15 de novembro de 2017

Capítulo 16

Eles saem quatro vezes. Na primeira, comem uma pizza e ela se atém à água mineral até ter certeza de que ele não a considera mesmo uma esponja, e aí se permite um gim-tônica. É o gim-tônica mais delicioso que já tomou. Ele a acompanha até sua casa e dá a impressão de já estar quase indo embora, então, após um instante de leve constrangimento, dá um beijo no rosto dela e ambos riem, como se soubessem que aquilo tudo é meio embaraçoso. Sem pensar, ela se inclina para a frente e o beija propriamente, um beijo rápido, mas decidido. Um beijo que insinua algo dela. Isso a deixa meio sem fôlego. Ele entra no elevador de costas e continua sorrindo quando as portas se fecham.
Ela gosta dele.
Na segunda vez, eles vão assistir ao show de uma banda recomendada pelo irmão dele, e é horrível. Depois de vinte minutos, ela vê, com certo alívio, que ele também está achando ruim, e, quando ele pergunta se ela quer ir embora, eles se veem de mãos dadas para não se perderem ao abrirem caminho pelo bar repleto de gente. De certa forma, eles não se largam até chegarem ao apartamento dele.
Ali conversam sobre suas infâncias, e as bandas de que gostam e os tipos de cachorro e o horror a abobrinhas, depois se beijam no sofá até ela ficar com as pernas meio bambas. Ela passa dois dias inteiros com o queixo vermelho depois disso.
Alguns dias depois, ele lhe telefona na hora do almoço para dizer que por acaso está passando perto de uma cafeteria nas redondezas e pergunta se ela quer tomar um café rapidamente.
— Você estava de passagem mesmo? — pergunta ela, depois que esticaram o café e o bolo o máximo que a hora de almoço dele permite.
— Claro — diz ele, e depois, para alegria dela, as orelhas dele ficam vermelhas. Ele a vê olhando e leva a mão ao lobo esquerdo. — Ah, cara. Eu não sei mesmo mentir.
Na quarta vez, eles vão a um restaurante. O pai dela liga justo antes de chegar a sobremesa para dizer que Caroline o deixou de novo. Ele geme tão alto ao telefone que Paul tem um sobressalto do outro lado da mesa.
— Tenho que ir — diz ela e não aceita a ajuda que ele oferece.
Ela não está preparada para um encontro entre os dois homens, especialmente com a possibilidade de seu pai não estar usando calças.
Quando ela chega à casa do pai meia hora depois, Caroline já está lá.
— Esqueci que era a noite dela de modelo-vivo — diz ele, envergonhado.
Paul não tenta forçar a situação. Ela se pergunta por um instante se fala muito sobre David. Se de alguma maneira se colocou em território proibido. Mas, então, pensa que ele pode simplesmente estar tentando ser cavalheiro. Outras vezes pensa, quase com indignação, que David faz parte dela, e se Paul quer estar com ela, bem, terá que aceitar isso. Ela tem várias conversas e duas discussões imaginárias com Paul.
Acorda pensando nele, em seu jeito de se inclinar para a frente quando ouve, como se determinado a não perder uma palavra do que ela diz, no seu cabelo prematuramente grisalho nas têmporas, em seus olhos azuis, azuis. Ela já esqueceu como é acordar pensando numa pessoa, querer estar fisicamente junto dela. Sentir-se meio tonta ao se lembrar do cheiro da pele dela. Ainda não tem trabalho suficiente, mas isso a incomoda menos. Às vezes, ele lhe manda uma mensagem de texto no meio do dia e ela a ouve falada com um sotaque americano.
