15 de novembro de 2017

Capítulo 13

O velho senta-se com cuidado na cadeira e dá um suspiro, como se atravessar a sala tivesse sido um grande esforço. Seu filho, de pé com o cotovelo apoiado na mão, observa com ansiedade.
Paul McCafferty aguarda, depois olha para Miriam, sua secretária.
— Aceita um chá ou um café? — pergunta ela.
O velho recusa com um pequeno gesto de cabeça.
— Não, obrigado.
Seu olhar parece dizer: Vamos nos limitar a prosseguir, sim?
— Então, com licença.
Miriam se retira do pequeno escritório.
Paul abre a pasta. Põe as mãos sobre a mesa, sentindo os olhos do Sr. Nowicki sobre ele.
— Bem, pedi que viesse aqui hoje porque tenho novidades. Quando me procurou, alertei-o que este caso poderia ser complicado pela falta de procedência. Como sabe, muitas galerias relutam em entregar obras sem uma prova mais concreta de...
— Eu me lembro claramente do quadro — diz o velho levantando a mão.
— Eu sei. E o senhor sabe que a galeria em questão relutou muito em tratar conosco, apesar das lacunas em sua própria autenticidade. Este caso era complicado pela valorização acentuada da obra. E foi particularmente difícil porque a lembrança que o senhor tinha não era suficiente para nos dar uma base.
— Como vou descrever um desenho desses com perfeição? Eu tinha dez anos quando fomos obrigados a sair de casa. Dez anos. Poderia me dizer o que havia pendurado nas paredes da casa dos seus pais quando o senhor tinha dez anos?
— Não, Sr. Nowicki; eu não poderia.
— Será que tínhamos que saber na época que nunca nos permitiriam voltar à nossa própria casa? É absurdo esse sistema. Por que sou obrigado a provar que roubaram algo da gente? Depois de tudo por que passamos...
— Pai, já discutimos isso...
O filho, Jason, põe a mão no braço do pai, e o velho contrai os lábios com relutância, como se estivesse acostumado a ser acalmado.
— É sobre isso que eu queria lhe falar — diz Paul. — Eu o alertei que não tínhamos uma base mais forte para ganhar a causa. Quando nos reunimos em janeiro, o senhor me disse algo sobre a amizade de sua mãe com um vizinho, Arthur Bohmann, que se mudou para os Estados Unidos.
— Sim. Eles eram bons vizinhos. Sei que ele viu o quadro na nossa casa. Ele nos visitou muitas vezes. Eu jogava bola com a filha dele... mas ele morreu. Eu lhe disse que ele morreu.
— Bem, consegui localizar essa família sobrevivente em Des Moines. E a neta dele, Anne-Marie, folheou os álbuns de família e, dentro de um deles, encontrou isto. — Paul pega uma folha de papel na pasta e a passa por cima da mesa para o Sr. Nowicki.
Não é uma cópia perfeita, mas a imagem em preto e branco é bem nítida.
Uma família está sentada num sofá estofado. Uma mulher sorri com moderação, tendo ao colo um bebê de olhinhos miúdos. Um homem de vastos bigodes está reclinado, o braço ao longo do encosto. Um menino banguela abre um sorriso rasgado. Atrás deles, pendurado na parede, há um quadro de uma jovem dançando.
— É este — diz baixinho o Sr. Nowicki, levando à boca uma mão artrítica. — O Degas.
— Comparei-o com o banco de imagens, depois com a Fundação Edgard Degas. Mandei este quadro para os advogados deles, com uma declaração da filha de Arthur Bohmann, dizendo que ela também se lembrava de ter visto esse quadro na casa dos pais do senhor, e de ter ouvido seu pai contar como o comprou.
Ele faz uma pausa.
— Mas isso não é tudo de que Anne-Marie se lembra. Ela diz que depois que os pais do senhor fugiram, Arthur Bohmann foi uma noite ao apartamento tentar recolher os objetos de valor deixados por sua família. Ele contou à mulher, a avó de Anne-Marie, que a princípio teve a impressão de ter chegado a tempo, pois o apartamento parecia intacto. Só quando estava saindo é que deu por falta do quadro.
“Ela diz que como tudo o mais estava intacto o avô sempre presumiu que sua família tivesse levado o quadro. E então, claro, uma vez que vocês só passaram a se corresponder anos mais tarde, o assunto nunca surgiu.”
— Não — diz o velho, olhando a imagem. — Não. Não tínhamos nada. Só as alianças de casamento e noivado da minha mãe. — Seus olhos ficam cheios d’água.
— É possível que os nazistas tenham marcado o quadro. Há provas de retirada sistemática de importantes obras de arte durante o período nazista.
— Foi o Sr. Dreschler. Ele contou para os nazistas. Eu sempre soube que ele havia contado. E chamava meu pai de amigo!
As mãos dele tremem sobre os joelhos. Não é uma reação incomum, apesar dos mais de sessenta anos passados. Paul vê muitos dos reclamantes lembrarem-se de imagens e acontecimentos dos anos 1940 com muito mais clareza do que se lembram de como chegaram ao seu escritório.
— Sim, bem, nós pesquisamos os registros do Sr. Dreschler, e há uma quantidade de transações não explicadas com os alemães; uma delas se refere simplesmente a um Degas. Não está claro a que Degas, mas as datas e o fato de que não podiam ser muitos em sua área naquela época reforçam o argumento do senhor.
O velho se vira devagar e olha para o filho. Está vendo?, diz sua expressão.
— Bem, Sr. Nowicki, ontem à noite recebi uma resposta da galeria. Quer que eu a leia?
— Sim.

