29 de novembro de 2017

Capítulo 15 - Amigos que se foram

Kit nunca tinha pensado que colocaria os pés num Instituto dos Caçadores de Sombras. Agora ele tinha comido e dormido em dois. Se isso continuasse, se tornaria um hábito.
O Instituto de Londres era exatamente como ele teria imaginado, se ele tivesse tentado imaginá-lo, o que ele certamente não tinha. Abrigado em uma enorme igreja de pedra antiga, faltava a modernidade reluzente de sua homóloga de Los Angeles. Parecia que não tinha sido revitalizado em oitenta anos — os quartos eram pintados em tons pastéis da era eduardiana, cores que desbotaram ao longo das décadas em cores claras e de aparência enlameada. A água quente era irregular, as camas eram grumosas e a poeira cobria as superfícies da maioria dos móveis.
Parecia, por sussurros e trechos de conversas que Kit ouvira, que o Instituto de Londres já fora habitado por mais gente. Fora atacado por Sebastian Morgenstern durante a Guerra Maligna, e a maioria dos antigos habitantes nunca retornara.
A diretora do Instituto parecia quase tão velha quanto o edifício. O nome dela era Evelyn Highsmith. Kit teve a sensação de que os Highsmith eram um grande sucesso na sociedade Caçadora de Sombras, embora não tanto quanto os Herondale. Evelyn era uma mulher alta, imperiosa, de cabelos brancos penteados como nos anos 80, que usava longos vestidos do estilo dos anos 40, que carregava uma bengala de cabeça de prata e, às vezes, conversava com pessoas que não estavam lá.
Apenas mais pessoa parecia viver no Instituto: a empregada de Evelyn, Bridget, que era tão velha quanto sua ama. Ela tinha cabelos vermelhos brilhantes e mil rugas finas. Estava sempre aparecendo em lugares inesperados, o que era inconveniente para Kit, que estava novamente atento a qualquer coisa que pudesse roubar. Não era uma missão que estivesse indo bem — a maior parte do que parecia ser valioso era o mobiliário, e ele não imaginava como sairia do Instituto carregando um aparador. As armas eram cuidadosamente trancadas, ele não sabia como venderia candelabros na rua e, apesar de terem valiosas edições de livros na enorme biblioteca, a maioria deles tinha sido rabiscada por um idiota chamado Will H.
A porta da sala de jantar se abriu e Diana entrou. Ela estava à distância de um braço: Kit descobriu que algumas lesões de Caçadores de Sombras, especialmente aquelas que envolviam veneno de demônio ou icor, curavam-se lentamente, apesar das runas.
Livvy animou-se ao ver sua tutora. A família se reunira para o jantar, que foi servido em uma longa mesa no meio de uma enorme sala de jantar vitoriana. Anjos já haviam sido pintados no teto, mas há muito tempo estavam completamente cobertos por poeira e as manchas de fumaça antigas.
— Você ouviu algo de Alec e Magnus?
Diana balançou a cabeça, sentando-se em frente a Livvy. Livvy usava um vestido azul que parecia ter sido roubado do figurino de uma série de época da BBC. Embora tivessem fugido do Instituto de LA sem nenhum dos seus pertences, descobriu-se que havia anos de roupas armazenadas em Londres, embora nenhuma delas parecesse ter sido comprada depois de 1940. Evelyn, Kit e os Blackthorn estavam sentados ao redor da mesa com uma estranha variedade de roupas: Ty e Kit em calças e camisas de mangas compridas, Tavvy com uma camisa de algodão e shorts listrados e Drusilla com um vestido de veludo preto que a encantava com o seu apelo gótico. Diana rejeitara todas as roupas e simplesmente lavara à mão seus jeans e camiseta.
— E a Clave? — perguntou Ty. — Você conversou com a Clave?
— Eles são úteis? — Kit murmurou em voz baixa. Ele não achou que ninguém o tivesse ouvido, mas alguém deve ter ouvido, porque Evelyn explodiu numa risada.
— Oh, Jessamine — ela falou para o ar. — Vamos, isso não é de bom gosto.
Os Blackthorn ergueram as sobrancelhas um para o outro. Ninguém comentou, porém, porque Bridget tinha aparecido da cozinha, carregando pratos fumegantes de carne e legumes, os quais foram cozidos até o ponto de parecerem insípidos.
— Eu simplesmente não vejo por que não podemos ir para casa — Dru falou com tristeza. — Se os Centuriões derrotaram todos os demônios marinhos como disseram...
— Isso não significa que Malcolm não voltará — Diana apontou. — E é sangue Blackthorn que ele quer. Você ficará dentro dessas paredes, e ponto final.
Kit havia desmaiado durante a coisa horrível que eles chamaram de uma viagem por Portal — o tremor terrível através de um nada gelado — então ele perdeu a cena que deve ter ocorrido quando eles apareceram no Instituto de Londres — todos menos Arthur — e Diana explicara que eles estavam lá para ficar.
Diana entrou em contato com a Clave para falar sobre as ameaças de Malcolm — mas Zara fizera isso primeiro. Aparentemente, ela assegurara ao Conselho que os Centuriões tinham tudo sob controle, que eram mais do que suficiente para conter Malcolm e seu exército, e a Clave ficou muito feliz em responder a ela.
