30 de novembro de 2017

Capítulo 18 - Lembranças do passado

Jia Penhallow estava sentada atrás da mesa da sala da Consulesa, iluminada pelos raios de sol sobre Alicante. As flechas das torres demoníacas brilhavam para além da janela: vermelho, dourado e laranja, como cacos de vidro ensanguentado.
No rosto, ela exibia o mesmo calor do qual Diana se lembrava, mas parecia que havia se passado mais tempo do que cinco anos desde a Guerra Maligna. Seus cabelos negros elegantemente presos no alto da cabeça agora tinham também traços de branco.
— É bom ver você, Diana — falou ela, inclinando a cabeça na direção da cadeira oposta à mesa. — Todos estamos curiosos com suas notícias misteriosas.
— Eu imagino — Diana se sentou. — Mas eu tinha esperança de que o que tenho a dizer ficaria entre nós duas.
Jia não pareceu surpresa. Não que fosse demonstrar, caso estivessse.
— Entendo. Eu me perguntei se você tinha vindo por causa da vaga de diretor do Instituto de Los Angeles. Imaginei que você quisesse assumi-la agora que Arthur Blackthorn está morto. — As mãos graciosas se agitaram enquanto ela remexia e empilhava papéis, encaixando as canetas em seus suportes. — Ele foi muito corajoso ao se aproximar da convergência sozinho. Lamentei saber que foi assassinado.
Diana assentiu. Por razões que nenhuma delas conhecia, o corpo de Arthur fora descoberto próximo ao local destruído da convergência, coberto com sangue devido à garganta cortada e com as manchas de icor que Julian mencionou, aborrecido, serem sangue de Malcolm. Não havia motivo para contradizer a suposição oficial de que ele havia realizado um ataque solitário à convergência e que acabara morto pelos demônios de Malcolm.
Pelo menos, Arthur seria lembrado como corajoso, embora lhe afligisse o fato de sua cremação e enterro não contar com a presença de seus sobrinhos para pranteá-lo. Que, na verdade, ninguém no mundo soubesse que ele tinha se sacrificado pela família. Livvy dissera que torcia para que eles conseguissem fazer uma cerimônia em homenagem ao tio quando todos fossem para Idris. Diana torcia por isso também.
Jia não pareceu confusa pelo silêncio de Diana.
— Patrick se lembra de Arthur, de quando eram meninos — falou —, embora infelizmente eu nunca o tenha conhecido. Como as crianças estão lidando com a situação?
As crianças? Como explicar que o segundo pai dos Blackthorn tinha sido o irmão mais velho delas desde seus 12 anos? Que Julian, Emma e Mark não eram crianças de modo algum, na verdade, e que já tinham sofrido o suficiente para uma vida inteira? Mais do que maioria dos adultos? Que Arthur Blackthorn nunca, de fato, dirigira o Instituto e que a ideia de que ele precisava ser substituído era uma piada complicada e horrorosa?
— As crianças estão arrasadas — falou Diana. — A família foi dividida, como você sabe. O que querem é voltar para Los Angeles, que é o lar deles.
— Mas eles não podem voltar enquanto não houver alguém para dirigir o Instituto. Foi por isso que eu pensei que você...
 — Eu não quero ser essa pessoa — interrompeu Diana. — Não estou aqui para pedir o cargo. Mas também não quero que sejam Zara e o pai dela.
— Sério? — indagou Jia. Seu tom de voz era neutro, mas os olhos reluziram com interesse. — Se não forem os Dearborn nem você, então quem?
— Se Helen Blackthorn pudesse voltar...
Jia empertigou-se na cadeira.
— E dirigir o Instituto? Você sabe que o Conselho jamais iria permitir...
— Então deixe que Aline dirija o Instituto — falou Diana. — Helen poderia simplesmente ficar em Los Angeles como sua esposa, e permanecer com a família.
A expressão de Jia era calma, mas suas mãos apertaram a mesa com força.
— Aline é minha filha. Você acha que não quero trazê-la de volta para casa?
— Eu nunca soube o que você pensava — comentou Diana. Era verdade. Ela não tinha filhos, mas se sua irmã tivesse sido exilada, imaginava que lutaria com unhas e dentes para tê-la em liberdade.
— Quando Helen foi exilada e Aline optou por ir com ela, eu pensei em renunciar ao cargo de Consulesa — falou Jia, as mãos ainda tensas. — Eu sabia que não tinha poder para reverter a decisão da Clave. A Consulesa não é uma tirana que pode impor suas escolhas a quem não concordar com elas. Normalmente, eu diria que isso é bom. Mas vou lhe dizer que, por um longo tempo, desejei poder ser uma tirana.
— Por que não renunciar, então?
— Eu não confiava em quem poderia vir depois de mim — falou Jia simplesmente. — A Paz Fria era muito popular. Se o Cônsul que viesse depois de mim assim o desejasse, poderia separar Aline e Helen... E embora eu queira minha filha em casa, não quero seu coração partido. Eles poderiam fazer pior também. Poderiam acusar Aline e Helen de traição e transformar a sentença de exílio de Helen em sentença de morte. Talvez a de Aline também. Qualquer coisa era possível. — O olhar dela era sombrio e pesado. — Eu permaneço onde estou para ficar entre minha filha e as forças sombrias da Clave.
— Então não estamos do mesmo lado? — falou Diana. — Não queremos a mesma coisa?
Jia deu um sorriso frio.
— O que nos separa, Diana, são cinco anos. Cinco anos tentando de tudo para fazer o Conselho repensar sua decisão. Helen é o exemplo deles. O recado deles ao Povo das Fadas: “Vejam só, nós levamos a Paz Fria tão a sério que até punimos os nossos.” Sempre que o assunto entra em pauta, sou derrotada.
— Mas e se outras circunstâncias se apresentarem?
— Que outras circunstâncias você tem em mente?
Diana alongou os ombros, sentindo a tensão pinicar sua espinha.
— Jace Herondale e Clary Fairchild foram despachados para o Reino das Fadas numa missão — contou ela. Era meio que um palpite... enquanto os dois estiveram no Instituto, ela entrevira o conteúdo de suas bolsas: ambas estavam cheias de ferro e sal.
— Sim — concordou Jia. — Recebemos várias mensagens depois que eles partiram.
— Então eles contaram sobre a praga nas Terras do Rei Unseelie.
Jia continuou sentada, e uma das mãos pairava sobre a mesa.
— Ninguém sabe o que eles disseram, além de mim e do Inquisidor —falou ela. — Como você sabe...?
— Não importa. Estou contando porque você precisa acreditar que sei do que estou falando — disse Diana. — Sei que o Rei Unseelie odeia os Nephilim, e que tem demonstrado certa força, certa magia, que torna os nossos poderes inúteis. Desse modo, há partes em seu reino onde as Marcas não funcionam, onde lâminas serafim não se acendem.
Jia franziu a testa.
— Jace e Clary não mencionaram nada tão específico assim. E eles não tiveram contato com ninguém além de mim desde que entraram no Reino das Fadas...
— Tem um menino — falou Diana. — Uma fada, um mensageiro da Corte Seelie. Kieran. Ele também é príncipe de Unseelie. Conhece parte dos planos do pai e está disposto a testemunhar diante do Conselho.
Jia ficou atônita.
— Um príncipe Unseelie testemunharia pela Corte Seelie? E qual é o interesse da Corte Seelie?
— A Rainha Seelie odeia o Rei Unseelie — falou Diana. — Mais, aparentemente, do que odeia os Caçadores de Sombras. Ela está disposta a empregar as forças de seu exército para derrotar o Rei Unseelie. Para erradicar seu poder e reverter a praga em suas Terras.
— Por pura bondade de seu coração? — Jia ergueu uma das sobrancelhas.
 — Em troca do fim da Paz Fria — falou Diana.
Jia riu abruptamente.
— Ninguém vai concordar com isso. A Clave...
— Todos estão cansados da Paz Fria, a não ser os sectários mais radicais — falou Diana. — E não acho que uma de nós queira vê-los adquirir poder.
Jia suspirou.
— Você se refere aos Dearborn. E à Tropa.
— Passei um bocado de tempo com Zara Dearborn e os amigos Centuriões no Instituto — falou Diana. — As opiniões dela não são nada agradáveis.
Jia se ergueu, virando-se na direção da janela.