Prezado Sr. McCafferty,
À luz das novas evidências apresentadas e de nossas lacunas quanto à origem, bem como de nossa descoberta da extensão do sofrimento passado pelo Sr. Nowicki e sua família, decidimos não contestar sua ação reivindicando o quadro Femme, dansant, de Degas. Os curadores da galeria instruíram seus advogados a não seguir adiante, e aguardamos suas instruções com relação à transferência do objeto físico.

Paul aguarda.
O velho parece imerso em pensamentos. Finalmente, ergue os olhos.
— Estão devolvendo o quadro?
Ele faz que sim com a cabeça. Não consegue deixar de sorrir. Foi um caso longo e difícil, e sua solução foi gratificantemente rápida.
— Estão mesmo nos devolvendo o quadro? Concordam que foi roubado de nós?
— Vocês só precisam informar para onde querem que ele seja enviado.
Há um longo silêncio. Jason Nowicki tira os olhos do pai. Levanta as mãos e enxuga as lágrimas dos olhos.
— Me desculpe — diz. — Não sei por quê...
— Isso não é incomum. — Paul puxa uma caixa de lenços de papel de debaixo da mesa e a entrega para ele. — Esses casos são sempre sentimentais. Nunca é apenas um quadro.
— Custou muito. A perda daquele Degas foi como um lembrete constante do que meu pai e meus avós sofreram durante a guerra. E eu não tinha certeza se o senhor... — Ele bufa. — É incrível. Localizar a família daquele homem. Disseram que o senhor era bom, mas...
Paul balança a cabeça.
— Só estou fazendo o meu trabalho.
Ele e Jason olham para o velho, que continua contemplando a imagem do quadro. Parece ter encolhido, como se tivesse sido esmagado pelo peso dos acontecimentos de várias décadas atrás. A mesma ideia parece ocorrer aos dois ao mesmo tempo.
— Você está bem, pai?
— Sr. Nowicki?
Ele se endireita um pouco, como se tivesse acabado de se lembrar de onde estão. Sua mão está pousada na fotografia.
Paul se recosta na cadeira, com a caneta fazendo uma ponte entre as duas mãos.
— Pois bem. Voltando ao quadro. Posso recomendar uma empresa especializada em transporte de obras de arte. Precisam de um veículo de alta segurança, climatizado e com suspensão a ar. E eu também sugiro que façam um seguro da obra antes que ela chegue às suas mãos. Não preciso lhes dizer que um quadro como esse é...
— O senhor tem contatos na casa de leilões?
— Como?
O Sr. Nowicki recobrou as cores.
— Tem contatos em alguma casa de leilões? Falei com uma há pouco, mas eles queriam muito dinheiro. Vinte por cento, acho que era. Mais o imposto. É muito.
— O senhor... quer avaliá-lo para o seguro?
— Não. Quero vendê-lo. — Ele abre a carteira de couro gasta sem erguer os olhos e guarda a fotografia lá dentro. — Aparentemente, é um bom momento para vender. Os estrangeiros estão comprando tudo...
Faz um gesto de desdém com a mão.
Jason está olhando surpreso para ele.
— Mas, pai...
— Isso tudo foi muito caro. Temos contas a pagar.
— Mas você disse...
O Sr. Nowicki vira as costas para o filho.
— Será que pode ver isso para mim? Presumo que vai me mandar a fatura pelos seus serviços.
Ali de dentro, ouve-se uma porta bater na rua. O ruído ecoa na fachada dos prédios. Paul ouve a conversa abafada de Miriam ao telefone na sala ao lado.
Engole em seco. Mantém a voz serena.
— Farei isso.
Há um longo silêncio. Finalmente, o velho se levanta da cadeira.
— Bem, essa é uma notícia muito boa — diz afinal, e lhe dá um sorriso forçado. — Muito boa mesmo. Muito obrigado, Sr. McCafferty.
— Tudo bem — diz ele, e a seguir levanta-se e estende a mão.
Quando eles saem, Paul McCafferty se senta na cadeira. Fecha a pasta, depois os olhos.

