29 de novembro de 2017

Capítulo 17 - Assombrado

Era um perfeito dia inglês. O céu tinha a cor da porcelana Wedgwood, liso e azul. O ar era cálido, doce e estava cheio de possibilidades. Julian estava parado na escadaria da frente do Instituto, tentando evitar que o irmãozinho menor o sufocasse até a morte.
— Não vá — gemeu Tavvy. — Você já saiu uma vez. Não pode ir embora de novo.
Evelyn Highsmith fungou.
— Na minha época, as crianças eram vistas, não ouvidas, e certamente não reclamavam.
Ela estava de pé no arco da porta, as mãos dobradas de um jeito afetado sobre o punho da bengala. Tinha vestido uma roupa incrível para se despedir deles na estação de trem: uma espécie antiga de hábito estava envolvida e talvez calças de montaria por baixo. E seu chapéu tinha um pássaro também, mas, para a decepção de Ty, o bicho estava definitivamente morto.
O carro preto e antigo que pertencia ao Instituto tinha sido desencavado, e Bridget aguardava ao lado dele junto com Cristina e Emma. As mochilas estavam empilhadas no porta-malas. Mark achara engraçado descobrir que, na Inglaterra, chamavam de “bagageiro”. E as duas conversavam animadamente. As meninas vestiam jeans e camiseta, pois teriam que se passar por mundanos no trem, e o cabelo de Emma estava preso numa trança.
Ainda assim, Julian estava contente por Cristina ir com eles. No fundo de sua mente, ele se agarrara à ideia de que ela seria um amortecedor entre ele e Emma. Naquela manhã, Emma não deixara escapulir nenhum sinal de raiva e os dois vinham se dando bem, mapeando o trajeto até Polperro, descobrindo os horários do trem e revirando o depósito atrás de roupas. Eles planejaram arrumar um quarto num albergue, de preferência com uma cozinha na qual pudessem preparar a comida e minimizar o contato com mundanos. Até compraram os bilhetes de trem de Paddington com antecedência. Todo o planejamento fora simples e fácil: eles eram parabatai; ainda trabalhavam e ainda funcionavam melhor juntos do que separados.
Mas mesmo com o máximo controle de ferro a que ele se impusera, a mera força do amor e do desejo quando ele olhava para ela equivalia a ser atingido inesperadamente por um trem, repetidas vezes. Não que ele imaginasse que ser atingido por um trem fosse muito melhor.
Era melhor ter um amortecedor contra tal sentimento até parar de acontecer. Se parasse de acontecer. Mas ele não se permitiria pensar dessa forma.
Tinha que parar um dia.
— Jules! — queixou-se Tavvy. Julian deu um último abraço no irmão e o colocou no chão. — Por que não posso ir com você?
— Porque não. Você tem que ficar aqui e ajudar Drusilla. Ela precisa de você.
Tavvy fez cara de quem duvidava daquilo. Drusilla, vestindo uma saia muito comprida de algodão que ia até os dedos dos pés, revirou os olhos.
— Não posso acreditar que você está indo — falou para Julian. — No minuto em que você sair, Livvy e Ty vão começar a me tratar como se eu fosse uma criada.
— Os criados são pagos — observou Ty.
— Viu? Viu do que estou falando? — Dru cutucou Julian no peito com o indicador. — Melhor você voltar logo, assim eles não vão me maltratar por muito tempo.
— Vou tentar. — Julian olhou nos olhos de Mark por cima da cabeça de Dru; eles compartilharam um sorriso. A despedida de Emma e Mark tinha sido bizarra, para dizer o mínimo. Emma abraçou Mark rápida e distraidamente antes de descer a escada; Mark não pareceu chateado até notar que Julian e os outros o encaravam. Aí desceu a escadaria correndo, atrás de Emma, segurou a mão dela, e a virou para que ela o encarasse.
— É melhor você ir — falou — para eu poder me esquecer do seu rosto belo e cruel, e curar meu coração.
Emma parecera confusa; Cristina, falando alguma coisa baixinho para Mark, do tipo desnecessário, incitara Emma na direção do carro.
Ty e Livvy foram os últimos a dizer adeus para Jules; Livvy o abraçou impetuosamente, e Ty ofereceu um sorriso suave e tímido. Julian se perguntou onde Kit estava. Ele andara colado em Ty e Livvy o tempo todo em que estiveram em Londres, mas parecera evaporar na despedida da família.
— Tenho uma coisa para você — falou Ty, e estendeu uma caixa, a qual Julian pegou com alguma surpresa. Ty era muito pontual em relação a presentes de Natal e aniversário, mas raramente presenteava espontaneamente.
Curioso, Julian abriu a tampa da caixa e viu um conjunto de lápis de cor. Não conhecia a marca, mas pareciam novos e intocados.
— Onde os arranjou?
— Na Fleet Street — falou Ty — Fui lá hoje de manhã, bem cedo.
Uma pontada de amor percorreu Julian. Aquilo o fez se lembrar da época em que Ty era um bebê, sério e quietinho. Durante muito tempo, ele não conseguia dormir se não estivesse no colo de alguém, e embora Julian também fosse muito pequeno, se lembrava de segurar Ty enquanto o pequeno adormecia, todo punhos redondos, cabelo preto e liso, e cílios compridos. Julian sentira tanto amor pelo irmão que mesmo naquela época fora como uma explosão em seu coração.
— Obrigado. Eu senti falta de desenhar — falou Julian, enfiando a caixa na bolsa de pano. Ele não fez estardalhaço; Ty não gostava disso, porém Julian falou com o tom mais caloroso possível, e o irmão mais novo sorriu abertamente.
Jules pensou em Livvy, na noite anterior, no modo como ela beijara a testa dele. No “obrigada” dela. Isso era de Ty.
— Tome cuidado em Blackthorn Hall — falou ele. Julian estava nervoso por eles irem até lá, mas tentava não demonstrar; sabia que estava sendo insensato. — Vão durante o dia. Durante o dia — insistiu, quando Livvy fez uma careta. — E tentem não meter Drusilla e Tavvy em encrenca. Lembrem-se: Mark é o responsável.
— Ele sabe disso? — falou Livvy.
Julian avistou Mark no topo dos degraus. Ele estava de pé, as mãos nas costas, e trocava um olhar desconfiado com um gnomo entalhado na pedra.
— Seu disfarce não me engana, gnomo — resmungou ele. — Estou de olho em você.
Julian suspirou.
— Apenas façam o que ele disser.
— Julian! — chamou Emma. Ela estava de pé ao lado do carro, e Cortana (disfarçada com um feitiço para ficar invisível para os mundanos) brilhava um pouco acima de seu ombro direito. — Nós vamos perder o trem.
Julian assentiu e ergueu dois dedos. Subiu os degraus até Mark e colocou a mão no ombro do irmão.
— Você vai ficar bem?
Mark fez que sim com a cabeça. Julian pensou em perguntar onde Kieran estava, mas decidiu que não havia motivo para isso. Provavelmente só serviria para estressar Mark ainda mais.
— Obrigado por confiar em mim para tomar conta de tudo — falou Mark. — Depois do que aconteceu, com a cozinha.
Em Los Angeles, Julian havia deixado Mark cuidando dos irmãos por uma noite. O menino conseguira destruir a cozinha, cobrir Tavvy com açúcar e quase fazer Julian ter um ataque de nervos.
— Eu confio em você. — Sem dizer nada, Julian e Mark se entreolharam.
 Então Julian sorriu.
— Além disso — emendou — esta não é a minha cozinha.
Mark riu baixinho, Julian desceu a escadaria enquanto Emma e Cristina arrumavam as coisas no carro. Foi até a parte de trás, jogou a bolsa no porta-malas e parou. Apertado no espaço ao lado da bagagem, havia um pequeno vulto de camiseta branca manchada.
Tavvy o fitou, os olhos arregalados.
— Eu quero ir também.
Julian suspirou e arregaçou as mangas da camisa. As funções de um irmão nunca chegavam ao fim.


