29 de novembro de 2017

Capítulo 16 - Passam pelo errante

Mark abriu caminho em direção ao quarto de Kieran, preparando-se para mentir.
A inquietação e a exaustão levaram Mark do salão. Os outros, igualmente cansados, foram para seus próprios quartos. Cristina tinha saído sem Mark perceber — embora ele tivesse sentido sua ausência como uma espécie de dor no peito depois que ela se foi. Diana decidira sair tão cedo quanto pudesse para Idris, e Julian e Emma tinham ido vê-la.
Mark ficou um pouco chocado com o anúncio de Emma de que seu relacionamento de mentira acabara; ele sabia o que havia dito para ela lá na Terra das Fadas e que ela só fizera o que ele pedira. Ainda assim, ele se sentiu um pouco perdido, sozinho, sem ideia de como olhar nos olhos de Kieran e dizer-lhe mentiras.
Ele não gostava de mentir; não fizera isso na Caçada, e se sentia desconfortável com o ritmo das coisas. Ele queria falar sobre isso com Cristina, mas não podia imaginar que ela gostaria de ouvir sobre seus sentimentos complicados por Kieran. Julian estaria completamente focado no que era necessário e deveria ser feito, por mais doloroso que fosse. E agora ele não podia mais falar com Emma. Ele não tinha percebido quão perto seu relacionamento, por mais falso que fosse, os levara para uma amizade real; ele se perguntou, agora, se perderia isso também.
E quanto a Kieran — Mark apoiou a cabeça contra a parede ao lado da porta de Kieran. A estampa dourada desbotada de folhas e videiras da parede do corredor pressionava sua testa. Kieran era a pessoa com quem ele menos poderia falar.
Não que bater a cabeça na parede fosse ajudá-lo de alguma maneira. Ele se endireitou e abriu a porta com calma; o quarto deixado para Kieran ficava longe do resto dos quartos, subindo um pequeno lance de escadas, um cômodo que parecia ter sido usado um dia para armazenamento. Janelas estreitas e arqueadas davam para as paredes planas de outros edifícios. Havia uma enorme cama com dossel no meio e um enorme guarda-roupa — embora o que eles pensassem que Kieran poderia colocar nele, Mark não fazia ideia.
O lençol fora arrancado da cama e Kieran não podia ser visto em lugar nenhum. Mark sentiu uma grande inquietação. Kieran havia jurado a Cristina que ficaria, à sua maneira: se tivesse decidido não honrar sua promessa a Cristina, haveria problemas.
Mark suspirou e fechou os olhos. Ele se sentiu estúpido e vulnerável, parado no meio da sala com os olhos fechados, mas ele conhecia Kieran.
— Kier — ele falou. — Não consigo ver nada. Saia e fale comigo.
Um momento depois, havia mãos ferozes segurando-o, levantando-o e jogando-o na cama. O peso de Kieran empurrou Mark para baixo no colchão; Mark abriu os olhos e viu Kieran debruçado sobre ele, selvagem e estranho em suas roupas comuns. O contorno das ataduras de Kieran pressionou o peito de Mark, mas, de outro modo, o peso de Kieran era familiar. Para o seu corpo, um tanto bem-vindo.
Kieran olhava para ele, prata e olhos negros como o céu noturno.
— Eu amo você — disse Kieran. — E fiz um juramento. Mas se eu for constantemente envergonhado e posto de lado, não responderei por minhas ações.
Mark passou a mão suavemente pelo cabelo de Kieran. Os fios passavam por seus dedos, seda pesada.
— Eu me certificarei de que eles o tratem com mais respeito. Eles só precisam se acostumar com você.
Os olhos de Kieran brilharam.
— Não fiz nada para ganhar a desconfiança.
Oh, mas você fez, pensou Mark, fez, e todos se lembram disso, menos você.
— Eles me ajudaram a resgatá-lo — apontou. — Não seja ingrato.
Kieran sorriu para isso.
— Eu prefiro pensar que só você foi responsável. — Ele se curvou para acariciar a garganta de Mark.
Mark fechou os olhos; ele podia sentir seus próprios cílios fazerem cócegas nas bochechas. Ele podia sentir a mudança do peso de Kieran em cima dele. Kieran cheirava a oceano, como costumava ser. Mark lembrou-se de uma colina em um país verde, um amontoado de pedras úmidas, caindo com Kieran no fundo. Mãos nos cabelos e em seu corpo quando ele não tinha sido tocado por tanto tempo. Ele queimara e estremecera. Ele estremeceu agora. O que Kieran era para ele? O que ele era para Kieran? O que eles alguma vez foram um ao outro?
— Kier — Mark falou. — Ouça...
