29 de novembro de 2017

Capítulo 12 - Nas montanhas

Mark atravessou a Corte Unseelie. Ele já esteve entre esse povo antes em festas: a Corte não ficava sempre no mesmo lugar, mudava em torno das Terras Unseelie. Mark podia sentir o cheiro de sangue no ar noturno agora, enquanto ele se lançava entre a nobreza fechada. Ele podia sentir cheiro de pânico e medo e ódio. O ódio deles para com os Caçadores de Sombras. O Rei mandava a Corte ficar quieta, mas a multidão gritava para Emma derramar o sangue de seu pai.
Ninguém protegia Kieran. Ele estava caído de joelhos, o peso de seu corpo puxando contra as amarras espinhosas que o seguravam como arame farpado. Sangue escorria lentamente em torno das lacerações em seus pulsos, pescoço e tornozelos.
Mark passou pelo último dos cortesãos. De onde estava, podia ver que Kieran usava algo em volta do pescoço preso por uma corrente. Uma flecha de elfo. A flecha de elfo de Mark. O estômago de Mark apertou.
— Kieran. — Ele colocou a mão na bochecha do outro garoto.
Os olhos de Kieran se abriram. Seu rosto estava cinzento com dor e desespero, mas seu sorriso era gentil.
— Tantos sonhos — disse ele. — Esse é o fim? Você veio me levar às Terras Brilhantes? Não poderia ter escolhido um rosto melhor para usar.
Mark passou as mãos pelas amarras de espinhos. Elas eram resistentes. Uma lâmina serafim poderia cortá-las, mas lâminas serafim não funcionavam aqui, deixando-o apenas punhais comuns. Uma ideia surgiu na mente de Mark, e ele se esticou para afastar suavemente a flecha de elfo da garganta de Kieran.
— Qualquer que seja o deus que tenha feito isso — Kieran sussurrou — eles são benevolentes em me trazer aquele que minha alma ama, nos meus últimos momentos. — Sua cabeça caiu contra a árvore, expondo os cortes escarlates ao redor da garganta onde os espinhos haviam cortado. — Meu Mark.
— Silêncio. — Mark falou através de uma garganta apertada. A flecha de elfo era afiada, e ele puxou a lâmina contra as cordas que circulavam a garganta de Kieran e depois os pulsos. Elas caíram, e Kieran deu um suspiro de dor aliviada.
— É verdade o que dizem — Kieran continuou. — A dor nos deixa enquanto morremos.
Mark cortou as amarras que prendiam os tornozelos de Kieran e endireitou-se.
— Isso é o suficiente — disse ele. — Eu sou Mark, não uma ilusão. Você não está morrendo, Kieran. Você está vivendo. — Ele pegou Kieran pelo pulso e o ajudou a se levantar. — Você está escapando.
O olhar de Kieran parecia deslumbrado pelo luar. Ele se esticou para Mark e colocou as mãos em seus ombros. Houve um momento em que Mark poderia ter se afastado, mas não o fez. Ele caminhou em direção a Kieran, assim como Kieran fez com ele, e pôde sentir o cheiro de sangue e vinhas em Kieran, e eles estavam se beijando.
A curva dos lábios de Kieran sob os seus era tão familiar para Mark como o sabor do açúcar ou a sensação de luz solar. Mas não havia açúcar ou luz solar aqui, nada brilhante ou doce, apenas a escuridão da Corte ao redor deles e o cheiro de sangue. E ainda assim seu corpo respondeu a Kieran, pressionando o outro menino contra o tronco da árvore, agarrando-o, as mãos deslizando sobre sua pele, cicatrizes e feridas frescas sob a ponta dos dedos.
Mark sentiu-se levantar e sair de seu corpo, e ele estava novamente na Caçada, as mãos agarradas na crina de Lança do Vento, inclinando-se contra o vento que afastava seu cabelo e entrava em sua garganta e carregava seu riso. Os braços de Kieran estavam ao redor dele, o único calor em um mundo frio, e os lábios de Kieran contra sua bochecha.
Algo passou próximo a sua orelha. Ele se afastou de Kieran. Outro objeto foi apontado e ele instintivamente pressionou Kieran contra a árvore.
Flechas. Cada flecha coberta por chama, atravessando a Corte como vaga-lumes mortais. Um dos príncipes Unseelie corria em direção a Mark e Kieran, levantando um arco enquanto se aproximava.
Eles tinham sido notados afinal, ao que parecia.


