29 de novembro de 2017

Capítulo 13 - Terra dos sonhos

Emma olhou ao redor com admiração. A entrada não trazia vestígios de ter sido esculpida em uma encosta. Era feita de pedra lisa e cinza, o telhado de mármore azul modelado com estrelas douradas. Um corredor sombreado levava mais fundo na colina.
A mulher fada, Nene, levantou a lamparina. Estava cheia de vaga-lumes lançando um brilho limitado sobre o pequeno grupo. Emma viu Julian com a boca em uma linha dura, Cristina segurando o pingente firmemente. Mark baixava Kieran no chão, suas mãos gentis. Demorou um momento para perceber que Kieran estava inconsciente, a cabeça baixa, as roupas manchadas de sangue.
— Estamos nas Terras Seelie agora — disse Nene. — Vocês podem usar suas runas e pedra de luz enfeitiçada. — Seu olhar em Kieran estava preocupado. — Pode curar seu amigo...
— Nós não podemos — Julian tirou a pedra de luz enfeitiçada do bolso. Sua iluminação correu sobre Emma como o alívio da água no deserto. — Ele não é um Caçador de Sombras.
Nene se aproximou, suas sobrancelhas pálidas arquearam em consternação. Mark estava no chão segurando Kieran, cujo rosto era como gelo, os olhos fechados com os cristais pálidos em seu rosto pálido.
— Ele é um Caçador? — ela perguntou.
— Nós dois... — começou Mark.
— Há algo que você possa fazer por ele? — Emma interrompeu, antes que Mark falasse demais.
— Sim. — Nene ajoelhou-se, colocando a lamparina no chão ao lado. Ela pegou um frasco de dentro do casaco de pele branca sem mangas que vestia sobre o vestido. Ela hesitou, olhando para Mark. — Você não precisa disso? Não está ferido?
Ele balançou a cabeça, intrigado.
— Não, por quê?
— Eu trouxe isso para você. — Ela o abriu. Colocando-o nos lábios de Kieran, ela cantou alguma coisa em voz baixa em um idioma que não era familiar para Emma. Os lábios de Kieran se separaram e ele engoliu. O líquido dourado pálido escorreu pelos cantos de sua boca. Seus olhos se abriram e ele puxou-se para cima, engolindo um segundo bocado e um terceiro. Seus olhos encontraram os de Nene sobre a borda da garrafa e ele virou o rosto, limpando a boca com a manga.
— Guarde o resto — ele disse com voz rouca. — É o suficiente.
Ele se pôs de pé, Mark ajudando-o. Os outros tinham guardado as suas estelas. Uma nova runa de cura queimava o braço de Emma, uma runa de Energia ao lado. Ainda assim, seu corpo doía e seu coração também. Ela continuava a ver seu pai, repetidas vezes, olhando para ela da grama.
Não era ele, na verdade, mas isso não tornava a imagem menos dolorosa.
— Venham — disse Nene, guardando o frasco. — A bebida só o sustentará por pouco tempo. Devemos nos apressar para a Corte.
Ela partiu pelo corredor e os outros a seguiram, Mark apoiando o atordoado Kieran. Julian ergueu a pedra de luz enfeitiçada, e o salão brilhou. As paredes pareciam um mosaico intrincado à distância, mas de perto Emma pôde ver que eram feitas de uma resina clara, atrás da qual pétalas de flores e asas de borboletas estavam prensadas.
— Minha senhora — chamou Cristina. Seu cabelo, como o de Emma, estava embaraçado com folhas e pedaços de grama. — O que você quis dizer quando falou que trouxe aquela bebida para Mark? Como sabia que ele viria aqui?
— Nós tínhamos convidados aqui na Corte — disse Nene. — Uma menina Caçadora de Sombras de cabelo vermelho e um garoto loiro.
— Jace Herondale e Clary Fairchild — adivinhou Emma.
— Eles me contaram a respeito dos Blackthorn. Esse era um nome que conhecia. Minha irmã Nerissa amava um homem Blackthorn, e teve dois de seus filhos, e morreu de seu amor por ele quando ele a deixou.
Mark parou em sua trilha. Kieran soltou um ligeiro assobio de dor.
— Você é a irmã da minha mãe? — ele perguntou com incredulidade.
— Geralmente as pessoas dizem “tia” — Emma sugeriu.
Mark lhe deu um olhar sombrio.
— Fui eu quem levou você e sua irmã à porta do seu pai e os deixou lá para ele criar — falou Nene. — Você é do meu sangue.
— Estou começando a me perguntar se algum de vocês não tem um parente há muito perdido na Terra das Fadas — disse Kieran.
— Eu não — disse Cristina, parecendo arrependida.
— Os meio-parentes de Mark são fadas — apontou Emma. — O que mais seriam?
