29 de novembro de 2017

Capítulo 14 - Através de vidros escuros

A rainha ficou em silêncio enquanto caminhava, e Julian, com os pés descalços, apressou-se em acompanhá-la. Ela se moveu com propósito pelos longos corredores da Corte.
Era difícil envolver sua mente em torno da geografia da Terra das Fadas, com seu terreno em constante mudança, com a maneira como os espaços enormes se encaixavam em menores. Era como se alguém tivesse tomado a questão do filósofo de quantos anjos cabiam na cabeça de um alfinete e transformado em uma paisagem.
Eles passaram por outros membros da nobreza em seu caminho. Aqui na Corte Seelie, havia menos glamour sombrio, menos vísceras e ossos e sangue. O verde vivo de plantas, árvores e grama coloria o espaço. Em todo lugar havia dourado: gibões dourados nos homens, longos vestidos cor de ouro nas mulheres, como se estivessem canalizando a luz do sol que não podia alcançá-los debaixo da terra.
Eles passaram do corredor para uma enorme sala circular. Estava livre de qualquer mobília, e as paredes eram de pedra lisa, curvando-se em direção a um cristal no pico do teto.
Diretamente abaixo do cristal havia um grande plinto de pedra, com uma bacia dourada descansando sobre ele.
— Este é o meu cristal de visão — disse a rainha. — Um dos tesouros de fey. Você olharia para dentro dele?
Julian olhou em volta. Ele não tinha a experiência de Cristina, mas sabia o que era um cristal de visão. Permitia que você olhasse para uma superfície reflexiva, geralmente um espelho ou uma bacia com água, e visse o que estava acontecendo em outro lugar do mundo. Ele ficou com vontade de usá-la para verificar sua família, mas não aceitaria presentes de uma fada a menos que precisasse.
— Não, obrigado, minha senhora — disse ele.
Ele viu raiva nos olhos dela. Isso o surpreendeu. Ele teria pensado melhor em controlar suas emoções. A raiva desapareceu em um momento, e ela sorriu para ele.
— Um Blackthorn está prestes a colocar sua própria vida em grave perigo — disse ela. —Isso não é razão suficiente para você olhar no cristal? Você ignoraria o mal que se abaterá sobre sua família, seu sangue? — Sua voz era quase um murmúrio. — Pelo o que conheço de você, Julian, filho de espinhos, isso não é da sua natureza.
Julian apertou as mãos. Um Blackthorn colocando-se em perigo? Poderia ser Ty, se lançando em um mistério, ou Livvy, sendo voluntária e imprudente? Dru? Tavvy?
— Você não é facilmente tentado — ela disse, e agora sua voz se tornou mais suave, mais sedutora. Os olhos dela brilhavam. Ela gostou, pensou ele. A perseguição, o jogo. — Quão incomum em um tão jovem.
Julian pensou com uma diversão quase desesperadora de quando quase cedeu a Emma poucos momentos antes. Mas essa era uma fraqueza. Todos as tinham. Anos negando-se tudo e qualquer coisa que ele queria pelo bem de sua família tinham forjado sua vontade em algo que às vezes até o surpreendia.
— Não ir para lá e mudar o que acontece, posso? Não seria apenas uma tortura eu assistir?
Os lábios da rainha se curvaram.
— Não posso dizer-lhe. Eu não sei o que vai acontecer. Mas se você não olhar, nunca saberá. E pela minha experiência com seres humanos ou Nephilim, eles não suportam não saber. — Ela olhou para a água. — Ah. Ele chega à convergência.
Julian estava ao lado plinto antes que pudesse parar, olhando para dentro da água.
O que ele viu o chocou.
A água era como um vidro transparente, como a tela de uma televisão sobre a qual uma cena era projetada com uma clareza quase assustadora. Julian olhava para a noite nas montanhas de Santa Monica, uma visão familiar o suficiente para enviar um dardo de saudade através dele.
A lua subia sobre as ruínas da convergência. Pedras caíam em torno de uma planície de grama seca que se esticava para uma queda livre para o oceano, preto azulado na distância.
Era Arthur quem viajava entre as pedras.
Julian não se lembrava da última vez que vira seu tio fora do Instituto. Arthur vestia jaqueta e botas, e na mão havia uma pedra enfeitiçada, que brilhava vagamente. Ele nunca se parecera tanto com um Caçador de Sombras, nem mesmo no Salão dos Acordos.
— Malcolm! — gritou Arthur. — Malcolm, eu exijo que você venha até mim! Malcolm Fade! Estou aqui, com sangue Blackthorn!
— Mas Malcolm está morto — murmurou Julian, olhando a bacia. — Ele morreu.
— É uma fraqueza da sua natureza, considerar a morte tão final — comentou a rainha com alegria — especialmente em se tratando de feiticeiros.
Medo rasgou Julian como uma flecha. Ele tivera certeza quando saíram o Instituto que estavam deixando sua família segura. Mas se Malcolm estivesse lá — ainda atrás de sangue de Blackthorn... no entanto, se Arthur estava oferecendo, Malcolm ainda não deveria ter conseguido — mas, então, Arthur dificilmente era confiável.
— Silêncio — disse a Rainha, como se ela pudesse ouvir o clamor de seus pensamentos. — Veja.
— Malcolm! — gritou Arthur, sua voz ecoando nas montanhas.
— Eu estou aqui. Embora seja cedo.
A voz pertencia a uma sombra — uma sombra torcida e deformada. Julian engoliu em seco quando Malcolm veio sob no luar e o que tinha sido feito com ele, ou o que ele fizera a si mesmo, foi revelado. A água na bacia ficou turva.
Julian quase pegou a imagem antes de perceber o que fazia e puxar a mão para trás.
— Onde eles estão? — ele perguntou, sua voz áspera. — O que eles estão fazendo?
— Paciência. Há um lugar para onde devem ir. Malcolm levará seu tio lá. — A rainha Seelie se regozijou.