— Agora não é hora de falar — disse Kieran, e seus lábios eram leves como penas na pele de Mark, movendo-se de sua garganta, ao longo de sua mandíbula, para capturar sua boca.
Foi um momento que pareceu ter se esticado para sempre, um momento em que Mark caiu através de estrelas que se quebraram ao redor dele. Os lábios de Kieran eram macios e frescos e tinham gosto de chuva, e Mark se agarrou a ele no lugar escuro e quebrado no fundo do céu.
Ele enrolou os dedos nos cabelos de Kieran, curvou as pontas dos dedos para dentro, ouvindo Kieran exalar severamente contra sua boca. Seu corpo apertou mais forte contra o de Mark, e os dedos de Kieran deslizaram contra a nuca de Mark e aninharam a corrente da qual pendia sua flecha de elfo.
Foi como ser chacoalhado. Mark rolou, levando Kieran com ele, e então eles estavam deitados lado a lado na cama. O movimento quebrou o beijo, e Kieran olhou para ele, meio irritado e meio aturdido.
— Miach — disse ele. Sua voz tomou a palavra e transformou-a em uma carícia, um convite aos prazeres inimagináveis das fadas.
— Não — disse Mark. — Não me chame assim.
Kieran respirou fundo.
— Há algo de errado entre nós, não há? Miach, por favor, me diga o que é. Eu sinto a distância, mas não entendo o porquê.
— Você não se lembra, mas nós tivemos uma discussão. Sobre eu ficar com minha família. Foi por isso que eu lhe devolvi o meu colar de flecha de elfo.
Kieran pareceu confuso.
— Mas eu sempre soube que você poderia ficar com sua família. Eu não queria isso, mas devo ter aceitado. Lembro-me de acordar na Corte Unseelie. Não me lembro de ter qualquer raiva em relação a você.
— Não foi uma briga assim. — Mark engoliu. — Mas eu não estava esperando isso, você, no meu mundo. Todas as complicações dessas políticas.
— Você não me quer aqui? — o rosto de Kieran não mudou, mas seu cabelo estava de repente coberto de branco onde ele se curvava contra suas têmporas.
— Não é isso. Na Caçada Selvagem, eu pensava que poderia morrer em qualquer noite. Toda noite. Queria tudo, sempre, e arrisquei tudo, porque ninguém dependia de mim. E então você estava lá, e nós dependemos um do outro, mas... — Ele pensou em Cristina. Suas palavras vieram até ele, e ele não pôde deixar de usá-las, embora quase tenha sentido como se fosse uma traição. Cristina, que ele beijou com alegre abandono naqueles poucos momentos antes da revelação, antes de ter percebido o que ela pensava dele... alguém que ela só beijaria quando estava bêbada ou fora de si... — Eu sempre precisei de você, Kieran. Preciso de você para viver. Eu sempre precisei tanto de você, mas nunca tive a chance de pensar se nós éramos bons um para o outro ou não.
Kieran sentou-se. Ele ficou em silêncio, embora Mark visse, com alívio, que as marcas brancas em seu cabelo voltaram à sua cor azul mais normal.
— Isso foi honesto — ele falou finalmente. — Eu não posso culpá-lo.
— Kieran...
— Quanto tempo você precisa? — Kieran se empertigou, e ele era todo príncipe da fada orgulhoso agora.
Mark pensou nas vezes em que vira Kieran em festas, à distância; as fadas comuns se dispersando na frente dele. Meninas e meninos que tendiam em seus braços, esperando uma palavra ou olhar, porque o favor de um príncipe desgraçado era a moeda. E Kieran, não concedendo nem palavras nem olhares, porque suas palavras e olhares eram todos para Mark. Tudo o que eles tinham entre eles quando a Caçada Selvagem desviava o olhar...
— Talvez alguns dias — disse Mark. — Se você puder ser paciente por tanto tempo.
— Eu posso ser paciente por alguns dias.
— Por que você escolheu Cristina? — Mark perguntou abruptamente. — Quando teve que jurar lealdade a um de nós. Por que ela? Você fez isso para me desestabilizar?
Kieran sorriu.
— Como dizem nem tudo é sobre você, Mark. — Ele recostou; seu cabelo era muito escuro contra os lençóis brancos. — Você não deveria estar indo?
— Você não quer que eu fique aqui? Com você?
— Enquanto você pesa meus méritos como se eu fosse um cavalo que está pensando em comprar? Não — disse Kieran. — Volte para o seu quarto, Mark Blackthorn. E se a solidão impedir seu descanso, não me procure. Certamente deve haver uma runa para insônia.
Não havia, mas Mark não sentiu que seria uma boa ideia dizer isso. Os olhos de Kieran brilhavam perigosamente. Mark foi para a porta, perguntando-se se tinha cometido um erro terrível.