— Como você sabia que eu precisaria de ajuda? — Mark perguntou à mulher fada.
— A puca que permitiu sua passagem através do portão da lua é um velho amigo — disse Nene. — Ele me contou sobre sua jornada, e eu adivinhei sua missão. Sabia que você não sobreviveria aos truques do Senhor das Sombras sem ajuda.
— As flechas em chamas — lembrou Julian. O corredor agora passou de pedra e azulejo para terra batida. Raízes pendiam do teto, cada uma retorcida com flores brilhantes que iluminavam a escuridão. As veias minerais na rocha cintilavam e mudavam quando Emma olhou para elas. —Foi você.
Nene assentiu.
— E alguns outros da Guarda da Rainha. Então eu só tinha que ficar alguns passos à frente de vocês e abrir essa porta. Não foi simples, mas há muitas portas para Seelie por toda a Terra do Rei. Mais do que ele sabe. — Ela examinou Kieran. — Você não falará disso, falará, Caçador?
— Pensei que você tivesse achado que fosse um Nephilim — disse Kieran.
— Isso foi antes de eu ver seus olhos — respondeu ela. — Como meu sobrinho, você é um servo de Gwyn. — Ela suspirou suavemente. — Se minha irmã Nerissa soubesse que seu filho seria amaldiçoado, teria quebrado seu coração.
O rosto de Julian se tornou sombrio, mas antes que ele pudesse falar, uma figura surgiu na frente deles. Eles chegaram a um lugar onde o corredor se abria em uma sala circular, com outros corredores que levavam a uma série vertiginosa de direções.
Bloqueando seu caminho havia um cavaleiro fadas. Um homem alto, de pele cor de trigo e uma expressão sombria, usava vestes e um gibão de tecido multicolorido brilhante.
— Fergus — disse Nene. — Vamos lá.
Ele arqueou uma sobrancelha escura e respondeu com uma torrente de palavras em uma linguagem estranha, parecida com o canto dos pássaros – não bravo, mas claramente irritado. Nene ergueu a mão, com a voz aguda em resposta. Quando Emma a observou, pensou poder detectar alguma semelhança com Mark. Não apenas o cabelo loiro pálido, mas a delicadeza de seus ossos, a deliberação de seus gestos.
O cavaleiro suspirou e se afastou.
— Nós podemos ir agora, mas seremos chamados para uma audiência com a Rainha à primeira luz — explicou Nene, apressando-se a frente. — Vamos, ajudem-me a levar o Caçador para um quarto.
Emma tinha algumas perguntas – como eles poderiam dizer quando era a primeira luz aqui, por que Nene parecia não gostar muito da Caçada Selvagem e, claro, aonde eles estavam indo. Ela as manteve para si mesma, e, finalmente, chegaram ao final de um corredor onde as paredes eram rochas polidas, reluzentes com pedras semipreciosas: olho de tigre, azurita, jaspe. As lacunas na rocha eram cobertas por longas tapeçarias de veludo bordadas com fios brilhantes.
Nene empurrou uma das cortinas de lado, revelando uma sala cujas paredes eram lisas e curvadas em direção a um teto abobadado. Cortinas brancas balançavam, cobrindo pela metade uma cama feita de galhos espessos enrolados com flores.
Nene pousou a lamparina.
— Deitem o Caçador — disse ela.
Kieran esteve silencioso desde que entraram na Corte Seelie. Ele deixou Mark levá-lo até a cama. Ele parecia muito mal, pensou Emma, enquanto Mark ajudava Kieran a se deitar no colchão. Ela se perguntou quantas vezes Mark fizera esse tipo de coisa para Kieran quando Kieran estava exausto depois de uma caçada – ou quantas vezes Kieran fizera isso por Mark. Ser um Caçador era um trabalho arriscado; ela não podia imaginar quanto do sangue do outro eles tinham visto.
— Há um curandeiro nesta Corte? — perguntou Mark, endireitando-se.
— Eu sou a curandeira — respondeu Nene. — Embora eu raramente trabalhe sozinha. Normalmente tenho ajudantes, mas é tarde e a Corte está meio vazia. — Seu olhar recaiu sobre Cristina. — Você me ajudará.
— Eu? — Cristina pareceu assustada.
— Você tem um ar curativo pairando sobre si — disse Nene, movimentando-se em direção a um armário de madeira e abrindo as portas. Ali havia frascos de ervas, varais esticados com flores secas e frascos de líquidos de diferentes cores. — Consegue nomear qualquer um desses?
— Tiarella — disse Cristina prontamente, como se estivessem na aula. — Claytonia, falso lírio, copo de rainha.
Nene parecia impressionada. Ela puxou uma pilha de lençóis, incluindo tiras cortadas cuidadosamente do tamanho de bandagens de uma gaveta e as entregou a Cristina.
