29 de novembro de 2017

Capítulo 11 - Em um trono negro

Kit estava sentado nos degraus do Instituto, olhando para a água.
Fora um dia longo e desconfortável. As coisas estavam mais tensas do que nunca entre os Centuriões e os habitantes do Instituto, embora pelo menos os Centuriões não soubessem o porquê.
Diana fez um esforço heroico para dar as aulas como se tudo estivesse normal. Ninguém conseguia se concentrar – ao menos uma vez Kit, apesar de estar completamente perdido em relação ao mar de comparações dos vários alfabetos serafins, não era a pessoa mais distraída da sala. Mas o motivo das lições era manter as aparências frente aos Centuriões, então eles ficariam bem.
As coisas não melhoraram muito no jantar. Após um longo e úmido dia durante o qual não encontraram nada, os Centuriões estavam famintos. Não ajudou que Jon Cartwright aparentemente tivesse se aborrecido de algum modo e tivesse partido, seu paradeiro desconhecido. A julgar pelos lábios finamente comprimidos de Zara, ele teve uma discussão com ela, no entanto, Kit só podia imaginar. Pela moralidade em prender feiticeiros em campos ou escoltar fadas para câmaras de tortura, ele adivinhou.
Diego e Rayan fizeram o seu melhor para conversar alegremente, mas falharam. Livvy não olhou para Diego durante a maior parte da refeição, provavelmente pensando em seu plano de usá-lo para parar Zara, mas estava claramente deixando Diego nervoso, uma vez que ele tentou duas vezes cortar seu bife com a colher. Para piorar, Dru e Tavvy pareciam pegar as vibrações espinhosas na sala e passaram o jantar cobrindo Diana de perguntas sobre quando Julian e os outros voltariam de sua “missão”.
Quando tudo acabou, Kit se afastou com prazer, evitando a louça a ser lavada após o jantar, e encontrou para si um local calmo sob o pórtico frontal da casa. O ar que vinha do deserto era fresco e temperado, e o oceano brilhava sob as estrelas, uma superfície preta profunda que terminava em uma série de ondas brancas desenrolando-se na praia.
Pela milésima vez, Kit se perguntou o que o mantinha ali. Embora parecesse bobo desaparecer devido a uma conversa estranha no jantar, ele havia sido lembrado no último dia de que os problemas dos Blackthorn não eram dele e provavelmente nunca seriam. Uma coisa era ser o filho de Johnny Rook.
Outra completamente diferente era ser um Herondale.
Ele tocou a prata do anel em seu dedo, frio contra sua pele.
— Eu não sabia que você estava aqui fora. — Era a voz de Ty; Kit soube disso antes de olhar para cima. O outro garoto deu a volta pela lateral da casa, e olhava para ele curiosamente.
Havia algo no pescoço de Ty, mas não eram os fones de ouvido habituais. Quando ele subiu as escadas, uma sombra esbelta em jeans e suéter escuros, Kit percebeu que aquilo tinha olhos.
Ele pressionou as costas contra a parede.
— Isso é um furão?
— É selvagem — disse Ty, encostado na grade ao redor da varanda. — As doninhas são domesticadas. Então, tecnicamente, é uma doninha, embora se fosse domesticada, seria um furão.
Kit olhou para o animal, que piscou os olhos para ele e balançou suas patinhas.
— Uau —, disse Kit. Ele quis dizer isso.
A doninha correu pelo braço de Ty e saltou para a grade, depois desapareceu na escuridão.
— Furões dão ótimos animais de estimação — comentou Ty. — Eles são surpreendentemente leais. Ou pelo menos, as pessoas dizem que é surpreendente. Não sei por que seria. Eles são limpos, e gostam de brinquedos e são silenciosos. E eles podem ser treinados para... — Ele parou. — Você está entediado?