— Ela e o pai querem que a Clave retome a uma era de ouro perdida. Uma época que nunca existiu, quando os integrantes do Submundo conheciam seu lugar e os Nephilim governavam em harmonia. Na verdade, esse passado foi uma época violenta, na qual integrantes do Submundo sofreram e os Nephilim que sentiam compaixão e empatia foram atormentados e punidos juntamente a eles.
— Quantos deles existem? — perguntou Diana. — Da Tropa?
— O pai de Zara, Horace Dearborn, é o líder não oficial — falou Jia — A mulher dele é falecida e ele criou a filha para seguir seus passos. Se ele conseguir se colocar como diretor do Instituto de Los Angeles, ela governará ao lado dele. E há outras famílias: os Larkspear, os Bridgestock, os Crosskill... que estão espalhados pelo mundo.
— E o objetivo deles é continuar restringindo os direitos dos integrantes do Submundo. Registrar todos, lhes dar números...
— Proibir seu casamento com Caçadores de Sombras?
Diana deu de ombros.
— Tudo é parte de um plano, não é? Primeiro, você tatua números às pessoas, depois, restringe os direitos delas e rompe seus casamentos. E aí então...
— Não. — A voz de Jia estava rouca. — Não podemos deixar isso acontecer. Mas você não compreende... Zara é apresentada como a nova grande Caçadora de Sombras de sua geração. A nova Jace Herondale. Desde que ela matou Malcolm...
Diana deu um pulo de sua cadeira.
— Essa... essa menina mentirosa não matou Malcolm.
— Nós sabemos que Emma não o fez — falou Jia. — Ele voltou.
— Eu sei exatamente como ele morreu — falou Diana. — Ele trouxe Annabel Blackthorn dos mortos. Ela o matou.
O quê? — Jia parecia chocada.
— É a verdade, Consulesa.
— Diana. Você precisaria provar o que está dizendo. Segurar a Espada Mortal...
O maior medo de Diana.
— Não — falou. Eu não revelaria apenas os meus segredos. Revelaria os de Julian. De Emma. Destruiria a todos.
— Você precisa levar em consideração o que isso vai parecer — falou Jia. — Como se você estivesse buscando um meio de manter o Instituto de Los Angeles sob seu controle ao desacreditar os Dearborn.
— Eles se desacreditam sozinhos. — Diana olhou fixamente para Jia — Você conhece Zara — falou. — Acha mesmo que ela matou Malcolm?
— Não — respondeu Jia, após uma pausa. — Não acho. — Ela foi até um gabinete entalhado com ornamentos que ficava junto a uma das paredes da sala. Abriu uma das gavetas. — Preciso de tempo para pensar, Diana. Enquanto isso... — Ela pegou uma pasta grossa, cor de creme, cheia de papéis. — Este é o relatório de Zara Dearborn sobre a morte de Malcolm Fade e os ataques ao Instituto de Los Angeles. Talvez você possa encontrar alguma discrepância que desacredite a história dela.
— Obrigada. — Diana pegou a pasta. — E a reunião do Conselho? Alguma chance de Kieran testemunhar?
— Discutirei isso com o Insquisidor. — De repente. Jia parecia até mais velha do que antes. — Vá para casa, Diana. Eu a chamarei amanhã.


— Nós deveríamos ter trazido Dru — falou Livvy, de pé no interior dos portões da Casa dos Blackthorn. — Esta é a realização de fantasia de todos os filmes de terror que ela viu.
Na verdade, a Blackthorn Hall ficava num subúrbio de Londres, não muito longe do Rio Tâmisa. A região era comum até: casas de tijolos vermelhos, pontos de Ônibus cobertos com pôsteres de cinema, crianças andando de bicicleta. Depois de alguns dias presos no Instituto, Kit achava que mesmo a estranheza de Londres era como acordar para a realidade depois de um sonho.
A casa dos Blackthorn tinha um feitiço de disfarce, o que significava que mundanos não podiam vê-la. Kit teve um tipo de visão dupla quando a avistou pela primeira vez: ele via um parque particular, agradável porém sem graça, sobreposto a uma casa imensa com portões e torres altos, e pedras enegrecidas por anos de chuva e falta de cuidados.
Ele semicerrou os olhas com força. O parque desapareceu e restou somente a casa. Ela se assomava diante deles. Kit achou meio sem semelhante a um templo grego, com colunas que sustentavam um pórtico em arco em frente a um conjunto de portas duplas, imenso e feito do mesmo metal da cerca que ladeava toda a propriedade. Era alto, com pontas afiadas; a única entrada era o portão, do qual Ty se livrara rapidamente com suas Marcas.
— O que significa esta aí? — perguntara Kit, apontando, quando o portão rangeu e abriu com uma lufada de poeira.
Ty o encarou.
Abra.
— Eu ia chutar isso — resmungou Kit quando eles entraram.
Agora, no interior da propriedade, ele olhava ao redor, maravilhado. Os jardins podiam estar negligenciados agora, mas dava para ver onde ficaram as pérgulas de rosas e balaustradas de mármore que sustentavam imensos jarros de pedra, cheios de flores e ervas daninhas. Havia flores silvestres por toda a parte — era belo de um modo próprio, estranho e destruído.
A casa era como um pequeno castelo, a coroa de espinhos, que Kit reconheceu como sendo o símbolo da família Blackthorn, gravada nas portas de metal na frente da casa e nos topos das colunas.
— Parece assombrada — falou Livvy conforme subiam os degraus. Ao longe, Kit via o círculo negro como breu de um antigo lago ornamental.
Ao redor dele havia bancos de mármore. Uma estátua solitária de um homem trajando toga o encarou com olhos vazios e preocupados.
— Costumava ter uma coleção inteira de estátuas de diferentes dramaturgos e poetas gregos e romanos aqui — falou Livvy enquanto Ty seguia para lidar com as portas. — Tio Arthur mandou a maior parte delas para o Instituto de Los Angeles.
— A Marca de Abertura não está funcionando — falou Ty, aprumando-se e olhando para Kit como se soubesse tudo o que ele estava pensando. Como se soubesse tudo que Kit havia pensado. Havia alguma coisa no fato de ter a atenção de Tiberius que era, ao mesmo tempo, assustadora e excitante. — Vamos ter que descobrir outro jeito de entrar.
Ty passou por Kit e pela irmã e se dirigiu à escadaria. Eles contornaram pela lateral da Casa, por uma trilha de cascalhos. Antigamente era provável que as sebes fossem limpas e podadas para formar uma curva com explosões de folhas e flores. Ao longe, a água do Tâmisa reluzia.
— Talvez haja um caminho pelos fundos da casa — comentou Livvy. — As janelas não podem ser tão seguras também.
— E quanto a esta porta? — Kit apontou.
Ty deu meia-volta, franzindo a testa.
— Que porta?
— Aqui — falou Kit, confuso. Ele conseguia enxergar a porta muito nitidamente: uma entrada alta e estreita com um símbolo esquisito entalhado nela. Colocou a mão na madeira velha: era áspera e quente sob seus dedos. — Não estão vendo?
Agora estou — falou Livvy. — Mas... juro que não estava aí um segundo atrás.
— Algum tipo de feitiço de disfarce dobrado? — perguntou Ty, ficando ao lado de Kit. Ele tinha puxado o capuz do suéter e seu rosto era um oval pálido entre o negro dos cabelos e a gola escura. — Mas por que Kit seria capaz de enxergá-la?
— Talvez porque eu esteja acostumado a ver feitiços de disfarce no Mercado das Sombras — falou Kit.
— Feitiços de disfarce que não são feitos por Caçadores de Sombras — retrucou Livvy.
— Feitiços de disfarce que não são feitos para serem vistos por Caçadores de Sombras — emendou Kit.
Ty pareceu pensativo. Às vezes, ele era tão opaco que Kit não sabia dizer se o garoto concordava ou não com ele. No entanto, o menino pôs a estela sobre a porta e começou a desenhar a Marca de Abertura.
Não foi a fechadura que estalou, mas as dobradiças que se abriram. Eles deram um salto para longe quando a porta caiu e ficou inclinada para o lado, batendo na parede com um baque cheio de eco.
— Não faça tanta força quando desenhar — avisou Livvy ao irmão. Ele deu de ombros.
O espaço além da porta estava escuro o suficiente a ponto de os gêmeos precisarem acender as pedras de luz enfeitiçada. O brilho delas tinha uma colaboração esbranquiçada perolada, que Kit achou estranhamente bela.
