15 de novembro de 2017

Capítulo 17

O escritório está deserto como Paul sabia que ia estar. Ele entra correndo enquanto as velhas lâmpadas fluorescentes piscam antes de acender completamente e vai direto para sua sala. Uma vez lá dentro, revira as pilhas de arquivos e pastas em sua mesa, até encontrar o que procura. Então, acende a luminária da mesa, e estende o artigo fotocopiado à sua frente, alisando-o com as mãos.
— Tomara que eu esteja errado — murmura. — Tomara que eu tenha entendido errado.
A parede da Casa de Vidro está apenas parcialmente visível, pois a imagem do quadro foi ampliada para preencher a folha de papel A4. Mas o quadro é de fato A garota que você deixou para trás. E, à direita dele, a janela do piso ao teto que Liv lhe mostrou, a vista que se estendia em direção a Tilbury.
Ele examina o fragmento de texto.

Halston desenhou este quarto para que seus ocupantes fossem despertados pelo sol da manhã. “Num primeiro momento, eu quis colocar algum tipo de sistema de proteção para as horas de claridade no verão”, diz ele. “Mas, na verdade, a gente descobre que se cansa menos quando acorda naturalmente. Então, nunca me dei o trabalho de instalar nada.”
Ao lado do quarto principal há, em estilo japonês

O texto é interrompido, cortado pela fotocópia. Paul olha um instante para aquilo, depois liga o computador e digita DAVID HALSTON no mecanismo de busca. Seus dedos tamborilam na mesa enquanto ele espera a informação carregar.

* * *

Ontem, foram rendidas homenagens ao arquiteto modernista David Halston, que faleceu subitamente em Lisboa aos trinta e oito anos. As primeiras notícias sugerem que sua morte tenha sido consequência de uma insuficiência cardíaca não diagnosticada. A polícia local não estaria tratando a morte dele como suspeita.
Sua mulher, com quem esteve casado por quatro anos, Olivia Halston, vinte e seis, encontrava-se ao seu lado na ocasião, e está sendo consolada por familiares. Um membro do consulado britânico em Lisboa pediu que a privacidade da família fosse respeitada para que possam chorar a dor da sua perda.
A morte de Halston interrompe uma carreira estelar, notável pelo uso inovador do vidro, e os colegas arquitetos fizeram fila para render tributo ao

Paul se encosta devagar na cadeira. Folheia o resto da papelada, depois relê a carta dos advogados da família Lefèvre.

um caso inequívoco, cuja prescrição é improvável dadas as circunstâncias... roubado de um hotel em St Péronne circa 1917, pouco antes da detenção da esposa do artista pelas forças de ocupação alemãs...
Esperamos que a TARP, o programa de restituição de propriedade, possa levar este caso a uma conclusão rápida e satisfatória. Há alguma folga no orçamento para ressarcir os donos atuais, mas é improvável que se aproxime do valor estimado pelo leilão.

Paul poderia apostar que Liv não tinha ideia de quem era o autor do quadro. Ouve a voz dela, tímida e estranhamente orgulhosa do seu bem: “É o meu objeto favorito nesta casa. Na verdade, é o meu objeto favorito no mundo inteiro.”
Paul deixa a cabeça cair entre as mãos. Fica assim até o telefone do escritório começar a tocar.

* * *

O sol nasce nas planícies a leste de Londres, inundando o quarto de um dourado claro. As paredes brilham por um instante, a luz quase fosforescente reverberando nas superfícies brancas de um modo que, em outra ocasião, poderia ter feito Liv gemer, fechar os olhos e esconder o rosto embaixo do edredom. Mas ela está deitada imóvel na cama muito larga, com a cabeça apoiada num travesseiro grande, e contempla o amanhecer, com os olhos vazios fixos no céu.
Ela entendeu tudo errado.
Continua vendo o rosto dele, ouvindo-o desembaraçar-se dela com a maior educação. Você se importa se eu for embora?
Ela está ali deitada há quase duas horas, segurando o celular, se perguntando se deve enviar uma mensagem de texto.

Estamos bem? Você pareceu de repente...

Me desculpe se falei demais no David. É difícil lembrar que nem todo mundo...

Adorei ver você ontem à noite. Espero que seu trabalho acalme logo. Se você estiver livre domingo eu...

O que eu fiz de errado?