Um dos benefícios pouco difundidos de ser um Caçador de Sombras, pensou Emma, era a facilidade para estacionar em locais como estações de trem e igrejas. Com frequência costumava haver uma vaga reservada para os Caçadores deixarem seus carros, disfarçada por feitiço de modo a parecer aos mundanos algo que eles ignorariam: um canteiro de obras ou uma pilha de latas de lixo. Bridget estacionou o barulhento Austin Metro preto na Praed Street, a poucos passos da Estação Paddington, e os Caçadores de Sombras saíram para pegar suas mochilas enquanto ela trancava o veículo.
A bagagem não continha muita coisa, apenas o suficiente para passar alguns dias. Armas, uniforme e poucas roupas além das que traziam nas costas, embora Emma tivesse certeza de que Cristina estaria elegante o tempo todo, de qualquer forma. Discretamente, Cristina enfiou seu canivete no bolso e se curvou para pendurar a mochila no ombro. Ela estremeceu.
— Você está bem? — perguntou Emma, se postando ao lado dela. Ela estava muito feliz por ter Cristina ali entre ela e Jules, alguma coisa para amenizar os caminhos perigosos e espinhosos de suas conversas.
Eles entraram na estação moderna e muito bem iluminada, com passarelas ladeadas de lojas como The Body Shop e Caffé Nero. Emma olhou para Julian à frente, mas ele estava absorto numa conversa com Bridget. Julian tinha uma capacidade impressionante de conversar com literalmente qualquer pessoa. Ela se perguntava que tipo de assunto ele teria com Bridget. Os hábitos estranhos de Evelyn? A história de Londres?
— Você teve alguma chance de conversar com Mark sobre, sabe, o beijo? — perguntou Emma quando eles passaram por uma padaria Upper Crust que tinha cheiro de manteiga e canela misturado com a fumaça da estação. — Sobretudo com toda essa história de Kieran rolando?
Cristina balançou a cabeça. Estava cansada e pálida, como se não tivesse dormido bem.
— Kieran e Mark têm uma história. Assim como Diego e eu. Não posso me queixar por Mark ser arrastado de volta para a história dele. Foi a razão pela qual fui atraída para Diego, e fiz isso sem todas as pressões que estão em cima de Mark agora.
— Não sei como vai ser. Mark não é um bom mentiroso — falou Emma. — Falo como alguém que também não é muito boa nisso.
Cristina deu um sorriso aflito.
— Você é péssima. Observar você e Mark fingindo estarem apaixonados foi como assistir duas pessoas caírem no chão e torcerem para ninguém perceber.
Emma deu uma risadinha.
— É muito lisonjeiro.
— Só estou dizendo que, para o bem de todos nós, Kieran deve acreditar nos sentimentos de Mark — falou Cristina. — Uma fada que pensa que foi rejeitada ou humilhada pode ser muito cruel.
Subitamente, ela exalou de forma audível, praticamente se dobrando ao meio. Emma a segurou enquanto ela afundava. Em meio ao pânico, ela arrastou Cristina para um canto entre duas lojas. Não ousou gritar; estava com o feitiço de disfarce e os mundanos a ouviriam. Mas ela olhou em direção a Julian e Bridget, que continuavam concentrados na conversa pensou com o máximo de força que conseguiu: Jules, Julian, eu preciso de você, agora, venha agora, por favor!
— Emma... — Cristina cruzara os braços, abraçando a barriga como se a região a estivesse matando de dor, mas foi o sangue na camisa da amiga que assustou Emma.
— Cristina... querida... me deixe ver, me deixe ver. — Ela puxou freneticamente os braços da outra, até que Cristina cedeu.
Havia sangue na mão direita e na manga. A maior parte parecia vir do braço e tinha se transferido para a camisa. Emma ficou um pouco menos alarmada. Uma ferida no braço era menos séria do que uma lesão numa parte vital do corpo.
— O que está acontecendo? — Era a voz de Julian. Ele e Bridget as alcançaram, e Jules estava muito pálido. Ela notou o terror nos olhos dele e percebeu a causa: ele tinha pensado que algo acontecera a Emma.
— Eu estou bem — falou ela mecanicamente, chocada pela expressão dele.
— Claro que está — falou Bridget impacientemente. — Deixe-me ver a garota. Pare de se agarrar a ela, pelo amor de Deus.
Emma se afastou e observou Bridget se ajoelhar e puxar a manga da camiseta de Cristina. O pulso da menina tinha uma pulseira de sangue, a pele estava inchada. Era como se alguém estivesse apertando um arame invisível em torno do braço dela, cortando-lhe a pele.
— Por que vocês dois estão sentados aí? — quis saber Bridget. — Ponham uma Marca de cura na menina.
Os dois fizeram menção de pegar as estelas; Julian pegou primeiro e desenhou rapidamente um iratze na pele de Cristina. Emma se inclinou para frente, prendendo a respiração.
Nada aconteceu. Ou, na melhor das hipóteses, a pele ao redor do círculo sangrento pareceu inchar ainda mais. Uma nova golfada de sangue jorrou e respingou nas roupas de Bridget. Emma queria estar ainda com sua antiga estela; por superstição, ela sempre acreditara que era capaz de desenhar Marcas mais fortes com ela. Mas agora estava nas mãos das fadas.
Cristina não se queixou. Ela era uma Caçadora de Sombras, afinal. Mas sua voz estremeceu:
— Eu não acho que um iratze vá ajudar.
Emma balançou a cabeça.
— O que é isso...?
— Parece um encantamento das fadas — falou Bridget. — Enquanto vocês estavam nas Terras, alguma fada pareceu lançar um feitiço em você? Seus pulsos foram amarrados?
Cristina se apoiou nos cotovelos.
— Isso... quero dizer, isso não poderia ser...
— O que aconteceu? — quis saber Emma.
— Na festa, duas garotas amarraram meu pulso e o de Mark com uma fita — falou Cristina, relutante. — Nós cortamos a fita, mas pode ter havido algum tipo de magia mais forte ali do que eu supus. Poderia ser um tipo de feitiço de amarração.
— Esta é a primeira vez que você fica longe de Mark desde que estiveram no Reino das Fadas — falou Julian. — Você acha que é isso?
Cristina parecia aborrecida.
— Quanto mais me afasto dele, pior fica. Na noite passada, foi a primeira vez que saí do lado dele, e meu braço ardeu e doeu. E enquanto nos afastávamos do Instituto a dor foi piorando... torci para ela desaparecer, mas isso não aconteceu.
— Precisamos levá-la de volta ao Instituto — falou Emma. — Todos nós. Vamos.
Cristina balançou a cabeça.
— Você e Julian têm que ir para a Cornualha — falou ela, e gesticulou com a mão sã na direção do quadro onde apareciam os horários de trens. — O trem para Penzance sai em menos de cinco minutos. Vocês precisam. Isso é necessário.
— Nós poderíamos esperar um dia — protestou Emma.
— Isto aqui é magia das fadas — falou Cristina, e permitiu que Bridget a ajudasse a ficar de pé. — Não há garantia de que vá ser revertida em um dia.
Emma hesitou. Odiava a ideia de abandonar Cristina.
Bridget falou com uma voz incisiva e surpreendeu a todos:
— Vão. Vocês são parabatai, a equipe mais forte que os Nephilim podem oferecer. Eu já vi o que parabatai podem fazer. Parem de hesitar.
— Ela tem razão — falou Julian. Ele enfiou a estela de volta no cinto. — Vamos, Emma.
O que veio a seguir se passou num borrão, com Emma abraçando Cristina apressadamente para se despedir, Julian pegando a mão dela, arrastando-a para longe, os dois correndo sinuosamente pela estação de trem, quase levando junto as catracas e se lançando nos assentos vazios de um trem da Western Railway assim que o veículo partisse da estação com um guincho alto de freios liberados.


