30 de novembro de 2017

Capítulo 19 - Os bosques cinzentos

— Eu falei para você ficar longe do Mercado das Sombras, Rook — falou Barnabas — Tem algum motivo para você não ter dado ouvidos? Falta de respeito por mim ou mera falta de respeito por integrantes do Submundo no geral?
  Uma multidão começara a se formar, uma mistura curiosa de vampiros zombeteiros, licantropes risonhos e feiticeiros de aparência cansada.
  — Você me disse para ficar longe do Mercado de Los Angeles — falou Kit — não de todos os Mercados das Sombras do mundo. Você não tem esse alcance e poder, Hale, e cabe ao dono de cada Mercado se eu fico ou se vou.
— Eu, no caso. — Era Hypatia, o rosto de traços suaves sem expressão.
— Eu pensei que você fosse um dos donos — falou Kit.
— Já é bom o bastante, e alto lá com sua impertinência. Não gosto que mintam para mim, criança. Nem gostei do fato de você ter trazido dois Nephilim para cá.
A multidão arfou, Kit se encolheu por dentro. As coisas não estavam saindo como eles queriam.
— Eles não apoiam a Paz Fria — falou ele.
— Eles votaram contra? — perguntou uma feiticeira com um anel de espinhos saindo de sua garganta.
— Nós tínhamos dez anos — falou Livvy — Éramos muito pequenos.
— Crianças — sibilou o homem de pé atrás do balcão com as fadas engaioladas. Era difícil dizer se ele falara a palavra com surpresa, desprezo ou avidez.
— Oh, ele não apenas trouxe os Nephilim com consigo — falou Barnabas com o sorriso traiçoeiro — Ele é um deles. Um espião dos Caçadores das Sombras.
— O que nós vamos fazer? — sussurrou Ty. Agora eles estavam tão juntos uns dos outros que Kit não conseguia mexer os braços, presos entre Ty e Livvy.
— Peguem suas armas — falou Kit — E se preparem para descobrir como fugir.
Para o crédito dos gêmeos, nenhum deles fez mais do que respirar fundo. Suas mão se movimentaram rapidamente no campo de visão periférica de Kit.
— Isso é mentira — falou ele — Meu pai é Johnny Rook.
— E sua mãe? — falou a voz rouca de Shade, atrás deles. Uma multidão se reuniram atrás dele também; eles não tinham como correr naquela direção.
— Eu não sei — falou Kit entre dentes. Para sua surpresa, Hypatia ergueu as sobrancelhas, como se soubesse de algo que ele não sabia. — E isso não importa… nós não viemos aqui para machucar ou espionar vocês. Nós precisamos da ajuda de um feiticeiro.
— Mas os Nephilim têm seus próprios feiticeiros de estimação — falou Barnabas —, dispostos a trair os integrantes do Submundo enquanto reviram os bolsos da Clave atrás de dinheiro. Embora depois de tudo o que vocês fizeram a Malcolm…
— Malcolm? — Hypatia se empertigou — Esses são os Blackthorn? Os responsáveis pela morte dele?
— Ele só morreu pela metade — disse Ty — Ele voltou como um tipo de demônio marinho, por um tempo. Mas agora, obviamente, está morto — emendou o menino, como se tivesse se dado conta de que tinha falado demais sem querer.
— É por isso que o Sherlock Holmes deixa o Watson falar — comentou Kit para ele com um sussurro.
— Holmes nunca deixa o Watson falar — retrucou Ty rispidamente — Watson é o reserva.
— Eu não sou o reserva — falou Kit e tirou uma faca do bolso. Ele ouviu as risadas dos licantropes, zombando das dimensões insignificantes da adaga, mas não se incomodou. — Como eu disse — falou para eles —, nós viemos aqui para conversar pacificamente com um feiticeiro e ir embora. Eu cresci nos Mercados das Sombras, não tenho segundas intenções, nem meus companheiros. Mas se vocês nos atacarem, revidaremos. E então haverá outros, outros Nephilim, que virão para nos vingar. E para quê? Que bem isso fará?
— O garoto tem razão — falou Shade — Guerras assim não beneficiam ninguém.
Barnabas gesticulou para que ele fosse embora. Seus olhos tinham um brilho fanático.
— Mas dar o exemplo, sim — falou ele — Deixar os Nephilim saberem como é encontrar os corpos amassados de seus filhos à soleira da e não haver reparação ou justiça.
— Não faça isso… — começou Levvy.
— Acabem com eles — falou Barnabas, e seu bando de lobisomens, além de alguns espectadores, foram para cima deles.


Do lado do chalé, as luzes de Polperro brilhavam feito estrelas contra a encosta escura. Dava para ouvir o movimento do mar, o som baixinho do oceano subindo e descendo, a canção de ninar do mundo.
Certamente funcionava para Emma. Apesar de todo o esforço de Julian com o chá, ela adormecera diante da lareira, com o diário de Malcolm aberto ao seu lado, e o corpo enroscado como o de um gato.
Antes de dormir, ela lera o diário em voz alta para ele. Desde o início, quando Malcolm fora encontrado sozinho, uma criança confusa que não conseguia se lembrar dos pais e não fazia ideia do que era um feiticeiro. Os Blackthorn o acolheram, até onde Julian sabia, porque pensavam que um feiticeiro poderia lhes ser útil, um feiticeiro que eles podiam controlar e extorquir. Eles tinham explicado a ele sua verdadeira natureza, e de um jeito nem pouco sutil.
Em toda a família, só Annabel demonstrara bondade para com Malcolm.
Eles exploraram os penhascos e as cavernas da Cornualha juntos quando crianças e ela mostrara a ele como eles poderiam trocar mensagens secretas usando um corvo como mensageiro. Malcolm escrevia liricamente sobre o litoral, suas mudanças e tempestades, e liricamente sobre Annabel, mesmo quando não tinha ciência dos próprios sentimentos. Ele adorava a sagacidade de raciocínio e a natureza forte dela. Adorava o senso de proteção que ela emanava — ele descreveu o jeito como ela o defendeu furiosamente ante seus primos — e, com o passar do tempo, ele começou a se encantar não apenas com a beleza de seu coração. A caneta saltava e se detinha conforme ele escrevia sobre a pele macia, o formato das mãos e da boca, sobre as vezes em que fios do cabelo dela escapavam das tranças e flutuavam ao redor como uma nuvem de sombras.
Julian quase se viu contente quando a voz de Emma falhou e ela se deitou — só para descansar os olhos, disse ela — e aí adormeceu quase imediatamente. Ele jamais imaginaria que iria sentir compaixão por Malcolm ou pensar nos dois como semelhantes, mas as palavras do feiticeiro poderiam ter sido a história da ruína de seu próprio coração.
Malcolm tinha escrito: Às vezes, alguém que você conhece desde sempre deixa de ser familiar a você, mas se torna um ser desconhecido de um jeito maravilhoso, como se você tivesse descoberto que uma praia que visitou pela vida inteira não é feita de areia, mas de diamantes, e eles cegam você com sua beleza. Annabel, você tornou minha vida, minha vida tão embotada quanto o fio de uma lâmina virgem, você a desmontou e montou novamente num formato tão estranho e maravilhoso que só consigo admirar…
Ouviu-se uma pancada alta, como se um pássaro tivesse voado diretamente para o vidro de uma das janelas. Julian sentou-se ereto e esticou a mão para a adga que havia colocado na mesinha baixa perto do sofá.
A pancada voltou, mais alta.
Julian se pôs de pé. Tinha alguma coisa do lado de fora da janela — o lampejo de uma coisa branca. Sumia, então houve uma nova pancada.
Alguma coisa batendo no vidro, como uma criança atirando pedrinhas na janela de um amigo para chamar atenção.
Julian olhou para Emma. Ela havia rolado e se deitado de costas, de olhos fechados, o peito inflando e desinflando em ritmo regular. A boca estava ligeiramente aberta, as bochechas, coradas.
Ele foi até a porta e lentamente girou a maçaneta, tentando evitar que as dobradiças rangessem. A porta se abriu e ele saiu para a noite.
Estava frio e escuro, a lua pairava sobre a água como uma pérola no fim de um cordão. Ao redor da casa, o terreno era irregular e tombava de modo quase íngreme até um dos lados do oceano. A superfície da água era escura, mas transparente, e o formato das rochas era visível através dela, como se Julian estivesse olhando através de um vidro preto.
— Julian — falou uma voz. — Julian Blackthorn.
Ele se virou. A casa estava atrás dele. A sua frente, via-se Peak Rock, a ponta do penhasco, e relva negra crescida dos espaços entre as pedras cinzentas. Ele ergueu a mão que segurava a pedra de luz enfeitiçada. A luz emanou e iluminou a menina diante dele.
Foi como se ela tivesse saído dos desenhos dele. Cabelos escuros, retos como um alfinete, um rosto oval como uma Madonna triste, emoldurado pelo capuz de uma capa imensa.  Debaixo da capa, ele via tornozelos pálidos e finos, e sapatos rachados.
— Annabel? — falou.