A grama na frente do Instituto parecia ferver, uma massa de demônios marinhos e Centuriões, tentáculos chicoteando e lâminas serafim cortando. Kit meio que jogou-se na escada, quase acertando Samantha que, ao lado de seu gêmeo, lutava furiosamente contra uma criatura grotesca cinza coberta de bocas vermelhas.
— Olhe para onde vai! — Ela exclamou, e então gritou enquanto um tentáculo serpenteava ao redor de seu peito. Kit se lançou com Adriel para frente, cortando o tentáculo logo acima do ombro de Samantha. O demônio gemeu por todas as suas bocas e desapareceu.
— Desagradável — disse Samantha, que estava agora coberta por um espesso sangue de demônio acinzentado. Ela franzia a testa, o que parecia ingrato para Kit, mas ele quase não teve tempo de se preocupar com isso; já estava girando para levantar sua espada contra uma criatura de aparência espinhosa com a pele obscura e rugosa como uma estrela do mar.
Ele pensou em Ty na praia com a estrela do mar na mão, sorrindo. Isso o encheu de raiva – ele não tinha percebido antes que os demônios pareciam como as coisas belas do mundo dobradas e enojadas e tornadas revoltantes.
A lâmina desceu. O demônio gritou e se curvou para trás – e braços estavam de repente em torno de Kit, puxando-o para trás.
Era Diana. Ela estava meio ensopada de sangue, parte humano e parte demoníaco. Ela segurou o braço de Kit, puxando-o de volta para a escada, para o Instituto.
— Estou bem, eu não preciso de ajuda — ele ofegou, tentando desviar-se de seu aperto.
Ela arrancou Adriel de sua mão e atirou-a para Diego, que pegou a lâmina e girou para enfiá-la no corpo espesso de um demônio medusa, segurando o machado com a outra mão. Foi muito impressionante, mas Kit estava irritado demais para se importar.
— Eu não preciso de ajuda! — ele gritou de novo, enquanto Diana o levava pelos degraus. — Não preciso ser salvo!
Ela girou-o para olhar para ela. Sangue escorria de uma de suas mangas, e havia uma marca vermelha na garganta de onde seu colar fora arrancado. Mas ela era tão imperiosa como sempre.
— Talvez não precise — disse ela. — Mas os Blackthorns sim, e você vai ajudá-los.
Atordoado, Kit parou de lutar. Diana soltou-o e abriu as portas do Instituto, indo para o interior; depois de um último olhar para trás, ele a seguiu.


Os momentos depois de Julian agarrar Erec e colocar a lâmina em sua garganta foram caóticos. Várias das fadas perto do pavilhão uivaram; os cavaleiros se voltaram, parecendo aterrorizados. O Rei Unseelie gritava.
Julian manteve sua mente concentrada: segure seu prisioneiro. Mantenha a faca na garganta. Se ele fugir, você não tem nada. Se você o matar rapidamente, você não tem nada. Esta é a sua vantagem. Assegure-a.
Com o comando do Rei, os cavaleiros se afastaram, formando uma espécie de corredor para Julian passar, marchando com Erec à sua frente. O corredor terminava abaixo do trono do rei. O rei estava parado na beira do pavilhão, o manto branco esvoaçando com a brisa.
Erec não lutou, mas quando chegaram ao pavilhão, ele ergueu a cabeça para olhar para o pai. Julian podia senti-los olhando nos olhos um do outro.
— Você não vai cortar a garganta do meu filho — falou o Rei Unseelie, olhando para Julian com um olhar de desdém. — É um Caçador de Sombras. Você tem um código de honra.
— Você está pensando nos Caçadores de Sombras como costumavam ser — disse Julian. — Eu venho da época da Guerra Maligna. Fui batizado em sangue e fogo.
— Você é gentil — disse o rei. — Gentil como os anjos são gentis.
Julian colocou a adaga mais firmemente na curva da garganta de Erec. O príncipe das fadas cheirava a medo e sangue.
— Eu matei meu próprio pai. Acha que não vou matar seu filho?
Um olhar de surpresa passou pelo rosto do rei.
— Ele está dizendo a verdade — Adaon se pronunciou. — Muitos estavam no Salão dos Acordos durante a guerra. Foi testemunhado. Ele é impiedoso, esse daí.
O rei franziu a testa.
— Adaon, fique em silêncio. — Mas ele ficou claramente preocupado. Sombras moveram-se por atrás de seus olhos. — O preço que você pagaria por derramar o sangue da minha família na minha Corte seria indescritível — disse ele a Julian. — Não apenas você pagaria. Toda a Clave pagaria.
— Então não me faça derramar — devolveu Julian. — Deixem-nos em paz. Manteremos Erec conosco por um quilômetro e meio, depois o libsertaremos. Ninguém deve nos seguir. Se sentirmos que estamos sendo seguidos, vamos matá-lo. Eu vou matá-lo.
Erec amaldiçoou e cuspiu.
— Deixe-o me matar, pai. Permita que meu sangue comece a guerra que sabemos que está chegando.
Os olhos do rei descansaram por um momento sobre o filho. Ele é o favorito do rei, Mark havia dito. Mas Julian não podia deixar de se perguntar se o rei estaria mais preocupado com a guerra que estava por vir, em controlar como e quando ela começaria, do que a respeito do destino de Erec.
— Você acha que os anjos são gentis — disse Julian. — Eles são qualquer coisa menos gentis. Trazem justiça em sangue e fogo celestial. Eles se vingam com punhos e ferro. Sua glória é tanta que queimaria seus olhos apenas olhar para eles. É uma glória fria e brutal. — Ele encontrou o olhar do rei: seu olho irritado e sua órbita vazia. — Olhe para mim, se duvida das minhas palavras, das minhas ações — disse Julian. — Olhe nos meus olhos. As fadas veem muito, é o que dizem. Acha que sou alguém que tem algo a perder?


