15 de novembro de 2017

Capítulo 14

Estes são os lugares onde não é boa ideia você beber sozinha se for mulher.
1. Bazookas: antes se chamava White Horse, um pub sossegado na esquina em frente à cafeteria, cheio de bancos de veludo faltando enchimento, algumas placas de cavalo de bronze e o letreiro com a tinta meio desgastada pelo tempo. Agora é um bar de striptease, com luzes de néon, onde empresários aparecem tarde da noite, e garotas excessivamente maquiadas vão embora de madrugada em cima de sapatos de plataforma, fumando freneticamente e reclamando das gorjetas.
2. Dino’s: o bar de vinhos da região, que vivia lotado nos anos 1990, se reinventou como um restaurante pé-sujo para mamães gostosas durante o dia. Atualmente, depois das oito da noite ele de vez em quando oferece sessões de encontros para solteiros. O resto do tempo, exceto às sextas-feiras, as janelas que vão do piso ao teto revelam que está desoladamente vazio.
3. Qualquer um dos pubs mais antigos nas ruas laterais localizados além do rio, que atraem pequenos grupos de gente ressentida do bairro, homens que fumam cigarros enrolados à mão acompanhados de pit bulls e que olham para uma mulher sozinha num pub do mesmo modo que um mulá olharia para uma passeando de biquíni.
4. Qualquer um dos bares novos e lotados perto do rio que ficam cheios de gente mais jovem que você, em geral grupos de amigos com seus notebooks e óculos escuros grossos, todos os quais a farão se sentir mais sozinha do que se você simplesmente tivesse ficado em casa.
Liv brinca com a ideia de comprar uma garrafa de vinho e levá-la para casa. Mas, toda vez que se imagina sentada sozinha, é invadida por um medo inusitado. Ela não quer assistir à televisão: os últimos três anos lhe mostraram que esta é a noite das piadas cósmicas, em que tragicomédias normalmente banais, de repente, de forma pungente, matam um marido, ou substituem um programa sobre vida selvagem por outro sobre morte súbita. Ela não quer se ver em pé na frente de A garota que você deixou para trás, recordando o dia em que eles compraram o quadro juntos, vendo na expressão daquela mulher o amor e a plenitude que ela sentia. Não quer se ver catando as fotografias em que está com David, cansada de saber que nunca mais vai amar ninguém assim, e que embora seja capaz de lembrar exatamente o seu jeito de franzir os olhos, ou de segurar uma caneca, já não é capaz de trazer à mente esses três elementos combinados.
Ela não quer sentir nem a mínima tentação de ligar para o celular dele, como fizera obsessivamente no primeiro ano após sua morte, para poder ouvir sua voz no serviço de caixa postal. Quase todos os dias agora, a perda dele faz parte dela, um peso esquisito que ela carrega, invisível aos outros, alterando sutilmente a forma como passa o dia. Mas hoje, o aniversário de morte de David, é um dia em que tudo pode acontecer.
E então ela se lembra de algo que uma das mulheres lhe dissera no jantar na noite anterior. Quando quer sair sem ser assediada, minha irmã procura um bar gay. É muito divertido. Há um bar gay a menos de dez minutos a pé dali.
Ela passou por lá cem vezes sem jamais se perguntar o que havia por trás das telas protetoras de arame nas janelas. Ninguém a assediará num bar gay. Liv pega a jaqueta, a bolsa e as chaves. Pelo menos, ela tem algo para fazer.