— Gente demais no recinto tornará a cura do paciente mais lenta. Vou levar estes dois para lá; remova as roupas de Kieran.
As bochechas de Cristina flamejaram.
— Mark pode fazer isso.
Nene revirou os olhos.
— Como preferir. — Ela virou-se em direção à cama, onde Kieran estava caído contra os travesseiros. Havia manchas cor de ferrugem de sangue por toda a camisa e pele de Mark, mas ele não parecia notar. — Esmague um pouco de tiarella, dê para ele com água. Não o enfaixe ainda. Devemos inspecionar a ferida.
Ela saiu apressadamente do quarto, e Emma e Julian correram atrás dela. Eles deram apenas alguns passos pelo corredor, onde uma cortina vermelha escura escondia uma porta aberta. Nene a afastou e fez um gesto para que os dois entrassem.
Uma vez dentro, Emma teve que suprimir um suspiro. Este quarto era muito maior do que a outra. O telhado estava perdido nas sombras. As paredes eram de quartzo prateado e brilhavam de dentro, iluminando a sala com um resplendor suave. Flores cremosas de marfim e branco caíam em cascata pelas paredes, perfumando o ar como um jardim. Uma enorme cama estava em uma plataforma, alguns passos os levariam até ela. Era empilhada com almofadas de veludo e uma coberta opulenta.
— Este serve? — perguntou Nene.
Emma só podia assentir. Do outro lado havia uma treliça na qual uma rede de rosas estendia-se de uma extremidade a outra do cômodo, e atrás dela uma cascata de água corria pelas rochas. Quando ela olhou atrás da divisão, viu que ela dava em uma piscina escavada na rocha, alinhada com pedras verdes e azuis que criavam a forma de uma borboleta.
— Não tão sofisticado quanto o Instituto — ela ouviu Julian dizer. — Mas vai servir.
— De quem é esse quarto? — perguntou Emma. — Da rainha?
Nene riu.
— Os aposentos da Rainha? Certamente não. Este é o de Fergus – na verdade, ele tem dois. Ele é bastante favorecido na Corte. Ele não se importará se vocês dormirem aqui; é sua noite de guarda.
Ela se virou para se afastar, mas parou na cortina e olhou para eles.
— Vocês são o irmão e a irmã do meu sobrinho?
Emma abriu a boca e depois fechou-a novamente. Mark era mais um irmão para ela do que qualquer outra coisa. Certamente mais irmão do que Julian.
— Sim — disse Julian, sentindo sua hesitação.
— E vocês o amam — continuou Nene.
— Acho que você descobrirá, se tiver o tempo para conhecê-lo, que ele é fácil de amar — disse Jules, e o coração de Emma se expandiu, ansiando por ele, por ele e Mark juntos, felizes e rindo como irmãos deveriam ser, e pelo o desafio nos olhos de Julian quando ele olhou para Nene. Você deve ao meu irmão o amor que ele merece; mostre-o, ou darei as costas para você.
Nene limpou a garganta.
— E minha sobrinha? Alessa?
— Seu nome é Helen agora — disse Julian. Ele parou por um momento, e Emma conseguiu vê-lo ponderando a menção da situação de Helen e descartando-a – ele não confiava em Nene o suficiente, ainda não. — Sim, ela é minha irmã; sim, eu a amo como amo Mark. Ambos são fáceis de amar.
— Fáceis de amar — ecoou Nene, com uma voz de reflexão. — Há poucos do nosso povo que eu diria serem fáceis de amar. — Ela se afastou pela porta. — Devo me apressar de volta, antes que o garoto Caçador se vá — ela disse, e foi embora.
Julian olhou Emma com as sobrancelhas arqueadas.
— Ela é muito...
— Sim — concordou Emma, não precisando do resto das palavras para saber o que ele queria dizer. Ela e Julian quase sempre concordavam a respeito das pessoas. Sentiu sua boca se curvar quando ela sorriu para ele, apesar de tudo, apesar da incrível e impossível tensão da noite.
E não era como se o risco tivesse acabado, pensou, voltando-se para olhar para o cômodo. Ela quase nunca esteve em um espaço tão lindo. Ela já tinha ouvido falar de hotéis cavernícolas, lugares na Capadócia e na Grécia, onde belos e deslumbrantes quartos eram feitos nas rochas e cobertos com sedas e veludos. Mas eram as flores, aqui, que atraíam seu coração – aquelas flores brancas que cheiravam como creme e açúcar, como as flores brancas que cresciam em Idris. Pareciam irradiar luz.
E então havia a cama. Com uma espécie de choque tardio, ela percebeu que ela e Julian haviam ficado sozinhos em um quarto descontroladamente romântico com apenas uma cama grande e bastante luxuosa.