A faca voou da mão de Kit e cruzou a distância até a multidão que se aproximava, fincando diretamente no ombro de Barnabas Hale. O feiticeiro escamoso cambaleou para trás e caiu, gritando de dor.
— Kit! — chamou Livvy, espantada; dava para perceber que ela não sabia se ele tinha feito a coisa certa, mas ele nunca se esquecera de  uma frase de Emerson, a favorita de seu pai: Quando você atingir um rei, deve matá-lo.
Um feiticeiro era mais poderoso do que um bando de licantropos, e Barnabas era o líder deles. Duas razões para tirá-lo da luta. Mas não havia mais tempo para pensar nisso, pois os integrantes do submundo estavam em cima deles.
— Umbriel! — gritou Livvy. Uma lâmina ardente foi disparada da mão dela. A menina era um redemoinho de movimento: o treinamento com sabre a tornou veloz e graciosa. Ela girou num círculo mortal, com os cabelos açoitado ao redor. Era um lindo borrão de luz e trevas, e arcos de sangue seguiram sua lâmina.
Ty, brandindo uma espada curta, tinha recuado contra o pilar de uma das barracas, o que foi inteligente, pois a proprietária da barraca gritava com os integrantes do Submundo para que recuassem à medida que estes avançavam.
— Ei! Saiam daqui! — gritava, e as mercadorias dela começaram a voar, frascos de tinturas que respingavam nos rostos surpresos dos licantropes e vampiros.
Algumas das substâncias pareciam corrosivas — pelos menos um dos licantropes caiu para trás com um grito, apertando o rosto, que chiava.
Ty sorriu e, apesar de tudo o que estava acontecendo, isso fez com que Kit quisesse rir também. Ele guardou aquela imagem como uma lembrança para imenso, com ombros semelhantes a pilares voadores, avançava loucamente na direção dele. Ele esticou a mão e puxou uma das varetas da tenda de Shade, fazendo toda a estrutura inclinar.
Kit girou com a vareta. Não era do metal mais duro, mas era flexível, como um imenso chicote. Ele ouviu o osso esmagando contra a pele quando bateu diretamente no esterno do licantrope que pulava. Com um gemido de agonia, ele voou por cima da cabeça de Kit.
O corpo de Kit latejava, agitado. Talvez eles conseguissem fazer aquilo.
Talvez os três dessem conta de lutar e fugir daquela bagunça. Talvez fosse exatamente o que significava ter o Céu em seu sangue.
Livvy deu um grito.
Kit socou um vampiro, tirando-o do caminho com uma pancada da vareta, e girou para ver o que tinha acontecido. Um dos frascos que voou tinha se espatifado na lateral do corpo dela. Era evidente que se tratava de uma substância ácida — estava queimando através da roupa e, embora a mão dela estivesse colocada na ferida, Kit via o sangue entre os dedos dela.
Ela ainda golpeava com a outra mão, mas os integrantes do submundo tinham se afastado de Ty e Kit e estavam se deslocando na direção dela, feito tubarões sentindo o cheiro de sangue. Ela desferiu mais golpes, atingiu dois, mas como estava incapaz de defender adequadamente o próprio corpo, seu círculo de proteção estava encolhendo. Um vampiro deu um passo para mais perto, lambendo os lábios.
Kit começou a correr para ela. Ty estava a frente dele, usando a espada curta para dilacerar e abrir caminho através da multidão. O sangue tamborilava no chão aos pés de Livvy. O coração de Kit estava tenso com o pânico.
Ela caiu no exato momento em que Ty esticou a mão para pegá-la e os dois desabaram no chão: Livvy nos braços do irmão. Umbriel retiniu da mão dela.
Kit cambaleou na direção dos dois, jogou a vareta para o lado, atingindo alguns lobisomens, e se agarrou a lâmina serafim de Livvy.
Ty baixara sua espada. Agora ele segurava a irmã, que estava inconsciente, e os cabelos de Livvy se espalharam pelos ombros e peito dele. Ele pegou a estela e estava traçando uma Marca de cura na pele dela, embora sua mão estivesse trêmula e a Marca estivesse ficando meio irregular.
Kit ergueu a espada ardente. Sua luz fez os integrantes do submundo se encolherem e recuarem levemente mas ele sabia que isso não era suficiente: eles iam pressionar, e então iriam dilacerá-los, e depois iriam dilacerar Livvy e Ty. Ele viu Barnabas, com o terno encharcado de sangue, inclinando-se no braço de um guarda-costas. Os olhos fixos em kit, estavam tomados de ódio.
Não haveria misericórdia aqui.
Um lobo pulou em cima de Kit. Ele ergueu e a girou — e aí acertou o nada. O lobo tinha tombado no chão, como se tivesse sido empurrado pela mão invisível de alguém.
Houve uma lufada de vento. Os cabelos louros de Kit sopraram no rosto, e ele os afastou com a mão manchada de sangue. As tendas chacoalharam: mais jarros e frascos se quebraram. O relâmpago azul estalou e um de seus raios atingiu o solo bem na frente de Barnabas.
— Parece que cheguei bem na hora — falou uma voz sedosa.
Caminhando na direção dele estava um homem alto, com cabelo curto, preto e arrepiado. Era evidentemente um feiticeiro: seus olhos eram iguais aos de um gato, com pupilas em fenda, verdes e douradas. Ele vestia um sobretudo cor de carvão dramaticamente forrado de vermelho, que balançava atrás dele quando caminhava.
— Magnus Bane — disse Barnabas, com visível nojo — O Traidor Supremo.
— Não é o meu apelido favorito — retrucou Magnus, delicadamente mexendo os dedos na direção de Barnabas. — Eu prefiro “Nosso Lorde e Senhor” ou talvez “Inequivocamente o Mais Gostoso”.
Barnabas se encolheu.
