15 de novembro de 2017

Capítulo 15

— Está parecendo que fomos invadidos. — O CEO dá um passo para trás, os braços cobertos por uma camisa de manga comprida estão cruzados no peito, e ele ri nervosamente. — Será que... todo mundo tem essa sensação?
— Ah, sim — diz ela. — Não é uma reação incomum.
Em volta dela, uns quinze adolescentes andam depressa pelo vasto saguão da Conaghy Seguros. Dois deles, Edun e Cam, estão saltando por cima das grades que correm ao longo da parede de vidro, para trás e para a frente, impulsionados habilmente por suas mãos largas, e os agasalhos brancos sobressaindo quando eles se levantam do chão de calcário. Outros tantos já entraram no átrio central, cambaleando e dando risadas estridentes à beira das passarelas perfeitamente alinhadas, apontando para baixo ao verem a enorme carpa koi nadando placidamente entre os poços angulares.
— São sempre... tão barulhentos assim? — pergunta o CEO.
A jovem Abiola está ao lado de Liv.
— Sim. Normalmente lhes damos dez minutos para se adaptarem ao espaço. Depois eles sossegam com uma rapidez surpreendente.
— E... nada é danificado?
— Nunca. — Liv observa Cam correr agilmente por um anteparo de madeira elevado, pulando na ponta do pé ao chegar ao fim. — Da lista de companhias anteriores que lhe dei, não tivemos nem um pedaço de carpete deslocado. — Ela vê a expressão incrédula dele. — É preciso lembrar que a criança britânica média mora numa casa com uma área de menos de setenta e seis metros quadrados. — Ela balança a cabeça positivamente. — E estas devem ter sido criadas em lugares bem menores. É inevitável que, quando soltas num lugar novo, elas fiquem com um pouco de coceira nos pés. Mas observe. O espaço funciona em volta delas.
Uma vez por mês, a Fundação David Halston, parte da Solberg Halston Arquitetos, organiza uma visita de crianças desfavorecidas a um prédio de interesse arquitetônico especial. David achava que não só se devia ensinar aos jovens sobre as construções em seu ambiente, mas também deixá-los soltos nesse ambiente, para usar o espaço do jeito deles, entender o efeito do espaço. Ele queria que os jovens aproveitassem isso. Liv ainda se lembra da primeira vez em que assistiu a um debate dele com um grupo de garotos bengaleses de Whitechapel.
“O que esta entrada lhes diz quando vocês passam por ela?”, perguntara David, apontando para a enorme estrutura.
“Dinheiro”, respondera um dos garotos, e todos riram.
“É exatamente isso”, afirmara David sorrindo, “que se espera que seja dito. Aqui é uma corretora de valores. Esta porta, com suas enormes colunas de mármore e sua inscrição dourada, está lhe dizendo: ‘Dê-nos seu dinheiro. E nós faremos MAIS DINHEIRO’.” E completou, do jeito mais enfático possível: “Nós Entendemos de Dinheiro.”
“Por isso, Nikhil, a sua porta tem três metros de altura, cara.”
Um dos garotos empurrara um outro e ambos caíram no chão, rindo.
Mas funcionara. Liv viu como funcionara. David os fizera refletir sobre o espaço em volta deles, se este espaço fazia com que se sentissem livres, raivosos ou tristes. Ele lhes mostrara como a luz e o espaço se moviam, quase como se fossem vivos, ao redor dos prédios mais estranhos.
“Eles têm que ver que há uma alternativa para as caixinhas em que moram”, disse ele. “Têm que entender que são afetados pelo ambiente em que vivem.”