* * *

— Bem, isso é estranho.
— Foi só uma vez. Meses atrás. Mas eu tenho a sensação de que ela nunca esqueceu completamente.
— Porque você é MUITO BOM. — Greg limpa outro copo de meio litro, sorrindo, e o coloca na prateleira.
— Não... Bem, tudo bem, claro — diz Paul. — Falando sério, Greg, eu me sinto culpado sempre que ela olha para mim. Como... como se eu tivesse prometido algo que não posso cumprir.
— Qual é a regra de ouro, irmão? Nunca cagar em frente à porta de casa.
— Eu estava de porre. Foi na noite em que Leonie me comunicou que ela e Jake iam morar com Mitch. Eu estava...
— Você baixou a guarda. — Greg faz a sua voz de programa de TV matinal. — Sua chefe o pegou quando estava vulnerável. Insistiu para você beber. E agora você simplesmente se sente usado. Aguente...
Ele sai para atender um cliente. A casa está movimentada para uma quinta-feira à noite; todas as mesas tomadas, um fluxo contínuo de pessoas no bar, um burburinho de conversa animada se elevando acima da música. Ele tivera a intenção de ir para casa depois do expediente no escritório, mas raramente tem chance de pôr o papo em dia com o irmão, e é bom tomar umas e outras de vez em quando. Mesmo tendo que ficar o tempo todo evitando fazer contato visual com setenta por cento dos clientes.
Greg registra uma quantia no caixa e volta para perto de Paul.
— Olhe, eu sei o que isso parece. Mas ela é uma boa mulher. E é um horror ter que rejeitá-la o tempo todo.
— É um saco ser você.
— Como se você entendesse.
— Porque ninguém nunca dá em cima de você quando você está com alguém. Não num bar de gays. Ah, não. — Greg põe outro copo na prateleira. — Olhe, por que você não faz ela se sentar, diz que é mesmo um amor de pessoa, blá-blá-blá, mas que não está interessado nela?
— Porque é esquisito. A gente trabalha tão junto e tudo o mais.
— E isso não é? Esse negócio todo de “Ah, bem, se alguma hora você estiver a fim de dar uma rapidinha quando tiver terminado esse caso, Paul”. — A atenção de Greg vai para a outra extremidade do bar. — Uau. Acho que temos uma ao vivo.
Paul passou a noite toda vagamente consciente da presença da jovem. Ela chegara com um ar absolutamente sereno e ele presumira que ela aguardava alguém. Agora, está tentando se sentar no banco do bar. Faz duas tentativas e cai canhestramente para trás na segunda. Afasta o cabelo do rosto e olha para o balcão como se ele fosse o pico do Everest. Dá um impulso para subir. Quando aterrissa no banco, estende as duas mãos para se firmar e pisca com força, como se custasse a acreditar que realmente tivesse conseguido. Levanta o rosto para Greg.
— Com licença. Quer me ver mais um vinho?
Ela ergue um copo vazio.
O olhar de Greg, divertido e cansado, vai até Paul e depois se desvia.
— Fecharemos em dez minutos — diz, colocando o pano de prato no ombro.
Ele é bom com bêbados. Paul nunca viu Greg perder a calma. Eles eram, segundo a mãe deles, como água e vinho.
— Então tenho dez minutos para beber o vinho? — diz ela, com o sorriso um pouco hesitante.
Ela não tem cara de lésbica. Mas, até aí, poucas têm, atualmente. Ele não diz isso ao irmão, que riria dele e lhe diria que ele passara muito tempo na polícia.
— Querida, vou dizer isto com a melhor das intenções, mas, se você beber algo mais, vai me deixar preocupado. E se tem coisa uma coisa que eu detesto é terminar o meu turno me preocupando com um cliente.
— Unzinho — pede ela. Seu sorriso é de cortar o coração. — Normalmente eu nem bebo.
— Sim. É com vocês que eu me preocupo.
— Hoje... — diz ela com olhos pesados. — Hoje é um dia difícil. Um dia muito difícil. Por favor, posso tomar só mais um copo? Depois você pode chamar um táxi respeitável, de uma empresa respeitável, e eu vou para casa desmaiar e você pode ir para casa sem se preocupar comigo.
Ele olha para Paul e suspira. Está vendo o que eu tenho que aguentar?
— Unzinho — diz ele. — Bem pequenininho.
O sorriso dela se desvanece, as pálpebras quase fecham, e ela se abaixa, balançando, para pegar a bolsa no chão. Paul se vira para o balcão, verificando se tem mensagens no celular. É a vez dele de ficar com Jake no dia seguinte, e embora a situação entre ele e Leonie agora esteja amigável, uma parte dele ainda teme que ela encontre um motivo para cancelar.
— Minha bolsa!
Ele olha.
— Minha bolsa sumiu!
A mulher desceu deslizando do banco e olha o chão, segurando a beira do balcão com uma das mãos. Quando ergue os olhos, sua cara está lívida.
— Você foi ao banheiro com ela? — pergunta Greg, debruçando-se no bar.
— Não — diz ela, lançando um olhar em volta do bar. — Ela estava enfiada embaixo do meu banco.
— Você deixou a bolsa embaixo do banco? — Greg estala a língua em desaprovação. — Não leu os avisos?
Há avisos por todo o bar. Não se separe de sua bolsa: há ladrões agindo nesta região. Só de onde está sentado, Paul consegue contar três deles.
Ela não leu os avisos.
— Sinto muito. Mas estas redondezas não são boas.
A mulher olha rapidamente para um e para outro e Greg vê que, apesar de bêbada, ela adivinha o que eles estão pensando. Bêbada boba.
Paul pega o celular.
— Vou chamar a polícia.
— E dizer que fiz a burrice de deixar a bolsa embaixo de um banco? — Ela esconde o rosto com as mãos. — Ah, Deus. Eu tinha acabado de sacar duzentas libras para o imposto municipal. Não acredito. Duzentas libras.
— Já tivemos dois casos esta semana — diz Greg. — Estamos aguardando a instalação do circuito fechado de TV. Mas é uma epidemia. Sinto muito mesmo.
Ela ergue os olhos e enxuga o rosto. Deixa escapar um suspiro longo e oscilante. Está claramente tentando não cair em prantos. O copo de vinho está intacto no balcão.
— Desculpe. Mas acho que não vou conseguir pagar isto.
— Não esquente a cabeça — diz Greg. — Olhe, Paul, chame a polícia. Eu vou pegar um café para ela. Certo. Tempo, senhoras e senhores, por favor...

