15 de novembro de 2017

Capítulo 11

Londres, 2006

Liv corre à beira do rio, com a bolsa enfiada embaixo do braço, o telefone encaixado entre a orelha e o ombro. Em algum lugar nas proximidades do Embankment, os céus cinzentos carregados de Londres se abriram, despejando um aguaceiro quase tropical no centro da capital, o tráfego mantém-se parado e os táxis soltam fumaça pelo cano de descarga, com suas janelas embaçadas pelo bafo dos passageiros.
— Eu sei — diz ela pela décima quinta vez, a jaqueta escurecida e o cabelo colado na cabeça. — Eu sei... sim, estou ciente dos termos. Só estou esperando uns pagamentos que... — Ela se esquiva para um portal, tira da bolsa um par de sapatos de salto secos e os calça, olhando para os escarpins molhados ao se dar conta de que não tem onde colocá-los. — Sim. Sim, estou... Não, a minha situação não mudou. Não recentemente.
Ela sai do portal e volta para a calçada, atravessando a rua e seguindo para o Aldwych, segurando os sapatos molhados na mão. Um carro lança um leque de água em seus pés, e ela para, fitando incrédula as rodas do veículo se distanciando.
— Está de brincadeira comigo? — grita. E diz em seguida: — Não, não estou falando com o senhor, Sr... Dean. Não é com o senhor, Dean... Sim, agradeço por você estar apenas fazendo o seu trabalho. Olhe — diz ela. — Vou ter o pagamento segunda-feira. Ok? Não é que já tenha atrasado o pagamento antes. Tudo bem, uma vez.
Outro táxi se aproxima e dessa vez ela corre rápido para outro portal.
— Sim. Eu entendo, Dean... Eu sei. Deve ser muito difícil para você. Olhe, prometo que você vai receber na segunda-feira... Sim. Sim. Sem falta. E sinto muito por toda a confusão... espero que você consiga o novo emprego também, Dean.
Ela fecha o telefone, coloca-o na bolsa e olha para o letreiro do restaurante. Abaixa-se para se olhar no espelho de um carro e se desespera. Não há o que fazer. Já está quarenta minutos atrasada.
Liv afasta o cabelo molhado do rosto e contempla a rua com um olhar distante. Então respira fundo, abre a porta do restaurante e entra.

