29 de novembro de 2017

Capítulo 10 - Assim deseja o seu rei

Eles estavam no escritório de Diana. Através da janela, o oceano parecia alumínio ondulado, iluminado por luz negra.
— Lamento que vocês tenham sabido sobre o seu tio — disse Diana. Ela estava de costas contra a mesa. Usava jeans e um suéter, mas ainda parecia imaculada. Seu cabelo estava puxado para trás em uma massa de cachos presos por um laço de couro. — Eu esperava – Julian esperava – que vocês nunca soubessem.
Kit estava encostado na parede mais distante; Ty e Livvy sentavam-se à mesa diante de Diana. Ambos pareciam atordoados, como se estivessem se recuperando de ter o ar tirado deles. Kit nunca tivera mais consciência de que eram gêmeos, apesar da diferença na coloração deles.
— Então, todos esses anos foi Julian — disse Livvy. — Liderando o Instituto. Fazendo tudo. Cobrindo as bases para Arthur.
Kit pensou em sua ida com Julian para o Mercado das Sombras. Ele não passara tanto tempo com o segundo Blackthorn mais velho, mas Julian sempre lhe parecia terrivelmente adulto, como se fosse anos mais velho do que dizia o calendário.
— Nós deveríamos ter adivinhado. — A mão de Ty torceu e desembaraçou os finos fios brancos dos fones de ouvido em torno de seu pescoço. — Eu deveria ter descoberto.
— Nós não vemos as coisas mais próximas de nós — falou Diana. — É a natureza das pessoas.
— Mas Jules — sussurrou Livvy. — Ele tinha apenas doze anos. Deve ter sido tão difícil pra ele.
Seu rosto brilhava. Por um momento, Kit achou que fosse o reflexo da luz das janelas. Então ele percebeu que eram lágrimas.
— Ele sempre amou tanto vocês — disse Diana. — Era o que ele queria fazer.
— Nós precisamos dele aqui — disse Ty. — Nós precisamos dele aqui agora.
— Eu deveria ir — disse Kit. Ele nunca se sentiu tão desconfortável. Bem, talvez não nunca, houve o incidente com os cinco licantropes bêbados e a gaiola dos tritões no Mercado das Sombras, mas era raro.
Livvy ergueu os olhos, seu rosto cheio de lágrimas estava triste.
— Não, não deveria. Você precisa ficar aqui e nos ajudar a explicar a Diana sobre Zara.
— Eu não entendi metade do que ela falou — protestou Kit. — Sobre os diretores dos Institutos e os registros...
Ty respirou profundamente.
— Vou explicar — disse ele. A recitação do que aconteceu parecia acalmá-lo: a marcha regular dos fatos, um após o outro. Quando terminou, Diana cruzou a sala e girou a chave na fechadura duas vezes.
— Algum de vocês se lembra de mais alguma coisa? — perguntou Diana, voltando para eles.
— Uma coisa — disse Kit, surpreso por ter algo com que contribuir. — Zara falou que a próxima reunião do Conselho seria em breve.
— Suponho que será quando eles contarão a todos sobre Arthur — disse Livvy. — E farão o seu movimento pelo Instituto.
— A Tropa é uma facção poderosa dentro da Clave — disse Diana. —Eles são um grupo desagradável. Acreditam em interrogar qualquer Ser do Submundo que eles acharem ter violado os Acordos com tortura. Eles apoiam a Paz Fria incondicionalmente. Se eu soubesse que o pai de Zara era um deles... — Ela balançou a cabeça.
— Zara não pode ter o Instituto — disse Livvy. — Ela não pode. Esta é a nossa casa.
— Ela não se importa com o Instituto — apontou Kit. — Ela e seu pai querem o poder que ele pode dar. — Ele pensou nos Seres do Submundo que conhecia no Mercado das Sombras, pensou neles encurralados, obrigados a usar algum tipo de sinal, marca ou carimbo com números de identificação...
— A Tropa tem a vantagem, porém — disse Livvy. — Ela sabe sobre Arthur, e não podemos nos dar ao luxo de alguém descobrir. Ela está certa: eles entregarão o Instituto a outra pessoa.