 O quarto de Cristina no Instituto de Londres era bem parecido com os quartos que ela vira em fotos de outros Institutos em todo o mundo: claramente decorados com uma cama sólida, um guarda-roupa, uma cômoda e uma mesa. Um banheiro pequeno, limpo, com um chuveiro que já havia usado. Agora ela estava deitada no colchão grumoso, os cobertores puxados até o peito, o braço doendo.
Ela não tinha certeza de por que. Ela adorou cada momento de voar com a Caçada Selvagem; se tinha se ferido de alguma forma, não tinha lembrança disso. Não quando ela montou o cavalo, nem quando eles cavalgaram, e certamente ela recordaria a dor assim? E como ela poderia ter se machucado de outra maneira?
Ela rolou para o lado e se esticou para tocar sua pedra enfeitiçada na mesa da mesa de cabeceira. Ela acendeu um brilho suave, iluminando o quarto — a enorme cama inglesa, o mobiliário de carvalho pesado. Alguém tinha rabiscado as iniciais JB + LH na pintura pela janela.
Ela olhou para o braço direito. Ao redor de seu pulso estava uma faixa de pele mais pálida, ligeiramente avermelhada nas bordas, como a cicatriz deixada por uma pulseira de fogo.


— Vocês vão ficar bem? — perguntou Diana. Foi meio uma declaração, meio uma pergunta.
Diana, Julian e Emma estavam na entrada do Instituto de Londres. As portas do Instituto estavam abertas e o pátio escuro era visível; chovera mais cedo, e as lajes foram lavadas. Julian podia ver o arco do famoso portão de metal que fechava o Instituto, e as palavras que haviam ali: SOMOS PÓ E SOMBRAS.
— Ficaremos bem — confirmou Julian.
— Malcolm está morto novamente. Ninguém está tentando nos matar — disse Emma. — São quase férias.
Diana colocou a bolsa mais alto em seu ombro. Seu plano era pegar um táxi para a Abadia de Westminster, onde um túnel secreto acessível apenas para Caçadores de Sombras levava a Idris.
— Eu não gosto de deixá-los.
Julian ficou surpreso. Diana sempre veio e foi de acordo com seus próprios desejos.
— Ficaremos bem — repetiu. — Evelyn está aqui, e a Clave está a um telefonema de distância.
— Não é um telefonema que vocês queiram fazer — disse Diana. — Enviei outra mensagem para Magnus e Alec, e continuarei em contato com eles de Alicante. — Ela fez uma pausa. — Se precisarem deles, enviem uma mensagem de fogo e eles virão.
— Eu posso lidar com isso — disse Julian. — Lidei com muito pior por muito mais tempo.
Os olhos de Diana encontraram-se com os dele.
— Eu faria, se pudesse — ela falou. — Você sabe disso. Eu me candidataria a diretora do Instituto se fosse possível. Colocar-me contra os Dearborn.
— Eu sei — Julian respondeu, e estranhamente, ele sabia. Mesmo que ele não soubesse o que impedia que Diana se apresentasse como candidata, sabia que era algo importante.
— Se isso fizesse alguma diferença. Mas eu nem conseguiria passar pela entrevista. Seria inútil, e então eu não seria capaz de ficar com vocês, ou ajudá-lo. — Ela parecia estar tentando se convencer, e Emma pegou sua mão, impulsiva como sempre.
— Diana, você sabe nós nunca permitiremos que eles a afastem de nós.
— Emma. — A voz de Julian soou mais afiada do que ele pretendia. A raiva que estava afastando desde que Emma anunciara que ela e Mark haviam terminado aumentava novamente, e ele não sabia por quanto tempo conseguiria controlar. — Diana sabe do que está falando.
Emma parecia assustada com a frieza em seu tom. Diana moveu os olhos entre eles.
— Olha, eu sei que é incrivelmente estressante ser mantido afastado de sua casa assim, mas tentem não brigar — disse ela. — Vocês terão que permanecer unidos até eu voltar de Idris.
— É apenas um dia ou dois — disse Emma, sem olhar para Julian. — E ninguém está brigando.
— Fique em contato conosco — Julian falou para Diana. — Conte-nos o que Jia disser.
Ela assentiu.
— Eu não voltei a Idris desde a Guerra Maligna. Será interessante. — Ela se inclinou para frente e beijou primeiro Jules e depois Emma, rapidamente, na bochecha. — Cuidem-se.
Ela puxou o capuz para cima e saiu, engolida quase que instantaneamente por sombras. O braço de Emma roçou brevemente contra Julian enquanto ela levantava a mão para despedir-se. Ao longe, Julian ouviu o barulho do portão da frente.
— Jules — disse ela, sem virar a cabeça. — Eu sei que você disse que Diana se recusou a tentar liderar o Instituto, mas você sabe por quê... ?
— Não — respondeu ele. Era uma única palavra, mas havia veneno nela. — Ainda no tema das confissões, você estava planejando contar ao resto da família de Mark por que terminou com o irmão deles sem aviso prévio?
Emma ficou assombrada.
— Você está com raiva porque Mark e eu nos separamos?
— Penso que você já terminou com dois dos irmãos, se realmente contarmos — ele disse como se não tivesse falado. — Quem será o próximo? Ty?
Ele soube imediatamente que havia ido longe demais. Ty era o irmão mais novo dela, assim como era de Julian. Seu rosto ficou muito imóvel.
— Diga você, Julian Blackthorn — ela falou, girou nos calcanhares e subiu as escadas.


