20 de novembro de 2017

Capítulo 18

E logo em seguida a nave Coração de Ouro seguia em frente na mais perfeita normalidade, com seu interior inteiramente redecorado. Agora era um pouco maior, pintado com delicados tons pastel de verde e azul. No centro havia uma escada em espiral, que não levava a nenhum lugar em especial, cercada de samambaias e flores amarelas; a seu lado, um pedestal de relógio de sol, de pedra, em cima do qual se encontrava o terminal central do computador. Uma série de luzes e espelhos engenhosamente dispostos criavam a ilusão de que o observador estava dentro de uma estufa, com vista para um amplo jardim, muito bem-cuidado. Ao redor da estufa havia mesas com tampos de mármore e pernas de ferro batido, lindamente trabalhadas. Quando se olhava para a superfície polida do mármore, as formas vagas dos controles se tornavam visíveis, e, ao estender a mão para tocá-los, os controles se materializavam imediatamente. Olhando-se os espelhos no ângulo correto, eles pareciam refletir todos os dados relevantes, embora fosse impossível dizer qual a origem dessas imagens refletidas. Em suma: uma beleza extraordinária.
Refestelado numa espreguiçadeira de palhinha, Zaphod Beeblebrox perguntou:
— Que diabos aconteceu?
— Bem, o que eu estava dizendo — disse Arthur, ao lado de um pequeno laguinho com peixes ornamentais — era que a tal chave do gerador de improbabilidade ficava aqui — e, ao falar, indicava o lugar onde antes ficava a chave e agora havia um vaso com uma planta.
— Mas onde estamos? — perguntou Ford, sentado na escada em espiral, com uma Dinamite Pangaláctica geladinha na mão.
— Exatamente no mesmo lugar, pelo visto — disse Trillian, pois nos espelhos a seu redor de repente apareceu a mesma paisagem árida de Magrathea.
Zaphod levantou-se de um salto.
— Então o que aconteceu com os mísseis?
Uma nova e surpreendente imagem apareceu nos espelhos.
— Parece — disse Ford, hesitante — que se transformaram num vaso de petúnias e numa baleia muito espantada...
— O fator de improbabilidade — interrompeu Eddie, que não havia mudado nem um pouco — é de oito milhões, setecentos e sessenta e sete mil, cento e vinte e oito contra um.
Zaphod olhou para Arthur.
— A ideia foi sua, terráqueo?
— Bem — disse Arthur —, eu só fiz...
— Você usou a cabeça, sabe? Grande ideia, ligar o gerador de improbabilidade por um segundo sem ativar as telas de proteção. Olhe, rapaz, você salvou as nossas vidas, sabe?
— Ah — disse Arthur —, não foi nada...
— Nada? — disse Zaphod. — Bem, então não se fala mais nisso. Computador, vamos aterrissar.
— Mas...
— Eu disse que não se fala mais nisso.
Também não se falou mais no fato de que, contra todas as probabilidades, um cachalote havia de repente se materializado muitos quilômetros acima da superfície de um planeta estranho.
E como não é este o meio ambiente natural das baleias em geral, a pobre e inocente criatura teve pouco tempo para se dar conta de sua identidade “enquanto” cachalote, pois logo em seguida teve de se dar conta de sua identidade “enquanto” cachalote morto.
Segue-se um registro completo de toda a vida mental dessa criatura, do momento em que ela passou a existir até o momento em que ela deixou de existir.
— Ah...! O que está acontecendo?, pensou o cachalote. Ah, desculpe, mas quem sou eu?
— Ei!
— Por que estou aqui? Qual a minha razão de ser? O que significa perguntar quem sou eu?
— Calma, calma, vamos ver... ah! que sensação interessante, o que é? É como... bocejar, uma cócega na minha... minha... bem, é melhor começar a dar nome às coisas para eu poder fazer algum progresso nisto que, para fins daquilo que vou chamar de discussão, vou chamar de mundo. Então vamos dizer que esta seja minha barriga.
— Bom. Ah, está ficando muito forte. E que barulhão é esse passando por aquilo que resolvi chamar de minha cabeça? Talvez um bom nome seja... vento! Será mesmo um bom nome? Que seja... talvez eu ache um nome melhor depois, quando eu descobrir pra que ele serve. Deve ser uma coisa muito importante, porque tem muito disso no mundo. Epa! Que diabo é isso? É... vamos chamar essa coisa de rabo. Isso, rabo. Epa! Eu posso mexê-lo bastante! Oba! Oba! Que barato! Não parece servir pra muita coisa, mas um dia eu descubro pra que ele serve. Bem, será que eu já tenho uma visão coerente das coisas?
— Não.
— Não faz mal. Isso é tão interessante, tanta coisa pra descobrir, tanta coisa boa por vir, estou tonto de expectativa...
— Ou será o vento? Realmente tem vento demais aqui, não é?
—E, puxa! Que é essa coisa se aproximando de mim tão depressa? Tão depressa. Tão grande e chata e redonda, tão... tão... Merece um nome bem forte, um nome tão... tão... chão! É isso! Eis um bom nome: chão!
— Será que eu vou fazer amizade com ele?
E o resto após um baque súbito e úmido é silêncio.
Curiosamente, a única coisa que passou pela mente do vaso de petúnias ao cair foi: Ah, não, outra vez! Muitas pessoas meditaram sobre esse fato e concluíram que, se soubéssemos exatamente por que o vaso de petúnias pensou isso, saberíamos muito mais a respeito da natureza do Universo do que sabemos atualmente.

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Boa leitura :)