Eles estavam na entrada: Ty, Livvy, Arthur e os mais jovens, Dru segurando Tavvy em seus braços.
Seus rostos de acenderam quando Diana e Kit entraram, embora Kit não soubesse se fosse sua causa, ou por causa dela. Arthur estava sentado na escada, silencioso e encarando seu roupão ensanguentado. Ele se levantou ao vê-los, embora se agarrasse ao corrimão com uma mão.
— Nós ouvimos tudo — disse Livvy. Ela estava pálida de choque, sua mão nas de Ty. — Malcolm quer sangue de Blackthorn e ele tem um exército de demônios...
— Quando ele diz “sangue Blackthorn” não há chance de que ele queira dizer, tipo, uma gota? — perguntou Kit. — Talvez alguns mililitros?
Todos o fitaram, exceto Ty.
— Eu pensei nisso também — disse Ty, olhando com alegria para Kit. — Mas os feitiços estão escritos em linguagem arcaica. “Sangue Blackthorn” significa uma vida Blackthorn.
— Ele não está conseguindo o que quer — disse Diana. Ela deu de ombros e tirou sua jaqueta encharcada de sangue e a atirou no chão. — Precisamos de um Portal. Agora. — Ela procurou pelo celular em seus bolsos, encontrando-o, e começou a digitar.
— Mas não podemos simplesmente desaparecer — disse Livvy. — Malcolm soltará todos esses demônios! Pessoas serão mortas!
— Não se pode negociar com Malcolm — argumentou Diana. — Ele mente. Poderia obter o sangue Blackthorn que quer e ainda assim liberar os demônios. Deixá-los em segurança e, em seguida, ir atrás dele é a melhor aposta.
— Mas...
— Ela está certa — disse Kit. — Malcolm prometeu todo tipo de coisas ao meu pai, incluindo mantê-lo seguro. No final, acabou se certificando de que, se alguma coisa acontecesse com ele, meu pai também morreria.
— Catarina? — Diana virou-se, o telefone pressionado na orelha. — Preciso de um favor. Um grande.
— Nós seremos vistos como covardes — Dru falou com infelicidade. — Fugir assim...
— Vocês são crianças — disse Arthur. — Ninguém espera que fiquem e lutem. — Ele atravessou a sala até a janela. Ninguém se moveu para se juntar a ele. Os sons vindos de fora eram suficientes. Tavvy pressionou o rosto contra o ombro da irmã.
— Para Londres? — perguntou Diana. — Isso é bom. Obrigada, Catarina. — Ela desligou o telefone.
— Londres? — disse Livvy. — Por que Londres?
— Por que não vamos a Idris? — acrescentou Dru. — Onde estão Emma e Jules.
— Catarina não pode abrir um Portal para Idris — Diana explicou, sem encontrar o olhar de Dru. — Mas ela tem um acordo com o Instituto de Londres.
— Então devemos entrar em contato com a Clave! — disse Dru. Ela pulou para trás quando o ar na frente dela começou a brilhar.
— Precisamos pegar nossas coisas — disse Tavvy, olhando o crescente brilho com preocupação. Estava se espalhando, uma espécie de cata-vento agora de cores turbulentas e movendo o ar. — Não podemos ir sem nada.
— Não temos tempo para isso — respondeu Diana. — E não temos tempo para entrar em contato com o Clave. E há casas Blackthorn em Londres, lugares seguros, gente que vocês conhecem...
— Mas por quê? — Livvy começou. — Se a Clave...
— É perfeitamente possível que Clave prefira trocar um de vocês com Malcolm — interrompeu Arthur. — Não é isso o que você quer dizer, Diana?
Diana não disse nada. A roda giratória estava se transformando em uma forma: a forma de uma porta, alta e larga, cercada por runas brilhantes.
— Assim como os Centuriões, pelo menos alguns deles — concordou Diana. — Nós estamos fugindo deles, tanto quanto de qualquer outra pessoa. Eles já estão vencendo os demônios marinhos. Há pouco tempo.
— Diego nunca... — Dru começou indignada.
— Diego não está no comando — apontou Diana. O Portal havia se transformado em uma porta cada vez mais vacilante, que estava aberta; Através dela, Kit podia ver uma sala de estar com papel de parede desbotado e florido. Parecia incongruente ao extremo. — Agora venha, Drusilla, você primeiro...
Com um olhar de raiva desesperada, Drusilla cruzou a sala e atravessou o Portal, ainda segurando Tavvy. Kit observou surpreendido enquanto eles se afastavam, desaparecendo.
Livvy se moveu em direção ao Portal em seguida, de mãos dadas com Ty. Ela fez uma pausa ali, a força da magia que pulsava através da passagem fazendo seus cabelos flutuarem.
— Mas não podemos deixar este lugar para Zara e a Tropa — protestou ela, virando-se para Diana. — Não podemos deixá-los ficar com...
— Melhor do que qualquer um de vocês morrer — devolveu Diana. —Agora vá.
Mas foi Ty quem hesitou.
— Kit está vindo, certo?
Diana olhou para Kit. Ele sentiu sua garganta apertar; não sabia por quê.
— Eu vou — disse ele.
Ele observou enquanto Livvy e Ty entravam no vazio colorido, observando como eles desapareceram. Assistiu enquanto Diana os seguia. Seguindo até o Portal por si só, ele fez uma pausa lá, olhando para Arthur.
— Quer ir primeiro? — ele perguntou.
Arthur balançou a cabeça. Havia um olhar estranho em seu rosto – estranho até mesmo para Arthur. Embora Arthur não tivesse sido estranho esta noite, pensou Kit. Era como se a emergência o tivesse forçado a manter-se de uma maneira que ele normalmente não podia.
— Diga a eles... — ele falou, e os músculos em seu rosto se contraíram. Atrás dele, a porta da frente sacudiu; alguém tentava abri-la. — Diga a eles...
— Você será capaz de dizer a eles em um minuto — falou Kit. Ele podia sentir a força do Portal puxando-o. Ele até pensou que podia ouvir vozes através dele – a voz de Ty e Livvy. No entanto, ele ficou onde estava.
— Está acontecendo alguma coisa? — perguntou.
Arthur avançou para o Portal. Por um momento, Kit relaxou, pensando que Arthur entraria nele. Em vez disso, ele sentiu uma mão em seu ombro.
— Diga a Julian que agradeço. — Arthur terminou, e o empurrou com força.
Kit caiu no nada, sem nenhuma graça.