Nem Julian nem Emma dormiram bem naquela noite, embora cada um deles pensasse que era o único com problemas, e o outro provavelmente descansava bem.


— Acho que é hora de você conseguir sua primeira runa de verdade — disse Ty.
Apenas os três — Livvy, Ty e Kit — foram deixados no salão. Todo mundo tinha ido para a cama.
Kit estimou pela intensidade da escuridão lá fora que provavelmente era três ou quatro da manhã, mas ele não estava cansado. Poderia ser jet leg, ou o Portal leg, ou o que quer que eles chamassem; poderia ser o alívio contagioso dos outros que todos estivessem reunidos novamente. Poderia ser por ter tomado aproximadamente seiscentas xícaras de chá.
— Eu tive runas — Kit respondeu. — Você desenhou aquela iratze em mim.
Livvy pareceu curiosa, mas não perguntou. Ela estava esparramada em uma poltrona junto ao fogo, as pernas dobradas para um lado.
— Eu quis dizer uma permanente — disse Ty. — Esta é a primeira runa de verdade que todos nós conseguimos.
Ele ergueu a mão direita de dedos longos, virando as costas da mão para Kit, mostrando-lhe a runa graciosa em forma de olho que identificava todos os Caçadores de Sombras.
— Visão. Ela melhora o modo como vemos as coisas.
— Eu já posso ver o Mundo das Sombras — apontou Kit. Ele deu uma mordida em um biscoito de chocolate. Um dos poucos ótimos alimentos que a Inglaterra tinha para oferecer, na opinião dele.
— Você provavelmente não vê tudo o que poderia — disse Livvy, então levantou as mãos para indicar a neutralidade. — Mas você faz o que quiser.
— É a runa mais dolorosa de se conseguir — continuou Ty. — Mas vale a pena.
— Claro — disse Kit, pegando de forma inesperada outro biscoito (Livvy pegara escondido um pacote inteiro da despensa). — Parece bom.
Ele olhou com surpresa um momento depois, quando a sombra de Ty caiu sobre ele; Ty estava de pé atrás dele, estela pronta, os olhos brilhantes.
— Sua mão dominante é a sua direita, então erga essa para mim.
Surpreso, Kit engasgou com seu biscoito; Livvy sentou-se na posição vertical.
— Ty — ela chamou. — Não; ele não quer uma runa. Ele estava brincando.
— Eu... — Kit começou, mas Ty ficara da cor de marfim antigo e recuou, parecendo consternado. Seus olhos se afastaram de Kit. Livvy estava começando a se levantar da cadeira.
— Não, não, eu quero — Kit falou. — Eu gostaria da runa. Você está certo, é hora de ter uma de verdade.
O momento ficou em suspenso; Livvy estava meio fora de sua cadeira. Ty piscou rapidamente. Então ele sorriu, um pouco, e o coração de Kit retomou suas batidas normais.
— Sua mão direita, então — pediu Ty.
Kit esticou a mão, e Ty estava certo: a Marca doía. Parecia com o que ele imaginava o processo de fazer uma tatuagem: uma picada profunda. Quando Ty terminou, seus olhos estavam úmidos.
Kit flexionou os dedos, olhando sua mão. Ele teria aquilo para sempre, esse olho nas costas de sua mão, e que Ty colocara lá. Ele nunca poderia apagá-la ou mudá-la.
— Eu me pergunto — Ty falou, colocando sua estela novamente no cinto — onde poderia ser a casa de Malcolm na Cornualha.
— Eu posso te dizer exatamente onde fica — disse a garota de pé junto à lareira. — Fica em Polperro.
Kit olhou fixamente. Ele estava absolutamente seguro de que ela não estava de pé ali há um momento. Ela era loira, muito jovem e translúcida. Ele podia ver o papel de parede através dela.
Ele não pôde se impedir. Ele gritou.