Eles estavam em um saguão velho, cheio de poeira e de teias de aranha que corriam para lá e para cá. Ty seguiu à frente de Kit, com Livvy atrás dele; ele desconfiava que os dois o estivessem protegendo e ficou ressentido com aquilo, mas sabia que eles não entenderiam seu protesto caso ele fizesse algum.
Cruzaram o corredor e subiram por uma escada comprida e estreita, no fim do qual viam-se os restos podres de uma porta. Do outro lado, havia um imenso cômodo com um lustre pendurado.
— Provavelmente um salão de baile — falou Livvy, e sua voz ecoou estranhamente no ambiente. — Vejam, esta parte da casa está mais bem-cuidada.
E estava mesmo. O salão de baile estava vazio, porém limpo, e quando eles passaram por outros cômodos, encontraram mobília coberta com tecido, janelas com tábuas de madeira cuidadosamente pregadas para proteger o vidro, caixas empilhadas nos corredores. Dentro das caixas, havia roupas e o cheiro forte de naftalina. Livvy tossiu e abanou uma das mãos diante do rosto.
— Deve ter uma biblioteca — falou Ty. — Um lugar onde eles mantinham os documentos da família.
— Não consigo acreditar que nosso pai talvez tenha vindo aqui quando era jovem. — Livvy seguiu na frente pelo corredor; seu corpo lançava uma sombra comprida. Cabelos compridos, pernas compridas, pedra de luz enfeitiçada brilhando na mão.
— Ele não morava aqui? — perguntou Kit.
Livvy balançou a cabeça.
— Ele cresceu na Cornualha, não em Londres. Mas frequentou a escola em Idris.
Idris. Kit tinha lido mais sobre Idris na biblioteca do Instituto de Londres. O lendário lar dos Caçadores de Sombras, um lugar de florestas verdes e montanhas altas, lagos congelados e uma cidade de torres de vidro. Tinha que admitir que havia um pedacinho nele que adorava filmes de fantasia e O senhor dos Anéis ansiava para ver o lugar.
No entanto, ele disse àquele pedacinho de si para ficar quieto. Idris era problema dos Caçadores de Sombras, e ele ainda não tinha decidido se queria ser um Caçador de Sombras. Na verdade, ele tinha certeza — praticamente absoluta — de que não queria.
— Biblioteca — falou Ty.
Ocorreu a Kit que Ty nunca usava cinco palavras quando alguém usava. Ele estava de pé diante da porta que dava para um cômodo hexagonal, as paredes ao lado dele continham vários quadros de navios. Alguns estavam inclinados em ângulos estranhos, como se estivessem mergulhando nas ondas.
As paredes da biblioteca eram pintadas de azul-escuro, a única obra de arte do cômodo era uma estátua de mármore com o busto de um homem no topo de uma coluna de pedra. Havia uma mesa imensa com muitas gavetas que se revelaram vazias, para decepção de todos. Incursões atrás das prateleiras e debaixo do tapete também não revelaram nada além de bolas de poeira.
— Talvez a gente devesse tentar outro cômodo — falou Kit, saindo de baixo de uma escrivaninha com poeira nos cabelos louros.
 Ty balançou a cabeça, parecendo frustrado.
— Tem alguma coisa aqui. Eu tenho uma sensação.
Kit não sabia ao certo se Sherlock Holmes agia guiado por sensações, mas não falou nada, simplesmente se empertigou. Ao fazer isso, viu um pedaço de papel saindo da beirada da pequena escrivaninha. Ele puxou e o papel se soltou.
Era um papel velho, desgastado ao ponto da transparência. Kit piscou. Nele estava escrito seu nome — não o nome, mas o sobrenome. Herondale, em toda a extensão, entrelaçado a outro nome, de modo que as duas palavras formavam desenhos em caracóis.
A outra palavra era Blackthorn.
Uma sensação profunda de inquietação o atravessou. Ele enfiou o papel rapidamente no bolso do jeans no mesmo instante em que Ty falou:
— Anda, Kit. Queremos dar uma olhada naquele busto.
Para Kit, busto só significava outra coisa, mas como os únicos seios no local eram os da irmã de Ty, ele se afastou para o lado com agilidade. Ty foi até a pequena estátua na coluna de mármore. Ele baixara o capuz, e seu cabelo estava arrepiado na cabeça, macio como as plumas felpudas de um cisne negro.
Ty tocou urna pequena placa abaixo do entalhe.
— Morrer por um amigo não é tão difícil quanto encontrar um amigo pelo qual valha a pena morrer — falou ele.
— Homero — disse Livvy. Não importava o tipo de instrução dos Caçadores de Sombras, Kit tinha que admitir que era minuciosa.
— Aparentemente — falou Ty, tirando uma adaga do cinto. Um segundo depois, ele tinha enfiado a lâmina na órbita do olho da estátua, Livvy deu um gritinho.
— Ty, o quê...?
O garoto puxou a lâmina de volta e repetiu o gesto na segunda órbita da estátua. Dessa vez, uma coisa redonda e brilhante saiu do buraco com um estalo audível. Ty a pegou na mão esquerda. Sorriu, e o sorriso mudou seu rosto totalmente. Quando estava parado e sem expressão, o rosto do menino tinha uma intensidade que fascinava Kit; quando ele sorria, era extraordinário.
— O que você encontrou? — Livvy correu pelo cômodo e eles se reuniram em torno de Tiberius, que segurava um cristal multifacetado, do tamanho da mão de uma criança. — E como você sabia que isto estava ali?
— Quando você falou o nome de Homero — retrucou Ty —, eu me lembrei de que ele era cego. Quase sempre era representado com os olhos fechados ou com uma venda. Mas esta estátua tinha olhos abertos. Olhei um pouco mais de perto e vi que o busto era de mármore, mas os olhos eram de gesso. Depois disso foi...
— Elementar? — sugeriu Kit.
— Sabe, Holmes nunca diz: “Elementar, meu caro Watson” nos livros —falou Ty.
— Juro que vi nos filmes — retrucou Kit. — Ou talvez na tevê.
— Quem iria querer ver filmes ou tevê se existem livros? — falou Ty com desprezo.
— Será que alguém aqui poderia prestar atenção? — quis saber Livvy, o rabo de cavalo balançava com irritação. — Que coisa é essa que você achou, Ty?
— Um cristal alétheia. Ele o segurou de modo a captar o brilho da pedra de luz enfeitiçada da irmã. — Olhem.
Kit olhou a superfície facetada da pedra. Para sua surpresa, um rosto lampejou nele, uma imagem vista em um sonho — o rosto de uma mulher, com uma nuvem de cabelos escuros e longos.
— Oh! — Livvy cobriu a boca com a mão. — Ela se parece um pouco comigo. Mas como...?
— Um cristal de alétheia é um meio de capturar ou transportar lembranças. Acho que este é de Annabel — sugeriu Ty.
Alétheia é uma palavra grega — falou Livvy.
— Ela era a deusa grega da verdade — acrescentou Kit e deu de ombros quando os outros dois o encararam. — Relatório de livro do nono ano.
Ty deu um sorriso de canto de boca.
— Muito bom, Watson.
— Não me chame de Watson — reclamou Kit.
Ty ignorou.
— Precisamos descobrir como ter acesso ao que está preso neste cristal — falou ele. — O mais rápido possível. Poderia ajudar Julian e Emma.
— Você não sabe como entrar nele? — perguntou Kit.
Ty balançou a cabeça, evidentemente decepcionado.
— Não é magia dos Caçadores de Sombras. Não aprendemos magia de outros tipos. É proibido.
Kit achava aquela uma regra estúpida. Como alguém poderia conhecer o modus operandi de seus inimigos quando era proibido aprender sobre eles?
— Melhor irmos embora — sugeriu Livvy, pairando à entrada do cômodo. — Está escurecendo. Hora dos demônios.
Kit olhou para a janela. O céu estava escurecendo, a mancha do crepúsculo se espalhava pelo azul. As sombras desciam sobre Londres.
— Eu tenho uma ideia — falou ele. — Por que não levamos ao Mercado das Sombras aqui? Eu sei chegar ao Mercado. Posso encontrar um feiticeiro ou mesmo uma bruxa que nos ajude a obter o que quer que esteja nesta coisa.
Os gêmeos se entreolharam. Era evidente que ambos hesitavam.
— A gente não devia ir ao Mercado das Sombras — falou Livvy.
— Então aleguem que fugi para lá e que vocês precisavam me pegar — retrucou Kit. — Se um dia for preciso explicar, coisa que não vai acontecer.