— Não. — Kit foi sacudido; tinha ficado entediado? Ele estava gostando do som da voz de Ty, animado e pensativo. —Por quê?
— Julian diz que às vezes as pessoas não querem saber tanto sobre alguns tópicos quanto eu — disse Ty. — Então eu deveria perguntar.
— Acho que isso é verdade para todos — observou Kit.
Ty balançou a cabeça.
— Não — disse ele. — Eu sou diferente. — Ele não parecia incomodado, ou chateado com tudo isso. Era um fato que ele sabia sobre ele e isso era tudo. Ty possuía um silêncio confiante que Kit descobriu para sua surpresa que invejava. Ele nunca pensou que invejaria algo em um Caçador de Sombras.
Ty subiu na varanda ao lado de Kit e sentou-se. Ele sentiu um cheiro de deserto, areia e sálvia. Kit pensou na maneira como gostou do som da voz de Ty: era raro ouvir alguém passar esse tipo de prazer sincero simplesmente compartilhando informações. Ele adivinhou que também poderia ser um mecanismo de enfrentamento – com o desagrado dos Centuriões e com a preocupação quanto a Julian e os outros, Ty provavelmente estava estressado.
— Por que você está aqui fora? — Ty perguntou para Kit. — Está pensando em fugir novamente?
— Não. — Ele não estava, de verdade. Talvez um pouco. Olhar para Ty fez com que ele não quisesse pensar nisso. O fez querer descobrir um mistério para poder apresentá-lo para Ty resolver, do jeito como se poderia dar a alguém que ama doce uma caixa de balas.
— Eu queria que todos pudéssemos fazer isso — disse Ty, com franqueza desarmadora. — Levamos um longo tempo para nos sentirmos seguros aqui após a Guerra Maligna. Agora sinto como se o Instituto estivesse cheio de inimigos novamente.
— Os Centuriões, você quer dizer?
— Eu não gosto de ter todos aqui — disse Ty. — Não gosto de multidões em geral. Quando todos falam ao mesmo tempo, e fazem barulho. As multidões são piores especialmente lugares como o cais. Você já esteve lá? — Ele fez uma careta. — Todas as luzes e gritos e as pessoas. É como um copo quebrado na minha cabeça.
— E quanto à luta? — perguntou Kit. — Batalhas, matar demônios, isso deve ser bastante barulhento, não?
Ty balançou a cabeça.
— A batalha é diferente. A batalha é o que os Caçadores de Sombras fazem. Lutar está no meu corpo, não na minha mente. Enquanto eu puder usar fones de ouvido...
Ele se interrompeu. À distância, Kit ouviu um estilhaçar delicado, como uma janela que foi explodida por um furacão.
Ty pulou em posição imóvel, quase pisando em Kit e puxou uma lâmina serafim de seu cinto de armas. Ele a manteve erguida, encarando o oceano com um olhar tão fixo como que refletindo o olhar das estátuas no jardim dos fundos do Instituto.
Kit se ergueu atrás dele, seu coração martelando.
— O que está errado? O que foi isso?
— As barreiras, as barreiras que os Centuriões colocaram, esse é o som delas quebrando — respondeu Ty. — Algo está chegando. Algo perigoso.
— Pensei que você tivesse dito que o Instituto era seguro!
— Geralmente é — disse Ty, e ergueu a lâmina na mão. — Adriel — ele chamou, e a lâmina pareceu queimar internamente.
O brilho acendeu a noite e, à sua luz, Kit viu que a estrada que levava ao Instituto estava cheia de formas em movimento. Não humanos – uma onda de coisas escuras, escorregadias, úmidas e ondulantes, e um fedor se espalhava na direção deles vindo de baixo, que quase fez Kit vomitar. Ele lembrou-se de ter estado em Venice Beach uma vez e passar pelo cadáver apodrecendo de uma foca, enfeitado por algas – ele sentiu-se daquele mesmo jeito, mas pior.