A cada quilômetro que ela e Bridget percorriam, aproximando-as do Instituto, a dor de Cristina diminuía. Em Paddington, seu braço gritara com dor agonizante. Agora era uma dor embotada que parecia pressionar seus ossos.
Eu perdi uma coisa, era o que a dor parecia murmurar. Tem alguma coisa faltando. Talvez ela dissesse em espanhol. Me haces falta. Enquanto aprendia inglês, ela percebera cedo que não existia de fato uma tradução direta da frase, os falantes de inglês diziam Eu preciso de você, sendo que me haces falta significava alguma coisa mais próxima de: Você me faz falta. Era o que ela sentia agora, uma falta, como a de um acorde perdido numa música ou uma palavra faltante numa página.
Elas pararam em frente ao Instituto com um guinchar de freios. Cristina ouviu Bridget chamar seu nome, mas ela já estava fora do carro, aninhando o pulso enquanto corria na direção da escadaria principal. Não conseguia se controlar. Sua mente se revoltava ante a ideia de ser controlada por um fator externo, mas era como se seu corpo a estivesse arrastando, empurrando-a na direção do que era necessário para torná-la inteira.
As portas da frente se abriram com violência. Era Mark.
Também havia sangue no braço dele, encharcando a manga do suéter azul-claro. Atrás dele, barulho de vozes, mas ele olhava para Cristina. Seus cabelos claros estavam confusos, e os olhos de tom azul e dourado brilhavam como insígnias.
Cristina pensou que nunca vira algo tão belo.
Descalço, ele desceu correndo os degraus e agarrou a mão dela, puxando-a para si. No momento que seus corpos colidiram, Cristina sentiu que a dor dentro dela desapareceu.
— É um feitiço de amarração — murmurou Mark em meio aos cabelos dela. — Algum tipo de feitiço de amarração que está nos mantendo juntos.
— As garotas na festa... uma delas amarrou nossos pulsos e as outras riram...
— Eu sei. — Ele roçou os lábios na testa dela. Cristina conseguira sentir o coração latejante de Mark. — Vamos dar um jeito. Vamos resolver isso.
Ela assentiu e fechou os olhos, mas não sem antes ver que alguns dos outros saíram para os degraus da frente e observavam os dois. No centro do grupo, estava Kieran, com o rosto elegante, pálido e impassível e os olhos ilegíveis.