O príncipe fada deixou sua flecha voar.
Kieran moveu-se mais rápido do que Mark pensaria ser possível. Ele balançou o corpo, cobrindo o de Mark. A flecha assobiou pelo ar, cantando como um pássaro mortal. Mark só teve tempo de segurar Kieran para afastá-lo quando a flecha o atingiu, enterrando-se nas costas de Kieran logo abaixo do ombro.
Ele caiu contra Mark. Com a mão livre, Mark tirou uma adaga do cinto e atirou-a; o príncipe caiu, gritando, a lâmina enterrada na coxa.
Mark começou a arrastar Kieran da clareira. As flechas pararam, mas o fogo consumia as bandeiras com o símbolo da coroa partida. Elas pegaram fogo. As fadas da nobreza gritavam e se alvoroçavam, muitos se libertando para correr.
Ainda segurando Kieran, Mark desapareceu na floresta.


— Emma — sussurrou Cristina. A clareira estava cheia de barulho; risos, vaias e zombarias. À distância, viu Julian com a faca na garganta de Erec; murmúrios surgiram quando ele abriu caminho para o pavilhão do rei, embora o rei, distraído por Emma, ainda não tivesse visto.
Emma estava ajoelhada no chão, agarrando o braço do campeão fada ferido. Ela olhou para cima e viu Cristina, e seus olhos se iluminaram.
— Ajude-me com meu pai — pediu Emma. Ela puxava o braço do pai, tentando colocá-lo em torno de seu pescoço. Ele ficou imóvel e por um momento Cristina temia que ele estivesse morto.
Ele se afastou de Emma e se levantou. Era um homem esbelto, alto, e a semelhança familiar era clara: ele tinha os traços de Emma, a forma de seus olhos. Olhos que estavam vazios, no entanto, cujo azul se tornara leitoso.
— Deixe-me ir — disse ele. — Garota Nephilim cadela. Me deixar ir. Isso foi longe o suficiente.
O sangue de Cristina congelou com as palavras. O rei explodiu em outra risada. Cristina pegou Emma, puxando-a para si.
— Emma, você não pode acreditar em tudo o que vê aqui.
— Este é o meu pai — disse Emma. Cristina segurava seu pulso; ela podia sentir a pulsação nas veias de Emma. Emma alcançou-a com a mão livre. — Pai — chamou ela. — Por favor. Venha comigo.
— Você é Nephilim — disse o pai de Emma. Em sua garganta, as cicatrizes brancas de marcas antigas eram visíveis. — Se você me tocar, eu a arrastarei até os pés do meu Rei, e ele a matará.
As fadas ao redor deles riam, alucinantes, agarrando-se uns ao outros, e pensar que era o horror e a confusão de Emma que os fazia rir enviou pontadas de raiva assassina através das veias de Cristina.
Uma coisa era estudar as fadas. Ler sobre como suas emoções não eram como emoções humanas. Como as fadas da Corte Unseelie eram criadas para encontrar prazer na dor dos outros. Envolvê-lo em uma rede de palavras e mentiras e assistir sorrindo enquanto você se afunda em seus truques.
Outra coisa era ver.
Houve uma revolta súbita. O Rei Unseelie correu para a fronteira oposta do pavilhão; ele gritava ordens, os cavaleiros em desordem repentina.
Julian, pensou Cristina. E sim, ela podia vê-lo, Julian segurando Erec na frente dele, ao pé do pavilhão do rei. Ele deliberadamente retirou a atenção do rei de Emma e Cristina.
— Será fácil decidir isso — disse Cristina. Ela tirou o canivete do cinto e segurou-o para o campeão. — Pegue isso.
— Cristina, o que você está fazendo? — perguntou Emma.
— É ferro frio — disse Cristina. Ela deu mais dois passos em direção ao campeão. Seu rosto estava mudando, mesmo quando ela observava, cada vez menos como o de Emma, mais e mais como outra coisa – algo grotesco vivendo sob a pele. — Ele é um Caçador de Sombras. O ferro frio não deve incomodá-lo.
Ela se aproximou – e o campeão que se parecia com John Carstairs mudou completamente. Seu rosto ondulou e seu corpo flexionou-se e mudou, sua pele ficando manchada e cinza-esverdeada. Seus lábios saltaram para fora enquanto seus olhos se erguiam horrivelmente largos e amarelos, os cabelos se afastando para mostrar uma palha lisa e irregular.
Onde o pai de Emma estivera estava agora um cavaleiro das fadas com um corpo agachado e a cabeça de um sapo. Emma olhou fixamente, seu rosto branco. A boca larga se abriu e falou em uma voz coaxante:
— Por fim, finalmente, livre para destruir a ilusão do Nephilim nojent...
Ele não terminou a frase. Emma agarrou Cortana e se lançou para a frente, acertando a lâmina na garganta do cavaleiro.
Fez um som molhado e gosmento. O sangue cheio de pus espirrou de sua boca larga; ele caiu de costas, mas Emma o seguiu, torcendo o punho da faca. O cheiro de sangue e o som de carne rasgando lentamente quase fez com que Cristina vomitasse.
— Emma! — Cristina gritou. — Emma!
Emma puxou a espada e a afundou novamente, e novamente, até que Cristina segurou seus ombros e a afastou. O cavaleiro das fadas afundou no chão, morto.
Emma estava tremendo, salpicada de sangue sujo. Ela oscilou em seus pés.
— Venha. — Cristina agarrou o braço de sua amiga, começando a afastá-la do pavilhão. Naquele momento, o ar explodiu com um ruído, um som cantado. Flechas. Elas estavam cobertas por fogo, iluminando a clareira com um brilho estranho e deslumbrante. Cristina se abaixou automaticamente, apenas para ouvir um barulho alto a poucos centímetros de sua cabeça. Emma tinha desferido um arco com Cortana para o lado e uma flecha tinha atingido a lâmina, caindo instantaneamente em pedaços.
Cristina pegou seu ritmo.
— Nós temos que sair daqui.
Uma flecha flamejante disparou por elas e atingiu uma bandeira pendurada no pavilhão do rei. A bandeira acendeu-se em chamas crepitantes. Iluminou os príncipes correndo do pavilhão, deixando as bordas na sombra. O rei ainda estava diante de seu trono, porém, olhando para o vazio. Onde estava Jules? Aonde ele e Erec haviam ido?
Quando elas se aproximaram da borda da clareira, a mulher fada no vestido de osso apareceu em frente a elas. Seus olhos eram verdes e sem pupilas, brilhando como óleo à luz das estrelas. Cristina chutou com firmeza a mulher das fadas; seus gritos foram afogados nos uivos da Corte enquanto Cristina a afastava. Ela caiu no pavilhão, pequenos ossos soltando-se de seu vestido como uma neve deformada.
A mão de Emma estava na de Cristina. Seus dedos pareciam como gelo. Cristina apertou seu punho.
— Venha — disse ela, e elas mergulharam de volta nas árvores.