— Segure isso — Ty disse, e um segundo depois Kit descobriu que Ty tinha empurrado sua lâmina serafim ardente na mão de Kit.
Era como segurar um fio vivo. A espada pareceu pulsar e se contorcer, e tudo o que Kit podia fazer era aguentar.
— Eu nunca segurei uma dessas antes!
— Meu irmão sempre diz que se tem que começar em algum lugar. — Ty desprendeu uma adaga de seu cinto. Era curta e afiada e parecia uma arma menos temível do que a lâmina serafim.
Qual irmão? Kit se perguntou, mas não teve a chance de perguntar – ele podia ouvir gritos agora, e sons de corrida, e estava feliz porque a maré escura das criaturas estava quase no topo da estrada. Ele tinha girado o pulso de uma maneira que não teria pensado ser possível, e a lâmina parecia mais firme em sua mão – brilhava sem calor, como se fosse composta do que quer que as estrelas ou luar fossem feitos.
— Então, agora que todos estão acordados — observou Kit — não acho que isso signifique que possamos nos retirar para dentro?
Ty puxava seus fones de ouvido para fora do bolso, apoiando seu tênis preto no degrau superior.
— Nós somos Caçadores de Sombras. Nós não fugimos.
A lua saiu de trás de uma nuvem, e nesse momento a porta atrás de Kit e Ty se abriu, e Caçadores de Sombras espalharam-se. Vários dos Centuriões carregavam pedras de luz enfeitiçada: a noite acendeu-se, e Kit viu as coisas subindo pela estrada, derramando-se sobre a grama. Eles clamaram em direção ao Instituto e, na varanda, os Caçadores de Sombras levantaram suas armas.
— Demônios marinhos — ele ouviu Diana dizer sombriamente, e Kit sabia de repente que estava prestes a estar em sua primeira batalha de verdade, gostando ou não.
Kit girou ao redor. A noite estava cheia de luz e barulho. O brilho das lâminas serafim iluminou a escuridão, que era uma bênção e uma maldição.
Kit podia ver Livvy e Diana com suas armas, seguidas por Diego, um enorme machado na mão. Zara e os outros Centuriões estavam logo atrás.
Mas ele também podia ver os demônios do mar, e eles eram muito piores do que imaginara. Havia coisas semelhantes a lagartos pré-históricos, com escamas que pareciam pedra, suas cabeças uma massa de dentes tão afiados quanto agulhas e olhos negros mortos. Coisas que pareciam gelatina pulsante com bocas abertas pelas quais órgãos hediondos pendiam: corações disformes, estômagos transparentes através dos quais Kit podia discernir os contornos do que um havia acabado de comer – algo com braços e pernas humanos... Coisas como lulas enormes com caras e tentáculos afiados dos quais ácido verde pingava no chão, deixando buracos na grama.
Os demônios que haviam matado seu pai pareceram muito atraentes em comparação.
— Pelo anjo — Diana respirou. — Fiquem atrás de mim, Centuriões.
Zara lançou-lhe um olhar desagradável, embora os Centuriões estivessem concentrados em grande parte na varanda, pasmos. Apenas Diego parecia como se literalmente não pudesse esperar para se lançar na briga. Veias se destacaram em sua testa, e sua mão tremia de ódio.
— Somos Centuriões — disse Zara. — Não recebemos ordens suas...
Diana girou em direção a ela.
— Cale a boca, sua criança idiota — ela disse com uma voz de fúria fria. — Como se os Dearborn não tivessem se escondido em Zurique durante a Guerra Maligna? Você nunca esteve em uma batalha real. Eu sim. Não fale mais uma palavra.
Zara voltou para trás, rígida de choque. Nenhum de seus Centuriões, nem mesmo Samantha ou Manuel, se moveram para discutir por ela.