Ela pensava que tinha Julian na palma da mão agora, pensou, e a odiou. Ela mergulhou seus longos dedos na água e Julian viu um breve redemoinho de imagens – as portas do Instituto de Nova York, Jace e Clary adormecidos em um campo verde, Jem e Tessa em um lugar escuro e sombrio – e as imagens focadas novamente. Arthur e Malcolm estavam dentro de uma igreja, uma antiga, com vitrais e paredes esculpidas. Algo coberto com um pano preto estava no altar. Algo que se movia ligeiramente, sem descanso, como um animal que despertava do sono.
Malcolm ficou assistindo Arthur, um sorriso despontando em seu rosto arruinado. Ele parecia algo arrastado de alguma dimensão aquática do Inferno. De rachaduras e descamações em sua pele escorriam água do mar. Seus olhos eram leitosos e opacos; metade dos cabelos brancos desaparecera, e sua pele calva estava desigual e escamada. Ele usava um terno branco, e as fissuras em sua pele desapareciam incongruentemente sob o colarinho e os punhos caros.
— Para qualquer ritual de sangue, sangue disposto é melhor do que relutante — lembrou Arthur. Ele estava em sua habitual postura caída, as mãos nos bolsos do jeans. — Eu lhe darei o meu de bom grado se você jurar deixar minha família em paz.
Malcolm lambeu os lábios; sua língua era azulada.
—Isso é tudo o que você quer? Essa promessa?
Arthur assentiu.
— Você não quer o Volume Negro? — Malcolm perguntou com uma voz sarcástica, tocando o livro escondido no cós de sua calça. — Não quer garantir que eu nunca prejudicarei um único Nephilim?
— Sua vingança só me interessa na medida em que minha família permaneça ilesa — disse Arthur, e o alívio enfraqueceu os joelhos de Julian. — O sangue Blackthorn que eu lhe der deve saciar sua sede por isso, feiticeiro.
Malcolm sorriu. Seus dentes eram retorcidos e afiados, como os de um tubarão.
— Agora, se eu fizer este acordo, estarei me aproveitando de você, dado que você é um louco? — ele refletiu em voz alta. — Sua mente trêmula confundiu a situação? Você está confuso? Desconcertado? Sabe quem eu sou?
Arthur estremeceu, e Julian sentiu uma onda de simpatia por seu tio e uma de desprezo por Malcolm.
Mate-o, pensou ele. Diga-me que você trouxe uma lâmina serafim, tio, e execute-o.
—Seu tio não estará armado — disse a rainha. — Fade teria visto isso. — Ela observava com um prazer quase avarento. — O Nephilim louco e o feiticeiro maluco — comentou ela. — É como um livro de histórias.
— Você é Malcolm Fade, traidor e assassino — disse Arthur.
— É uma coisa ingrata de dizer a alguém que lhe forneceu suas curas todos esses anos — murmurou Malcolm.
— Curas? Mais como mentiras temporárias. Você fez o que tinha que fazer para continuar a enganar Julian — disse Arthur, e Julian parou ao ouvir seu próprio nome. — Você lhe deu remédios para mim porque isso o fez confiar em você. Minha família amava você. Mais do que me amaram. Você enfiou uma faca em seus corações.
— Oh — Malcolm murmurou. — Se apenas fosse verdade.
— Eu prefiro estar louco do meu jeito do que do seu — disse Arthur. — Você teve tanto. Amor, poder, uma vida imortal, e a jogou fora como se fosse um lixo ao lado da estrada. — Ele olhou para a coisa se movendo no altar. — Eu me pergunto se ela ainda o amará, do jeito que você está agora.
O rosto de Malcolm se contorceu.
— Basta — ele disse, e uma rápida expressão de triunfo passou pela feição cansada e surrada de Arthur. Ele tinha superado Malcolm, à sua maneira. — Eu concordo com sua proposta. Venha aqui.
Arthur deu um passo à frente. Malcolm segurou-o e começou a empurrá-lo para o altar. A pedra enfeitiçada de Arthur tinha desaparecido, mas velas queimavam nas arandelas presas às paredes, lançando uma luz cintilante e amarelada.
Malcolm segurou Arthur com uma mão, dobrando-o sobre o altar; com a outra, puxou a cobertura escura que estava ali. O corpo de Annabel foi revelado.
— Oh — respirou a rainha. — Ela foi adorável, uma vez.
Ela não era agora. Annabel era um esqueleto, embora não fossem os ossos brancos e limpos que geralmente são vistos em artes e imagens. Sua pele era coriácea e seca, com buracos onde vermes entraram e saíram. Náusea revirou o estômago de Julian. Ela estava coberta por um tecido branco e leve, mas suas pernas e seus braços eram visíveis: havia lugares em que a pele se afastara, e musgo crescia nos ossos e nos tendões secos. Cabelo escuro e frágil derramava-se do crânio. Sua mandíbula se moveu quando ela viu Malcolm, e um gemido escapou da garganta destruída. Ela parecia estar sacudindo a cabeça.
— Não se preocupe querida — disse Malcolm. — Eu trouxe o que você precisa.
— Não! — Julian ganiu, mas era como ele temia: ele não conseguiu parar os acontecimentos que se desenrolavam diante dele. Malcolm pegou a lâmina do lado de Annabel e cortou a garganta de Arthur.
O sangue corria sobre Annabel, sobre o corpo e sobre a pedra em que estava deitada. Arthur segurou o pescoço e Julian se calou, agarrando os lados da bacia com os dedos.
O tecido que envolvia Annabel tornou-se carmesim. As mãos de Arthur caíram lentamente ao seu lado. Ele só estava de pé agora porque Malcolm o segurava. Sangue encharcou os cabelos quebradiços de Annabel e a pele seca. Transformou a frente do terno branco de Malcolm em escarlate.
— Tio Arthur — sussurrou Julian. Ele sentia gosto de sal nos lábios. Por um momento ficou aterrorizado por estar chorando e na frente da rainha, mas, para seu alívio, ele apenas mordia o lábio. Ele engoliu o gosto metálico de seu próprio sangue quando Arthur ficou cambaleante no aperto de Malcolm, e Malcolm empurrou seu corpo impacientemente para longe. Ele caiu no chão ao lado do altar e permaneceu em silêncio.
— Annabel — Malcolm suspirou.