Mark não se atreveu a ir longe. Julian, Emma e Cristina ainda estavam na Corte. Ele puxou Kieran para trás de um carvalho grosso e o baixou até que ele estivesse recostado no tronco.
— Você está bem? Está com dor? — perguntou Mark.
Kieran olhou para ele com clara exasperação. Antes que Mark pudesse detê-lo, ele se virou, agarrou a flecha e arrancou-a. Sangue escorreu do ferimento, ensopando a parte de trás de sua camisa.
— Cristo, Kieran, que diabos ...
— Que deuses estrangeiros você invoca agora? — exigiu Kieran. — Pensei que você tivesse dito que eu não estava morrendo.
— Você não estava. — Mark tirou o colete de linho, empurrando o material para pressioná-lo nas costas de Kieran. — Exceto agora, e posso matá-lo por ser tão estúpido.
— Caçadores se curam rapidamente — disse Kieran com um suspiro. — Mark. É mesmo você. — Seus olhos brilhavam. — Eu sabia que você viria por mim.
Mark não disse nada. Ele estava concentrado em segurar o pano contra a ferida de Kieran, mas uma sensação de ansiedade pressionava contra o interior de sua caixa torácica. Ele e Kieran dificilmente terminaram as coisas em bons termos. Por que Kieran pensaria que Mark viria por ele, quando Mark quase não viera?
— Kier — disse ele. Ele afastou o colete; Kieran estava certo sobre a cura. A torrente de sangue diminuiu para um gotejar lento. Mark deixou cair a roupa molhada de sangue e tocou a lateral do rosto de Kieran. Estava extremamente quente. — Você está queimando. — Ele estendeu a mão para colocar o colar de flecha de elfo de volta ao redor da garganta de Kieran, mas o outro garoto o deteve.
— Por que estou com seu colar? — ele perguntou, franzindo a testa. — Deveria ser seu.
— Eu te devolvi — lembrou Mark.
Kieran deu uma risada rouca.
— Eu me lembraria disso. — Os olhos dele se arregalaram então. — Não me lembro de matar Iarlath. Eu sei que o fiz. Eles me disseram isso. E acredito nisso; ele era um miserável. Mas eu não me lembro. Não lembro de nada depois de vê-lo pela janela do Instituto, na cozinha, conversando com aquela garota. Cristina.
Mark ficou frio por toda parte. Automaticamente, ele pendurou o colar de flecha de elfo sobre a cabeça, sentindo-o bater contra o peito. Kieran não lembrava?
Isso significava que ele não se lembrava de trair Mark, dizendo à Caçada Selvagem que Mark tinha compartilhado segredos de fadas com os Nephilim. Ele não se lembrava da punição, das chicotadas que Julian e Emma haviam suportado.
Ele não se lembrava de que Mark tinha terminado as coisas entre eles. Devolvido-lhe o colar.
Não era de se admirar que ele pensasse que Mark viria por ele.
— Aquela garota Cristina está bem aqui — disse uma voz acima deles.
Cristina se juntou a eles nas sombras. Ela parecia desgrenhada, embora não tanto quanto Emma, que estava salpicada de sangue de fadas e sangrando de um longo arranhão na bochecha. Mark se ergueu.
— O que está acontecendo? Vocês estão feridas?
— Eu... eu acho que estamos bem — respondeu Emma.
Parecia confusa e preocupada.
— Emma matou o campeão do rei — disse Cristina, e então fechou a boca. Mark percebeu que havia mais, mas não pressionou.
Emma piscou, concentrando-se lentamente em Mark e Kieran.
— Oh, é você — ela falou para Kieran, parecendo mais com a antiga Emma. — Cara de Fuinha. Começou algum ato de monstruosa traição pessoal ultimamente?
Kieran pareceu atordoado. As pessoas geralmente não falavam com os príncipes Unseelie dessa maneira e, além disso, pensou Mark, Kieran já não se lembrava do porquê Emma poderia estar com raiva dele ou acusá-lo de traição.
— Você a trouxe aqui com você para me resgatar? — ele perguntou para Mark.
— Todos nós viemos te resgatar. — Era Julian, apenas parcialmente visível atrás de Erec, quem era empurrado em sua frente.
Emma exalou, um som audível de alívio. Julian olhou para ela rapidamente, e eles compartilharam um olhar. Era o que Mark sempre pensou como o olhar parabatai: olhar rápido uma vez para garantir que o outro estivesse bem, que estava ao seu lado, seguro e vivo. Embora agora que conhecesse os verdadeiros sentimentos de Julian por Emma, ele não pudesse deixar de pensar se havia uma camada a mais do que eles compartilhavam.
A garganta de Erec sangrava onde o punhal provavelmente estivera pressionado; ele encarava sob as sobrancelhas negras, seu rosto se contorcendo em um grunhido.
— Traidor de sangue — falou para Kieran. Ele cuspiu para a adaga. — Assassino de parentes.
— Iarlath não era parente meu — Kieran respondeu, com uma voz exausta.
— Ele era mais parente seu do que esses monstros — respondeu Erec, olhando para os Caçadores de Sombras em torno dele. — Mesmo agora, você nos traiu por eles.
— Como você me traiu para o rei, nosso pai? — indagou Kieran. Ele estava caído entre as raízes das árvores, parecendo surpreendentemente pequeno, mas quando virou o rosto para olhar para Erec, seus olhos eram duros como gemas. — Acha que não sei quem disse ao rei que matei Iarlath? Acha que não sei a quem posso culpar pelo exílio na Caçada?