— Existe alguma coisa que vocês saibam sobre os Dearborn ou a Tropa? Algo que possa desacreditá-los? — perguntou Kit. — Impedi-los de obter o Instituto se ele fosse desocupado?
— Mas ainda perderíamos o Instituto — disse Ty.
— Sim — concordou Kit. — Mas eles não poderiam começar a registrar Seres do Submundo. Talvez não pareça prejudicial, mas nunca para por aí. Zara claramente não se importa se os Seres do Submundo vivem ou morrem – uma vez que ela saiba onde todos estão, uma vez que eles tenham que se reportar a ela, a Tropa tem poder sobre eles. — Ele suspirou. — Vocês realmente deveriam ler alguns livros de história mundanos.
— Talvez possamos ameaçá-la dizendo que vamos contar a Diego — Livvy opinou. — Ele não sabe, e eu sei que ele foi um idiota com Cristina, mas não posso acreditar que ele esteja de bem com tudo isso. Se ele soubesse, daria um fora em Zara, e ela não quer isso.
Diana franziu a testa.
— Não é a posição mais forte, mas já é alguma coisa. — Ela virou-se para a mesa, pegou uma caneta e um bloco de notas. — Escreverei para Alec e Magnus. Eles lideram a Aliança entre Seres do Submundo e Caçadores de Sombras. Se alguém souber sobre a Tropa, ou qualquer truque que possamos usar para vencê-los, serão eles.
— E se eles não souberem?
— Nós tentamos Diego — respondeu Diana. — Eu queria acreditar que posso confiar nele mais do que confio, mas... — Ela suspirou. — Eu gosto dele. Mas também gostei de Manuel. As pessoas não são o que parecem.
— E continuamos dizendo a todos que Julian e os outros foram para a Academia? — Perguntou Livvy, deslizando da mesa. Seus olhos estavam escuros com a exaustão. Os ombros de Ty caíram. Kit sentiu um pouco como se tivesse sido atingido com um saco de areia. — Se alguém descobrir que eles foram para o reino das fadas, não importará o que fizermos sobre Zara – nós perderemos o Instituto de qualquer maneira.
— Esperamos que eles voltem logo — disse Diana, olhando para o reflexo da lua sobre a água do oceano. — E se a esperança não funcionar, rezaremos por isso.


Os bosques haviam ficado para trás, e enquanto o crepúsculo se aprofundava em verdadeira noite, os quatro Caçadores de Sombras atravessavam uma terra espectral de campos verdes, separados por paredes de pedra baixas. De vez em quando, eles viam outro remendo da estranha terra destruída através da névoa. Às vezes, vislumbravam a forma de uma cidade à distância e ficavam em silêncio, não querendo atrair atenção.
Eles haviam comido o que restava da comida na colina, embora não fosse muito. Emma não estava com fome, no entanto. Um grunhido de miséria havia se instalado em seu estômago.
Não podia se esquecer do que tinha visto quando acordou, sozinha na grama.
Levantando, ela olhou em volta procurando por Julian. Ele se fora, até mesmo a impressão na grama onde ele estivera ao seu lado se desvanecia.
O ar estava pesado e cinza-dourado, fazendo a cabeça dela zumbir quando subiu até o cume, prestes a chamar o nome de Julian.
Então o viu, parado a meio caminho da colina, o ar úmido levantando suas mangas, as pontas de seus cabelos. Ele não estava sozinho. Uma menina de fada em um manto preto esfarrapado estava com ele. Seu cabelo era da cor de pétalas de rosa queimadas, uma espécie de rosa-cinza, que vagava envolta de seus ombros.
Emma pensou que a garota tivesse olhado para ela por um momento e sorrido. Talvez tenha imaginado isso. Ela sabia que não imaginava o que aconteceu depois, quando a fada se inclinou para Jules e beijou-o.
Ela não tinha certeza do que achava que aconteceria; uma parte dela esperava que Jules a afastasse. Ele não o fez. Em vez disso, ele colocou seus braços em volta dela e a puxou para perto, sua mão se enrolando em seus cabelos cintilantes. O estômago de Emma virou-se para dentro quando ele a apertou. Ele segurou a garota das fadas com força, suas bocas se movendo juntas, suas mãos deslizando de seus ombros pelas costas.
