15 de novembro de 2017

Capítulo 18

A lua de mel deles. Uma lua de mel com atividades diversificadas. David andara trabalhando num novo centro de conferência em Barcelona, uma construção monolítica, feita para refletir o céu azul, o mar cintilante. Liv se lembra de sua ligeira surpresa com o espanhol fluente dele e de seu assombro tanto com o que ele sabia quanto com o que ela ainda não sabia sobre ele. Toda tarde, ficavam na cama no hotel, depois passeavam pelas ruas medievais do bairro gótico e de Born, procurando refúgio à sombra, parando para beber mojitos e descansar preguiçosamente encostados um no outro, com a pele colando no calor. Ela ainda se lembra da forma da mão dele pousada em sua coxa. Ele tinha mãos de artesão. Pousava-as ligeiramente abertas, como se elas estivessem sempre espalmadas para prender uma planta invisível.
Estavam passeando por trás da Praça da Catalunha quando ouviram a voz da americana. A mulher andara gritando com três homens impassíveis e estava quase chorando quando eles saíram por uma porta almofadada, jogando móveis, objetos domésticos e quinquilharias na frente do prédio.
— Vocês não podem fazer isso! — exclamou.
David soltou a mão de Liv e se adiantou. A mulher, uma loura de cabelo luminoso, já entrando na meia-idade, deixou escapar um oh oh oh de frustração quando jogaram uma cadeira na frente da casa. Um pequeno grupo de turistas parou para olhar.
— Você está bem? — perguntou ele, pondo a mão em seu braço.
— É o proprietário. Ele está removendo todos os pertences da minha mãe.
Estou dizendo a ele que não tenho onde pôr nada disso.
— Onde está sua mãe?
— Morreu. Eu vim aqui separar tudo, e ele diz que hoje isso tem que sair. Esses homens estão simplesmente jogando as coisas na rua, e eu não tenho ideia do que fazer com elas.
Ela se lembra como David tomara conta da situação, como dissera a Liv para levar a mulher para o café do outro lado da rua, como protestara com o homem em espanhol enquanto a americana, cujo nome era Marianne Johnson, sentada, tomava um copo de água gelada olhando ansiosa para o outro lado da rua. Ela chegara de avião naquela manhã, contou. Jurava estar totalmente confusa.
— Sinto muito. Quando sua mãe morreu?
— Ah, faz três meses. Sei que eu devia ter tomado alguma providência antes. Mas sem falar espanhol é muito difícil. E tive que mandar transferir o corpo para o nosso país para o sepultamento... e como acabei de me divorciar, sou só eu para fazer tudo...
Seus dedos tinham umas juntas brancas enormes embaixo das quais ela enfiara uma quantidade colossal de anéis de plástico. Usava uma bandana turquesa no cabelo. Ficava tocando na fita, como se buscando segurança.
David estava falando com um homem que poderia ser o proprietário. O homem primeiro parecera na defensiva, mas, dez minutos depois, os dois apertavam as mãos calorosamente. David reapareceu na mesa delas. Ela devia separar os objetos que quisesse guardar, disse ele, e tinha o telefone de uma transportadora que poderia embalá-los e despachá-los por avião. O proprietário concordara em deixar que ficassem no apartamento até o dia seguinte. O restante poderia ser levado e jogado fora pelos homens da mudança por uma pequena quantia.
— Você está bem de dinheiro? — perguntou ele baixinho.
Ele era esse tipo de homem.
Marianne Johnson quase chorou de gratidão. Eles a ajudaram a arrumar tudo, empilhando objetos à esquerda ou à direita, dependendo do que seria guardado. Enquanto estavam ali, a mulher apontando para as coisas, mudando-as cuidadosamente para um lado e para o outro, Liv olhou com mais atenção para os objetos na calçada. Havia uma máquina de escrever Corona, enormes álbuns encadernados de couro de jornais desbotados.
— Mamãe era jornalista — disse a mulher, colocando os álbuns cuidadosamente num degrau de pedra. — O nome dela era Louanne Baker. Quando eu era pequena, lembro que ela usava essa máquina.
— O que é isso? — Liv apontou para um pequeno objeto marrom. Embora não conseguisse identificar o que era sem chegar mais perto, uma parte visceral dela estremeceu. Ela via o que pareciam ser dentes.
— Ah. Isto. São as cabeças em miniatura da mamãe. Ela colecionava de todos os tipos. Tem um capacete nazista em algum lugar também. Acha que um museu poderia querer esses objetos?
