20 de novembro de 2017

Capítulo 16

Arthur foi despertado por vozes exaltadas e dirigiu-se à ponte de comando. Ford gesticulava, exaltado.
— Você está maluco, Zaphod. Magrathea é um mito, um conto de fadas que os pais contam para os filhos de noite quando querem que eles se tornem economistas quando crescerem; não passa de...
— Pois é em torno de Magrathea que estamos em órbita.
— Olhe, você em particular pode até estar em órbita em torno de Magrathea — disse Ford —, mas esta nave...
— Computador! — gritou Zaphod. — Ah, não...
— Oi, turma! Aqui fala Eddie, seu computador de bordo. Hoje estou me sentindo muito bem, caras, e estou doidinho para que vocês me programem do jeito que vocês quiserem.
Arthur olhou para Trillian sem entender. Ela fez sinal para que ele entrasse, mas não dissesse nada.
— Computador — disse Zaphod —, diga novamente qual é nossa trajetória no momento.
— Com prazer, meu querido. Estamos atualmente em órbita do lendário planeta Magrathea, a uma altitude de 500 quilômetros.
— Isso não prova nada — disse Ford. — Eu não confiaria nesse computador nem mesmo para calcular meu peso.
— Posso fazer isso sem problemas — disse o computador, animado, cuspindo mais fita perfurada. — Posso até mesmo determinar seus problemas de personalidade com precisão de dez casas decimais, se você quiser. Trillian interrompeu.
— Zaphod — disse ela —, a qualquer momento estaremos sobrevoando o lado diurno deste planeta, seja ele o que for.
— O que você quer dizer com isso? O planeta está justamente onde eu previ, não é?
— É, eu sei que há um planeta lá. Não estou discutindo com ninguém. O negócio é que eu não seria capaz de distinguir Magrathea de nenhum outro pedregulho flutuando no espaço. O dia está nascendo, caso você esteja interessado.
— Está bem, está bem — murmurou Zaphod. — Pelo menos vamos apreciar a vista. Computador!
— Oi, gente! O que é...
— Cale a boa e mostre o planeta outra vez.
Novamente uma massa escura e sem detalhes discerníveis encheu as telas: era o planeta que estavam sobrevoando.
— Ficaram olhando para as telas por um momento. Zaphod estava excitadíssimo.
— Ainda estamos sobrevoando o lado noturno — disse ele, em voz baixa. A imagem do planeta passava pelas telas. — A superfície do planeta está no momento a uma distância de 500 quilômetros... — prosseguiu Zaphod, tentando valorizar aquele momento que ele considerava de grande importância. Magrathea! Sentia-se ofendido pelo ceticismo de Ford. Magrathea! — Dentro de alguns segundos estaremos vendo... olhem!
Foi um momento grandioso. Mesmo o mais viajado vagabundo das estrelas não pode conter um arrepio diante de uma espetacular alvorada vista do espaço, e uma alvorada num sistema binário é uma das maravilhas da Galáxia.
Do meio da escuridão absoluta surgiu subitamente um ponto de luz ofuscante. Aos poucos foi se abrindo, formando um fino crescente, e segundos depois dois sóis apareceram, duas fornalhas de luz, queimando o horizonte com fogo branco. Raios de cor intensa riscavam a atmosfera rarefeita do planeta.
— As luzes da aurora...! — exultava Zaphod. — Os sóis gêmeos de Soulianis e Rahm...!
— Ou seja lá o que for — disse Ford baixinho.
— Soulianis e Rahm! — insistiu Zaphod.
Os sóis ardiam no negrume do espaço, e ouvia-se uma música macabra no recinto: era Marvin cantarolando, sarcástico, porque detestava a espécie humana.
Ford contemplava o espetáculo de luz à sua frente, ardendo de entusiasmo; porém era apenas o entusiasmo de ver um planeta que jamais vira antes; isso lhe bastava. Irritava-o um pouco a necessidade que Zaphod tinha de criar uma fantasia ridícula para poder se empolgar com a cena. Toda essa bobagem de Magrathea parecia-lhe infantil. Não basta apreciar a beleza de um jardim, sem ter que imaginar que há fadas nele?
Para Arthur, toda essa história de Magrathea era totalmente incompreensível. Virou-se para Trillian e perguntou-lhe o que estava acontecendo.