E como se a certeza de Zara tivesse efetivamente feito um milagre, Malcolm não voltou a aparecer, e nenhum demônio visitou a costa ocidental. Dois dias se passaram, e não houve notícias de desastre.
— Odeio que Zara e Manuel estejam no Instituto sem nós para vigiá-los — Livvy falou deixando seu garfo no prato. — Quanto mais tempo eles ficarem lá, mais fácil será para a Tropa tomá-lo.
— Ridículo — respondeu Evelyn. — Arthur dirige o Instituto. Não seja paranoica, garota. — Ela falou friamente.
Livvy se encolheu. Embora todos, mesmo Dru e Tavvy, finalmente tivessem descoberto sobre toda a situação — incluindo a doença de Arthur e a verdade sobre onde Julian e os outros realmente estavam — havia sido decidido que era melhor que Evelyn não soubesse. Ela não era aliada; não havia nenhuma razão para que estivesse ao lado deles, embora ela parecesse claramente desinteressada na política do Conselho. Na verdade, na maioria das vezes, ela não pareceu ouvi-los.
— De acordo com Zara, Arthur esteve trancado em seu escritório com a porta fechada desde que nós fomos embora — Diana falou.
— Eu também estaria, se tivesse que aguentar Zara — Dru observou.
— Ainda não vejo por que Arthur não veio com vocês — disse Evelyn. — Ele costumava viver neste Instituto. Seria de se pensar que ele não ligaria em fazer uma visita.
— Olhe o lado positivo, Livvy — disse Diana. — Quando Julian e os outros retornarem de onde estão, provavelmente irão direto para Los Angeles. Você gostaria que eles encontrassem um Instituto vazio?
Livvy cutucou a comida e não disse nada. Ela estava pálida, e haviam sombras roxas sob seus olhos. Kit descera o corredor na noite seguinte a que chegaram a Londres, imaginando se ela gostaria de vê-lo, mas a ouviu chorando do outro lado da porta quando colocou a mão na maçaneta. Ele se virou e foi embora, um sentimento estranho e apertado em seu coração. Ninguém chorando assim gostaria que alguém se aproximasse, especialmente não alguém como ele.
Ele sentiu o mesmo sentimento de aperto quando olhou para o lado de Ty e lembrou-se de como o outro menino tinha curado sua mão. Quão boa a tinha sido a sensação da pele de Ty contra a sua.
Ty estava tenso à sua maneira — a mudança para o Instituto de Londres constituíra uma grande ruptura em sua rotina diária e isso claramente o incomodava. Ele passava muito tempo na sala de treinamento, que era quase idêntica em sua estrutura com sua homóloga de Los Angeles. Às vezes, quando estava especialmente estressado, Livvy pegava as mãos dele e as esfregava com naturalidade. A pressão parecia acalmá-lo. Ainda assim, no momento Ty estava tenso e distraído, como se tivesse se escondido em si mesmo de algum jeito.
— Nós poderíamos ir à Baker Street — disse Kit, sem sequer saber que diria isso. — Estamos em Londres.
Ty olhou para ele, seus olhos cinzentos se acalmando. Ele estivera mexendo a comida: Livvy dissera a Kit que Ty demorava para se acostumar a novos alimentos e novos sabores. Por enquanto, ele quase não estava comendo batatas.
— Para 221B Baker Street?
— Quando tudo com Malcolm estiver esclarecido — interrompeu Diana. — Sem Blackthorn fora do Instituto até então, e nem Herondale, tampouco. Não gostei do modo como Malcolm o encarava, Kit. — Ela levantou-se. — Eu estarei no salão. Preciso enviar uma mensagem de fogo.
Quando a porta se fechou atrás dela, Tavvy — que estava olhando o ar ao lado de sua cadeira estranhamente, Kit percebeu alarmado — riu. Todos se voltaram para olhá-lo, surpresos. O Blackthorn mais novo não estava rindo muito ultimamente.
Ele supôs que não culpava o garoto. Julian era tudo o que Tavvy tinha no sentido de um pai. Kit sabia a falta que sentia do próprio pai, e ele não tinha sete anos de idade.
— Jessie — Evelyn repreendeu, e por um momento Kit realmente olhou em volta, como se a pessoa a quem ela se dirigia estivesse na sala com eles. — Deixe a criança em paz. Ele nem a conhece. — Ela olhou em volta da mesa. — Todos pensam que são bons com as crianças. Poucos sabem quando não são. — Ela pegou uma garfada de cenoura. — Eu não sou — ela continuou, colocando a comida de lado. — Nunca suportei crianças.
Kit revirou os olhos. Tavvy olhou para Evelyn como se estivesse pensando em jogar um prato nela.
— Você também pode levar Tavvy para a cama, Dru — disse Livvy apressadamente. — Acho que acabamos com o jantar aqui.
— Claro, por que não? Não é como se eu não tivesse procurado roupas para ele esta manhã nem o acordado ontem à noite. Eu também poderia ser uma empregada — Dru disparou, então tirou Tavvy da cadeira e saiu do cômodo, arrastando seu irmão mais novo atrás de si.