— Você vai se divertir passando com eles pela alfândega.
— Ai, meu Deus. Talvez eu simplesmente largue tudo na rua e vá embora. — Ela parou para enxugar a testa. — Este calor! Estou morrendo.
Então Liv viu o quadro. Encostada numa poltrona, o rosto atraía o olhar mesmo no meio daquele barulho e daquela confusão. Ela se abaixou e o virou com cuidado, colocando-o de frente para ela. Uma mulher olhava da tela, ornada por uma maltratada moldura dourada, com um olhar levemente desafiador. Uma cabeleira ruiva com reflexos dourados lhe caía nos ombros; um leve sorriso transmitia uma espécie de orgulho e algo mais íntimo. Algo sexual.
— É parecida com você — murmurou David, baixinho, atrás dela. — Você é assim mesmo.
O cabelo de Liv era louro, não ruivo, e curto. Mas ela vira imediatamente. O olhar que trocaram fez com que a rua desaparecesse.
David se virou para Marianne Johnson.
— Não quer ficar com isto?
Ela se endireitou, apertou os olhos para ele.
— Ah... não. Acho que não.
David falou mais baixo.
— Você deixaria que eu o comprasse?
— Comprar? Pode ficar com ele. É o mínimo que posso fazer, já que me salvou a vida.
Mas ele recusou. Ficaram os dois ali em pé na calçada, fazendo um bizarro leilão ao contrário. David insistindo em lhe dar mais dinheiro do que ela se sentia bem em receber. Finalmente, enquanto continuava separando uma arara de roupas, Liv viu que eles haviam chegado a um acordo.
— Eu teria tido muito gosto em lhe dar o quadro — disse ela enquanto David contava o dinheiro. — Para dizer a verdade, jamais gostei muito dele. Quando eu era pequena, achava que ela estava zombando de mim. Ela sempre pareceu meio nariz em pé.
Eles a deixaram no fim da tarde com o número do celular dele, a calçada limpa em frente ao apartamento vazio. Marianne Johnson juntou os seus pertences para voltar ao hotel. Foram embora no calor escaldante, e ele ria de orelha a orelha, como se tivesse adquirido um grande tesouro, abraçando o quadro com tanta reverência quanto abraçaria Liv mais tarde naquela noite.
— Isso é o seu presente de casamento — disse ele. — Já que eu nunca lhe dei nada.
— Pensei que você não quisesse nada que interferisse nas linhas limpas das suas paredes — brincou ela.
Eles haviam parado na rua movimentada e levantado o quadro para vê-lo de novo. Ela se lembra que tinha a pele esticada na nuca, queimada de sol, e uma poeira fina brilhando nos braços. Nas ruas quentes de Barcelona, o sol da tarde refletia nos olhos dele.
— Acho que dá para infringir as regras quando a gente gosta de algo.

* * *

— Então você e David compraram aquele quadro de boa-fé, não é? — diz Kristen. Ela faz uma pausa para dar um tapa na mão de um adolescente mexendo na geladeira. — Não. Nada de musse de chocolate. Você não vai jantar.
— Sim. Eu até consegui desencavar o recibo.
Estava com ele na bolsa: um papel velho, rasgado das últimas páginas de um diário. Recebido com agradecimentos por retrato, possivelmente chamado A garota que você deixou para trás, 300 francos — Marianne Baker (Sra.).
— Então é seu. Você comprou, tem o recibo. Sem dúvida, isso encerra a questão. Tasmin? Quer dizer a George que o jantar é daqui a dez minutos?
— Acho que sim. E a mulher de quem o compramos disse que o quadro esteve com a mãe dela por cinquenta anos. Ela não ia vendê-lo a nós. Ia dar. David insistiu em pagar.
— Bem, a situação toda é realmente absurda. — Kristen para de misturar a salada e joga as mãos para cima. — Quero dizer, onde isso termina? Se, na Idade Média, alguém tivesse comprado uma propriedade que acabasse sendo usurpada na época, será que isso significa que algum dia vão reivindicar a sua casa também? Será que temos que devolver o meu anel de diamante porque ele pode ter sido extraído da parte errada da África? Era a Primeira Guerra Mundial, pelo amor de Deus. Quase cem anos atrás. O sistema judiciário está indo longe demais.
Liv se recosta na cadeira. Ligara para Sven naquela tarde, chocada e trêmula, e ele lhe dissera para ir à sua casa à noite. Demonstrara uma calma tranquilizadora quando ela lhe contara sobre a carta e de fato dera de ombros ao lê-la.