— Esses três Nephilim vieram ao Mercado contando mentiras.
— Eles quebraram os Acordos?
Barnabas grunhiu.
— Um deles me esfaqueou.
— Qual deles? — perguntou Magnus.
Barnabas apontou para Kit.
— Negócio terrível — falou Magnus. A mão dele estava baixada junto a lateral do corpo. Furtivamente, ele levantou o polegar na direção de Kit — Isso foi antes ou depois de você atacá-los?
— Depois — retrucou Kit.
Um dos guarda-costas de Barnabas foi até ele; ele mostrou sua lâmina. Desta vez, o raio que se bifurcava da mão de Magnus estalou como um fio elétrico caído aos pés deles.
— Pare — falou.
— Você não tem autoridade aqui, Bane — falou Barnabas.
— Na verdade, eu tenho sim — retrucou Magnus, — Como representante dos feiticeiros no Conselho dos Caçadores de Sombras, tenho um bocado de autoridade. Imagino que você saiba disso.
— Oh, nós sabemos o quanto o Conselho dos Caçadores de Sombras manda em você. — Barnabas estava tão furioso que a saliva escorria quando ele falava. — Sobretudo, os Lightwood.
Magnus ergueu uma sobrancelha preguiçosa.
— Isso tem a ver com meu namorado? Esta com ciúmes, Barnabas?
Kit pigarreou.
— Sr. Bane — falou ele. Kit tinha ouvido falar de Magnus Bane, todos tinham ouvido. Provavelmente ele era o feiticeiro mais famoso do mundo. Seu namorado, Alec, ajudara a criar a Aliança. juntamente a Maia Roberts e Lily Chen. — Livvy perdeu muito sangue. Ty usou uma Marca de cura, mas...
O rosto de Magnus ficou sombrio, com uma raiva genuína.
— Ela tem 15 anos: é uma criança — rosnou ele. — como vocês ousam?
— Vai nos delatar para o Concelhos, Magnus? — perguntou Hypatia, falando pela primeira vez. Ela não participava da confusão: estava inclinada contra a lateral de uma das barracas e olhava Magnus de cima a baixo. Shade parecia ter evaporado: Kit não tinha ideia de onde ele fora.
— Parece que temos duas opções — falou Magnus — Vocês lutam comigo e, acreditem, não vão vencer porque estou muito zangado e sou mais velho do que qualquer um de vocês. E então eu conto ao Conselho. Ou vocês me deixam ir embora como estas crianças Nephilim, nós não lutamos e eu não deduro vocês ao Conselho. O que acham?
— Eu fico com a dois — falou a mulher que jogara os fracos nos lobisomens.
— Ela tem razão, Barnabas — falou Hypatia. — Esqueça isso.
Barnabas estava fazendo caras e bocas, pensando. Abruptamente, ele deu meia-volta e se afastou, acompanhado pelos guarda-costas. Os outros começavam ir embora, se arrastando, desaparecendo na multidão, os ombros curvados.
Kit caiu de joelhos ao lado de Ty, que mal se mexera. Seus olhos iam de um lado a outro, os lábios quase brancos: era como se ele estivesse em choque.
— Ty — chamou Kit, hesitante, e pôs uma das mãos no braço do menino. — Ty...
Ty o afastou quase sem parecer registrar quem era. Seus braços estavam em volta de Livvy, os dedos apertavam o pulso dela; Kit se deu conta de que ele estava verificando a pulsação da menina. Era nítido que ela estava viva. Kit via o peito dela subindo e descendo. Mas, apesar disso, o irmão mantinha os dedos no pulso dela, como se as batidas do coração dela a acalmassem.
— Tiberius. — Era Magnus, se ajoelhando, sem se importar com o sangue e lama salpicando o casaco que parecia ter custado bem caro. Ele não esticou a mão nem tentou tocar Ty, apenas falou em voz baixa. — Tiberius. Sei que você pode me ouvir. Você tem que me ajudar a levar Livvy para o Instituto. Eu posso cuidar dela lá.
Ty ergueu o olhar. Ele não estava chorando, mas a coloração cinza dos olhos escureceram para um tom de carvão queimado. Ele parecia espantado.
— Ela vai ficar bem? — perguntou ele.
— Ela vai ficar bem. — A voz de Magnus era firme.
Kit esticou a mão para ajudar Tiberius a erguer Livvy e desta vez Ty permitiu ser ajudado. Quando eles se levantaram, Magnus já estava criando um Portal, um redemoinho em azul, verde e rosa, se erguendo contra as sombras das tendas e barracas do Mercado.
Ty se virou subitamente para Kit.
— Você pode levá-la? Carregar Livvy? — perguntou.
Surpreso, Kit fez que sim com a cabeça. Pois Ty deixar que ele carregasse sua irmã gêmea era um sinal de confiança que o deixou chocado. Ele ergueu Livvy, o cheiro de sangue e magia em seu nariz.
— Vamos! — chamou Magnus. O Portal estava totalmente aberto agora: Kit conseguia enxergar as formas do Instituto de Londres através dele.
Ty não se virou. Ele tinha enfiado os fones nos ouvidos com determinação e estava correndo através da alameda vazia do mercado. Seus ombros estavam curvados, como se ele estivesse se protegendo dos golpes que vinham de todos os lados, mas suas mãos estavam firmes quando ele alcançou a barraca no final, com fadas nas gaiolas. Ele começou a confiscar as gaiolas, puxando uma a uma para que abrissem. As pixies, nixies e hobgoblins saíram de dentro delas, gritando de alegria ante sua liberdade.
— Você! Você, pare com isso! — gritou a proprietária da barraca, correndo para evitar mais estragos, mas já era tarde demais. Ty jogou a última gaiola diante de si e ela se abriu com força e libertou um hobgoblin furioso e com garras, que cravou os dentes no ombro de sua antiga captora.
— Ty! — chamou Kit, e Ty correu de volta, na direção do Portal aberto.
Sabendo que o outro menino estava atrás dele, Kit deu um passo para dentro, apertando Livvy com força, e deixou que o redemoinho o capturasse.