Tem medo de mostrar a Paul McCafferty quanto gosta dele. Teme dar uma impressão equivocada: as regras parecem ter mudado desde a última vez que saiu com alguém nove anos atrás. Ouve Mo e suas observações impassíveis sobre encontros na internet, sobre “amizade colorida”, sobre o certo e o errado em termos de sexo — como ela deve se depilar e aparar e ter “técnicas”. E é como se estivesse ouvindo alguém falar polonês.
Acha difícil enquadrar Paul McCafferty nas afirmações de Mo sobre os homens: desleixados, aventureiros, egoístas, obcecados por pornografia. Ele é serenamente direto, um aparente livro aberto. Por isso, subir de status em sua unidade especial no Departamento de Polícia de Nova York não lhe convém, ele diz.
— Todos os pretos e brancos vão ficando bem cinzentos à medida que a pessoa sobe de status. — Ele só demonstra alguma insegurança, titubeando ao falar, quando o assunto é o filho. — O divórcio é uma merda. A gente diz a si mesmo que os filhos estão bem, que é melhor assim do que duas pessoas infelizes gritando uma com a outra, mas nunca ousamos perguntar a verdade a eles.
— A verdade?
— O que eles querem. Porque sabemos a resposta. E ela nos deixaria arrasados.
Ele foca em algum ponto à frente e, então, segundos depois, torna a sorrir.
— Mesmo assim, Jake é bom. Ele é ótimo. Melhor do que nós dois merecemos.
Ela gosta do americanismo dele, de como isso o deixa ligeiramente estrangeiro e completamente distante de David. Ele tem uma cortesia inata; é o tipo de homem que abre a porta para uma mulher por instinto, não por estar fazendo um gesto cavalheiresco, mas sim porque não lhe ocorreria não abrir a porta se alguém precisasse passar por ela. Ele tem uma espécie de autoridade sutil: as pessoas realmente saem da frente dele quando ele passa na rua. Ele não parece se dar conta disso.
— Ai, meu Deus, você está perdida — diz Mo.
— O quê? Só estou dizendo. É bom sair com uma pessoa que parece...
Mo suspira.
— Ele vai transar muito essa semana.
Mas ela não o convidou para voltar à Casa de Vidro. Mo percebe sua hesitação.
— Tudo bem, Rapunzel. Se vai ficar aí nessa sua torre, vai ter que deixar o príncipe que aparecer de vez em quando passar os dedos pelo seu cabelo.
— Não sei...
— Então eu andei pensando — diz Mo. — Devíamos mudar o seu quarto. Mudar um pouco a casa. Do contrário você vai sempre sentir que está trazendo alguém para a casa de David.
Liv desconfia que vai sentir isso qualquer que seja a disposição dos móveis. Mas na terça-feira à tarde, quando Mo está de folga, elas mudam a cama para o outro lado do quarto, encostando-a na parede de concreto cor de alabastro que corre como uma espinha dorsal arquitetônica pelo centro da casa. Não é um lugar natural para a cama se a pessoa for muito exigente, mas ela admite que é estimulante dar uma cara nova ao ambiente.
— Agora — diz Mo, olhando para A garota que você deixou para trás — Quer pendurar este quadro em outro lugar?
— Não. Ele fica.
— Mas você disse que David o comprou para você. E isso significa...
— Eu não me importo. Ela fica. Além do mais... — Liv franze os olhos para a mulher dentro da moldura. — Acho que ela ficaria estranha numa sala. Ela é muito... íntima.
— Íntima?
— Ela é... sexy. Não acha?
Mo franze os olhos para o retrato.
— Não consigo enxergar isso. Se o quarto fosse meu, eu teria uma enorme tevê de tela plana ali.
Mo sai, e Liv fica olhando para o quadro, e, pela primeira vez, não se sente angustiada. O que acha?, pergunta ela à garota. Será que afinal está na hora de seguir em frente?