Bridget levou Emma a um quarto que parecia ter sido escolhido anteriormente, e Emma logo descobriu por que: havia duas réguas de altura rabiscadas no gesso, do tipo que você fazia colocando alguém contra a parede e desenhando uma linha logo acima da cabeça, junto com a data. Uma delas marcava Will Herondale, a outra, James Carstairs.
Um quarto Carstairs. Emma abraçou os cotovelos e imaginou Jem: sua voz amável, seus olhos escuros. Ela sentiu falta dele.
Mas isso não era tudo; afinal, Jem e Will poderiam ter feito suas réguas de altura em qualquer sala. Na gaveta da mesinha de cabeceira, Emma encontrou um conjunto de fotografias antigas, a maioria datadas do início dos anos 1900.
Fotografias de um grupo de quatro meninos, em vários estágios de suas vidas. Eles pareciam um grupo animado. Dois deles — um loiro, um de cabelos escuros — estavam juntos em quase todas as fotos, com os braços cruzados sobre o ombro do outro, rindo. Havia uma garota com cabelo castanho que parecia bastante com Tessa, mas não era Tessa. E então ali estava Tessa, parecendo exatamente a mesma, com um homem maravilhosamente bonito no fim dos seus vinte anos. O famoso Will Herondale, Emma adivinhou. E havia uma garota, o cabelo vermelho escuro e pele morena, e um olhar sério. Havia uma espada dourada em suas mãos. Emma reconheceu instantaneamente, mesmo sem a inscrição na lâmina: eu sou Cortana, do mesmo aço e têmpera de Joyeuse e Durendal.
Cortana. Quem fosse a menina na fotografia, ela era uma Carstairs. Na parte de trás, alguém tinha rabiscado o que parecia um verso de um poema. A ferida é o lugar por onde a Luz entra em você.
Emma encarou aquilo por um longo tempo.