Havia algo quase bonito sobre a visão, de uma maneira horrível. Ela esfaqueou Emma com a lembrança de como tinha sido beijar Jules. E não havia hesitação nele, sem relutância, nada retido como se ele estivesse reservando qualquer um de seus próprios pensamentos para Emma. Ele se entregou completamente para o beijo, e ele era tão lindo fazendo isso, e a percepção de que realmente o havia perdido agora era horrível.
Ela pensou realmente ter sentido seu coração se quebrar como um pedaço frágil de porcelana.
A menina fada se afastou, e então Mark e Cristina estavam lá, e Emma não conseguiu assistir o que estava acontecendo: ela se afastou, pressionando-se contra a grama, tentando não vomitar.
Suas mãos se fecharam em punhos contra o chão. Levante-se, ela disse a si mesma com ferocidade. Ela devia aquilo a Jules. Ele escondeu qualquer dor que sentiu quando ela terminou as coisas entre eles, e ela lhe devia o mesmo.
De alguma forma, ela conseguiu levantar-se, colocar um sorriso no rosto e falar normalmente quando desceu a colina para se juntar aos outros. Assentiu enquanto se sentaram e dividiram a comida, quando as estrelas saíram e Mark determinou que ele poderia navegar por elas. Pareceu despreocupada quando partiram, Julian ao lado de seu irmão, ela e Cristina atrás deles, seguindo Mark pelos caminhos sinuosos da terra das fadas.
O céu estava radiante agora com estrelas multicoloridas, cada uma ardendo um caminho individual de pigmento através do céu. Cristina estava estranhamente silenciosa, chutando as pedras com a ponta da bota enquanto caminhava. Mark e Julian estavam à frente deles, o suficiente para estar fora do alcance da voz.
— ¿Qué onda? — Cristina perguntou, olhando de frente para Emma.
O espanhol de Emma era ruim, mas mesmo ela entendia “O que está acontecendo?
— Nada — Ela sentiu-se horrível ao mentir para Cristina, mas pior sobre seus próprios sentimentos. Compartilhá-los só os tornaria mais reais.
— Bem, bom — disse Cristina. — Porque eu tenho algo para lhe dizer. — Ela respirou fundo. — Eu beijei Mark.
— Uau — disse Emma, distraindo-se — Uau-au.
— Você acabou de dizer uau-au?
— Eu disse — admitiu Emma. — Então, essa é uma situação de “toca-aqui-barra-batida-de-peito” ou “ah-meu-deus-o-que-nós-vamos-fazer?
Cristina puxou nervosamente os cabelos.
— Eu não sei – eu gosto muito dele, mas... no início, pensei que só o beijei por causa da bebida de fadas...
Emma ofegou.
— Você bebeu vinho do país das fadas? Cristina! É assim que você se destrói e acorda no dia seguinte sob uma ponte com uma tatuagem que diz EU AMO HELICÓPTEROS.
— Não era realmente vinho! Foi apenas suco!
— Ok, tudo bem. — Emma baixou a voz. — Você quer que eu termine as coisas com Mark? Quero dizer, você sabe, conte à família que acabou?
— Mas Julian — disse Cristina, preocupada. — E quanto a ele?
Por um momento, Emma não pôde falar – ela estava se lembrando de Julian quando a bela fada atravessara a grama até ele, da maneira como ela colocou as mãos em seu corpo, a maneira como seus braços se fecharam em suas costas.
Ela nunca sentira ciúmes assim antes. Ainda lhe doía, como a cicatriz de uma ferida antiga. Ela recebeu a dor de maneira estranha. Era uma dor que ela merecia, pensou. Se Julian sentiu dor, ela também deveria sentir, e ela o deixou livre – ele era livre para beijar garotas do país das fadas e procurar amor e ser feliz. Ele não estava fazendo nada de errado.
Ela se lembrou do que Tessa lhe dissera, que a maneira de fazer Julian parar de amá-la era fazê-lo pensar que ela não o amava. Convencê-lo. Parecia que ela conseguira.
— Acho que toda a minha farsa com Mark fez o que precisava fazer — falou ela. — Então, se você quiser...
