15 de novembro de 2017

Capítulo 19

— Aceita um café?
Liv olha para a secretária.
— Obrigada.
Está sentada muito calada no sofá de couro macio, olhando sem enxergar o jornal que finge ler nos últimos quinze minutos.
Está usando um conjunto de saia e paletó, o único que tem. Possui provavelmente um corte fora de moda, mas ela precisava se sentir contida hoje, estruturada. Sente-se sem chão desde a primeira visita ao escritório dos advogados. Agora, precisa sentir que algo mais que sua coragem a está segurando.
— Henry desceu para esperá-los na recepção. Não vai demorar.
Com um sorriso profissional, a mulher gira nos saltos altos e se afasta.
É café de verdade. E deveria ser mesmo, dado o preço que ela está pagando por hora. Não havia por que entrar nessa briga na justiça, insistira Sven, sem o poder de fogo adequado. Ele consultara seus amigos nas casas de leilão e advogados conhecidos para saber quem seria o melhor profissional para ganhar o processo de restituição. Infelizmente, acrescentou, armas poderosas custam muito dinheiro. Sempre que olha para Henry Phillips, para seu novo corte de cabelo, seus belos sapatos feitos sob medida, o brilho da riqueza em seu rosto rechonchudo, a única coisa em que ela consegue pensar é: Você é rico por causa de gente como eu.
Ela ouve passos e vozes em frente ao saguão. Levanta-se, endireitando a saia, serenando a expressão. E lá está ele, usando o cachecol de lã azul, uma pasta debaixo do braço, parcialmente visível atrás de Henry, e duas pessoas que ela não reconhece. Seu olhar cruza com o dela, e ela vira o rosto rapidamente, sentindo a penugem em seu pescoço se arrepiar.
— Liv? Estamos todos aqui. Quer vir para a sala de reunião? Vou pedir que seu café seja servido lá.
Ela olha fixo para Henry, que passa por ela e abre a porta para a outra mulher entrar. Ela sente a presença de Paul, como se ele realmente exalasse calor. Ele está ali, ao lado dela. Usa jeans, como se esse tipo de reunião fosse tão relevante para ele como sair para dar uma volta.
— Enganou mais alguma mulher ultimamente para tomar os bens dela? — diz ela baixinho, tão baixinho que só ele ouve.
— Não. Ando muito ocupado roubando bolsas e seduzindo as vulneráveis.
A sala de reunião é revestida de madeira e as cadeiras, pesadas, são estofadas de couro. Uma parede é forrada de livros com encadernação em couro. Indica anos de acordos jurídicos, está impregnada de sabedoria imponente. Ela acompanha Henry, e em segundos todos se sentam, alinhados dos dois lados da mesa. Ela olha para o bloco de papel, as mãos, o café, qualquer coisa, menos Paul.
— Pois bem. — Henry aguarda o café ser servido, depois une as pontas dos dedos. — Estamos aqui para discutir a ação contra a Sra. Halston por intermédio da organização denominada TARP e tentar identificar se há alguma forma de chegarmos a algum tipo de acordo sem recorrer a medidas legais.
Ela olha para as pessoas sentadas à sua frente. A mulher está na faixa dos trinta e poucos anos. Tem um cabelo escuro que lhe cai em cachinhos em volta do rosto e uma expressão atenta. Está anotando algo num bloco. O homem ao lado dela é francês e tem os traços pesados de um Serge Gainsbourg de meia-idade.
Liv muitas vezes pensou ser possível identificar a nacionalidade de qualquer pessoa só pelas feições, sem sequer ouvi-la falar. Este homem é tão gaulês que era como se estivesse fumando um Gauloise e usando um colar de cebolas.
E lá está Paul.
— Acho que seria uma boa ideia começarmos pelas apresentações. Meu nome é Henry Phillips, e estou representando a Sra. Halston. Este é Sean Flaherty, representando a TARP, Paul McCafferty e Janey Dickinson, seus diretores. Este é Monsieur André Lefèvre, da família Lefèvre, autor da ação em conjunto com a TARP. Sra. Halston, a TARP é uma organização especializada em localizar e recuperar...
— Estou ciente — diz ela.
Ah, mas ele está muito perto dela. Bem na sua frente. Ela vê cada veia das mãos dele, o jeito com que os punhos escorregam para fora da camisa. Ele está com a camisa que usava na noite em que se conheceram. Se esticar os pés por debaixo da mesa, ela encosta nos dele. Encolhe-os com cuidado embaixo da cadeira e pega a xícara de café.
— Paul, talvez você queira explicar à Sra. Halston como surgiu essa ação.
— Sim — diz ela, com uma voz gelada. — Eu gostaria de ouvir.
Ela levanta lentamente o rosto, e Paul está com o olhar fixo nela. Ela se pergunta se ele consegue detectar quanto ela está tremendo. Sente que todos devem estar vendo isso; sua própria respiração a trai.
— Bem... eu gostaria de começar com um pedido de desculpas — diz ele. — Tenho consciência de que esta ação deve ter sido recebida com grande surpresa. É uma pena. O triste é que não há como fazer essas coisas de uma maneira simpática.