As passagens que eles tinham comprado eram de primeira classe, portanto, Emma e Julian tinham uma cabine só para eles. O castanho-acinzentado da cidade fora deixado para trás e eles passavam por campos verdejantes pontilhados por flores silvestres e copas de árvores muito verdes. Muretas de pedra cor de carvão percorriam as colinas de cima a baixo, dividindo a terra em peças de quebra-cabeça.
— Parece um pouco com o Reino das Fadas — falou Emma, inclinando-se contra a janela. — Sabe, sem os rios de sangue ou as festas dançantes com grande quantidade de mortos. Mais bolinhos, menos mortes.
Julian ergueu o olhar. O caderno de desenho estava em seus joelhos e havia uma caixa-preta de lápis de cor no assento ao lado dele.
— Acho que é isso que diz no portão da frente do Palácio de Buckingham — disse ele, com voz calma e totalmente neutra. O Julian que tinha gritado com ela na entrada do Instituto se fora. Este era o Julian educado, o Julian gracioso. O Julian fingindo-ser-o-que-não-é para os desconhecidos.
De jeito nenhum ela conseguiria lidar interagindo com apenas aquele Julian por sabe-se lá quanto tempo eles permaneceriam na Cornualha.
— Então — falou. — Você ainda está zangado?
Ele a encarou por um longo momento e deixou o caderno de desenho de lado.
— Desculpe — ele disse. — O que eu falei... foi inaceitável e cruel.
Emma ficou de pé e inclinou a cabeça contra a janela. O campo passava por ela: cinzento, verde, cinzento.
— Por que você falou aquilo?
— Eu estava com raiva. — Ela podia ver o reflexo dele no vidro, encarando-a. — Eu estava zangado por causa de Mark.
— Eu não sabia que você estava tão comprometido assim com a nossa relação.
— Ele é meu irmão. — Julian tocou o próprio rosto ao falar, inconscientemente, como se quisesse se conectar àqueles traços: as maçãs do rosto e os cílios longos, que eram tão parecidos com os de Mark. — Ele não é... ele se magoa facilmente.
— Ele está bem — disse Emma. — Eu juro.
— É mais do que isso. — O olhar dele era firme. — Quando vocês estavam juntos, pelo menos eu sentia que os dois estavam com alguém com quem eu me importava e em quem podia confiar. Você amava alguém que eu também amava. Será provável que isso aconteça de novo?
— Não sei o que é provável de acontecer — retrucou ela. Sei que você não tem com o que se preocupar. Eu não estava apaixonada por Mark. Nunca vou me apaixonar por alguém que não seja você. — Só que existem coisas que podemos controlar e outras, não.
— Em — falou ele. — É de mim que estamos falando.
Ela desviou o olhar da janela, se recostando no vidro frio. Olhava para Julian diretamente agora, e não mais para o reflexo dele. E embora o rosto dele não denunciasse raiva, seus olhos, pelo menos, estavam abertos e sinceros. Agora era o Julian de verdade, não o Julian que fingia.
— Então você admite que é supercontrolador?
Ele sorriu, o sorriso doce que ia direto para o coração de Emma porque lhe fazia recordar do Julian de sua infância. Era como se o sol, o calor, o mar e a praia, todos, viessem à tona com um único soco no coração.
— Eu não admito nada.
— Ótimo — falou ela. Emma não precisava dizer que o perdoava e sabia que ele a perdoava; ambos sabiam. Em vez disso, ela se sentou no banco oposto a ele e gesticulou para o material de arte. — O que você está desenhando?
Ele ergueu o caderno de desenho, virando-o para que ela pudesse ver seu trabalho: uma bela interpretação de uma ponte pela qual eles tinham passado, cercada por ramos caídos de carvalhos.
— Você bem que podia me desenhar — falou Emma, se reclinando sobre o assento e apoiando a cabeça numa das mãos. — Desenhe-me como uma de suas garotas francesas.
Julian sorriu.
— Eu odeio esse filme — falou. — Você sabe disso.
Emma se sentou direito, indignada.
— Você chorou na primeira vez que viu Titanic.
— Eu estava com alergia por causa do clima — retrucou Jules.
Ele recomeçara a desenhar, mas ainda estava sorrindo. Esse era o coração do relacionamento dela com Julian, pensou Emma. Essa coisa de fazer piadinhas, a diversão fácil. E quase a surpreendeu. Mas era a isso que eles sempre retornavam, ao conforto da infância; como pássaros que voltavam ao lar em padrões migratórios.
— Eu queria que a gente pudesse entrar em contato com Jem e Tessa — falou Emma. Campos verdes passavam pela janela como um borrão. Uma mulher empurrava um carrinho de bebidas para cima e para baixo no corredor do trem. — E Jace e Clary. Contar a eles sobre Annabel e Malcolm e todas as coisas.
— A Clave inteira sabe sobre a volta de Malcolm. Tenho certeza de que eles também têm seus meios para descobrir as coisas.
— Mas só a gente sabe sobre Annabel — falou Emma.
— Eu a desenhei — observou Julian. — Achei que, de alguma forma, se nós pudéssemos olhar para ela, isso ajudaria a encontrá-la.
Ele virou o bloco de desenho. Emma suprimiu um leve calafrio. Não porque o rosto para o qual olhava fosse medonho — não era. Era um rosto jovem, oval e com traços regulares, quase perdido numa nuvem de cabelos escuros. Mas um ar de algo assombrado e quase selvagem ardia nos olhos de Annabel; ela apertava o pescoço com as mãos, como se tentasse se envolver num invólucro que desaparecera.
— Onde ela poderia estar? — perguntou-se Emma em voz alta. — Aonde você iria, se estivesse muito triste?
— Acha que ela parece triste?
— Você não acha?
— Pensei que ela parecia zangada.
— Ela matou Malcolm — falou Emma. — Não entendo por que ela faria isso... foi ele quem a trouxe de volta. Ele a amava.
— Talvez ela não quisesse ser trazida de volta. — Ele ainda encarava o desenho. — Talvez ela estivesse feliz onde estava. Discórdia, agonia, perda... Estas são as coisas que acometem pessoas vivas. — Ele fechou o caderno quando o trem parou numa pequena estação branca, onde se lia em uma placa LISKEARD. Tinham chegado ao destino.