Nenhum deles falou, mas Kit notava a curiosidade nos olhos cinzentos de Ty.
— Ora — falou ele, baixando a voz daquele jeito que seu pai o ensinara, com o tom que se usa quando se deseja convencer as pessoas de que você está falando seriamente. — Quando você está em casa, Julian nunca deixa você ir a parte alguma. Agora é a sua chance. Você sempre quis ver um Mercado das Sombras!
Livvy foi a primeira a falar.
— Está bem — falou ela, lançando um olhar breve ao irmão para ver se ele concordava. — Está bem, se você sabe onde fica.
O rosto pálido de Ty se iluminou com a empolgação. Kit sentiu a mesma animação passar para ele. O Mercado das Sombras. Seu lar, seu santuário, o lugar onde ele fora criado.
Correndo atrás de demônios e artefatos com Livvy e Ty, eram eles que sabiam tudo e ele não sabia nada. Mas no Mercado das Sombras, ele podia brilhar. Ele os chocaria. Impressionaria.
E então, talvez, ele os despistaria e fugiria.

* * *

As sombras estavam se alongando quando Julian e Emma terminaram o almoço. Julian comprou um pouco de comida e mantimentos numa pequena mercearia e Emma correu para a porta seguinte para escolher pijamas e camisetas numa lojinha New Age que vendia tarôs e gnomos de cristal. Quando saiu estava sorrindo. Ela mostrou a camiseta azul e roxa com o desenho de um unicórnio sorridente para Jules, que a fitou horrorizado. Ela enfiou a roupa na mochila com cuidado antes de começarem a atravessar a cidade para encontrar o início do caminho que os levariam pela costa.
As colinas se inclinavam, íngremes, desde a água; não era fácil escalar. Indicado apenas com uma placa PARA OS PENHASCOS, o caminho serpenteava através dos arredores da cidadezinha e de casas precariamente equilibradas, todas parecendo prestes a cair no porto em formato de meia-lua a qualquer momento.
No entanto, os Caçadores de Sombras eram treinados para muito mais do que esse tipo de esforço e caminharam rápido. Logo estavam fora da cidadezinha e andavam pelo caminho estreito, a colina subindo mais do lado direito e descendo em direção ao mar à esquerda.
O mar era azul-escuro, brilhando como um lampião. Nuvens da cor de conchas entrelaçavam-se pelo céu. Era belo de um modo totalmente diferente do pôr do sol sobre o Pacífico. Em vez de possuir as cores fortes do mar e do deserto, tudo aqui era em tons pastel suave: verdes, azuis e rosa.
O que era forte eram os penhascos em si. Eles estavam subindo próximos à parte da capela propriamente dita do Chapel Cliff, o promontório rochoso que se projetava do oceano, as pontas de rocha cinzenta que a coroavam em negro, de forma ameaçadora, contra o céu rosado. A colina se fora; agora eles estavam na própria ponta da terra: compridos seixos cinzentos de ardósia, que pareciam um baralho espalhado e virado de maneira acentuada, de cada lado, até o mar.
A casa que eles tinham visto da cidade estava aninhada entre as rochas; a coroa pontuda da capela de pedra se erguendo atrás dela. Conforme Emma se aproximava, ela sentia a força de seu feitiço de disfarce quase como um muro obrigando-a a recuar.
Jules também diminuiu o passo.
— Tem uma placa também — falou ele. — Diz que o lugar pertence ao Patrimônio Público. Proibida a entrada.
Emma fez uma careta.
— Proibida a entrada normalmente significa que a galera transformou o lugar em ponto de encontro e que está cheio de papéis de bala e garrafas de bebidas.
— Sei lá. O feitiço de disfarce aqui é realmente forte... não é apenas visual, mas emocional. Você pode senti-lo, certo?
Emma fez que sim com a cabeça. O chalé mandava ondas de fique longe, perigo e você não quer ver nada aqui. Era meio como se uma pessoa desconhecida e zangada estivesse berrando com você no ônibus.
— Pegue a minha mão — falou Julian.
— O quê? — Emma se virou, surpresa: ele oferecia a mão para ela. Ela via a leve mancha do lápis de cor na pele. Julian dobrou os dedos.
— Nós podemos passar por isso com mais facilidade juntos — falou ele. — Concentre-se em repeli-lo.
Emma pegou a mão dele, aceitando o choque que a percorreu ao contato. A pele de Jules era quente e macia, áspera onde havia calos. Ele apertou os dedos dela.
Eles avançaram, passaram pelo portão e seguiram o caminho que conduzia até a porta principal. Emma imaginava o feitiço de disfarce como uma cortina, como algo que pudesse tocar. Então imaginou que o afastava para o lado. Era difícil. Era como levantar peso com a mente, mas a força fluía através dela, vinda de Julian, através dos dedos e do pulso, subia pelo braço até seu coração e pulmões.
De repente, ela se concentrou. Quase casualmente, se permitiu afastar o feitiço de disfarce, erguendo-o ligeiramente para o lado. O chalé se lançou numa visão mais clara: as janelas não estavam cobertas com madeira, e sim limpas e intactas, a porta principal fora pintada recentemente de um azul intenso. Até a maçaneta parecia recém-polida de um bronze brilhante. Julian segurou-a e empurrou, e a porta se abriu, acolhendo-os em seu interior.
A sensação de que algo os expulsava do chalé cessou. Emma soltou a mão de Julian e deu um passo para dentro; estava muito escuro para enxergar. Ela sacou a pedra de luz enfeitiçada do bolso e deixou que sua luz brilhasse acima e ao redor deles.
Atrás dela, Julian deu um assobio baixinho de surpresa.
— Isto aqui não parece deserto. Nem de longe.
Era um quarto pequeno e bonito. Havia uma cama de dossel abaixo de uma janela, com vista para a aldeia lá embaixo. A mobília, que parecia ter sido pintada a mão em tons de azul, cinza e suaves cores da beira-mar, espalhava-se entre uma profusão de tapetes de retalhos.
Duas paredes eram ocupadas por uma cozinha com todas as conveniências modernas: cafeteira, fogão, máquina de lavar louça, bancadas de granito. Pilhas organizadas de lenha se erguiam de cada lado de uma lareira de pedra. Duas portas conduziam ao cômodo principal: Emma examinou e encontrou um pequeno escritório com escrivaninha pintada a mão e um banheiro de azulejos azuis, com banheira, chuveiro e uma pia de cuba. Sem acreditar no que via, ela girou de leve as torneiras do chuveiro e deu um gritinho quando tomou um banho involuntário. Tudo parecia funcionar bem, como se alguém que morasse no chalé e cuidasse de tudo com amor tivesse acabado de sair.
— Acho que talvez a gente pudesse ficar aqui — falou Emma, voltando para a sala de estar, onde Julian tinha acendido as lâmpadas elétricas.
— Fui bem mais rápido, Carstairs — disse, abrindo o armário da cozinha e começando a guardar os mantimentos. — Bom lugar, sem aluguel e vai ser mais fácil de procurar se ficarmos aqui, de qualquer forma.
Emma pousou a pedra de luz enfeitiçada sobre a mesa e olhou ao redor, admirada.
— Sei que isso parece improvável, mas você acha que Malcolm tinha uma segunda vida secreta como proprietário de chalés de veraneio com mobília adorável?
— Ou — falou Julian — tem um feitiço de disfarce ainda mais forte do que fomos capazes de perceber neste lugar, fazendo simplesmente com que se pareça um chalé de veraneio com mobília adorável quando, na verdade, é só um buraco no chão cheio de ratos.
Emma se jogou na cama. O lençol parecia uma nuvem e o colchão era divino depois do colchão cheio de calombos no Instituto de Londres.
— São os melhores ratos do mundo — anunciou ela, feliz por não terem que ficar num albergue, afinal.
— Imagine os corpos minúsculos e peludos deles se agitando perto de você. — Julian tinha se virado e a encarava, com um meio sorriso. Quando Emma era criança, tinha pavor de ratos e roedores.
Ela se sentou direito e olhou para ele com expressão séria.
— Por que você está tentando estragar minha diversão?
— Bem, para ser justo, isso não são férias. Não para nós. É uma missão. Temos que procurar por qualquer coisa que possa nos dar uma ideia de aonde Annabel teria ido.