Afinal, as preocupações da noite não tinham acabado.


Quando Nene voltou, limpou suavemente a ferida de Kieran com lençóis úmidos, pressionando com cuidado as bordas do corte com os dedos. Ele estava sentado ereto e rígido na beira da cama, sem se mover ou reconhecer o que acontecia, mas Cristina podia ver a partir da crescente pressão que marcava seu lábio inferior que ele estava com dor.
Mark sentou-se silenciosamente ao lado dele. Ele parecia comprimido, exausto e não se moveu para segurar a mão de Kieran, apenas sentou-se com o ombro tocando o do outro garoto. Mas então, eles nunca tinham sido do tipo que davam as mãos, pensou Cristina. A Caçada Selvagem não era um lugar onde tais expressões gentis de carinho eram bem-vindas.
— Havia acônito na flecha dos Guerreiros Unseelie — disse Nene quando terminou de limpar a ferida. Ela esticou a mão para uma bandagem e começou a envolver o torso esbelto de Kieran. Ele tinha sido despido e vestido em calças limpas, uma camisa dobrada na cama ao lado dele. Havia cicatrizes nas costas de Kieran, não muito diferentes das de Mark, e elas se estendiam até o alto de seus braços e também desciam pelos antebraços. Ele era magro, mas de aparência forte, com traços claros de músculos em seus braços e em seu peito. — Se você fosse um humano ou uma fada comum, o teria matado, mas os Caçadores têm sua própria proteção. Você viverá.
— Sim — disse Kieran, com uma inclinação arrogante com o queixo. Mas Cristina imaginou... ele não disse, Sim, eu sei que viverei. Ele tinha duvidado, ela suspeitava. Ele temia morrer.
Ela admirou sua bravura. Não pôde evitar.
Nene revirou os olhos, terminando com as bandagens. Ela deu uma batidinha no ombro de Cristina quando Kieran encolheu os ombros, fechando os botões com dedos lentos e trêmulos, e indicou uma tigela rasa de mármore na mesa de cabeceira cheia de panos úmidos nadando em um líquido esverdeado.
— É um cataplasma para prevenir infecção. Coloque um novo na ferida a cada duas horas.
Cristina assentiu. Ela não tinha certeza de como colocaria um alarme ou acordaria a cada duas horas, ou se ela simplesmente teria que ficar acordada durante a noite, mas ela conseguiria, de qualquer maneira.
— Aqui — disse Nene, inclinando-se para Kieran com outro frasco pequeno. — Beba isso. Não irá prejudicá-lo, apenas ajudá-lo.
Depois de um momento, Kieran bebeu. De repente, afastou o frasco, tossindo.
— Como você se atreve... — ele começou, e então seus olhos reviraram e ele afundou nos travesseiros. Mark o pegou antes que suas costas feridas pudessem tocar na cama e ajudou Nene a deitá-lo cuidadosamente de lado.
— Não se sinta mal — Mark falou, notando o maxilar tenso de Nene. — Ele sempre adormece gritando isso.
— Ele precisava descansar — Nene disse. Ela deixou o quarto.
Mark a observou ir, seu rosto perturbado.
— Ela não é o que eu imaginei quando sonhei que eu poderia ter família na Terra das Fadas — disse ele. — Por tantos anos busquei e perguntei, e não havia nenhum sinal deles. Eu desisti.
— Ela entrou no seu caminho para encontrá-lo e salvá-lo — apontou Cristina. — Ela claramente se importa com você.
— Ela não me conhece — disse Mark. — As fadas levam bastante em conta a força sobre o sangue. Ela não podia me deixar cair nas mãos do Rei Unseelie. O que acontece com um membro da família reflete sobre os outros daquela linhagem.
Ela tocou seu cabelo, Cristina queria dizer. Ela vira muito rapidamente: quando Nene se esticara para colocar as ataduras nas costas de Kieran, seus dedos percorreram as finas pontas dos cabelos pálidos de Mark. Ele não tinha notado, e Cristina se perguntou agora se ela lhe contasse, ele acreditaria.
Cristina sentou-se no pé da cama. Kieran se curvou, os cabelos escuros embaraçando-se sob sua cabeça inquieta. Mark estava com as costas contra a cabeceira da cama. Seus pés descalços estavam a poucos centímetros de Cristina; seu braço estava estendido, os dedos quase tocavam os dela.
Mas seu olhar estava em Kieran.
— Ele não se lembra — ele falou.
— Kieran? Do que ele não lembra?
Mark puxou os joelhos para o peito. Em sua camisa e calça rasgadas e sujas de sangue, ele parecia mais com a figura esfarrapada que fora quando a Caçada Selvagem o deixou ir.
