15 de novembro de 2017

Capítulo 12

Há pessoas que vivem melhor seguindo uma rotina, e Liv Halston é uma delas.
Todos os dias úteis, ela acorda às sete e meia da manhã, veste sua roupa esportiva, pega o iPod e, sem parar para pensar, desce, com a visão ainda turva, pelo elevador barulhento, e sai para correr por meia hora à beira do rio. A certa altura, ziguezagueando entre os mal-humorados e obstinados moradores que se deslocam diariamente para trabalhar, e desviando-se de vans de entrega, ela finalmente desperta, o cérebro aos poucos vai se envolvendo com a música em seus ouvidos, na cadência suave de suas passadas. O mais importante foi que ela preencheu mais uma vez um momento que ainda lhe causa temor: aqueles primeiros minutos do despertar, quando a vulnerabilidade significa que a perda ainda pode atingi-la, inesperada e venal, intoxicando-a com pensamentos negativos. Ela começou a correr depois de se dar conta de que podia usar o mundo externo, o barulho em seus fones de ouvido, seu próprio movimento, para desviar esses pensamentos. Agora isso virou um hábito, uma apólice de seguro.
Não preciso pensar. Não preciso pensar. Não preciso pensar.
Especialmente hoje.
Ela diminui o ritmo para uma caminhada acelerada, compra um café, e torna a pegar o elevador para subir para a Casa de Vidro, com os olhos ardendo pelo suor e a camiseta molhada. Toma uma ducha, se veste, toma café e come duas torradas com geleia de laranja. Ela mantém a casa praticamente sem comida, e chegou à conclusão de que ver a geladeira cheia é algo que estranhamente a perturba, lembrando-a de que devia cozinhar e comer, e não viver de biscoitos e queijo. Uma geladeira cheia é uma repreensão silenciosa ao seu estado solitário.
Então ela se senta à escrivaninha e abre o e-mail para ver se, à noite, chegou algum trabalho no copywritersperhour.com. Ou se, como parece ser o caso ultimamente, não.
— Mo? Estou deixando um café na frente da sua porta. — Ela está parada, com a cabeça de lado, aguardando algum ruído que sugira vida do lado de dentro. São oito e quinze: muito cedo para acordar um hóspede? Faz tanto tempo que Liv não recebe alguém que já não sabe o que deve fazer. Aguarda, sem jeito, esperando alguma resposta sonolenta, um resmungo, e depois conclui que Mo está dormindo. Trabalhara a noite inteira, afinal de contas. Liv coloca o copo de isopor em silêncio em frente à porta, por via das dúvidas, e vai para o banho.

* * *

Há quatro e-mails em sua caixa de mensagens.

Prezada Sra. Halston,
Obtive seu e-mail por intermédio de copywritersperhour.com. Dirijo uma empresa de papelaria personalizada e tenho um folheto que precisa ser reescrito. Fui informado de que seu preço são cem libras por mil palavras.
A senhora aceitaria negociar este valor? Estamos trabalhando com um orçamento muito apertado. O folheto tem por volta de 1.250 palavras.
Atenciosamente,
Sr. Terence Blank

Livvy querida,
Aqui é seu pai. Caroline me deixou. Estou desconsolado. Decidi que não quero mais nada com as mulheres. Me ligue se tiver algum tempo livre.

Oi, Liv,
Tudo certo para quinta-feira? As crianças estão muito ansiosas para isso.
Estamos contando com umas vinte até o momento, mas, como você sabe, esse número pode sempre mudar. Avise-me se precisar de alguma coisa.
Tudo de bom,
Abiola

Prezada Sra. Halston,
Já tentamos várias vezes sem sucesso contatá-la por telefone. Queira, por favor, entrar em contato conosco para marcarmos uma hora a fim de discutirmos a situação do seu saldo devedor. Caso não entre em contato, teremos que cobrar uma taxa adicional.
Queira também confirmar se seus dados estão atualizados.
Atenciosamente,
Damian Watts,
Gerente de contas de pessoa física, NatWest Bank

Ela digita uma resposta para a primeira mensagem.

Caro Sr. Blank. Eu adoraria baixar meus preços para atendê-lo.
Infelizmente, tenho uma constituição biológica, o que significa que também preciso comer. Boa sorte com o seu folheto.

Ela sabe que há sempre alguém que vai cobrar mais barato, alguém que não liga muito para gramática ou pontuação e não vai reparar que o folheto troca mal por mau umas vinte e duas vezes. Mas já está cansada de ter seu baixo preço empurrado ainda mais para baixo.

