15 de novembro de 2017

Capítulo 10

Passaram-se dias. Hélène e eu executávamos nossas atividades diárias como duas atrizes. Por fora talvez parecêssemos como sempre, mas cada uma de nós se debatia num mal-estar crescente. Nenhuma de nós falava no que acontecera.
Eu dormia pouco, às vezes só duas horas por noite. Fazia força para comer. O estômago se enroscava no meu medo enquanto o resto de mim estava prestes a se desembaraçar desse sentimento.
Eu voltava compulsivamente aos acontecimentos daquela noite fatídica, censurando-me pela minha ingenuidade, minha burrice e meu orgulho. Pois devia ter sido orgulho o que me levara àquilo. Se eu tivesse fingido gostar das atenções do Kommandant, se eu tivesse imitado o meu próprio retrato, eu poderia ter conquistado a admiração dele. Poderia ter salvado meu marido. Será que isso teria sido algo terrível de fazer? Em vez disso, eu me aferrara a essa noção absurda de que, ao me permitir virar um objeto, um recipiente, de alguma maneira eu estava diminuindo a minha infidelidade. Eu estava de alguma forma sendo leal. Como se aquilo pudesse fazer alguma diferença para Édouard.
A cada dia eu esperava, com o coração na boca, e observava em silêncio os oficiais entrarem em fila e o Kommandant não estava entre eles. Eu temia vê-lo, mas tinha mais medo ainda da ausência dele e o que ela podia significar. Certa noite, Hélène arranjou coragem para perguntar por ele ao oficial de bigode grisalho, mas este se limitou a fazer um gesto com a mão e dizer que ele estava “muito ocupado”. Minha irmã e eu nos entreolhamos, e entendi que isso não era consolo para nenhuma de nós.
Eu observava Hélène e me sentia intimidada pelo peso da culpa. Cada vez que ela olhava para as crianças, eu sabia que se perguntava o que seria delas.
Uma vez, vi-a conversando baixinho com o prefeito, e pensei tê-la ouvido pedir-lhe que ficasse com elas se lhe acontecesse algo. Digo isso porque ele fez uma expressão estarrecida, como se espantado só pelo fato de um pensamento daquele passar-lhe pela cabeça. Vi as novas rugas de tensão se instalando ao redor dos olhos e dos lábios dela, e sabia que eram por minha causa.
As crianças menores pareciam alheias aos nossos medos íntimos. Jean e Mimi brincavam como sempre haviam brincado, choramingando e reclamando do frio ou das transgressões menores um do outro. A fome os deixava irritados. Eu não me atrevia a pegar mais nenhuma sobra dos suprimentos alemães, mas era difícil dizer não às crianças. Aurélien estava de novo trancado na própria infelicidade. Comia calado, e não falava com nenhuma de nós. Eu me perguntava se ele andara brigando de novo na escola, mas estava muito preocupada para continuar pensando nisso. Édith sabia, entretanto. Ela era sensível como uma varinha divinatória. Vivia grudada em mim. À noite, dormia segurando minha camisola com a mão direita, e quando eu acordava, via seus grandes olhos escuros fitando meu rosto. Quando eu me olhava no espelho, enxergava um rosto encovado, irreconhecível até para mim.
Chegaram notícias de mais duas cidades tomadas pelos alemães no nordeste. Nossas rações diminuíram. Cada dia parecia maior que o anterior. Eu atendia, fazia a limpeza e cozinhava, mas o esgotamento deixava meus pensamentos caóticos. Talvez o Kommandant simplesmente não aparecesse. Talvez sua vergonha pelo que acontecera entre nós o tivesse deixado sem coragem de me ver.
Talvez ele também se sentisse culpado. Talvez estivesse morto. Talvez Édouard fosse entrar pela porta. Talvez a guerra fosse terminar no dia seguinte. A essa altura, normalmente eu tinha que me sentar e respirar fundo.
— Suba e durma um pouco — murmurava Hélène.
Eu me perguntava se ela me odiava. Se eu fosse ela, acharia difícil não me odiar.

