da beira do bosque, captou um brilho de algo claro pelo canto de seu olho.
Ela se aproximou mais, de repente se dando conta de como estava vulnerável aqui, ao ar livre, sem suas armas, vestindo apenas o pijama, como é que ela concordara com isso? O que foi que Gwyn lhe dissera para convencê-la?
Eu vi quem você é.
Ela enfiou as palavras no fundo da mente e esticou uma das mãos para se apoiar no tronco estreito de uma árvore de tília. Seus olhos viram antes que sua mente pudesse processar a cena: uma visão bizarra, um círculo de nada queimado no centro de Brocelind. Terra semelhante a cinzas, árvores enegrecidas e transformada em tocos, como se ácido tivesse queimado e destruído todos os seres vivos.
— Pelo Anjo — murmurou ela.
— É a praga — disse Gwyn atrás dela, com os grandes ombros rígidos de tensão e o queixo travado. — Eu vi isso antes apenas no Reino das Fadas. É a marca de uma grande magia negra.
Havia locais queimados, brancos como cinzas, como a superfície da lua.
Diana segurou o tronco da árvore com mais força.
— Leve-me de volta — falou. — Tenho que voltar para Alicante.

4 comentários:

  1. Novo casal favorito : Diana e Gwyn <33333

    ResponderExcluir
  2. Mano, essa Diana é mto suspeita 😱
    Ana Santos

    ResponderExcluir
  3. Ela deve ter uma história muito sinistra.

    E pelo Anjo, como assim a praga está em Idris? 😱😱😱😱😱

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é! Eles conseguiram alcançar Idris! E aquele pedacinho com certeza foi um teste. E pior, que deu certo! Se a Corte Unseelie trouxer mais gente e fizer aquilo com Alicante inteira, imagina no que vai dar... o coração dos Nephilim! E as barreiras!

      Excluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)