* * *

A polícia da região não sai em busca de bolsas desaparecidas. Eles dão à mulher, cujo nome é Liv, o número do protocolo da queixa e a promessa de uma carta sobre apoio à vítima, e lhe dizem que entrarão em contato se encontrarem algo.
É óbvio para todos que eles não pretendem entrar em contato.
Quando ela termina a ligação, o bar já está vazio há muito tempo. Greg abre a porta para eles saírem e Liv pega a sua jaqueta.
— Tenho uma hóspede em casa. Ela tem uma chave reserva.
— Quer ligar para ela?
Paul oferece seu telefone.
Ela olha inexpressivamente para ele.
— Não sei o telefone dela. Mas sei onde ela trabalha.
Paul espera.
— É um restaurante a uns dez minutos a pé daqui. Para o lado da Blackfriars.
É meia-noite. Paul olha para o relógio. Está cansado e seu filho vai ser deixado em sua casa no dia seguinte às sete e meia da manhã. Mas ele não pode permitir que uma mulher embriagada, que nitidamente tenta não chorar há quase uma hora, ande pelas ruelas da South Bank à meia-noite.
— Vou com você — diz.
Ele capta o olhar desconfiado dela, preparando-se para recusar. Greg toca no braço dela.
— Você ficará bem, querida. Ele é ex-policial.
Paul sente estar sendo reavaliado. A maquiagem da mulher está borrada embaixo de um olho e ele se controla para não limpá-la.
— Posso garantir o bom caráter dele. Ele é geneticamente programado para fazer isso, uma espécie de São Bernardo em forma de gente.
— É. Obrigado, Greg.
Ela veste a jaqueta.
— Se tem certeza de que não se incomoda, seria muita bondade sua.
— Ligo amanhã, Paul. E boa sorte, Srta. Liv. Espero que tudo se resolva.
Greg aguarda até eles seguirem mais um pouco na rua, depois tranca a porta.