* * *

Por duas vezes, voltei às minhas cartas escondidas, dos meses anteriores à nossa transformação em território alemão. Eu lia as palavras de Édouard, sobre os amigos que ele fizera, suas rações miseráveis, seu ânimo positivo, e era como ouvir um fantasma. Eu lia suas palavras de ternura, sua promessa de que estaria comigo em breve, de que pensava em mim o dia inteiro.

Faço isso pela França, mas, de um modo mais egoísta, faço isso por nós, para eu poder voltar percorrendo uma França Livre até minha mulher. Os confortos do lar; nosso ateliê, o café no Bar du Lyons, nossas tardes enroscados na cama, você me passando pedaços de laranja descascada... Coisas que eram banalidades domésticas agora ganharam os tons dourados dos tesouros. Sabe o quanto desejo levar-lhe um café? Ver você escovar o cabelo? Sabe como desejo ver você rindo do outro lado da mesa e saber que sou a causa da sua felicidade? Menciono essas lembranças para me consolar, para me lembrar por que estou aqui. Fique fora de perigo por mim. Saiba que sigo sendo
Seu dedicado marido.

Eu lia as palavras dele e pensava que agora havia mais uma razão para me perguntar se algum dia ainda tornaria a ouvi-las.

* * *

Eu estava no porão trocando um dos barris de cerveja, quando ouvi passos. O vulto de Hélène apareceu no vão da porta, bloqueando a luz.
— O prefeito está aqui. Diz que os alemães estão vindo buscar você.
Meu coração parou.
Ela correu para a parede divisória e começou a retirar os tijolos soltos.
— Vá, você pode sair pela casa do vizinho se se apressar. — Ela tirava os tijolos de modo atrapalhado, por causa da afobação. Quando conseguira abrir um buraco da largura de um barril pequeno, virou-se para mim. Olhou para as mãos, arrancou a aliança de casamento e entregou-a a mim, antes de tirar o xale dos ombros. — Pegue isto. Agora vá. Eu seguro eles. Mas vá depressa, Sophie; eles estão atravessando a praça.
Olhei para o anel na palma da minha mão.
— Não posso — eu disse.
— Por quê?
— E se ele mantiver a parte dele do trato?
— Herr Kommandant? Trato? Como ele pode estar mantendo a parte dele do trato? Eles estão vindo buscar você, Sophie! Estão vindo para puni-la, para prender você num campo. Você o ofendeu de forma grave. Estão vindo para mandar você para longe daqui.
— Mas pense, Hélène. Se ele quisesse me punir, teria mandado me fuzilar ou me feito desfilar pelas ruas. Teria feito comigo o que fez com Liliane Béthune.
— E correr o risco de revelar o motivo da sua punição? Você perdeu o juízo?
— Não. — Minhas ideias começavam a clarear. — Ele já teve tempo de levar em conta o mau gênio dele e está me mandando para Édouard. Eu sei.
Ela me empurrou para o buraco.
— Esta não é você falando. É a falta de sono, seus medos, uma obsessão... Você vai cair em si em breve. Mas precisa ir agora. O prefeito diz para ir para a casa de Madame Poilâne e ficar no celeiro com o fundo falso hoje à noite. Vou tentar mandar notícias mais tarde.
Desvencilhei-me do braço dela.
— Não... não. Não está vendo? O Kommandant não pode trazer Édouard para cá sem deixar claro o que ele fez. Mas, se me mandar para longe, com Édouard, pode libertar a nós dois.
— Sophie! Já chega de falar.
— Eu cumpri a minha parte do trato.
— Vá!
— Não. — Ficamos olhando uma para a outra na penumbra. — Não vou.
Peguei a mão dela e coloquei o anel ali, fechando os seus dedos em volta dele. Repeti baixinho:
— Eu não vou.
Hélène fechou a cara.
— Não pode deixar que eles peguem você, Sophie. Isso é loucura. Eles vão enviá-la para um campo de prisioneiros. Está me ouvindo? Um campo! Exatamente o mesmo lugar que você disse que mataria Édouard.
Mas eu mal a ouvia. Endireitei-me e suspirei. Sentia-me estranhamente aliviada. Se estivessem vindo só por mim, Hélène estava a salvo, as crianças também.