Ela começou a mexer.
Seus membros se moveram primeiro, as pernas e os braços esticados, as mãos alcançando nada. Por um momento, Julian pensou que havia algo errado com a água na tigela, um reflexo estranho, antes de perceber que era realmente a própria Annabel. Um brilho branco estava rastejando sobre ela... não, era pele, subindo para cobrir os ossos nus e os tendões despidos.
Seu cadáver pareceu inchar e crescer enquanto carne preenchia a forma dela, como se uma roupa lisa tivesse sido desenhada sobre seu esqueleto. Cinza e branco viraram rosa: seus pés descalços e seus membros pareciam humanos agora. Havia até mesmo áreas claras de unhas nas pontas dos dedos dos pés. A pele arrastava por seu corpo, escorria debaixo das tiras sinuosas, subindo para cobrir o peito e a clavícula, espalhando pelos braços. Suas mãos se esticaram, cada dedo se movendo enquanto testava o ar. O pescoço dela arqueou-se quando o cabelo preto e castanho explodiu de seu crânio. Os seios se erguiam sob o tecido, suas bochechas vazias se encheram, seus olhos se abriram.
Eram olhos Blackthorn, de um brilhante azul-esverdeado como o mar. Annabel sentou-se, agarrando-se aos trapos de suas leves vestes sangrentas. Sob elas, ela tinha o corpo de uma jovem mulher. Cabelo espesso em cascata em torno de um rosto oval pálido; seus lábios eram cheios e vermelhos; os olhos brilharam maravilhados enquanto olhava para Malcolm.
E Malcolm se transformou. Fosse qual fosse o dano que lhe tivesse sido causado, pareceu desaparecer, e por um momento Julian o viu como ele deve ter sido quando estava apaixonado. Havia uma doçura maravilhosa sobre ele; ele parecia congelado no lugar, seu rosto brilhando em adoração quando Annabel deslizou para baixo do altar. Ela pousou no chão de pedra ao lado do corpo caído de Arthur.
— Annabel — disse Malcolm. — Minha Annabel. Aguardei tanto tempo por você, fiz tanto para trazê-la de volta para mim. — Ele deu um passo tropeço em sua direção. — Meu amor. Meu anjo. Olhe para mim.
 Mas Annabel estava olhando para Arthur. Lentamente, ela se abaixou e pegou a faca que havia caído ao lado de seu corpo. Quando ela se endireitou, seu olhar fixo em Malcolm, lágrimas se derramaram em seu rosto. Seus lábios formaram uma palavra sem voz — Julian se aproximou, mas foi fraco demais para ele ouvir. A superfície da água tinha começado a ficar turva e a tremer, como a superfície do mar antes de uma tempestade.
Malcolm parecia arrasado.
— Não chore — disse ele. — Minha querida, minha Annabel.
Ele a alcançou. Annabel virou-se para ele, o rosto erguendo-se para o dele. Ele se abaixou como se quisesse beijá-la, enquanto ela erguia o braço, enfiando a faca que segurava no corpo dele.
Malcolm olhou para ela com descrença. Então ele gritou. Era um grito que continha mais do que de dor — era um uivo de traição absoluta, desesperadora e desonesta. Um grito que parecia rasgar o universo, rasgando as estrelas.
Ele cambaleou para trás, mas Annabel o perseguiu, um fantasma de sangue e terror em suas roupas de sepultura branca e escarlate. Ela cortou-o novamente, abrindo seu peito e fazendo-o cair no chão.
Mesmo assim, ele não levantou a mão para afastá-la enquanto ela se movia para ficar de pé sobre ele. Sangue escorreu do canto de seus lábios quando ele falou.
— Annabel — ele suspirou. — Oh, meu amor, meu amor...
Ela esfaqueou violentamente com a lâmina, direto no coração. O corpo de Malcolm caiu. Sua cabeça caiu para trás, seus olhos ficando brancos. Sem expressão, Annabel inclinou-se sobre ele e tirou o Volume Negro de seu cinto. Sem olhar para Malcolm, ela virou-se e saiu da igreja, desaparecendo da vista da bacia.
— Aonde ela foi? — perguntou Julian. Ele mal reconheceu sua própria voz. — Siga-a, use a bacia...
— O cristal não pode encontrar o caminho através de tanta magia negra — disse a rainha. Seu rosto brilhava como se tivesse acabado de ver algo maravilhoso.
Julian afastou-se dela — ele não pôde evitar. Ele não queria mais do que ir para um canto da sala e vomitar. Mas a rainha veria isso como fraqueza. Ele encontrou o caminho para uma parede e se inclinou contra ela.
A rainha estava com uma mão na beira da bacia dourada, sorrindo para ele.
— Você viu como Fade nunca levantou a mão para se defender? Isso é amor, filho de espinhos. Nos atacam com os golpes mais cruéis e quando sangramos por eles, sussurramos nossos agradecimentos.
Julian se preparou contra a parede.
— Por que me mostrou isso?
— Quero fazer uma barganha com você — disse ela. — E há coisas que eu não gostaria que você ignorasse enquanto isso.
Julian tentou acalmar sua respiração, forçando-se mais profundamente em sua própria cabeça, suas piores lembranças. Ele estava no Salão dos Acordos, tinha doze anos e acabara de matar seu pai. Ele estava no Instituto, e acabara de descobrir que Malcolm Fade havia sequestrado Tavvy. Ele estava no deserto, e Emma estava lhe dizendo que amava Mark; Mark, e não ele.
— Que tipo de barganha? — ele perguntou, e sua voz era tão estável quanto uma pedra.
Ela balançou a cabeça. Seus cabelos vermelhos refulgiam ao redor de seu rosto magro e vazio.
— Eu teria todo o seu grupo lá quando a barganha for feita, Caçador de Sombras.
— Não vou barganhar com você — disse Julian. — A Paz Fria...
Ela riu.
— Você quebrou a Paz Fria mil vezes, criança. Não finja que não sei nada sobre você ou sua família. Apesar da Paz Fria, apesar de tudo o que perdi, ainda sou a Rainha da Corte Seelie.