Os demônios – gritando, debatendo-se e deslizando pela grama – quase chegaram à varanda. Kit sentiu Livvy se aproximando dele e Ty, movendo-se para ficar à sua frente. Eles estavam tentando bloqueá-lo, ele percebeu de repente. Para protegê-lo. Ele sentiu uma onda de gratidão, e depois uma onda de aborrecimento – eles achavam que ele era um mundano desamparado?
Ele já lutara contra demônios. No fundo de sua alma, algo despertava. Algo que tornou a lâmina serafim mais brilhante em sua mão. Algo que o fez entender o olhar no rosto de Diego quando ele se virou para Diana e perguntou:
— Ordens?
— Matem todos eles, obviamente — disse Diana, e os Centuriões começaram a descer a escada.
Diego cravou seu machado no primeiro que viu; as runas brilhavam ao longo da lâmina enquanto cortava a geleia, espirrando sangue preto-cinzento.
Kit jogou-se para frente. O espaço em frente aos degraus se tornou uma batalha corpo a corpo. Ele viu todo o poder das lâminas serafim quando Centuriões mergulharam e esfaquearam, e o ar se encheu com o cheiro do sangue demoníaco, e a lâmina em sua mão ardia e ardia e algo pegou seu pulso, prendendo-o no topo dos degraus. Era Livvy.
— Não — disse ela. — Você não está pronto...
— Estou bem — ele protestou.
Ty estava a meio caminho dos degraus; ele puxou o braço para trás e atirou a adaga que ainda segurava. Afundou-se no corpo largo e achatado do demônio com cabeça de peixe, que desapareceu. Ele voltou para olhar para Kit e sua irmã.
— Livvy, deixe-o...
A porta se abriu novamente e, para a surpresa de Kit, era Arthur Blackthorn, ainda com calças jeans e o roupão de banho, mas ao menos tinha calçado os pés. Uma espada antiga e manchada pendia de sua mão.
Diana, presa em um combate com um demônio lagarto, olhou horrorizada.
— Arthur, não!
Arthur estava ofegante. Havia terror em seu rosto, mas havia outra coisa, uma espécie de ferocidade. Ele desceu os degraus, lançando-se no primeiro demônio que viu – uma coisa avermelhada com uma única boca maciça e um longo ferrão. Quando o ferrão desceu, ele cortou-o ao meio, enviando a criatura oscilando e gritando pelo ar como um balão se esvaziando.
Livvy soltou Kit. Ela assistia seu tio com espanto. Kit virou-se para descer as escadas ao mesmo tempo em que os demônios começaram a recuar, mas por quê? Os Centuriões começaram a se virar enquanto o espaço diante do Instituto se abria, mas para Kit, parecia cedo demais. Os demônios não estavam perdendo. Eles não estavam ganhando, mas era cedo demais para recuar.
— Algo está acontecendo — ele falou, olhando entre Livvy e Ty, ambos posicionados nos degraus com ele. — Alguma coisa está errada...
Uma risada perfurou o ar. Os demônios congelaram em um semicírculo, bloqueando o caminho para a estrada, mas sem avançar. No meio de seu semicírculo, uma figura que parecia ter saído de um filme de terror.
Tinha sido um homem; ele ainda tinha a forma borrada de um, mas sua pele era verde-acinzentada como a barriga de um peixe, e ele mancava porque a maior parte do seu braço e um de seus lados estava torcido. Sua camisa pendia em trapos, mostrando onde os ossos brancos de suas costelas haviam sido apunhalados, a pele cinza desbotada em torno de suas terríveis feridas.
A maior parte de seu cabelo havia desaparecido, embora o que restava fosse branco como osso. Seu rosto estava molhado e inchado, os olhos se tornaram leitosos, branqueados pela água do mar. Ele sorriu com uma boca cujos lábios faltavam quase que na totalidade. Em sua mão, segurava um saco preto, o tecido manchado molhado e escuro.
— Caçadores de sombras. Como senti sua falta.
Era Malcolm Fade.