Livvy colocou a cabeça nas mãos. Ty olhou para ela e disse:
— Você não precisa cuidar de todos, sabe.
Livvy fungou e olhou de lado para o gêmeo.
— É só que sem Jules aqui, eu sou a mais velha. De qualquer maneira.
— Diana é a mais velha — disse Ty. Ninguém mencionou Evelyn, que colocara um par de óculos no nariz e lia um jornal.
— Mas ela tem muito mais a fazer do que cuidar de nós. Quero dizer, cuidar das pequenas coisas — disse Livvy. — Nunca pensei nisso antes, todas as coisas que Julian faz para nós, mas é muito. Ele sempre mantém todos unidos e cuida de nós, e nem percebi como...
Houve um som como uma explosão de sobrecarga. O rosto de Ty ficou tenso. Estava claro que ele ouvia um som que ele já ouvido antes.
— Livvy — disse Ty. — O Salão dos Acordos.
O barulho soava menos como uma explosão agora, e mais como trovão, um trovão apressado que tomava conta do céu. Um som como nuvens sendo rasgadas como um tecido.
Dru entrou correndo na sala, Tavvy logo atrás dela.
— São eles — disse ela. — Vocês não vão acreditar, mas venham logo ver. Eu os vi voar, subir no telhado...
— Quem? — Livvy estava de pé; todos estavam, exceto Evelyn, que ainda lia o jornal.
— Quem está no telhado, Dru?
Dru pegou Tavvy em seus braços.
Todos — ela disse, seus olhos brilhando.


O telhado do Instituto era de pedra cinza, estendendo-se planamente até uma grade de ferro forjado, cujo topo tinha as formas de lírios de ferro. À distância, Kit podia ver a cúpula cintilante da Catedral de St. Paul, familiar de mil filmes e programas de TV.
As nuvens eram pesadas, cor de ferro, cercando o alto do Instituto como nuvens ao redor de uma montanha. Kit mal podia ver as ruas abaixo. O ar estava acre com trovões de verão.
Todos derramaram-se no telhado, todos menos Evelyn e Bridget. Diana estava ali, o braço cuidadosamente posicionado. Os olhos cinzentos de Ty estavam fixos no céu.
— Lá — disse Dru, apontando. — Estão vendo?
Enquanto Kit olhava, o glamour se afastou. De repente, foi como se uma pintura ou um filme tivessem ganhado vida. Só que filmes não lhe causavam isso, esse emaranhado visceral de admiração e medo. Os filmes não lhe traziam o cheiro de magia no ar, estalando como um raio, ou as sombras lançadas por uma série de criaturas incrivelmente elevadas contra o céu acima.
Eles não lhe traziam a luz das estrelas nos cabelos loiros de uma menina enquanto ela gritava de excitação e felicidade montada em um cavalo voador e pousava em um telhado em Londres. Eles não lhe traziam a aparência dos rostos dos Blackthorn quando viram seus irmãos e amigos voltarem para eles.
Livvy saltou para Julian, lançando os braços ao redor do pescoço dele. Mark se soltou de seu cavalo e desceu para descobrir-se sendo abraçado por Dru e Tavvy. Ty foi mais discreto, mas com a mesma felicidade incandescente no rosto. Ele esperou que Livvy terminasse de quase estrangular seu irmão e depois se aproximou para pegar as mãos de Julian.
E Julian, que Kit sempre pensou como um modelo quase assustador de controle e distância, agarrou seu irmão e puxou-o para perto, suas mãos apertando-se na parte de trás da camisa de Ty. Seus olhos estavam fechados, e Kit teve que afastar os olhos da expressão do rosto dele.
Ele nunca teve ninguém além do pai, e tinha certeza apesar de tudo que seu pai nunca o amara assim.
Mark se aproximou de seus irmãos e Ty se virou para olhar para ele. Kit o ouviu dizer:
— Eu não tinha certeza se você voltaria.
Mark colocou a mão no ombro do irmão e falou bruscamente.
— Sempre voltarei para você, Tiberius. Me desculpe se alguma vez o levei a acreditar em outra coisa.
Havia outros dois recém-chegados entre os Blackthorn que Kit não reconhecia: um garoto com cabelos negro-azulados que ondulavam em torno de seu rosto anguloso e um homem enorme e maciço que usava um capacete alarmante com chifres esculpidos saindo pelas laterais. Ambos continuavam montados em seus cavalos silenciosamente, sem desmontar. Uma escolta fada, talvez, para manter os outros em segurança? Mas como os Blackthorn e a Emma conseguiram garantir um favor assim?
Então, novamente, se alguém conseguisse garantir tal coisa, seria Julian Blackthorn. Como o pai de Kit costumava dizer sobre vários criminosos, Julian era o tipo de pessoa que poderia descer ao inferno e sair com o próprio diabo devendo-lhe um favor.