— Arrogante — disse Erec. — Você sempre foi arrogante, pensou que pertencia à Corte com o resto de nós. Eu sou o favorito do rei, não você. Você não ganhou nenhum lugar especial em seu coração ou no coração da Corte.
— No entanto, eles gostaram mais de mim — disse Kieran calmamente. — Antes...
— Basta — interrompeu Julian. — A Corte está em chamas. Os cavaleiros virão atrás de nós assim que o caos acabar. É loucura ficar aqui e fofocar.
— Negócios importantes da Corte não são fofocas — gritou Erec.
— São para mim. — Julian examinou o bosque. — Deve haver uma saída rápida daqui, em direção as Terras Seelie. Você pode nos guiar?
Erec ficou em silêncio.
— Ele pode — disse Kieran, levantando-se inseguro. — Ele não pode mentir e dizer que não é possível; é por isso que não está falando.
Emma levantou uma sobrancelha para Kieran.
— Cara de Fuinha, você é surpreendentemente útil quando quer.
— Gostaria que você não falasse de modo tão familiar — Kieran disse, desaprovando.
Erec fez um barulho – Julian estava enfiando a adaga em seu pescoço. Havia um leve tremor na mão de Julian, em seu aperto na lâmina. Mark imaginou que manter Erec contido necessitasse de grande tensão física, mas suspeitava que havia mais do que isso. Julian não tinha a natureza de um torturador, apesar de poder e ser implacável em proteger aqueles que amava.
— Vou matá-lo se não nos levar na direção certa — disse ele agora. — Vou fazê-lo lentamente.
— Você prometeu ao meu pai ...
— Eu não sou fada — disse Julian. — Eu posso mentir.
Erec olhou furiosamente, de uma maneira que alarmou Mark. Fadas podiam guardar rancores por muito tempo. Ele começou a caminhar, enfim, e os outros o seguiram, deixando para trás a luz laranja que brilhava na clareira.
Eles se dirigiram para a escuridão da floresta. As árvores ficavam cada vez mais próximas umas das outras, e raízes espessas serpenteavam pelo solo escuro. Um ramo de flores em cores profundas, vermelhas e venenosas, envolviam os galhos baixos das árvores. Eles passaram por uma risonha fada das árvores que estava sentada na bifurcação de um galho, nua exceto por uma rede elaborada de fios prateados, e, piscou para Mark enquanto passava. Kieran estava apoiando todo seu peso em seu ombro. Mark mantinha uma mão espalmada na parte inferior das costas de Kieran. Os outros estariam intrigados ou se perguntando o que acontecia entre eles? Ele viu Cristina olhar de volta para ele, mas não conseguiu ler sua expressão.
Emma e Cristina caminhavam juntas. Julian estava na frente, deixando Erec guiá-los. Mark ainda sentia desconforto. Parecia que eles haviam se afastado com facilidade. Para que o Rei da Corte Unseelie os tivesse deixado ir, e levando o seu filho favorito...
— Onde estão os outros? — Erec perguntou enquanto as árvores ficavam mais esparsas e o céu, multicolorido em toda a sua glória, tornava-se visível. — Seus amigos?
— Amigos? — Mark perguntou num tom confuso.
— Os arqueiros — disse Erec. — Aquelas flechas flamejantes na Corte foram inteligentes, tenho que concordar. Nós nos perguntamos como vocês lidam com armas uma vez que nós acabamos com o seu poder de anjo.
— Como vocês fazem isso? — perguntou Mark. — Vocês desconsagraram toda essa terra?
— Isso não faria diferença — disse Emma. — Runas funcionam mesmo em reinos demoníacos. Isso é algo estranho.
— E a praga — adicionou Mark. — Qual é o significado da terra destruída? Está em toda parte nas Terras Unseelie, como câncer em um corpo doente.
— Como se eu fosse falar disso — disse Erec. — E não adianta me ameaçar, valeria a pena dar-lhe a minha vida.
— Acredite, estou cansado de ameaçá-lo mesmo — disse Julian.
— Então deixe-me ir — devolveu Erec. — Por quanto tempo planeja me manter? Para sempre? Pois é o tempo que você teria que me usar como escudo para evitar que meu pai e seus cavaleiros o encontrem e cortem suas gargantas.
— Eu disse que estava cansado de te ameaçar, não que eu deixaria de fazer isso — observou Jules, tocando na lâmina da adaga. Eles chegaram ao limite da floresta, onde as árvores terminavam e os campos começavam. — Agora, para que lado?
Erec partiu para o campo, e eles o seguiram. Kieran estava apoiando-se com mais força em Mark. Seu rosto estava muito pálido à luz da lua. As estrelas refletiam o azul e o verde em seus cabelos – sua mãe tinha sido uma fada do oceano, e um pouco da beleza cintilante da água permanecia nas cores dos cabelos e olhos de Kieran.
O braço de Mark curvou-se inconscientemente ao redor dele. Ele estava com raiva de Kieran, sim, mas aqui na terra das fadas, sob as brilhantes estrelas policromáticas, era difícil não se lembrar do passado, não pensar em todas as vezes em que se agarrava a Kieran por calor e companheirismo. Quando tinha sido apenas eles, e ele pensava que talvez fosse sempre assim. Como ele se considerara afortunado porque alguém como Kieran, um belo príncipe, se voltasse para ele.