* * *

— Aí está ela! — Kristen Solberg levanta-se da cadeira no centro da mesa comprida e abre os braços para cumprimentá-la, com um beijo estalado no ar a alguns centímetros de cada uma de suas faces. — Nossa, você está ensopada!
O cabelo castanho dela, é claro, está imaculado.
— Sim. Vim a pé. Não foi a minha melhor decisão.
— Pessoal, esta é Liv Halston. Ela faz coisas maravilhosas para nossa instituição beneficente. E mora na casa mais incrível de Londres. — Kristen sorri de modo condescendente, depois baixa a voz. — Vou me considerar um fracasso se ela não tiver sido enlaçada por um belo homem até o Natal.
Ouve-se o murmúrio dos cumprimentos. Liv está muito sem graça. Dá um sorriso forçado, deliberadamente evitando os olhares de quaisquer das pessoas sentadas em volta dela. Sven a olha sem parar e seus olhos emitem um pedido de desculpas pelo que está por vir.
— Guardei um lugar para você — diz Kristen. — Ao lado do Roger. Ele é adorável. — Ela lança um olhar significativo para Liv ao lhe indicar a cadeira vazia. — Você vai adorá-lo.
Todos são casais. Claro que são. Oito. E Roger. Ela sente as mulheres examinando-a discretamente por trás de sorrisos educados, tentando avaliar se, como a única solteira ali, ela pode ser uma ameaça. É o tipo de coisa com a qual Liv já está bastante familiarizada. Os homens olham de soslaio, observando-a por outro motivo. Ela sente cheiro de alho no hálito quente de Roger quando ele se inclina indicando a cadeira a seu lado.
Ele estende a mão.
— Sou Rog. Você está muito molhada.
Ele consegue fazer o comentário soar ligeiramente lascivo. É o tipo de homem que acha impossível falar com uma mulher sem incluir uma indireta sexual.
Ela tira o casaco.
— É, estou, sim.
Eles dão um sorriso vago um para o outro. Ele tem um cabelo ralo, cor de areia, e a tez corada de quem passa muito tempo no campo. Serve-lhe um copo de vinho.
— E aí, o que você faz então, Liv?
Ele diz o nome dela como se ela o tivesse inventado e ele estivesse fingindo que acreditava.
— Redação, principalmente.
— Bem. Redação. — Ambos fazem uma pausa. — Tem filhos?
— Não. Você tem?
— Dois. Meninos. Os dois no colégio interno. O melhor lugar para eles, realmente. Então... sem filhos, hã? E nenhum homem no pedaço. Quantos anos você tem, trinta e poucos?
Liv engole em seco, tenta fingir não sentir a leve provocação das palavras dele.
— Trinta.
— Você não quer perder tempo com alguém ou é uma daquelas... — ele levanta os dedos para fazer aspas — mulheres interessadas na carreira?
— Sim — diz ela, e sorri. — Tirei os ovários da última vez que atualizei o meu CV. Só por precaução.
Ele fica de boca aberta para ela, depois dá uma gargalhada.
— Ah! Engraçado! Sim. Uma mulher com senso de humor. Muito bom... ovários... Rá. — Sua voz some. Ele bebe um gole de vinho. — Minha mulher saiu de casa quando tinha trinta e nove anos. Aparentemente essa é uma idade complicada para as mulheres. — Ele vira o restante do vinho e pega a garrafa para abastecer seu copo. — Não muito complicado para ela, obviamente, tendo em vista com o que ficou: um porto-riquenho chamado Viktor, a casa na França e uma maldita pensão de metade do meu salário. Mulheres... — Ele se vira para Liv. — Não posso viver com elas, não posso dar um tiro nelas, hã? — Roger levanta os braços e dispara uma saraivada de balas imaginária no teto do restaurante.
Vai ser uma noite longa. Liv continua sorrindo, serve-se de mais um copo de vinho e enterra a cara no menu, prometendo a si mesma que, por mais persuasiva que Kristen seja da próxima vez, ela vai preferir comer o próprio braço a aceitar novamente um convite para qualquer tipo de jantar.

* * *

A noite se estende, os casais falam mal de gente que ela não conhece, os pratos são servidos com uma lentidão angustiante. Kristen devolve seu prato principal para ser refeito segundo suas orientações exatas. Ela dá um pequeno suspiro, como se a falha da cozinha em colocar o espinafre ao lado fosse a imposição mais terrível. Sven olha para ela com tolerância. Liv está imprensada entre as costas largas de um homem chamado Martin, cuja amiga da mulher parece determinada a monopolizar ele e Roger.
— Vagabunda — diz Roger, a certa altura.
— Perdão?
— Primeiro ela reclamava dos pelos das minhas narinas. Depois, das minhas unhas dos pés. Sempre uma razão pela qual a gente não podia fazer o velho... sabe. — Ele forma um O unindo o polegar com o indicador e desliza o outro indicador por dentro do O. — Ou de uma dor de cabeça. Nada dessas dores de cabeça com o velho Viktor, hã? Ah, não. Aposto que ela não está interessada no comprimento das unhas dos pés dele. — Ele pega o copo e dá um gole. — Aposto que estão transando como uns coelhos.
O cordeiro está se solidificando no prato de Liv. Ela coloca lado a lado a faca e o garfo.
— O que aconteceu com você, então?
Ela olha para ele, torcendo para ele estar fazendo uma pergunta retórica, mas obviamente ele não está.
— Kristen disse que você já foi casada. Com o sócio do Sven.
— Fui.
— Ele largou você, foi?
Ela engole em seco. Faz uma expressão vazia.
— De certa maneira.
Roger balança a cabeça de um lado para o outro.
— Não sei. O que há com as pessoas, atualmente? Por que não podem simplesmente ficar satisfeitas com o que têm?
Ele pega um palito e futuca vigorosamente um segundo molar, parando para examinar os fragmentos extraídos com introspecção.
Liv olha para a mesa e encontra os olhos de Kristen. Kristen arqueia as duas sobrancelhas de modo sugestivo, e lhe faz discretamente um sinal de positivo com o polegar. Deu certo!, balbucia.
— Quer me dar licença? — diz Liv, afastando a cadeira. — Preciso muito ir ao toalete.