— Deve ser coisa de advogado de porta de cadeia. Isso tudo soa muito improvável. Vou verificar, mas eu não me preocuparia. Você tem um recibo, comprou o quadro legalmente, então calculo que não há como esse caso se sustentar num tribunal.
Kristen coloca a tigela de salada na mesa.
— Quem é esse artista, afinal? Você gosta de azeitona?
— O nome dele é Édouard Lefèvre, aparentemente. Mas não está assinado. Sim, gosto. Obrigada.
— Eu tinha intenção de lhe contar... depois da última vez que nos falamos. — Kristen olha para a filha e guia-a em direção à porta. — Vai, Tasmin. A mamãe está precisando de um tempo para ela.
Liv aguarda enquanto Tasmin olha para trás com uma expressão contrariada e sai da sala.
— É o Rog.
— Quem?
— Tenho más notícias. — Ela faz uma careta e debruça-se na mesa. Respira fundo, dramática. — Eu queria contar na semana passada, mas não consegui imaginar o que dizer. Sabe, ele achou você ótima, mas acho que... bem... você não faz o tipo dele.
— Ah, é?
— Ele quer mesmo alguém... mais jovem. Sinto muito. Só achei que você devia saber a verdade. Eu não podia me conformar com a ideia de você esperando sentada uma ligação dele.
Liv está tentando endireitar a expressão quando Sven entra na sala. Ele segura uma folha com anotações.
— Acabei de falar por telefone com um amigo meu da Sotheby’s. Então... a má notícia é que a TARP é uma organização respeitada. Eles localizam obras de arte que foram roubadas, mas cada vez mais estão fazendo um trabalho mais difícil, obras de arte que desapareceram na época da guerra. Já devolveram algumas peças bem importantes nos últimos anos, algumas de coleções nacionais. Aparentemente essa é uma área que está se desenvolvendo.
— Mas A garota não é uma obra importante. É só um quadro a óleo que conseguimos na nossa lua de mel.
— Bem... isso é verdade até certo ponto. Liv, você tentou saber quem era esse Lefèvre depois que recebeu a carta?
Foi a primeira coisa que ela fizera. Um membro menor da escola Impressionista na virada do século passado. Havia uma fotografia em sépia de um homem alto, de olhos castanho-escuros e um cabelo que lhe chegava ao colarinho. Trabalhou por algum tempo com Matisse.
— Estou começando a entender por que a obra dele, se é que a obra é dele, poderia ser objeto de uma ação de restituição.
— Continue. — Liv joga uma azeitona na boca. Kristen está em pé ao lado dela, com um pano de prato em punho.
— Não contei a ele sobre a ação, claro, e ele não pode avaliar o quadro sem vê-lo, mas, com base no último leilão que fizeram de um Lefèvre, e na procedência do quadro, eles calculam que pode facilmente valer entre dois e três milhões de libras.
— O quê? — diz Liv sem convicção
— É. O presentinho de casamento de David acabou sendo um investimento bastante bom. Dois milhões de libras no mínimo, foram as palavras exatas do advogado. Na verdade, ele recomendou que você mandasse fazer imediatamente uma avaliação para fins de seguro desse quadro. Aparentemente, nosso Lefèvre virou o cara no mercado de arte. Os russos têm uma queda por ele, e isso elevou os preços.
Liv engole a azeitona inteira e começa a engasgar. Kristen bate nas suas costas e lhe serve um copo de água. Liv bebe a água, e as palavras do amigo rodam em sua cabeça. Não parecem fazer nenhum sentido.
— Então, acho que não deve ser surpresa nenhuma o fato de haver pessoas surgindo do nada para tentar se dar bem com isso. Pedi a Shirley no escritório para desencavar uns estudos de caso e mandá-los por e-mail; essas pessoas que entram com ação fazem uma pequena pesquisa na história da família, reclamam o quadro, dizendo que era muito precioso para os avós delas, quão desoladas ficaram por perdê-lo... Depois, conseguem o quadro de volta, e aí?
— E aí? — pergunta Kristen.
— Aí vendem o quadro. E ficam mais ricas do que jamais sonharam.
A cozinha fica em silêncio.
— Dois ou três milhões de libras? Mas... mas a gente pagou duzentos euros por ele.
— É como no Antiques Roadshow — diz Kristen, alegremente.