O sussurro de Kieran era uma leve carícia contra o pescoço de Mark.
— Lança do Vento.
Lança do Vento era o cavalo de Kieran, ou costumava ser. Ele veio com ele da Corte quando Kieran se juntara à Caçada.
— E ele? Onde ele está?
— Com a Caçada — disse Kieran, e tossiu forte. — Foi um presente de Adaon quando eu era muito jovem.
Mark nunca antes encontrara os meios-irmãos de Kieran, as dezenas de príncipes de diferentes mães que lutavam pelo Trono Unseelie. Adaon, que ele conhecia das histórias de Kieran, era um dos mais gentis. Erec era o oposto. Ele tinha sido brutal com Kieran durante a maior parte de sua vida. Kieran raramente falava dele sem raiva.
— Pensei ter ouvido seus cascos — disse Kieran. — Eu ainda os ouço.
Mark prestou atenção. No começo, não ouviu nada. Sua audição não era tão apurada quanto a de Kieran ou qualquer fada verdadeira, pelo menos não quando suas runas não estavam funcionando. Ele teve que aguçar os ouvidos para finalmente ouvir o som. Eram cascos, mas não o de Lança do Vento. Nem de apenas um cavalo. Era um trovão de cascos, dezenas deles, vindo da floresta.
— Julian! — ele clamou.
Não havia como impedir o pânico de sua voz; Jules ouviu e se virou, rápido, ainda segurando Erec. Erec girou, explodindo em movimento. Ele atravessou o campo, sua capa preta flutuando atrás dele e mergulhou na floresta.
— E ele era uma companhia tão maravilhosa também — murmurou Emma. — Tudo aquilo de “Nephilim, vocês vão morrer em uma poça de seu próprio sangue” foi realmente refrescante. — Ela fez uma pausa. Ouviu os cavalos. — O que é isso?
Cortana pareceu voar para sua mão. Julian ainda segurava sua adaga; Cristina alcançou seu canivete.
— A cavalaria do rei — disse Kieran, com uma calma surpreendente. — Vocês não podem lutar contra eles.
— Nós devemos correr — concordou Mark. — Agora.
Ninguém discutiu. Eles correram.
Eles atravessaram o campo, pulando um muro de pedra no lado oposto, Mark meio carregando Kieran. O chão já começava a tremer com a força de cascos de cascos ao longe. Julian praguejava, um fluxo constante e baixo de maldições. Mark imaginou que não conseguiria praguejar tanto de volta ao Instituto.
Eles estavam se movendo rápido, mas não tanto, a menos que pudessem encontrar mais bosques, algum tipo de cobertura. Mas nada era visível à distância e, olhar para as estrelas dizia pouco a Mark. Metade de sua força parecia ir para Kieran: não apenas para arrastá-lo, mas para mantê-lo de pé.
Eles chegaram a outro muro, não suficientemente alto para parar os cavalos das fadas, mas alto o suficiente para ser irritante. Emma saltou; Julian saltou atrás dela, seus dedos roçando levemente o topo enquanto ele escorregava.
Kieran balançou a cabeça.
— Não consigo ir — disse ele.
— Kier... — Mark começou com raiva, mas Kieran tinha abaixado a cabeça como um cão espancado. Seu cabelo caiu, emaranhado em seu rosto, e sua camisa e a cintura de suas calças estavam molhadas de sangue. — Você está sangrando novamente. Pensei que você tivesse dito que estava se curando.
— Eu pensei que estivesse — Kieran respondeu suavemente. — Mark, deixe-me aqui.
Uma mão tocou o ombro de Mark. Cristina. Ela guardou seu canivete. Olhou em seus olhos.
— Eu vou ajudar você a passá-lo para o outro lado.
— Obrigado — disse Mark.
Kieran não parecia ter energia para olhar para ela com raiva. Ela subiu no topo do muro e lançou suas mãos para baixo; juntos, ela e Mark levaram Kieran para cima. Saltaram para a grama perto de Emma e Julian, que esperavam, parecendo preocupados. Kieran pousou ao lado deles e desabou no chão.
— Ele não pode continuar correndo — disse Mark.
Julian olhou para o muro. Os cascos eram ruidosos agora, como o trovão dentro da cabeça. A vanguarda da cavalaria Unseelie estava à vista, uma linha escura e em movimento.
— Ele precisa — Julian falou. — Eles vão nos matar.
— Deixe-me aqui — Kieran disse. — Deixem que me matem.
Julian caiu de joelhos. Ele colocou a mão sob o queixo de Kieran, forçando o rosto do príncipe para que seus olhos se encontrassem.
— Você me chamou de impiedoso — falou, seus dedos pálidos contra a pele sangrenta de Kieran. — Eu não tenho piedade para você, Kieran. Você trouxe isso para si mesmo. Mas se acha que viemos até aqui para salvar sua vida só para deixá-lo deitar e morrer, então é mais tolo do que eu pensava. — Sua mão caiu do rosto de Kieran para seu braço, erguendo-o. — Ajude-me, Mark.
Juntos, levantaram Kieran entre eles e começaram a avançar. Foi uma tarefa incrivelmente difícil. O pânico e a tensão de segurar Kieran derrubaram os sentidos de caçador de Mark; eles tropeçaram sobre pedras e raízes, mergulharam em uma cova grossa de árvores, seus galhos se abaixando para rasgar a pele e o uniforme. No meio do bosque, Kieran começou a mancar. Ele finalmente desmaiou.