* * *

— Você não pode tomar isso como uma coisa pessoal — diz Janey.
— Eu sei. É só...
— Não é da nossa conta. Nossa função é apenas recuperar.
— Eu sei. É que o Sr. Nowicki ficou falando da importância do quadro para a família e quanto ele representava tudo que tinham perdido e...
— Deixe para lá, Paul.
— Isso nunca aconteceu na Squad. — Ele se levanta e fica andando pela sala entulhada de Janey. Para perto da janela e olha para fora. — A gente devolvia as coisas para as pessoas e eles ficavam felizes.
— Você não quer voltar para a polícia.
— Eu sei. Só estou comentando. Sempre acontece isso comigo com essas ações de restituição.
— Bem, você ganhou os nossos honorários numa ação em que eu não tinha certeza de que seria capaz de ganhar. E esse dinheiro todo é para sua mudança de casa, não é? Então nós dois devíamos estar felizes. — Janey empurra uma pasta por cima de sua mesa. — Isto deve animá-lo. Chegou ontem à noite. Parece bem simples.
Paul tira os documentos de dentro da pasta. Tratam do desaparecimento, em 1916, do retrato de uma mulher, cujo roubo só foi descoberto uma década atrás, em uma auditoria da obra do artista feita por seus familiares sobreviventes. E ali, na página seguinte, uma imagem do quadro em questão, agora pendurado descaradamente numa parede minimalista. Publicado numa revista sofisticada há vários meses.
— Primeira Guerra Mundial?
— O estatuto não se aplica, aparentemente. Parece bem definido. Eles dizem ter provas de que os alemães roubaram o quadro, durante a guerra, e ele nunca mais foi visto. Alguns anos atrás, um membro da família abre uma revista antiga e adivinha o que está nas duas páginas centrais?
— Eles têm certeza de que é o original?
— O quadro nunca foi reproduzido.
Paul balança a cabeça, esquecendo-se por um instante dos acontecimentos da manhã e notando uma breve e involuntária pontada de excitação.
— E aí está ele. Quase cem anos depois. Simplesmente pendurado na parede de um casal rico.
— O artigo se limita a mencionar o centro de Londres. Todos aqueles artigos da Ideal Home fazem isso. Eles não querem encorajar os ladrões dando o endereço exato. Mas estou calculando que não deve ser muito difícil localizá-los. Menciona o casal, afinal de contas.
Paul fecha a pasta. Continua visualizando a boca contraída do Sr. Nowicki, o jeito que o filho olhara para o pai, como se nunca o tivesse visto antes.
“Você é americano, não é?”, dissera-lhe o velho, quando estavam parados à porta da sala. “Não pode entender.”
A mão de Janey está pousada de leve em seu braço.
— Como vai indo a procura pela casa?
— Nada bem. Tudo o que é bom já foi comprado por quem pode pagar à vista.
— Bem, se você quiser se animar, a gente podia sair para comer alguma coisa. Não vou fazer nada hoje à noite.
Paul dá um sorriso. Tenta não demonstrar ter reparado no jeito que Janey leva a mão ao cabelo, no ricto dolorosamente esperançoso de seu sorriso. Ele se afasta.
— Vou trabalhar até tarde. Tenho uns casos que quero resolver. Mas, obrigado. Vou pegar o arquivo novo amanhã logo cedo.