— A Corte Unseelie bateu nele e o torturou. Eu esperava isso. É o que eles fazem com seus prisioneiros. Depois que eu o desamarrei, assim que o tirei da clareira, percebi que eles haviam causado um tipo de dano que significava que ele não se lembrava de matar Iarlath. Ele não se lembra de nada desde aquela noite em que nos viu conversando na cozinha.
— Ele não se lembra do chicoteamento, do que aconteceu com Jules e Emma?
— Ele não lembra que isso aconteceu, ou que eu o deixei — Mark falou severamente. — Ele disse que sabia que eu viria por ele. Como se ainda fôssemos... o que éramos.
— O que vocês eram? — Cristina percebeu que nunca havia perguntado. — Vocês trocaram promessas? Tinham uma palavra para isso, como novio?
— Namorado? — Mark ecoou. — Não, nada disso. Mas era algo e então não era nada. Porque eu estava com raiva. — Ele olhou para Cristina miseravelmente. — Mas como posso ficar com raiva de alguém que nem se lembra do que fez?
— Seus sentimentos são seus sentimentos. Kieran fez aquelas coisas. Ele as fez mesmo que não se lembre delas. — Cristina franziu o cenho. —Pareço dura? Eu não queria parecer. Mas fiquei com Emma, depois. Eu ajudei a fazer curativos em suas marcas de chicote.
— Agora você ajudou a enfaixar Kieran. — Mark respirou fundo. — Desculpe, Cristina. Isso deve parecer... nem consigo imaginar o que você está pensando. Tendo que me sentar aqui comigo, com ele...
— Você quer dizer por causa de... — Cristina corou. Por conta da maneira como nos beijamos na festa? Ela procurou dentro de seu coração, procurando por ciúmes, amargura, raiva de Mark. Não havia nada. Nem mesmo a fúria que sentira de Diego à aparição de Zara.
Quão longe isso parecia agora. Quão distante e sem importância. Zara fora recebida por Diego; ela podia ficar com ele.
— Não estou com raiva — ela falou. — E você não deve se preocupar com o que estou sentindo, de qualquer maneira. Devemos nos concentrar no fato de que Kieran está seguro, que podemos voltar.
— Não consigo parar de me preocupar com o que você está sentindo, — disse Mark. — Eu não consigo parar de pensar em você.
Cristina sentiu seu coração acelerar.
— Seria um erro pensar na Corte Seelie como um terreno seguro onde podemos descansar. Há um velho ditado de que a única diferença entre Seelie e Unseelie é que a Unseelie faz o mal às vistas, e a Seelie o esconde. — Mark olhou para baixo. Kieran respirava suave e uniformemente. — E eu não sei o que faremos com Kieran. Enviá-lo de volta à Caçada? Chamar por Gwyn? Kieran não entenderia porque eu gostaria de me separar dele agora.
— Você quer? Quer se separar dele agora?
Mark não disse nada.
— Eu entendo — disse ela. — De verdade. Você sempre precisou tanto de Kieran, nunca teve a chance de pensar o que queria com ele antes.
Mark fez um barulho curto em voz baixa. Ele pegou a mão dela e segurou, ainda olhando para Kieran. O aperto era forte, mas ela não se afastou.


Julian sentou-se na enorme cama de Fergus. Ele não conseguiu ver nada de Emma atrás da divisão alta que bloqueava a piscina de pedras, mas ele podia ouvir a água espirrando, um som que ecoava nas paredes brilhantes.
O som tornou os nervos mais tensos. Quando ela terminasse com o banho, sairia e iria para cama com ele. Ele compartilhara camas com Emma centenas de vezes. Talvez milhares. Mas isso não significava nada quando eram crianças, e mais tarde, quando não eram mais, ele havia dito a si mesmo que ainda não significava nada, mesmo quando acordava no meio da noite para observar a maneira como seus cabelos lhe faziam cócegas bochecha enquanto ela dormia. Mesmo quando ela começou a sair no início da manhã para correr na praia, e ele se enrolava no calor que ela deixava contra os lençóis e inalava o aroma de sua água de rosas.
Respire. Ele passou as mãos no travesseiro de veludo que puxara para o colo. Pense em outra coisa.
Não era como se ele não tivesse muitas outras coisas para pensar. Aqui estavam na Corte Seelie, não eram prisioneiros nem convidados. A Terra das Fadas era um lugar tão difícil de escapar quanto de entrar, e ainda não tinham nenhum plano para sair.
Mas ele estava exausto; esta era a primeira vez que ficava sozinho em um quarto com Emma desde que ela terminara tudo, e por esse raro instante, seu coração estava no comando dos pensamentos, não seu cérebro.