— Sei lá — falou Emma. — Parece que este lugar foi esvaziado e totalmente reformado. Foi construído há tanto tempo, como poderemos saber o que sobrou da casa original? E Malcolm não teria levado algo importante para ele, para a casa em Los Angeles?
— Não necessariamente. Acho que este chalé era especial para ele. — Julian enfiou os polegares no passador do cós de seu jeans. — Veja o jeito como ele cuidou do chalé. Esta casa é pessoal. Parece um lar. Não aquela coisa feita de vidro e metal na qual ele morava em Los Angeles.
 — Então acho que a sente devia começar a olhar por aí. — Emma tentou parecer animada com a ideia, mas na verdade estava exausta. A falta de sono na véspera, a longa viagem de trem, a preocupação com Cristina, tudo isto lhe tirara a energia.
Julian olhou para ela com expressão crítica.
— Vou fazer um chá — disse ele. — Isso vai ajudar.
Ela enrugou o nariz para ele.
— Chá? Chá é a sua solução? Você nem é britânico de verdade! Passou dois meses Inglaterra! Como foi que eles fizeram lavagem cerebral em você?
— Você não gosta de café e precisa de cafeína.
— Eu obtenho cafeína do jeito que as pessoas sensatas fazem. — Emma ergueu as mãos e foi até o escritório. — Do chocolate!
Ela começou a puxar as gavetas da escrivaninha. Estavam vazias. Examinou as prateleiras; nada de interessante ali também. Começou a percorrer o cômodo até o closet e ouviu alguma coisa estalar. Aí se virou e se ajoelhou, afastando o tapete de retalhos.
O soalho era de tábuas de carvalho. Bem debaixo do tapete, Emma viu um quadrado de madeira mais clara, e as linhas negras e desbotadas da emenda onde o esboço quadrado de um alçapão era visível. Ela pegou a estela e encostou a ponta contra ele.
Abra — murmurou, desenhando a Marca.
Ouviu-se um som de algo se partindo. O quadrado de madeira se abriu e desmoronou em pedaços de serragem, caindo no buraco que ela havia aberto. Era ligeiramente maior em todos os lados do que ela imaginara. Nele, havia alguns livretos e um tomo grande, encadernado em couro, para o qual Emma forçou a vista, confusa. Será que era um tipo de livro de feitiços?
— Você acabou de destruir alguma coisa? — Julian se aproximou, a bochecha suja com alguma coisa preta. Ele olhou por cima do ombro de Emma e assobiou. — O clássico compartimento secreto no piso.
— Ajude-me a tirar estas coisas daqui. Você pega o livro gigante. —Emma pegou os três volumes menores; a encadernação de todo os três era de couro gasto, com a sigla MFP gravada nas lombadas, as páginas com as beiradas ásperas.
— Não é um livro — falou Julian com a voz ligeiramente estranha. — É um portfólio.
Ele o pegou e levou para a sala de estar, Emma apressada atrás dele. Duas xícaras fumegantes de chá estavam na bancada da cozinha e a lareira permanecia acesa. Emma percebeu que a coisa preta no rosto de Julian provavelmente eram cinzas. Ela o imaginou ajoelhado ali, acendendo o fogo para eles, paciente e pensativo, e sentiu uma onda de ternura esmagadora.
Ele já estava de pé junto à bancada, delicadamente abrindo o portfólio. Prendeu a respiração. A primeira imagem era uma aquarela de Chapel Cliff, vista de longe. As cores e formas saltavam aos olhos vividamente; Emma sentia o ar fresco do mar em seu pescoço, ouvia o trinado das gaivotas.
— É adorável — falou ela, sentando-se diante de Julian num banco alto.
— É de Annabel. — Ele tocou a assinatura dela no canto direito. — Eu não tinha ideia de que ela era uma artista.
— Acho que a arte corre no sangue de vocês — comentou Emma.
Julian não ergueu o olhar. Ele virava as páginas com mãos cuidadosas, quase reverentes. Havia muitas outras paisagens marítimas: Annabel parecia adorar captar o oceano e as curvas da terra firme que o limitavam. Annabel também tinha desenhado dezenas de imagens da casa dos Blackthorn em Idris, demorando-se na suavidade de sua pedra dourada, na beleza dos jardins, das vinhas com espinhos que envolviam os portões. Como o mural na parede do seu quarto, Emma queria dizer a Julian, mas não o fez.
No entanto, a mão de Julian não parou em nenhum deles. Mas fez uma pausa num desenho que, sem dúvida, era do chalé no qual eles estavam neste momento. Uma cerca de madeira o rodeava, Polperro era visível ao longe, e Warren estendia-se na colina oposta, cheia de casas.
Malcolm apoiado na cerca, parecendo impossivelmente jovem — mesmo que fosse evidente que ele ainda não tinha parado de envelhecer. Embora fosse um desenho a lápis, de algum modo, captava o louro dos cabelos dele, a estranheza dos olhos, mas eles tinham sido transformados em contornos tão adoráveis que se tornaram belos. Ele parecia prestes a sorrir.
— Acho que eles moraram aqui duzentos anos atrás, provavelmente se escondendo da Clave — falou Julian. — Tem algo de especial num lugar em que você esteve com alguém que ama. Ele assume um significado na sua mente. Torna-se mais do que um lugar. Transformara-se em uma destilação do que vocês sentiam um pelo outro. Os momentos que você passa num lugar com alguém... se tornam parte dos tijolos e da argamassa. Parte da alma do lugar.
A luz da lareira tocou a lateral do rosto dele, seus cabelos, e os transformou em ouro. Emma sentiu as lágrimas subindo no fundo da garganta e fez um esforço para engoli-las.
— Tem uma razão para Malcolm não ter deixado este lugar simplesmente virar ruínas. Ele o amava. Ele se importava porque foi um lugar em que esteve com ela.
Emma pegou o chá.
— E talvez um lugar para o qual ele quisesse trazê-la de novo? — retrucou ela. — Depois que ele a despertasse?
— Sim. Acho que Malcolm despertou o corpo de Annabel pelos arredores, que ele planejou se esconder com ela aqui, do mesmo jeito que fez tanto tempo atrás. — Julian pareceu afastar o clima intenso que lhe sobreveio, como um cão molhado sacudindo a água dos pelos. — Tem uns guias da Cornualha nas prateleiras... vou dar uma olhada neles. O que você que tem aí? O que tem nos livros?
Emma abriu o primeiro. Diário de Malcolm Fade Blackthorn, 8 anos de idade, estava rabiscado na primeira página.
— Pelo Anjo — falou Emma. — São os diários dele.
E começou a ler em voz alta, desde o início.

Meu nome é Malcolm Fade Blackthorn. Eu mesmo escolhi os dois primeiros nomes, mas o sobrenome me foi dado pelos Blackthorn, que gentilmente me acolheram. Felix diz que sou um tutelado, mas não sei o que isso quer dizer. Ele também diz que sou um feiticeiro. Quando fala isso, eu acho que provavelmente não é uma coisa boa, mas Annabel diz para eu não me preocupar, que todos nós nascemos o que somos e não podemos mudar. Annabel diz...

Ela se calou. Esse era o homem que assassinara os pais dela; mas também era a voz de uma criança, impotente e questionadora, ecoando através dos séculos. Duzentos anos — o diário não tinha data, mas devia ter sido escrito no inicio dos anos 1800.
— Annabel diz — murmurou da. — Que ele se apaixonou por ela cedo demais.
Julian pigarreou e ficou de pé.
— Parece que sim — disse ele. — Temos que procurar no diário menções de lugares que eram importantes para os dois.
— É um bocado de diário — falou Emma, fitando os três volumes.
— Então acho que temos um bocado de leitura pela frente — disse Julian. — Melhor eu preparar mais chá.
O lamento de Emma de “Chá não!” o seguiu cozinha adentro.


O Mercado das Sombras de Londres se localizava no extremo sul da Ponte de Londres. Kit ficou decepcionado ao ver que a Ponte era só uma construção de concreto sem graça e sem torres.
— Pensei que fosse como nos cartões postais — lamentou.
— Você está pensando na Torre de Londres — informou Livvy ironicamente quando eles começaram a descer um lance estreito de degraus de pedra para chegar ao espaço abaixo dos trilhos da Ponte de Londres, que se cruzavam acima. — Esta é a que está em todos os quadros. A verdadeira Ponte de Londres foi derrubada há muito tempo; esta é a substituta moderna.