* * *

Liv chega em casa às cinco da tarde, depois de ter feito comida para o pai e passado aspirador no chão da casa dele. Caroline raramente passa aspirador, e as cores das passadeiras persas desbotadas ficaram visivelmente mais realçadas quando ela terminou. À sua volta, a cidade ferve num dia quente de fim de verão, o barulho do tráfego e o cheiro de diesel subindo do asfalto.
— Oi, Fran — diz, ao chegar à porta principal.
A mulher, com um chapéu de lã enterrado na cabeça apesar do calor, faz um cumprimento de cabeça. Ela está vasculhando o interior de uma sacola plástica. Tem uma coleção sem fim delas, amarradas com barbante ou enfiadas umas dentro das outras, que separa e rearruma sem parar. Hoje passou suas duas caixas, cobertas de lona azul, para a proteção relativa da porta do zelador. O zelador anterior tolerou Fran durante anos, até usando-a como ponto de entrega de encomendas não oficial. O atual, diz ela, quando Liv lhe leva um café, fica ameaçando tirá-la dali. Alguns moradores se queixaram de que ela está baixando o padrão.
— Você teve uma visita.
— O quê? Ah. A que horas ela saiu?
Liv não deixara nem bilhete nem chave. Ela se pergunta se devia passar no restaurante para ver se Mo está bem. Mas sabe que não vai passar. Sente-se vagamente aliviada com a perspectiva de uma casa silenciosa e vazia.
Fran dá de ombros.
— Quer beber algo? — pergunta Liv, ao abrir a porta.
— Um chá seria ótimo — diz Fran, acrescentando: — Três torrões de açúcar, por favor. — Como se Liv nunca tivesse feito chá para ela antes. E então, com o ar preocupado de quem tem muito o que fazer para ficar parada conversando, ela volta para as suas sacolas.