Desde que David morrera, Liv, com o incentivo de Sven, assumira o papel dele, reunindo-se com diretores de empresas, persuadindo-os dos benefícios do projeto e fazendo-os aceitá-los. Isso a ajudara a passar os primeiros meses, quando sentira que sua existência não tinha muito sentido. Agora, essa era a única coisa que ela aguardava com ansiedade a cada mês.
— Moça? Posso tocar no peixe?
— Não. Nada de tocar, infelizmente. Estão todos aqui? — Ela espera enquanto Abiola fazia uma rápida contagem. — Então vamos começar. Só quero que vocês fiquem parados por dez segundos e me digam o que sentem neste espaço.
— Paz — diz um, depois que as risadas terminam.
— Por quê?
— Sei lá. É a água. E o barulho daquela cascata. É sossegado.
— O que mais os faz sentir paz?
— O céu. Não tem teto?
— Isso mesmo. Por que acha que esse pedaço não tem teto?
— Ficaram sem dinheiro. — Mais risadas.
— E quando sai, qual é a primeira coisa que você faz? Não, Dean, sei o que você tem a dizer. E não é isso.
— Respirar fundo. Respirar.
— Só que o nosso ar é cheio de merda. Este ar, eles devem passar por um filtro e coisa e tal.
— É aberto. Eles não podem filtrar.
— Mas eu respiro, sim. Bem fundo. Odeio estar trancado em lugares pequenos. Meu quarto não tem janela e tenho que dormir com a porta aberta senão parece que estou dentro de um caixão.
— O quarto do meu irmão não tem janela e minha mãe arranjou para ele um pôster com uma janela.
Eles começam a comparar os quartos. Ela gosta desses meninos e teme por eles, uma ou outra privação que jogam no seu caminho, o modo como revelam que vivem noventa e nove por cento de sua vida dentro de menos de cinco quilômetros quadrados, contidos por limites físicos ou tolhidos pelo medo genuíno das gangues rivais e de invadir uma área proibida.
É uma obra de caridade modesta. Uma oportunidade de fazer com que ela sinta que a vida de David não foi em vão; que as ideias dele continuam. Às vezes, surge um garoto muito inteligente, que de imediato se identifica com as ideias de David, e ela tenta ajudá-los de alguma forma, falar com seus professores ou conceder bolsas de estudo. Por duas vezes ela chegou a conhecer os pais de alguns deles. Um dos primeiros protégés de David está fazendo faculdade de arquitetura, com uma bolsa da fundação.
Mas para a maioria deles, trata-se apenas de uma breve janela para um mundo diferente, uma ou duas horas para praticar suas habilidades de parkour em escadarias, corrimões e átrios em mármores alheios, uma chance de ver Mammon por dentro, apesar dos olhares perplexos dos ricos que ela persuadiu a recebê-los.
— Um estudo feito alguns anos atrás mostrou que quando se reduz a quantidade de espaço por criança de dois e meio metros quadrados para um metro e meio, elas ficam mais agressivas e menos propensas a interagir umas com as outras. O que vocês acham disso?
Cam está balançando uma grade de proteção.
— Tenho que dividir um quarto com meu irmão e passo metade do tempo querendo bater nele. Ele vive invadindo o meu espaço.
— Então, em que lugares você se sente bem? Será que este lugar o faz se sentir bem?
— Ele me faz sentir como se eu não tivesse preocupações.
— Gosto das plantas. Dessas de folha grande.
— Ih, cara. Eu simplesmente ficaria sentado aqui olhando os peixes. Isso aqui é tranquilo.
Ouve-se um murmúrio de unanimidade.
— E aí, eu pescaria um e mandaria a minha mãe fritar umas batatas para comer com ele, né?
Eles todos riem. Liv olha para Abiola e, sem querer, começa a rir também.