* * *

Começa a dar tudo errado na sexta-feira de manhã.
— Então, você tem um encontro!
Seu pai se adianta e a envolve num abraço de urso. Ele é cheio de joie de vivre, expansivo e sábio. Está, de novo, falando em pontos de exclamação. E está vestido.
— Ele só... Não quero dar muita importância a isso, pai.
— Mas é maravilhoso! Você é uma moça linda! É a lei natural. Você devia estar saindo, agitando essas plumas, desfilando essa gostosura!
— Eu não tenho plumas, pai. — Ela toma um gole de chá. — E não estou cem por cento convencida da gostosura.
— O que vai usar? Uma roupa mais alegre? Caroline, o que ela deve usar?
Caroline entra na cozinha, prendendo o longo cabelo ruivo. Ela anda trabalhando em suas tapeçarias e recende vagamente a ovelha.
— Ela tem trinta anos, Michael. Pode escolher o próprio guarda-roupa.
— Mas veja só como ela se cobre! Ela ainda tem a estética de David: só preto e cinza e roupas largas. Você devia seguir o exemplo da Caroline, querida. Olhe as cores que ela usa! Uma mulher assim chama atenção...
— Uma mulher vestida como um iaque chamaria sua atenção — diz Caroline, ligando a chaleira.
Mas diz isso sem rancor. Michael está atrás dela, colado no seu corpo. Ele fecha os olhos extasiado.
— Nós homens... somos criaturas primais. Nossos olhos inevitavelmente são atraídos para a alegria e a beleza. — Abre um olho, estudando Liv. — Talvez... pelo menos você possa usar algo menos masculino.
— Masculino?
Ele recua.
— Suéter preto grande. Jeans pretos. Nada de maquiagem. Não é exatamente um canto de sereia.
— Use qualquer roupa que a deixe confortável, Liv. Não ligue para ele.
— Acha que tenho um ar masculino?
— Lembre-se, você disse que conheceu o cara num bar gay. Talvez ele goste de mulher meio com cara de... menino.
— Você é um velho bobo — diz Caroline e sai da sala levando a caneca de chá.
— Então eu tenho cara de lésbica.
— Só estou dizendo que você poderia realçar um pouquinho mais seus melhores atributos. Uma onda no cabelo, talvez. Um cinto marcando a cintura...
Caroline enfia a cabeça pela abertura da porta.
— O que você veste não importa, querida. Só não deixe de usar roupa de baixo boa. Em última instância, a lingerie é tudo o que importa.
Seu pai observa Caroline desaparecer e sopra um beijo silencioso.
— Lingerie! — diz ele com reverência.
Liv olha para suas roupas.
— Bem, obrigada, pai. Estou me sentindo ótima agora. Ótima.
— É um prazer. Quando você quiser. — Ele bate com a mão espalmada na mesa de pinho. — E me diga como aconteceu. Um encontro! Emocionante.

* * *

Liv se olha no espelho. Há três anos um homem não vê seu corpo, e, há quatro, um homem não o vê estando sóbrio o bastante para dar valor. Ela fez o que Mo sugeriu: depilou todos os vestígios de pelos corporais, usou esfoliante no rosto, fez hidratação no cabelo. Examinou a gaveta de roupa íntima até encontrar algo que poderia definir como vagamente sedutor, sem ter perdido a cor por causa do tempo. Pintou as unhas dos pés e lixou as unhas das mãos em vez de só cortá-las com alicate.
David nunca ligou para essas coisas. Mas David não está mais aqui.
Ela examinou seu armário, revistando fileiras de calças pretas e suéteres discretos pretos e cinza. Sim, ela tem que admitir, é um guarda-roupa utilitário.
Finalmente, decide-se por uma saia justa preta e um suéter de decote em V. Escolhe um par de sandálias de salto com borboletas nos dedões, que ela comprou e só usou uma vez, num casamento, mas nunca jogou fora. Talvez não estejam muito na moda, mas não podem ser confundidas com o que as lésbicas usam.
— Nossa! Olhe só!
Mo está parada à porta, de jaqueta, mochila no ombro, pronta para sair para o trabalho.
— Está exagerado? — Ela estica o pé em dúvida.
— Você está ótima. Não está usando calcinha de avó, está?
Liv respira fundo.
— Não, não estou usando calcinha de avó. Não que eu me sinta realmente na obrigação de manter as pessoas atualizadas sobre a lingerie que escolhi.
— Então vá em frente e tente não engravidar. Deixei o prato de frango que prometi, e tem uma tigela de salada na geladeira. É só acrescentar o molho. Vou dormir na casa do Ranic hoje, então não vou ficar no seu pé. É tudo seu. — Ela lança um sorriso significativo para Liv, depois desce as escadas.
Liv se vira para o espelho. Uma mulher excessivamente maquiada, de saia, olha para ela. Ela anda pela sala, meio trôpega, usando calçados com os quais não está familiarizada, tentando entender o que a deixa tão desequilibrada. A saia cai-lhe impecavelmente. A corrida deu às suas pernas uma forma atraente e bem torneada. A cor das sandálias faz um bom contraste com o restante da roupa. A lingerie é bonita sem ser vulgar. Ela cruza os braços e se senta na beira da cama. Ele deve chegar em uma hora.
Ela olha para A garota que você deixou para trás. Quero ser igual a você, diz em silêncio.
Pela primeira vez, aquele sorriso não lhe oferece nada. Quase parece zombar dela.
Diz: Chance zero.
Liv fica um instante de olhos fechados. Então pega o telefone e manda uma mensagem para Paul.