— Realmente não há necessidade de gritar — falou a garota mau-humoradamente. Seu sotaque era bem britânico. — Eu sou um fantasma, só isso. Você age como se não tivesse visto um antes.
— Eu não tinha — disse Kit, engolido.
Livvy estava de pé.
— Kit, o que está acontecendo? Com quem você está falando?
— Um fantasma — disse Ty. — Quem é, Kit?
— Meu nome é Jessamine — disse a menina. — E só porque você não me viu antes, não significa que eu não estivesse tentando chamar atenção.
— O nome dela é Jessamine — relatou Kit. — Ela diz que está tentando chamar a nossa atenção.
— Um fantasma — disse Ty, olhando para a lareira. Era claro que ele não podia ver Jessamine, mas também que ele tinha uma boa ideia de onde ela estava de pé. — Dizem que um fantasma salvou o Instituto de Londres durante a Guerra Maligna. Foi ela?
Kit escutava e repetia.
— Ela diz que sim. Ela parece bastante presunçosa.
Jessamine fuzilou-o com o olhar.
— Ela também diz que sabe onde Malcolm viveu — acrescentou Kit.
— Sabe? — Livvy se aproximou da mesa, pegando uma caneta e um caderno. — Ela nos contará?
— Polperro — disse Jessamine novamente. Ela era muito bonita, com cabelos loiros e olhos escuros. Kit se perguntou se era estranho pensar que um fantasma era atraente. — É uma pequena cidade ao sul da Cornualha. Malcolm costumava falar sobre os seus planos para a casa às vezes, quando estava no Instituto. — Ela acenou com uma mão translúcida. — Ele estava muito orgulhoso da casa, logo no topo de algumas cavernas famosas. É terrível que ele tenha sido um vilão. E pobre Arthur — acrescentou. — Eu costumava cuidar dele às vezes quando dormia. Ele tinha os pesadelos mais terríveis sobre a Terra das Fadas e seu irmão.
— O que ela está dizendo? — Livvy perguntou, a caneta sobre o papel.
— Polperro — disse Kit. — Sul da Cornualha. Ele estava muito orgulhoso da localização. Ela acabou de dizer que sente muito que ele tenha se tornado um bundão.
Livvy rabiscou o papel.
— Aposto que ela não disse bundão.
— Precisamos ir para a biblioteca — disse Ty. — Encontrar um atlas e os horários do trem.
— Pergunte-lhe algo para mim — pediu Livvy. — Por que ela não contou a Evelyn onde ficava a casa de Malcolm?
Depois de um momento, Kit respondeu:
— Ela diz que Evelyn não pode realmente ouvi-la. Ela muitas vezes apenas faz as coisas e finge que Jessamine disse.
— Mas ela sabe que Jessamine está aqui — apontou Ty. — Ela deve ser um espírito fraco, se nenhum de nós pode vê-la.
— Humf! — disse Jessamine. — De fato, o espírito fraco; é claro que nenhum de vocês tem prática observando os mortos-vivos. Eu fiz de tudo para chamar sua atenção, deveria bater em um de vocês na cabeça com uma tábua de Ouija.
— Eu apenas a vi — Kit falou. — E nunca pratiquei ser um Caçador de Sombras.
— Você é um Herondale — disse Jessamine. — Eles podem ver fantasmas.
— Herondale geralmente podem ver fantasmas — Ty falou ao mesmo tempo. — É por isso que eu queria que você tivesse a runa de Visão.
Kit girou para olhar para ele.
— Por que você não disse isso?
— Poderia não ter funcionado — Ty respondeu. — Eu não queria que você se sentisse mal se não desse certo.
— Bem, funcionou — disse Livvy. — Devemos acordar Julian e contar a ele.
— O garoto mais velho, de cabelos encaracolados? — perguntou Jessamine. — Ele está acordado. — Ela riu. — É bom ver esses adoráveis olhos Blackthorn novamente.
— Julian está acordado — disse Kit, decidindo não mencionar que o fantasma poderia ter uma queda por ele.
Ty se juntou a Livvy na porta.
— Você vem, Kit?
Kit balançou a cabeça, surpreendendo-se. Se tivessem perguntado a ele há algumas semanas se ele ficaria satisfeito por ficar sozinho com um fantasma, ele teria dito que não. E ele não estava satisfeito, exatamente, mas também não estava incomodado. Não havia nada de terrível sobre Jessamine. Ela parecia mais velha que ele, um pouco melancólica e não morta.
Ela estava, no entanto. Ela ficou à deriva do sopro de ar da porta ao se fechar, seus longos dedos brancos descansando na lareira.
— Você não precisa ficar — ela falou a Kit. — Provavelmente vou desaparecer em um minuto. Mesmo os fantasmas precisam descansar.
— Eu tenho uma pergunta — disse Kit. Ele engoliu em seco; agora que tinha chegado ao momento, sua garganta estava seca. — Você já viu meu pai? Ele morreu faz pouco tempo.
Seus olhos castanhos se encheram de piedade.
— Não. A maioria das pessoas não se torna fantasma, Christopher. Somente aqueles com negócios inacabados na terra, ou que morreram sentindo que devem algo a alguém.
— Meu pai nunca pensou que devia qualquer coisa — murmurou Kit.
— É melhor que eu não o tenha visto. Isso significa que ele continuou. Ele está em paz.
— Continuou para onde? — levantou a cabeça. — Ele está no céu? Quero dizer, parece tão improvável.
— Christopher! — Jessamine pareceu chocada.
— Sério. Você não o conheceu.
— Eu não sei o que vem depois da morte — disse Jessamine. — Tessa costumava vir me perguntar também. Ela queria saber onde Will estava. Mas ele não demorou, ele morreu feliz e em paz, e foi em frente. — Suas mãos reviraram impotentes. — Eu não sou como Caronte. Eu não sou o barqueiro. Não posso dizer o que fica do outro lado do rio.
— Pode ser horrível — disse Kit, cerrando o punho, sentindo sua nova runa. — Pode ser uma tortura eterna.
— Pode ser — disse Jessamine. Havia sabedoria em sua voz de fantasma. — Mas eu não penso assim.
Ela inclinou a cabeça. A luz do fogo reflatia seus cabelos loiros pálidos, e então ela se foi, e Kit estava sozinho na sala. Havia algo em sua mão, porém, algo que estalou quando ele se moveu.
Era um pedaço de papel dobrado.
Ele abriu, lendo rapidamente as palavras; elas haviam sido esboçadas por uma mão delicada e feminina: Se você roubar qualquer um dos livros da biblioteca, eu saberei, e você vai se arrepender.
Estava assinado com um grande floreio: Jessamine Lovelace.