* * *

— Correu tudo bem? — Sven se levanta da mesa para recebê-la. Ela lhe dá dois beijos no rosto, pousa a bolsa e se senta na cadeira Eames de couro branco em frente. Já é uma rotina ela ir à Solberg Halston Associados depois de cada excursão, para tomar um café e fazer o relatório. Está sempre mais cansada do que espera.
— Foi ótimo. Quando percebeu que eles não iam mergulhar nas piscinas do átrio dele, o Sr. Conaghy ficou bastante inspirado, acho. Ele ficou por perto para falar com eles. Acho que eu poderia até ter conseguido persuadi-lo a conceder um patrocínio.
— Ótimo. Boa notícia. Fique aí que vou pegar um café. Como você está? Como vai o seu parente gravemente doente?
Ela olha inexpressiva para ele.
— Sua tia.
O rubor lhe sobe às faces.
— Ah. Ah. Sim, vai indo, obrigada. Melhor.
Sven lhe entrega um café e seu olhar fixa o dela por mais um momento. Sua cadeira range baixinho quando ele se senta.
— Você tem que perdoar a Kristen. Ela simplesmente se deixa levar. Eu disse a ela que achava o homem um idiota.
— Ah. — Ela torce o nariz. — Isso era tão transparente?
— Não para Kristen. Ela não sabe que o Ebola em geral não se conserta por cirurgia. — Liv dá um suspiro e ele sorri. — Não esquente a cabeça com isso. Roger Folds é uma anta. Mas, pelo menos, foi bom ver você saindo de novo. — Ele tira os óculos. — É verdade. Você devia fazer isso com mais frequência.
— Bem, hum, eu tenho feito um pouco, ultimamente.
Ela enrubesce, pensando em sua noite com Paul McCafferty. Ela se pega voltando a isso sempre, desde então, preocupando-se com os acontecimentos da noite, como quando a língua procura um dente perdido. O que a fez agir daquela maneira? O que ele pensara dela? E depois, o arrepio inesperado, a impressão daquele beijo. Ela está gelada de vergonha, mas arde suavemente, sentindo o resíduo do beijo nos lábios. Tem a sensação de que uma parte sua há muito adormecida ganhou vida novamente. É um pouco desconcertante.
— Então, como vai o Goldstein?
— Agora não falta muito. Tivemos problemas com as novas regras de construção, mas estamos quase lá. Os Goldstein estão felizes, afinal de contas.
— Tem algumas fotos?
O Edifício Goldstein fora a encomenda dos sonhos de David: uma ampla estrutura orgânica em vidro estendendo-se ao redor de meia praça no limite da City. Ele passara dois anos do casamento trabalhando no prédio, persuadindo os ricos irmãos Goldstein a compartilhar sua visão ousada, a criar algo diferente dos castelos retos de concreto em volta deles, e ainda trabalhava nele quando morreu. Sven assumira o projeto e supervisionara todos os estágios do planejamento, e agora administrava sua construção propriamente dita. Fora um processo problemático, com atraso nos fretes de materiais da China, vidros errados, fundações inadequadas para o solo de Londres. Mas agora, finalmente, o prédio está subindo exatamente como planejado, cada painel de vidro brilhando como as escamas de uma serpente gigantesca.
Sven folheia uns documentos em sua mesa, pega uma fotografia e a entrega a Liv. Ela olha para a vasta estrutura, cercada de tapumes azuis, mas de alguma forma, ainda que indefinível, uma obra de David.
— Vai ser glorioso.
Ela não consegue deixar de sorrir.
— Eu queria lhe contar. Concordaram em colocar uma pequena placa no saguão em memória dele.
— É mesmo?
Sua garganta se fecha.
— É, Jerry Goldstein me contou na semana passada. Acharam que seria simpático lembrar David de alguma maneira. Gostavam muito dele.
Ela deixa essa ideia assentar.
— Que... que maravilha.
— Eu também achei. Você irá à inauguração?
— Eu adoraria.
— Ótimo. E como vai tudo o mais?
Ela toma um gole de café. Sempre se sente ligeiramente inibida de falar sobre sua vida com Sven. É como se sua falta de perspectiva pudesse desapontá-lo.
— Bem, parece que arranjei uma pessoa para morar comigo. O que é... interessante. Continuo correndo. O trabalho anda meio parado.
— Está ruim até que ponto?
Ela tenta sorrir.
— Com franqueza? Provavelmente eu estaria ganhando mais numa fábrica de Bangladesh exploradora de mão de obra.
Sven baixa o olhar para as mãos.
— Você... não pensou que poderia ser hora de começar a fazer outra coisa?
— Eu não estou preparada para mais nada.
Ela sabe há muito tempo que não foi a atitude mais sábia abrir mão do trabalho para acompanhar David durante o tempo em que foram casados. Enquanto suas amigas construíam carreiras, trabalhavam doze horas por dia no escritório, ela simplesmente viajava com ele, para Paris, Sydney, Barcelona. Ele não precisava que ela trabalhasse. Parecia burrice ficar longe dele o tempo todo.
E, depois, ela não seria boa em quase nada. Não por muito tempo.
— Tive que hipotecar a casa no ano passado. E agora não consigo manter os pagamentos em dia — diz ela como uma pecadora no confessionário.
Mas Sven não parece surpreso.
— Sabe... Se algum dia você quiser vendê-la, eu poderia facilmente arranjar um comprador.
— Vender?
— É uma casa grande para se morar. E... não sei. Você está muito isolada lá. Foi uma coisa maravilhosa para David ganhar experiência e um refúgio agradável para vocês dois, mas não acha que devia voltar para o meio das coisas de novo? Num lugar com um pouquinho mais de vida? Um bom apartamento em Notting Hill ou Clerkenwell, talvez.
— Não posso vender a casa de David.
— Por quê?
— Porque seria simplesmente errado.
Ele não diz o óbvio. Não precisa: está ali, no jeito que ele se recosta na cadeira e fecha a boca sobre as palavras.
— Bem — diz, debruçando-se na mesa. — Só estou pensando alto.
Atrás dele, há um enorme guindaste em movimento, vigas de ferro cortando o céu enquanto são transportadas em direção a um cavernoso espaço de cobertura do outro lado da rua. Quando a Solbert Halston Arquitetos se mudou para aquele lugar, cinco anos antes, a vista era uma sucessão de lojas malconservadas — casa de apostas, lavanderia automática, roupas usadas —, com ladrilhos encardidos, janelas cobertas por anos de fuligem e poeira acumulados. Agora só há um buraco. É possível que da próxima vez ela não reconheça a vista.
— Como vão as crianças? — pergunta ela de repente.
E Sven, com o tato de alguém que a conhece há anos, muda de assunto.