* * *

Eles caminham num ritmo acelerado, com os passos percutindo no calçamento das ruas desertas e ecoando nos prédios silenciosos em volta deles. Começou a chover, e Paul enfia as mãos nos bolsos e enterra o pescoço na gola. Passam por dois rapazes de capuz, e ele percebe que ela chega ligeiramente para mais perto dele.
— Cancelou seus cartões? — pergunta ele.
— Ah. Não. — O ar frio está fazendo efeito nela. Parece abatida, e de vez em quando dá um tropeção. Ele lhe ofereceria o braço, mas acha que ela não aceitaria. — Não pensei nisso.
— Lembra-se dos que tem?
— Um Mastercard, um Barclays.
— Espere aí. Conheço uma pessoa que pode ajudar. — Ele digita um número. — Sherrie?... Oi. É McCafferty... Sim, bem, obrigado. Tudo bem, e você? — Ele aguarda. — Escute, você poderia me fazer um favor? Pode me mandar um torpedo com os telefones para comunicar roubo de cartões de crédito? Mastercard e Barclays. Acabaram de roubar a bolsa de uma amiga minha... É. Obrigado, Sherrie. Dê um abraço no pessoal por mim. Sim, a gente se vê.
Ele liga para os números enviados por torpedo e entrega o telefone a ela.
— Policiais — diz ele. — O mundo é pequeno.
E depois anda em silêncio enquanto ela explica a situação ao atendente.
— Obrigada — diz ela, devolvendo-lhe o telefone.
— De nada.
— De qualquer maneira, eu ficaria surpresa se conseguissem sacar algum dinheiro com esses cartões. — Liv sorri com pesar.
Eles estão no restaurante, uma casa espanhola. As luzes estão apagadas e as portas, trancadas. Ele se esgueira para a entrada, e ela espia pela janela, tentando ver algum distante sinal de vida.
Paul olha para o relógio.
— Meia-noite e quinze. Eles já devem ter fechado.
Liv fica parada e morde o lábio. Volta-se para ele.
— Talvez ela esteja lá em casa. Por favor, pode me emprestar de novo seu telefone?
Ele o entrega a ela, que o segura sob a luz de sódio para ver melhor a tela.
Paul observa enquanto Liv digita um número, depois se afasta, passando a mão inconscientemente pelo cabelo. Ela olha para trás e lhe dá um sorriso rápido e inseguro, depois vira as costas. Digita outro número, e mais outro.
— Mais alguém que você possa ligar?
— Meu pai. Acabei de tentar ligar para ele. Ninguém atende lá também. Embora seja bem possível que ele esteja dormindo. Ele dorme pesado.
Ela parece totalmente perdida.
— Olhe, posso reservar um quarto para você num hotel? Você pode me pagar quando receber os cartões.
Ela fica ali, mordendo o lábio. Duzentas libras. Ele se lembra do jeito com que ela disse isso, desesperada. Não é uma pessoa que parece poder bancar um quarto de hotel no centro de Londres.
Chove mais forte agora, respingando nas pernas deles, e a água gorgoleja nos bueiros à frente. Ele fala antes mesmo de pensar.
— Sabe de uma coisa? Está ficando tarde. Moro a uns vinte minutos daqui. Quer pensar a respeito e decidir quando chegarmos à minha casa? Podemos resolver tudo de lá se você quiser.
Ela lhe entrega o telefone. Ele percebe uma luta interna. Depois ela sorri, meio desconfiada, e emparelha com ele.
— Obrigada. E me desculpe. Eu realmente não pretendia estragar a noite de outra pessoa também.