Ela não envia nenhuma delas. Lembra e relembra os estágios da conversa, repassando cada frase, cada palavra, meticulosamente, como um arqueólogo selecionando ossos. Será que foi aí que ele mudou de ideia? Foi algo que ela fez? Alguma questão sexual que ela não percebeu? Terá sido simplesmente estar na Casa de Vidro? Uma casa que, embora já não guardasse nenhum dos pertences dele, representava David de forma tão palpável que era como se a imagem dele estivesse gravada em todo lugar como uma inscrição numa pedra? Será que ela interpretou Paul de modo totalmente equivocado? Cada vez que considera esses potenciais erros, Liv sente seu estômago contrair de ansiedade.
Gostei dele, pensa. Realmente gostei dele.
Então, sabendo que o sono não vai chegar, ela se levanta da cama e desce para a cozinha. Seus olhos ardem de cansaço, e ela se sente vazia. Faz um café e está sentada à mesa da cozinha, soprando o café, quando a porta da frente é aberta.
— Esqueci meu cartão do seguro social. Não posso entrar na casa de assistência sem ele a essa hora. Me desculpe... eu ia chegar de mansinho para não perturbar você. — Mo para e olha para trás, como se procurasse alguém. — Então... Como foi? Você transou com Paul?
— Ele foi para casa.
Mo pega a jaqueta reserva no armário e começa a revistar seu bolso. Encontra o cartão do seguro social e o coloca no bolso.
— Você vai ter que superar isso, sabe. Quatro anos é muito tempo para não...
— Eu não queria que ele fosse embora. — Liv engole em seco. — Ele fugiu.
Mo dá uma risada e de repente para ao ver que Liv está falando sério.
— Ele realmente saiu correndo do quarto.
Ela não se importa de estar soando trágica. Não poderia se sentir pior do que já se sentia.
— Antes ou depois de você ter transado com ele?
Liv dá um gole no seu café.
— Adivinha?
— Ai, droga. Foi tão ruim assim?
— Não, foi ótimo. Bem. Achei que tinha sido. Tudo bem que ultimamente não tenho tido muito com o que comparar.
Mo olha em volta, como se à procura de pistas.
— Você guardou as fotos do David, certo?
— Claro que guardei.
— E não disse, tipo, o nome do David na hora H?
— Não. — Ela se lembra do jeito que Paul a abraçara. — Eu disse que ele tinha mudado o modo como eu me via.
Mo balança a cabeça com tristeza.
— Ih, Liv. Que azar. Você conheceu um Solteirão Convicto.
— O quê?
— Ele é o homem perfeito. É direto, carinhoso, atencioso. Chega superforte. Até se dar conta de que você também gosta dele. E aí ele sai correndo. Criptonita para certo tipo de mulher carente e vulnerável. Essa seria você. — Mo franze a testa. — No entanto, isso me surpreende. Sinceramente não achei que ele fosse o tipo.
Liv olha para sua caneca. Então diz, um pouco na defensiva:
— É possível que eu tenha falado algo sobre David. Quando eu estava mostrando o quadro para ele.
Os olhos de Mo se arregalam, depois se reviram.
— Bem, pensei que eu pudesse ser direta sobre tudo. Ele sabe da minha história. Pensei que aceitasse numa boa.
Ela ouve a própria voz: irritada.
— Ele disse que aceitava.
Mo se levanta e vai à cesta de pão. Pega uma fatia, dobra-a ao meio e dá uma mordida.
— Liv, você não pode ser sincera a respeito de outros homens. Homem nenhum quer ouvir sobre quão fantástico era o anterior, mesmo que ele tenha morrido. Seria o mesmo que discorrer sobre os Pênis Enormes que Conheci.
— Não posso fingir que David não faz parte do meu passado.
— Não, mas ele também não tem que ser todo o seu presente. — Liv a fuzila com os olhos, e Mo continua: — Honestamente? É como se você estivesse num circuito fechado. Acho que mesmo quando não está falando dele você está pensando em falar dele.
Isso até poderia ter sido verdade algumas semanas antes. Mas não agora. Liv quer seguir em frente. Queria ter seguido em frente com Paul.
— Bem. Isso não importa muito, importa? Eu estraguei tudo. Acho que ele não vai voltar. — Ela dá um gole no café, que queima sua língua. — Foi burrice minha me iludir.
Mo coloca a mão em seu ombro.
— Os homens são esquisitos. Não era que não fosse óbvio que você estava um lixo. Ah, merda, a hora. Olhe, vai dar uma daquelas suas corridas doidas. Volto às três horas e vou ligar para o restaurante dizendo que não me sinto bem, e a gente pode dizer muito palavrão e pensar em castigos medievais para homens filhos da mãe que uma hora querem uma coisa, outra hora querem outra. Tenho massa de modelar lá em cima que uso para fazer figuras de vudu. Será que pode arranjar uns palitinhos de aperitivo? Ou uns espetos? Fui.
Mo pega sua chave reserva, acena com a fatia de pão dobrada e sai antes que Liv diga qualquer coisa.

