20 de novembro de 2017

Capítulo 17

Tendo começado mal o dia, a mente de Arthur estava se recompondo a partir dos fragmentos a que havia sido reduzida na véspera. Arthur encontrara uma Nutrimática, máquina que lhe dera um copo plástico cheio de um líquido que era quase, mas não exatamente, completamente diferente do chá. A máquina funcionava de maneira muito interessante. Quando o botão de bebida era apertado, ela fazia um exame instantâneo, porém altamente detalhado, das papilas gustativas do usuário, uma análise espectroscópica de seu metabolismo e então enviava pequenos sinais experimentais por seu sistema nervoso para testar seu gosto. Porém ninguém entendia por que ela fazia tudo isso, já que invariavelmente servia um líquido que era quase, mas não exatamente, completamente diferente do chá. A Nutrimática é fabricada pela Companhia Cibernética de Sirius, cujo departamento de reclamações atualmente cobre todos os continentes dos três primeiros planetas do sistema estelar de Sirius Tau.
Arthur bebeu o líquido e sentiu que ele o reanimou. Olhou para as telas de novo e viu mais algumas centenas de quilômetros de deserto cinzento passarem por eles. De repente resolveu fazer uma pergunta que o vinha incomodando há algum tempo.
— Não tem nenhum perigo?
— Magrathea está morto há cinco milhões de anos — disse Zaphod. — É claro que não há perigo nenhum. A essa altura, até os fantasmas já criaram juízo e estão casados e cheios de filhos. Neste momento, um som estranho e inexplicável ouviu-se no recinto — parecia uma fanfarra distante; um som oco, frouxo, insubstancial. Foi seguido de uma voz igualmente oca, frouxa e insubstancial.
— Sejam bem-vindos...  disse a voz.
Alguém estava falando com eles, daquele planeta morto.
— Computador! — gritou Zaphod.
— Oi, gente!
— Que diabo é isso?
— Ah, alguma gravação de cinco milhões de anos que está sendo tocada para nós.
— O quê? Uma gravação?
— Psss! — exclamou Ford. — Vamos escutar.
A voz era velha, cortês, quase encantadora, porém continha um toque de ameaça inconfundível.
— Isto é uma gravação, e infelizmente não há ninguém presente no momento. O Conselho Comercial de Magrathea agradece a sua gentil visita...
 Uma voz de Magrathea! — exclamou Zaphod.
— Está bem, você venceu — disse Ford.
— ...porém lamenta informar que todo o planeta está temporariamente fechado. Obrigado. Se tiverem a bondade de deixar seus nomes e o endereço de um planeta em que possamos contatá-los, por favor, falem após o sinal.
Ouviu-se um zumbido e, depois, silêncio.
— Querem se livrar de nós — disse Trillian, nervosa. — O que vamos fazer?
— É só uma gravação — disse Zaphod. — Vamos em frente. Ouviu, computador?
— Ouvi, sim — disse o computador. Acelerando um pouco a nave.
Esperaram.
Um ou dois segundos depois ouviu-se a fanfarra, seguida da voz:
— Queremos informar-lhes que, assim que reabrirmos, o fato será anunciado nas principais revistas e suplementos coloridos e nossos clientes poderão mais uma vez adquirir o que há de melhor em matéria de geografia contemporânea. O tom de ameaça da voz intensificou-se. Até então, agradecemos o interesse de nossos clientes e pedimos que partam. Agora.
Arthur olhou para os rostos nervosos de seus companheiros.
— Bem, acho melhor a gente ir embora, não é?
— Ora! — disse Zaphod. — Não há motivo para preocupação.
— Então por que todo mundo está tão nervoso?
— Estamos só interessados! — gritou Zaphod. — Computador, comece a penetrar na atmosfera e preparar para a aterrissagem.
 Desta vez a fanfarra foi só pro forma, e a voz, bem fria.