Annabel se aproximou dele silenciosamente, os sapatos rachados silenciosos sobre a pedra. Julian não conseguia se mexer. Estava grudado no lugar de tanta descrença.
Ele sabia que ela estava viva. Ele a vira matar Malcolm. Mas, por alguma razão, nunca a imaginara tão palpável e distinta. Tão humana. Ela parecia alguém que ele poderia encontrar em qualquer lugar: em um cinema, no Instituto, na praia.
E ele se perguntava onde ela arranjara as roupas. A capa não parecia uma peça que você encontraria pendurada num varal, e ele duvidava que ela tivesse dinheiro.
As pedras altas lançaram suas sombras para baixo quando ela se aproximou dele, tirando o capuz.
— Como foi que você encontrou este lugar? — Ela quis saber. — Esta casa?
Ele esticou as mãos e Annabel parou a apenas alguns metros dele. O vento noturno levantava mechas dos cabelos dela, que pareciam dançar.
— As pixies me contaram onde vocês estavam — disse ela. — Antigamente, elas eram amigas de Malcolm e ainda sentem carinho por mim.
Ela falava sério? Julian não sabia dizer.
— Você não deveria estar aqui — falou. — Não deveria procurar por mim.
— Não tenho desejo algum de machucar ou prejudicar você — falou Julian. Ele se perguntou se seria capaz de segurá-la caso se aproximasse, embora a ideia de usar a força física para tentar pegar o Volume Negro o enojasse. E se deu conta de que não tinha imaginado como ia tirar o livro dela. Encontrá-la tinha sido a prioridade. — Mas eu vi você matando Malcolm.
— Eu me lembro deste lugar há duzentos anos — falou ela, como se ele na tivesse dito nada. O sotaque era britânico, mas tinha algo estranho, um som que Julian nunca tinha ouvido. — Parecia a mesma coisa, embora houvesse menos casas e mais navios no porto. — Ela se virou para olhar para o chalé — Malcolm construiu a casa sozinho. Com a própria magia.
— Por que você não entrou? — perguntou Julian. — Por que esperou que viesse aqui?
— Eu estou bloqueada — disse ela — Tem sangue de Malcolm nas minhas mãos. Eu não posso entrar na casa dele. — Ela se virou e encontrou Julian. — Como você poderia ter me visto matando-o?
A lua tinha saído detrás de uma nuvem. Iluminou a noite com muito brilho, emoldurado as beiradas irregulares das nuvens com luz.
— Eu vi Malcolm ressuscitar você — falou Julian. — Em um cristal da vidência da Rainha Seelie. Ela queria que eu visse.
— Mas por que a Rainha iria querer uma coisa dessas? — Ela ficou boquiaberta ao se dar conta. — Ah, para fazer você me seguir. Para fazer você querer o Volume Negro dos Mortos e todo o seu poder.
Ela enfiou a mão na capa tirou o livro. Ele era negro, um tipo denso de negro que parecia reunir as sombras em si. Estava amarrado com uma tira de couro. As palavras gravadas na capa há muito tinha desaparecido.
— Eu não me lembro de nada da minha morte — falou Annabel, baixinho, enquanto Julian fitava o livro na mãos dela. — Nem de como foi feito ou do momento posterior, quando fiquei debaixo da terra, nem de quando Malcolm soube da minha morte e perturbou meus ossos. Somente depois descobri que ele tinha passado muitos anos tentando me despertar, mas que nesse período nenhum dos feitiços que ele lançou funcionou. Meu corpo apodreceu e eu não acordei. — Ela virou o livro em suas mãos. — Foi o Rei Unseelie quem disse a ele que o Volume Negro era a chave. O Rei Unseelie foi quem lhe passou a rima e o feitiço. E foi o Rei quem disse a Malcolm quando aconteceria o ataque de Sebastian Morgenstern ao Instituto... quando o lugar estaria vazio. Tudo que o Rei pedia em troca era que Malcolm trabalhasse para ele em feitiços que enfraquecessem os Nephilim.
A mente de Julian disparou. Malcolm não mencionara a parte do Rei Unseelie na coisa toda quando contara sua versão da história aos Blackthorn.
Mas dificilmente era uma surpresa. O Rei era muito mais poderoso do que Malcolm e o feiticeiro relutaria em invocar seu nome.
— Nas Terras Unseelie, nossos poderes são inúteis — falou Julian. — As lâminas serafim não funcionam lá, nem pedras de luz enfeitiçada ou Marcas.
— Obras de Malcolm — faltou ela. — Assim como em suas Terras, então o Rei deseja que seja no mundo todo, e em Idris. Caçadores de Sombras enfraquecidos. Ele tomaria Alicante e governaria a partir de lá. Os Caçadores de Sombras se tornariam os caçados.
— Eu preciso do Volume Negro, Annabel — falou Julian. — Para impedir o Rei. Para impedir tudo isso.
Ela apenas o encarou.
— Há cinco anos — retrucou ela — Malcolm derramou sangue de Caçadores de Sombras tentando me ressuscitar.
Os pais de Emma, pensou Julian.
— Aquilo despertou minha mente, mas não o meu corpo — emendou Annabel. — O feitiço tinha funcionado pela metade. Eu estava em agonia, sabe, meio viva e presa sob a terra. Gritava minha dor em silêncio. Malcolm não podia me ouvir. Eu não podia me mexer. Ele achou que eu estivesse insensível, surda, mas ainda assim falava comigo.
Cinco anos, pensou Julia. Durante cinco anos ela ficara presa na sepultura da convergência, consciente, porém incapaz de ser ouvida, incapaz de falar, de gritar ou de se mexer.
  Julian estremeceu.
— A voz dele se infiltrava na tumba. Ele lia aquele poema sem parar. “Foi há muitos anos.” — Seu olhar era sombrio. — Ele me atraiu enquanto eu estava viva e mais uma vez quando eu estava morta. A morte é um dom, sabe. A passagem para além da dor e da tristeza. Ele me negou isso.
— Eu lamento muito — disse Julian. A lua começara a baixar no céu. Ele se perguntava se era muito tarde.
— Lamenta muito — repetiu ela com indiferença, como se as palavras não significassem nada. — Haverá uma guerra — emendou — entre o Reino das Fadas e os Caçadores de Sombras. Mas isso não é da minha conta. O que importa para mim é que você prometa nunca mais tentar pegar o Volume Negro. Esqueça-o, Julian Blackthorn.
  Ele soltou o ar pela boca. Mais um minuto e teria mentido e prometido, mas desconfiava que uma promessa para alguém como Annabel teria um peso assustador.
— Eu não posso — falei — Nós precisamos do Volume Negro. Não posso lhe dizer o porquê, mas juro que será mantido em segurança longe das mãos do Rei.
— Eu lhe disse o que o livro fez comigo — falou, e pela primeira vez ela pareceu animada, com as bochechas coradas. — Não serve para nada, além do mal. Você não deveria querê-lo.
— Eu não vou usá-lo para o mal — falou Julian. Isso era verdade, pensou ele.
— Ele não pode ser usado para outra coisa — disse ela — Destrói famílias, pessoas…
— Minha família será destruída se eu não tiver o livro.
Annabel fez uma pausa.
— Oh — falou. E então, mais delicadamente — Mas pense no que será destruído com este livro por aí, no mundo. Muito mais. Há causas mais elevadas.
— Não para mim — falou Julian.  Por mim o mundo pode virar um caos se minha família permanecer viva, pensou ele, e estava prestes a dizer isso quando a porta do chalé se abriu.
Emma estava parada à entrada. Calçava as botas desamarradas, com Cortana na mão. Os cabelos estavam bagunçados por cima dos ombros, mas a mão na espada era firme.
O olhar da menina procurou Julian, e então encontrou Annabel; ela se assustou, fitando-a, incrédula. Julian viu os lábios dela articularem o nome de Annabel assim que esta puxou o capuz por cima da cabeça e saiu correndo.
Julian começou a correr atrás dela, Emma estava apenas um segundo atrás. Mas Annabel era absurdamente rápida. Ela voou através da grama e do declive salpicado de urzes até a beira do precipício; com uma última olhada para trás, ela se lançou no ar.
— Annabel! — Julian correu até a beira do precipício, com Emma ao seu lado. Ele fitou a água, centenas de metros abaixo, imperturbável, nem mesmo uma ínfima onda. Annabel desaparecera.