Paul olha diretamente para Liv. Ela sente que ele aguarda um cumprimento seu, algum sinal. Por baixo da mesa, ela aperta os joelhos, enterrando as unhas na pele para ter algo em que se concentrar.
— Ninguém quer tomar algo que pertence legalmente a outra pessoa. E a nossa intenção não é essa. Mas existe o fato de que, durante a guerra, foi cometida uma injustiça. Os alemães se apoderaram de um quadro de Édouard Lefèvre, A garota que você deixou para trás, que era um objeto de estimação da mulher dele.
— O senhor não tem conhecimento disso — diz ela.
— Liv. — Há um tom de advertência na voz de Henry. — Conseguimos uma prova documental, o diário de uma vizinha de Madame Lefèvre, que sugere que um retrato da mulher do artista foi roubado ou obtido por coerção por um Kommandant alemão que, na época, residia na região. Ora, este caso é inusitado no sentido de que grande parte do trabalho que fazemos baseia-se em perdas sofridas na Segunda Guerra Mundial, e acreditamos que o roubo inicial ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial. Mas a Convenção de Haia ainda é válida.
— Então, por que agora? — pergunta ela. — Quase cem anos depois de você dizer que foi roubada. É conveniente que Monsieur Lefèvre apareça quando ela está valendo muito mais dinheiro, não acha?
— O valor é irrelevante.
— Ótimo, se o valor é irrelevante, eu compenso o senhor. Agora mesmo. Quer que eu lhe dê o que pagamos pelo quadro? Porque eu ainda tenho o recibo. Quer aceitar essa quantia e me deixar em paz?
A sala fica em silêncio.
Henry toca no braço de Liv. Ela segura a caneta com tanta força que os nós de seus dedos ficam brancos.
— Se me permitem interromper — diz ele suavemente. — O objetivo desta reunião é apresentar soluções para a questão e ver se alguma delas seria aceitável.
Janey Dickinson cochicha algo com André Lefèvre. Ela ostenta a calma estudada de uma professora primária.
— Tenho que dizer que, no que toca à família Lefèvre, a única solução aceitável é a devolução do quadro que lhe pertence — diz ela.
— Só que o quadro não lhe pertence — diz Liv.
— Pela Convenção de Haia, pertence — diz ela calmamente.
— Isso é uma piada!
— É a lei.
Liv ergue os olhos, e Paul está olhando para ela com uma expressão impassível, mas sugerindo um pedido de desculpas no olhar. Para quê? Esse bate-boca numa mesa de mogno envernizada? Uma noite roubada? Um quadro roubado? Ela não tem certeza. Não olhe para mim, ela lhe diz em silêncio.
— Talvez... — diz Sean Flaherty. — Talvez, como Henry diz, a gente possa pelo menos delinear algumas das soluções possíveis.
— Ah, pode delineá-las — diz Liv.
— Há alguns precedentes em tais casos. Um é que a Sra. Halston tem liberdade para extinguir a ação. Isso significa, Sra. Halston, que a senhora pagaria à família Lefèvre o valor do quadro e o conservaria.
Janey Dickinson não levanta os olhos do bloco.
— Como já afirmei, a família não está interessada em dinheiro. Ela quer o quadro.
— Ah, certo — diz Liz. — Acha que nunca negociei nada antes? Que não sei o que é um ataque aberto?
— Liv — torna a dizer Henry —, se pudéssemos...
— Eu sei o que está acontecendo aqui. “Ah, não, não queremos dinheiro.” Até chegarmos a um valor equivalente a um prêmio da loteria. Então, de alguma forma, todo mundo consegue superar os ressentimentos.
— Liv... — diz Henry, baixinho.
Ela dá um suspiro. Embaixo da mesa, suas mãos tremem.
— Há ocasiões em que se chega a um acordo para dividir o quadro. No caso do que chamamos bens indivisíveis, como este, vamos admitir, é complicado. Mas já houve casos em que as partes concordaram em, digamos, compartilhar a propriedade de uma obra de arte, ou concordaram em ter dela a posse conjunta, mas permitem que ela seja exibida numa galeria importante. Isso, naturalmente, é acompanhado de avisos informando os visitantes tanto do roubo no passado quanto da generosidade dos últimos donos.
Liv faz um gesto negativo de cabeça, muda.
— Há a possibilidade de leilão e divisão, onde nós...
— Não — dizem Liv e Lefèvre em uníssono.
— Srta. Halston.
— Sra. Halston — corrige Liv.
— Sra. Halston. — Paul endurece o tom. — Sou obrigado a informá-la de que a possibilidade de ganharmos a ação é muito grande. Temos muitas provas a favor da restituição, e um corpo de precedentes que dá peso à nossa causa. Para o seu bem, sugiro que pense bem sobre a questão do acordo.
A sala fica em silêncio.
— Isso é para me assustar? — pergunta Liv.
— Não — diz Paul devagar. — Mas devo lembrar-lhe de que é melhor para todos que isso seja resolvido amigavelmente. A questão não vai desaparecer. Eu... nós não vamos desaparecer.
Liv se lembra de repente daquele braço apoiado em sua cintura nua, aquele cabelo castanho descansando em seu seio esquerdo. Ela se lembra dos olhos dele, sorrindo, à meia-luz.
Empina um pouco o queixo.
— Ela não lhe pertence — conclui. — Nos vemos no tribunal.