Julian não podia deixar de se perguntar o que “apesar de tudo o que perdi” significava: o que ela havia perdido, exatamente? Ela só quis dizer a tensão da Paz Fria, a vergonha de perder a Guerra Maligna?
— Além disso, você ainda não sabe o que estou oferecendo. E nem os seus amigos. Acho que eles podem estar bastante interessados, especialmente a sua adorável parabatai.
— Você tem algo para Emma? — ele exigiu. — Então por que me trouxe aqui sozinho?
— Havia algo que eu queria lhe dizer. Algo que você pode desejar que ela não saiba que você sabe.
Um sorriso minúsculo surgiu em seus lábios. Ela deu outro passo em sua direção.
Ele estava perto o suficiente para ver o detalhe das penas em seu vestido, as manchas de sangue que mostravam que tinham sido arrancadas do pássaro.
— A maldição parabatai. Eu sei como quebrá-la.
Julian sentiu como se não pudesse recuperar o fôlego. Foi o que a puca lhe disse no Portão: Na Terra das Fadas, você encontrará alguém que sabe como o vínculo parabatai pode ser quebrado.
Ele tinha carregado esse conhecimento em seu coração desde que chegaram aqui. Ele se perguntou quem seria. Mas era a rainha — é claro que era a rainha. Alguém em quem ele absolutamente não deveria confiar.
— A maldição? — ele perguntou, mantendo a voz suave e um pouco intrigada, como se não soubesse por que ela tocou no assunto.
Algo indefinível brilhou em seus olhos.
— O vínculo parabatai, devo dizer. Mas é uma maldição para você, não é? — ela pegou seu pulso, virando a mão. Os crescentes que ele fizera quando cravou as unhas roídas nas palmas eram fracos, mas visíveis.
Ele pensou no cristal. Nela assistindo ele com Emma no quarto de Fergus. Claro que ela deveria ter visto. Ela sabia quando Emma adormeceu. Quando estava vulnerável. Ela sabia que ele amava Emma. Poderia ser algo que ele poderia ocultar de sua família e amigos, mas para a Rainha da Corte Seelie, acostumada a buscar fraqueza e vulnerabilidade e cruelmente sintonizada com verdades desagradáveis, seria tão claro quanto um farol.
— Como eu disse — ela falou, sorrindo — recebemos as feridas do amor, não é?
Uma onda de raiva passou por ele, mas sua curiosidade foi mais forte. Ele tirou a mão dela.
— Conte-me. Conte-me o que você sabe.


Cavaleiros fada em verde, dourado e vermelho vieram buscar Emma para levá-la para a sala do trono. Ela ficou um pouco desconcertada com a ausência de Julian, apesar de ter certeza quando encontrou Mark e Cristina no corredor, semelhante acompanhados, e Mark disse em voz baixa que ele ouviu um dos guardas dizer que Julian já esperava por eles na sala do trono.
Emma amaldiçoou sua própria exaustão. Como pôde não ter notado sua partida? Ela se forçara a dormir, incapaz de suportar outro segundo de estar tão fisicamente perto de Jules sem poder nem mesmo abraçá-lo. E ele tinha ficado tão calmo, tão totalmente calmo; ele a olhara com uma amizade distante — gentileza, mesmo quando a tranquilizou de sua amizade intacta — e doía como o inferno e tudo o que ela queria era cansaço para limpar tudo.
Ela esticou o braço para tocar Cortana, presa em suas costas. Carregava o resto de suas coisas e das de Julian em sua mochila. Ela se sentiu tola vestindo uma arma sobre um vestido cintilante, mas não estava prestes a trocar de roupa na frente da Guarda da Rainha. Eles haviam se oferecido para levar a espada para ela, mas ela recusara. Ninguém tocaria Cortana, só ela.
Cristina estava quase tremendo de emoção.
— A sala do trono da Rainha Seelie — ela sussurrou. — Eu li sobre isso, mas nunca pensei realmente em vê-la. A aparência deve mudar com o humor da Rainha, à medida que ela muda.
Emma lembrou-se de Clary contando suas histórias da Corte, de uma sala de gelo e neve, onde a Rainha usava ouro e prata, de uma cortina de borboletas voadoras. Mas não era assim quando chegaram. Assim como Mark havia dito, Julian já estava na sala do trono. Era uma sala oval, cheia de fumaça acinzentada. A fumaça atravessava o chão e crepitava ao longo do teto, onde era bifurcada com pequenos dardos de raios negros. Não havia janelas, mas a fumaça cinzenta formava padrões contra as paredes — um campo de flores mortas, uma onda quebrando, o esqueleto de uma criatura alada.
Julian estava sentado nos degraus que levavam ao grande bloco de pedra onde o trono da rainha estava. Ele usava uma mistura fragmentada de uniforme e roupas comuns, e sobre sua camisa havia um casaco que ele só poderia ter encontrar aqui na Terra das Fadas. Ele reluzia com um fio brilhante e partes de brocado, as mangas dobradas para expor seus antebraços. A pulseira de vidro marinho estava em seu pulso.
Ele olhou para cima quando entraram. Mesmo contra o fundo incolor, seus olhos azul-esverdeados brilhavam.
— Antes que digam qualquer coisa, tenho algo a dizer — ele falou.
Apenas metade da mente de Emma estava em suas palavras quando ele começou a falar; a outra estava em quão estranhamente à vontade ele parecia.
Ele parecia calmo, e quando Julian estava calmo, era sempre mais assustador. Mas ele falou, e ela começou a perceber o que ele estava dizendo. Ondas de choque passaram por ela. Malcolm: morto, vivo e morto novamente? Arthur, assassinado? Annabel levantou-se do túmulo? O Volume Nreto se foi?
— Mas Malcolm estava morto — ela falou, entorpecida. — Eu o matei. Eu vi seu corpo flutuar. Ele estava morto.
— A Rainha me advertiu contra pensar que a morte era final — disse Julian. — Especialmente no caso dos feiticeiros.
— Mas Annabel está viva — Mark falou. — O que ela quer? Por que ela pegou o Volume Negro?
— Todas as boas perguntas, Miach — disse uma voz do outro lado da sala. Todos ficaram surpresos, exceto Julian.