— Jules? — ela chamou. Ele se lembrou dos breves dias em que ela o chamava de Julian, do jeito como o som do nome em sua boca fazia seu coração se despedaçar com prazer. — Nene me deixou um vestido, e é... — Ela suspirou. — Bem, acho que é melhor você ver.
Ela saiu de trás da divisória que escondia a piscina, o cabelo solto, trajando o vestido. A roupa das fadas geralmente era bem ornamentada ou muito simples. Este vestido era simples. Faixas finas cruzavam os ombros; era feito de um material branco sedoso que se agarrava ao seu corpo molhado como uma segunda pele, descrevendo as curvas da cintura e dos quadris.
Julian sentiu sua boca seca. Por que Nene lhe deixara um vestido? Por que Emma não poderia se deitar usando uma roupa imunda? Por que o universo o odiava?
— É branco — disse ela, franzindo o cenho.
Para a morte e o luto, a cor é branco. Banco significava funerais para Caçadores de Sombras: havia um uniforme branco para funerais oficiais, e seda branca era colocada sobre os olhos de Caçadores de Sombras mortos quando seus corpos eram queimados.
— Branco não significa nada para as fadas — ele falou. — Para eles, é a cor das flores e das coisas naturais.
— Eu sei, é só... — Ela suspirou e começou a andar descalça, subindo os degraus até o estrado onde a cama estava centrada. Ela parou para examinar o enorme colchão, balançando a cabeça com espanto. — Ok, talvez eu não tenha sido tão calorosa com Fergus quando nos conhecemos — disse ela. Seu rosto brilhava pelo calor da água, suas bochechas rosadas. — Mas ele daria uma hospedagem cama-e-banho incrível, você tem que admitir. Ele provavelmente deslizaria uma folha menta com ternura debaixo de seu travesseiro todas as noites.
O vestido caiu ligeiramente enquanto ela subia na cama, e Julian percebeu para seu horror que era aberto na lateral quase até o quadril. Suas longas pernas brilharam contra o material enquanto ela se acomodava na colcha.
O universo não apenas o odiava, estava tentando matá-lo.
— Me dê mais travesseiros — exigiu Emma, e pegou vários deles do lado de Julian antes que ele pudesse se mover. Ele manteve firme o que estava em seu colo e olhou para Emma de forma uniforme.
— Não roube as cobertas — disse ele.
— Eu nunca faria isso — Ela empurrou os travesseiros atrás dela, formando uma pilha na qual ela poderia se apoiar. Seu cabelo úmido grudou em seu pescoço e ombros, longos cabelos de ouro pálido e molhado.
Seus olhos estavam vermelhos, como se estivesse chorando. Emma raramente chorava. Ele percebeu por sua conversa desde que ela entrou no quarto que era uma falsa alegria, algo que ele deveria ter percebido — ele, que conhecia Emma melhor que ninguém.
— Em — disse ele, incapaz de se impedir, ou impedir a gentileza em sua voz. — Você está bem? O que aconteceu na Corte Unseelie...
— Eu apenas me sinto tão estúpida — disse ela, a raiva escorrendo de sua voz. Sob o artifício estava Emma, sua Emma, com toda a sua força, inteligência e bravura. Emma, soando quebrada. — Eu sei que as fadas fazem truques. Sei que mentem sem mentir. E, no entanto, a puca me falou... me falou que se eu entrasse na Terra das Fadas, eu veria o rosto de alguém que eu amei e perdi.
— Bem o Povo das Fadas — respondeu Julian. — Você viu o rosto, o rosto de seu pai, mas não era ele. Foi uma ilusão.
— Foi como se eu não pudesse processar — disse ela. — Minha mente inteira estava nublada. Tudo em que eu podia pensar era que eu tinha meu pai de volta.
— Sua mente provavelmente estava nublada — disse Julian. — Há todo tipo de encantamentos sutis que podem desfocar seus pensamentos aqui. E aconteceu tão rápido. Não suspeitei que fosse uma ilusão também. Nunca ouvi falar de uma tão forte.
Ela não disse nada. Ela estava apoiada nas mãos, seu corpo esboçado pelo vestido branco. Ele sentiu um instante de quase dor, como se houvesse uma chave embutida sob sua carne, apertando sua pele toda vez que era girada. Memórias atacaram sua mente implacavelmente — como era deslizar suas mãos pelo corpo dela, a sensação dos dentes dela contra seu lábio inferior. O arco de seu corpo que se encaixava no dele: um crescente duplo, um sinal de infinito desvendado.
Ele sempre pensou que o desejo deveria ser um sentimento prazeroso. Nunca pensou que poderia cortar assim, como lâminas sob sua pele. Ele pensava antes daquela noite na praia com Emma que a queria como jamais quis. Pensou que o desejo poderia matá-lo. Mas agora sabia que a imaginação era uma coisa pálida. Que, mesmo quando ela sangrou por ele na forma de tinta sobre tela, não conseguiu capturar a riqueza de sua pele na dele, o gosto de sua boca. Querer não o mataria, pensou ele, mas saber o que estava perdendo, sim.