* * *

Nos cinco anos anteriores, a TARP devolveu mais de duzentas e quarenta obras de arte a proprietários, ou descendentes de proprietários, que haviam julgado talvez nunca mais tornar a vê-las. Paul ouviu histórias de brutalidades da guerra muito mais terríveis que qualquer coisa que viu enquanto trabalhou no Departamento de Polícia de Nova York. Elas são repetidas com uma clareza de memória que sugere que poderiam ter acontecido ontem, e não sessenta anos atrás. Ele viu o sofrimento, carregado como uma herança preciosa durante anos e levado às últimas consequências nos rostos dos que foram deixados para trás.
Ele já segurou as mãos de senhoras idosas que choraram lágrimas amargas por estarem na mesma sala que um pequeno retrato que foi roubado de seus pais assassinados, já presenciou o assombro silencioso de membros mais jovens de uma família vendo pela primeira vez um quadro há muito desaparecido. Já teve discussões violentas com os dirigentes de importantes galerias de arte nacionais e já mordeu o lábio quando esculturas em disputa havia muito tempo foram devolvidas para as famílias, e depois imediatamente colocadas à venda. Mas, de modo geral, seu trabalho, nos cinco anos em que se dedica a ele, permitiu-lhe sentir que está do lado de um direito básico. Ao ouvir as histórias de horror e traição de famílias assassinadas e exiladas pela Segunda Guerra Mundial, como se esses crimes tivessem sido cometidos no dia anterior, e sabendo que aquelas vítimas ainda conviviam diariamente com injustiças, ele se sentia satisfeito por participar dessa pequena compensação.
Ele nunca teve que lidar com nada parecido com isso.
— Merda — diz Greg. — É difícil.
Estão passeando com os cachorros de Greg, dois terriers hiperativos. A manhã está atipicamente fria para a estação, e Paul gostaria de ter colocado mais um suéter.
— Eu não conseguia acreditar. O próprio quadro. Olhando para mim, frente a frente.
— O que você disse?
Paul sobe o cachecol no pescoço.
— Eu não disse nada. Não consegui pensar em nada para dizer. Simplesmente... fui embora.
— Você fugiu?
— Eu precisava de tempo para pensar naquilo.
Pirate, o menor dos cachorros de Greg, atravessou o matagal como um míssil guiado. Os dois pararam para olhar, aguardando ele determinar seu alvo.
— Tomara que não seja um gato, tomara que não seja um gato. Ah, tudo bem. É a Ginger. — Ao longe, Pirate se atira alegremente em cima de uma springer spaniel e os dois cachorros correm loucamente, um atrás do outro, em círculos cada vez maiores na relva alta. — E isso foi quando? Ontem à noite?
— Há duas noites. Sei que eu devia ligar para ela. Só não consigo imaginar o que vou dizer.
— Acho que “Me dá a droga do seu quadro” não é a sua melhor opção. — Greg chama seu cachorro maior e leva a mão à testa, tentando acompanhar o trajeto de Pirate. — Irmão, acho que você tem que aceitar que o destino acaba de detonar este seu relacionamento.
Paul enfia a mão nos bolsos.
— Gostei dela.
Greg olha de soslaio para ele.
— O quê? Você gostou mesmo dela?
— É. Ela... mexeu comigo.
Seu irmão estuda o rosto dele.
— Tudo bem. Bem, isso acaba de ficar interessante... Pirate. Aqui! Ih, cara. Olhe lá o Vizsla. Odeio esse cachorro. Você falou com sua chefe sobre isso?
— Falei. Porque a Janey definitivamente iria querer falar comigo sobre outra mulher. Não. Só consultei nosso advogado sobre a possibilidade de ganharmos a ação. Ele acha que poderíamos ganhar.
Não há prescrição nesses casos, Paul, dissera Sean, mal erguendo os olhos de seus papéis. Você sabe disso.
— Então o que você vai fazer?
Greg torna a prender o cachorro na coleira retrátil e fica ali parado, esperando.
— Não tenho muito o que fazer. O quadro tem que voltar aos donos legítimos. Não sei como ela vai encarar isso.
— Talvez aceite bem. Nunca se sabe. — Greg caminha com passadas largas na relva, indo para onde Pirate corre em círculos, latindo como um louco para o alto, avisando ao céu que não se aproxime. — Ei, se ela está dura e há dinheiro de verdade envolvido, você pode na realidade estar lhe fazendo um favor. — Ele começa a discorrer, e suas últimas palavras voam sobre os seus ombros com o vento. — E ela pode estar se sentindo do mesmo jeito em relação a você e estar cagando para qualquer outra coisa. Você tem que ter em mente, irmão, que, em última instância, é só um quadro.
Paul fica olhando em direção às costas do irmão. Nunca é só um quadro, pensa.