— Esse é o David. Sempre teve o toque de Midas. — Sven se serve de uma taça de vinho. — É uma pena eles saberem que estava na sua casa. Acho que, sem nenhum tipo de prova, não daria para comprovarem que você tinha o quadro. Eles sabem com certeza que está na sua casa?
Ela pensa em Paul. E sente um frio na barriga.
— Sim — diz Liv. — Eles sabem que eu tenho o quadro.
— Tudo bem. Bem, seja como for — Sven se senta ao lado dela e põe a mão em seu ombro —, precisamos arranjar um bom advogado para você. E depressa.

* * *

Liv passa os dois dias seguintes em estado de sonambulismo, com a cabeça zumbindo, o coração disparado. Vai ao dentista, compra pão e leite, entrega o trabalho no prazo, leva canecas de chá para Fran na rua e as traz de volta quando Fran reclama que ela esqueceu o açúcar. Ela mal registra esses fatos.
Está pensando no jeito que Paul a beijou, naquele primeiro encontro casual, quando generosamente lhe ofereceu ajuda. Será que ele planejou isso desde o início? Dado o valor do quadro, será que ela realmente fora alvo de um golpe? Ela procura Paul McCafferty no Google, lê depoimentos sobre o tempo que ele trabalhou no Art Squad do Departamento de Polícia de Nova York, sua “psicologia criminal brilhante”, seu “raciocínio estratégico”. Tudo em que ela acreditou sobre ele evapora. Suas ideias giram e colidem, dão guinadas para novas e terríveis direções. Por duas vezes, sentiu-se tão enjoada que teve que sair da mesa e jogar água fria no rosto, apoiando-a na porcelana fria do vestiário.
Em novembro último, a TARP ajudou a devolver um pequeno Cézanne a uma família de judeus russos. O valor do quadro, pelo que se ouviu dizer, estava na faixa dos quinze milhões de libras. A TARP, de acordo com a informação de seu site, cobra uma comissão.
Paul lhe envia três vezes a mesma mensagem: Podemos conversar? Sei que é difícil, mas por favor... será que podemos simplesmente discutir o assunto? Ele tenta soar sensato. Como uma pessoa quase confiável. Liv dorme esporadicamente e se esforça para comer.
Mo observa isso tudo e, pela primeira vez, não fala nada.
Liv corre. Todas as manhãs e algumas noites também. O ato de correr substituiu o de pensar, o de comer e, às vezes, o de dormir. Ela corre até a canela arder e os pulmões parecerem que vão explodir. Corre por trajetos novos: pelas ruelas de Southwark, atravessando a ponte e pegando os reluzentes passeios da City, desviando dos banqueiros de terno e das secretárias carregando copos de café no caminho.
Está de saída às seis horas da tarde de uma sexta-feira. É uma tarde bela e fresca, do tipo em que Londres inteira parece o pano de fundo de um filme romântico. Sua respiração é visível no ar parado, e ela tem uma touca de lã enterrada na cabeça, que tirará pouco antes de chegar à Ponte Waterloo. Ao longe, as luzes da City brilham no horizonte; os ônibus se arrastam pelo Embankment, as ruas murmuram. Ela coloca os fones de ouvido do iPod, fecha a porta do prédio, enfia as chaves no bolso do short e parte numa cadência. Deixa a mente ser inundada pelo ritmo ensurdecedor, uma dance music que não deixa espaço para o pensamento.
— Liv.
Ele aparece na frente dela, e ela tropeça, apoiando a mão nele e retirando-a rapidamente, como se tivesse se queimado, ao perceber quem é.
— Liv, precisamos conversar.
Ele está com a jaqueta marrom, com a gola levantada para se proteger do frio, uma pasta de documentos debaixo do braço. Seus olhos se cruzam, e ela dá meia-volta depressa antes de conseguir registrar qualquer tipo de sentimento, e parte, com o coração disparado.
Ele está atrás dela. Ela não olha para trás, mas dá para escutar a voz dele acima do volume da música. Ela aumenta o volume e quase sente a vibração dos passos dele na calçada às suas costas.
— Liv.
Ele tenta pegar o braço dela e, quase instintivamente, ela gira a mão direita para trás e lhe dá uma violenta bofetada no rosto. O choque do impacto é tamanho que ambos tropeçam para trás, ele com a mão colada no nariz.
Ela tira os fones de ouvido.
— Me deixe em paz — grita, reequilibrando-se. — Desapareça.