— Eu sempre estive certa a respeito dele, tenho certeza. Ele pensou em tudo, às claras, e sabe que tentei, apesar de tudo, cumprir minha parte do pacto. Ele é um homem honrado. Disse que éramos amigos.
Minha irmã agora chorava.
— Por favor, Sophie, por favor, não faça isso. Você não conhece a sua própria mente. Você ainda tem tempo...
Ela tentou barrar meu caminho, mas eu a empurrei e comecei a subir os degraus.
Eles já estavam na entrada do bar quando apareci, dois deles de uniforme.
O bar estava em silêncio, e vinte pares de olhos pousaram em mim. Eu podia ver o velho René com sua mão tremendo na beira da mesa e Madame Louvier e Madame Durant falando baixinho. O prefeito estava com um dos oficiais, gesticulando furiosamente, tentando convencê-los a mudar de ideia, dizendo que deveria ter havido algum engano.
— São ordens do Kommandant — disse o oficial.
— Mas ela não fez nada! Isso é uma farsa!
— Courage, Sophie! — gritou alguém.
Senti como se estivesse num sonho. O tempo pareceu passar mais devagar e as vozes sumiam ao meu redor.
Um dos oficiais fez um gesto para eu me adiantar, e saí para a rua. A luz insípida do sol inundava a praça. Havia gente parada na rua, esperando para ver a causa da comoção no bar. Parei um instante e olhei em volta, piscando por causa da claridade depois da escuridão do porão. Tudo de repente parecia cristalino, redesenhado numa imagem mais nítida e mais brilhante, como se eu estivesse imprimindo essa imagem na memória. O padre estava parado em frente ao correio e se benzeu quando viu o veículo que fora enviado para me levar. Era, percebi, o mesmo que transportara aquelas mulheres para o quartel. Aquela noite parecia ter acontecido um século antes.
O prefeito estava gritando:
— Não vamos permitir isso! Quero registrar uma queixa oficial! Chegamos ao limite! Não vou deixar vocês levarem esta moça sem falar com o Kommandant primeiro!
— São ordens dele.
Um pequeno grupo de pessoas mais velhas começava a cercar os homens, como que para formar uma barreira.
— Vocês não podem perseguir mulheres inocentes! — declamava Madame Louvier. — Vocês tomam a casa dela, fazem-na de criada, e agora querem prendê-la. Por nada?
— Sophie. Aqui. — Minha irmã apareceu de novo ao meu lado. — Pelo menos pegue suas coisas. — Ela jogou uma bolsa de lona para mim. A bolsa transbordava de pertences que ela enfiara às pressas lá dentro. — Só fique fora de perigo. Está me ouvindo? Fique fora de perigo e volte para nós.
A multidão murmurava em protesto. O protesto virara um zum-zum-zum febril e zangado, cada vez maior. Olhei de soslaio e vi Aurélien com uma expressão furiosa e afogueada, em pé na calçada com Monsieur Suel. Eu não queria que ele se envolvesse. Se ele se voltasse contra os alemães naquele momento, seria um desastre. E era importante Hélène ter um aliado naqueles próximos meses. Fui abrindo caminho para chegar a ele.
— Aurélien, você é o homem da casa. Tem que cuidar de todos quando eu não estiver mais aqui — comecei, mas ele me interrompeu.
— A culpa é sua! — disparou. — Sei o que você fez! Sei o que você fez com o alemão!
Tudo parou. Vi um misto de agonia e fúria no rosto do meu irmão.
— Ouvi você e Hélène conversando. Vi você voltar naquela noite!
Registrei os diálogos e os olhares ao meu redor. Será que Aurélien Bessette acabou de dizer o que acho que disse?
— Não é o que... — comecei.
Mas ele virou as costas e voltou correndo para o bar.
Fez-se um novo silêncio. A acusação de Aurélien foi repetida aos cochichos para aqueles que não a tinham ouvido. Registrei o choque nos rostos ao meu redor, e o olhar oblíquo amedrontado de Hélène. Eu era Liliane Béthune agora.
Mas sem o fator atenuante da resistência. A atmosfera ao meu redor endureceu sensivelmente.
A mão de Hélène buscou a minha.