* * *

Jake está na casa de um amigo. Paul chega para buscá-lo às três e meia, como combinado, e o filho aparece na porta da frente, todo desgrenhado, com a jaqueta pendurada nos ombros, em evidente prenúncio da fase da adolescência.
Paul nunca deixa de se assustar com a força do amor parental. Às vezes, se policia para não perturbar o filho com a profundidade de seu amor por ele. Engancha o braço no pescoço do menino, puxa-o para junto de si e tasca-lhe um beijo displicente na cabeça enquanto dirigem-se para a estação de metrô.
— Ei, cara.
— Oi, pai.
Jake está alegre, mostrando as várias fases de um novo jogo eletrônico. Paul balança a cabeça afirmativamente e sorri nos momentos certos, mas, mesmo ao fazer isso, descobre que está conduzindo mentalmente uma discussão paralela.
Fica examinando a questão em silêncio. O que deve dizer a ela? Será que deve lhe contar a verdade? Será que ela vai entender se ele explicar? Será que ele deve se limitar a evitá-la? O trabalho é tudo, afinal de contas. Ele aprendeu isso há muito tempo.
Mas, quando se senta ao lado do filho, observando seus polegares se movimentando nos controles, sua total absorção no jogo, é levado a outro pensamento. Sente Liv, macia e indefesa, encostada nele, vê o jeito sonolento com que ela olhou para ele, como se estivesse atordoada com a profundidade de seus sentimentos.
— Já conseguiu uma casa nova?
— Não. Ainda não.
Não consigo parar de pensar em você.
— Dá para a gente ir comer uma pizza hoje à noite?
— Claro.
— Mesmo?
— Hum-hum.
Ele assente com a cabeça. A expressão magoada dela quando ele se virou para sair. Ela era tão transparente, todas as emoções se registrando em seu rosto como se, do mesmo jeito que sua casa, ela nunca tivesse sabido o que devia esconder.
— E sorvete?
— Claro.
Estou apavorada. Mas de um jeito bom.
E ele fugira. Sem uma palavra de explicação.
— Você compra o Super Mario Smash Bros para o meu Nintendo?
— Não abusa — diz Paul.