* * *

Liv fica sentada no cubículo silencioso o máximo de tempo possível antes que alguém apareça para encenar uma intervenção, ouvindo as mulheres entrarem para usar o banheiro. Ela verifica e-mails inexistentes e joga Scrabble no celular.
Finalmente, depois de mais algum tempo, levanta-se, dá descarga e lava as mãos, olhando-se no espelho com uma espécie de satisfação perversa. Sua maquiagem está escorrida embaixo de um dos olhos. Ela a conserta, perguntando a si mesma por que se dá o trabalho, uma vez que está prestes a se sentar de novo ao lado de Roger.
Ela consulta o relógio. Quando vai poder dar a desculpa de uma reunião cedo na manhã seguinte e ir embora para casa? Com sorte, Roger estará tão bêbado quando ela voltar que já até terá se esquecido de sua presença ali.
Liv se olha uma última vez, afasta o cabelo do rosto e faz uma careta para sua aparência. Para quê? Depois, abre a porta.
— Liv! Liv! Venha aqui! Quero lhe contar uma coisa!
Roger está em pé, gesticulando agitadamente. Tem o rosto mais vermelho ainda e o cabelo levantado de um lado. É possível que ele seja, pensa Liv, metade homem, metade avestruz. Ela sente um pânico momentâneo diante da perspectiva de ter que passar mais meia hora em sua companhia. Está acostumada com isso: um desejo físico quase avassalador de se retirar, de estar sozinha nas ruas escuras, sem precisar ser absolutamente ninguém.
Senta-se na ponta da cadeira, como quem se prepara para sair correndo, e bebe mais meia taça de vinho.
— Preciso mesmo ir embora — diz e vem uma onda de protesto dos outros ocupantes da mesa, como se aquilo fosse uma afronta pessoal. Ela fica. Seu sorriso é falso. Ela se vê observando os casais, as rachaduras domésticas aparecendo em cada taça de vinho. Aquela não gosta do marido. Revira os olhos a cada comentário que ele faz. Este homem está aborrecido com todo mundo, talvez até com a mulher. Verifica compulsivamente o celular embaixo da mesa.
Ela ergue os olhos para o relógio, balança a cabeça apaticamente para a ladainha sem fôlego de Roger sobre injustiça conjugal e faz um jogo silencioso de Bingo de Jantar. Marca Mensalidade Escolar e Preço dos Imóveis. Está à beira de marcar um bingo Férias do Ano Passado na Europa quando alguém lhe dá um tapinha no ombro.
— Com licença. Telefone para você.
Liv se vira. A garçonete tem a pele clara e um cabelo comprido escuro, que se abre em volta do rosto dela como um par de cortinas semicerradas. Ela está fazendo um gesto com o bloco de notas. Liv percebe um sinal familiar.
— O quê?
— Telefonema urgente. Acho que é alguém da família
Liv hesita. Família? Mas é um pontinho de luz no fim do túnel.
— Ah — diz ela. — Ah, certo.
— Quer que eu lhe mostre onde fica o telefone?
— Telefonema urgente — pronuncia ela para Kristen e aponta para a garçonete, que aponta para a cozinha.
Kristen faz uma cara de preocupação exagerada. Abaixa-se para dizer algo a Roger, que olha para trás e estica o braço para deter Liv. Mas ela já se foi, acompanhando a morena baixinha pelo restaurante semivazio, passando pelo bar e seguindo pelo corredor revestido de madeira.
Depois da penumbra do salão, a claridade da cozinha ofusca, o brilho fosco das superfícies de aço reflete a luz no recinto. Dois homens de branco a ignoram, passando panelas para uma estação de lavagem. Há algo fritando, chiando e espirrando num canto; alguém fala um espanhol acelerado. A jovem mostra uma série de portas de vaivém, e de repente ela está em outra entrada, nos fundos, um espaço com cabides para casacos.