Ela saiu das sombras cinzentas envolta em mais cinza: um longo vestido cinza feito de asas de mariposa e cinzas, com um decote baixo na frente, de modo que era fácil ver os ossos salientes de sua clavícula. Seu rosto era fino, triangular, dominado pelas chamas dos olhos zuis. Seu cabelo vermelho estava contido firmemente por uma rede de prata. A rainha.
Havia um brilho em seus olhos: malícia ou loucura, seria difícil ter certeza.
— Quem é Miach? — perguntou Emma.
A rainha indicou Mark com um gesto de sua mão.
— Ele. O sobrinho da minha serva Nene.
Mark pareceu atordoado.
— Nene chamou Helen de Alessa — disse Emma. — Então, Alessa e Miach são seus nomes fada?
— Não, são seus nomes completos, que dariam poder. Mas são muito mais harmoniosos do que Mark e Helen, não concorda? — A Rainha se moveu em direção a Mark, uma mão segurando sua saia. Ela esticou o braço para tocar seu rosto.
Ele não se moveu. Parecia congelado. O medo da nobreza fada, dos monarcas em particular, crescia nele há anos. Os olhos de Julian se estreitaram quando a rainha colocou uma mão contra a bochecha de Mark, os dedos acariciando a pele dele.
— Garoto lindo — disse ela. — Você foi desperdiçado na Caçada Selvagem. Poderia ter servido aqui na minha Corte.
— Eles me sequestraram — disse Mark. — Você não o fez.
Até a rainha parecia um pouco incomodada.
— Miach...
— Meu nome é Mark. — Ele disse isso sem qualquer hostilidade ou resistência. Era um fato simples. Emma viu a centelha nos olhos de Julian: orgulho por seu irmão, quando a rainha deixou a mão cair. Ela se dirigiu para o seu trono, e Julian levantou-se e desceu os degraus, juntando-se aos outros abaixo dela enquanto sentava.
A rainha sorriu para eles, e as sombras se moviam ao redor dela como se comandasse: Enrolar em mechas e se posicionar como flores.
— Então, agora, Julian contou a todos o que há para saber — disse ela. — Agora podemos negociar.
Emma não gostou da maneira como a rainha disse o nome de Jules: o Julian possessivo, quase lânguido. Ela também se perguntou onde a Rainha estivera enquanto Julian contava o que aconteceu. Não fora do alcance do ouvido, ela tinha certeza. Em algum lugar perto, onde poderia ouvi-lo, poderia avaliar suas reações.
— Você nos trouxe todos aqui, minha senhora, embora nós não saibamos o porquê — disse Julian.
Era claro por sua expressão que ele não sabia o que a rainha planejava pedir a eles. Mas também ficou claro que ele não havia decidido recusá-la.
— O que quer de nós?
— Eu quero que vocês encontrem Annabel Blackthorn para mim — disse ela — e recuperem o Volume Negro.
Eles se entreolharam; o que quer que esperavam, não tinha sido isso.
— Você só quer o Volume Negro? — perguntou Emma. — Não Annabel?
— Apenas o livro — disse a Rainha. — Annabel não importa, exceto que tem o livro. Tendo sido trazida de volta tanto tempo após sua morte, ela provavelmente está bastante louca.
— Bem, isso faz com que a procura seja muito mais divertida — observou Julian. — Por que não envia sua Corte para procurar no mundo mundano por ela?
— A Paz Fria torna isso difícil — respondeu a rainha secamente. — Eu ou meu povo será apreendido à primeira vista. Vocês, por outro lado, são os queridos do Conselho.
— Eu não diria “queridos” — disse Emma. — Isso pode ser exagerar as coisas.
— Então, conte-nos, o que a rainha das fadas quer com o Volume Negro dos Mortos? — perguntou Mark. — É um brinquedo de feiticeiros.
— No entanto, é perigoso nas mãos erradas, mesmo quando essas mãos são fadas — disse a rainha. — O Rei Unseelie cresce no poder desde a Paz Fria. Ele arruinou as terras Unseelie com o mal e encheu os rios de sangue. Vocês viram que nenhuma obra do Anjo pode sobreviver em sua terra.
— Verdade — concordou Emma. — Mas porque a senhora se importa se ele tornou as Terras Unseelie fora dos limites para Caçadores de Sombras?
A Rainha olhou para ela com um sorriso que não alcançou seus olhos.
— Eu não me importo. Mas o rei pegou alguém do meu povo. Um membro da minha Corte, muito querido para mim. Ele mantém essa pessoa cativa em sua erra. Eu a quero de volta. — Sua voz era fria.
— Como o livro irá ajudá-la com isso? — Emma perguntou.
— O Volume Negro é mais do que necromancia — disse a Rainha. — Ele contém feitiços que me permitirão recuperar o cativo da Corte Unseelie.
Cristina balançou a cabeça.
— Minha senhora — disse ela. Ela parecia muito doce e firme e não muito ansiosa. — Embora simpatizemos com a sua perda, é um grande perigo e trabalho para nós, apenas para ajudá-la. Penso que a senhora teria que oferecer algo bastante especial para obter nossa ajuda.
A rainha parecia divertida.
— Você é bastante decidida para alguém tão jovem. — Os anéis brilharam em seus dedos enquanto ela fazia um gesto. — Mas nossos interesses estão alinhados, veja. Vocês não querem o Volume Negro nas mãos do Rei, e eu também não. Ele ficará mais seguro aqui na minha Corte do que jamais estará no mundo, o rei também estará procurando por ele e somente no coração de Seelie o livro poderá ser protegido dele.
— Mas como saberemos que a senhora também não o usará contra os Caçadores de Sombras? — disse Emma com dificuldade. — Não foi há muito tempo que soldados Seelie atacaram Alicante.
— Os tempos mudam e também as alianças — disse a Rainha. — O rei agora é uma ameaça maior para mim do que os Nephilim. E vou provar minha lealdade. — Ela inclinou a cabeça para trás, e sua coroa reluziu. — Eu ofereço o fim da Paz Fria e o retorno de sua irmã, Alessa, para vocês.
