20 de novembro de 2017

Capítulo 15

[Trecho do Guia do Mochileiro das Galáxias, p. 634.784, 5a seção. Verbete: Magrathea.)
Há muito tempo, nas brumas do passado, nos dias de glória do antigo Império Galáctico, a vida era selvagem, exuberante e livre de impostos.
Grandes espaçonaves navegavam entre sóis exóticos, em busca de aventuras e riquezas nos mais remotos confins do espaço galáctico. Naqueles tempos, os espíritos eram bravos, as apostas eram altas, os homens eram homens de verdade, as mulheres eram mulheres de verdade e as criaturinhas peludas de Alfa do Centauro eram criaturinhas peludas de Alfa do Centauro de verdade. E todos desafiavam terrores desconhecidos para realizarem feitos grandiosos e corajosamente conjugarem infinitivos jamais conjugados. Assim foi forjado o Império.
Naturalmente, muitos homens enriqueceram enormemente, mas isto era natural e não era problema nenhum, pois ninguém era realmente pobre, pelo menos ninguém importante. E para todos os mercadores mais ricos, como era inevitável, a vida tornou-se um tanto tediosa e insatisfatória, levando-os a pensar que isto era devido as limitações dos mundos em que eles haviam se estabelecido, nenhum deles era inteiramente satisfatório. Ou o clima não era muito bom no final da tarde, ou o dia era meia hora mais comprido do que devia ser, ou o oceano era precisamente da tonalidade errada de rosa.
Assim, surgiram circunstâncias favoráveis ao nascimento de uma espetacular indústria: a construção de planetas de luxo sob medida. A sede dessa indústria era o planeta Magrathea, cujos engenheiros hiperespaciais drenavam a matéria por buracos brancos no espaço para transformá-la em planetas de sonho, planetas de ouro, planetas de platina, planetas de borracha macia cheios de terremotos, todos eles encantadoramente feitos segundo as mais detalhadas especificações determinadas pelos homens mais ricos da Galáxia.
Mas tamanho foi o sucesso dessa indústria que o próprio planeta Magrathea logo se tornou o planeta mais rico de todos os tempos e o resto da Galáxia ficou reduzido à mais negra miséria. Assim, o sistema entrou em colapso, o Império entrou em colapso e um longo período de silêncio submergiu um bilhão de mundos famintos, um silêncio perturbado apenas pelos ruídos das canetas dos estudiosos, que passavam suas noites em claro elaborando pequenos tratados confiantes em que defendiam o valor de uma economia política planejada.
Magrathea desapareceu e logo se transformou numa lenda obscura...
Hoje em dia, em nossos tempos esclarecidos, é claro que ninguém acredita numa palavra disso.

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Boa leitura :)