* * *

Liv sente o cheiro de cigarro no momento em que abre a porta. Mo está sentada de pernas cruzadas no chão, ao lado da mesa de centro de vidro. Com uma das mãos segura um livro e com a outra, um cigarro pousado num pires branco.
— Oi — diz, sem erguer os olhos.
Liv olha para ela, com a chave na mão.
— Eu... eu achei que você tinha ido embora. Fran disse que você já tinha saído.
— Ah. A senhora lá embaixo? É. Acabei de voltar.
— Voltar de onde?
— Do meu turno da manhã.
— Você trabalha de dia?
— Numa casa de assistência social. Espero não ter incomodado você hoje de manhã. Tentei sair sem fazer barulho. Achei que aquele lance todo da gaveta da mesa poderia acordá-la. Levantar às seis da manhã meio que mata aquele clima de “seja bem-vindo aqui em casa”.
— Lance da gaveta da escrivaninha?
— Você não deixou a chave.
Liv franze a testa. Tem a sensação de estar dois passos atrás nessa conversa.
Mo pousa o livro e fala devagar.
— Precisei dar uma vasculhada na casa até encontrar uma chave reserva na gaveta da sua escrivaninha.
— Você mexeu na gaveta da minha escrivaninha?
— Pareceu o lugar mais óbvio. — Ela vira uma página. — Tudo bem. Já botei no lugar. — Acrescenta, baixinho: — Cara, você gosta de tudo arrumado.
Ela volta para o livro. O livro de David, Liv nota ao olhar a lombada. É um exemplar muito manuseado de Introdução à arquitetura moderna, um dos favoritos dele. Ela ainda consegue vê-lo lendo este livro, estendido no sofá. Ver o livro na mão de outra pessoa lhe dá um aperto no estômago de aflição. Liv larga a bolsa e vai até a cozinha.
As bancadas de granito estão cobertas de migalhas de torrada. Há duas canecas em cima da mesa, e dois círculos marrons marcados na superfície. Ao lado da torradeira, fatias de pão de forma desmoronam de um saco meio aberto. Há um sachê de chá usado na beirada da pia e uma faca espetada num tablete de manteiga sem sal, parecendo o peito de uma vítima de assassinato.
Liv fica ali parada um instante, depois começa a arrumar, varrendo os restos para a lixeira da cozinha, botando xícaras e pratos na máquina de lavar. Aperta o botão para abrir as persianas do teto, e, quando elas estão completamente abertas, aperta o botão que abrirá o teto de vidro, abanando com a mão o cheiro de cigarro para longe.
Ao se virar, encontra Mo parada na porta.
— Não dá para você fumar aqui dentro. Simplesmente não dá — diz ela.
Há um tom esquisito de pânico em sua voz.
— Ah. Claro. Eu não tinha percebido que tinha um deque na casa.
— Não. No deque também não dá. Por favor. Não fume aqui.
Mo observa a arrumação frenética de Liv na bancada.
— Ei, eu faço isso antes de sair. Mesmo.
— Está tudo bem.
— É óbvio que não está, do contrário você não estaria tendo um ataque do coração. Olhe, deixe que eu limpo a minha própria bagunça. Mesmo.
Liv para. Sabe que está fazendo uma tempestade em copo d’água, tendo uma reação exagerada, mas não consegue evitar. Ela só quer que Mo vá embora.
— Tenho que levar uma xícara de chá para Fran — diz.
Ela desce até o armazém com o sangue latejando nos ouvidos.
Quando volta, a cozinha está arrumada. Mo circula em silêncio pelo cômodo.
— Acho que tenho certa preguiça de arrumar tudo na hora — diz, quando Liv entra. — É esse lance todo de trabalhar sempre arrumando. Para gente velha, cliente em restaurante... A gente faz isso o tempo todo no trabalho que acaba se rebelando em casa.
Liv tenta não se irritar ao ouvi-la usar esse termo. É então que se dá conta de outro cheiro, sobrepujado pelo odor do cigarro. E a luz do forno está acesa.
Ela se abaixa para olhar lá dentro e vê sua assadeira Le Creuset com alguma coisa cheia de queijo borbulhando na superfície.
— Eu fiz o jantar. Macarrão ao forno. Simplesmente misturei tudo que consegui arranjar na loja da esquina. Vai ficar pronto daqui a uns dez minutos. Eu ia jantar mais tarde, mas como você está aqui...
Liv não se lembra da última vez em que acendeu o forno.
— Ah — diz Mo, pegando as luvas de forno. — E ligaram da prefeitura.
— O quê?
— É. Tem algo a ver com imposto.
Liv fica gelada.
— Eu falei que era você, então ele me disse quanto você está devendo. É muito.
Ela lhe entrega um pedaço de papel com algo rabiscado.
Quando Liv abre a boca para protestar, ela diz:
— Bem, eu tinha que saber que ele estava falando com a pessoa certa. Pensei que ele tivesse se enganado.
Liv já sabia mais ou menos quanto seria, mas ver o valor escrito ainda é um choque. Sente os olhos de Mo sobre ela, e por meio de seu silêncio nada típico, deduz que Mo adivinhou a verdade.
— Ei, sente-se aí. Tudo melhora quando a gente está de barriga cheia.
Ela se sente sendo conduzida para uma cadeira. Mo abre a porta do forno, e o cheiro desconhecido de comida feita em casa inunda a cozinha.
— E se não melhorar, bem, conheço um sofá muito confortável.

