20 de novembro de 2017

Capítulo 12

Uma música barulhenta e vulgar encheu a cabine de controle da nave Coração de Ouro enquanto Zaphod percorria as estações do rádio subeta para tentar ouvir alguma notícia a respeito de si próprio. Aquela máquina era difícil de operar. Durante muito tempo, os rádios foram controlados por botões de apertar e de rodar; depois a tecnologia sofisticou-se, e bastava roçar os dedos no painel; agora era só fazer um sinal com a mão à distância, em direção ao rádio. Realmente, dava bem menos trabalho, mas obrigava a pessoa a ficar quietinha se ela quisesse ficar escutando a mesma estação.
Zaphod mexeu com a mão e a estação mudou outra vez. Mais música vagabunda, só que dessa vez era o prefixo de um boletim de notícias. O noticiário era sempre editado de modo a corresponder ao ritmo da música de fundo. Dizia o locutor:
— ...e reportagens via faixa subeta, irradiadas para toda a Galáxia dia e noite... E um bom-dia para todas as formas de vida inteligentes em toda a Galáxia... A grande notícia de hoje, é claro, é o sensacional roubo da nave-protótipo com o gerador de improbabilidade infinita, cometido por ninguém menos que o presidente da Galáxia, Zaphod Beeblebrox. E o que todos querem saber é se o Grande Z. B. finalmente pirou de vez. Beeblebrox, o homem que inventou a Dinamite Pangaláctica, ex-vigarista, uma vez citado por T. Eccentrica Gaüumbits como um homem capaz de proporcionar a uma mulher uma sensação semelhante ao big-bang da Criação, recentemente eleito pela sétima vez a Criatura Racional Mais Mal-vestida de Todo o Universo Conhecido... Qual será a dele dessa vez? Perguntamos a seu terapeuta cerebral, GagHalfrunt...
O fundo musical cresceu e diminuiu logo em seguida, e ouviu-se uma outra voz, provavelmente Halfrunt: Bem, a senhorr Zaphorr serr uma criaturra muita... Neste momento, um lápis elétrico arremessado do outro lado da cabine desligou à distância o aparelho de rádio. Zaphod virou-se irritado para Trillian fora ela quem jogara o lápis.
— Por que você fez isso? — perguntou ele.
Trillian estava tamborilando com os dedos uma tela cheia de números.
— Acabo de ter uma ideia — disse ela.
— É mesmo? Tão importante que vale a pena interromper um noticiário a meu respeito?
— Você já devia estar cansado de ouvir falar de você mesmo.
— Sou um cara muito inseguro. Você sabe.
— Será que dava pra gente deixar de lado o seu ego só um minutinho? É uma coisa importante.
— Se tem aqui alguma coisa mais importante que meu ego, que seja imediatamente presa e fuzilada — disse Zaphod, olhando para ela zangado. Depois começou a rir.
— Escute — disse ela —, nós pegamos os tais caras...
— Que caras?
— Os dois caras que a gente pegou.
— Ah, sei — disse Zaphod. — Aqueles dois caras.
—Eles estavam no setor ZZg Plural Z Alfa.
— Sei — disse Zaphod, sem entender.
— Isso não lhe diz nada? — disse Trillian, em voz baixa.
— Humm — disse Zaphod — ZZg Plural Z Alfa, ZZg Plural Z Alfa?
— E então? — insistiu Trillian.
— Ah... o que quer dizer Z? — perguntou Zaphod.
— Qual deles?
— Qualquer um deles.
Uma das coisas que Trillian achava mais difícil no seu relacionamento com Zaphod era saber quando ele estava fingindo ser burro só para desarmar as pessoas, quando estava fingindo ser burro porque estava com preguiça de pensar e queria que os outros fizessem isso por ele, quando estava fingindo ser terrivelmente burro para ocultar o fato de que não estava entendendo o que estava acontecendo e quando realmente era burrice mesmo. Ele tinha fama de ser inteligentíssimo e sem dúvida era.-, mas não o tempo todo, coisa que evidentemente o preocupava; daí os fingimentos. Preferia que as pessoas ficassem intrigadas a que o encarassem com desprezo. Era isto que Trillian achava a maior burrice de todas, mas ela já desistira de discutir o assunto.
Trillian suspirou e apertou um botão. Apareceu um mapa estelar na tela. Ela resolvera trocar tudo em miúdos para ele, qualquer que fosse o motivo pelo qual ele não queria entendê-la.
— Ali — disse ela, apontando. — Bem ali.
— Ah... sei! — disse Zaphod.
— E então?
— Então o quê?
Um a parte da mente de Trillian gritava com outras partes de sua mente.
Muito calma, ela respondeu:
— É o mesmo setor em que você me pegou quando a gente se conheceu. Zaphod olhou para ela e depois olhou de volta para a tela.
— É mesmo — disse ele —, mas que loucura! A gente devia ter ido direto para a nebulosa da Cabeça de Cavalo. Como é que fomos parar aí? Realmente, isso aí fica no meio do nada.
Trillian ignorou o comentário.
— Improbabilidade infinita — disse ela, paciente. — Foi você mesmo que me explicou. A gente passa por todos os pontos do universo, você sabe.
— É, mas é uma tremenda coincidência, não é?
—É.
— Pegar uma pessoa naquele lugar? Dentre todos os lugares no Universo?
— É realmente... Quero calcular isso. Computador!
O computador de bordo da Companhia Cibernética de Sírius que controlava todas as partículas da nave entrou na comunicação.
— Oi, gente1. — disse ele, muito alegrinho, e ao mesmo tempo cuspiu um pedaço de fita perfurada para fins de registro. Na fita perfurada estava escrito Oi, gente!.
— Ah, meu Deus — disse Zaphod. Estava trabalhando com aquele computador há pouco tempo, mas já o detestava.
O computador continuou, no tom de voz esfuziante de quem está tentando vender detergente:
— Olhem, quero que saibam que, seja qual for o problema que vocês tiverem, eu estou aqui para resolvê-lo, está bem?
— Está bem, está bem — disse Zaphod. — Escute, acho que eu mesmo vou calcular isso na ponta do lápis.
— Tudo bem — disse o computador, ao mesmo tempo que ia cuspindo sua mensagem dentro de uma cesta de papéis. — Eu entendo. Mas se você quiser qualquer...
— Cale a boca! — gritou Zaphod, e pegando um lápis foi sentar-se ao lado de Trillian, junto ao painel de controle.
— Está bem, está bem... — disse o computador, num tom de voz magoado, desligando seu canal de fala.
Zaphod e Trillian puseram-se a examinar as cifras que o rastreador de trajetória navegacional de improbabilidade exibia na tela à sua frente.
— Dá para a gente calcular — perguntou Zaphod — qual a improbabilidade de eles serem salvos, do ponto de vista deles?
— Dá, é uma constante — disse Trillian. — Dois elevado a 276.709 contra um. Dois...
— É bem alta. Esses dois têm sorte, hein?
— É.
— Mas em relação ao que nós estávamos fazendo quando a nave pegou os dois.
Trillian deu entrada nos números. A tela exibiu a improbabilidade dedois elevado a infinito menos um contra um (um número irracional que só tem significado convencional na física de improbabilidade).
— ...é bem baixa — prosseguiu Zaphod, com um assobio de espanto.
— É — concordou Trillian, olhando para ele com um olhar de perplexidade.           
—É uma improbabilidade boçalmente difícil de ser explicada. Tem que aparecer alguma coisa muito improvável pra compensar, pra que o saldo seja um número razoável.
Zaphod rabiscou uns cálculos, riscou-os e jogou o lápis longe.
— Que droga, não dá pra calcular.
— E então?
Zaphod bateu com uma das cabeças na outra, de irritação, e trincou os dentes.
— Está bem — disse ele. — Computador!
Os circuitos de voz foram ligados novamente.
— Opa, tudo bem! — exclamou o computador (e toca a sair a fitinha perfurada). — Eu só quero é facilitar a sua vida cada vez mais, e mais, e mais...
— Sei. Pois cale a boca e calcule um negócio pra mim.
— Mas claro — disse o computador. — Você quer uma previsão de probabilidade baseada em...
— Em dados de improbabilidade, isso.
— Sei — disse o computador. — E vou lhe dizer uma coisa interessante. Sabia que a vida da maioria das pessoas é regida por números de telefone?
Um dos rostos de Zaphod assumiu uma expressão constrangida, logo copiada pelo outro.
— Você pirou? — perguntou ele.
— Não, mas você vai pirar quando eu lhe disser isso...
Trillian  soltou uma interjeição de espanto. Mexeu nos botões da tela de trajetória de voo.
— Números de telefone! — exclamou. — Essa coisa falou em números de telefone!
Apareceram números na tela.
O computador fez uma pausa, por uma questão de delicadeza, e depois prosseguiu:
— O que eu ia dizer é que...
— Não precisa, não, por favor — disse Trillian.
— Afinal, o que foi? — perguntou Zaphod.
— Não sei — disse Trillian —, mas aquelas duas criaturas estão vindo para cá com aquele robô desgraçado. Dá pra gente focalizá-las com as câmeras de monitoração?

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