Mudança de planos. Você se incomoda se a gente se encontrar em algum lugar para beber alguma coisa?

— Então... cansou de cozinhar? Porque eu poderia ter levado algo para comermos.
Paul se recosta na cadeira, olhando de relance para um grupo de funcionários de escritório aos gritos, que parecem ter estado ali a tarde inteira, a julgar pelo ar generalizado de flerte e embriaguez. Discretamente, ele estava se divertindo com eles, com as mulheres assanhadas, o contador cochilando no canto.
— Eu... só estava precisando sair de casa.
— Ah, sim. Trabalhar em casa... Eu me esqueço de como isso pode deixar a pessoa louca. Quando meu irmão se mudou para cá, ele passou semanas escrevendo para empresas, candidatando-se a empregos, e, quando eu chegava do trabalho, ele literalmente passava uma hora falando comigo sem parar.
— Vocês vieram juntos dos Estados Unidos?
— Ele veio para me dar apoio quando eu me divorciei. Fiquei péssimo. E depois ele acabou ficando.
Paul fora para a Inglaterra dez anos antes. Sua mulher inglesa era muito infeliz, sentia falta de casa, especialmente quando Jake era bebê, e ele largou o Departamento de Polícia de Nova York para deixá-la feliz.
— Quando chegamos aqui, vimos que era a gente, não o lugar, que estava completamente errado. Olha lá! O Homem de Terno Azul vai dar em cima da moça de cabelo bonito.
Liv dá um gole em seu drink.
— Aquilo não é cabelo de verdade.
Ele franze os olhos.
— O quê? Está de brincadeira comigo. É peruca?
— Aplique. Dá para ver.
— Eu não consigo. Não vai me dizer que os seios são falsos também?
— Não, são de verdade. Ela tem peito quádruplo.
— Peito quádruplo?
— O sutiã é muito pequeno. Dá a impressão de que ela tem quatro peitos.
Paul ri tanto que começa a sufocar. Não se lembra da última vez em que riu assim. Ela sorri para ele, quase com relutância. Está meio estranha aquela noite, como se uma conversa interna paralela estivesse tornando mais lentas todas as suas reações.
Ele consegue controlar o riso.
— Então, o que achamos? — pergunta, tentando fazê-la relaxar. — A Garota do Peito Quádruplo vai topar?
— Talvez com mais um drink. Não estou convencida de que ela goste muito dele.
— É. Ela fica olhando por cima do ombro dele enquanto fala. Acho que ela gosta de sapatos cinza.
— Nenhuma mulher gosta de sapatos cinza. Pode acreditar.
Ele ergue uma sobrancelha, pousa seu drink.
— Agora, você vê, é por isso que os homens acham mais fácil dividir moléculas e invadir países do que entender o que se passa na cabeça das mulheres.
— Ora, se você tiver sorte, um dia vou deixar você dar uma olhadinha no regulamento.
Ele olha para ela fazendo-a corar, sentindo-se como se tivesse falado demais.
De repente, faz-se um silêncio inexplicavelmente constrangedor. Ela fica olhando para seu drink.
— Sente falta de Nova York?
— Gosto de ir para visitar. Quando vou para casa agora, todo mundo debocha do meu sotaque.
Parece que ela só está ouvindo parcialmente.
— Não precisa ficar tão aflita — diz ele. — Mesmo. Estou feliz aqui.
— Ah. Não. Me desculpe. Não tive intenção... — As palavras morrem em seus lábios. Há um longo silêncio. Então, ela olha para ele e fala, com o dedo pousado na borda do copo. — Paul... eu queria convidar você para ir lá em casa hoje à noite. Eu queria que a gente... Mas eu... eu só... É muito cedo. Eu não posso. Não posso fazer isso. Por isso cancelei o jantar.
As palavras se diluem no ar. Ela enrubesce até a raiz dos cabelos.
Ele abre a boca e depois a fecha. Inclina-se para a frente e diz, baixinho:
— Bastaria você dizer “não estou com muita fome”.
Ela arregala os olhos, depois desaba um pouco em cima da mesa.
— Ai, meu Deus. Sair comigo é um pesadelo, não é?
— Talvez seja um pouco mais sincera do que precisa ser.
Ela suspira.
— Me desculpe. Não tenho ideia do que eu...
Ele chega para a frente, toca de leve na mão dela. Quer que ela pare de parecer aflita.
— Liv — diz com tranquilidade —, gosto de você. Acho você ótima. Mas dá para ver bem que há muito tempo você está no seu próprio espaço. E eu não... eu não... — As palavras também lhe escapam. Parece muito cedo para uma conversa como essa. E subjacente a tudo isso, apesar dele mesmo, ele luta contra a decepção. — Ah, droga, quer comer uma pizza? Porque eu estou faminto. Vamos comer alguma coisa e nos sentir constrangidos em outro lugar.
Ele sente o joelho dela encostado no dele.
— Sabe, eu tenho comida em casa, sim.
Ele ri. E para.
— Tudo bem. Bem, agora eu não sei o que dizer.
— Diga: “Seria ótimo.” E depois pode acrescentar: “Por favor, agora cale a boca, Liv, antes de complicar mais as coisas.”
— Seria ótimo, então — diz Paul.
Ele segura o casaco para ela vestir, e em seguida os dois saem do pub.