Quando Livvy entrou no quarto de Julian, ele estava esticado na cama como um pedaço de torrada abandonado. Ele nem sequer se importou em trocar suas roupas ou deitar debaixo das cobertas.
— Jules? — chamou Livvy, pairando na entrada.
Ele se sentou rapidamente. Estava tentando resolver seus pensamentos, mas a visão de sua irmã mais nova — em seu quarto, tarde da noite — baniu tudo, menos um pânico imediato.
— Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
Livvy assentiu.
— É uma boa notícia, na verdade. Descobrimos onde fica a casa de Malcolm, a da Cornualha.
— O quê? — Julian passou as mãos pelos cabelos, esfregando os olhos para acordar. — Onde está Ty?
— Na biblioteca. — Ela sentou na ponta da cama de Julian. — Acontece que há um fantasma na casa. Jessamine. De qualquer forma, ela se lembrou de Malcolm e sabia onde ficava a sua casa. Ty está verificando, mas não há motivos para pensar que ela não estaria certa. Evelyn está falando com ela há dias, simplesmente pensamos que ela não existisse realmente, mas Kit...
— Pode ver fantasmas. Certo — completou Julian. Ele se sentiu mais alerta agora. — Certo. Eu irei amanhã, ver o que posso descobrir.
— E nós iremos a Blackthorn Hall — disse Livvy. Blackthorn Hall era uma das duas propriedades dos Blackthorn: tinham uma mansão em Idris e uma grande casa em Chiswick, no Tâmisa. Uma vez pertencera aos Lightwood, há muito tempo. — Ver há algum artigo, qualquer coisa sobre Annabel. Kieran não pode realmente deixar o Instituto, então Mark pode ficar aqui com ele e Cristina e eles podem fazer pesquisas na biblioteca.
— Não — disse Julian.
Livvy trincou a mandíbula.
— Jules...
— Você pode ir a Blackthorn Hall — disse ele. — Você certamente ganhou o direito, Ty e Kit, também. Mas Mark vai com vocês. Kieran pode divertir-se tecendo fios de margaridas ou fazendo uma balada.
A boca de Livvy se contraiu.
— Parece errado fazer piada com o Povo das Fadas.
— Nada mais justo com Kieran — disse Julian. — Ele nos irritou no passado.
— Eu acho que Cristina pode cuidar dele.
— Eu ia pedir a ela para vir a Cornualha — disse Julian.
— Você e Cristina? — Livvy pareceu desconcertada.
Julian não podia culpá-la. Era verdade que seu grupo caíra em padrões estabelecidos com base em idade e conhecimentos. Jules e Emma, ou Jules e Mark, faziam sentido. Jules e Cristina não.
— E Emma — Julian acrescentou, amaldiçoando silenciosamente. O pensamento de passar um tempo prolongado com Emma, especialmente agora, era terrível. Mas seria bizarro se ele fosse sem ela, sua parabatai. Não importava que Emma não fosse enfrentar isso bem. Sem chance.
Levar Cristina ajudaria, no entanto. Cristina seria um amortecedor. Ter que colocar alguém entre ele e Emma fazia com que ele se sentisse doente, mas a lembrança da maneira como ele a magoou na entrada o fez sentir-se mais doente.
Tinha sido como ver alguém conversando com a pessoa que mais amava no mundo; outra pessoa, machucando sua parabatai de propósito. Ele tinha sido capaz de fazer algo com seus sentimentos enquanto ela estava com Mark — enrolá-los e amassá-los, empurrá-los muito abaixo de sua pele e consciência. Ele os sentia lá, sangrando, como um tumor cortando seus órgãos internos, mas não conseguia vê-los.
Agora estavam lá de novo, colocados diante dele. Era terrível amar alguém que lhe era proibido. Terrível sentir algo que você nunca poderia falar, algo que era horrível para quase todos que você conhecia, algo que poderia destruir sua vida.
De certa forma, era mais aterrador saber que seus sentimentos não eram desejados. Quando ele pensou que Emma o amava de volta, não estava completamente sozinho em seu inferno. Quando ela estava com Mark, ele podia dizer a si mesmo que era Mark mantendo-os separados. Não que ela preferia estar com qualquer um além dele.
— Cristina sabe muito sobre o Volume Negro — disse Julian. Ele não tinha ideia se isso era verdade ou não. Graças, Livvy não prosseguiu. — Ela será útil.
— Blackthorn Hall, aqui vamos nós — disse Livvy, e deslizou para fora da cama. Ela parecia para Julian como uma menina de uma coleção de fotos antigas, em seu vestido azul de manga bufante. Mas talvez Livvy sempre parecesse para ele com uma garotinha. — Jules?
— Sim?
— Nós sabemos. Sabemos sobre Arthur, e o que estava errado com ele. Sabemos que você dirigiu o Instituto. Sabemos que você estava fazendo tudo isso desde a Guerra Maligna.
Julian sentiu como se a cama tivesse quebrado debaixo dele.
— Livia...
— Não estamos bravos — ela falou rapidamente. — Estou aqui porque queria falar com você sozinha, antes de Ty e Dru. Havia algo que eu queria te dizer.
Julian ainda tinha os dedos enrolados na colcha. Ele suspeitava que estava em algum tipo de choque.
Ele pensou em como esse momento poderia acontecer por tantos anos, e agora que estava acontecendo, ele não tinha ideia do que dizer.
— Por quê? — ele conseguiu dizer finalmente.
— Eu percebi uma coisa. Eu quero ser como você, Jules. Não neste segundo, não agora, mas algum dia. Eu quero cuidar de pessoas, outros Caçadores de Sombras, pessoas que precisam de mim. Eu quero dirigir um Instituto.
— Você seria boa nisso. Livvy... eu não lhe contei porque não podia. Não porque não confiei em você. Eu nem contei a Emma. Não há poucas semanas atrás. — Ela apenas sorriu para ele e apareceu ao lado da cama onde ele estava sentado. Ela se abaixou, e ele sentiu que ela o beijava suavemente na testa. Ele fechou os olhos, lembrando-se de quando ela era pequena o suficiente para ele levantá-la em seus braços, quando ela o seguia, levando suas mãos para ele: Julian, Julian, me carregue.
— Não há mais ninguém como quem eu prefira ser, além de você. Eu quero que você fique orgulhoso de mim.
Ele abriu os olhos a isso e a abraçou torpemente, com um braço, e então ela se afastou e bagunçou seus cabelos.
Ele reclamou, ela riu e se dirigiu para a porta, dizendo que estava exausta. Ela apagou a luz quando saiu da sala, deixando-o na escuridão.
Ele rolou para debaixo dos cobertores. Livvy sabia. Os irmãos sabiam. Eles sabiam, e não o odiavam. Era um peso que ele quase tinha se esquecido de que estava carregando.