Diana abraçava Emma e depois Cristina, lágrimas brilhando em seu rosto. Sentindo-se estranhamente deslocado na reunião, Kit abriu caminho até a beira, na grade. As nuvens tinham desaparecido, e ele podia ver a Millenium Bridge dali, iluminada com as cores do arco-íris. Um trem chacoalhou sobre outra ponte, lançando seu reflexo na água.
— Quem é você? — perguntou uma voz em seu cotovelo.
Kit começou a se virar. Era uma das duas fadas que ele havia notado anteriormente, o carrancudo. Seus cabelos escuros, de perto, pareciam menos pretos e mais como uma mistura de verdes e azuis profundos. Ele afastou uma mecha de cabelo do rosto, franzindo a testa. Ele tinha uma boca cheia, ligeiramente desigual, mas muito mais interessantes eram seus olhos. Como os de Mark, eles tinham duas cores diferentes. Um era a prata de um escudo polido; o outro era um preto tão escuro que sua pupila era quase invisível.
— Kit — disse Kit.
O menino com o cabelo da cor do oceano assentiu.
— Eu sou Kieran — disse ele. — Kieran Caçador.
Caçador não era realmente um nome de fada, Kit sabia. O Povo das Fadas geralmente não dava os seus nomes verdadeiros, já que nomes possuíam poder; Caçador poderia denotar o que ele era, da maneira como os nixies se chamavam Waterborn, nascidos da água. Kieran era da Caçada Selvagem.
— Hã — disse Kit, pensando na Paz Fria. — Você é um prisioneiro?
— Não — disse a fada. — Eu sou o amante de Mark.
Oh pensou Kit. A pessoa por quem ele entrou na Terra das Fadas para salvar. Ele tentou sufocar um olhar de diversão pela forma como as fadas falavam. Intelectualmente, ele sabia que a palavra “amante” era parte do discurso tradicional, mas ele não podia se impedir: era de Los Angeles e, no que lhe dizia respeito, Kieran acabara de dizer: Olá, eu faço sexo com Mark Blackthorn. E você?
— Pensei que Mark estivesse namorando Emma — disse Kit.
Kieran parecia confuso. Alguns dos cachos de seu cabelo pareceram escurecer, ou talvez fosse um truque da luz.
— Acho que você deve estar enganado.
Kit ergueu uma sobrancelha. Quão íntimo este cara era Mark, afinal? Talvez eles tivessem apenas uma aventura sem sentido. Embora o motivo pelo qual Mark arrastara metade de sua família para a Terra das Fadas para salvá-lo fosse um mistério. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Kieran virou a cabeça, sua atenção se desviando.
— Essa deve ser a linda Diana — ele falou, gesticulando para a tutora dos Blackthorn. — Gwyn ficou muito feliz com ela.
— Gwyn é o cara grande? Capacete com chifres? — perguntou Kit.
Kieran assentiu, observando como Gwyn desmontava de seu cavalo para falar com Diana, que parecia muito pequena contra a fada, embora fosse uma mulher alta.
— A Providência nos uniu novamente — disse Gwyn.
— Eu não acredito na providência — disse Diana. Ela parecia estranha, um pouco alarmada. Ela segurava seu braço ferido contra si. — Ou um Céu intervencionista.
— Há mais coisas no céu e na terra — disse Gwyn — do que sonha sua vã filosofia.
Kit bufou. Diana parecia pasma.
— Você está citando Shakespeare? Eu teria pensado pelo menos que seria Sonho de uma noite de verão.
— Fadas não suportam Sonho de uma noite de verão — murmurou Kieran. — Está tudo errado.
Os lábios de Gwyn se contraíram nos cantos.
— Falando em sonhos — disse ele. — Você esteve nos meus, e muitas vezes.
Diana parecia atordoada. Os Blackthorn acalmaram sua reunião ruidosa e observavam Gwyn com uma curiosidade descarada. Julian até mesmo sorria um pouco; ele segurava Tavvy, que tinha os braços enrolados no pescoço de seu irmão como um coala.
— Eu gostaria que você me encontrasse, formalmente, para que eu possa cortejá-la — disse Gwyn. Suas grandes mãos se moviam sem rumo ao seu lado, e Kit percebeu com um choque que ele estava nervoso — aquele homem grande e musculoso, o líder da Caçada Selvagem, nervoso. — Podemos juntos matar um gigante de gelo ou devorar um veado.
— Eu não quero fazer nenhuma dessas coisas — Diana falou depois de um momento.
Gwyn pareceu cair de uma altura enorme.
— Mas vou sair com você — disse ela, corando. — De preferência a um bom restaurante. Traga flores, e não o capacete.
Os Blackthorn explodiram em um aplauso risonho. Kit apoiou-se contra a grade com Kieran, que balançava a cabeça com desconfiança.
— E assim foi o líder orgulhoso da Caçada derrubado pelo amor — disse ele. — Espero que haja uma balada sobre isso algum dia.
Kit observou Gwyn, que ignorava os aplausos enquanto preparava seus cavalos para sair.
— Você não se parece com os outros Blackthorn — Kieran falou depois de um momento. — Seus olhos são azuis, mas não como o azul do oceano. Mais como de um céu comum.
Kit sentiu-se obscuramente insultado.