Ele cravou as unhas nas palmas das mãos com força. Infelizmente, as roera demais para causar muito dano.
— Ver que aquela coisa não era meu pai me fez perceber o quanto da minha vida era uma ilusão — disse Emma. — Passei tanto tempo buscando vingança, mas encontrá-la não me deixou mais feliz. Cameron não me deixou mais feliz. Pensei que todas essas coisas me deixariam feliz, mas era tudo uma ilusão. — Ela se virou para ele, os olhos arregalados e impossivelmente escuros. — Você é uma das únicas coisas reais na minha vida, Julian.
Ele podia sentir seu coração batendo em seu corpo. Todas as outras emoções — seu ciúme de Mark, a dor de separação de Emma, sua preocupação com as crianças, seu medo do que a Corte Seelie exigia para eles — desapareceu. Emma estava olhando para ele e suas bochechas estavam coradas e seus lábios estavam separados e se ela se inclinasse para ele, se ela o desejasse, ele iria desistir e se quebraria em pedaços. Mesmo que isso significasse trair seu irmão, ele faria isso. Ele a puxaria para si e se enterraria nela, em seus cabelos, sua pele e seu corpo.
Seria uma coisa que ele lembraria mais tarde com uma agonia que se sentia como facas brancas. Seria uma lembrança de tudo o que ele nunca poderia ter. E ele se odiaria por machucar Mark. Mas nada disso o deteria. Ele sabia o quão longe estava sua força de vontade, e havia alcançado seu limite. Seu corpo já estava tremendo, sua respiração acelerando. Ele só tinha que se aproximar...
— Eu quero ser parabatai novamente — disse ela. — Do jeito que éramos antes.
As palavras explodiram como um golpe dentro de sua cabeça. Ela não o queria; ela queria ser parabatai, e era isso. Ele estava sentado pensando no que queria e quanta dor ele poderia suportar, mas não importava se ela não o quisesse. Como ele fora tão estúpido?
— Nós sempre seremos parabatai, Emma. É para a vida — ele falou sem emoção na voz.
— Foi estranho desde que... desde que comecei a namorar com Mark, — disse ela, prendendo o seu olhar. — Mas não é por causa de Mark. É por nossa causa. Do que nós fizemos.
— Ficaremos bem. Não há um livro de regras para isso, nenhuma orientação. Mas nós não queremos nos machucar, então não vamos.
— Já houve parabatai no passado que começaram a se odiar. Pense em Lucian Graymark e Valentim Morgenstern.
— Isso não acontecerá com a gente. Nós nos escolhemos quando éramos crianças. Escolhemos um ao outro novamente quando tínhamos catorze anos. Eu escolhi você, e você me escolheu. Isso é o que a cerimônia parabatai significa, na verdade, não é? É uma maneira de selar essa promessa. O que diz que eu sempre vou escolher você.
Ela se inclinou contra seu braço, apenas o toque mais leve de seu ombro contra o dele, mas acendeu seu corpo como fogos de artifício no cais de Santa Monica.
— Jules?
Ele assentiu, sem confiar em si mesmo para falar.
— Eu sempre vou escolher você também — ela falou, e, deitando a cabeça no ombro dele, fechou os olhos.


Cristina acordou de um sono incômodo com um estalo. O quarto estava escuro; ela estava enrolada no pé da cama, as pernas esticadas sob ela. Kieran dormia com um sono drogado apoiado em travesseiros, e Mark estava no chão, emaranhado em cobertores.
Duas horas, disse Nene. Ela tinha que verificar Kieran a cada duas horas. Ela olhou de novo para Mark, decidiu que não podia acordá-lo, suspirou e subiu para uma posição sentada, subindo mais na cama em direção ao príncipe fada.
Muitas pessoas pareciam calmas ao dormir, mas não Kieran. Ele respirava com dificuldade, olhos se movendo por trás de suas pálpebras. As mãos se mexiam inquietas sobre as cobertas. Ainda assim, ele não acordou quando ela se inclinou para levantar a parte de trás de sua camisa com dedos atrapalhados.
Sua pele estava quente. Ele era tão adorável de perto: as altas maçãs do rosto combinavam com seus olhos puxados, seus cílios grossos, os cabelos de um profundo preto-azulado.
Ela rapidamente mudou o cataplasma; o antigo estava meio embebido de sangue. Ao se inclinar para frente para puxar a camisa de volta, uma mão circulou seu pulso como o aperto de um torno.
Olhos pretos e prateados olhavam para ela. Seus lábios se moveram; eles estavam rachados e secos.