* * *

À medida que se aproximam do apartamento dele, Liv fica cada vez mais calada, e ele calcula que ela esteja ficando sóbria: alguma parte sensata dela está se perguntando com o que ela acabou de concordar. Ele se pergunta se ela está sendo aguardada por alguma namorada em algum lugar. Ela é bonita, mas do jeito que as mulheres são quando não querem chamar a atenção do sexo masculino sobre elas: sem maquiagem, cabelo puxado para trás num rabo de cavalo. Será que isso é coisa de gay? Sua pele é muito boa para que ela seja uma bebedora contumaz. Tem pernas firmes e um passo largo, que indicam o hábito de se exercitar. Mas anda na defensiva, de braços cruzados.
Chegam ao apartamento dele, um duplex em cima de um café nos arredores de Theaterland, e ele se coloca bem atrás dela ao abrir a porta.
Paul acende as luzes e vai direto para a mesa de centro. Recolhe os jornais e a caneca daquela manhã, vendo o apartamento com os olhos de um estranho: muito pequeno, entulhado de livros de referências, fotografias e móveis.
Felizmente, sem meias ou roupa suja espalhadas. Ele entra na cozinha e liga a chaleira, pega uma toalha para enxugar o cabelo e observa enquanto ela circula com hesitação por ali, aparentemente tranquilizada pelas estantes abarrotadas, as fotografias no console: ele de uniforme, ele e Jake rindo, abraçados.
— É seu filho?
— É.
— Ele se parece com você.
Ela pega uma fotografia dele, Jake e Leonie, tirada quando Jake tinha quatro anos. O outro braço continua rígido em volta da barriga. Ele lhe ofereceria uma camiseta, mas não quer que ela pense que ele esteja tentando fazê-la tirar a roupa.
— É a mãe dele?
— É.
— Você... não é gay, então?
Paul por um instante não sabe o que dizer.
— Não! Ah. Não, aquele é o bar do meu irmão.
— Ah.
Ele aponta para a fotografia em que está de uniforme.
— Aí eu não estou fazendo um número do Village People. Eu realmente era policial.
Ela começa a rir, o tipo de riso que vem quando a única alternativa são as lágrimas. Então enxuga os olhos e lhe dá um sorriso encabulado.
— Sinto muito. Hoje é um dia ruim. E já era antes de terem roubado minha bolsa.
Ela é muito bonita, pensa ele de repente. Tem um ar vulnerável, como se a tivessem despido de uma camada de pele. Ela se vira para ele, e ele desvia o rosto bruscamente.
— Paul, você tem alguma bebida aí? Sem ser café. Sei que provavelmente me acha uma bêbada inveterada, mas eu realmente estou precisando de uma bebida agora.
Ele desliga a chaleira, serve uma taça de vinho para os dois e volta para a sala. Ela está sentada na beirada do sofá, com os cotovelos metidos entre os joelhos.
— Quer conversar? Um ex-policial geralmente já ouviu muita coisa. — Ele lhe entrega a taça de vinho. — Muito piores que a sua. Eu apostaria dinheiro nisso.
— Mais ou menos. — Ela dá um gole ruidoso no vinho. Então, bruscamente, vira-se para ele. — Na verdade, sim. Hoje faz quatro anos que meu marido morreu. Ele morreu. Muita gente não conseguia nem mencionar a palavra quando ele morreu, e agora ficam me dizendo que eu devia seguir em frente. Não tenho ideia de como seguir em frente. Tem uma gótica morando na minha casa, e eu nem me lembro do sobrenome dela. Estou devendo a Deus e todo mundo. E fui a um bar gay hoje porque eu não podia encarar a solidão em casa, e roubaram a minha bolsa com as duzentas libras que saquei, emprestadas do meu cartão de crédito, para pagar o imposto da prefeitura. E quando você perguntou se havia mais alguém para quem eu poderia ligar, a única pessoa que me ocorreu foi Fran, a mulher que mora numas caixas de papelão no fim do meu quarteirão.
Ele está tão ocupado digerindo a palavra “marido” que mal ouve o resto.
— Bem, posso lhe oferecer uma cama.
Aquele olhar desconfiado de novo.
— A cama do meu filho. Não é a mais confortável do mundo. Quer dizer, meu irmão dormiu nela algumas vezes quando brigou com o último namorado, e diz que desde então precisa ir ao ortopedista, mas é uma cama.
Ele faz uma pausa.
— Deve ser melhor do que umas caixas de papelão.
Ela olha de lado para ele.
— Tudo bem. Um pouquinho melhor.
Ela dá um sorriso sarcástico dentro do copo.
— Eu não poderia pedir à Fran, afinal de contas. Ela nunca me convida para entrar.
— Poxa, que grosseria. Eu não gostaria de ir à casa dela, mesmo. Fique aí. Vou arranjar uma escova de dentes para você.