— Isso está além do seu poder — disse Mark. Mas ele não conseguiu controlar sua reação ao ouvir o nome de sua irmã; seus olhos estavam excessivamente brilhantes. Assim como os de Julian. Alessa. Helen.
— Não está — disse a rainha. — Tragam-me o livro, e vou oferecer minhas terras e armas ao Conselho para que possamos derrotar o rei juntos.
— E se eles disserem não?
— Eles não dirão. — A rainha parecia extremamente confiável. — Eles entenderão que apenas aliando-se a nós serão capazes de derrotar o Rei, e que fazer essa aliança significa que eles devem primeiro acabar com a Paz Fria. É de minha compreensão que sua irmã foi punida com o castigo Nephilim do exílio porque ela é parte fada. É do poder do Inquisidor revogar essa sentença de exílio. Com o fim da Paz Fria, sua irmã estará livre.
A rainha não podia mentir, Emma sabia. Ainda assim, ela sentiu que de alguma forma estavam sendo enganados. Olhando ao redor, ela podia dizer pela expressão desconfortável dos outros que ela não era a única com esse pensamento. E ainda assim...
— A senhora deseja capturar as Terras Unseelie? — perguntou Julian. — E deseja que a Clave a ajude a fazer isso?
Ela acenou com uma mão preguiçosa.
— Que uso eu tenho para as Terras Unseelie? Eu não sou movida pela conquista. Outro será colocado no trono para substituir o Senhor das Sombras, um mais amigável às preocupações Nephilim. Isso deve interessar sua raça.
— E a senhora tem alguém em mente? — perguntou Julian.
E agora a rainha sorriu e conseguiu que ignorassem quão magra e desnutrida parecia. Sua beleza era gloriosa quando sorria.
— Tenho. — Ela se virou para as sombras atrás dela. — Traga-o para dentro.
Uma das sombras moveu-se e se separou. Era Fergus, viu Emma, quando ele atravessou uma porta arqueada e voltou um momento depois. Emma não achou que ninguém estivesse surpreso ao ver quem ele tinha consigo, piscando e assustado e mal-humorado como sempre.
— Kieran? — disse Mark, com espanto. — Kieran, o Rei da Corte Unseelie?
Kieran conseguiu parecer assustado e insultado de uma só vez. Ele tinha sido colocado em roupas novas, camisa de linho e calças e uma jaqueta marrom clara, embora ele ainda estivesse muito pálido e as ataduras envolvendo seu torso fossem visíveis através da camisa.
— Não — disse ele. — Absolutamente não.
A rainha começou a rir.
— Não Kieran — disse ela. — Seu irmão. Adaon.
— Adaon não vai querer isso — disse Kieran. Fergus segurava o príncipe firmemente pelo braço; Kieran parecia fingir que não estava acontecendo, como forma de manter sua dignidade. — Ele é leal ao rei.
— Então ele não parece muito amigável com Nephilim — observou Emma.
— Ele odeia a Paz Fria — respondeu a rainha. — Todos sabem disso; Todos sabem também que ele é leal ao Rei Unseelie e aceita suas decisões. Mas somente enquanto o rei viver. Se a Corte Unseelie for derrotada por uma aliança de Caçadores de Sombras e povo Seelie, será fácil colocar nossa escolha no trono lá.
— Você faz parecer tão simples — disse Julian. — Se não planeja colocar Kieran no trono, por que arrastá-lo aqui?
— Eu tenho outro uso para ele. Preciso de um enviado. Um cuja identidade eles conhecem. — Ela se virou para Kieran. — Você será meu mensageiro para a Clave. Você jurará lealdade a um desses Caçadores de Sombras, aqui. Por causa disso, e por ser filho do Rei das Sombra, quando falar com o Conselho, eles saberão que você está falando por mim, e que eles não serão enganados novamente como foram pelo mentiroso Meliorn.
— Kieran deve concordar com este plano — disse Mark. — Deve ser escolha dele.
— Bem, é escolha dele, certamente — concordou a rainha. — Ele pode concordar, ou provavelmente pode ser assassinado por seu pai. O rei não gosta quando cativos condenados escapam dele.
Kieran murmurou algo em voz baixa e disse:
— Jurarei lealdade a Mark. Eu farei o que ele me pede, e sigo os Nephilim por causa dele. E eu falarei com Adaon por sua causa, embora seja escolha dele no final.
Algo chamejou nos olhos de Julian.
— Não. Você não fará isso por Mark.
Mark olhou para o irmão, assustado; a expressão de Kieran ficou tensa.
— Por que não Mark?
— O amor complica as coisas — disse Julian. — Um juramento deve estar livre de emaranhados.
Kieran parecia ter explodido. O cabelo dele havia ficado completamente preto. Com um olhar irritado para Julian, ele caminhou em direção aos Caçadores de Sombras — e ajoelhou-se diante de Cristina. Todos pareceram surpresos, todos além de Cristina. Kieran jogou o cabelo escuro para trás e olhou para ela, um desafio em seus olhos.
— Eu juro lealdade para você, Senhora das Rosas.
— Kieran Fazedor de Reis — disse Mark, mudando o foco de Kieran para Cristina com um olhar absolutamente ilegível. Emma não podia culpá-lo. Ele devia estar constantemente esperando que Kieran se lembrasse do que havia esquecido. Ela sabia que ele temia a dor que as memórias trariam para ambos.
— Eu não estou fazendo isso por causa de Adaon ou da Paz Fria — disse Kieran. — Estou fazendo isso porque quero meu pai morto.
— Tranquilizante — murmurou Julian, quando Kieran levantou-se.
— Está resolvido, então — disse a rainha, ficando satisfeita. — Mas para que entendam: vocês podem prometer minha assistência e minha boa vontade ao Conselho. Mas eu não farei guerra contra o Trono das Sombras até eu ter o Volume Negro.
— E se ele fizer guerra contra você? — Julian perguntou.
— Ele vai fará guerra contra vocês primeiro — disse a rainha. — Tanto eu sei.
— E se não o encontrarmos? — perguntou Emma. — O livro, quero dizer.