— Isso foi planejado? — perguntou Kieran, a expressão pétrea. — Não pode ser coincidência.
Mark ergueu as sobrancelhas. Cristina estava sentada na beirada de uma das camas, na enfermaria, com o pulso enfaixado; o ferimento de Mark tinha ficado oculto pela manga do suéter. Não havia mais ninguém no cômodo. Tavvy ficara perturbado ao ver sangue em Mark e Cristina, e Dru o levara embora para se acalmar. Livvy e os outros dois garotos tinham ido para a Blackthorn Hall enquanto Cristina estava na estação de trem.
— Que diabos isso deveria significar? — falou Mark. — Você acha que eu e Cristina planejamos derramar sangue por toda a Londres só por diversão?
Cristina o encarou com surpresa; ele soava mais humano do que ela jamais testemunhara.
— Um feitiço de amarração desses — falou Kieran. — Vocês devem ter juntado os pulsos para isso. Teriam que ficar parados enquanto eram amarrados.
Ele falava como se estivesse confuso e magoado. Parecia totalmente deslocado com a calça e a camisa de linho, agora muito amassadas, no centro do Instituto. Em torno dele havia camas semelhantes às macas de hospital, frascos de vidro e cobre com tinturas e pós, pilhas de ataduras e instrumentos médicos Marcados.
— Aconteceu numa festa — falou Mark. — Nós não podíamos esperar por isso... não esperávamos. E ninguém iria querer isso, ninguém faria isso de propósito, Kieran.
— Uma fada faria — disse Kieran. — É o tipo de coisa que um de nós faria.
— Não sou uma fada — falou Mark.
Kieran se encolheu, e Cristina viu a mágoa nos olhos dele. Ela sentiu por ele uma onda de dor complacente. Devia ser horrível ser tão solitário.
Até Mark pareceu aflito.
— Eu não quis dizer isso — falou. — Não sou apenas fada.
— E como você fica feliz em se gabar disso sempre que pode — retrucou Kieran.
— Por favor — pediu Cristina — por favor, não briguem. Nós precisamos ficar do mesmo lado nessa história.
Kieran voltou os olhos admirados para ela. Em seguida, se aproximou de Mark; pôs as mãos no ombro do menino. Eles tinham praticamente a mesma altura. Mark não desviou o olhar.
— Há apenas uma maneira que conheço que você não pode mentir — falou Kieran, beijando a boca de Mark.
Uma pulsação de dor passou pelo pulso de Cristina. Ela não fazia ideia se era algo aleatório ou um reflexo da intensidade do que Mark estava sentindo. Não havia meio de ele rejeitar o beijo sem rejeitar Kieran e romper com a delicada cadeia de mentiras que mantinha o príncipe fada preso aqui.
Se, de fato, Mark não queria retribuir o beijo, Cristina não sabia dizer; ele reagiu com uma impetuosidade semelhante à mesma que Cristina vira nele da primeira vez que o avistara com Kieran. Mas havia mais raiva nele agora. Ele agarrou os ombros de Kieran, os dedos afundando; a intensidade do beijo fez o príncipe fada tombar a cabeça para trás. Mark sugou o lábio inferior dele e mordeu, e Kieran arfou.
Afastaram-se. Kieran tocou a própria boca; havia sangue no lábio e triunfo quente nos olhos.
— Você não desviou o olhar — falou ele para Cristina. — Foi interessante?
— Foi em benefício próprio. — Cristina se sentia estranha, trêmula e quente, mas se recusava a demonstrar. Ela ficou sentada com as mãos no colo e sorriu para Kieran. — Teria sido rude não olhar.
Ao ouvir isso, Mark, que parecera furioso, deu uma risada.
— Ela entende você, Kier.
— O beijo foi muito bom — falou Cristina. — Mas nós devíamos falar sobre coisas práticas agora, sobre o feitiço.
Kieran ainda olhava para Cristina. Ele encarava a maioria das pessoas com nojo, fúria ou consideração, mas quando olhava para Cristina, parecia espantado, como se estivesse tentando juntar as peças de um quebra-cabeça e não conseguisse.
Abruptamente, ele deu meia-volta e saiu do cômodo. A porta bateu atrás dele. Mark acompanhou a saída, balançando a cabeça.
— Não acho que já tenha visto alguém irritá-lo tanto assim — falou. — Nem mesmo eu.