* * *

Dessa vez, não andam em silêncio. Algo se soltou entre eles, talvez por causa do que ele disse ou da sensação de alívio que de repente ela sentiu. Quase tudo que ele fala a faz rir. Vão desviando dos turistas, se metem ofegantes num táxi, e quando, ao se sentar no banco traseiro, ele estica o braço para acomodá-la, ela corresponde, aspirando o seu perfume limpo e másculo, e fica meio tonta com aquela sua sorte inesperada.
Eles chegam à quadra dela, e ele ri do primeiro encontro deles; de Mo e de sua aparente convicção de que ele era um ladrão de bolsas.
— Vou fazer você pagar aquela recompensa de quatro libras — diz ele, impassível. — Mo disse que eu tinha direito a ela.
— Mo também acha que é absolutamente aceitável colocar detergente nas bebidas de clientes de quem a gente não gosta.
— Detergente?
— Aparentemente ele faz com que passem a noite toda fazendo xixi. É como ela brinca de Deus com possibilidades românticas de seus clientes. Você nem queira saber o que ela faz com os cafés das pessoas que realmente a incomodam.
Ele balança a cabeça admirado.
— Mo está sendo desperdiçada nesse trabalho. Tem lugar para essa moça no crime organizado.
Eles saltam do táxi e entram no armazém. O ar está frio com a chegada do outono, e Liv fica arrepiada. Eles entram depressa no calor abafado do saguão. Ela se sente meio tola agora. De alguma forma, vê que nas últimas quarenta e oito horas Paul McCafferty deixou de ser uma pessoa e começou a virar uma ideia, uma coisa. Um símbolo de mudança. Era muito peso para uma novidade tão grande.
Ela ouve a voz de Mo em seus ouvidos: Ei, moça. Você pensa demais.
E depois, quando ele fecha a porta do elevador, eles ficam quietos. O elevador sobe lentamente, chacoalhando e fazendo barulho, as luzes piscando, como sempre. Passa pelo primeiro andar, e eles ouvem ao longe o eco de alguém subindo escadas, acordes de violoncelo vindo de algum vizinho.
Liv está profundamente consciente da presença dele no espaço fechado, do aroma penetrante de sua loção pós-barba, da impressão do braço dele em volta dos seus ombros. Olha para baixo e de repente deseja que não tivesse trocado de roupa e escolhido aquela saia careta com o sapato baixo. Ela queria estar com os sapatos de borboleta.
Ergue os olhos e vê que ele a observa. Ele não está rindo. Estende a mão, e, quando ela a segura, ele a puxa devagarinho pelos dois passos que os separam no elevador e abaixa o rosto até a altura do dela, de modo que ficam quase encostados. Mas não a beija.
Seus olhos azuis passeiam lentamente pelo rosto dela: olhos, pestanas, sobrancelhas e boca, até ela se sentir curiosamente exposta. Ela sente a respiração dele na pele, e as duas bocas estão tão próximas que ela poderia avançar e dar-lhe uma mordida leve.
Mesmo assim, ele não a beija.
E, com isso, ela estremece de desejo.
— Não consigo parar de pensar em você — murmura ele.
— Ótimo.
Ele encosta o nariz no dela. A parte superior de seus lábios se tocam. Ela sente o peso dele contra o seu corpo. Acha que talvez suas pernas tenham começado a tremer.