— Eu não sou um Blackthorn. Sou um Herondale. Christopher Herondale.
Ele esperou. O nome Herondale parecia produzir uma reação explosiva na maioria dos habitantes do mundo sobrenatural. O menino com o cabelo do oceano, porém, não piscou um olho.
— Então o que você está fazendo aqui, se não é da família? — ele perguntou.
Kit deu de ombros.
— Eu não sei. Eu não sou parte dela, com certeza.
Kieran sorriu com o canto da boca, um sorriso das fadas.
— Bom, somos dois então.


Eles finalmente se reuniram na sala de estar, o lugar mais quente da casa. Evelyn já estava lá, murmurando pelo fogo ardendo na lareira; mesmo que fosse final do verão, Londres tinha um clima úmido e gelado. Bridget trouxe sanduiches — atum e milho doce, frango e bacon — e os recém-chegados caíram neles como se estivessem morrendo de fome. Julian teve que comer com a mão esquerda, equilibrando Tavvy em seu colo com a outra.
A sala havia envelhecido melhor do que muitos dos outros cômodos do Instituto. Tinha um papel de parede florido alegre, apenas um pouco descolorido, e um lindo mobiliário antigo que alguém tinha claramente escolhido com cuidado — uma encantadora mesa com rodinhas, uma escrivaninha delicada, poltronas de veludo e sofás agrupados em torno da lareira. Até mesmo a tela que protegia o fogo era feita de ferro forjado delicado, modelado com garças de asas abertas, e quando o fogo brilhava através dela, a sombra dos pássaros era lançada contra a parede como se estivessem voando.
Kieran não parecia emocionado com os sanduiches. Ele cutucou-os com desconfiança e depois os abriu, comendo apenas os tomates, enquanto Julian explicava o que acontecera na Terra das Fadas: sua jornada para a Corte Unseelie, o encontro com a Rainha, a praga na Terra Unseelie.
— Havia lugares queimados, brancos como cinzas, como a superfície da lua — falou Mark, com os olhos escuros com angústia. Kit tentou o seu melhor para aguentar a história, mas foi como tentar montar uma montanha-russa com freios defeituosos — frases como “cristal de visão”, “campeão Unseelie” e “Volume Negro dos Mortos” continuaram a distraí-lo do caminho.
— Quanto tempo passou para eles? — ele sussurrou finalmente para Ty, que estava esmagado ao lado dele e de Livvy em um sofazinho pequeno demais para os três.
— Parece alguns dias menos do que passou para nós — disse Ty. — Algum tempo de diferença, mas não muito.
— O colar de Cristina parece ter funcionado — Kit disse em voz baixa. — E quem é Annabel?
— Ela era uma Blackthorn — Ty respondeu. — Ela morreu, mas Malcolm a trouxe de volta.
— Dos mortos? Isso é... isso é necromancia.
— Malcolm era um necromante — apontou Ty.
— Cale a boca — Livvy disse a Kit, que estava perdido em pensamentos. A necromancia não era apenas uma arte proibida no Mercado das Sombras, era um tópico proibido. O castigo para ressuscitar os mortos era a morte. Se os Caçadores de Sombras não aplicassem o castigo, outros Seres do Submundo o fariam, e a maneira como se morria não seria bonita.
Trazer de volta os mortos, Johnny Rook sempre disse, entortava o tecido da vida, da mesma forma que tornar os humanos imortais. Provoque a morte, e a morte ficaria. Alguém poderia trazer de volta os mortos e dar certo? Kit havia lhe perguntado uma vez. Mesmo o mago mais poderoso?
Deus, Johnny havia dito após uma longa pausa. Deus poderia fazer isso. E aqueles que ressuscitam os mortos podem achar que são Deus, mas logo descobrirão a mentira em que acreditaram.
— O diretor do Instituto de Los Angeles está morto? — exclamou Evelyn, deixando cair os restos de seu sanduíche em uma provavelmente cara mesa antiga. Certo, na verdade, ele não a culpava por sua surpresa. Os Blackthorn não agiram como uma família triste pela morte de um tio amado. Em vez disso, pareciam atordoados e intrigados. Mas então, eles se comportaram em torno de Arthur quase como se fossem estranhos.
— É por isso que ele queria ficar para trás em Los Angeles? — Livvy perguntou, suas bochechas vermelhas. — Assim ele poderia se sacrificar... por nós?
— Pelo Anjo. — Diana ergueu a mão contra o peito. — Ele não respondeu a nenhuma das minhas mensagens, mas isso não era incomum. Ainda assim, para Zara não ter percebido...
— Talvez ela tenha percebido, talvez não — disse Livvy. — Mas é melhor para seus planos que ele esteja fora do caminho.
— Que planos? — perguntou Cristina. — O que você quer dizer, com os planos de Zara?
Era hora de outra longa explicação, desta vez das coisas que Kit já sabia. Evelyn adormeceu na frente da lareira e roncava. Kit se perguntou o quanto valia a cabeça de prata de sua bengala. Seria prata maciça ou simplesmente banhada?
— Pelo Anjo — disse Cristina, quando a explicação foi feita.