* * *

Diana tinha esperança de ver Jia no momento em que chegasse a Idris, mas a burocracia da Clave era pior do que ela se recordava. Havia formulários para preencher, recados a serem dados e levados à cadeia de comando. E ainda não ajudava o fato de Diana se recusar a revelar o assunto: tanto a delicada questão de Kieran e o que estava acontecendo no Reino das Fadas, Diana não ousava confiar a informação a ninguém além da própria Consulesa.
O pequeno apartamento em Alicante ficava em cima da loja de armas na Flintlock Street que fora de sua família durante anos. Ela fechara o estabelecimento quando fora morar em Los Angeles com os Blackthorn. Com a impaciência deixando seus nervos à flor da pele, desceu até a loja e abriu as janelas, deixando a luz entrar e fazendo com que partículas de poeira dançassem no ar claro de verão. O braço ferido ainda doía, embora estivesse praticamente curado.
Em seu interior, a loja tinha mofo e poeira nas lâminas outrora brilhantes, e também no couro exuberante de bainhas e cabos de machados. Ela pegou algumas de suas armas favoritas e separou para os Blackthorn.
As crianças mereciam armas novas. Elas haviam conquistado o direito de tê-las.
Quando ouviu uma batida à porta, já tinha conseguido se distrair e estava arrumando as lâminas das espadas de acordo com dureza do metal. Pousou uma de suas favoritas — uma arma de aço damasco — e foi abrir a porta.
Sorrindo ironicamente à soleira, estava Manuel, que Diana vira pela última vez combatendo demônios marinhos no gramado da frente do Instituto. Ele não vestia o uniforme de Centurião, em vez disso usava um suéter preto da moda e jeans, e o cabelo com gel formava cachos. Ele sorriu enviesado para ela.
— Srta. Wrayburn — falou. — Enviaram-me para levá-la até o Gard.
Diana trancou a loja e caminhou ao lado de Manuel enquanto ele seguia pela Flintlock Street rumo ao norte de Alicante.
— O que está fazendo aqui, Manuel? — perguntou ela. — Pensei que estivesse em Los Angeles.
— Ofereceram-me um cargo no Gard — explicou ele. — Não podemos deixar passar a chance de progredir. Ainda tem um monte de Centuriões em Los Angeles, guardando o Instituto. — Ele olhou de esguelha para Diana, ela nada disse. — É um prazer vê-la em Alicante — emendou o rapaz. — Da última vez em que estivemos juntos, creio, você estava fugindo para Londres.
Diana trincou os dentes.
— Eu estava levando as crianças que estavam sob minha responsabilidade para um local seguro — falou. — Estão todas bem, por sinal.
— Imagino que eu teria sabido se fosse diferente — falou Manuel alegremente.
— Lamento pelo seu amigo — disse Diana. — Jon Cartwright.
Manuel fez silêncio. Eles tinham chegado ao portão da trilha que conduzia até Gard. Antigamente a entrada era fechada somente com um trinco. Agora Diana observava Manuel passando a mão sobre o portão e abrindo-o com um estalo.
A trilha era tão íngreme quanto tinha sido na infância de Diana, serpenteada com as raízes das árvores.
— Eu não conhecia Jon muito bem — falou Manuel quando eles começaram a subir a trilha. — Soube que a namorada dele, Marisol, está muito perturbada.
Diana não disse uma única palavra.
— Algumas pessoas não sabem lidar com a tristeza do jeito que Caçadores de Sombras deveriam saber — emendou Manuel. — Uma pena.
— Algumas pessoas não demonstram a solidariedade e a tolerância que um Caçador de Sombras deveria demonstrar — devolveu Diana. — É uma pena também.
Eles tinham chegado ao trecho mais alto da trilha, onde Alicante se estendia adiante como um mapa, e as torres demoníacas se erguiam para furar o sol. Diana se lembrava de ter caminhado por esta mesma trilha com a irmã quando elas eram pequenas, e do riso da irmã. Às vezes, Diana sentia tanta saudade dela que era como se garras apertassem seu coração.
Neste lugar, pensou ela, olhando para Alicante, eu era solitáriaNeste lugar, eu tinha que esconder a pessoa que eu sabia ser.
Eles chegaram ao Gard, que se erguia acima, uma montanha de pedras reluzentes, mais sólida do que nunca depois de sua reconstrução. Uma trilha ladeada por pedras de luz enfeitiçada conduzia ao portão principal.
— Essa foi uma cutucada em Zara? — Manuel parecia divertido. — Sabe, ela é muito popular. Sobretudo desde que matou Malcolm. Uma coisa que o Instituto de Los Angeles não conseguiu fazer.
Saindo de seus devaneios com um choque, Diana só conseguiu encará-lo.
— Zara não matou Malcolm. Isso é mentira — falou.
— É? — retrucou Manuel. — Eu gostaria de ver você provar isso. — Então deu seu sorriso brilhante e se afastou, deixando Diana olhando para ele e semicerrando os olhos sob a luz do sol.