* * *

Às vezes, Liv pensa, é possível cair num universo paralelo. A pessoa sabe o que a espera — uma noite chata na frente da TV, beber num bar, esconder-se da sua história — e de repente dá uma guinada e chega a um destino que ela nem sabia que existia. É tudo, aparentemente, um desastre: o roubo da bolsa, a perda do dinheiro, a morte do marido, o desacerto da vida. E aí está ela, sentada no pequeno apartamento de um americano de olhos azuis e cabelo grisalho e são quase três da manhã, e ele está fazendo ela rir, rir mesmo, como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo.
Ela bebeu muito. Foram pelo menos três taças desde que chegou ali, sem contar com o que consumiu no bar. Mas ela atingiu aquele raro e agradável estado de equilíbrio alcoólico. Não está bêbada o bastante para se sentir enjoada ou tonta. Está alegre o suficiente para ficar leve, flutuando naquele momento prazeroso, com o homem e as risadas, e o pequeno apartamento entulhado que não lhe traz lembranças. Eles conversaram e conversaram e conversaram, suas vozes ficando cada vez mais altas. E ela lhe contou tudo, liberada pelo choque e pelo álcool, e pelo fato de ele ser um estranho que ela provavelmente não veria de novo. Ele lhe contou do terrível divórcio, da política da polícia e por que ele era inadequado para isso, e por que sente falta de Nova York, mas não pode voltar até o filho crescer. Ela quer lhe contar tudo, porque ele parece entender tudo. Fala da sua dor e da sua raiva, e como olha para os outros casais e simplesmente não consegue enxergar o porquê de tentar de novo. Porque nenhum deles parece propriamente muito feliz. Nenhum.
— Olhe, farei papel de advogado do diabo aqui. — Paul pousa o copo. — Em isso vem de uma pessoa que ferrou completamente com a própria relação. Mas você ficou casada quatro anos, certo?
— Certo.
— Não quero parecer cínico nem nada, mas não acha que uma das razões dessa perfeição na sua cabeça é o fato de ele ter morrido? Tudo sempre fica perfeito quando é cortado antes do tempo. Há uma indústria de ícones mortos do cinema para provar isso.
— Então você está dizendo que se ele estivesse vivo nós teríamos ficado ranzinzas e fartos um do outro como todo mundo?
— Não necessariamente. Mas o convívio e os filhos, o trabalho e o estresse da vida diária podem acabar com o romance, com certeza.
— A voz da experiência.
— É. Pode ser.
— Bem, não acabou.
Ela balança a cabeça enfaticamente. O ambiente roda um pouco.
— Ah, espere aí, deve ter havido algumas vezes em que você ficou meio cheia dele. Todo mundo fica. Quando ele reclamava, por exemplo, por você gastar demais, soltar pum na cama ou deixar o tubo da pasta de dentes destampado...
Liv torna a balançar a cabeça.
— Por que todo mundo faz isso? Por que todo mundo quer tanto diminuir o que tivemos? Quer saber? A gente era feliz. A gente não brigava. Não por causa de pasta de dente nem por soltar pum ou seja lá o que for. A gente simplesmente se gostava. Éramos... felizes.
Ela está lutando contra o choro e vira a cabeça para a janela, reprimindo as lágrimas. Hoje não vai chorar. Não vai.
Há um longo silêncio. Filho da puta, pensa ela.
— Então vocês eram felizardos — diz a voz atrás dela.
Ela se vira e Paul McCafferty está lhe oferecendo o restinho da garrafa.
— Felizardos?
— Poucos conseguem isso. Mesmo por quatro anos. Você devia ser agradecida.
Agradecida. Faz todo o sentido quando ele fala isso daquela maneira.
— Sim — diz ela logo depois. — Devia, sim.
— Na verdade, histórias como a sua me dão esperança.
Ela sorri.
— É gentil dizer isso.
— Bem, é verdade. Um brinde a... Como é o nome dele? — Paul ergue o copo.
— David.
— A David. Um dos caras bons.
Ela está sorrindo; um sorriso rasgado e inesperado. Nota o vago olhar de surpresa dele.
— Sim — diz ela. — A David.
Paul bebe um gole do vinho.
— É a primeira vez que convido uma mulher para minha casa e acabo brindando ao marido dela.
E lá está de novo: o sorriso, borbulhando dentro dela, um visitante inesperado.
Ele se vira para ela.
— Sabe, andei querendo fazer isso a noite inteira. — Ele se inclina e, antes que ela tenha tempo de se imobilizar, ele estica o polegar e limpa delicadamente embaixo de seu olho esquerdo. — A sua maquiagem — diz ele, mostrando o polegar. — Eu não tinha certeza se você sabia.
Liv fica olhando para ele, e uma sensação inesperada e elétrica a percorre.
Ela olha para aquelas mãos fortes e sardentas, o jeito que o colarinho dele encontra o pescoço, e sua mente se esvazia. Pousa os óculos, inclina-se para a frente e, antes que ele possa dizer algo, ela faz a única coisa que lhe vem à cabeça e coloca os lábios nos dele. Há um breve choque entre eles, depois ela sente a respiração dele na sua pele, uma das mãos se levantando para chegar à sua cintura e ele está correspondendo, com seus lábios macios e quentes e com um leve gosto de vinho. Ela se deixa fundir com ele, sua respiração se acelerando, flutuando em álcool e em emoção e na ternura de simplesmente se deixar abraçar. Ah, Deus, mas este homem. Ela tem os olhos cerrados, a cabeça rodando, os beijos dele são macios e deliciosos.
E aí, ele recua. Ela custa um pouco a se dar conta. Recua também, só uns centímetros, a respiração presa no peito. Quem é você?
Ele olha nos olhos dela. Pisca.
— Sabe... acho você absolutamente encantadora. Mas tenho regras em relação a esse tipo de coisa.
Os lábios dela parecem inchados.
— Você está... com alguém?
— Não. Eu só... Eu só... — Ele passa a mão no cabelo. Cerra os lábios. — Liv, você não parece...
— Estou bêbada.
— Sim, está.
Ela suspira.
— Eu fazia um sexo maravilhoso quando estava bêbada.
— Agora você precisa parar de falar. Estou tentando ser muito, muito bom aqui.
Ela se atira nas almofadas do sofá.
— É verdade. Algumas mulheres são um lixo quando estão de porre. Eu não era.
— Liv...
— E você é... delicioso.
A barba dele já desponta no queixo, como se quase os alertando para o fato de que a manhã se aproxima. Ela quer correr os dedos por aqueles pequenos pelos, sentir sua aspereza na pele. Ela estende a mão, e ele se afasta dela.
— Beeem... estou indo. Tudo bem, sim, estou indo. — Ele se põe de pé, respira fundo. Não quer olhar para ela. — Hã, ali é o quarto do meu filho. Se precisar beber água ou qualquer coisa, tem uma torneira. Hã, sai água dela.
Ele pega uma revista e a coloca no mesmo lugar. E então, faz a mesma coisa com outra revista.
— E há revistas. Se quiser algo para ler. Montes de...
Isso não pode parar aí. Ela o quer tanto que é como se o seu corpo todo irradiasse isso. Ela poderia até mesmo implorar, agora. Ainda sente o calor da mão dele em sua cintura, o gosto de seus lábios. Eles ficam se olhando um instante. Não está sentindo isso? Não vá embora, deseja ela em silêncio. Por favor, não me deixe.
— Boa noite, Liv — diz ele.
Ele olha para ela mais um instante, depois vai pisando de leve pelo corredor e fecha a porta do seu quarto sem fazer barulho.