— Eu não sei — disse Cristina. Ela respirou fundo. — Eu tenho que te contar uma coisa. Mark e eu discutimos, e eu não queria falar, mas...
— Parem! — era Mark, à frente. Ele girou, Julian ao seu lado, e estendeu a mão na direção delas. — Vocês ouviram isso?
Emma apurou a audição. Ela desejava que fosse possível desenhar runas em sai mesma – as runas que melhoravam a velocidade, a audição e os reflexos já haviam se desgastado. Ela balançou a cabeça.
Mark tinha mudado para as que devem ter sido suas roupas da Caçada, mais escuras e esfarrapadas, e até mesmo esfregara sujeira nos cabelos e rosto. Seus olhos de duas cores brilhavam no crepúsculo.
— Ouçam — ele disse — está ficando mais alto.
E, de repente, Emma podia ouvir: música. Uma espécie de música que ela nunca tinha ouvido antes, estranha e fora de tom, fazia com que seus nervos parecessem se torcer sob a pele.
— A Corte está perto — Mark apontou. — Essas são as flautas do rei. — Ele mergulhou no bosque mais fechado em frente, virando-se apenas para soltar um “Venham!” para os outros.
Eles o seguiram. Emma estava consciente de Julian logo à frente dela; ele puxara uma espada curta e a usava para cortar a vegetação baixa. Pilhas de folhas e galhos com pequenas flores cor de sangue caíam aos seus pés.
A música estava mais alta agora, e ainda mais alta quando passavam pela floresta densa, as árvores acima deles brilhando com luzes de desejo. Lanternas multicoloridas pendiam dos ramos, apontando para a parte mais escura da floresta.
A Corte Unseelie apareceu de repente – uma explosão de música alta e luzes brilhantes que feriram os olhos de Emma depois de tanto tempo no escuro. Ela não tinha certeza do que imaginar quando pensava na Corte Unseelie. Um enorme castelo de pedra, talvez, com uma sala do trono escura. A joia escura de uma câmara no topo de uma torre com uma escada sinuosa. Ela se lembrou da escuridão sombria da Cidade dos Ossos, o silêncio do lugar, o frio no ar.
Mas a Corte Unseelie era ao ar livre – uma série de tendas e cabanas não muito diferentes do Mercado das Sombras, agrupadas em uma clareira em um círculo de árvores grossas. A parte principal era um enorme pavilhão drapeado com bandeirinhas de veludo voando ao vento, carregando o emblema de uma coroa de ouro partida.
Havia um único trono alto feito de pedra negra lisa e brilhante no pavilhão – e desocupado. O encosto era esculpido com as duas metades de uma coroa, desta vez pendurada acima de uma lua e um sol.
Alguns homens-fada nobres em capas escuras andavam no pavilhão perto do trono. Suas capas tinham as insígnias da coroa, e elas usavam luvas grossas como a que Cristina encontrou nas ruínas da casa de Malcolm. A maioria era jovem; alguns mal pareciam ter mais que 14 ou 15 anos.
— Os filhos do rei Unseelie — sussurrou Mark. Estavam agachados atrás de um monte de pedregulhos, espiando pelas beiradas, armas na mão. — Alguns deles, de qualquer maneira.
— Ele não tem nenhuma filha? — Emma murmurou.
— Ele não tem utilidade para elas — disse Mark. — Dizem que suas filhas que foram mortas no nascimento.
Emma não conseguiu evitar um lampejo de raiva.
— Apenas deixe-me chegar perto dele — ela sussurrou. — Vou mostrar-lhe qual é a utilidade das meninas.
Houve uma explosão repentina de música. As fadas da região começaram a se mover para o trono. Elas eram reluzentes em suas lindas roupas finas, coloridas de dourado, verde, azul e vermelho, os homens vestidos com tanta pompa quanto as mulheres.
— Está quase na hora — disse Mark, esforçando-se para ver. — O rei está chamando os nobres para perto.
Julian se endireitou, ainda escondido pelas pedras.
— Então devemos nos mover agora. Verei se conseguimos nos aproximar do pavilhão. — Sua espada curta brilhava ao luar. — Cristina. Venha comigo.
Depois de um susto momentâneo, Cristina assentiu.
