20 de novembro de 2017

Capítulo 14

A nave Coração de Ouro voava silenciosamente pela escuridão do espaço, agora movida pelo motor convencional, a fótons. Seus quatro passageiros estavam intranquilos, sabendo que haviam sido reunidos não por sua própria vontade ou por simples coincidência, e sim por uma curiosa perversão da física como se as relações entre pessoas fossem regidas pelas mesmas leis que regiam o comportamento dos átomos e moléculas. Quando caiu a noite artificial da nave, todos ficaram satisfeitos de ir cada um para sua cabine e tentar acertar as suas ideias.
Trillian não conseguia dormir. Sentada num sofá, olhava fixamente para uma pequena gaiola que continha os últimos vínculos com a Terra que lhe restavam dois ratos brancos que ela insistira em trazer. Jamais pretendera voltar à Terra, porém perturbava-a a sua própria reação negativa ao saber que o planeta fora destruído. Parecia algo de remoto e irreal, e ela não conseguia encontrar pensamentos apropriados a respeito. Ficou vendo os ratos zanzando de um lado para o outro em sua gaiola, ou correndo furiosamente sem sair do lugar numa roda de exercício; acabou ficando totalmente absorta no espetáculo dos ratos. De repente sacudiu-se e voltou à ponte de comando para olhar as luzinhas e números que indicavam a trajetória da nave através do espaço vazio. Ela tentava descobrir qual era o pensamento que estava tentando evitar.
Zaphod não conseguia dormir. Também queria saber qual era o pensamento que não se permitia pensar. Ele sempre sofrerá da sensação incômoda de não estar completamente presente. Na maior parte do tempo, conseguia pôr de lado essa ideia e não se preocupar com ela, mas tais pensamentos haviam retomado com a chegada inesperada de Ford Prefect e Arthur Dent. De algum modo, aquilo parecia fazer um sentido que ele não conseguia entender.
Ford não conseguia dormir. Estava muito excitado por estar novamente com o pé na estrada. Haviam terminado seus 15 anos de exílio, justamente quando ele estava quase perdendo as esperanças. Viajar com Zaphod por uns tempos lhe parecia uma perspectiva interessante, ainda que houvesse algo de ligeiramente estranho em seu semiprimo que ele não conseguia definir com clareza. O fato de ele se tornar presidente da Galáxia era surpreendente, como também o era o modo como abandonara seu cargo. Haveria uma razão para seu gesto? Não adiantaria perguntar-lhe, Zaphod jamais justificava o que fazia. Ele tornara a imprevisibilidade uma forma de arte. Fazia tudo com uma mistura de extraordinária genialidade e incompetência ingênua, sendo muitas vezes difícil saber distinguir uma coisa da outra.
Arthur dormia; estava absolutamente exausto. Alguém bateu à porta de Zaphod. A porta se abriu.
— Zaphod...?
— Que é?
— A silhueta de Trillian desenhava-se à entrada da cabine. — Acho que acabamos de encontrar o que você está procurando.
— É mesmo?
Ford desistiu de tentar dormir. No canto de sua cabine havia uma pequena tela de computador e um teclado. Sentou-se ante o terminal e tentou redigir um novo verbete a respeito dos vogons para o Mochileiro, mas não conseguiu pensar em nada que fosse agressivo o bastante, por isso desistiu. Vestiu um roupão e foi até a ponte de comando.
Ao entrar, surpreendeu-se em ver duas figuras excitadas, debruçadas sobre o painel de controle.
— Está vendo? A nave está prestes a entrar em órbita — dizia Trillian. — Tem um planeta aí. Justamente nas coordenadas que você previu.
Zaphod ouviu um barulho e olhou em volta.
— Ford! Venha dar uma olhada nisso.
Ford foi dar uma olhada. Viu uma série de números na tela.
— Está reconhecendo essas coordenadas galácticas? — perguntou Zaphod.
— Não.
— Vou lhe dar uma pista. Computador!
— Oi, pessoal! — disse o computador, simpático. — Isso aqui está virando uma festa, não é mesmo?
— Cale a boca e mostre as telas — disse Zaphod.
A iluminação da cabine diminuiu. Pontos de luz acenderam-se nos painéis, refletidas nos quatro pares de olhos que perscrutavam as telas de monitoração.
Não havia absolutamente nada nelas.
 — Está reconhecendo? — cochichou Zaphod. Ford franziu as sobrancelhas.
— Hum... não.
— O que você está vendo?
— Nada.
— Está reconhecendo?
— Sobre o que você está falando?
— Estamos na nebulosa da Cabeça de Cavalo. Uma enorme nuvem escura.
— E você queria que eu adivinhasse isso porque não aparece nada na tela?
— Os únicos lugares da Galáxia em que a tela fica preta são os interiores das nebulosas escuras.
— Muito bem.
Zaphod riu. Claramente, estava muito entusiasmado por algum motivo, uma empolgação quase infantil.
— Mas isso é incrível, isso é demais!
— Qual o grande barato de estar dentro de uma nuvem de poeira? — perguntou Ford.
— O que você espera encontrar aqui? — retrucou Zaphod.
— Nada.
— Nenhuma estrela? Nenhum planeta?
— Nada.
— Computador! — gritou Zaphod. — Vire o ângulo de visão 180 graus, e nada de comentários bestas!
Por um instante, nada aconteceu. De repente, surgiu uma luminosidade no canto do telão. Uma estrela vermelha do tamanho de um pires começou a atravessar a tela, rapidamente seguida de uma outra, um sistema binário. Então um grande crescente surgiu no canto da tela, um brilho vermelho que aos poucos se esvaía em negro, o lado noturno do planeta.
— Achei! — exclamou Zaphod, com um tapa no painel. — Achei! Ford ficou olhando para a tela estupefato.
— O que é isso?
— Isso — respondeu Zaphod — é o planeta mais improvável que jamais existiu.

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