* * *

O fim de semana se estende, sob o peso do silêncio. Mo entra e sai. O novo veredicto dela sobre Paul:
— Solteiro Divorciado Convicto. Da pior espécie.
Ela faz para Liv uma pequena figura de barro representando-o e a encoraja a dar espetadas nela.
Liv tem que admitir que o cabelo do Pequeno Paul é de uma precisão alarmante.
— Acha que isso vai dar dor de barriga nele?
Liv pega uma vareta para mexer drinks e, timidamente, faz um umbigo no Pequeno Paul. Na mesma hora se sente culpada e desmancha-o com o polegar.
Não consegue associar muito essa versão de Paul com o que ela conhece, mas é inteligente o bastante para entender que vale a pena remoer certas coisas; então, segue o conselho de Mo e corre até provocar uma canelite. Fez uma faxina completa na Casa de Vidro. Jogou no lixo os sapatos de borboleta. Verificou quatro vezes o telefone, depois desligou-o, odiando a si mesma por não parar de pensar nisso.
— Isso é fraco. Você nem quebrou os dedos do pé dele. Quer que eu tente? — diz Mo, examinando o boneco na segunda-feira de manhã.
— Não. Está bom. De verdade.
— Você é muito mole. Vamos fazer o seguinte: quando eu voltar faremos uma bola com ele e vamos transformá-lo em cinzeiro.
Quando Liv volta para a cozinha, Mo espeta quinze fósforos no topo da cabeça dele.
Dois trabalhos chegam na segunda-feira. Um deles é um catálogo de uma empresa de marketing direto, crivado de erros de gramática e ortografia. Às seis da tarde, Liv havia feito tantas modificações que quase reescreveu o texto inteiro. O valor pago por palavra é péssimo. Ela não se importa. Sente um alívio tão grande de estar trabalhando, em vez de pensar, que bem poderia escrever de graça um catálogo inteiro para a Forbex Solutions.
A campainha da porta toca. Mo deve ter deixado a chave dela no trabalho.
Liv se levanta da escrivaninha, estica-se e vai até o interfone.
— Você esqueceu a chave.
— É o Paul.
Ela fica gelada.
— Ah. Oi.
— Posso subir?
— Não precisa. Eu...
— Por favor? Precisamos conversar.
Não dá tempo de ver como está seu rosto nem de escovar o cabelo. Ela está em pé, um dedo no botão da porta, hesitando. Pressiona o botão, depois recua, como alguém se preparando para uma explosão.
O elevador sobe chacoalhando, e ela sente um aperto no estômago enquanto o barulho aumenta. Lá está ele, olhando diretamente para ela pela grade do elevador. Ele está usando um casaco de couro marrom e tem o olhar atipicamente cauteloso. Parece exausto.
— Oi.
Ele sai do elevador e espera no hall. Ela está parada, com os braços cruzados, numa atitude defensiva.
— Olá.
— Posso... entrar?
Ela dá um passo para trás.
— Quer beber alguma coisa? Quero dizer... você tem tempo?
Ele capta a ironia na voz dela.
— Seria ótimo, obrigado.
Ela vai para a cozinha, rígida, e ele vai atrás. Enquanto prepara duas canecas de chá, ela percebe os olhos dele nela. Quando lhe entrega uma caneca, ele está esfregando a cabeça pensativo. Quando seus olhares se cruzam, ele quase parece estar pedindo desculpas.
— Dor de cabeça.
Liv olha para o bonequinho de barro em cima da geladeira com culpa. Ao passar, deliberadamente derruba-o atrás da geladeira.
Paul coloca sua caneca em cima da mesa.
— Bem. Isso é muito difícil. Eu teria vindo aqui antes, mas tive que ficar com meu filho e precisava pensar no que ia fazer. Olhe, vou explicar tudo. Mas acho que talvez você deva se sentar primeiro.
Ela olha para ele.
— Ai, meu Deus. Você é casado.
— Não sou casado. Isso quase seria... mais simples. Por favor, Liv. Sente-se aí.
Ela continua em pé. Ele tira uma carta do bolso paletó e a entrega para ela.
— O que é isso?
— Leia. E depois vou fazer de tudo para explicar.

TARP
Suite 6, 115 Grantham Street
Londres W1
15 de outubro de 2006

Prezada Sra. Halston,
Trabalhamos para uma organização chamada Programa de Restituição de Propriedade, criada para devolver obras de arte àqueles que sofreram perdas em decorrência de saques ou da venda forçada de objetos pessoais em tempos de guerra.
Entendemos que é a proprietária de um quadro do artista francês Édouard Lefèvre, intitulado A garota que você deixou para trás. Recebemos confirmação dos descendentes do Sr. Lefèvre de que esta obra estava em posse da mulher do artista, a qual foi forçada ou coagida a vendê-la. Os autores da ação, que são também de nacionalidade francesa, desejam que a obra seja devolvida à família do artista, e de acordo com a Convenção de Genebra e com os termos da Convenção de Haia para a Proteção de Bens Culturais no Caso de Conflito Armado, desejamos informá-la de que entraremos com a ação em nome deles.
Em muitos casos, tais obras podem ser restituídas a seus donos legítimos com uma intervenção jurídica mínima. Nós a convidamos portanto a entrar em contato conosco para marcar uma reunião entre V.Sa. e representantes da família Lefèvre a fim de que possamos dar início ao processo.
Estamos cientes de que tal aviso possa ser um choque. Mas gostaríamos de lembrar que há um forte precedente legal para a restituição de obras de arte obtidas em consequência de transgressões em tempo de guerra e ainda acrescentaríamos que talvez haja também um fundo fiduciário para compensar sua perda.
Esperamos que, tal como com outras obras de arte dessa natureza, a satisfação de saber que uma obra está finalmente sendo devolvida a seus donos legítimos dará às partes afetadas uma satisfação adicional.
Por favor, não hesite em nos contatar caso queira discutir mais esta questão.