— Se ele morrer... — Mark começou.
— Ele não vai morrer — Julian disse com severidade.
— Podemos escondê-lo aqui, voltar para buscá-lo...
— Ele não é um par de sapatos. Nós não podemos simplesmente deixá-lo em algum lugar e esperarmos que ele esteja lá quando voltarmos — Julian sibilou.
— Vocês dois parem... — Emma começou e depois interrompeu com um suspiro. — Oh!
Eles saíram do pequeno aglomerado de árvores. Em frente a eles, erguia-se uma colina, verde e suave. Poderiam escalá-la, mas exigiria usar as mãos e os pés até chegarem ao topo. Seria impossível fazer isso e levar Kieran com eles.
 Até Julian parou. O braço de Kieran estivera apoiado em torno do pescoço de Julian; agora, ele balançava, pendurado ao seu lado. Mark tinha o horrível sentimento distante de que ele já estava morto. Ele queria colocar Kieran na grama, verificar os batimentos cardíacos, segurá-lo como um caçador deve ser mantido em seus últimos momentos.
Em vez disso, virou a cabeça e olhou para trás. Cristina tinha os olhos fechados; ela segurava seu colar, a boca se movendo em uma oração silenciosa. Emma segurava Cortana do mesmo jeito, seus olhos vigilantes e brilhantes. Ela os defenderia até o final, até Kieran; e cairia sob os cascos da cavalaria sombria.
E eles estavam vindo. Mark podia vê-los, sombras entre as árvores. Cavalos como fumaça negra, olhos ardentes como carvões vermelhos, calçados de prata e ouro ardentes. O fogo e o sangue lhes deram vida: eram assustadores e brutais.
Mark achou que podia ver o Rei, montando em frente a eles. Seu capacete de batalha era gravado com um padrão de rostos gritando. O protetor de rosto cobria apenas a metade que era humana e bela, deixando a pele cinzenta morta exposta. Seu único olho queimava como veneno vermelho.
O som de sua chegada era como o som de uma geleira quebrando. Ensurdecedor, mortal. Mark desejou de repente que pudesse ouvir o que Cristina estava dizendo, as palavras de sua tranquila oração. Ele observou seus lábios se moverem. Anjo, proteja-nos, abençoe-nos, salve-nos.
— Mark. — Julian virou a cabeça em direção ao seu irmão, seus olhos azul-esverdeados de repente sem barreiras, como se ele estivesse prestes a dizer algo pela qual estava desesperado por falar há um longo tempo. — Se você...
A colina pareceu abrir-se ao meio. Um grande quadrado na frente deles afastou-se do resto e abriu-se como uma porta. A boca de Mark se abriu. Ele tinha ouvido falar de tais coisas, colinas com portas nas laterais, mas nunca tinha visto uma.
Luz brilhava da abertura. Parecia ser um corredor, serpenteando no coração da colina. Uma jovem mulher com as orelhas suavemente pontudas, os cabelos pálidos amarrados com fios de flores, estava na entrada, segurando uma lamparina. Ela estendeu a mão para eles.
— Venham — ela convidou, e sua voz tinha o inegável sotaque da Corte Seelie. — Venham rapidamente, antes que eles os alcancem, porque os cavaleiros do rei são selvagens e não os deixarão vivos.
— E você? — indagou Julian. — Você quer nos proteger?
Somente Julian discutiria com a providência, pensou Mark. Mas Julian não confiava em ninguém além de sua família. E às vezes, nem mesmo neles.
A mulher sorriu.
— Eu sou Nene. Vou ajudá-los e não prejudicá-los. Mas venham agora, rapidamente.
Mark ouviu Cristina sussurrar um agradecimento. Então eles estavam correndo novamente, não ousando olhar para trás. Um a um, eles atravessaram a porta e entraram na terra encerrada. Mark e Julian foram por último, carregando Kieran. Mark pegou um último vislumbre dos cavaleiros escuros atrás deles e ouviu seus gritos de raiva desapontada. Então a porta se fechou atrás deles, selando a colina.

8 comentários:

  1. Não sei mais eu ri nesse final...
    Do nada a mulher aparece e salva os coitados...sei não..

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  2. Mark é "namorado" da Emma, apaixonado pela Cristina e enrolado com o Kieran... que suruba em

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    1. Berro, verdade... e bota Julian aí no meio que ele gosta de Emma.
      Assim também quero.

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  3. Que belo Deus Ex Machina esse final

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  4. Aposto que e a Leide Neryssa mãe de Mark

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  5. Acho que tudo isso foi só uma desculpa para as fadas começarem uma guerra com os nephilins
    Mas talvez eu esteja apenas sendo do contra kkkkkkkkkkkkkkk ; )!!!!!!
    Ass: kath

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  6. Kieran e Mark, não suporto. Não depois de tanta traição e a Cristina surgir.
    Mas tenho certeza que no fim vão acabar juntos.
    Adorei ele saber da Emma e do Julian.

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Boa leitura :)