16 comentários:

  1. todo esses retalhos de lembranças no instituto de Londres 💔💘💓

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  2. Will H. 😍😍😍😍 Amooo.

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  3. Que cena de irmãos mais linda *--*

    Livvy me lembra a Isabelle às vezes...

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  4. JB + LH <3
    Ansiosa por As últimas horas T-T
    Ana Santos

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  5. Q odio desses cara q c faz d vitima salvou a vida do cara e fica (T-T ele vai me odiar agr) Q ODIO q dá quando eles pensam q alguem vai odiar eles

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  7. Ain, eu tava com tantas saudades da Jesse <3
    Sem contar as lembranças do Will, Tessa e Jem <3

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  8. Alguém tinha rabiscado as iniciais JB + LH na pintura pela janela.

    Jesse Blackthorn e Lucie Herondale 💕

    Fotografias de um grupo de quatro meninos, em vários estágios de suas vidas. Eles pareciam um grupo animado. Dois deles — um loiro, um de cabelos escuros — estavam juntos em quase todas as fotos, com os braços cruzados sobre o ombro do outro, rindo.(James Herondale e Matthew Fairchild?) Havia uma garota com cabelo castanho que parecia bastante com Tessa, mas não era Tessa.(com certeza Lucie) E então ali estava Tessa, parecendo exatamente a mesma, com um homem maravilhosamente bonito no fim dos seus vinte anos. O famoso Will Herondale, Emma adivinhou. E havia uma garota, o cabelo vermelho escuro e pele morena, e um olhar sério. Havia uma espada dourada em suas mãos.(Cordelia Carstairs)

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  9. as coisas entre jules e emma só estão piorando.. eu não shippo eles muito como casal por que ja são parabatai mas to com medo de eles pararem de se falar ou coisa assim....EU AMO O JULES MAS ELE TA ME IRRITANDO JA

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  10. Jessie 😍😍
    Ass Laura Herondale

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  11. Alguém tinha rabiscado as iniciais JB + LH na pintura pela janela.

    JB+LH
    Jesse Blackthorn e Lucie Herondale

    Ahhh will ainda n superei a morte dle

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  12. Nossa dá uma saudade da Londres antiga <3

    Superei minha a antipatia pelo Kit, agora eu adoro as narrações dele.
    Que bom pra mim. Heuheuhe.

    Mas o Kieran, sem chance, não suporto ele.

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  13. Alguém sabe o que significa JB+LH

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  14. Alguém sabe o que significa JB+LH

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Boa leitura :)