Paul McCafferty
Janey Dickinson
Diretores, TARP

Liv encara o nome no fim do texto e perde o chão. Relê as palavras, achando que deve ser uma brincadeira. Não, esse é outro Paul McCafferty, um Paul McCafferty completamente diferente. Deve haver centenas deles. É um nome bastante comum. E, depois, ela se lembra exatamente do jeito que ele olhou o quadro três dias atrás, do jeito que ele não conseguiu olhar nos olhos dela após isso. Então se senta pesadamente na cadeira.
— Isso é algum tipo de brincadeira?
— Eu gostaria que fosse.
— Que diabo é essa TARP?
— É um programa de restituição de propriedade. Nós localizamos obras desaparecidas e supervisionamos sua restituição aos donos originais.
— Nós? — Ela olha a carta. — O que... o que isso tem a ver comigo?
— A garota que você deixou para trás é objeto de uma ação de restituição. O quadro é de autoria de um artista chamado Édouard Lefèvre. A família quer o quadro de volta.
— Mas... isso é um absurdo. Tenho o quadro há anos. Anos. Quase dez.
Ele põe a mão no bolso e tira outra carta com uma imagem fotocopiada.
— Isto chegou ao escritório há algumas semanas. Estava na minha bandeja de entrada de documentos. Eu estava ocupado com outros assuntos e não liguei um fato a outro. Então, quando você me convidou para vir à sua casa naquele dia, reconheci imediatamente o quadro.
Ela examina a carta e olha para a página fotocopiada. Seu próprio quadro olha para ela de uma página colorida, com cores alteradas pela reprodução.
— A Architetural Digest.
— É. Acho que foi.
— Eles vieram aqui fazer um artigo sobre a Casa de Vidro quando nós nos casamos. — Leva a mão à boca. — David achou que isso seria uma boa divulgação para o trabalho dele.
— A família Lefèvre anda fazendo a catalogação de todas as obras de Édouard Lefèvre e descobriu que havia várias faltando. Uma delas é A garota que você deixou para trás. Não há história documentada deste quadro após 1917. Pode me dizer onde o adquiriu?
— Isso é loucura. Ele foi... David comprou o quadro de uma americana. Em Barcelona.
— Uma proprietária de galeria? Tem o recibo com você?
— Mais ou menos. Mas não vale nada. Ela ia jogar o quadro fora. Estava no meio da rua.
Paul passa a mão no rosto.
— Sabe quem era essa mulher?
Liv faz que não com a cabeça.
— Isso foi há anos.
— Liv, você tem que lembrar. É importante.
Ela explode:
— Não me lembro! Você não pode entrar na minha casa e me dizer que eu tenho que justificar a propriedade do meu próprio quadro só porque alguém em algum lugar decidiu que há um milhão de anos o quadro era dele! Quero dizer, o que é isso? — Ela dá a volta na mesa da cozinha. — Eu não consigo entender.
Paul apoia o rosto nas mãos. Levanta a cabeça e olha para ela.
— Liv, eu sinto muito. Este é o pior caso que já tive.
— Caso?
— É isso que eu faço. Procuro obras de arte roubadas e as devolvo aos donos.
Ela nota o estranho tom implacável em sua voz.
— Mas esta não é roubada. Foi comprada por David, dentro da lei. E depois ele me deu. É minha.
— Foi roubada, Liv. Há quase cem anos, sim, mas foi roubada. Olha, a boa notícia é que eles estão dispostos a oferecer uma compensação financeira.
— Compensação? Você acha que isso tem a ver com dinheiro?
— Eu só estava falando...
Ela se levanta, leva a mão à testa.
— Sabe de uma coisa, Paul? Acho melhor você ir embora.
— Sei que o quadro significa muito para você, mas tem que entender...
— Sério. Quero que saia agora.
Eles se entreolham. Ela se sente radioativa. Acha que nunca ficou tão furiosa.
— Olhe, vou tentar pensar numa maneira de resolvermos isso de forma...
— Até logo, Paul.
Ela o acompanha até a saída e bate a porta com tanta força ao vê-lo pelas costas que sente o armazém todo tremer lá embaixo.

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