— Água? — ele sussurrou.
De alguma forma, com uma só mão, ela conseguiu servir água de um jarro na mesa de cabeceira em um copo de peltre e dar a ele. Ele bebeu sem soltá-la.
— Talvez você não se lembre de mim — ela falou. — Eu sou Cristina.
Ele abaixou o copo e olhou para ela.
— Eu sei quem você é — falou, depois de um momento. — Eu pensei... mas não. Estamos na Corte Seelie.
— Sim. Mark está dormindo — ela acrescentou, no caso de ele estar preocupado.
Mas sua mente parecia longe.
— Pensei que eu fosse morrer esta noite. Eu estava preparado para isso. Estava pronto.
— As coisas nem sempre acontecem quando pensamos que acontecerão — disse Cristina. Não pareceu uma observação convincente para ela, mas Kieran pareceu consolado. A exaustão estava varrendo seu rosto, como uma cortina deslizando através de uma janela.
Seu aperto se tornou mais forte sobre ela.
— Fique comigo — pediu ele.
Tomada pela surpresa, ela teria respondido — talvez até recusado — mas não teve a chance. Ele já estava dormindo.


Julian ficou acordado.
Ele queria dormir; a exaustão parecia ter mergulhado até os seus ossos. Mas o quarto estava cheio de uma luz fraca e Emma estava intimamente perto dele. Ele podia sentir o calor de seu corpo enquanto dormia. Ela afastara parte da colcha que a cobria, e ele podia ver seu ombro nu onde o vestido tinha escorregado e a forma da runa parabatai em seu braço.
Ele pensou nas nuvens de tempestade do lado de fora do Instituto, o jeito como ela o beijou nas escadas do Instituto antes de Gwyn ter chegado. Não, era melhor ser sincero consigo mesmo. Antes de ela se afastar e dizer o nome do seu irmão. Foi o que acabou com o clima.
Talvez fosse fácil demais se voltar para a emoção imprópria quando eles já estavam tão perto. Parte dele queria que ela o esquecesse e fosse feliz. Parte dele queria que ela se lembrasse da maneira como ele se lembrava, como se a lembrança do que tinham sido juntos fosse uma parte viva de seu sangue.
Ele passou as mãos por seus cabelos inquietos. Quanto mais tentava enterrar tais pensamentos, mais eles borbulhavam, como água na piscina de pedra. Ele queria se aproximar e puxar Emma em sua direção, capturar sua boca com a dele — beijar a verdadeira Emma e apagar a lembrança da leanansídhe — mas ele teria se acostumado a curvá-la contra sua lateral, segurando-a pela noite e sentindo seu corpo se expandir e se contrair enquanto respirava. Ele teria se deitado para dormir durante a noite com apenas seus dedos mínimos se tocando.
— Julian — chamou uma voz suave. — Desperte, filho de espinhos.
Ele se sentou ereto. De pé ao pé da cama havia uma mulher. Não era Nene ou Cristina: uma mulher que ele nunca tinha visto antes, pessoalmente, embora conhecesse de fotos. Ela era fina até o ponto de ser extremamente magra, mas ainda bonita, com lábios cheios e olhos azuis como vidro. Os cabelos vermelhos ondulavam até a cintura. Seu vestido parecia ter sido feito para ela em uma época anterior à fome, mas ainda era belo: azul profundo e branco, modelado com um delicado arabesco de penas, envolvia seu corpo com uma suave suavidade. Suas mãos eram compridas, brancas e pálidas, a boca vermelha, as orelhas ligeiramente pontudas.
Na sua cabeça estava um círculo dourado – uma coroa, de artesanato intrincado.
— Julian Blackthorn — disse a Rainha da Corte Seelie. — Acorde agora e venha comigo, porque tenho algo para lhe mostrar.

6 comentários:

  1. tenho certeza que jace e clary estão correndo perigo na corte!essa rainha safada deve ODIAR eles por ter matado o sebastian ! ai vai acontecer algo com a clary e se ninguém salvá-la essa autora ira se arrepender!!

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  2. Eu to cada vez mais pasmada a cada capítulo. Se clary morrer nessa corte eu morro junto!!!

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  3. Minha gente... olha, minha gente... bom senso. Clary e Jace na corte Seelie? A rainha é uma vaca. Ela vai mostrar o quê pra Julian? Alguma coisa que vai machucar ele e mais tarde Emma, eu diria. Mas gente...

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  4. A Cassie Clare tem um fetiche por cavernas não é?
    To ficando confusa com essa gentileza toda da Corte Seelie.

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    1. Né! Seria de se esperar que eles quisessem matar os Caçadores de Sombras. Por que será que estão sendo simpáticos?

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Boa leitura :)