* * *

É entre uma reunião mensal e outra que Paul nota que Miriam, a secretária que compartilha com Janey, está sentada não numa cadeira, mas em duas grandes caixas de arquivos. Ela está numa má posição, com as pernas de lado, numa tentativa de manter a saia em um comprimento recatado, as costas apoiadas em outras caixas.
A certa altura, em meados dos anos 1990, a recuperação de obras de arte roubadas virara um grande negócio. Ninguém na Trace and Return Partnership parecia ter previsto isso, portanto, quinze anos depois, as reuniões são realizadas na sala cada vez mais apertada de Janey, os três espremidos entre pilhas bambas de pastas, caixas de faxes ou fotocópias, ou, se há clientes envolvidos, no café do bairro. Ele já disse muitas vezes que deviam procurar instalações novas. Todas as vezes, Janey olha para ele como se fosse a primeira vez que ouve aquilo, e diz, sim, sim, boa ideia. E nada faz a respeito.
— Miriam?
Paul se levanta, oferece sua cadeira, mas ela recusa.
— Estou bem — diz Miriam. — De verdade.
Ela fica balançando a cabeça, como se para se convencer disso.
— Você está caindo dentro de “Disputas Não Resolvidas: 1966” — diz Paul. Ele gostaria de acrescentar: E eu posso ver até a metade de sua saia.
— É sério. Estou bastante confortável.
— Miriam. Sério, eu posso simplesmente...
— Miriam está bem, Paul. Mesmo.
Janey ajusta os óculos no nariz.
— Ah, sim. Estou muito confortável aqui.
Ela continua balançando a cabeça até ele olhar para o outro lado. Isso faz com que se sinta mal.
— Ok, então. Em que ponto estamos?
Sean, o advogado, começa repassar seus próximos compromissos. Um contato com o governo espanhol para devolver um Velázquez roubado a um colecionador particular, duas notáveis recuperações de esculturas, uma possível alteração da legislação para ações de restituição. Paul se recosta na cadeira e pousa a esferográfica no bloco.
E ela está ali de novo, sorrindo melancólica. Sua gargalhada inesperada. A tristeza nas pequenas rugas em volta de seus olhos. Eu fazia um sexo maravilhoso quando estava bêbada.
Ele não quer confessar a si mesmo quão desapontado ficou quando ao sair do banheiro naquela manhã viu que ela simplesmente abrira a porta e fora embora. O edredom do seu filho estava esticado, e havia apenas uma ausência no lugar dela. Nada de bilhete. Nada de número de telefone. Nada.
— Ela é uma cliente habitual? — perguntou a Greg, como quem não quer nada, ao telefone naquela noite.
— Não. Eu nunca tinha visto. Me desculpe por ter jogado ela em cima de você daquele jeito, irmão.
— Tudo bem — disse ele.
Não se dera o trabalho de dizer a Greg para ficar de olho caso ela voltasse. Algo lhe dizia que ela não voltaria.
— Paul?
Ele se concentra de novo no bloco A4 à sua frente.
— Hum... Bem, como você sabe, conseguimos a devolução do quadro Nowicki. Vai ser posto em leilão. O que é, obviamente, hum, recompensador. — Ele finge não ver o olhar de alerta de Janey. — E este mês tenho uma reunião sobre a coleção de estatuetas da Bonhams, uma pista de um Lowry que foi roubado de uma mansão em Ayrshire e... — Ele folheia os papéis. — Esta obra francesa que foi saqueada na Primeira Guerra Mundial e apareceu na casa de um arquiteto em Londres. Imagino que, pelo valor, não vão abrir mão dela sem alguma briga. Mas parece bastante simples se conseguirmos comprovar que foi mesmo roubada. Sean, talvez você queira desencavar algum precedente legal em relação a objetos da Primeira Guerra Mundial.
Sean toma nota.
— Além disso, acabei de pegar os casos do mês passado que estou tocando e estou vendo com algumas seguradoras se elas querem se envolver com um novo registro de belas-artes.
— Outro? — diz Janey.
— É a Brigada de Antiguidades e Obras de Arte em menor escala — diz Paul. — As seguradoras estão ficando nervosas.
— Mas poderia ser uma boa notícia para nós. Em que pé estamos em relação ao Stubbs?
Ele dá uma batidinha na ponta da caneta.
— Parados.
— Sean?
— É um caso complicado. Andei buscando precedentes, mas pode ir a julgamento.
Janey faz que sim com a cabeça, depois ergue os olhos quando o celular de Paul toca.
— Me desculpem — diz ele e tira o aparelho do bolso. Ele examina o nome no visor. — Na verdade, se me dão licença, acho que devo atender essa ligação. Sherrie! Oi.
Paul sente os olhos de Janey queimando por trás dele quando passa cuidadosamente por cima das pernas dos colegas e entra na sua sala. Ele fecha a porta ao passar.
— Conseguiu?... O nome dela? Liv. Não. É só o que tenho... Tem? Pode descrever?... Sim, parece ela. Cabelo castanho médio, talvez loura, na altura do ombro. Usa rabo de cavalo?... Telefone, carteira, não sei o que mais. Nada de endereço?... Não, não tenho. Claro, Sherrie, você me faz um favor? Posso buscar a bolsa?
Ele olha pela janela.
— Sim. Sim. Eu tenho. Acabei de me dar conta... acho que já sei como devolvê-la a ela.