— É muito gratificante o seu entusiasmo manifestado em relação a nosso planeta. Portanto, gostariamos de lhes dizer que os mísseis teleguiados que estão no momento convergindo para sua nave fazem parte de um serviço especial que oferecemos a nossos clientes mais entusiásticos; as ogivas nucleares prontas para detonar são apenas um detalhe da cortesia. Esperamos não perder contato com vocês em vidas futuras... Obrigado.
A voz calou-se.
— Ah — exclamou Trillian.
— Hummm... — disse Arthur.
— E agora? — perguntou Ford.
— Escutem — disse Zaphod —, será que vocês não entendem? Isso é só uma mensagem gravada há milhões de anos. Não se aplica ao nosso caso, entenderam?
— E os mísseis? — perguntou Trillian, em voz baixa.
— Mísseis? Ora, não me faça rir.
Ford deu um tapinha no ombro de Zaphod e apontou para a tela de trás. Nela via-se claramente dois dardos prateados subindo em direção à nave. Com um aumento maior, viu-se claramente que eram dois foguetes dos grandes. Foi um choque.
— Acho que eles vão se esforçar o máximo para que se aplique ao nosso caso também — disse Ford.
Zaphod olhou para os outros, atônito.
— Que barato1. Tem alguém lá embaixo que quer matar a gente!
— Maior barato! — disse Arthur.
— Mas você não entende o que isso representa?
— Claro. Vamos morrer.
— Sim, mas afora isso.
— Afora isso?
— Quer dizer que lá deve ter alguma coisa!
— Como é que a gente sai dessa?
A cada segundo, a imagem dos mísseis na tela aumentava. Agora eles já estavam apontando diretamente para o alvo, de modo que tudo que se via deles eram as ogivas, de frente.
— Só por curiosidade — disse Trillian —, o que vamos fazer?
— Não perder a calma — disse Zaphod.
— Só isso? — gritou Arthur.
—Não, vamos também... ah... adotar táticas de evasão! — disse Zaphod, subitamente em pânico. — Computador, que espécie de tática de evasão podemos adotar?
— Bem... infelizmente nenhuma, pessoal — disse o computador.
— ...ou então outra coisa qualquer — disse Zaphod.
— Hããã...
Alguma coisa parece estar interferindo com meus sistemas de controle explicou o computador, com uma voz alegre.
     Impacto em 45 segundos. Podem me chamar de Eddie, se isso os ajudar a manter a calma.
Zaphod tentou correr em várias direções ao mesmo tempo.
— Certo! — exclamou. — Bem... vamos ter que assumir o controle manual da nave.
— Você sabe pilotá-la? — perguntou Ford, com um tom de voz simpático.
— Não. E você?
— Também não.
— Trillian, e você?
— Também não.
— Tudo bem — disse Zaphod, relaxando. — Vamos trabalhar todos juntos.
— Eu também não sei — disse Arthur, achando que já era hora de começar a se afirmar.
— Era o que eu imaginava — disse Zaphod. — Está bem. Computador, quero controle manual, imediatamente.
— É todo seu — disse o computador.
Diversos painéis grandes abriram-se, contendo diversos pacotes de plásticos e rolos de celofane: os controles nunca tinham sido usados antes.
Zaphod contemplou-os assustado.
— Vamos lá, Ford. Retroceder a toda velocidade, dez graus para estibordo.
— Ou coisa parecida...
— Boa sorte, gente — disse o computador. — Impacto dentro de 30 segundos...
Ford saltou para cima dos controles; só conseguiu reconhecer alguns deles, e os acionou. A nave estremeceu e guinchou, pois todos os seus foguetes direcionadores tentaram empurrá-la em todas as direções simultaneamente. Ford soltou metade dos controles, e a nave começou a rodar num arco fechado, até completar meia-volta, seguindo diretamente em direção aos mísseis.