* * *

Quatro horas depois, Liv acorda num cubículo com um edredom do Arsenal e a cabeça latejando tanto que ela tem que pôr a mão para ver se não está sendo atacada. Pisca, nota com o olhar turvo as figuras de desenho animado japonês na parede em frente e deixa sua mente juntar lentamente as informações da noite anterior.
Bolsa roubada. Ela fecha os olhos. Ah, não.
Cama desconhecida. Ela não tem chave. Ah, meu Deus, ela não tem chave. Nem dinheiro. Tenta se mexer, e a cabeça dói tanto que ela tem vontade de gritar.
Então, lembra-se do homem. Pete? Paul? Ela se vê andando por ruas desertas de madrugada. E então se vê atirando-se para beijá-lo, e o recuo cortês dele. Você é... delicioso.
— Ah, não — diz baixinho, depois tapa os olhos com as mãos. — Ah, eu não...
Senta-se e vai para a beira da cama, notando um carrinho amarelo de plástico perto do seu pé direito. Então, quando ouve uma porta se abrindo e um chuveiro sendo ligado, Liv pega os sapatos e a jaqueta, e sai do apartamento para o dissonante dia que começa.

Um comentário:

  1. aquele momento em que você é a única a comentar nesse livro maravilhoso

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Boa leitura :)