* * *

— Alô?
— É a Liv?
— Não.
Ele faz uma pausa.
— Hã... ela está?
— Você é oficial de justiça?
— Não.
— Bem, ela não está.
— Sabe a que horas volta?
— Tem certeza de que você não é oficial de justiça?
— Eu realmente não sou oficial de justiça. Estou com a bolsa dela.
— Você é ladrão de bolsa? Porque se estiver tentando fazer chantagem com ela, está perdendo seu tempo.
— Não sou ladrão de bolsa. Nem oficial de justiça. Sou um homem que encontrou a bolsa dela e está tentando devolvê-la.
Ele puxa o colarinho.
Há uma longa pausa.
— Como conseguiu este número?
— Está no meu telefone. Ela pegou emprestado quando tentou ligar para casa.
— Você estava com ela?
Ele sente um pequeno vislumbre de prazer. Hesita, tenta não parecer muito entusiasmado.
— Por quê? Ela falou em mim?
— Não. — Barulho de chaleira fervendo. — Eu só estava sendo intrometida. Olhe. Ela está só fazendo o passeio anual dela para fora de casa. Se você vier lá pelas quatro, ela já deverá estar de volta. Se não, eu recebo por ela.
— E você é?
Uma longa pausa de desconfiança.
— Eu sou a mulher que recebe bolsas roubadas para Liv.
— Certo. Então qual é o endereço?
— Você não sabe? — Faz-se outro silêncio. — Humm. Olha só, venha à esquina da rua Audley com a Parkers Lane, e alguém vai encontrá-lo lá...
— Não sou ladrão de bolsa.
— É o que você fica repetindo. Ligue quando estiver lá. — Dá para ele ouvir a mulher pensando. — Se ninguém atender você pode entregar a bolsa à mulher nas caixas de papelão perto da porta dos fundos. O nome dela é Fran. E se a gente decidir encontrar você, nada de gracinhas. A gente tem uma arma.
Antes que ele possa dizer algo, ela já desligou. Ele se senta à sua mesa, olhando para o telefone.
Janey entra em sua sala sem bater. Esse seu hábito já começa a aborrecê-lo. Faz com que ele ache que ela está tentando apanhá-lo no meio de alguma coisa.
— O quadro de Lefèvre. Já mandamos a carta de apresentação?
— Não. Ainda estou checando se ele já foi exposto.
— Temos o endereço dos donos atuais?
— A revista não mantém um registro disso. Mas tudo bem. Vou mandar a carta para o endereço comercial dele. Se é arquiteto, não deve ser difícil de ser encontrado. A empresa provavelmente está no nome dele.
— Ótimo. Acabei de receber uma mensagem dizendo que os autores da ação vêm a Londres dentro de algumas semanas e querem uma reunião. Vai ser maravilhoso se conseguirmos uma resposta inicial antes disso. Pode me dar umas datas?
— Vou dar.
Ele fica olhando fixo para a tela do computador, embora só tenha à sua frente o descanso de tela, até Janey se tocar e sair.