Julian não disse nada; Emma disse algo que não se devia repetir. Mark inclinou-se para frente, com um rubor nas bochechas.
— Deixe-me entender. Zara e seu pai querem dirigir o Instituto de Los Angeles para que possam forçar seus pensamentos sobre Seres do Submundo. As novas leis provavelmente se aplicariam a mim e a Helen. Certamente para Magnus, Catarina, todos os Seres do Submundo que conhecemos, não importa quão leal.
— Eu conheço o grupo deles — Diana falou. — Eles não acreditam em Seres do Submundo leais.
— Que grupo é esse? — Emma perguntou.
— A Tropa — respondeu Diana. — Eles são uma facção bem conhecida no Conselho. Como todos os grupos que existem principalmente para odiar, eles acreditam que falam por uma maioria silenciosa, que todos desprezam os Seres do Submundo como eles. Acreditam que a oposição à Paz Fria é uma covardia moral, ou, na melhor das hipóteses, queixam-se daqueles que não se sentem convencidos com ela.
— Não convencidos? — ecoou Kieran. Não havia expressão em sua voz, apenas as palavras, pairando na sala.
— Eles não são inteligentes — disse Diana. — Mas são barulhentos e cruéis, e assustaram muitas pessoas melhores a ficarem em silêncio. Eles não contam com um diretor de Instituto entre eles, mas se conseguirem...
— Será ruim — completou Emma. — Antes, eles teriam que provar que Arthur não estava apto a dirigir um Instituto. Agora ele está morto. A vaga está aberta. Tudo o que eles têm a fazer é esperar a próxima reunião do Conselho e oferecer o seu candidato.
— E eles estão em um bom lugar para isso — Diana levantou-se e começou a andar. — A Clave está extremamente impressionada com Zara Dearborn. Acreditam que ela e seus Centuriões destruíram a ameaça dos demônios marinhos sozinhos.
— Os demônios desapareceram porque Malcolm morreu. Novamente, e desta vez, espero que seja definitiva — Livvy disse furiosamente. — Nada disso é por causa de Zara. Ela está recolhendo os louros por algo que Arthur fez!
— E não há nada que possamos fazer sobre isso — disse Julian. — Não ainda. Eles descobrirão que Arthur está morto ou desaparecido, mas mesmo o abandono de seu posto seria motivo para substituí-lo. E não podemos dizer como ou porque morreu.
— Porque a única razão pela qual sabemos é graças à Rainha Seelie — Emma falou em voz baixa, olhando Evelyn, que dormia.
— Annabel é a chave para encontrarmos o Volume Negro — disse Julian. — Precisamos ser aqueles que a encontrarão. Se a Clave encontrá-la primeiro, nunca obteremos o livro para a Rainha.
— Quando concordamos com o plano da rainha, no entanto, não sabíamos da Tropa — disse Mark, preocupado. — E se não houver tempo para encontrar o livro antes que a Tropa faça seu movimento?
— Nós teremos que encontrar o livro mais rápido — disse Julian. — Não podemos enfrentar os Dearborn em um Conselho aberto. O que Zara fez de errado, de acordo com a Clave? Arthur não era qualificado para dirigir um Instituto. Muitos membros do Conselho odeiam os Seres do Submundo. Ela quer dirigir um Instituto para poder passar uma lei ruim. Ela não seria a primeira. Ela não está quebrando as regras. Nós, sim.
Kit sentiu um leve tremor subir pela espinha. Por um momento, Julian pareceu ser o pai de Kit. O mundo não é como você quer que seja. Ele é do jeito que é.
— Então, nós deveríamos fingir que não sabemos o que Zara está fazendo? — Emma franziu a testa.
— Não — disse Diana. — Eu vou para Idris. Falarei com a Consulesa.
Todos olharam para ela de olhos arregalados, exceto Julian, que não parecia surpreso, e Kieran, que ainda olhava para sua comida.
— O que Zara está propondo significaria que a filha de Jia, casada com um Ser do Submundo, seria registrada. Jia sabe a que isso levaria. Sei que ela se encontraria comigo. Se eu puder argumentar com ela...
— Ela permitiu a Paz Fria — apontou Kieran.
— Ela não tinha escolha — disse Diana. — Se ela tivesse sido avisada do que estava por vir, eu gostaria de pensar que teria sido diferente. Desta vez, ela terá esse aviso. Além disso, temos algo para oferecer a ela agora.
— Certo — disse Julian, gesticulando para Kieran. — O fim da Paz Fria. Um mensageiro das fadas da Rainha de Seelie.
Evelyn, que dormia junto ao fogo, acordou.
— Isso é suficiente. — Ela olhou cortantemente para Kieran. — Posso aceitar um Blackthorn nesta casa, mesmo um com uma linhagem questionável. Eu sempre aceitarei um Blackthorn. Mas uma fada de sangue puro? Ouvindo sobre negócios Nephilim? Não permitirei.
Kieran pareceu assustado. Então ele se levantou. Mark também começou a se erguer. Julian ficou exatamente onde estava.
— Mas Kieran faz parte do nosso plano.