* * *

No silêncio que se seguiu ao desmascaramento do campeão Unseelie, Julian podia ouvir seu próprio coração batendo contra o peito. Ele sentiu sua runa parabatai queimar, uma clara dor ardente. A dor de Emma.
Ele queria ir até ela. Ela era como um cavaleiro em uma pintura, sua cabeça inclinada e sua mão da espada pendendo ao lado, sangue salpicando seu uniforme, o cabelo meio solto da trança flutuando ao redor dela. Ele viu seus lábios se mexerem: sabia o que estava dizendo, mesmo que ele não pudesse ouvi-la. Lembranças da Emma que ele parecia conhecer há mil anos o atravessaram, uma garotinha que esticava os braços para que o pai a levantasse.
Papai?
O rei riu.
— Corte a garganta, garota — ordenou ele. — Ou você não pode matar o seu próprio pai?
Pai? — Cristina ecoou. — O que ele quer dizer?
— Esse é John Carstairs — disse Mark. — O pai de Emma.
— Mas como...
— Eu não sei — disse Julian. — É impossível.
Emma caiu de joelhos, deslizando Cortana de volta para sua bainha. Ao luar, ela e seu pai eram sombras enquanto ela se inclinava sobre ele.
O rei começou a rir, seu rosto estranho dividido por um amplo sorriso, e a Corte riu com ele, uivos de alegria explodindo em torno deles.
Ninguém prestava atenção aos três Caçadores de Sombras no centro da clareira. Julian queria ir até Emma. Ele queria isso desesperadamente. Mas ele era alguém que costumava não fazer, ou conseguir, o que queria. Ele girou em direção a Mark e Cristina.
— Vá até ela — disse ele a Cristina. Seus olhos escuros se arregalaram. — Vá até ele — falou para Mark, e Mark assentiu e entrou na multidão, uma sombra nas sombras.
Cristina desapareceu depois dele, mergulhando pelo caminho oposto na multidão. Os cortesãos ainda riam, o som de sua ridicularização aumentando, pintando a noite. As emoções humanas são tão tolas para eles, e as mentes e os corações humanos são tão frágeis.
Julian deslizou uma adaga para fora de seu cinto. Não era uma lâmina serafim, nem mesmo uma com runas, mas era ferro frio, e cabia confortavelmente em sua palma. Os príncipes entre os cavaleiros estavam olhando para o pavilhão, rindo. Julian levou apenas alguns passos para alcançá-los, atirar os braços ao redor do Príncipe Erec pelas costas e pressionar a ponta da adaga na garganta.


O primeiro pensamento distraído de Kit foi, Então é por isso que eles não conseguiram encontrar o corpo de Malcolm.
O segundo foi uma lembrança. O Alto Feiticeiro fora um personagem comum do Mercado das Sombras, e amigável com o pai de Kit – embora ele tivesse aprendido mais tarde que eles tinham sido mais do que conhecidos, parceiros no crime. Ainda assim, o bruxo animado de olhos roxos tinha sido popular no mercado, e às vezes aparecia com doces interessantes para Kit e afirmava que eles haviam vindo de lugares distantes aos quais viajara.
Tinha sido estranho para Kit perceber que o bruxo amigável que conhecera era um assassino. Era ainda mais estranho agora ver o que Malcolm havia se tornado. O feiticeiro avançou, despojado de toda a sua graça anterior, balançando sobre a grama. Os Caçadores de Sombras entraram em formação, como uma legião romana: enfrentaram Malcolm em uma linha, ombro a ombro, com as armas afastadas. Somente Arthur estava sozinho. Ele olhou para Malcolm, sua boca se movendo.
A grama na frente deles estava coberta de preto e cinza de sangue de demônio.
Malcolm sorriu, tanto quando conseguiu com seu rosto arruinado.
— Arthur — ele cumprimentou, olhando para o homem encolhendo em seu roupão ensanguentado. — Você deve sentir minha falta. Não parece como se estivesse indo bem sem sua medicação. De modo algum.
Arthur pressionou-se contra a parede do Instituto. Houve um murmúrio entre os Centuriões, interrompido quando Diana falou.
— Malcolm — disse. Ela parecia bastante calma, considerando tudo. —O que você quer?
Ele parou, perto dos Centuriões, embora não suficientemente próximo para eles atacarem.
— Vocês têm gostado de procurar meu corpo, Centuriões? Tem sido um verdadeiro deleite assisti-los. Vasculhando ao redor em seu barco invisível, sem ideia do que estão procurando ou como encontrá-lo. Mas vocês nunca foram muito úteis sem um feiticeiro, foram?
— Silêncio, imundo — disse Zara, vibrando como um fio elétrico. —Você...
Divya impediu-a.
— Não — ela sussurrou. — Deixe Diana falar.
— Malcolm — disse Diana, com o mesmo tom frio. — As coisas não são como antes. Temos o poder da Clave do nosso lado. Nós sabemos quem você é, e descobriremos onde está. Você é um tolo para ter vindo aqui e mostrado sua jogada.
— Minha jogada — ele refletiu. — Onde está minha mão mesmo? Oh, certo. Está dentro desta bolsa... — Ele mergulhou a mão no saco que carregava. Quando a tirou, segurava uma cabeça humana cortada.
Houve um silêncio horrorizado.
Jon! — Diego exclamou com voz rouca.
Gen Aldertree parecia lutar contra o colapso.
— Oh Deus, pobre Marisol. Oh...
Zara estava boquiaberta olhando horrorizada, embora não fizesse nenhum movimento para avançar. Diego deu um passo, mas Rayan pegou seu braço quando Diana falou:
— Centuriões! Permaneçam em formação!
Houve um som de engasgo quando Malcolm atirou a cabeça cortada de Jon Cartwright sobre a grama nua. Kit percebeu que ele mesmo fazia o barulho. Ele estava olhando para parte da coluna espinhal exposta de Jon. Era muito branca contra o chão escuro.
— Suponho que você esteja certa — Malcolm falou para Diana. — É hora de abandonar nossos fingimentos, não é? Você conhece meus pontos fracos – e eu conheço o seu. Matar esse... — ele gesticulou para os restos de Jon — levou alguns segundos, e derrubar suas barreiras levou menos ainda. Acha que vai levar muito mais tempo para eu conseguir algo que realmente quero?
— E o que seria isso? — perguntou Diana. — O que você quer, Malcolm?
— Eu quero o que sempre quis. Quero Annabel e o que for necessário para recuperá-la. — Malcolm riu. Era um tipo de som engasgado. — Eu quero meu sangue Blackthorn.