Colchões de ar amortecedores de impacto saíram das paredes de repente e todos foram atirados de encontro a eles. Por alguns segundos, as forças de inércia os mantiveram achatados contra os colchões, ofegantes, incapazes de se mexer. Em desespero, Zaphod conseguiu safar-se e dar um pontapé numa pequena chave que fazia parte do sistema de direcionamento.
A chave caiu da parede. A nave fez uma curva abrupta e virou para cima. A tripulação foi toda jogada contra a parede oposta.
exemplar de Ford do Guia do Mochileiro foi cair em cima do painel de controle, o que teve dois efeitos simultâneos: o livro começou a dizer a quem estivesse prestando atenção nele quais eram as melhores maneiras de partir de Antares levando clandestinamente glândulas de periquitos antareanos (espetadas em palitos, são salgadinhos asquerosos, porém estão em moda, e verdadeiras fortunas são gastas na aquisição dessas glândulas, por idiotas muito ricos que querem esnobar outros idiotas muito ricos); e a nave de repente começou a cair como uma pedra.
Naturalmente, foi mais ou menos nesse momento que um membro da tripulação machucou bastante o braço. É necessário enfatizar esse fato porque, como já afirmamos, afora isso a tripulação escapou absolutamente incólume, e os letais mísseis nucleares não atingiram a nave. A segurança dos tripulantes está inteiramente garantida.
— Impacto em 20 segundos, pessoal — disse o computador.
— Então liga a porcaria dos motores! — gritou Zaphod.
— Claro, tudo bem — disse o computador. Com um zumbido sutil, os motores ligaram-se novamente, a nave retomou seu curso e voltou a seguir em direção aos mísseis.
— O computador começou a cantar.
— Ao caminhar na tempestade... — começou ele, com uma voz anasalada — mantenha a cabeça erguida...
Zaphod gritou-lhe que se calasse, porém não foi possível ouvi-lo no meio daquele ruído, que todos, naturalmente, acharam que fosse o ruído de sua própria destruição.
— E não tenha medo do escuro! — cantava Eddie.
Ao reassumir sua trajetória, a nave ficara de cabeça para baixo; assim, os tripulantes estavam no teto, e portanto não tinham acesso aos comandos.
— No final da tempestade... — cantarolava Eddie.
Os dois mísseis cresciam cada vez mais nas telas, e seus rugidos eram cada vez mais próximos.
—... há um céu dourado...
Porém, por um acaso extraordinariamente feliz, eles não haviam corrigido sua trajetória com precisão em relação à trajetória aleatória da nave, e passaram logo abaixo dela.
— E o doce canto da cotovia... Correção: impacto dentro de 15 segundos, pessoal... Caminhe contra o vento...
Os mísseis descreveram um arco e voltaram.
— É agora — disse Arthur, olhando para a tela. — Agora vamos morrer mesmo, não é?
— Preferia que você parasse de dizer isso — gritou Ford.
— Mas é verdade, não é? — É.
— Caminhe pela chuva... — cantava Eddie.
Arthur teve uma ideia. Pôs-se de pé com dificuldade.
— Por que a gente não liga o tal gerador de improbabilidade? — perguntou ele. — Talvez a gente o alcance.
— Você está maluco? — exclamou Zaphod. — Sem antes fazer a programação, pode acontecer qualquer coisa.
— Qual o problema, a essa altura? — gritou Arthur.
— Ainda que seus sonhos se esfumem... — cantava Eddie. Arthur agarrou-se a uma protuberância decorativa localizada no trecho em que a curva da parede encontrava com o teto.
— Siga em frente, cheio de esperança...
— Alguém podia me dizer por que Arthur não deve ligar o gerador de improbabilidade? — gritou Trillian.
— E você não há de estar sozinho... Impacto dentro de cinco segundos, pessoal; foi um prazer conhecê-los. Deus os abençoe... Sozinho jamais!
— Eu perguntei — berrou Trillian — por que...
Houve então uma explosão estonteante de ruídos e luzes.

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Boa leitura :)