Uma placa anunciava algum tipo de mercado diurno de frutas e vegetais, mas que já se encontrava fechado havia muito tempo. As barracas pintadas de branco estavam pregadas com força, os portões, trancados. A sombra da Catedral de Southwark se agigantava sobre tudo, uma massa de vidro e pedra que bloqueava a visão do rio.
Kit piscou e afastou o feitiço de disfarce ao chegar ao primeiro degrau. A imagem se rasgou feito teia de aranha e o Mercado das Sombras irrompeu em vida. Eles ainda usavam muitas das barracas comuns; uma coisa inteligente, pensou ele, se ocultar à vista de todos dessa forma, mas agora elas possuíam cores vibrantes, um arco-íris de tinta e brilho. Tendas também ondulavam entre as barracas, feitas de sedas e tapeçarias, cartazes flutuando ao lado da abertura, anunciando de tudo, desde cartomantes e pingentes da sorte a poções do amor.
Eles se esgueiraram para a multidão animada. Barracas vendiam máscaras encantadas, garrafas de sangue de safra para vampiros — Livvy pareceu prestes a vomitar ao ver o frasco SABOR CEREJA PICANTE — e boticários mantinham um negócio vigoroso de tinturas e pós mágicos. Um licantrope com cabelo ralo e branco claro vendia frascos de um pó cinza e, à frente dele, uma bruxa cuja pele fora tatuada com escamas multicoloridas mascateava livros de feitiços. Algumas barracas estavam cheias de amuletos repelentes de Caçadores de Sombras, o que fez Livvy dar uma risadinha.
Kit não achou graça.
— Abaixem as mangas — falou ele. — E ponham o capuz. Cubram suas Marcas o máximo que puderem.
Livvy e Ty fizeram conforme pedido. Ty esticou a mão para pegar os fones de ouvido também, mas parou. Lentamente, ele os enrolou de volta no pescoço.
— Melhor ficar sem eles — falou. — Pode ser que eu precise ouvir alguma coisa.
Livvy apertou o ombro do irmão e falou algo para ele numa voz baixa que Kit não conseguiu distinguir. Ty balançou a cabeça, dispensando a irmã, e eles continuaram a avançar no Mercado. Um grupo de pálidas Crianças da Noite se reunira numa barraca que dizia: VÍTIMAS VOLUNTÁRIAS AQUI. Uma multidão de humanos sentava-se ao redor de uma mesa de madeira, tagarelando, ocasionalmente outro vampiro aparecia, o dinheiro trocava de mãos e um dos humanos seria arrastado para as sombras para ser mordido.
Livvy fez um som abafado.
— Eles são muito cuidadosos — garantiu Kit. — Tem um lugar assim no Mercado de Los Angeles. Os vampiros nunca bebem o suficiente para machucar alguém.
Ele se perguntou se deveria dizer alguma coisa para tranquilizar Ty. O menino de cabelos escuros estava pálido, com uma fina camada de suor ao longo das maçãs do rosto. Suas mãos abriam e fechavam junto às laterais do corpo.
Mais adiante, via-se uma barraca anunciando BAR CRU. Licantropes cercavam uma dúzia de carcaças de animais frescas, vendendo nacos ensanguentados arrancados aos punhados pelos clientes que passavam. Livvy franziu a testa; Ty não disse uma palavra. Kit já percebera antes que trocadilhos e jogos de linguagem não interessavam muito a Ty. E neste momento o menino parecia lutar entre assimilar os detalhes do Mercado e vomitar.
— Ponha os fones de ouvido — murmurou Livvy para ele. — Está tudo bem.
Ty balançou a cabeça novamente. O cabelo preto estava grudado na testa. Kit franziu as sobrancelhas. Queria pegar Ty e arrastá-lo para fora do Mercado até um lugar calmo e silencioso. Ele se lembrou de Ty dizendo que odiava multidões, que o barulho e a confusão eram “como vidro quebrado na minha cabeça.”
Havia outra coisa também, alguma coisa estranha e errada com este Mercado.
— Acho que viemos parar na área de comida — falou Livvy, fazendo uma careta. — Preferiria que a gente não tivesse vindo para este lado.
— Por aqui. — Kit se direcionou mais para os lados da catedral. Normalmente, havia uma seção do Mercado onde os feiticeiros se reuniam; até agora, ele só vira vampiros, licantropes, bruxas e...
Ele diminuiu o passo até parar.
— Nada de fadas — falou.
— O quê? — perguntou Livvy, quase trombando nele.
— O Mercado está sempre cheio de fadas — falou. — Elas vendem tudo, de roupas de invisibilidade a sacos de comida que nunca ficam vazios. Mas não vi uma única fada aqui.
— Eu vi — falou Ty, e apontou.
Perto deles, havia uma grande barraca com um bruxo alto, com longos cabelos grisalhos trançados. Na frente da barraca, via-se uma mesa com baeta verde. Arrumadas sobre a mesa, antigas gaiolas feitas de ferro forjado pintado de branco. Cada uma delas era bela de uma forma diferente e, por um momento, Kit pensou que estivessem ali para venda.
Então ele olhou com mais afinco. Dentro de cada uma havia uma pequena criatura presa. Uma variedade de pixies, nixies. brownies e até um goblin, cujos grandes olhos estavam quase fechados de tão inchados — provavelmente pela proximidade com o ferro frio. As outras fadas conversavam baixinho e melancolicamente, as mãozinhas segurando as barras e então caindo com choramingos de dor.
Ty ficou branco de agonia. Suas mãos tremiam contra as laterais do corpo. Kit pensou nele no deserto, acariciando pequenos lagartos, guardando camundongos nos bolsos, capturando doninhas para ter companhia. Ty, cujo coração ia para as criaturas vivas pequenas e impotentes.
— Não podemos deixá-las assim.
— Provavelmente estão sendo vendidas por causa do sangue e dos ossos — falou Livvy, com voz trêmula. — Temos que fazer alguma coisa.
— Vocês não têm autoridade aqui, Caçadora de Sombras. — Uma voz fria e seca os fez dar meia-volta. Uma mulher estava de pé diante deles. Sua pele era escura como o mogno, os cabelos eram como bronze e presos bem alto na cabeça. As pupilas tinham formato de estrelas douradas. Ela vestia um terninho branco-gelo com sapatos de salto alto, cintilantes. Poderia ter qualquer idade entre dezoito e trinta.
Ela sorriu quando eles a encararam.
— Sim, eu consigo reconhecer Caçadores de Sombras, mesmo aqueles tentando esconder desajeitadamente suas Marcas — falou. — Sugiro que vocês saiam do Mercado antes que alguém menos amigável do que eu note vocês.
Os gêmeos fizeram gestos sutis para seus cintos de armas, e suas mãos pairavam perto dos cabos das lâminas serafim. Kit sabia que este era seu momento: o de mostrar como ele era capaz de lidar com um Mercado e seus habitantes.
Isso sem falar na parte de evitar um banho de sangue.
— Sou um emissário de Barnabas Hale — falou. — Do Mercado de Los Angeles. Estes Caçadores de Sombras estão sob minha proteção. Quem é você?
— Hypatia Vex — apresentou-se ela. — Eu também administro o Mercado. — Ela estreitou os olhos estrelados na direção de Kit. — Um representante de Barnabas, você disse? Por que eu devo acreditar em você?
— As únicas pessoas que sabem sobre Barnabas Hale — falou Kit — são as que ele quer que saibam.
 Ela assentiu levemente.
— E os Caçadores de Sombras? Barnabas os enviou também?
— Ele precisa que eu consulte um feiticeiro em relação a um peculiar objeto mágico — falou Kit. Ele estava voando alto agora, nas mentiras, na trapaça e na vigarice. — Eles estão com o objeto.
— Muito bem então. Se Barnabas mandou vocês consultarem um feiticeiro, que feiticeiro era?
— Era eu — uma voz rouca falou das sombras.
Kit se virou e viu um vulto de pé, em frente a uma grande tenda verde. A voz era masculina, mas o vulto estava coberto demais — vestes imensas, capuz e luvas — para ser possível distinguir seu gênero.
— Eu resolvo isso, Hypatia.
Hypatia piscou devagar. Era como se as estrelas desaparecessem e então reaparecessem por trás de uma nuvem.
— Se você insiste.
Ela começou a dar meia-volta e se afastar, mas daí fez uma pausa, olhando para trás, na direção de Livvy e Ty.