Eles explodiram de volta ao Instituto, aparecendo na biblioteca. Era como cair de uma altura imensa, e Kit cambaleou e desabou de costas contra a mesa, agarrando Livvy para não deixá-la cair.
Ty havia caído de joelhos e estava se endireitando. Kit olhou no rosto de Livvy — estava cinzento, com uma tonalidade amarelada sinistra.
— Magnus… — arfou ele.
O feiticeiro, que aterrissara om destreza devido a prática, girou no mesmo instante e avaliou a situação.
— Calma — falou —, está tudo bem.
Então pegou Livvy das mãos de Kit. O menino a soltou com alívio; alguém ia cuidar da situação. Magnus Bane ia cuidar disso e não deixaria Livvy morrer.
Kit precisou de uma instante para notar que já havia alguém na biblioteca. Alguém que ele não conhecia, que agora ia até Magnus enquanto este deitava Livvy na mesa comprida. Era um jovem, mais ou menos da idade de Jace, com cabelos escuros e lisos, bagunçados como se o sujeito tivesse dormido e não tivesse se dado ao trabalho de penteá-los ao acordar. Ele vestia jeans e uma suéter desbotado, e olhou Magnus de cara feia.
— Você acordou os meninos — falou ele.
— Alec, nós meio que temos uma emergência aqui — falou Magnus.
Então aquele era Alec Lightwood. Por alguma razão, Kit tinha imaginado que ele fosse mais velho.
— Crianças pequenas despertadas do sono também são uma emergência — falou Alec — Só dizendo.
— Muito bem, empurrem a mobilha — falou o feiticeiro para Ty e Kit — Preciso de espaço para trabalhar — Ele olhou de esguelha para Alec enquanto os dois meninos afastavam cadeiras e pequenas estantes de livros — Então… onde estão as crianças?
Magnus estava tirando o casaco. Alec esticou a mão e pegou a peça que o feiticeiro jogou para ele, um movimento ensaiado que sugeria que ele estava acostumado ao gesto.
— Eu os deixei com uma menina simpática, chamada Cristina. Ela disse que gosta de crianças.
— Você deixou nossos filhos com estranhos?
— Todos os outros estão dormindo — falou Alec — Além do mais, ela conhece canções de ninar. Em espanhol. Rafe está apaixonado — Ele olhou outra vez para Kit — Pelo Anjo, que coisa estranha — disse ele num arroubo, como se não conseguissem se controlar.
Kit ficou nervoso.
— O que é estranho?
— Ele quer dizer que você parece Jace — disse Magnus — Jace Herondale.
— Meu parabatai — explicou Alec, com amor e orgulho.
— Eu conheço Jace — explicou Kit. Ele olhava Ty, que lutava para deslocar uma cadeira. Não que fosse pesada demais, mas suas mão se abriam e fechavam junto às laterais do corpo, tornando seus gestos estranhamente desajeitados e descoordenados. — Ele veio ao Instituto de Los Angeles depois que meu… depois que eles descobriram quem eu era.
— O lendário Herondale Perdido — falou Magnus. — Eu sei, eu estava começando a pensar que fosse uma fofoca inventada por Catarinha, tipo o Monstro do Lago Ness ou o Triângulo das Bermudas.
— Catarina inventou o Triângulo das Bermudas?
— Não seja ridículo, Alexander. Isso foi Ragnor. — Magnus tocou Livvy levemente no braço. Ela deu um grito. Ty largou a cadeira com a qual andara lutando e respirou fundo, trêmulo.
— Você está machucando ela — falou — Não faça isso.
  Sua voz era baixa, mas Kit notava o aço nela, e viu o garoto que o segurara e apontava a faca para ele na casa de seu pai.
Magnus apoiou as mãos na mesa.
— Vou tentar não machucá-la, Tiberius — falou — Mas posso ter que causar dor para curá-la.
  Ty parecia prestes a responder no exato momento em que a porta se abriu e Mark entrou. Ele avistou Livvy e empalideceu.
— Livvy! Lívia!
  Tentou se aproximar, mas Alec segurou seu braço. Apesar de magro, Alec era enganosamente forte. Ele puxou Mark para trás enquanto o fogo azul faiscava na mão de Magnus e ele o passava na lateral do corpo de Livvy. A manga do casaco e da camiseta pareceram derreter e revelaram um corte comprido e feio, que vertia um fluido amarelo.
Mark arquejou.
— O que está acontecendo?
— Briga no Mercado das Sombras — falou Magnus rapidamente — Lívia foi ferida com um pedaço de vidro com raiz de orias. Muito venenoso, mas curável — ele moveu os dedos pelo braço da menina e, ao fazer isso, uma luz pareceu brilhar sob a pele, como se estivesse pulsando de dentro para fora.
— O Mercado das Sombras? — quis saber Mark — Que diabos Livvy estava fazendo no Mercado das Sombras?
Ninguém respondeu. Kit sentiu como se estivesse se encolhendo por dentro.
— O que é que está acontecendo? — quis saber Ty. Suas mãos ainda se abriram junto ao corpo, como se ele estivesse tentando sacudir alguma coisa da pele. Ele alongou os ombros, girando-os para trás. Era como se a preocupação e a agitação estivesse se expressando através de uma música silenciosa que fazia seus nervos e músculos dançarem — Essa luz azul é normal?
Mark falou alguma coisa para Alec, que assentiu. Ele soltou o braço do outro menino e Mark contornou a mesa e pôs a mão no ombro de Ty. Seu irmão se inclinou na direção dele, embora não tivesse parado de se movimentar.
— Magnus é o melhor que existe — falou Alec — Magia de cura é a especialidade dele. — A voz de Alec era gentil. A voz de alguém que não estava acalmando seu tom para tranquilizar alguém, e sim que realmente sentia aquela paz. — Uma vez Magnus me curou — emendou ele — Foi veneno demoníaco; não era para eu ter sobrevivido, mas sobrevivi. Pode confiar nele.
Livvy arfou abruptamente e suas costas deram um tranco; Ty pôs a mão no seu braço, os dedos apertando-o. Então o corpo dela relaxou. A cor começou a retornar ao rosto, suas bochechas passaram do cinza-amarelado para o cor-de-rosa. Ty também relaxou visivelmente.
— O veneno se foi — falou Magnus sem rodeios. — Agora temos que cuidar da perda de sangue e do corte.
— Tem Marcas para essas duas coisas — falou Ty — Posso fazer nela.
Mas Magnus estava balançando a cabeça.
— Melhor não usá-las… Marcas tiram um pouco de força de quem as recebe — falou ele — Se ela tivesse um parabatai, nós poderíamos tentar tirar a força deles, mas ela não tem, não é?
Ty não disse nada. Seu rosto ficou imóvel e totalmente branco.
— Ela não tem — falou Kit, notando que Ty não ia dizer nada.
— Sem problema. Ela vai ficar bem — Magnus tranquilizou os dois meninos. — Mas é melhor levá-la para o quarto. Não há motivo para ela dormir nesta mesa.
— Eu vou ajudar a levá-la — falou Mark — Ty, por que você não vem com a gente?
— Alec, você poderia ir até a enfermaria?— perguntou Magnus quando Mark carregou a irmã. Pobre Livvy, pensou Kit; ela odiaria ser arrastada por ai feito um saco de batatas. — Vou dizer do que preciso.
  Alec fez que sim com a cabeça.
— Leve Kit com você — falou Magnus — Você vai querer ajuda para trazer tudo.
Kit se flagrou tranquilo em relação à ideia de conversar com Alec. O sujeito tinha um tipo de presença reconfortante: silenciosa e contida. Quando Kit e Alec saíram do cômodo, o menino olhou para onde antes Ty ficara. Ele nunca tivera irmãos nem mãe, apenas Johnny. Seu pai. Seu pai, que havia morrido e ele não achava que um dia já havia ficado do modo que Ty ficara, como se a possibilidade de alguma coisa acontecer a Livvy fosse suficiente para destruí-lo por dentro.
Talvez ele tivesse algum problema, pensou Kit ao seguir Alec para o corredor. Talvez ele não fosse dotado do tipo de sentimentos. Ele nunca tinha se perguntado muito sobre a mãe, quem ela era. Será que alguém que soubesse sentir da maneira correta se perguntaria sobre esse tipo de coisa?
— Então você conheceu Jace — falou Alec, arrastando os sapatos no carpete conforme eles caminhavam. — O que foi que você achou?
— De Jace?  — Kit estava confuso. Ele não sabia por que alguém solicitaria sua opinião sobre o diretor do Instituto de Nova York.
— Só estou jogando conversa fora — Alec esboçou um meio sorriso estranho, como se estivesse guardando alguns pensamentos para si. Eles passaram por uma porta assinalada com ENFERMARIA e entraram num cômodo grande, cheio de camas de metal antiquadas. Alec foi para trás de uma bancada e começou a remexer ali.
— Jace não se parece muito com você — falou Kit. Na parede diante dele, via-se uma mancha escura esquisita, como se a tinta tivesse borrado por cima e para os lados num formato semelhante ao de uma árvore.
— Você está desconversando — Alec empilhou ataduras no balcão. — Mas não importa. Parabatai não tem que ser parecidos. Eles só precisam se completar. Trabalhar bem juntos.
Kit pensou em Jace, todo confiança e dourado e reluzente, e Alec, todo tranquilidade silenciosa e firme.
— E você e Jace se complementam?
— Eu me lembro de quando o conheci — falou Alec. Ele encontrou duas caixas e estava jogando ataduras em uma e jarros com pó na outra. — Ele saiu de um Portal de Idris. Era muito magro, tinha hematomas e uns olhos enormes. Era arrogante também. Ele e Isabelle costumavam brigar… — Ele sorriu com a lembrança — Mas para mim, tudo em torno dele dizia: “Me ame porque ninguém mais amou.” Estava nele todinho, como impressões digitais. Ele estava preocupado em relação ao encontro com você — emendou Alec — Não está acostumado a ter parentes vivos. Ele se importava com o que você ia pensar. Queria que você gostasse dele. — Ele olhou para trás, para Kit — Tome, pegue uma caixa.
A cabeça de Kit estava girando. Ele pensou em Jace, fanfarrão, satisfeito e orgulhoso. Mas Alec falava de Jace como se o enxergasse como uma criança vulnerável, alguém que precisava de amor porque jamais o tivera.
— Mas eu não sou ninguém — falou ele, pegando a caixa cheia de ataduras. — Por que ele se importaria com o que eu penso? Eu não tenho importância. Sou um nada.
— Você tem importância para os Caçadores de Sombras — falou Alec — Você é um Herondale. Isso nunca vai ser um nada.