— Deixe-me ver seu pulso — Cristina pediu para Mark. Eles estavam sentados lado a lado na cama da enfermaria. O ombro de Mark era leve contra dela.
Ele puxou o suéter e esticou o braço em silêncio. Cristina desdobrou suas ataduras e colocou o pulso ao lado do dele. Os dois olharam em silêncio para os ferimentos idênticos.
— Eu não sei nada sobre esse tipo de magia — falou Mark. — E nós não podemos ir até a Clave ou aos Irmãos do Silêncio. Eles não podem saber que estivemos no Reino das Fadas.
— Sinto muito sobre Kieran — falou Cristina. — Por ele estar zangado.
Mark balançou a cabeça.
— Não sinta. A culpa foi minha. — Ele respirou fundo. — Desculpe por ter ficado zangado com você no Reino das Fadas, depois da festa. As pessoas são complicadas. Suas situações são complicadas. Sei por que você escondeu de mim os sentimentos de Julian. Sei que você e Emma não tiveram muita escolha.
— E não estou zangada com você agora — disse ela, apressando-se para tranquilizá-lo. — Em relação a Kieran.
— Eu mudei — começou Mark — por sua causa. Kieran consegue pressentir que meus sentimentos por ele mudaram de alguma forma, embora não saiba bem o porquê. E eu não posso dizer a ele. — Ele ergueu o olhar para o teto. — Ele é um príncipe, e príncipes são mimados. Não suportam serem frustrados.
— Ele deve se sentir muito solitário — falou Cristina. Ela se lembrou do modo como se sentia com Diego, que a relação que eles tinham havia acabado e não ela conseguia entender como conseguir tudo aquilo de volta. Era como tentar agarrar a fumaça que tinha se dissolvido no ar. — Você é o único aliado dele aqui, e ele não consegue entender por que a ligação parece quebrada.
— Ele fez o juramento a você — falou Mark, abaixando a cabeça como se sentisse vergonha do que diria. — É possível que você lhe ordene algo e ele tenha que obedecer.
— Eu não quero fazer isso.
— Cristina.
— Não, Mark — falou ela com firmeza. — Eu sei que esse feitiço de amarração também afeta você. E irritar Kieran afeta as chances de ele testemunhar. Mas não vou obrigá-lo a nada.
— Já não estamos fazendo isso? — insistiu Mark. — Mentindo para ele sobre a situação de modo que ele fale com a Clave?
Os dedos de Cristina passearam no próprio pulso machucado. A textura da pele era estranha sob a ponta dos dedos: quente e inchada.
— E depois que ele testemunhar? Você vai contar a verdade, não é?
Mark ficou de pé.
— Pelo Anjo, sim. Você acha que sou o quê?
— Alguém numa situação complicada — falou Cristina. — Todos somos. Se Kieran não testemunhar, integrantes do Submundo inocentes podem morrer; a Clave pode afundar mais ainda em corrupção. Entendo a necessidade da mentira. Isso não quer dizer que eu goste dela... ou que você goste também.
Mark assentiu sem olhar para ela.
— É melhor eu ir atrás dele — falou. — Se ele concordar em ajudar, será nosso melhor meio de resolver isso. — E apontou para o próprio pulso.
Cristina sentiu uma leve dor por dentro. Ela se perguntava se tinha magoado Mark; não era sua intenção.
— Vamos ver qual é o alcance disto aqui — sugeriu ela. — O quanto podemos nos afastar um do outro sem nos machucar.
Mark parou à entrada. Os traços limpos e proeminentes de seu rosto pareciam cortados do vidro.
— Já dói só de me afastar de você — falou. — Talvez tenha sido essa a piada.
Antes que Cristina pudesse responder, ele já tinha ido.
Ela se levantou e foi até o balcão onde ficavam os remédios e pós. Tinha alguma ideia de como os Caçadores de Sombras médicos trabalhavam: aqui estavam as folhas com propriedades anti-infecciosas, e os cataplasmas para desinchar.
A porta da enfermaria foi aberta quando ela destampava um frasco. Ela ergueu os olhos; era Kieran. Ele parecia afobado, com os cabelos arrepiados pelo vento, como se tivesse saído da casa. As maçãs do rosto estavam coradas.
Ele parecia tão desconcertado por vê-la quanto ela estava ao vê-lo. Cristina pousou o frasco cuidadosamente e aguardou.
— Onde está Mark? — perguntou ele.
— Saiu para procurar você. — Cristina se apoiou na bancada.
Kieran ficou em silêncio. Um tipo de silêncio das fadas: interior, reflexivo. Ela estava com a sensação de que muitas pessoas se sentiam impelidas a preencher esse tipo de silêncio. Permitiu que ele usufruísse da quietude; que ele atraísse o silêncio para dentro de si, dando-lhe forma e decifrando-o.
— Eu tenho que pedir desculpas — falou finalmente. — Foi desnecessário acusá-los de terem armado o feitiço de amarração. Foi tolo também. Vocês não têm nada a ganhar com isso. Se Mark não quisesse ficar comigo, ele diria.
Cristina não disse nada. Kieran deu um passo até ela, com cuidado, como se tivesse medo de assustá-la.
— Posso ver seu braço de novo?
Ela estendeu o braço. Ele o segurou — ela se perguntou se ele já a tocara deliberadamente antes. Parecia o toque da água fria no verão.
Cristina sentiu um leve estremecimento na espinha enquanto ele examinava o ferimento. Ela imaginava como era ele quando os dois olhos eram pretos. Eles eram ainda mais impressionantes do que os de Mark; o contraste entre o escuro e o prateado e brilhante, como gelo e cinzas.
— O formato de uma fita — falou ele. — Você disse que foram amarrados juntos durante uma festa?
— Sim — respondeu Cristina. — Por duas garotas. Elas sabiam que éramos Nephilim. Riram de nós.
A mão de Kieran a apertou com mais força. Ela se lembrou do modo como ele havia se agarrado a Mark na Corte Unseelie. Não era como se fosse fraco e precisasse de ajuda. Era um aperto de resistência, que mantinha Mark preso, que dizia: Fique comigo, estou ordenando.
Afinal, ele era um príncipe.
— Esse tipo de feitiço de amarração é um dos mais antigos — disse ele. — Mais antigos e mais fortes. Não sei por que alguém pregaria uma peça dessas em vocês. É muito cruel.
— Mas você sabe como desfazê-lo?
Kieran baixou a mão de Cristina.
— Fui um filho indesejado do Rei Unseelie. Recebi pouca instrução. Depois fui jogado na Caçada Selvagem. Não sou especialista em magia.
— Você não é sem valor — falou Cristina. — Sabe mais do que pensa que sabe.
Pela expressão de Kieran, é como se ela o tivesse impressionado mais uma vez.
— Eu poderia falar com meu irmão, Adaon. Eu já queria perguntar a ele sobre assumir o trono. Poderia perguntar também se ele sabe alguma coisa sobre feitiços de amarração ou como acabar com eles.
— Quando você vai falar com ele? — perguntou Cristina. Uma imagem lhe veio à mente: o modo como Kieran, sonolento, apertara a mão dela na Corte Seelie. Tentando não corar, ela baixou os olhos para as ataduras, puxando-as de volta para o lugar.
— Em breve — falou ele. — Eu já tentei entrar em contato, mas sem sucesso.
— Fale-me se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar — ofereceu ela.
Ele arqueou as sobrancelhas. Então se abaixou e ergueu a mão dela, dessa vez para beijá-la, sem parecer se importar com o sangue ou as ataduras. Era um gesto de cortesia do passado neste mundo, mas não no Reino das Fadas. Surpresa, Cristina não protestou.
— Lady Mendoza Rosales — falou ele. — Agradeço por sua gentileza.
— Eu preferiria que você me chamasse de Cristina — disse ela. — Sinceramente.
— Sinceramente — repetiu ele. — Uma coisa que nós, fadas, nunca dizemos. Cada palavra que falamos é uma palavra sincera.
— Eu não diria isso — acrescentou Cristina. — E você?
Um trovão abalou o Instituto. Pelo menos parecia ser um trovão: sacudiu janelas e paredes.
— Fique aqui — avisou Kieran. — Vou descobrir o que foi isso.
Cristina quase gargalhou.
— Kieran — falou. — Sério, você não precisa me proteger.
Os olhos dele brilharam; a porta da enfermaria se abriu com força e Mark estava lá, de olhos arregalados. E ele só fez arregalá-los ainda mais quando viu Kieran e Cristina, de pé e juntos perto da bancada.
— Melhor vocês virem — falou. — Não vão acreditar quando descobrirem quem acabou de viajar pelo Portal e está na saleta agora.


