20 de novembro de 2017

Capítulo 13

Marvin subia o corredor, ainda gemendo.
 — ...e, além disso, os meus diodos do lado esquerdo doem que é um horror...
— Não diga — disse Arthur, irritado, caminhando a seu lado. — É mesmo?
— É, sim — disse Marvin. — Já pedi pra trocarem esses diodos, mas ninguém me dá atenção.
— É. Sei.
Ford emitia assobios e outros sons vagos, e repetia em voz baixa sem
parar:
— Ora, ora; quer dizer que o Zaphod Beeblebrox...
De repente Marvin parou e levantou um dos braços.
— Você sabe o que aconteceu agora, não é?
— Não. O quê? — perguntou Arthur, que no fundo não estava interessado em saber.
— Chegamos a mais uma daquelas portas.
Havia uma porta de correr dando para o corredor. Marvin encarou-a, desconfiado.
— E aí? — perguntou Ford, impaciente. — Vamos entrar?
— Vamos entrar? — debochou Marvin. — É. Aqui é a entrada da ponte de comando. Me mandaram buscar vocês e trazer até aqui. Provavelmente é a tarefa de hoje que vai exigir mais das minhas capacidades intelectuais.
Lentamente, cheio de asco, o robô aproximou-se da porta, como um caçador tocaiando sua presa. De repente a porta abriu-se.
— Muito obrigada  disse ela — por fazer uma simples porta muito feliz.
No tórax de Marvin, algumas engrenagens rangeram.
— Gozado — disse ele, cavernoso —, justamente quando você pensa que a vida não pode ser pior, de repente ela piora ainda mais.
Jogou-se pela porta adentro e deixou Ford e Arthur olhando um para a cara do outro e dando de ombros. Ouviram a voz de Marvin vindo de dentro da cabine:
— Imagino que vocês queiram ver os alienígenas agora. Querem que eu fique sentado num canto criando ferrugem ou fique apodrecendo em pé mesmo?
— É só mandar que eles entrem, está bem, Marvin? — disse uma outra voz. Arthur olhou para Ford e surpreendeu-se ao ver que ele estava rindo.
— O que...
— Psss — disse Ford. — Vamos. E passou pela porta.
Arthur veio atrás, nervoso, e viu com espanto um homem refestelado numa cadeira com os pés em cima do painel central de controle, palitando os dentes da cabeça direita com a mão esquerda. A cabeça direita parecia estar inteiramente absorta nesta tarefa, mas a esquerda sorria de modo jovial e simpático. Havia um número razoavelmente grande de coisas que Arthur via sem acreditar no que estava vendo. Seu queixo ficou caído por algum tempo.
O homem esquisito acenou preguiçosamente para Ford, e, com um tom de voz de informalidade e descontração que era absolutamente falso, disse:
— Oi; Ford, tudo bem? Um prazer ver você por aqui.
 Ford não fez por menos:
—Quanto tempo, Zaphod! Você está ótimo, esse terceiro braço ficou muito bem em você. Que beleza de nave você roubou, hein?
Arthur arregalou os olhos para Ford.
— Quer dizer que você conhece esse cara? — perguntou, apontando para Zaphod com um dedo trêmulo.
— Se eu o conheço! — exclamou Ford. — Ora, ele... — Fez uma pausa e resolveu começar as apresentações por Zaphod. — Ah, Zaphod, este aqui é Arthur Dent, amigo meu. Eu o salvei quando o planeta dele explodiu.
— Ah, sei — disse Zaphod. — Oi, Arthur! Que bom que você escapou, não é?
Sua cabeça direita olhou ao redor com indiferença, disse “oi” e entregou-se de novo ao palito.
Ford prosseguiu:
— Arthur, este aqui é meu semiprimo Zaphod Beeb...
— Já nos conhecemos — disse Arthur, seco.
Quando você está correndo na estrada, na pista de alta velocidade, e passa na maior tranquilidade uma fileira de carros que estão dando tudo, e você está muito satisfeito da vida, e de repente você vai mudar a marcha e em vez de passar da quarta para terceira passa por engano para a primeira, e o motor é cuspido para fora do capo, todo arrebentado, a sensação que você tem é mais ou menos a que Ford sentiu quando ouviu o comentário de Arthur.