* * *

Mo está em casa. Ela tem um aspecto surpreendentemente discreto, mesmo com o preto retinto de seu cabelo e suas roupas. De vez em quando, Liv meio que acorda às seis horas e a ouve andando de mansinho, preparando-se para sair para o seu turno da manhã na casa de assistência social. Liv acha a presença de outra pessoa em casa estranhamente confortadora.
Mo cozinha diariamente ou traz para casa comida do restaurante, deixando pratos cobertos com papel alumínio na geladeira e bilhetes com instruções na mesa da cozinha. “Esquente por 40 mins a 180. Isso significaria ACENDER O FORNO” e “ACABE COM ISSO, POIS AMANHÃ VAI SAIR DO RECIPIENTE E NOS MATAR.” A casa já não cheira a cigarro. Liv desconfia que Mo fuma escondido no deque, mas não pergunta.
Elas entraram numa espécie de rotina. Liv se levanta, sai para suas caminhadas, os passos retumbando, a cabeça cheia de barulho. Parou de comprar café, então faz um chá para Fran, come sua torrada e se senta diante da escrivaninha tentando não se preocupar com a falta de trabalho. Mas agora descobre que meio que espera com ansiedade ouvir a chave na fechadura às três da tarde, quando Mo chega. Mo não se ofereceu para pagar o aluguel — e ela não sabe bem se alguma delas quer pensar se isso é um acerto formal —, mas, quando soube da bolsa de Liv, no dia seguinte apareceu um monte de dinheiro amassado na mesa da cozinha. Taxa de emergência do conselho, dizia o bilhete que acompanhava o dinheiro. Não comece a ficar toda esquisita com isso.
Liv não ficou nem remotamente esquisita com aquilo. Não tinha escolha.