Com Rafe nos braços, Cristina cantava baixinho. Ele era pequenino para seus cinco anos e seu descanso era agitado. Ele se contorcia e suspirava no sono, os dedinhos morenos enroscados numa mecha do cabelo escuro. Ele a fazia se lembrar um pouco dos próprios primos pequenos, sempre querendo mais um abraço, mais um doce, mais uma cantiga antes de dormir.
Max, por outro lado, dormia feito uma pedra; uma pedra com grande olhos azuis-escuros adoráveis, e um sorriso cheio de janelinhas. Quando Cristina, Mark e Kleran desceram para encontrar Alec, Magnus e seus dois filhos na saleta do Instituto, Evelyn tinha estado lá, fazendo espalhafato sobre feiticeiros em sua casa e sobre o fato de ninguém desejar ser azul. Cristina torcia para que a maioria dos Caçadores de Sombras adultos não reagissem assim a Max — seria terrivelmente traumático para o pobrezinho.
Parecia que Alec e Magnus tinham voltado de uma viagem e encontraram os recados de Diana pedindo ajuda. Eles vieram imediatamente via Portal para o Instituto de Londres. Ao ouvir sobre o feitiço de amarração de Mark e Cristina, Magnus fora até o Mercado das Sombras local para procurar um livro que ele tinha esperança de quebrar o feitiço.
Rafe e Max, ao serem deixados numa casa estranha com somente um dos pais, choraram.
— Durma — dissera Alec melancolicamente para Rafe, levando-o para um quarto vago — Adorno.
Cristina deu uma risadinha.
— Isso significa “ornamento” — explicou ela — Não “durma”.
Alec suspirou.
— Eu ainda estou aprendendo espanhol. É Magnus quem fala.
Cristina sorriu para Rafael, que estava fungando. Ela sempre cantava para os primos pequenos dormirem, assim como sua mãe fizera; talvez Rafe gostasse disso.
— Oh, Rafaelito — falou ela para ele, oh, pequeno bebê Rafael, — Ya es hora de ir a dormir. Te gustaría que te cante una canción?
  Ele assentiu vagorosamente.
— Sí!
Cristina passou algum tempo ensinando a Alec todas as canções de ninar que conhecia enquanto ele segurava Max e ela ficava sentada com Rafe. Não muito depois disso, Magnus voltara via Portal, e aí ocorrera um bocado de pancadas e colisões na biblioteca. Alec correra para lá, mas Cristina decidira ficar onde estava até ser chamada, porque os meios dos feiticeiros eram misteriosos, e seus namorados charmosos, também.
Além disso, era bom ter alguma coisa como uma criança inofensiva para distraí-la da ansiedade. Cristina tinha certeza — relativa certeza — de que o feitiço de amarração podia ser desfeito. Mas isso a incomodava do mesmo modo, e se não pudesse? Ela e Mark seriam infelizes para sempre, amarrados por uma ligação que não queriam. E aonde eles iriam? E se ele quisesse voltar para o Reino das Fadas? Ela não poderia ir com ele.
Pensamentos em Diego a incomodavam também: ela estava achando que ia voltar do Reino das Fadas e encontrar algum recado dele, mas não havia nada. Será que alguém era capaz de desaparecer assim da vida dela duas vezes?
Ela suspirou e se inclinou para afagar o cabelo de Rafe, cantando baixinho:

Arrorró mi niño,
arrorró mi sol,
arrorró pedazo
de mi corazón.

Dorme, meu bebê
dorme, meu sol,
dorme, pedacinho
do meu coração

Alec entrara enquanto ela estava cantando, sentando-se na cama ao lado de Max, que por sua vez estava reclinado contra a parede.
— Eu já ouvi essa canção — Era Magnus, de pé à porta. Ele parecia cansado, seus olhos felinos semicerrados — Não consigo me lembrar de quem estava cantando.
Ele se aproximou e se inclinou para pegar Rafe dela. Ergueu o menino e, por um momento, a cabeça de Rafe reclinou-se contra o pescoço dele. Cristina se perguntou se isso já havia acontecido alguma vez: um Caçador de Sombras com um feiticeiro como pai.

Sol solecito, caliéntame un poquito
Por hoy, por mañana, por toda la semana,

Foi Magnus quem cantou. Cristina o fitou, surpresa. Ele tinha uma bela voz para cantar, embora ela não conhecesse a melodia. Sol, solzinho, aqueça-me um pouquinho, hoje, amanhã, por toda a semana.
— Está tudo bem, Magnus? — perguntou Alec.
— Sim, e Livvy está muito bem. Curando-se. Deve voltar ao normal amanhã. — Magnus girou os ombros para trás, alongando os músculos.
— Livvy? — Cristina se sentou ereta, alarmada — O que aconteceu com Livvy?
Alec e Magnus se entreolharam.
— Você não contou a ela? — falou Magnus em voz baixa.
— Eu não queria assustar as crianças — falou Alec — e pensei que você poderia acalmá-la melhor...
Cristina se pôs de pé com esforço.
— Livvy está machucada? Mark sabe disso?
Magnus e Alec garantiram que Livvy estava bem e que sim, Mark sabia, mas Cristina já estava com metade do corpo para fora da porta.
Ela disparou pelo corredor em direção ao quarto de Mark. Seu pulso latejava e doía — ela o ignorara, mas agora ardia em função da preocupação ela. Será que Mark estava sentindo dor, transmitida pela conexão entre eles, do mesmo modo como os parabatai sentiam às vezes o sofrimento um do outro? Ou será que o feitiço de amarração estava ficando pior, mais intenso?
A porta do quanto dele estava semiaberta, e a luz jorrava de baixo dela. Cristina o encontrou acordado, deitado na cama. Ela sentia o recorte profundo da Marca da amarração com uma pulseira no pulso esquerdo dele.
— Cristina? — Ele se sentou — Você está bem?
— Não sou eu quem se machucou — disse ela — Alec e Magnus me contaram sobre Livvy.
Ele dobrou as pernas para que houvesse espaço para ela se sentar na colcha ao lado dele. A súbita redução da dor no pulso a deixou um pouco tonta.
Ele contou sobre o que Kit, Livvy e Ty fizeram; contou sobre o cristal que encontraram na Casa dos Blackthorn, sobre a visita ao Mercado das Sombras e como Livvy tinha se machucado.
— Não posso deixar de pensar — concluiu ele — que se Julian estivesse aqui, se ele não tivesse me deixado tomando conta, nada disso teria acontecido.
— Foi Julian que disse que eles podiam ir à Casa dos Blackthorn. E a maioria de nós já realizava missões aos 15 anos. Não é sua culpa se eles desobedeceram.
— Eu não disse a eles para não ir ao Mercado das Sombras — falou Mark, estremecendo um pouco. Ele puxou a colcha de retalhos mais para os ombros, o que lhe deu o ar de um Arlequim triste.
— Você também não disse para eles não machucarem uns aos outros com facas porque eles sabem disso — falou ela acidamente — o Mercado das Sombras está fora dos limites. Proibido. No entanto… não seja muito duro com Kit. O Mercado das Sombras é o mundo que ele conhece.
— Eu não sei como cuidar deles — disse Mark. — Como eu digo a eles para obedecer as regras se nenhum de nós faz isso? Nós fomos ao Reino das Fadas, uma violação muito maior da Lei do que uma ida ao Mercado das Sombras.
— Talvez vocês todos devessem tomar conta uns dos outros — falou ela.
Ele sorriu.
Você é terrivelmente sábia.
— Kieran está bem? — perguntou ela.
— Ainda acordando, acho — respondeu Mark. — Ele perambula pelo Instituto à noite. Não tem descanso direito desde que viemos para cá... excesso de ferro frio creio. Excesso de cidade.
A gola da camiseta estava puída e frouxa. Cristina via onde começavam as cicatrizes nas costas dele, as marcas de ferimento antigas, a lembrança das facas. A colcha de retalho tinha começado a escorregar pelo ombro. Quase sem querer, ela esticou o braço para puxá-la para cima.
Sua mão roçou o pescoço de Mark, a pele nua onde o pescoço tocava o algodão da camiseta. Sua pele estava quente. Ele se inclinou para ela e Cristina sentiu o cheiro dos pinheiros das florestas.
O rosto dele estava próximo a ponto de permitir que ela distinguisse as cores diferentes das íris dos olhos de Mark. O movimento da própria respiração parecia erguê-la na direção dele.
— Você pode dormir aqui hoje? — pediu ele com voz rouca. — Vai doer menos. Para nós dois.
Os olhos inumanos reluziram por um momento e ela pensou no que Emma dissera, que, às vezes, quando olhava para ele, via imensidões, liberdade e as estradas infinitas do céu.
— Não posso — murmurou ela.
— Cristina. — Ele se ajoelhou.
Lá fora, estava muito nublado para ter luar ou luz das estrelas, mas Cristina ainda podia vê-lo, os cabelos claros emaranhados, os olhos fixos nela.
Ele estava perto demais, palpável demais. Cristina sabia que se ele a tocasse, ela desmoronaria. Nem sabia ao certo o que isso significaria, só que a ideia de tal dissolução a assustava — e que ela enxergava Kieran sempre que olhava para Mark, como uma sombra ao lado dele.
Ela deslizou para fora da cama.
— Sinto muito, Mark — falou e saiu do quarto tão depressa que estava praticamente correndo.


— Annabel parece tão triste — disse Emma. — Muito triste.
Eles estavam deitados na cama do chalé, lado a lado. Muito mais confortável do que as camas do Instituto, o que era um pouco irônico, considerando que era a casa de Malcolm. Julian supunha que até os assassinos precisavam de colchões normais em vez de dormir em plataformas feitas de crânios.
— Ela queria que eu esquecesse o Volume Negro — falou Julian. Estava deitado de costas os dois estavam. Emma usava o pijama de algodão que havia comprado na loja da aldeia, e Julian, calça de moletom e uma camiseta velha. Os ombros se tocavam, e os pés também; a cama não era muito grande. E isso não queria dizer que Julian teria se afastado, se pudesse. — Ele diz que causa coisas ruins.
— Mas você não acha que nós devemos fazer isso.
— Não acho que a gente tenha escolha. Provavelmente é melhor o livro longo, na Corte Seelie, do que em qualquer outra parte no nosso mundo. — Ele suspirou. — Ela disse que tem conversado com as pixies na região. Vamos ter que mandar uma mensagem aos outros, ver se eles conhecem algum segredo para pegar pixies. Pegar uma delas e descobrir o que sabem.
— Está bem. — A voz de Emma estava murchando, os olhos se fechando.
Julian não tinha conseguido carregar o telefone por falta do adaptador certo. Coisas na quais os Caçadores de Sombras não pensavam.
— Eu não acho que a gente deveria dizer aos outros que Annabel veio — falou Julian. — Não ainda. Eles vão surtar e primeiro eu quero ver o que as pixies dizem.
— Ao menos você tem que contar que o Rei Unseelie ajudou Malcolm a pegar o Volume Negro — falou Emma, sonolenta.
— Vou lhes dizer que ele escreveu sobre isso nos diários — falou Julian.
Ele esperou para ver se Emma faria alguma objeção a mentira, mas ela já estava dormindo. E Julian estava quase. Emma estava aqui, deitada ao lado dele, do jeito que as coisas deveriam ser. Ele percebeu como tinha dormido mal nas últimas semanas sem ela.
Julian não tinha certeza por quanto tempo tinha cochilado ou mesmo se chegará a cochilar. Quando ele abriu os olhos, viu o brilho escuro do fogo na lareira, quase brasas queimadas. E sentiu Emma ao seu lado, com o braço jogados peito dele.
Ele congelou. Ela devia ter se mexido durante o sono. Estava aninhada nele. Ele sentia os cílios dela, a respiração baixinha contra sua pele.
Ela murmurou e virou a cabeça contra o pescoço dele. Antes de se deitarem na cama, ele estava morrendo de medo de tocar nela e de voltar a sentir o mesmo desejo esmagador que ele sentira na Corte Seelie.
O que ele sentia agora era, ao mesmo tempo, melhor e pior. Era uma ternura avassaladora e terrível. Embora Emma tivesse uma presença que a fazia parecer alta e até imponente quando estava acordada, agora, dormindo aninhada a ele, ela estava pequenina e delicada o suficiente para fazer o coração de Julian se revirar sob a ideia de como evitar que o mundo quebrasse algo tão frágil.
Ele queria abraçá-la para sempre, protegê-la e mantê-la por perto. Queria ser capaz de escrever tão livremente sobre seus sentimentos por ela quando Malcolm tinha escrito sobre o início de seu amor por Annabel. Você desmontou minha vida e a montou novamente.
Ela suspirou baixinho, ajeitando-se no colchão. Ele queria traçar o esboço daquela boca delicada, desenhá-la — seus lábios sempre estavam diferentes, o formato de coração mudava com suas expressões, mas esta expressão, entre sono e vigília, meio inocente e meio consciente, se agarrava a alma dele de um jeito novo.
As palavras de Malcolm ecoaram na mente dele. Como se você tivesse descoberto que uma praia que visitou pela vida inteira não é feita de areia, mas de diamantes, e eles cegam você com sua beleza.
Diamantes podiam ser ofuscantes em sua beleza, mas também eram as pedras mais duras e afiadas do universo. Podiam cortar ou triturar, esmagar e fatiar você. Malcolm, enlouquecido de amor, não tinha pensado nisso. Mas Julian não conseguiria pensar em outra coisa.