— Se vocês estão com pena destas criaturas, destas fadas morrendo dentro de gaiolas — falou ela —, pensem nisso: se não fosse pela Paz Fria na qual seu povo tanto insistiu, elas não estariam aqui. Vejam só o sangue em suas mãos, Caçadores de Sombras.
Ela desapareceu entre duas barracas. A expressão de Ty era de pura agonia.
— Mas minhas mãos...
— É um modo de dizer. — Livvy passou o braço em volta do irmão gêmeo, aninhando-o e puxando-o com força para si. — Não é culpa sua, Ty, ela só está sendo cruel.
— Melhor a gente ir — falou Kit para o feiticeiro com as vestes e o capuz, que assentiu.
— Venham comigo — disse ele, e se esgueirou para dentro da tenda. Os outros o seguiram.


O interior da tenda era excepcionalmente limpo e simples, com soalho de madeira, um catre simples e algumas prateleiras cheias de livros, mapas, frascos com pós, velas de cores variadas e jarros com líquidos de cores alarmantes. Ty exalou, reclinando-se em um dos postes da tenda. O alívio estava visivelmente impresso em seu rosto enquanto ele saboreava a calma e o silêncio relativos. Kit queria perguntar a Ty se ele estava bem depois da confusão do Mercado, mas Livvy já estava lá, afastando o cabelo úmido de suor da testa do irmão. Ty fez que sim com a cabeça e falou alguma coisa para ela que Kit não conseguiu ouvir.
— Venham — falou o feiticeiro. — Sentem-se aqui comigo.
Ele gesticulou. No centro do cômodo havia uma pequena mesa cercada por cadeiras. Os Caçadores de Sombras se sentaram e o feiticeiro encapuzado se ajeitou diante deles. À luz bruxuleante do interior da tenda, Kit entrevia a beirada de uma máscara debaixo do capuz, obscurecendo o rosto do feiticeiro.
— Podem me chamar de Shade — falou ele. — Não é meu sobrenome, mas vai servir.
— Por que você mentiu por nós? — questionou Livvy. — Lá fora. Você não tem nenhum acordo com Barnabas Hale.
— Oh, eu tenho alguns — falou Shade — Não em relação a vocês, Para falar a verdade, mas conheço o sujeito. E estou curioso por saber que vocês o conhecem também. Não são muitos os Caçadores de Sombras que sequer sabem o nome dele.
— Eu não sou um Caçador de Sombras — retrucou Kit.
— Oh, você é sim — disse Shade — É o novo Herondale, para ser exato.
A voz de Livvy soou ríspida:
— Como você sabe disso? Conte-nos agora.
— Por causa do seu rosto — falou ele para Kit. — Seu rosto lindo, lindo. Você não é o primeiro Herondale que conheci, nem o primeiro com esses olhos, feito crepúsculo destilado. Não sei por que você tem apenas uma Marca, mas sem dúvida posso adivinhar. — Ele juntou as palmas das mãos abaixo do queixo. Kit pensou ter notado um brilho de pele verde no pulso, pouco abaixo da beirada da luva. — Tenho que dizer que nunca imaginei que teria o prazer de entreter o Herondale Perdido.
— Não estou nem um pouco entretido, na verdade — falou Kit. — A gente podia ver um filme.
Livvy se inclinou para a frente.
— Desculpe — falou ela. — Ele fica assim quando está pouco à vontade. Sarcástico.
— Quem imaginaria que isso era uma característica hereditária? — Shade esticou a mão enluvada. — Ora, mostre-me o que você trouxe. Suponho que isso não seja uma mentira?
Ty enfiou a mão no casaco e sacou o cristal de alétheia. Sob a luz das velas, ele brilhou mais do que nunca.
Shade deu uma risadinha.
— Um porta-lembranças — falou. — Parece que, no fim das contas, você poderia conseguir o seu filme. — Ele esticou a mão e, depois de um momento de hesitação, Ty permitiu que ele o pegasse.
Shade pousou o cristal delicadamente no centro da mesa. Passou uma das mãos por cima dele, então franziu a testa e retirou a luva. Conforme Kit havia imaginado, a pele da mão dele tinha uma cor verde-escura. Ele se perguntava por que Shade se preocupava em cobrir alguma coisa desse tipo aqui no Mercado das Sombras, onde feiticeiros eram comuns.
Shade passou a mão nua sobre o cristal e murmurou. As velas no cômodo começaram a derreter. O murmúrio aumentou; Kit reconheceu as palavras em latim, que ele estudara durante três meses no colégio até chegar à conclusão de que não fazia sentido conhecer uma língua na qual só ia poder conversar com o Papa, a quem era improvável de se encontrar.
Agora, porém, tinha que admitir que o idioma em questão possuía um peso, uma sensação de que cada palavra carregava um sentido mais profundo. As velas se apagaram, mas o local não estava escuro: o cristal brilhava cada vez mais forte sob o toque de Shade.
Finalmente um raio de luz pareceu explodir do cristal, e Kit se deu conta do que Shade queria dizer quando fez a piada sobre o filme. A luz funcionava como o feixe de um projetor, lançando imagens em movimento contra a parede escura da tenda.
Havia uma garota sentada, presa à cadeira, numa sala circular, cheia de bancos, um tipo de auditório. Pelas janelas do cômodo, Kit via as montanhas cobertas de neve. Embora provavelmente fosse inverno, a garota usava apenas um vestido reto branco; os pés estavam descalços e os longos cabelos escuros caíam emaranhados.
O rosto era excepcionalmente parecido com o de Livvy, tão parecido que, ao vê-lo contorcido de agonia e terror, Kit ficou tenso.
— Annabel Blackthorn. — Um homem franzino com ombros curvados entrou na cena. Ele vestia preto e usava um broche não muito diferente daquele que Diego usava no ombro. O capuz estava baixado, por causa disso e devido ao ângulo do ponto de vista do cristal, era difícil ver seu rosto ou seu corpo com muitos detalhes.
— O Inquisidor — murmurou Shade. — Na época, era um Centurião.
— Você veio perante nós — prosseguiu o homem —, acusada de consórcio com integrantes do Submundo. Sua família acolheu o feiticeiro Malcolm Fade e o criou como seu irmão. Ele pagou a bondade com traição abjeta. Roubou o Volume Negro dos Mortos do Instituto da Cornualha, e você o ajudou.
— Onde está Malcolm? — A voz de Annabel estava trêmula, mas também era nítida e firme. — Por que ele não está aqui? Eu me recuso a ser interrogada sem ele.
— Como você e seu saqueador feiticeiro são unidos — zombou o Inquisidor. Livvy arfou. Annabel parecia furiosa. Ela travava o queixo do mesmo jeito teimoso que Livvy costumava fazer, pensou Kit, mas também havia um pouco de Ty e dos outros nela. A arrogância de Julian, a vulnerabilidade emocional de Dru, a expressão pensativa dos olhos e da boca de Ty. — Então vai ficar decepcionada se souber que ele se foi?
— Se foi? — repetiu Annabel de modo inexpressivo.
— Desapareceu da cela na Cidade do Silêncio durante a noite. Abandonou você à própria sorte.
Annabel apertou as mãos com força no colo.
— Isso não pode ser verdade — falou ela. — Onde ele está? O que vocês fizeram com ele?
— Não fizemos nada com ele. Eu ficaria feliz em testemunhar tal coisa segurando a Espada Mortal — falou o Inquisidor. — Na verdade, o que queremos de você agora, e vamos libertá-la depois disso, é a localização de Fade. Ora, por que iríamos querer saber isso, a menos que ele realmente tivesse escapado?
Annabel balançava a cabeça com veemência e os cabelos escuros açoitavam seu rosto.
— Ele não me abandonaria — murmurou ela. — Ele não faria isso.
— É melhor encarar a verdade, Annabel — falou o Inquisidor. — Ele usou você para ter acesso ao Instituto da Cornualha, para roubar de lá. Assim que teve o que queria, desapareceu, deixando você sozinha para aguentar o peso da nossa ira.
— Ele queria o livro para nossa proteção. — A voz dela tremeu. — Para que pudéssemos começar uma vida nova juntos, onde estaríamos a salvo... a salvo da Lei, a salvo de vocês.
— O Volume Negro não contém feitiços de proteção ou segurança —falou o Inquisidor. — O único meio pelo qual ele poderia ajudar vocês seria se o trocassem com alguém mais poderoso. Quem era o aliado poderoso de Fade, Annabel?