— Ah... o quê?
— Eu disse que já nos conhecemos.
Zaphod levou um susto, enfiando o palito na gengiva.
— Espere aí, você disse que nós... Quer dizer que... ah...
Ford virou-se para Arthur com raiva nos olhos. Agora que ele se sentia em casa de novo, de repente começou a arrepender-se de ter trazido consigo aquele ser primitivo e ignorante, que entendia tanto de política galáctica quanto uma mosca inglesa entende da vida em Pequim.
— Como é que você pode conhecê-lo? — perguntou ele.
Este aqui é Zaphod Beeblebrox de Betelgeuse, e não o Martin Smith lá de Croydon.
— Pois já nos conhecemos — teimou Arthur, frio. — Não é mesmo, Zaphod Beeblebrox... ou, se você preferir, Phil?
— O quê? — gritou Ford.
— Você vai ter que me refrescar a memória — disse Zaphod. — Tenho uma cabeça horrível para espécies.
— Foi numa festa — insistiu Arthur.
— Olhe, eu acho difícil — disse Zaphod.
— Pare com isso, Arthur! — ordenou Ford.
 Arthur não desistiu:
— Uma festa, seis meses atrás. Na Terra... Na Inglaterra...
 Zaphod sacudiu a cabeça, apertando os lábios e sorrindo.
— Londres — prosseguiu Arthur. — Islington.
— Ah — disse Zaphod, subitamente com um olhar cheio de culpa. — Aquela festa.
— Essa foi demais para Ford. Ele olhava de Arthur para Zaphod e de
Zaphod para Arthur.
— Você está me dizendo que você também esteve naquela porcaria daquele planetinha?
— Não, claro que não — disse Zaphod, sorridente. — Bem, pode ser que eu tenha dado um pulinho lá, só de passagem, sabe, indo pra um outro lugar qualquer...
— Pois eu fiquei preso lá 15 anos!
— Bem, como eu poderia saber?
— Mas o que é que você estava fazendo lá?
— Nada, só olhando.
— Ele entrou numa festa de penetra — disse Arthur, tremendo de raiva. — Uma festa a rigor.
— Você não faz por menos, não é? — disse Ford.
—Nessa festa — prosseguiu Arthur —, tinha uma garota que... ora, deixe isso pra lá. O planeta todo desapareceu, afinal...
— Você também não pára de ruminar sobre essa porcaria desse planeta — disse Ford. — Quem era a moça?
— Ah, uma garota, sei lá. É, admito que eu não estava conseguindo me dar bem com ela. Tentei a noite inteira. Mas ela era um barato. Linda, charmosa, inteligentíssima; finalmente eu consegui entrar na dela e estava levando uma conversa quando este seu amigo me aparece em cena e diz assim: Ô coisa linda, esse cara está chateando você? Por que você não vem conversar comigo? Eu sou de outro planeta. Nunca mais vi a garota.
— Zaphod! — exclamou Ford.
— É — disse Arthur, olhando fixamente para ele e tentando não se sentir ridículo. — Ele só tinha dois braços e uma cabeça e se apresentou como Phil, mas...
— Mas você tem que reconhecer que ele era mesmo de outro planeta — disse Trillian, aproximando-se, vindo do outro lado do recinto. Dirigiu a Arthur um sorriso agradável, que o atingiu como se fosse uma tonelada de tijolos, e depois voltou aos controles da nave.
Fez-se silêncio por alguns segundos, e então do cérebro aturdido de Arthur escaparam algumas palavras:
— Tricia McMillan? O que você está fazendo aqui?
— O mesmo que você — disse ela. — Peguei uma carona. Afinal, formada em matemática e astrofísica, o que mais eu podia fazer? Se não viesse pra cá, ia ter que continuar na fila do auxílio-desemprego.
— Infinito menos um — disse o computador. — Soma de improbabilidade agora completa.
Zaphod olhou a seu redor, para Ford, Arthur e depois Trillian.
— Trillian — disse ele —, esse tipo de coisa vai acontecer toda vez que a gente usar o gerador de improbabilidade?
— Creio que muito provavelmente — disse ela.

Um comentário:

  1. Muito boa essa improbabilidade. Não achei que o livro seria assim tão comico e ao mesmo tempo tão cabeça.

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Boa leitura :)