— Onde está o telefone? — pergunta Liv quando elas param.
A garçonete saca um maço de cigarros do avental e acende um.
— Que telefone? — diz de modo inexpressivo.
— Você disse que eu tinha recebido um telefonema.
— Ah, isso. Não tem telefonema algum. Você simplesmente estava com cara de quem precisava de socorro. — Ela dá uma tragada, solta uma longa baforada e espera um instante. — Você não está me reconhecendo, está? Mo. Mo Stewart. — Ela suspira quando Liv franze a testa. — Fui da sua turma. Renascimento e pintura italiana. E desenho com modelo-vivo.
Liv pensa em sua graduação. E de repente consegue visualizá-la. A mocinha gótica do canto, quase muda em todas as aulas, a expressão de um vazio forçado e as unhas pintadas de um agressivo roxo cintilante.
— Nossa! Você não mudou nada.
Não é mentira. Ao falar aquilo, ela não tem certeza se é um elogio.
— Você, sim — diz Mo, examinando-a. — Você está... sei lá. Geeky...
— Geeky.
— Talvez geeky, não. Diferente. Cansada. Cuidado, não acho que sentar-se ao lado do Mala sem alça seja muito divertido. O que é isso? Um tipo de noite de solteiros?
— Só para mim, aparentemente.
— Nossa. Tome. — Ela entrega um cigarro a Liv. — Acenda aí que vou lá dentro dizer a eles que você teve que ir embora. Tia-avó com uma súbita paralisia. Ou algo mais sinistro? Aids? Ebola? Alguma preferência quanto ao grau de sofrimento? — Ela entrega o isqueiro a Liv.
— Eu não fumo.
— Este não é para você. Assim eu posso fumar dois antes que o Dino perceba. Será que ela vai querer a sua parte da conta?
— Ah. Bem lembrado.
Liv procura a carteira na bolsa. De repente fica agitada com a perspectiva de liberdade.
Mo pega o dinheiro, conta-o com cuidado.
— E minha gorjeta? — pergunta, impassível. Não parece estar brincando.
Liv pisca, depois pega mais uma nota de cinco libras e dá a ela.
— Valeu — diz Mo, enfiando a nota no bolso do avental. — Estou com uma cara trágica?
Ela faz uma expressão de leve desinteresse e, depois, como se aceitando o fato de não ter a musculatura facial apropriada para exprimir preocupação, desaparece no corredor.
Liv não sabe se vai embora ou se deve esperar a moça voltar. Olha em volta para a entrada dos fundos, vê os casacos baratos no cabide, o balde e o esfregão sujos embaixo, e finalmente se senta num banco de madeira, com o cigarro inútil na mão. Quando ouve passos, levanta-se, mas é um homem de tom de pele mediterrâneo, o crânio brilhando na luz fraca. O proprietário? Ele está segurando um copo com um líquido âmbar.
— Tome — diz, oferecendo-lhe o copo. E, quando ela protesta, ele acrescenta: — Pelo choque. — Ele dá uma piscadela e vai embora.
Liv senta-se e toma uns goles da bebida. Ao longe, em meio ao barulho da cozinha, ela ouve a voz de Roger subindo de tom em protesto e o arrastar de cadeiras. Olha para o relógio. São onze e quinze. Os chefs saem da cozinha, pegam seus casacos do cabide, fazendo-lhe um leve cumprimento de cabeça ao passarem, como se não fosse incomum um cliente passar vinte minutos bebericando um conhaque no corredor de serviço.
Quando Mo volta, já não está de avental. Segura um jogo de chaves, passa por Liv e tranca a saída de incêndio.
— Eles já foram embora — diz, prendendo um nó com o cabelo. — Seu Par Perfeito disse algo sobre querer consolar você. Eu desligaria o celular por algum tempo.
— Obrigada — diz Liv. — Foi muita gentileza.