Emma não conseguia se lembrar de cair de joelhos, mas estava ajoelhada.
O chão empoeirado e as folhas mortas estavam ao seu redor. O cavaleiro das fadas – seu pai – estava de costas numa piscina de sangue se espalhando. Ele ensopava a terra já escura e a tornava quase preta.
— Papai — ela sussurrou. — Papai, por favor, olhe para mim.
Ela não havia dito a palavra “papai” em anos. Provavelmente, desde os sete anos de idade.
Olhos azuis se abriram em seu rosto com cicatrizes. Ele estava exatamente como Emma se lembrava dele – bigodes loiros onde ele havia se esquecido de raspar, linhas de bondade em torno dos olhos. Sangue seco salpicava sua bochecha. Ele a encarava, os olhos arregalados.
O rei riu.
— Corte a garganta, garota — disse ele. — Ou você não pode matar o seu próprio pai?
Os lábios de John Carstairs se moveram, mas nenhum som saiu.
Você verá novamente o rosto de alguém que amou, que está morto, a puca havia dito. Mas Emma nunca sonhara com isso, não isso.
Ela segurou o braço de seu pai, coberto com uma armadura de couro de fadas.
— Eu abdico — ela disse com raiva — eu abdico, abdico, apenas ajude-o...
— Ela abdica — disse o rei.
A Corte começou a rir. Um riso surgiu em torno de Emma, embora ela mal tenha ouvido. Uma voz no fundo de sua cabeça lhe dizia que isso não estava certo, havia um erro fundamental aqui, mas a visão de seu pai rugia em sua cabeça como o som de uma onda quebrando. Ela puxou uma estela – ele ainda era um Caçador de Sombras, afinal – mas deixou cair a mão; nenhum iratze funcionaria aqui.
— Eu não vou deixá-lo. — Sua cabeça zumbia. — Eu não o deixarei aqui. — Ela agarrou seu braço mais apertado, agachada no pé do pavilhão, consciente do olhar do rei sobre ela, a risada flutuando ao redor. — Eu vou ficar.