* * *

Estão na sala de Henry. Liv tomou uma grande dose de uísque. Nunca havia bebido uísque durante o dia, mas Henry lhe serviu um, como se isso fosse absolutamente esperado. Ele aguarda alguns minutos enquanto ela bebe uns goles.
— Tenho que lhe avisar, vai ser uma ação cara — diz, recostando-se na cadeira.
— Cara quanto?
— Bem, em muitos casos, a obra de arte teve que ser vendida depois da ação simplesmente para pagar as custas legais. Houve o autor de uma ação há pouco tempo em Connecticut que recuperou obras roubadas no valor de vinte e dois milhões de dólares. Mas eles deviam mais de dez milhões em custas legais só a um advogado. Precisaremos pagar peritos, especialmente peritos legais franceses, por causa do histórico do quadro. E esses casos podem se arrastar, Liv.
— Mas eles têm que pagar as nossas despesas se ganharmos, não têm?
— Não necessariamente.
Ela digere isso.
— Bem, estamos falando de quê? Cinco dígitos?
— Eu contaria com seis. Depende do poder de fogo deles. Eles têm precedentes do lado deles. — Henry dá de ombros. — Podemos provar que você tem direitos. Mas parece que há furos na história desse quadro, e se eles tiverem prova de que ele foi retirado durante a guerra, então...
— Seis dígitos? — diz ela, levantando-se e se pondo a andar de um lado para o outro na sala. — É inacreditável. É inacreditável que alguém possa simplesmente chegar na minha vida e exigir levar algo que me pertence. Uma coisa que é minha desde sempre.
— Os argumentos dele estão longe de ser irrefutáveis. Mas tenho que ressaltar que o clima político favorece os autores da ação no momento. A Sotheby’s vendeu trinta e oito dessas obras ano passado. Dez anos antes, não vendeu nenhuma.
Ela se sente elétrica, suas terminações nervosas ainda dando choque depois do embate.
— Ele... eles não vão ficar com ela — diz.
— Mas o dinheiro. Você insinuou que já está apertada.
— Faço outra hipoteca — diz ela. — Tem alguma coisa que eu possa fazer para segurar as custas?
Henry se debruça na mesa.
— Se optar por entrar nessa briga, há muita coisa que pode fazer. Principalmente, quanto mais puder descobrir a respeito da origem do quadro, tanto mais forte será a nossa posição. Do contrário, tenho que colocar uma pessoa aqui para isso e cobrar-lhe pelas horas trabalhadas, e isso sem o custo de testemunhas especialistas quando formos para a justiça. Se você puder fazer isso, a gente vê em que pé está, e eu estudo instruir um advogado para atuar no tribunal.
— Vou começar a pesquisa.
Ela fica relembrando a certeza na voz deles. Nossos argumentos são muito fortes. Temos um corpo de precedentes que dá peso à nossa causa. Vê a expressão de Paul, sua preocupação fingida: É melhor para todos que isso seja resolvido amigavelmente.
Ela bebe o uísque e desanima um pouco. Sente-se de repente muito só.
— Henry, o que você faria? Se estivesse no meu lugar, quero dizer.
Ele junta as pontas dos dedos e as encosta no nariz.
— Acho que essa é uma situação terrivelmente injusta. Mas Liv, pessoalmente, eu pensaria duas vezes se entraria na justiça. Esses casos podem ficar... feios. Talvez valha a pena você refletir um pouco mais sobre a possibilidade de fazer um acordo.
Ela continua vendo o rosto de Paul.
— Não — diz corajosamente. — Eles não vão ficar com ela.
— Mesmo que...
— Não.
Ela sente os olhos dele observando-a enquanto recolhe seus pertences e sai da sala.