— De nada. Café?
O restaurante está vazio. Liv olha para a mesa à qual se sentara enquanto o garçom varre com eficiência em volta das cadeiras, depois redistribui os talheres com a habilidade milimétrica natural de quem já fez isso mil vezes. Mo prepara a máquina de café e faz um gesto para que Liv se sente. Ela preferiria ir para casa, mas entende que há um preço a ser pago por sua liberdade, e uma conversa curta, meio forçada sobre os Bons Tempos, talvez resolva.
— Não posso acreditar que todos eles foram embora tão de repente — diz ela enquanto Mo acende outro cigarro.
— Ah. Alguém viu um recado que não devia ter visto num BlackBerry. O clima murchou um pouco — diz Mo. — Acho que almoços de negócios normalmente não envolvem prendedores de mamilo.
— Você ouviu isso?
— A gente ouve de tudo aqui. Quase nenhum cliente para de falar quando os garçons estão por perto. — Ela liga o aerador de leite, acrescentando: — O avental nos dá superpoderes. Ele realmente nos torna invisíveis.
Liv não registrara a aparição de Mo à sua mesa, pensa com desconforto. Mo está olhando para ela com um sorrisinho, como se pudesse ler pensamentos.
— Tudo bem. Estou acostumada a ser a Notável Insignificante.
— Então — diz Liv, aceitando um café. — O que anda fazendo?
— Nos últimos dez anos? Hum, uma coisa e outra. Servir mesas me convém. Não tenho ambição para fazer serviço de bar — diz isso sem emoção. — E você?
— Ah, só uns frilas. Trabalho por conta própria. Não tenho perfil para trabalhar em escritório. — Liv sorri.
Mo dá uma longa tragada no cigarro.
— Estou surpresa — diz. — Você sempre foi uma das Garotas de Ouro.
— Garotas de Ouro?
— Ah, você e a sua turma alourada, todas pernas e cabelo, rodeadas de homens como se fossem satélites. Como uma criação de Scott Fitzgerald. Pensei que você estaria... sei lá. Na tevê. Ou na mídia, ou no teatro, ou algo assim.
Se Liv tivesse lido essas palavras, talvez tivesse detectado um tom amargo nelas. Mas não havia rancor na voz de Mo.
— Não — diz ela, e baixa o olhar para a barra da saia.
Liv termina o café. O último garçom se foi. E a xícara de Mo está vazia. São onze e quarenta e cinco.
— Precisa fechar o restaurante? Para que lado você vai?
— Para lado nenhum. Eu fico aqui.
— Tem um quarto aqui?
— Não, mas Dino não se importa. — Mo apaga o cigarro, levanta-se e esvazia o cinzeiro. — Na verdade, Dino não sabe. Ele só acha que eu sou muito conscienciosa. A última a sair toda noite. “Por que os outros não podem ser como você?” — Ela aponta o polegar para as costas. — Tenho um saco de dormir no armário e ponho o despertador para as cinco e meia. No momento estou com um probleminha de moradia. Tipo, não posso pagar nenhuma.
Liv arregala os olhos.
— Não fique tão espantada. Esse banco é mais confortável do que alguns dos lugares que já aluguei. Juro para você.
Depois, ela não sabe o que a faz dizer isso. Liv raramente hospeda alguém em sua casa, que dirá alguém que não vê há anos. Mas, quando se dá conta, já abriu a boca e as palavras saíram.
— Pode ficar lá em casa — diz. — Só por esta noite — acrescenta quando percebe o que acabou de falar. — Tenho um quarto sobrando. Com chuveiro elétrico. — Consciente de que o convite pode ter soado paternalista, acrescenta: — A gente pode pôr o papo em dia. Vai ser divertido.
O rosto de Mo fica impassível. Depois, ela faz uma careta, como se ela é que estivesse fazendo um favor a Liv.
— Se você está dizendo. — E vai pegar o casaco.