 A Rainha fez um gesto preguiçoso com a mão.
— Então a Clave ainda terá minha boa vontade. Mas não acrescentarei meu povo ao seu exército até eu ter o Volume Negro.
Emma olhou para Julian, que deu de ombros como se quisesse dizer que não esperava que a rainha dissesse mais nada.
— Há uma última coisa — disse Julian. — Helen. Não quero aguardar que a Paz Fria acabe para recuperá-la.
A rainha ficou um pouco irritada.
— Há coisas que não posso fazer, pequeno Nephilim — falou, e foi a primeira coisa que ela disse que Emma realmente acreditava.
— A senhora pode. Jure que insistirá com a Clave para que Helen e Aline sejam suas embaixadoras. Uma vez que Kieran terminar seu dever e entregar sua mensagem ao Conselho, seu papel estará encerrado. Alguém mais terá que ir e voltar da Terra das Fadas para você. Que seja Helen e sua esposa. Eles terão que trazê-las de volta da Ilha Wrangel.
A Rainha hesitou um momento e depois inclinou a cabeça.
— Entenda, eles não têm nenhuma razão para fazer o que eu digo a menos que esperem ajuda de mim e dos meus. Então, quando tiverem o Volume Negro, sim, você tornar essa uma condição para a minha assistência. Kieran, eu o autorizo a fazer tal demanda quando chegar a hora.
— Eu farei — disse Kieran, e olhou para Mark.
 Emma quase podia ler a mensagem em seus olhos. Embora não seja por você.
— Adorável — disse a Rainha. — Vocês poderiam ser heróis. Os heróis que acabaram com a Paz Fria.
Cristina endureceu. Emma lembrou-se da outra garota dizendo a ela: Sempre foi minha esperança que um dia eu possa fazer parte de negociar um tratado melhor do que a Paz Fria. Algo mais justo para Seres do Submundo e aqueles Caçadores de Sombras que podem amá-los.
O sonho de Cristina. A irmã de Mark e Julian. Segurança para os Blackthorn de que Helen e Aline retornariam. A rainha lhes ofereceu todas as suas esperanças desesperadas, seus desejos secretos. Emma odiava ter medo, mas naquele momento, ela tinha medo da rainha.
— Está finalmente resolvido, crianças? — perguntou a Rainha, seus olhos brilhando. — Estamos de acordo?
— Você sabe que estamos. — Julian quase lançou as palavras. — Vamos começar a procurar, embora não tenhamos ideia de por onde começar.
— As pessoas vão para os lugares que significam algo para elas. — A Rainha inclinou a cabeça para o lado. — Annabel era uma Blackthorn. Saiba mais sobre o passado. Conheça sua alma. Você tem acesso aos artigos Blackthorn, às histórias que ninguém mais pode tocar. — Ela levantou-se. — Alguns do meu povo os visitaram uma vez quando eram jovens e felizes. Fade tinha uma casa na Cornualha. Talvez ainda exista. Poderia haver algo lá.
Ela começou a descer os degraus.
— E agora é hora de acelerar sua jornada. Vocês devem retornar ao mundo mundano antes que seja tarde demais. — Ela alcançou a base dos degraus. E se virou, magnífica em sua aparência, sua imperiosidade. — Entrem! Estamos esperando por vocês.
Duas figuras apareceram na entrada da sala, flanqueadas de cada lado pelos cavaleiros da libré da rainha. Emma reconheceu uma como Nene. Havia um olhar em seu rosto, de respeito e mesmo um pouco de medo, quando ela entrou. Ela estava acompanhando a formidável figura de Gwyn ap Nudd. Gwyn usava um gibão formal de veludo escuro, esticado em seus ombros musculosos.
Gwyn virou-se para Mark. Os olhos dele, azuis e pretos, fixavam-se com um olhar de orgulho.
— Você salvou Kieran — disse ele. — Eu não deveria ter duvidado. Fez tudo o que eu poderia pedir, e mais. E agora, por uma última vez, você cavalgará comigo e com a Caçada Selvagem. Devo levá-lo para sua família.


Os cinco seguiram a Rainha, Nene e Gwyn por uma série de corredores emaranhados até que chegaram num túnel inclinado por onde soprava ar fresco. Ele se abria para um espaço verde: não havia nenhum sinal de árvores, apenas grama com flores e acima o céu noturno girando com nuvens multicoloridas. Emma se perguntou se ainda era a mesma noite em que chegaram à Corte Seelie, ou se um dia inteiro tinha se passado no subsolo. Não havia como saber. O tempo na Terra das Fadas passava como uma dança cujos passos ela não conhecia.
Cinco cavalos estavam na clareira. Emma reconheceu um como Lança do Vento, a montaria de Kieran, que ele montara na batalha com Malcolm. Ele relinchou quando viu Kieran e escoiceou a terra.
— Isso foi o que a puca me prometeu — Mark falou em voz baixa. Ele estava de pé atrás de Emma, os olhos fixos em Gwyn e nos cavalos. — Que, se eu fosse para a Terra das Fadas, eu cavalgaria novamente com a Caçada Selvagem.
Emma estendeu a mão e apertou a dele. Pelo menos para Mark, a promessa da puca se tornara realidade sem uma amarga revolta. Ela esperava que o mesmo valesse para Julian e Cristina.
Cristina se aproximava de um ruão vermelho que pateava no chão. Ela murmurou suavemente para o cavalo até que ele se acalmou, e montou sobre suas costas, aproximando-se para acariciar o pescoço do cavalo. Julian subiu em uma égua negra cujos olhos eram de um estranho tom de verde. Ele parecia imperturbável. Os olhos de Cristina brilhavam de prazer. Ela encontrou o olhar de Emma e sorriu como se mal pudesse se conter. Emma se perguntou por quanto tempo Cristina deveria ter sonhado em cavalgar na companhia e nos animais de fadas.
Ela ficou ali, esperando ouvir Gwyn chamar seu nome. Por que havia apenas cinco cavalos, não seis? Sua pergunta foi respondida quando Mark se aproximou de Lança do Vento e subiu na sela. A flecha de elfo em volta da garganta de Mark refletia a luz das estrelas multicoloridas.