* * *

Paul digita o número pela quarta vez, coloca o dedo em cima do botão ligar, depois muda de ideia e enfia o telefone no bolso de trás. Do outro lado da rua, um homem de terno discute com um guarda de trânsito, gesticulando descontroladamente enquanto o guarda olha para ele impassível.
— Você vem almoçar? — Janey aparece à porta. — Nossa reserva está marcada para a uma e meia.
Ela deve ter acabado de pôr perfume. Dá para sentir o cheiro pungente no ar, mesmo do seu lado da mesa.
— Você realmente precisa de mim no almoço?
Ele não está a fim de conversa fiada. Não quer ser simpático, detalhar o espantoso histórico de recuperações. Ele não quer se ver sentado ao lado de Janey, senti-la se encostando nele quando ri, o joelho virado para o dele. E, acima de tudo, não gosta de André Lefèvre, com aqueles olhos desconfiados e aquela boca virada para baixo. É raro sentir uma antipatia tão imediata por um cliente.
— Posso perguntar quando se deu conta de que o quadro estava desaparecido? — perguntara.
— Descobrimos por meio de uma auditoria.
— Então, pessoalmente, não sentiu falta da tela.
— Pessoalmente? — Ele dera de ombros ao ouvir a palavra usada daquela maneira. — Por que outra pessoa tem que lucrar financeiramente com uma obra que devia estar em nossa posse?
— Por que você não quer vir? — diz Janey. — O que mais você tem para fazer?
— Pensei em botar a papelada em dia.
Janey deixa o olhar pousar sobre ele. Ela está de batom. E salto. E tem boas pernas, sim, pensa ele distraído.
— Precisamos desse caso, Paul. E precisamos dar a André a convicção de que vamos vencer.
— Nesse caso, acho que o meu tempo seria mais bem empregado estudando o contexto do que almoçando com ele. — Paul não olha para ela. Sua mandíbula parece imobilizada num ângulo obstinado. Ele andou azedo com todo mundo a semana toda. — Leve a Miriam — diz. — Ela merece um bom almoço.
— Acho que o nosso orçamento não dá para mimar as secretárias sempre que desejamos.
— Não vejo por que não. E Lefèvre poderia gostar dela. Miriam? Miriam? — Paul mantém os olhos fixos nos de Janey e recosta-se na cadeira.
A moça coloca a cabeça no vão da porta, com a boca cheia de sanduíche de atum.
— Sim?
— Você gostaria de ir no meu lugar a um almoço com Monsieur Lefèvre?
— Paul, nós... — Janey contrai os lábios.
Miriam olha de um para o outro. Engole o que tem na boca.
— É muita gentileza. Mas...
— Mas a Miriam está comendo um sanduíche. E tem contratos para digitar. Obrigada, Miriam. — Janey aguarda a porta fechar e contrai os lábios, pensativa. — Está tudo bem, Paul?
— Está tudo ótimo.
— Bem. — Ela não consegue disfarçar a irritação na voz. — Estou vendo que não consigo convencê-lo. Estou ansiosa para ouvir o que você descobriu sobre o caso. Tenho certeza de que será conclusivo.
Ela fica ali parada mais um pouco e depois sai. Dá para ele escutá-la falando em francês com Lefèvre quando os dois saem do escritório.
Paul fica sentado olhando para a frente.
— Ei, Miriam?
Ela reaparece, segurando o sanduíche.
— Desculpe. Foi...
— Tudo bem.
Ela sorri, empurra para dentro da boca um pedaço de pão que sobrou e acrescenta algo que ele não consegue decifrar. Não está claro se ela ouviu algo da conversa anterior.
— Alguma ligação?
Ela engole ruidosamente.
— Só o presidente da Associação de Museus, como eu disse antes. Quer que eu faça a ligação para você falar com ele?
O sorriso dele é contido, e os olhos não correspondem.
— Não, não se preocupe.
Ele a deixa fechar a porta, e seu suspiro, embora baixo, ocupa o silêncio.