Pai, telefonarei para você mais tarde. Se por acaso Caroline voltar nesse meio-tempo, por favor esteja vestido. A Srta. Patel contou que você estava nu de novo regando as anêmonas japonesas semana passada, e você sabe o que a polícia disse sobre isso.
Bj, Liv

Na última vez em que ela fora consolar o pai após um dos sumiços de Caroline, ele abrira a porta usando um robe de seda oriental feminino, aberto na frente, e lhe dera um expansivo abraço antes que ela tivesse tempo de protestar.
— Sou seu pai, pelo amor de Deus — resmungou ele quando ela o repreendeu depois.
Mesmo sem ter tido um trabalho decente no teatro em quase uma década, Michael Worthing nunca perdera a desinibição infantil, nem a irritação com o que chamava de “invólucros”. Quando criança, ela deixara de levar amigas em casa depois que Samantha Howcroft fora contar para a mãe que o Sr. Worthing andava pela casa “com todas as suas peças balançando”. (Samantha também contara a todo mundo na escola que o pai de Liv tinha um pênis igual a um salame gigante. O estranho é que ele não pareceu se incomodar com o comentário.)
Caroline, sua namorada de cabelos cor de fogo havia quase quinze anos não se incomodava com a nudez dele. Na verdade, até gostava de andar seminua também. Liv às vezes achava que estava mais acostumada a ver aqueles dois corpos velhos e flácidos do que seu próprio corpo.
Caroline era a grande paixão dele, e a cada dois meses saía de casa no maior mau humor, mencionando o fato de ele ser impossível, não ganhar dinheiro e ter casos ardentes com outras mulheres. O que elas viam nele, Liv não conseguia imaginar.
— Tesão pela vida, minha querida! — exclamava ele. — Paixão! Se não tiver isso você é uma coisa morta.
Liv desconfia, no íntimo, que é uma decepção para o pai.
Ela bebe o restinho do café, e escreve um e-mail para Abiola.

Oi, Abiola,
Encontrarei você em frente ao prédio Conaghy às duas da tarde. Está tudo certo. Eles estão meio nervosos, mas muito empolgados. Espero que esteja tudo bem com você.
Abraço,
Liv

Depois de enviar a mensagem, ela encara o e-mail do gerente do banco. Seus dedos se imobilizam no teclado. Então, ela estende um deles e pressiona delete.
Seu lado sensato lhe diz que isso não pode continuar. Ouve ao longe o clamor ameaçador das últimas requisições cuidadosamente dobradas em seus envelopes, como o rufar dos tambores de um exército inimigo. Em algum momento ela já não será capaz de contê-los, enrolá-los, escapar de fininho. Ela vive como um rato de igreja; faz poucas compras, sai raramente, e isso ainda não basta. Seus cartões de débito e de crédito têm propensão a ser cuspidos de volta para ela dos caixas eletrônicos. A prefeitura chegou à sua porta no ano anterior, num recadastramento dos contribuintes municipais. A representante percorreu a Casa de Vidro, depois olhou para Liv como se ela de certa forma tivesse tentado passar a prefeitura para trás. Como se fosse um insulto que ela, praticamente uma garota, morasse naquela casa sozinha. Liv não podia censurá-la: desde a morte de David, ela se sentia uma fraude morando ali. Ela é como uma curadora, protegendo a memória de David, mantendo a casa como ele haveria de querê-la.
Liv agora paga o imposto máximo cobrado pela prefeitura, o mesmo que os banqueiros com seus salários de milhões de libras, os financistas com seus bônus inchados. Isso lhe come mais da metade do que ela ganha em alguns meses.
Ela já não abre os extratos bancários. É inútil. Sabe exatamente o conteúdo.

