20 de novembro de 2017

Capítulo 11

A cabine de controle à prova de improbabilidade na nave Coração de Ouro parecia uma espaçonave perfeitamente convencional; a única diferença é que era perfeitamente limpa, por ser tão nova. Em alguns dos bancos, ainda nem haviam sido removidos os plásticos protetores. A cabine era basicamente branca, retangular, do tamanho de um restaurante pequeno. Na verdade, não era perfeitamente retangular: as duas paredes mais compridas eram ligeiramente curvas, paralelas, e todos os ângulos e cantos eram cheios de protuberâncias decorativas. Na verdade, teria sido bem mais simples e mais prático fazer uma cabine retangular tridimensional normal, mas isso deixaria os autores do projeto deprimidos. Fosse como fosse, a cabine parecia arrojadamente funcional, com grandes telas de vídeo por cima do painel do sistema de controle e navegação na parede côncava e longas fileiras de computadores embutidos na parede convexa. Num dos cantos havia um robô sentado, com a cabeça de aço reluzente caída entre os joelhos de aço reluzente. O robô também era bem novo, mas embora fosse muito bem-feito e lustroso, dava a impressão de que as diferentes peças de seu corpo mais ou menos humanoide não casavam bem umas com as outras. Na verdade, elas se encaixavam perfeitamente, mas havia algo no porte do robô que dava a impressão de que elas poderiam se encaixar ainda melhor.
Zaphod Beeblebrox andava nervosamente de um lado para o outro, correndo a mão pelos equipamentos reluzentes, sem conseguir conter risinhos de entusiasmo.
Trillian estava debruçada sobre um conjunto de instrumentos, lendo números. O sistema de som transmitia sua voz para toda a nave.
— Cinco contra um e diminuindo  dizia ela. — Quatro contra um e diminuindo... três contra um... dois... um... fator de probabilidade de um para um... atingimos a normalidade, repetindo, atingimos a normalidade. — Desligou o microfone, mas depois ligou-o de novo, com um leve sorriso nos lábios, e acrescentou: — Se houver ainda alguma coisa que não consigam entender, é problema de vocês. Por favor, relaxem. Em breve vocês serão chamados.
Zaphod exclamou, irritado:
— Quem são eles, Trillian?
Trillian virou a cadeira giratória para ele e deu de ombros.
— Uns caras que pelo visto pegamos em pleno espaço — disse ela. — Seção ZZ9 Plural Z Alfa.
— É, é muito simpático, Trillian — queixou-se Zaphod —, mas você não acha isso meio arriscado nas atuais circunstâncias? Afinal, somos fugitivos, e a polícia de metade da Galáxia deve estar atrás da gente. E nós parando pra dar carona. Em matéria de estilo, nota dez; mas em matéria de sensatez, menos um milhão.
Irritado, começou a dar batidinhas num dos painéis de controle. Com jeito, Trillian empurrou sua mão, antes que ele desse uma batidinha em alguma coisa importante. Ainda que tivesse inegáveis qualidades intelectuais, ostentação, fanfarronice, presunção, Zaphod era fisicamente desajeitado e bem capaz de fazer a nave explodir com um gesto extravagante. Trillian desconfiava que ele conseguia levar uma vida tão louca e bem-sucedida principalmente por não entender jamais o verdadeiro significado de nada que ele fazia.
— Zaphod — disse ela, paciente —, eles estavam flutuando no espaço, sem qualquer proteção... Você não queria que eles morressem, não é?
— Bem, não exatamente... mas...
— Não exatamente? Não morrer, exatamente? Mas o quê? — Trillian inclinou a cabeça.
— Bem, talvez alguma outra nave os salvasse depois.
— Se demorasse mais um segundo, eles morreriam.
— Justamente, portanto, se você tivesse se dado ao trabalho de pensar um pouquinho mais no problema, ele se resolveria por si só.
— Você ficaria satisfeito se eles morressem?
— Não exatamente satisfeito, mas...
— Seja como for — disse Trillian, voltando ao painel de controle —, não fui eu que dei carona a eles.
— Como assim? Então quem foi?
— Foi a nave.
— O quê?
— A nave. Sozinha.
— O quê?
— Quando o gerador de improbabilidade estava ligado.
— Mas isso é incrível.
— Não, Zaphod. É apenas muito improvável.
— É, isso é.
— Escute, Zaphod — disse ela, dando-lhe uns tapinhas no braço —, não se preocupe com eles. Não vão causar problema nenhum. Vou mandar o robô trazê-los até aqui. Ô Marvin!
Sentado no canto, o robô levantou a cabeça subitamente, porém em seguida ficou balançando-a ligeiramente. Pôs-se de pé como se fosse uns dois ou três quilos mais pesado do que era na realidade e fez um esforço aparentemente heróico para atravessar o recinto. Parou à frente de Trillian e ficou olhando por cima do ombro esquerdo da moça.
    Acho que devo avisá-los de que estou muito deprimido — disse ele, cora uma voz baixa e desesperançada.
— Ah, meu Deus — murmurou Zaphod, jogando-se numa cadeira.
— Bem — disse Trillian, num tom de voz alegre e compreensivo —, então vou lhe dar uma coisa pra distrair a sua cabeça.
— Não vai dar certo — disse Marvin. — Minha mente é tão excepcionalmente grande que uma parte dela vai continuar se preocupando.
— Marvini — ralhou Trillian.
— Está bem — disse Marvin. — O que é que você quer que eu faça?
— Vá até a baia de entrada número dois e traga os dois seres que estão lá, sob vigilância.
Após uma pausa de um microssegundo, e com uma micro-modulação de tom e timbre minuciosamente calculada e impossível se ofender com aquela entonação, Marvin conseguiu exprimir todo o desprezo e horror que lhe inspirava tudo que é humano.
— Só isso? — perguntou ele.
— Só — disse Trillian, com firmeza.
— Não vou gostar de fazer isso — disse Marvin. Zaphod levantou-se de um salto.
— Ela não está mandando você gostar — gritou. — Limite-se a cumprir ordens, está bem?
— Está bem — disse Marvin, com voz de sino rachado. — Já vou.
— Ótimo! — exclamou Zaphod. — Muito bem... obrigado... Marvin virou-se e levantou seus olhos vermelhos e triangulares para ele.
— Por acaso eu estou baixando o astral de vocês? — perguntou Marvin, patético.
— Não, não, Marvin — tranquilizou-o Trillian. — Está tudo bem.
— Porque eu não queria baixar o astral de vocês.
— Não, não se preocupe com isso — continuou Trillian, no mesmo tom. — Aja do jeito que você acha que deve agir que tudo vai dar certo.
— Você jura que não se incomoda? — insistiu Marvin.
— Não, não, Marvin, está tudo bem... É a vida — disse Trillian. Marvin dirigiu a Zaphod um olhar eletrônico.
— Vida? — disse ele. — Não me falem de vida.
— Virou-se e saiu lentamente da cabine, desolado. A porta zumbiu alegremente e fechou-se com um estalido.