* * *

A comida está boa. Liv come um prato cheio e depois fica sentada com as mãos na barriga, perguntando-se por que está tão admirada com o fato de Mo saber realmente cozinhar.
— Obrigada — diz enquanto Mo liquida o dela. — Estava muito bom. Não me lembro quando foi a última vez que comi tanto.
— Tudo bem.
E agora você tem que ir embora. As palavras que estavam em seus lábios nas últimas vinte horas não saem. Ela não quer ainda que Mo vá embora. Não quer ficar sozinha com o pessoal da prefeitura e suas cobranças fiscais, e seus próprios pensamentos incontroláveis. De repente, sente-se agradecida por ter alguém com quem conversar; uma proteção humana naquele dia.
— Então, Liv Worthing. Esse lance todo de perder o marido...
Liv junta os talheres.
— Prefiro não falar nisso.
Sente que Mo está olhando para ela.
— Tudo bem. Nada de marido falecido. Então, e os namorados?
— Namorados?
— Desde... o Que Não Se Pode Mencionar. Alguém sério?
— Não.
Mo pega um pedaço de queijo ao lado da assadeira.
— Sexo sem compromisso?
— Não.
Mo inclina a cabeça.
— Nem umazinha? Faz quanto tempo?
— Quatro anos — resmunga Liv.
É mentira. Houve uma, há três anos, depois que as amigas bem-intencionadas haviam insistido no fato de que ela precisava “seguir em frente”.
Como se David tivesse sido uma espécie de obstáculo. Ela bebera quase até sair do ar para conseguir fazer aquilo, e depois ficou aos prantos, inconsolável, sentindo-se culpada e com nojo de si mesma. O homem, cujo nome ela nem se lembra, mal conseguira conter o alívio quando ela dissera que ia para casa.
Mesmo agora, quando pensa nisso, fica morta de vergonha.
— Nada em quatro anos? E você tem... o quê? Trinta anos? O que é isso, uma espécie de sati sexual? O que está fazendo, Worthing? Está se guardando para o Sr. Falecido Marido no além?
— Eu sou Halston. Liv Halston. E... eu só... não conheci ninguém com quem eu quisesse... — Liv resolve mudar de assunto. — Bem, e você? Algum emo autodestrutivo na área?
A atitude defensiva a deixava azeda.
Os dedos de Mo vão indo de fininho para o maço de cigarro e recuam novamente.
— Estou bem.
Liv aguarda.
— Eu tenho um acordo.
— Um acordo?
— Com Ranic, o sommelier. A cada duas semanas a gente se junta para uma cópula tecnicamente eficiente, mas basicamente sem alma. Ele era bem ruim quando a gente começou, mas está pegando o jeito. — Ela come outro pedaço perdido de queijo. — Mas ainda assiste a muito filme pornô. Dá para notar.
— Ninguém sério?
— Meus pais pararam de falar em netos por volta da virada do século.
— Ai, meu Deus. Isso me lembra que prometi ligar para meu pai. — Liv tem uma ideia repentina. Levanta e pega a bolsa. — Ei, que tal se eu der um pulinho na loja lá embaixo e comprar uma garrafa de vinho?
Vai ser bom, diz a si mesma. Vamos falar de nossos pais e de gente de quem eu não me lembro, e da faculdade, e dos trabalhos da Mo, e vou evitar que ela fique falando sobre sexo, e antes que eu me dê conta já vai ser amanhã e a minha casa vai estar normal e vai ficar faltando um ano inteiro para a data de hoje se repetir.
Mo afasta a cadeira da mesa.
— Para mim, não — diz, apanhando o prato. — Tenho que mudar de roupa e me mandar.
— Se mandar?
— Para o trabalho.
Liv está com a bolsa na mão.
— Mas... você disse que tinha terminado.
— O turno da manhã. Agora começo o da noite. Bem, daqui a uns vinte minutos. — Ela puxa o cabelo para cima e o prende. — Você lava a louça numa boa? E tudo bem se eu levar de novo aquela chave?
A curta sensação de bem-estar que chegara com a refeição se desmancha no ar, como uma bolha de sabão. Ela se senta à mesa ainda por tirar, ouvindo Mo cantarolar desafinado, escovar os dentes no banheiro de hóspedes e fechar devagar a porta do quarto.
Ela grita para o andar de cima.
— Acha que precisam de mais alguém hoje à noite? Quero dizer, eu poderia ajudar. Talvez. Garanto que dou conta do trabalho de garçonete.
Não há resposta.
— Já trabalhei num bar uma vez.
— Eu também. Fiquei com vontade de furar os olhos das pessoas. Mais ainda do que servindo mesas.
Mo está de volta ao corredor, com uma camisa preta, um anoraque e um avental debaixo do braço.
— Vejo você mais tarde — diz. — A menos que eu dê sorte com o Ranic, claro.
E ela se foi, atraída de volta para o mundo dos vivos. E à medida que o eco de sua voz vai morrendo, o silêncio da Casa de Vidro vira algo concreto e pesado e Liv percebe, cada vez mais apavorada, que sua casa, seu refúgio, está se preparando para traí-la.
Ela sabe que não pode ficar sozinha ali esta noite.

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