* * *

Liv retira o quadro da parede. Passa os dedos de leve sobre a tela, sentindo a textura da tinta a óleo, o movimento das pinceladas, maravilhando-se com o fato de terem sido colocadas ali pela própria mão do artista, e olha para a mulher representada. A moldura dourada está lascada em alguns lugares, mas ela sempre achou isso encantador, sempre gostou do contraste entre o que era velho e ostensivamente enfeitado, e as linhas limpas e puras ao seu redor. Sempre gostou do fato de A garota que você deixou para trás ser o único objeto colorido no quarto, antigo e precioso, brilhando como uma pequena joia em frente a sua cama.
Só que agora ela não é só A garota, um pedaço de história compartilhado, uma brincadeira íntima entre marido e mulher. É agora a mulher de um artista famoso, desaparecida, possivelmente assassinada. É o último elo com um marido num campo de concentração. É um quadro desaparecido, alvo de uma ação judicial, futuro foco de investigações. Ela não sabe como se sentir em relação a essa nova versão: só sabe que já perdeu uma parte de si mesma.
O quadro... foi tomado pelos alemães.
André Lefèvre, o rosto inexpressivo e belicoso, mal se dando o trabalho de olhar para a imagem de Sophie. E McCafferty. Toda vez que ela se lembra de Paul McCafferty naquela sala de reuniões, a raiva lhe sobe à cabeça. Às vezes ela chega a arder, como se estivesse permanentemente num estado de superaquecimento. Como ela pode simplesmente entregar Sophie?
Liv tira os tênis de corrida da caixa embaixo da cama, veste a calça esportiva, enfia a chave e o telefone no bolso e sai para correr. Passa por Fran, sentada em seu caixote virado, que a observa seguir pela margem do rio, e levanta a mão à guisa de saudação. Liv não quer conversar.
É o começo da tarde, e as margens do Tâmisa estão salpicadas de funcionários de escritório vagueando depois de longos almoços, grupos de escolares, liderados e conduzidos por professoras exaustas, jovens mães entediadas escrevendo distraidamente mensagens de texto enquanto empurram carrinhos de bebês. Ela corre, desviando dessas pessoas, num passo que só diminui com a opressão em seus pulmões e uma ou outra pontada, correndo até ser apenas mais um corpo na multidão, invisível, indistinguível. Ela força o corpo. Corre até suas canelas arderem, até o suor formar um T escuro em suas costas, até seu rosto brilhar. Corre até sentir dor, até não conseguir pensar em mais nada senão no simples sofrimento físico.
Está finalmente voltando quando, passando pela Somerset House, seu telefone sinaliza uma mensagem de texto. Ela para, tira o telefone do bolso e limpa o suor que lhe arde nos olhos.

Liv. Me liga.

Liv vai meio andando meio correndo até a beira da água, e então, antes de pensar no que está fazendo, roda o braço num movimento fluido e atira o telefone no Tâmisa. O celular desaparece sem ruído, sem ninguém sequer notar, nas onduladas águas cor de ardósia que correm para o centro.

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Boa leitura :)