* * *

— A culpa é minha. — Seu pai deixa a cabeça cair nas mãos num gesto teatral. Por entre seus dedos, saem tufos ralos espetados de cabelo grisalho. Espalhadas pela cozinha em volta dele há panelas e recipientes que revelam uma refeição noturna interrompida: meio pedaço de parmesão, uma tigela de macarrão congelado, tal como um navio fantasma da desarmonia doméstica. — Eu sabia que não devia chegar perto dela. Mas ai! Eu parecia uma mariposa atraída pela chama. E que chama! O ardor! O ardor! — Ele soa desconcertado.
Liv balança a cabeça compreensivamente. Ela está tentando, no íntimo, conciliar esta história de desventura sexual épica com Jean, a cinquentona que administra a floricultura do bairro, fuma dois maços de cigarro por dia e cujos tornozelos cinzentos emergem de calças muito curtas como fatias de tripa.
— A gente sabia que era errado. E eu tentei. Deus, eu tentei ser bom. Mas eu estava lá uma tarde, procurando bulbos de primavera, e ela apareceu atrás de mim recendendo a frésias, e, quando vi, lá estava eu, túrgido como um broto novo.
— Tudo bem, pai. Muita informação.
Liv liga a chaleira. Quando começa a arrumar a bancada, seu pai entorna o restante do que havia no copo.
— É muito cedo para vinho.
— Nunca é muito cedo para vinho. O néctar dos deuses. Meu único consolo.
— Sua vida é um longo consolo.
— Como eu criei uma mulher de tanta determinação, de limites tão terríveis?
— Você não me criou. A mamãe me criou.
Ele balança a cabeça com certa melancolia, aparentemente esquecendo as vezes em que a amaldiçoou por tê-lo deixado quando Liv era pequena, ou invocado a ira dos deuses sobre a sua cabeça infiel. Liv às vezes achava que no dia em que sua mãe faleceu, seis anos antes, o curto casamento fraturado de seus pais foi de certa forma redesenhado na cabeça de seu pai, fazendo com que aquela mulher intolerante, aquela sem-vergonha, aquela megera que envenenara sua única filha contra ele agora parecesse uma espécie de Virgem Santa. Ela não ligava. Também tinha feito isso. Quando se perde a mãe, sua imaginação aos poucos a recria como perfeita. Uma série de beijos ternos, palavras amorosas, um abraço reconfortador. Alguns anos antes ela escutara a ladainha de irritação de suas amigas sobre suas mães autoritárias sem entender, como se elas estivessem falando coreano.
— A perda calejou você.
— Eu não me apaixono por toda pessoa do sexo oposto que por acaso me venda um saco de tomates.
Ela abrira as gavetas, à procura de um filtro de café. A casa entulhada e caótica de seu pai era proporcionalmente inversa à sua casa arrumada.
— Eu vi Jasmine no Pig’s Foot outra noite. — Ele se ilumina. — Que garota maravilhosa ela é. Perguntou por você.
Liv encontra os filtros de papel, abre um e coloca o pó de café ali dentro com destreza.
— É mesmo?
— Ela vai se casar com um espanhol. Ele é parecido com Errol Flynn. Não consegue tirar os olhos dela. Veja bem, nem eu. Ela tem um jeito de andar que é realmente hipnótico. Ele vai assumir o bebê. De outro, acho eu. Vão morar em Madri.
Liv serve uma caneca de café e a entrega ao pai.
— Por que você não a vê mais? Vocês eram tão amigas — pergunta ele.
Ela dá de ombros.
— As pessoas se afastam.
Não pode contar a ele que esta é apenas parte do motivo. Essas são as coisas que não se contam a respeito da perda de um marido, assim como o cansaço, a vontade de dormir e dormir, e os dias em que, ao tentar forçar as pálpebras para acordar, elas voltam a se fechar, e simplesmente atravessar o dia parece um esforço hercúleo — você odeia seus amigos, irracionalmente: cada vez que chega alguém à sua porta ou cruza com você na rua e lhe abraça dizendo que sente muito, você olha para a pessoa, para o marido e os filhos dela, e fica chocada com o tamanho da sua inveja. Como eles podem estar vivos e David estar morto?
Como o chato e estúpido Richard, com seus amigos da City e suas viagens de fim de semana para jogar golfe e seu total desinteresse por qualquer coisa fora de seu mundinho fechado, está vivo, quando David, o brilhante, amoroso, generoso e apaixonado David, teve que morrer? Como o bobalhão do Tim consegue se reproduzir, trazer a este mundo mais gerações de pequenos Tims sem imaginação, quando a mente imprevisível de David, sua bondade, seus beijos, desapareceram para sempre?
Liv se lembra de ter gritado em silêncio em banheiros, de ter saído correndo sem explicação de salas cheias, consciente de sua aparente grosseria, mas incapaz de se deter. Passaram-se anos até ela conseguir ver a felicidade dos outros sem lamentar a perda da sua.
Agora o inconformismo já desapareceu, mas ela prefere ver de longe a satisfação doméstica de pessoas que não conhece bem, como se a felicidade fosse um conceito científico cuja comprovação fosse suficiente para deixá-la contente.
Ela não vê mais as amigas que tinha na época, as Cherrys, as Jasmines. As mulheres que lhe lembrariam a garota que ela fora. Era muito complicado explicar. E ela não gostava especialmente do que isso dizia sobre ela.
— Bem, acho que você deveria encontrá-la antes que ela viaje. Eu adorava ver vocês duas juntas, a dupla de jovens deusas que vocês eram.
— Quando você vai ligar para Caroline? — pergunta ela enquanto limpa as migalhas da mesa de pinho rústico da cozinha e esfrega uma mancha de vinho tinto.
— Ela não fala comigo. Deixei quatorze recados no celular dela ontem à noite.
— Você precisa parar de dormir com outras pessoas, pai.
— Eu sei.
— E precisa ganhar dinheiro.
— Eu sei.
— E precisa se vestir. Se eu fosse ela e chegasse em casa e visse você assim, eu daria meia volta e iria embora de novo.
— Estou usando o roupão dela.
— Imaginei.
— Ainda tem o cheiro dela. — Ele aspira a manga da roupa de Caroline, com uma expressão profundamente trágica no semblante, e seus olhos ficam cheios d’água. — O que devo fazer se ela não voltar?
Liv olha para ele por um instante com uma expressão séria. Ela se pergunta se seu pai tem alguma ideia de que dia é hoje. Então, olha para aquele homem maltratado, vestido com um roupão feminino, as veias azuis se destacando em sua pele murcha, e se vira de costas para lavar a louça.
— Sabe de uma coisa, pai? Eu não sou a pessoa certa para você perguntar isso.

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