— Conversas e bobagens. Bridget! — Ela chamou, e a empregada, que claramente espreitava do corredor, enfiou a cabeça para dentro. — Por favor, guie o príncipe para um dos quartos de hóspedes. Eu terei sua palavra, fada, que você não partirá até que seja permitido.
Kieran olhou para Cristina.
— Qual é o seu desejo, minha senhora?
Kit ficou desconcertado. Por que Kieran, um príncipe da nobreza, receberia ordens de Cristina?
Ela corou.
— Você não precisa jurar que não vai sair do quarto — ela falou. — Eu confio em você.
— Confia? — Emma perguntou, parecendo fascinada, quando Kieran fez uma mesura rígida e partiu.
O murmúrio de Bridget podia ser ouvido por todos enquanto ela conduzia Kieran para fora da sala.
— Fadas no Instituto — ela murmurou. — Fantasmas são uma coisa, feiticeiros são outra, mas nunca em todos os dias da minha vida...
Drusilla parecia intrigada.
— Por que Kieran está aqui? — ela perguntou assim que ele se foi. — Pensei que o odiássemos. Assim, eu ainda o odeio. Quero dizer, ele salvou nossas vidas, mas ainda é um idiota.
Eles começaram a falar ao mesmo tempo. Kit lembrou-se de algo que ele ouvira Livvy dizer a Dru um ou dois dias atrás. Mais pedaços do quebra-cabeças de Kieran: Livvy estava com raiva por Mark ter ido para a Terra das Fadas ajudar alguém que o tinha ferido. Que ferira Emma e Julian. Kit não sabia exatamente o que havia acontecido, mas claramente fora ruim.
Emma se moveu para sentar no sofá ao lado de Cristina. Ela tinha chegado usando um vestido pálido e fino que parecia algo que Kit teria visto no Mercado das Sombras. A roupa a fazia parecer delicada e graciosa, mas Kit lembrou-se do aço nela, da maneira como ela cortou os demônios manti em sua casa com toda a calma de uma noiva cortando fatias de bolo de casamento.
Julian ouvia calmamente a conversa de sua família. Mesmo que ele não estivesse olhando para Emma, uma energia quase visível estalava entre eles. Kit lembrou-se da maneira como Emma dissera para seu pai que Esse aqui não é o tipo de lugar que Julian frequenta — uma das primeiras coisas que ele a ouvira dizer, no Mercado — e a maneira como a voz dela parecia abraçar as sílabas do nome dele.
Parabatai era estranho. Tão próximos, e ainda não era um casamento, mas era mais do que melhores amigos. Não havia comparação real no mundo mundano. E isso o atraiu, a ideia de estar conectado a alguém assim, a maneira como as coisas perigosas e bonitas do mundo dos Caçadores de Sombras o atraíram.
Talvez Ty...
Julian levantou-se, colocando Tavvy em uma poltrona. Ele alongou os braços, estalando os pulsos.
— O problema é que precisamos de Kieran — ele falou.
Evelyn bufou.
— Imagine precisar de uma fada — disse ela. — Para qualquer coisa.
Julian sussurrou algo na orelha de Tavvy. Um momento depois o menino estava de pé.
— Senhora Highsmith, meu irmãozinho está exausto, mas ele diz que não sabe onde fica o seu quarto. Você poderia mostrar a ele?
Evelyn olhou irritadamente de Julian para Tavvy, que sorriu angelicalmente para ela, mostrando suas covinhas.
— Você não pode escoltar a criança?
— Acabei de chegar — Julian respondeu. — Não sei onde ficam os quartos. — Ele acrescentou o seu próprio sorriso ao de Tavvy. Julian poderia irradiar charme quando quisesse; Kit quase se esquecera.
Evelyn olhou em volta para ver se havia algum voluntário para assumir a tarefa para ela; ninguém se moveu. Finalmente, com um resmungo desagradável, ela estendeu a mão para Tavvy, dizendo:
— Bem, venha, criança — e saiu da sala com ele atrás.
O sorriso de Julian ficou torto. Kit não conseguiu evitar a sensação de que Julian usou Evelyn para se livrar de Kieran, e Tavvy para se livrar de Evelyn, e fez isso com tanta destreza que ninguém poderia provar isso. Se Julian quisesse se voltar para golpes e crimes, pensou Kit, ele se destacaria na área.
— Precisamos que Kieran negocie com a Clave — Julian falou como se nada tivesse acontecido. — Quando o encontramos na Terra das Fadas, seu pai estava prestes a matá-lo. Ele escapou, mas nunca estará seguro enquanto o Rei Unseelie estiver sentado no trono. — Ele passou as mãos pelo cabelo sem descanso; Kit se perguntou como Julian mantinha tudo em sua cabeça: planos, tramas, ocultações, verdades.
— E a Rainha quer o Rei fora do trono — acrescentou Emma. — Ela está disposta a nos ajudar a substituí-lo pelo irmão de Kieran, mas Kieran teve que jurar convencê-lo.
— O irmão de Kieran seria melhor do que o Rei que eles têm agora? — perguntou Dru.
— Seria — confirmou Emma. — Acredite ou não.