— Só sei o que Zaphod disse — cochichou. — Pelo visto, Magrathea é uma espécie de lenda antiquíssima que ninguém leva a sério. Mais ou menos como a lenda de Atlântida lá na Terra, só que dizem que os magratheanos fabricavam planetas.
Arthur olhava para a tela, sentindo falta de alguma coisa importante. De repente deu-se conta do que era.
— Tem chá nessa nave?
Pouco a pouco ia aumentado a faixa visível do planeta que sobrevoavam. Os sóis agora estavam bem acima do horizonte, destacando-se da escuridão do céu; terminara o espetáculo pirotécnico do amanhecer, e a superfície do planeta parecia erma e assustadora à luz do dia cinzenta, cheia de poeira e de contornos imprecisos. Parecia morta e fria como uma cripta.
De vez em quando surgiam detalhes promissores no horizonte longínquo, gargantas, talvez montanhas, quem sabe até cidades, mas, à medida que se aproximavam, a imagem perdia a nitidez e não ficava claro do que se tratava. A superfície do planeta estava apagada pelo tempo, pelo lento movimento da atmosfera estagnada que nela roçava há séculos.
— Certamente era um planeta velhíssimo.
Por um momento surgiu uma dúvida na mente de Ford, ao contemplar a paisagem cinzenta do planeta. A imensidão do tempo o perturbava; era uma presença palpável. Pigarreou.
— Bem, e se for...
— É — disse Zaphod.
— Não é — prosseguiu Ford. — Mas o que você quer com esse planeta? Não há nada nele.
— Não na superfície — disse Zaphod.
— Está bem. Mesmo que tenha alguma coisa, não acredito que você esteja interessado em estudar arqueologia industrial. O que é que você está procurando?
Uma das cabeças de Zaphod desviou a vista. A outra olhou ao redor para ver o que a primeira estava vendo, mas ela não estava olhando para nada em particular.
— Bem — disse Zaphod, meio vago —, em parte é curiosidade, em parte é o gosto pela aventura, mas acho que o principal é a perspectiva de fama e dinheiro...
Ford encarou-o. Teve a nítida impressão de que Zaphod não tinha a menor ideia do motivo que o levara ali.
— Sabe, não fui nem um pouco com a cara desse planeta — disse Trillian, com um arrepio.
— Ah, não ligue para isso — disse Zaphod. — Com metade das riquezas do antigo Império Galáctico guardadas em algum lugar aí dentro, o planeta tem todo o direito de não ser lá essas coisas em matéria de beleza natural.
“Bobagem”, pensou Ford. “Ainda que fosse mesmo a sede de uma antiga civilização já extinta, ainda que uma série de coisas muito improváveis fosse verdadeira, se houvesse de fato imensas riquezas guardadas lá, era impossível que elas tivessem algum valor para a civilização atual.” Deu de ombros.
— Acho que é só um planeta sem vida — disse ele.
— Esse suspense está me matando — disse Arthur, irritado.
A tensão nervosa e o estresse são agora problemas sociais sérios em todas as partes da Galáxia, e é para não exacerbar ainda mais esta situação que vamos revelar os fatos que se seguem antecipadamente.
O planeta em questão é mesmo o lendário Magrathea.
O terrível ataque de mísseis que terá início em breve, desencadeado por um antigo sistema de defesa automático, resultará apenas na destruição de três xícaras de café e de uma gaiola de ratos, um braço machucado e a inoportuna criação e súbita morte de um vaso de petúnias e um inocente cachalote.
Para manter um mínimo de suspense, não diremos por enquanto a quem pertence o braço que será machucado. Esse fato pode ser mantido em segredo sem qualquer problema por ser absolutamente irrelevante.

Um comentário:

  1. "Ford contemplava o espetáculo de luz à sua frente, ardendo de entusiasmo; porém era apenas o entusiasmo de ver um planeta que jamais vira antes; isso lhe bastava. Irritava-o um pouco a necessidade que Zaphod tinha de criar uma fantasia ridícula para poder se empolgar com a cena. Toda essa bobagem de Magrathea parecia-lhe infantil. Não basta apreciar a beleza de um jardim, sem ter que imaginar que há fadas nele?"

    Que profundo!

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Boa leitura :)