— Sim, está bem. Quero dizer, não, estou apavorada. Mas de um jeito bom. Eu... eu acho que...
— Pare de falar — murmura ele.
Ela sente nos lábios as palavras dele, as pontas dos dedos dele lhe descendo
pelo pescoço, e não consegue falar.
E então chegam ao último andar se beijando. Ele abre a porta do elevador, e eles saem trôpegos, ainda colados um no outro, um turbilhão de desejo entre eles. Ela tem uma das mãos entre a camisa e as costas dele, absorvendo o calor de sua pele. Estende a outra para trás de si, tateando até abrir a porta.
Eles entram na casa. Ela não acende a luz. Vai cambaleando de costas, atônita com aquela boca colada na sua, aquelas mãos em sua cintura. Ela o deseja tanto que suas pernas se dissolvem. Ela colide com a parede e ouve-o xingar baixinho.
— Aqui — murmura ela. — Agora.
O corpo dele está duro contra o dela. Eles estão na cozinha. A lua paira sobre a claraboia, banhando o ambiente com um frio luar azulado. Algo perigoso entrou ali, algo escuro, vivo e delicioso. Ela hesita um segundo e tira o suéter pela cabeça. É uma pessoa que conheceu faz muito tempo, destemida, ávida.
Fitando-o nos olhos, desabotoa a blusa. Um, dois, três botões. A blusa lhe escorrega dos ombros, e ela está despida até a cintura. Sua pele nua encolhe com o frio. Os olhos dele percorrem o seu torso e a respiração dela se acelera. Tudo para.
A cozinha está em silêncio, a não ser pela respiração deles. Ela se sente magnetizada. Chega para a frente, algo crescendo intenso e maravilhoso nesse breve hiato, e eles estão se beijando, um beijo que ela tem a sensação de estar esperando há anos, um beijo que ainda não tem um ponto final em mente. Ela aspira a loção pós-barba dele, fica atordoada, não pensa em mais nada. Esquece quem eles são. Ele se afasta com delicadeza, sorrindo.
— O que foi?
Ela está vidrada, sem fôlego.
— Você.
Ele não sabe o que dizer. O sorriso dela vai de orelha a orelha, e, assim, ela o beija até ficar perdida, tonta, até a razão se esvair por seus ouvidos e ela só escutar o zumbido crescente e insistente de seu próprio desejo. Aqui. Agora. Os braços dele se estreitam em volta dela, e ele cola os lábios em sua clavícula. Ela o procura; a respiração está entrecortada, o coração disparado. A sensibilidade à flor da pele a faz estremecer quando os dedos dele passeiam na sua pele. Ela quer rir de alegria. Ele arranca a camisa pela cabeça. Seus beijos ficam mais intensos, exigentes. Ele a coloca desajeitadamente na bancada e ela enrosca as pernas nele. Ele se curva, levanta a saia dela até a cintura e ela se joga para trás, deixa a pele encontrar o granito frio e seu olhar se volta para o teto de vidro; suas mãos estão enredadas no cabelo dele. Em volta dela, as persianas estão abertas, as paredes de vidro são uma janela para o céu noturno. Ela olha para a escuridão pontilhada e pensa, quase triunfantemente, com sua última parte racional: ainda estou viva.
Então, fecha os olhos e abandona os pensamentos.