Nene aproximou-se de Lança do Vento e pegou as mãos de Mark, ignorando Kieran. Emma não pôde ouvir o que ela sussurrava para ele, mas havia uma dor profunda no rosto dela. Os dedos de seguraram os dela por um momento antes de liberá-los. Nene virou-se e voltou para a colina.
Silencioso, Kieran colocou-se no lugar atrás de Mark, mas ele não tocou o outro menino.
Mark virou o corpo em seu assento.
— Você está preocupado? — perguntou a Kieran.
Kieran balançou a cabeça.
— Não. Porque estou seguro com você.
O rosto de Mark apertou.
— Sim, você está.
Ao lado de Emma, a Rainha riu suavemente.
— Tantas mentiras em apenas três palavras — disse ela. — E ele nem disse “eu te amo”.
Um lampejo de raiva passou por Emma.
— A senhora sabe sobre mentiras — disse ela. — Na verdade, se me perguntarem, a maior mentira que o Povo das Fadas já contou é que eles não as contam.
A rainha ficou ereta. Ela parecia olhar para Emma a partir de uma grande altura. As estrelas se moveram atrás dela, azuis e verdes, roxas e vermelhas.
— Por que está com raiva, menina? Eu lhe ofereci um negócio justo. Tudo o que você pode desejar. Eu lhe dei uma hospedagem justa. Mesmo as roupas que veste são roupas de fada.
— Eu não confio em você — Emma falou sem rodeios. — Nós negociamos com a senhora porque não tínhamos escolha. Mas você nos manipulou a cada passo do caminho – mesmo o vestido que uso é uma manipulação. — A rainha arqueou uma sobrancelha. — Além disso — continuou Emma — a senhora se aliou a Sebastian Morgenstern. Ajudou-o a fazer a Guerra Maligna. Por causa da guerra, Malcolm conseguiu o Volume Negro e meus pais morreram. Por que eu não deveria culpá-la?
Os olhos da rainha percorreram Emma, e agora Emma podia ver neles o que a rainha se forçara a esconder antes: sua raiva e sua crueldade.
— É por isso que se estabeleceu como protetora dos Blackthorn? Porque não pôde salvar seus pais, salvará a eles, sua família improvisada?
Emma encarou a Rainha por um longo momento antes de responder.
— Pode apostar sua bunda que sim — disse ela. Sem outro olhar para a governante da Corte Seelie, Emma caminhou para os cavalos da Caçada.


Julian nunca gostou muito de cavalos, embora tivesse aprendido a montá-los, como a maioria dos Caçadores de Sombras. Em Idris, onde carros não funcionavam, eles ainda eram a principal forma de transporte. Ele aprendeu com um pônei maluco que ficava fazendo curvas e passando por ramos baixos na tentativa de derrubá-lo.
O cavalo que Gwyn lhe atribuíra tinha um olhar sombrio em seus olhos horríveis e verdes que não indicavam ser muito melhor. Julian se preparou para uma subida repentina, mas quando Gwyn deu a ordem, o cavalo simplesmente deslizou no ar como um brinquedo erguido em uma corda.
Julian ofegou alto com o choque. Ele encontrou suas mãos mergulhando na crina do cavalo, agarrando forte, enquanto os outros se precipitavam no ar ao redor dele — Cristina, Gwyn, Emma, Mark e Kieran. Por um momento, eles pairaram, sombras sob à luz da lua.
Então os cavalos dispararam. O céu estava borrado acima deles, as estrelas transformando-se em riscos de tinta cintilante e multicolorida. Julian percebeu que sorria — sorria verdadeiramente, do jeito que raramente fazia desde criança. Ele não pôde evitar. Enterrado na alma de todos, ele pensou enquanto giravam durante a noite, devia estar o desejo de voar.
E não da maneira como os mundanos faziam, presos dentro de um tubo de metal. Mas dessa maneira, explodindo através de nuvens tão macias quanto baixas, o vento acariciando sua pele. Ele olhou para Emma. Ela estava inclinada sobre a crina de seu cavalo, as longas pernas curvadas ao redor do corpo do animal, seu cabelo brilhante tremulando como uma bandeira. Atrás dela estava Cristina, que tinha as mãos erguidas no ar e gritava de felicidade.
— Emma! — ela chamou. — Emma, olha, sem as mãos!
Emma olhou para trás e riu alto. Mark, que montava Lança do Vento com um ar de familiaridade, Kieran agarrando-se ao seu cinto com uma mão, não parecia tão divertido.
— Use suas mãos! — ele gritou. — Cristina! Não é uma montanha-russa!
— Nephilim são insanos! — Kieran exclamou, afastando-lhe o cabelo.
Cristina apenas riu, e Emma olhou para ela com um sorriso largo, seus olhos brilhando como as estrelas acima deles, que voltaram a ser as estrelas branca-prateadas do mundo mundano.
Sombras surgiram diante deles, brancas, pretas e azuis. As falésias de Dover, pensou Julian, e sentiu uma dor em seu interior por a viagem estar acontecendo tão rápido. Ele virou a cabeça e olhou para o irmão. Mark estava sentado em Lança do Vento como se tivesse nascido nas costas de um cavalo. O vento batia em seus cabelos pálidos, revelando suas orelhas pontudas.
Ele também sorria, um sorriso calmo e secreto, o sorriso de alguém fazendo o que amava.
Muito abaixo deles, o mundo girava, um mosaico de campos preto e prateados, colinas sombrias e rios luminosos e sinuosos. Era lindo, mas Julian não podia tirar os olhos de seu irmão. Então esta é a Caçada Selvagem, pensou ele. Essa liberdade, essa extensa e feroz alegria. Pela primeira vez, ele entendeu como e por que a escolha de Mark de ficar com a família talvez não tenha sido fácil. Pela primeira vez, ele pensou maravilhado sobre o quanto seu irmão devia amá-lo, tendo abandonado o céu por causa dele.

2 comentários:

  1. Vai dar merda
    Vai dar merda vai
    Vai dar merda vai
    dar merda vaaaaaai

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Boa leitura :)