— Kieran também testemunhará na frente do Conselho — disse Julian. — Ele trará a mensagem de que a rainha está disposta a se aliar conosco para derrotar o Rei. Ele pode confirmar para o Conselho o que o Rei está fazendo nas Terras de Unseelie.
— Mas você poderia dizer-lhes isso — disse Kit.
— Se quisermos arriscar a ira da Clave por ter-nos aventurado na Terra das Fadas — devolveu Julian. — Sem mencionar que, embora possamos nos livrar dessa, não haverá perdão para a nossa negociação com a Rainha Seelie.
Kit teve que admitir que Julian estava certo. Ele sabia quantos problemas os Blackthorn quase tinham conseguido por negociar com os representantes das fadas que devolveram Mark para eles. A Rainha Seelie era outro nível de proibição. Era como levar um tapa no pulso por acender uma luz vermelha e depois voltar no dia seguinte e explodir a rua inteira.
— Kieran é o seu cartão de saída da prisão — disse ele.
— Não é só sobre nós — disse Emma. — Se o Conselho ouvi-lo, isso pode acabar com a Paz Fria. Na verdade, seria necessário. Eles terão que acreditar nele, já que ele não pode mentir, e se a Rainha estiver disposta a lutar contra o Rei Unseelie junto com a Clave, não acho que eles serão capazes de ignorar isso.
— O que significa que nós temos para manter Kieran seguro — disse Julian. — Também temos que fazer o que pudermos para não antagonizá-lo.
— Porque ele está fazendo isso por Mark? — perguntou Dru.
— Mas Mark terminou com ele — disse Livvy, e depois olhou em volta, alarmada. O rabo de cavalo roçou o ombro de Kit. — Isso é algo que eu não deveria dizer?
—Não — disse Mark. — É a verdade. Mas... Kieran não se lembra. Quando a Corte Unseelie o torturou, ele perdeu algumas de suas memórias. Ele não se lembra de ter trazido o enviado ao Instituto, ou de Emma e Julian sendo chicoteados, ou que perigo ele colocou todos nós com sua pressa e raiva. — Ele olhou para as próprias mãos entrelaçadas. — E ele não deve ser informado.
— Mas Emma — disse Livvy. — Nós devemos fingir que ela e Mark não são...?
Kit se aproximou de Ty. Ty cheirava a tinta e lã.
— Não estou entendendo nada disso.
— Eu também não — Ty sussurrou de volta. — É complicado demais.
— Mark e eu — Emma falou, olhando com firmeza para Mark — terminamos.
Kit se perguntou se Mark sabia disso. Ele não conseguiu esconder o olhar de espanto em seu rosto.
— Simplesmente não funcionou — Emma continuou. — Então está tudo bem, o que Mark precisar fazer.
— Eles terminaram? — Livvy sussurrou. Ty deu de ombros, desconcertado. Livvy tinha ficado tensa e olhava de Emma para Mark, claramente preocupada.
— Nós devemos deixar Kieran pensar que ele e Mark ainda estão namorando? — perguntou Ty, parecendo confuso.
Kit sentiu que tudo estava além dele também, mas então se lembrou de Henrique VIII, que decapitou várias de suas esposas por motivos aparentemente governamentais. As pessoas, a política e o romance eram muitas vezes estranhamente entrelaçados.
— Esconder essas coisas de Kieran não é ideal — disse Julian, com as mãos nos bolsos. — E odeio pedir a vocês para mentir. Provavelmente é melhor evitar o assunto. Mas não há literalmente nenhuma outra maneira de garantir que ele realmente apareça na frente da Clave.
Mark sentou-se, passando os dedos pelos cabelos loiros de maneira distraída. Kit podia ouvi-lo dizer: “Estou bem, está tudo bem, para Cristina. Ele sentiu uma onda de simpatia estranha — não por Mark, mas por Kieran. Kieran, que não sabia que seu namorado não era realmente seu namorado, que estava dormindo em uma casa cheia de pessoas que, por mais amigáveis que parecessem, mentiriam para conseguir algo de que precisavam. Pensou na frieza que tinha visto em Julian lá no Mercado das Sombras. Julian, que sacrificaria Kieran, e talvez seu próprio irmão de certa maneira, para conseguir o que queria.
Mesmo que seu querer fosse algo bom. Mesmo que fosse o fim da Paz Fria.
Kit olhou para Julian, que fitava a lareira da sala com olhos insondáveis, e suspeitava que havia mais. Novamente, quando Julian Blackthorn estava preocupado, sempre haveria mais.

8 comentários:

  1. Kit é muito observador...

    vai dá certinho com o Ty *-*

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    1. Kitty ❤️ ❤️ ❤️
      Eles não podem se tornar parabatai se não eu morro

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  2. Ty e kit tem que ser parabatai!

    Flavia

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  3. Livvy e Kit <3 e Ty e Kit?
    Acho que vai dar treta entre esses três. Se bem que depois de ver os centuriões o Ty de certo não vai mais querer ser um deles, não?

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  4. Ownnnt!! O pessoal de peças invernais!! ❤

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  5. Chorei o capítulo inteiro,me lembrando do Will..S2

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Boa leitura :)