Foi Arthur quem se moveu. Ele moveu-se bruscamente para longe da parede, em direção a Livvy e Ty. Agarrou cada um deles por um braço e os levou para a porta do Instituto.
Ambos lutaram, mas Arthur pareceu chocantemente forte. Livvy meio virada, chamava o nome do Kit. Arthur escancarou a porta da frente e empurrou os sobrinhos para dentro. Kit podia ouvir Livvy gritando, e a porta bateu atrás deles.
Diana arqueou uma sobrancelha para Malcolm.
— Sangue Blackthorn, você disse?
Malcolm suspirou.
— Cães loucos e ingleses — disse ele. — E às vezes você encontra alguém que é ambos. Ele não pode pensar que isso funcionaria.
— Você está dizendo que pode entrar no Instituto? — perguntou Diego.
— Estou dizendo que não importa — respondeu Malcolm. — Eu coloquei tudo em movimento antes que Emma me matasse. Minha morte – e eu estou morto, embora não por muito tempo, o Volume Negro não é maravilhoso? – criou os demônios marinhos ao longo da costa. O que vocês veem comigo esta noite é uma pequena fração dos números que controlo. Ou me trazem um Blackthorn, ou eu os envio em terra para assassinar e destruir mundanos.
— Nós vamos detê-lo — disse Diana. — A Clave irá pará-lo. Eles enviarão Caçadores de Sombras...
— Não há o suficiente de vocês — Malcolm replicou com alegria. Ele começou a andar para cima e para baixo em frente à parede de demônios marinhos atrás dele. — Essa é a beleza da Guerra Maligna. Vocês simplesmente não podem parar todos os demônios no Pacífico, não com seus números atuais. Oh, não estou dizendo que vocês não podem vencer eventualmente. Vocês poderiam. Mas pensem no número de mortos até lá. Um miseráveis dos Blackthorn realmente vale a pena?
— Nós não vamos entregar um dos nossos para você assassinar, Fade — disse Diana. — Você sabe melhor que isso.
— Você não fala pela Clave, Diana — observou Malcolm. — E eles não estão acima dos sacrifícios. — Ele tentou sorrir. Um lábio apodrecido quebrou, e líquido preto derramou-se de seu queixo. — Um por muitos.
Diana respirava com dificuldade, seus ombros subindo e descendo com raiva.
— E então o quê? Toda aquela morte e destruição e o que você ganhará?
— Vocês também sofrerão — disse Malcolm. — E isso é suficiente para mim, por enquanto. Que os Blackthorn sofram. — Seus olhos vasculharam o grupo na frente dele. — Onde estão meus Julian e Emma? E Mark? Covardes demais para me encarar? — ele riu. — Que pena. Eu gostaria de ver o rosto de Emma quando ela colocasse os olhos em mim. Você pode dizer a ela que eu disse que espero que a maldição consuma os dois.
Consuma quem?, pensou Kit, mas o olhar de Malcolm mergulhou para se concentrar nele, e ele viu o brilho dos olhos leitosos do bruxo.
— Desculpe pelo seu pai, Herondale — disse Malcolm. — Não poderia ser impedido.
Kit levantou Adriel sobre sua cabeça. A lâmina do serafim estava quente sob seu aperto, começando a cintilar, mas lançou um brilho ao redor dele, e ele esperava que o iluminasse o suficiente para que o bruxo pudesse vê-lo quando cuspiu em sua direção.
O olhar de Malcolm se semicerrou. Ele voltou-se para Diana.
— Darei até amanhã à noite para decidirem. Então voltarei. Se não me der um Blackthorn, a costa será devastada. Enquanto isso... — ele estalou os dedos, e um fogo púrpura escuro piscou no ar. — Divirtam-se com os meus amigos aqui.
Ele desapareceu quando os demônios marinhos avançaram para os Centuriões.

4 comentários:

  1. Zara levando xingo da Diana =D
    Criança idiota
    Menina hamster!!! Toma essa trouxa!!!
    Ana Santos

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  2. Que Cap foda
    devia ter mais narração pelo kit

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  3. Sabia, sabia , sabia!
    Sempre achei muito estranho eles terem derrotado o vilão no primeiro livro! Além do mais que ele não um feiticeiro qualquer...

    Arthur chegando com tudo! Acho que ela vai acabar se oferecendo como sacrifício, não sei..

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Boa leitura :)