— Acho que não vou aguentar esse robô por muito tempo — desabafou Trillian

Enciclopédia Galáctica define “robô” como “dispositivo mecânico que realiza tarefas humanas”. departamento de marketing da Companhia Cibernética de Sirius define “robô” como “o seu amigão de plástico”.
O Guia do Mochileiro das Galáxias define o departamento de marketing da Companhia Cibernética de Sirius como “uma cambada de panacas que devem ser os primeiros a ir para o paredão no dia em que a revolução estourar”. Uma nota de rodapé acrescenta que a redação do Mochileiro está aceitando candidatos para o cargo de correspondente de robótica.
Curiosamente, uma edição da Enciclopédia Galáctica que, por um feliz acaso, caiu numa descontinuidade do tempo, vinda de mil anos no futuro, definiu o departamento de marketing da Companhia Cibernética de Sirius como “uma cambada de panacas que foram os primeiros a ir para o paredão no dia em que a revolução estourou”.


O cubículo rosado desaparecera num piscar de olhos e os macacos haviam passado para uma dimensão melhor. Ford e Arthur viram-se na área de embarque de uma nave. O lugar era bonito.
— Acho que essa nave é nova em folha disse — Ford.
— Como é que você sabe? — perguntou Arthur. — Você tem algum aparelho exótico que calcula a idade do metal?
— Não. Eu acabei de achar este folheto de vendas no chão, cheio de frases do tipo “agora o Universo é todo seu”. Arrá! Está vendo? Acertei.
Ford mostrou uma página do folheto para Arthur.
— Diz aqui: Nova descoberta sensacional na física de improbabilidade. Assim que o gerador da espaçonave atinge a improbabilidade infinita, ela passa por todos os pontos do Universo. Faça os outros governos morrerem de inveja. Puxa, coisa fina, mesmo.
Entusiasmado, Ford leu as especificações técnicas da nave, de vez em quando soltando uma interjeição de espanto. Pelo visto, a astrotecnologia galáctica havia progredido muito durante seus anos de exílio.
Arthur ficou ouvindo os detalhes técnicos que Ford lia, mas, como não entendia quase nada, começou a pensar em outras coisas, enquanto seus dedos deslizavam por uma incompreensível fileira de computadores, até apertar um botão vermelho e tentador num painel. Imediatamente o painel iluminou-se, com os dizeres: Favor não apertar este botão outra vez. Arthur ficou quieto na mesma hora.
— Escute só — disse Ford, ainda fascinado pelo folheto. — Diz coisas fantásticas sobre a cibernética da nave. Uma nova geração de robôs e computadores da Companhia Cibernética de Sírius, contando com o novo recurso de PHG.
 O que é PHG? — perguntou Arthur.
— Diz que é “Personalidade Humana Genuína”.
— Que coisa horrível — disse Arthur.
— Põe “horrível” nisso — disse uma voz atrás deles.
— Era uma voz baixa, desesperançada; foi seguida de um leve estalido. Os dois viraram-se e viram um homem de aço, arrasado, todo encolhido, à porta do compartimento.
— O quê? — disseram os dois.
— É horrível — prosseguiu Marvin. — Tudo isso. Medonho. Melhor nem falar nisso. Vejam essa porta — disse, entrando. Os circuitos de ironia começaram a atuar sobre seu modulador de voz, e Marvin pôs-se a parodiar o estilo do folheto de vendas. — Todas as portas desta nave são alegres e bem-humoradas. É um prazer para elas abrir para você, e fechar de novo com a consciência de quem fez um serviço bem-feito.