* * *

Liv avista sua casa de longe: as vidraças de vidro azul-claro destacam-se acima do velho armazém de açúcar, como se houvesse uma nave extraterrestre pousada no teto. David gostava disso. Gostava de poder apontar para casa quando iam a pé com amigos ou clientes potenciais. Gostava daquela incongruência ao lado dos tijolos escuros das casas vitorianas, da maneira como ela captava a luz, ou refletia a água lá embaixo. Gostava do fato de a estrutura ter virado um ponto de referência na paisagem da orla do rio. Dizia que isso era uma propaganda constante do seu trabalho.
Quando David a construiu, quase dez anos antes, o vidro era seu material preferido, seus componentes foram se sofisticando com capacidades térmicas, ecológicas. Sua obra se destaca em Londres. Transparência é a chave, ele dizia. Os prédios devem revelar a sua finalidade e a sua estrutura. Os únicos cômodos obscurecidos são os banheiros, e mesmo neles ele muitas vezes tinha que ser persuadido a não usar vidro refletivo. Era típico de David não achar que fosse aflitivo enxergar o lado de fora quando se estava na privada, mesmo sabendo que não dava para ver nada de fora para dentro.
As amigas de Liv invejavam sua casa, a localização e as matérias que de vez em quando saíam nas melhores revistas de decoração — mas ela sabia que elas comentavam em segredo que tal minimalismo as teria levado à loucura. Estava no sangue de David o impulso de purificar, de eliminar o supérfluo. Tudo na casa tinha que passar por seu teste William Morris: é funcional e belo? É absolutamente necessário? Quando ficaram juntos pela primeira vez, Liv achou isso exaustivo. David ficava contrariado quando ela deixava rastros de roupas no chão do quarto ou enchia a cozinha de flores baratas e quinquilharias do mercado. Agora, ela é grata pela limpeza da casa, por seu ascetismo sóbrio.
— Legal. Para. Caramba. — Elas saem do frágil elevador dentro da Casa de Vidro, e o rosto de Mo está atipicamente animado. — Esta é a sua casa? Sério? Como conseguiu morar num lugar como esse? Caramba!
— Meu marido construiu.
Liv atravessa o hall, pendurando as chaves com cuidado no único gancho de prata, acendendo as luzes internas ao passar.
— Seu ex? Nossa. E ele deixou você ficar com ela?
— Mais ou menos. — Liv aperta um botão e olha enquanto as persianas do teto se abrem em silêncio, expondo a cozinha ao céu estrelado. — Ele morreu.
Ela fica ali parada, com o olhar firme voltado para cima, preparando-se para ouvir uma precipitação de compaixão desajeitada. A explicação não ficou mais fácil com o tempo. Já se vão quatro anos, e as palavras ainda causam uma pontada, como se a ausência de David fosse uma ferida ainda localizada no fundo de seu corpo.
Mas Mo está calada. Quando finalmente se manifesta, diz simplesmente:
— Que chato. — Seu rosto está pálido, indiferente.
— É — diz Liv, deixando escapar um pequeno suspiro. — É mesmo.

* * *

Liv ouve o noticiário da uma da manhã no rádio, vagamente consciente dos ruídos vindos do banheiro de hóspedes, com aquela vaga aflição que sente sempre que há outra pessoa na casa. Limpa o granito da bancada e passa um pano macio para dar brilho, e em seguida limpa do chão farelos inexistentes.
Atravessa o corredor de vidro e madeira, depois sobe para o quarto pela escada de madeira e acrílico. A extensão de portas de armário camufladas brilha, sem dar nenhuma pista das poucas roupas que há por trás. A cama se ergue vasta e vazia no meio do quarto, e, sobre as cobertas, Lembretes Importantes, onde ela os deixou pela manhã. Ela se senta, dobrando-os e colocando-os cuidadosamente de volta nos envelopes, e olha para o retrato de A garota que você deixou para trás, nítido em sua moldura dourada em meio ao verde-água e ao cinza apagados do restante do quarto, e se deixa ir.
Ela se parece com você.
Ela não se parece nada comigo.
Ela rira para ele alegremente, ainda encantada com o novo amor. Ainda preparada para acreditar na visão que ele tinha dela.
Você era assim mesmo quando...
A garota que você deixou para trás sorri.
Liv começa a se despir, dobrando as roupas antes de colocá-las, cuidadosamente, na cadeira ao pé da cama. Fecha os olhos antes de apagar a luz para não ter que olhar de novo para o quadro.

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