* * *

A voz dele ressoa nela.
— Liv?
Ele a está abraçando. Ela ouve a própria respiração.
— Liv?
Um tremor residual é liberado.
— Você está bem?
— Desculpe. Estou. Faz... faz muito tempo.
Os braços dele a estreitam, numa resposta silenciosa.
— Está com frio?
Ela controla a respiração antes de responder.
— Gelada.
Ele a desce da bancada e pega sua camisa no chão, enrolando-a nela devagar. Eles se olham na penumbra.
— Bem... foi...
Ela quer dizer algo espirituoso, descontraído. Mas não consegue falar. Está paralisada. Tem medo de soltá-lo, como se só ele a estivesse ancorando à terra.
O mundo real se impõe. Ela escuta o barulho do tráfego na rua, um pouco alto demais e sente o chão frio com o pé descalço. Parece que perdeu um sapato.
— Acho que deixamos a porta da frente aberta — diz ela, olhando o corredor.
— Hum... esqueça o sapato. Sabia que o seu teto sumiu?
Ela olha para cima. Não se lembra de tê-lo aberto. Deve ter encostado no botão sem querer quando eles entraram na cozinha. O ar outonal baixa em volta deles, deixando-a toda arrepiada, como se sua pele também tivesse acabado de perceber o que acontecera. O suéter preto de Mo está pendurado nas costas de uma cadeira, como as asas abertas de um abutre ao pousar.
— Espere aí — diz ela.
Atravessa a cozinha e aperta o botão, escutando o zumbido do teto se fechando. Paul olha para a claraboia gigante, depois de novo para ela, e dá um giro completo, devagar, enquanto sua vista se adapta à penumbra, enxergando o que há em volta.
— Bem, isso... isso não é o que eu esperava.
— Por quê? O que você esperava?
— Não sei... Essa coisa toda do seu imposto municipal... — Ele olha para o teto aberto. — Uma casinha caótica. Mais ou menos como a minha. Essa é...
— A casa de David. Construída por ele.
A expressão dele muda.
— Ah. Muito ostensiva?
— Não. — Paul olha a sala e suspira. — Você tem permissão. Ele... hã... devia ser um cara incrível.
Ela serve um copo d’água para cada um e tenta não se sentir constrangida enquanto se vestem. Ele segura a saia para ela vestir. Eles se entreolham e acham certa graça, sentindo-se tremendamente tímidos depois de vestidos.
— Então... e agora? Você precisa de espaço? — Ele acrescenta: — Tenho que lhe avisar... se quiser que eu saia, talvez eu tenha que esperar até minhas pernas pararem de tremer.
Ela olha para Paul McCafferty, para o corpo dele, com o qual já estava completamente familiarizada. Não quer que ele vá embora. Quer deitar-se ao lado dele, envolver-se em seus braços, a cabeça aninhada em seu peito. Quer acordar sem precisar fugir dos próprios pensamentos. Em sua consciência, ecoa uma dúvida — David —, mas ela a afasta. Está na hora de viver o presente. Ela é mais do que a garota que David deixou para trás.
Sem acender a luz, ela pega a mão de Paul e o conduz pela casa escura, subindo as escadas em direção à cama.