Ao fechar-se, a porta realmente parecia dar um suspiro de satisfação: “Hummmmmmmmmmmmmmmmm ah!”
Marvin encarou-a com fria repulsa, enquanto seus circuitos lógicos, cheios de asco, consideravam a possibilidade de agredir a porta fisicamente. Outros circuitos, porém, intervieram, dizendo: “Pra quê? Não vai adiantar mesmo. Nunca vale a pena se envolver.” Enquanto isso, outros circuitos divertiam-se analisando os componentes moleculares da porta e dos neurônios dos humanoides. Para terminar, mediram também o nível de emissões de hidrogênio no parsec cúbico de espaço a seu redor, e depois se desligaram de novo, chateados. Um espasmo de desespero sacudiu o corpo do robô, que se virou para os dois.
— Vamos — disse ele. — Me mandaram buscar vocês e levá-los até a ponte de comando. Pois é. Eu, com um cérebro do tamanho de um planeta, e eles me mandam buscar vocês e levar até a ponte de comando. Que tal isso como realização profissional?
Virou-se e voltou à porta odiosa.
— Ah, desculpe — disse Ford, seguindo-o —, mas a que governo pertence esta nave?
Marvin ignorou a pergunta.
— Olhe bem pra essa porta — sussurrou ele. — Ela vai abrir agora. Sabe como é que eu sei? Por causa do ar de auto complacência insuportável que ela gera nessas ocasiões.
Com um gemidinho manhoso, a porta abriu outra vez, e Marvin saiu, pisando com força.
— Vamos — disse ele.
Os dois seguiram-no rapidamente, e a porta fechou-se, com uma série de estalinhos e gemidinhos de contentamento.
— Agradeçam ao departamento de marketing da Companhia Cibernética de Sírius — disse Marvin, e foi subindo, desolado, o corredor curvo e reluzente. — Vamos construir robôs com Personalidades Humanas Genuínas, eles disseram. Resultado: eu. Sou um protótipo de personalidade. Nem dá pra perceber, não é?
Ford e Arthur, sem graça, murmuraram que não.
— Detesto essa porta — insistiu Marvin. — Não estou baixando o astral de vocês, estou?
— A que governo... — insistiu Ford.
— Nenhum — respondeu o robô. — Foi roubada.
— Roubada?
— Roubada? — disse Marvin, imitando-o.
— Por quem?
— Zaphod Beeblebrox.
Uma coisa extraordinária aconteceu com o rosto de Ford. No mínimo cinco expressões diferentes e perfeitamente distintas de choque e espanto se acumularam sobre ele, formando uma barafunda fisionômica. Sua perna esquerda, que estava no ar naquele instante, teve dificuldade em encontrar o chão de novo. Ford olhava para o robô e tentava contrair seus músculos dartoides.
— Zaphod Beeblebrox...? — exclamou, em voz baixa.
— Desculpe, será que eu disse algo que não devia dizer? — disse Marvin, seguindo em frente sem se virar. — Desculpem-me por respirar, embora eu nunca respire de fato, então nem sei por que estou dizendo isso. Ah, meu Deus, estou tão deprimido! Mais uma porta metida a besta. Ah, vida? Não me falem de vida.
— Ninguém falou de vida — retrucou Arthur, irritado. — Ford, você está bem? Ford virou-se para ele.
— Eu ouvi mal ou esse robô falou em Zaphod Beeblebrox?

Um comentário:

  1. Paranóico que espera que a REVOLUÇÃO ocorra a qualquer momento26 de novembro de 2017 19:31

    Personalidade Humana Genuína? Vai dar muito errado isso.

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Boa leitura :)