Ela balançou a cabeça, seu queixo travado teimosamente. Atrás dela, outra pessoa entrava no cômodo: uma mulher de rosto severo, que trazia o que parecia uma trouxa de pano preto. Kit sentiu um calafrio na espinha ao ver aquela figura.
— Não vou dizer nada. Nem se vocês usarem a Espada.
— Na verdade, não podemos acreditar no que você disser sob a Espada — falou o Inquisidor. — Malcolm contaminou você de tal forma...
Contaminou? — ecoou Annabel, horrorizada. — como se... como se agora eu fosse suja?
— Você ficou suja desde a primeira vez que o tocou. E agora nós não sabemos como ele mudou você; você pode muito bem ter alguma proteção em relação aos nossos instrumentos de justiça. Algum encantamento que não conhecemos. Por isso teremos que fazer como os mundanos.
A mulher com expressão severa tinha se aproximado do Inquisidor e lhe entregado a trouxinha preta. Ele a desenrolou e revelou uma variedade de instrumentos afiados: facas, navalhas e furadores. Alguns com lâminas manchadas com vermelho oxidado.
— Diga-nos quem tem o livro agora e a dor cessa — fala o Inquisidor, erguendo uma navalha.
Annabel começou a gritar.
Felizmente, a imagem escureceu. Livvy estava pálida. Ty se inclinou para frente, abraçando o próprio corpo com força. Kit queria esticar o braço, queria tocar em Ty, queria dizer ao garoto que tudo ia ficar bem, comunicar de tal forma que chegou a ficar espantado com a própria atitude.
— Tem mais — falou Shade. — Ema cena diferente. Vejam.
A imagem na parede mudou. Eles ainda estavam dentro do mesmo auditório, mas era noite agora e as janelas estavam escuras. O local estava iluminado com tochas que ardiam em dourado e branco. Agora eles viam o rosto do Inquisidor, em vez de apenas as beiradas das roupas escuras e das mãos. Ele não era nem tão velho quanto Kit tinha pensado: um homem bastante jovem, com cabelos escuros.
O cômodo estava vazio, a não ser por ele e por um grupo de outros homens com idades variadas. Não havia mulheres. Os outros homens não trajavam vestes, mas roupas da época da Regência: calça de camurça e casaco curto com botões. Alguns também tinham costeletas, e uns poucos, barbas limpas e aparadas. Todos pareciam agitados.
— Felix Blackthorn — chamou o Inquisidor, arrastando um pouco as palavras. — Sua filha, Annabel, decidiu tornar-se uma Irmã de Ferro. Ela deveria lhe encontrar para um último adeus, mas eu soube agora das damas da Cidadela Adamant que ela nunca chegou ao seu destino. Você tem alguma ideia do paradeiro dela?
Um homem de cabelos castanhos raiados de cinza franziu a testa. Kit o encarou com um pouco de fascínio: aqui estava um ancestral vivo de Ty e Livvy, Julian e Mark. Seu rosto era largo e trazia as marcas do temperamento difícil.
— Se você está sugerindo que estou escondendo minha filha, não estou — falou ele. — Ela se contaminou com o toque de um feiticeiro e não é mais parte da nossa família.
— Meu tio fala a verdade — disse outro homem, mais jovem. — Annabel está morta para todos nós.
— Que imagem vívida — falou o Inquisidor. — Não se importe se eu achar que é mais do que uma imagem.
O jovem se encolheu. Felix Blackthorn não mudou a expressão.
— Você não se importaria em segurar a Espada Mortal, se importaria, Felix? — perguntou o Inquisidor. — Apenas para ter certeza de que você realmente não sabe onde sua filha está.
— Você a mandou de volta para nós torturada e quase louca — falou rispidamente o Blackthorn mais jovem. — Não nos diga agora que se importa com o destino dela!
— Ela não estava mais machucada do que muitos Caçadores de Sombras poderiam ficar numa batalha — falou o Inquisidor —, mas a morte é outra coisa. E as Irmãs de Ferro estão perguntando.
— Posso falar? — indagou outro homem; ele tinha cabelos escuros e aparência aristocrática.
O Inquisidor assentiu.
— Desde que Annabel Blackthorn foi se juntar às Irmãs de Ferro — prosseguiu ele —, Malcolm Fade se tornou um verdadeiro aliado dos Nephilim. Um dos raros feiticeiros com quem podemos contar do nosso lado, e que é indispensável numa batalha.
— Aonde quer chegar, Herondale?
— Se ele não achar que sua amada o abandonou, digamos, por livre e espontânea vontade, ou se ele souber de algum mal que ocorreu a ela, acho improvável que continue a ser um recurso tão valioso para nós.
— As damas da Cidadela Adamant não deixam a ilha para se meter em fofocas — falou outro dos homens, com um rosto estreito como o de um furão. — Se a discussão do destino da infeliz Annabel terminar aqui, então termina aqui. Afinal, talvez ela tenha fugido pela estrada ou talvez tenha sido vítima de um demônio ou salteador no caminho para a Cidadela. Talvez nunca saibamos.
O Inquisidor tamborilou os dedos no braço da cadeira. Ele encarava Felix Blackthorn, olhos semicerrados; era impossível Kit dizer o que poderia estar pensando. Finalmente, ele falou:
— Você é terrivelmente sagaz Felix, envolvendo seus amigos nisso. Sabe que não posso punir todos sem criar o caos. E você tem razão sobre Fade. Há uma revolta perto da Scholomance, e nós precisamos dele. — Ele jogou as mãos para o alto. — Muito bem. Nós nunca voltaremos a discutir isso.
Uma expressão de alívio passou pelo rosto de Felix Blackthorn, misturada a uma amargura estranha.
— Obrigado — falou. — Obrigado, Inquisidor Dearborn.
A visão diminuiu até virar um minúsculo ponto preto, aí desapareceu.
Por um momento, Kit ficou sentado, imóvel. Ouviu Livvy e Ty falando em vozes apressadas, e Shade respondendo: sim, a visão era uma lembrança real; não, não havia meio de identificar quem poderiam ser. Provavelmente tinha duzentos anos. Era evidente que estavam agitados por causa da menção a um Inquisidor Dearborn. Mas o cérebro de Kit se prendeu a uma palavra, como um pedaço de pano em um gancho:
Herondale.
Um daqueles homens terríveis fora seu ancestral. Herondale, Dearborn e Blackthorn juntos foram cúmplices em acobertar a tortura e o assassinato de uma jovem cujo único crime tinha sido amar um feiticeiro. Uma coisa era pensar que ele era parente de Jace, que parecia ser universalmente adorado e bom em tudo. Todos falavam dos Herondale para ele como se fossem membros da realeza, da realeza de salvadores do mundo.
Ele se lembrou das palavras de Arthur. Que tipo de Herondale você vai ser? William ou Tobias? Stephen ou Jace? Belo, amargo ou ambos?
— Rook! — A frente da tenda balançou. — Kit Rook, saia agora daí!
A conversa dentro da tenda parou. Kit piscou; ele não era Kit Rook, era Christopher Herondale, era...
Ele cambaleou e ficou de pé. Livvy e Ty saltaram atrás dele, e Ty fez uma pausa apenas para guardar o cristal de alétheia no bolso.
— Kit, não... — começou Livvy, esticando a mão para ele, mas Kit já saia da tenda.
Alguém estava chamando seu verdadeiro nome — ou talvez não fosse seu verdadeiro nome —, mas era uma parte de si que ele não podia negar. Ele cambaleou para a trilha do lado de fora.
Barnabas Hale estava de pé diante dele, os braços cruzados, a pele branca escamosa brilhando de modo nojento sob a luz das tochas. Atrás dele, agigantava-se um grupo de licantropes: homens e mulheres grandes e musculosos, vestidos de couro preto e com pulseiras de tachinhas. Mais de um deles carregava socos ingleses de latão.
— Então, pequeno Rook — falou Barnabas, e sua língua de cobra tremelicou quando ele sorriu. — Que história foi essa que eu ouvi sobre você fingir estar aqui a negócios em meu nome?

2 comentários:

  1. Kit reconheceu as palavras em latim, que ele estudara durante três meses no colégio até chegar à conclusão de que não fazia sentido conhecer uma língua na qual só ia poder conversar com o Papa, a quem era improvável de se encontrar.

    TIPO ALGUNS CERTOS ALUNOS...
    porque vou estudar isso se vou fazer outra coisa ? tipo...rachei😂😂

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  2. Que Cap foda
    Da pra falar palavrão Karina?

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Boa leitura :)