* * *

Eles não dormem. As horas viram um miasma glorioso e confuso de pernas e braços enroscados e murmúrios. Ela havia esquecido a alegria absoluta de estar agarrada a um corpo que não consegue soltar. Sente como se tivesse sido recarregada, como se ocupasse um lugar novo na atmosfera.
São seis da manhã quando a fria centelha cintilante da aurora finalmente começa a se insinuar no quarto.
— Esse lugar é incrível — murmura ele, olhando pela janela.
Estão com as pernas enroscadas. Ela tem as impressões dos beijos dele pelo corpo todo. Sente-se drogada de felicidade.
— É sim. Mas eu não posso realmente me dar o luxo de ficar aqui. — Ela olha para ele na semiescuridão. — Estou meio encrencada financeiramente. Já me disseram que devo vender a casa.
— Mas você não quer.
— É como se fosse... uma traição.
— Bem, dá para ver por que você não quer sair daqui — diz ele. — A casa é linda. Muito tranquila. — Ele torna a olhar para cima. — Uau. Só de poder eliminar o teto sempre que lhe der vontade...
Ela se solta um pouco do abraço dele para se virar para a janela comprida, com a cabeça encaixada em seu braço.
— Há manhãs que gosto de ver as barcas indo na direção da Tower Bridge. Olhe. Com a luz certa, o rio vira uma corrente dourada.
— Uma corrente dourada, hein?
Eles se calam, e, enquanto estão observando o rio, o quarto começa a brilhar gentilmente. Ela olha para o rio, vendo-o iluminar-se gradativamente, como uma linha do futuro dela. Isso é certo?, ela se pergunta. Tenho permissão para ser feliz assim de novo?
Paul está tão calado que ela se pergunta se ele afinal adormeceu. Mas, quando ela se vira, ele está olhando para a parede em frente à cama. Está olhando para A garota que você deixou para trás, apenas agora visível à luz da aurora. Ela vira de lado e o observa. Ele está petrificado, sem desgrudar os olhos da imagem enquanto o dia vai clareando. Ele a entende, pensa ela. Sente uma pontada de algo que poderia na verdade ser pura alegria.
— Gostou dela?
Ele parece não ouvir.
Ela torna a se aninhar nele, encostando o rosto em seu ombro.
— Vai ver as cores dela com mais clareza daqui a pouco. Ela se chama A garota que você deixou para trás. Ou pelo menos nós... eu... acho que se chama. Está escrito no verso da moldura. Ele é... o meu objeto favorito nesta casa. Na verdade, é o meu objeto favorito no mundo inteiro. — Faz uma pausa. — David me deu na lua de mel.
Paul está calado. Ela corre o dedo pelo braço dele.
— Sei que parece bobagem, mas depois que ele morreu, eu simplesmente não queria participar de nada. Passei semanas sentada aqui. Eu... eu não queria ver outros seres humanos. E mesmo quando a situação estava muito ruim, havia algo na expressão dela... O rosto dela era o único que eu suportava. Ela era como um lembrete de que eu sobreviveria. — Liv dá um suspiro profundo. — E depois, quando você veio, me dei conta de que ela estava me lembrando de algo mais: da garota que eu era. Que não vivia se preocupando. E sabia se divertir e simplesmente... fazia as coisas. A garota que eu quero ser outra vez.
Ele continua calado.
Ela já falou demais. O que quer é que Paul encoste o rosto no dela, é sentir seu peso em cima dela.
Mas ele não fala. Ela aguarda um instante e depois diz, só para quebrar o silêncio:
— Acho que parece bobagem... ser tão apegada a um quadro...
Quando se vira para ela, ele está com uma expressão estranha: tensa e contraída. Mesmo à meia-luz ela vê. Ele engole em seco.
— Liv... como é o seu nome?
Ela faz uma careta.
— Liv. Você sabe o...
— Não. O seu sobrenome.
Ela pisca.
— Halston. Meu sobrenome é Halston. Ah. Acho que nós nunca...
Ela não consegue imaginar onde isso vai dar. Quer que ele pare de olhar para o quadro. De repente percebe que a descontração evaporou e algo estranho tomou o seu lugar. Eles ficam ali deitados num silêncio cada vez mais desconfortável.
Ele leva a mão à cabeça.
— Hum... Liv? Você se importa se eu for embora? Estou... Tenho umas coisas de trabalho para ver.
É como se tivessem dado corda nela. Ela custa um pouco a falar, e, quando o faz, sua voz sai muito alta.
— Às seis da manhã?
— É. Me desculpe.
— Ah. — Ela pisca. — Ah. Certo.
Ele se levanta e se veste. Atordoada, ela o observa vestindo e abotoando as calças, a agilidade com que põe a camisa. Vestido, ele se vira, hesita, depois se abaixa e lhe dá um beijo no rosto. Inconscientemente, ela puxa o edredom até o queixo.
— Tem certeza de que não quer tomar café?
— Tenho. Eu... me desculpe. — Ele não sorri.
— Tudo bem.
Ele não consegue sair tão depressa quanto pretende. O desgosto começa a se instilar nela, como veneno em seu sangue.
Quando chega à porta do quarto, ele mal consegue olhar nos olhos dela. Balança a cabeça, como alguém tentando enxotar uma mosca.
— Hã... Olha. Eu... eu ligo para você.
— Tudo bem. — Ela tenta soar leve. — Você é quem sabe.
Quando a porta se fecha atrás dele, ela se inclina para a frente.
— Tomara que o lance do trabalho dê...
Liv fica olhando incrédula para o espaço que ele ocupou, suas falsas palavras de incentivo ecoando pela casa silenciosa. O vazio se insinua no espaço que Paul McCafferty de alguma maneira abriu dentro dela.

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Boa leitura :)