— Quero falar com você. — Ele vê o sangue escorrer entre seus dedos. — Nossa. — Larga as pastas, põe a mão livre no bolso e retira um lenço grande de algodão, com o qual pressiona o nariz. Ele levanta a outra mão num gesto de paz. — Liv, sei que você está irritada comigo agora, mas...
— Irritada com você? Irritada com você? Isso nem começa a descrever como estou me sentindo em relação à sua pessoa. Você usa um artifício para entrar na minha casa, inventa uma história que encontrou a minha bolsa, consegue me seduzir para que eu o leve para a minha cama, e aí... ah, caramba, que surpresa... lá está o quadro que você acabou de ser contratado para recuperar por uma comissão bem gorda.
— O quê? — A voz dele sai abafada através do lenço. — O quê? Você acha que eu roubei a sua bolsa? Acha que eu fiz isso acontecer? Você é louca?
— Fique longe de mim.
A voz dela treme, seus ouvidos zumbem. Ela está andando de costas na rua, afastando-se dele. Pessoas pararam para observá-los.
Ele vai atrás dela.
— Não. Escute. Um minuto. Eu sou um ex-policial. Não estou no ramo de roubo de bolsas, nem, francamente, no de devolução delas. Eu a conheci e gostei de você e depois descobri que, por uma cagada do destino, você por acaso tinha o quadro que me contrataram para recuperar. Se eu pudesse ter passado esse trabalho para qualquer outra pessoa, pode acreditar, eu teria passado. Sinto muito. Mas você tem que ouvir.
Ele tira o lenço do rosto. Há sangue em seu lábio.
— Aquele quadro foi roubado, Liv. Já examinei a papelada um milhão de vezes. É um retrato de Sophie Lefèvre, a mulher do artista. Ela foi levada pelos alemães, e o quadro desapareceu logo depois. Foi roubado.
— Isso foi há cem anos.
— Você acha que, então, isso se justifica? Sabe o que é ter aquilo que gosta tomado de você?
— Curiosamente — dispara ela —, eu sei.
— Liv, sei que você é uma pessoa boa. Sei que saber disso é um choque, mas, se pensar um pouco, você vai fazer a coisa certa. O tempo não justifica o que é errado. E o seu quadro foi roubado da família daquela pobre garota. Foi a última coisa dela que eles tiveram, e o quadro pertence a eles. O certo é ele ser devolvido. — A voz dele é suave, quase convincente. — Quando souber a verdade sobre o que aconteceu com ela, acho que você vai olhar para Sophie Lefèvre de maneira bem diferente.
— Ah, me poupe da sua lenga-lenga hipócrita.
— O quê?
— Acha que não sei quanto vale o quadro?
Ele fica olhando para ela.
— Acha que não procurei saber sobre você e sua empresa? Como você opera? Sei do que se trata, Paul, e não tem nada a ver com os seus certos e errados. — Ela faz uma careta. — Nossa, você deve achar que eu sou uma boba. A idiota na casa vazia dela, ainda chorando a morte do marido, sentada lá em cima sem saber de nada do que está bem na cara dela. É uma questão de dinheiro, Paul. Você e quem mais esteja por trás disso quer a garota porque ela vale uma fortuna. Bem, para mim não é uma questão de dinheiro. Eu não posso ser comprada, nem ela. Agora, me deixe em paz.
Antes que ele consiga dizer outra palavra, ela dá meia-volta e continua a correr, e o palpitar ensurdecedor do seu coração abafa todos os outros ruídos em seus ouvidos. Ela só diminui o passo quando chega no South Bank Centre e se vira. Ele sumiu, engolido entre milhares de pessoas atravessando as ruas de Londres a caminho de casa. Quando chega à porta do seu prédio, Liv está segurando as lágrimas. Tem a cabeça cheia de Sophie Lefèvre. Foi a última coisa dela que eles tiveram. O certo é ele ser devolvido.
— Seu desgraçado — repete ela baixinho, ao tentar se livrar das palavras dele. Seu desgraçado seu desgraçado seu desgraçado.
— Liv!
Ela leva um susto quando o homem sai da entrada do seu prédio. Mas é seu pai, com uma boina preta enterrada na cabeça, um cachecol com as cores do arco-íris enrolado no pescoço e o seu velho sobretudo de tweed até os joelhos. O rosto dele cintila sob a luz da lâmpada de sódio. Ele abre os braços para abraçá-la, revelando uma camiseta desbotada do Sex Pistols por baixo.
— Muito bem! A gente não teve mais notícias suas depois do Grande Encontro. Pensei em dar uma passada para saber como foi!

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Boa leitura :)