A cidadezinha de Polperro era minúscula, caiada e pitoresca. Ela se aninhava num porto tranquilo, com quilômetros de mar azul para além do porto que se abria para o oceano. Pequenas casas em diferentes tons claros subiam e desciam pelas colinas íngremes nos dois lados do porto. Ruas de paralelepípedos serpenteavam entre lojas que vendiam tortas e sorvete.
Não havia carros. O ônibus de Liskeard deixou-os logo na beira da cidadezinha; aproximando-se do porto, eles cruzaram uma pequena ponte no fundo da marina. Emma pensou em seus pais. O sorriso gentil do pai, o sol em seus cabelos louros. Ele adorava o mar, morar perto do oceano, todo tipo de feriado na praia. Ele teria adorado uma cidadezinha assim, onde o ar cheirava a algas marinhas, açúcar queimado e protetor solar, onde barcos de pesca traçavam trilhas brancas sobre a superfície azul do mar ao longe. Sua mãe teria adorado também — ela sempre gostara de ficar deitada ao sol, como um gato, e observar a dança do oceano.
— E que tal aqui? — perguntou Julian. Emma piscou de volta para a realidade e se deu conta de que eles estavam conversando sobre encontrar alguma coisa para comer antes de cruzar a ponte, daí sua mente divagou.
Julian estava de pé diante de uma casa de madeira com um cardápio de restaurante colado na janela de losangos. Um grupo de garotas passou, vestindo short e biquíni, a caminho da loja de doces ao lado. Elas riram e deram cotoveladas umas nas outras quando viram Julian.
Emma se perguntou qual seria a aparência dele para elas — bonito, com o cabelo castanho esvoaçante e olhos luminosos, mas sem dúvida estranho também, um pouco sobrenatural talvez, com as Marcas e as cicatrizes.
— Claro — respondeu ela. — Está ótimo.
Julian era alto o suficiente para precisar se abaixar sob a moldura baixa da porta ao entrar na pousada. Emma o seguiu e uns poucos minutos depois os dois foram guiados até uma mesa por uma mulher alegre e gordinha usando vestido florido. Eram quase cinco horas e o local estava praticamente deserto. Uma sensação de história pairava levemente sobre o local, desde o piso de madeira irregular até as paredes decoradas com lembranças contrabandeadas, mapas velhos e ilustrações alegres das pixies da Cornualha, as fadas malvadas, nativas da região. Emma se perguntou quantos moradores acreditavam nelas. Não tantos quanto deveriam, ela imaginava.
Eles fizeram o pedido — Coca e fritas para Jules; sanduíche e limonada para Emma — e Julian abriu o mapa sobre a mesa. O celular estava ao lado, com uma das mãos ele verificava as fotos que andara tirando, e com a outra cutucava o mapa. Manchas de lápis de cor decoravam sua mão, manchas familiares de azul, amarelo e verde.
— O lado leste do porto se chama Warren — disse ele. — Um monte de casas, e um monte delas são velhas, mas a maioria agora é alugada para turistas. E nenhuma fica no topo de cavernas. Com isso, sobram a região em torno de Polperro e o lado oeste.
A comida chegou. Emma começou a devorar o sanduíche; não tinha se dado conta de como estivera faminta.
— O que é isso? — perguntou, apontando para o mapa.
— É o Chapel Cliff, docinho — falou a garçonete, pousando a bebida de Emma. Ela pronunciou tcheipel. — É o início da trilha do litoral. De lá, você pode caminhar até Fowey. — Ela olhou para trás, para o balcão, onde dois turistas tinham acabado de se sentar. — Ei! Já vou aí!
— Como encontramos a trilha? — perguntou Julian — Se a gente quisesse caminhar por ali hoje, por onde começaríamos?
— Oh é um longo caminho até Fowey — falou a garçonete. — Mas a trilha começa atrás da Pousada Blue Peter. — Ela apontou para além da janela, do outro lado do porto. — Tem uma trilha para caminhada que vai até a colina. É só virar na trilha da costa no antigo depósito das redes; está todo quebrado, vocês vão achar com facilidade. Fica bem acima das cavernas.
Emma ergueu as sobrancelhas.
— Das cavernas?
A garçonete riu.
— Das cavernas dos antigos contrabandistas — falou. — Acho que vocês chegaram com a maré alta, não foi? Caso contrário, teriam visto.
Emma e Julian trocaram um único olhar antes de se porem de pé. Sem ligar para os protestos assustados da garçonete, eles saíram correndo para a rua atrás da pousada.
Claro que a mulher tinha razão: a maré começara a baixar e agora o porto parecia muito diferente, com os barcos aportados nos barrancos de areia e lama. Atrás do porto, erguia-se um estreito coberto com rochas cinzentas. Era fácil ver por que se chamava Chapel Cliff, ou seja, Penhasco Capela. O topo tinha rochas cinzentas que se contorciam no ar como os pináculos de uma catedral.
A água baixara o suficiente para revelar um bom trecho do penhasco. Quando eles chegaram à cidade, o mar quebrava nas rochas; agora, espirrava silenciosamente no porto, recuando para revelar uma pequena praia de areia e, atrás dela, as aberturas escuras de várias bocas de caverna.
Acima das cavernas, empoleirada na inclinação íngreme do penhasco, estava a casa. Emma mal a enxergara quando eles chegaram; a construção era apenas uma das muitas casinhas que salpicava a lateral do porto do outro lado de Warren, embora agora desse para ver que estava muito mais distante na ponta de terra do que qualquer uma das outras. Na verdade, era bem distante de todas e erguia-se pequena e solitária entre o mar e o céu.
As janelas estavam cobertas com madeira; as paredes caiadas descascavam em faixas cinzentas. Mas se Emma olhasse com os olhos de Caçadora de Sombras, podia ver mais do que uma casa abandonada: ela veria cortinas de renda branca nas janelas e as telhas novinhas no telhado.
Uma caixa de correios estava pregada na cerca e havia um nome pintado em letras brancas e tortas, quase indistinguíveis de longe. Certamente não teriam sido visíveis para um mundano, mas Emma conseguia lê-las.

FADE.

2 comentários:

  1. Diana dando parada no Manuel 👏👏👏👏👏 bem tinha percebido que o Job morreu 😭😭😭😭😭 luto aqui, por mais que ele servisse para ser nomenclatura de ratos 😂😂😂👌
    Tô com dó do Kieran, queria que ele ficasse com o Mark :/

    Ana Santos

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Boa leitura :)