— Você devia ter fugido — sussurrava ela, com a voz embargada. — Você devia ter fugido, Sophie... — Ela fez menção de me abraçar, mas foi impedida.
Um dos alemães agarrou meu braço, me empurrando para a traseira do caminhão. Alguém gritou algo ao longe, mas não entendi se era um protesto contra os alemães ou algum termo insultuoso dirigido a mim. Então ouvi.
— Putain! Putain!
Estremeci. Ele está me enviando para Édouard, eu disse a mim mesma quando meu coração parecia que ia sair do peito. Sei que está. Preciso ter fé.
Então, ouvi a voz dela rompendo o silêncio.
— Sophie! — Uma voz de criança, cortante e agoniada. — Sophie! Sophie! — Édith irrompeu pela multidão reunida e se atirou para cima de mim, agarrando a minha perna. — Não vá embora. Você disse que não iria.
Foi a primeira vez que ela falou em voz alta desde que viera para nós.
Engoli em seco, com os olhos cheios d’água. Parei e envolvi-a nos braços. Como posso deixá-la? Meus pensamentos ficaram confusos, e o contato das mãozinhas dela era só o que eu sentia.
Então, ergui os olhos e vi como os soldados alemães a observavam, com uma expressão um tanto especulativa.
Estiquei a mão e alisei seu cabelo.
— Édith, você tem que ficar com Hélène e ser corajosa. Sua maman vai voltar para você. Eu prometo.
Ela não acreditou em mim. Tinha os olhos arregalados de medo.
— Nada de ruim vai me acontecer. Juro. Vou ver meu marido.
Tentei falar com convicção e fazer com que ela acreditasse em mim.
— Não — disse ela, me apertando mais. — Não. Por favor não me deixe.
Fiquei arrasada. Apelei em silêncio para minha irmã. Leve-a daqui. Não deixe que ela veja. Hélène soltou-a de mim. Ela agora soluçava.
— Por favor, não levem minha irmã — disse ela aos soldados enquanto puxava Édith. — Ela não sabe o que diz. Por favor, não levem minha irmã. Ela não merece isso.
O prefeito pôs o braço em volta de seus ombros, com uma expressão confusa; as palavras de Aurélien haviam acabado com sua disposição de lutar.
— Eu vou ficar bem, Édith. Seja forte — gritei para ela, acima do burburinho. Então, alguém cuspiu em mim, e eu vi, um rastro fino e nojento na minha manga. A multidão caçoava. Fui tomada de pânico. — Hélène? — chamei. — Hélène?
Mãos alemãs me empurraram grosseiramente para dentro do caminhão. Eu me vi num compartimento escuro, sentada num banco de madeira. Um soldado se acomodou na minha frente, com o rifle descansando na dobra do braço. Fecharam a aba de lona e deram a partida no motor. O barulho aumentou, e o burburinho da multidão também, como se, ao ligarem o veículo, tivessem liberado os que queriam me insultar. Perguntei-me por um instante se eu podia me jogar pela pequena fresta, mas aí ouvi: “Puta!”, acompanhado pelo choro fino de Édith, e o estrondo da pedrada que acertou a lateral do caminhão, fazendo o soldado dar um grito de alerta. Estremeci quando outra bateu atrás de onde eu estava. O alemão olhava para mim ininterruptamente. Seu leve sorriso oblíquo insinuava o meu erro terrível.
Eu estava sentada, apertando as mãos sobre a bolsa, e comecei a tremer.
Quando o caminhão se afastou, não tentei levantar a aba de lona e olhar para fora. Não queria sentir os olhares da cidade em mim. Não queria ouvir o seu veredicto. Fiquei sentada no arco da roda e lentamente deitei a cabeça nas mãos, murmurando “Édouard, Édouard, Édouard” para mim mesma. “Me desculpe.” Eu não sabia bem a quem pedir desculpas.
Só quando cheguei à periferia da cidade ousei erguer os olhos. Pela fresta na lona deu para ver o letreiro vermelho do Le Coq Rouge brilhando ao sol de inverno, e o azul vivo do vestido de Édith na frente do grupo. O letreiro foi diminuindo, diminuindo, até, como a cidade, finalmente sumir.

Um comentário:

  1. Será que não vamos saber o que aconteceu com ela?

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Boa leitura :)