* * *

Elas estão tomando chá e lendo um jornal gratuito quando o telefone toca. Mo ergue os olhos, como um cão de caça farejando o ar, olha o relógio e diz:
— Ah, eu sei quem é. — Liv volta a ler o jornal. — É o homem com a sua bolsa.
A caneca de Liv para no ar.
— O quê?
— Esqueci de contar. Ele ligou mais cedo. Mandei esperar na esquina que a gente descia.
— Que tipo de homem?
— Sei lá. Eu só me certifiquei de que ele não era oficial de justiça.
— Ai, Deus. Ele está mesmo com a bolsa? Acha que vai querer uma recompensa?
Ela procura nos bolsos. Tem quatro libras em moedas e uns trocados, que ela segura à sua frente.
— Não parece muito, parece?
— Fora os prazeres sexuais é mais ou menos tudo o que você tem.
— São quatro libras.
Elas entram no elevador, e Liv aperta o dinheiro na mão. Mo dá uma risadinha.
— O que foi?
— Eu só estava pensando. Seria engraçado se a gente roubasse a bolsa dele. Sabe, assaltasse ele. Garotas assaltantes. — Ela ri. — Uma vez roubei giz do correio. Tenho histórico.
Liv fica chocada.
— Ah, eu tinha sete anos — diz Mo séria.
Elas ficam caladas até o elevador chegar ao térreo. Quando a porta abre, Mo diz:
— A gente podia mesmo fugir. Ele não sabe seu endereço.
— Mo... — começa Liv, mas, ao sair da portaria, vê o homem na esquina, a cor do seu cabelo, o jeito que ele passa a mão no alto da cabeça, e dá meia-volta, com as faces em chamas.
— O que foi? Onde você vai?
— Não posso ir lá fora.
— Por quê? Estou vendo sua bolsa. Ele parece direito. Acho que não é um assaltante. Está de sapato. Nenhum assaltante usa sapato.
— Você pode ir pegá-la para mim? Eu não posso falar com ele.
— Por quê? — Mo a observa tentando entender. — Por que você ficou tão vermelha?
— Olhe, eu dormi na casa dele. E isso é constrangedor.
— Ai, meu Deus. Você deu para aquele homem?
— Não, não dei.
— Você deu. — Mo franze os olhos para ela. — Ou quis dar. VOCÊ QUIS DAR. Está muito perturbada.
— Mo... dá para você pegar a bolsa para mim, por favor? Diga a ele que não estou em casa. Por favor.
Antes de Mo poder dizer qualquer coisa, Liv está de volta ao elevador, apertando o botão para levá-la ao último andar, atordoada. Quando chega à Casa de Vidro, Liv encosta a testa na porta e escuta o coração retumbando nos ouvidos.
Tenho trinta anos, diz a si mesma.
Atrás dela, a porta do elevador se abre.
— Ai, meu Deus, obrigada, Mo, eu...
Paul McCafferty está diante dela.
— Onde está Mo? — pergunta Liv, bruscamente.
— É a garota que mora com você? Ela é... interessante.
Liv não consegue falar. Sua língua inchou e lhe encheu a boca. Ela leva a mão ao cabelo: está consciente de que não o lavou.
— Enfim — diz ele. — Oi.
— Olá.
Ele estende a mão.
— Sua bolsa. É a sua, certo?
— Não acredito que você a achou.
— Sou bom em achar coisas. É o meu trabalho.
— Ah. Sim. O lance do ex-policial. Bem, obrigada. Mesmo.
— Estava numa lixeira se lhe interessa saber. Com duas outras. Na frente da Biblioteca da University College. O zelador as achou e entregou. Acho que seus cartões e seu telefone se foram... A boa notícia é que o dinheiro ficou.
— O quê?
— É. Incrível. Duzentas libras. Eu conferi.
O alívio a inunda, como um banho quente.
— Mesmo? Deixaram o dinheiro? Não entendo.
— Nem eu. Acho que o dinheiro só pode ter caído da carteira quando a abriram.
Ela pega a bolsa e revira o conteúdo. Há duzentas libras soltas no fundo, com a sua escova de cabelo, o livro que ela estava lendo naquela manhã e um batom aberto.
— É a primeira vez que vejo uma coisa dessas. Mesmo assim, isso vai ajudar, não é? Menos uma preocupação.
Ele está sorrindo. Não um sorriso compreensivo, tipo ah, sua alcoólatra que deu em cima de mim, mas sim o sorriso de alguém que está muito satisfeito.
Ela se pega sorrindo também.
— Isso é... simplesmente incrível.
— Então posso receber minha recompensa de quatro libras? — Ela pisca para ele. — Mo me contou. Brincadeira. Mesmo. — Ele ri. — Mas... — Ele olha para os pés um instante. — Liv, você gostaria de sair qualquer hora? — Ela não responde de imediato e ele acrescenta: — Não precisa ser nada de mais. A gente podia não se embriagar. E não ir a um bar gay. Podíamos dar uma volta por aí, cada um com a sua chave de casa, sem deixar nossas bolsas serem roubadas.
— Tudo bem — diz ela devagar e percebe que está sorrindo de novo. — Gostaria, sim.

* * *

Paul McCafferty faz todo o trajeto de descida assobiando para si mesmo no elevador barulhento e instável. Quando chega ao térreo, pega o recibo do caixa eletrônico no bolso, amassa-o e o joga na lixeira mais próxima.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)