Kit acordou com a porta do quarto de Livvy sendo batida. Ele se sentou, notando que estava todo dolorido, assim que Ty saiu do quarto da irmã.
— Você está no chão — falou Ty, olhando para ele.
Kit não podia negar. Ele e Alec tinham vindo para o quarto de Livvy assim que terminaram na enfermaria. Então Alec saíra para olhar as crianças e restara apenas Magnus, sentado em silêncio com Livvy, ocasionalmente examinando-a para ver se ela estava se curando. E Ty, reclinado na parede, fitando a irmã sem piscar. Parecia um quarto de hospital aonde Kit não devia ter acesso.
Então ele saíra, lembrando-se de como de como Ty dormira diante do próprio quarto nos primeiros dias em Los Angeles, e se aninhou no assoalho acarpetado e gasto sem esperança de dormir muito. Ele nem mesmo se lembrava de ter dormido, mas deve ter feito isso.
Kit se esforçou para sentar.
— Espere…
Mas Ty já estava se afastando pelo corredor, como se não tivesse ouvido Kit, no fim das contas. Depois de um instante, Kit ficou de pé, todo desajeitado, e acompanhou o garoto.
Não sabia ao certo por quê. Ele mal conhecia Tiberius Blackthorn, pensou, enquanto Ty virava quase cegamente e subia um lance de degraus. Ele também mal conhecia a irmã dele. E eles eram Caçadores de Sombras. E Ty queria formar um tipo de equipe de detetives com ele, o que era uma ideia ridícula.  Sem dúvida, uma ideia na qual ele não estava nem um pouco interessado, disse Kit a si quando a escada deu num pequeno patamar diante de uma velha porta de aparência gasta.
Provavelmente fazia frio lá fora também, pensou ele quando Ty empurrou a porta para abrir e, sim, o ar frio e úmido entrou num torvelinho. Ty desapareceu no frio e nas sombras do lado de fora, e Kit o seguiu.
Eles estavam de volta ao telhado, embora não fosse mais noite, para surpresa de Kit: era de manhã bem cedo — cinza e pesada, com nuvens e acumulando acima do Tâmisa e da cúpula da Catedral de St. Paul. O barulho da cidade se elevava, a pressão de milhares de pessoas resolvendo os problemas cotidianos, sem se importar com os Caçadores de sombras, sem se importar com a magia e o perigo. Sem se importar com Ty, que tinha ido até a balaustrada que cercava a parte central do telhado, admirando a cidade, com as mãos agarrando com força o lírio de ferro.
— Ty. — Kit foi até ele, e Tiberius se virou, de modo que suas costas ficaram contra a balaustrada. Seus ombros estavam rígidos, e Kit parou, sem querer invadir o espaço pessoal do outro. — Está tudo bem?
Ty balançou a cabeça.
— Frio — falou ele. Seus dentes rangiam. — Estou com frio.
— Então talvez a gente devesse voltar lá para baixo — falou Kit. — Dentro de casa está mais quente.
— Eu não posso. — A voz de Ty soou como se viesse de um longo caminho bem do fundo dele, um eco abafado. — Ficar naquele quarto, eu não podia… era...
Ele balançou a cabeça, frustrado, como se fosse incapaz de encontrar as palavras para o que o estava torturando.
— Livvy vai ficar bem — disse Kit. — Amanhã ela vai estar bem. Magnus falou.
— Mas foi minha culpa. — Ty pressionava as costas com mais força contra a balaustrada, mas ela não o estava segurando. Ele deslizou até sentar no chão parando os joelhos para o peito. Estava ofegante e se balançava para trás, com as mãos próximas do rosto, como se estivesse prestes esfregar teias de aranha ou insetos irritantes. — Se eu fosse parabatai dela… eu queria ir para a Scholamance, mas isso não importa: Livvy é que importa...
— Não foi culpa sua — falou Kit. Ty apenas balançou a cabeça, com veemência. Kit tentava freneticamente se lembrar do que tinha lido on-line sobre colapsos, pois tinha certeza de que Ty estava prestes a ter um. Ele se ajoelhou no telhado úmido: devia ou não tocar em Ty?
Kit só conseguia imaginar como eram as coisas para Ty o tempo todo: o mundo todo precipitando-se para ele de uma vez, sons estrondosos e luzes permanentes, e ninguém que se lembrasse de modular a voz. E todos os meios pelos quais você normalmente lidava com isso tirados de você por tristeza ou medo, deixando-o exposto como um Caçador de Sombras indo para o combate sem uniforme.
Ele se lembrou de uma coisa sobre escuridão, sobre pressão, cobertores pesados e silêncio. Embora não tivesse ideia de como ia conseguir essas coisas no topo de um edifício.
— Diga-me — falou Kit. Diga-me do que você precisa.
— Ponha seus braços ao meu redor — falou Ty. Suas mãos eram borrões pálidos no ar, como se Kit estivesse olhando para uma foto em time-lapse. — Me abrace.
Ele ainda estava se balançando. Depois de um instante. Kit pôs os braços ao redor de Ty, sem saber direito o que mais poderia fazer.
Era como segurar uma flecha lançada: Ty parecia quente e afiado em seus braços, e ele vibrava com alguma emoção estranha. Suas mãos tocaram Kit, o movimento delas desacelerando, os dedos se enroscando no suéter dele.
— Mais forte — pediu Ty. Ele se agarrava aos braços de Kit como se este fosse um bote salva-vidas, sua testa se enterrando dolorosamente no ombro do outro. Parecia desesperado. Ele se agarrava aos braços de Kit como se este fosse um bate salva-vidas, sua testa se enterrando dolorosamente no ombro do outro. Parecia desesperado. — Eu preciso sentir.
Kit nunca tinha gostado de abraçar casualmente e, que ele lembrasse, ninguém lhe pedira para se consolado. Ele não era o tipo de pessoa que sabia confortar. Sempre acreditara nisso. E ele mal conhecia Ty.
Mas e daí, Ty não fazia as coisas sem motivo, mesmo se pessoas cujas mentes se conectam de outra forma não conseguissem enxergar suas razões imediatamente. Kit se lembrou do modo como Livvy esfregou as mãos de Ty com força quando ele estava estressado e pensou: A pressão é uma sensação: a sensação deve lhe dar um chão. Acalmar. Isso fazia sentido. Então Kit se flagrou abraçando Ty com mais força até o menino relaxar sob o aperto de suas mãos: abraçando-o como mais forças do que jamais ele abraçar alguém, segurando-o como se eles estivessem perdidos no mar do céu e somente aquele abraço fosse capaz de mantê-los flutuando acima dos restos de Londres.

6 comentários:

  1. Meu Deeeeus, já estou super shipando eles *----------*

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  2. AHHHHHHH EU TÔ MT FELIZ COM KITTY

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  3. Aain, shippo muito esses dois ♡
    Ty e Kit 💙

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  4. To vendo segundas intenções nesse abraço, mais alguém?

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  5. que fofooooossss uma das melhores coisas dos caçadores de sombras são os parabatai e TÃO LINDOOO

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  6. Tô shippando ty e kit desde a cena na casa do rook com o ty quase esfaqueando ele.
    Mas tá complicado com a autora colocando ele e a Lívia.

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Boa leitura :)