— Claro.
Ela puxou sua faca, deslizando um rápido olhar de desculpas em direção a Emma enquanto ela e Julian desapareceram nas árvores.
Mark inclinou-se para frente contra a rocha maciça que os bloqueava de vista da clareira. Ele não olhou para Emma, só falou em voz baixa.
— Eu não posso fazer isso. Não posso mais mentir para o meu irmão.
Emma congelou.
— Mentir sobre o quê? — ela perguntou, embora conhecesse a resposta.
— Sobre nós. A mentira de que estamos apaixonados. Temos de acabar com isso.
Emma fechou os olhos.
— Eu sei. Você e Cristina...
— Ela me contou. — Interrompeu Mark. — Que Julian está apaixonado por você.
Emma não abriu os olhos, mas ainda podia ver a luz brilhante das tochas que rodeavam o pavilhão e a clareira queimando contra suas pálpebras.
— Emma. Não foi culpa dela. Foi um acidente. Mas quando ela me contou, eu entendi. Nada disso teve a ver com Cameron Ashdown, não é? Você estava tentando proteger Julian de seus próprios sentimentos. Se Julian a ama, você deve convencê-lo de que é impossível para você amá-lo de volta.
Sua simpatia quase a quebrou. Ela abriu os olhos – fechá-los era covardia, e os Carstairs não eram covardes.
— Mark, você sabe sobre a Lei. E conhece os segredos de Julian – sobre Arthur, sobre o Instituto. Sabe o que aconteceria se alguém descobrisse, o que fariam conosco, com a sua família.
— Eu sei. E não estou com raiva de você. Eu ficaria ao seu lado se você achasse alguém para enganá-lo. Às vezes, devemos enganar aqueles que amamos. Mas não posso ser o instrumento que lhe causa dor.
— Mas só pode ser você. Acha que se houvesse mais alguém, eu teria pedido a você? — Ela podia ouvir o desespero em sua própria voz.
Os olhos de Mark se nublaram.
— Por que só eu?
— Porque não há mais ninguém de quem Jules tenha ciúmes — ela respondeu, e viu o espanto florescer nos olhos de Mark ao mesmo tempo em que um galho quebrou atrás dela.
Ela girou, Cortana pronta em suas mãos.
Era Julian.
— Você deveria saber melhor do que enfiar aço em seu próprio parabatai — ele falou, com a curva de um sorriso.
Ela abaixou a lâmina. Ele ouviu algo do que ela e Mark disseram? Não parecia.
— Você deveria saber melhor do que fazer barulho quando anda.
— Não existe algo como uma runa antissom — disse Jules, e se virou para Mark. — Nós encontramos uma posição mais próxima do trono. Cristina já...
Mas Mark havia congelado. Ele olhava para algo que Emma não podia ver. O olhar de Julian encontrou com o dela, cheio de alarme, e então Mark estava se movendo, atravessando a mata rasteira.
Os dois se jogaram atrás dele. Emma podia sentir o suor se juntar na cavidade de suas costas enquanto se esforçava para não pisar em um galho que poderia quebrar, uma folha que pudesse estalar. Era doloroso, quase humilhante perceber o quanto os Nephilim confiavam em suas runas.
Ela o alcançou rapidamente, quase trombando com Mark. Ele não fora longe, apenas até a extremidade da clareira, ainda escondido da vista do pavilhão por um ajuntamento excessivo de samambaias.
Sua visão da clareira era desobstruída. Emma podia ver as fadas Unseelie reunidas perto da frente do trono. Havia provavelmente uma centena deles, talvez mais. Estavam vestidos com roupas elegantes, muito mais elegantes do que imaginava. Uma mulher com pele escura usava um vestido feito de penas de cisne, rígido e branco, um colar na garganta delgada. Dois homens pálidos vestiam sobretudos de seda rosa e casacos de asas de pássaros azuis brilhantes. Uma mulher de pele cor de trigo com cabelos feitos de pétalas de rosa se aproximou do pavilhão, seu vestido uma intrincada gaiola de ossos de pequenos animais presos com fio feito de cabelo humano.
Mas Mark não olhava para nenhum deles, nem para o pavilhão onde estavam os príncipes Unseelie, claramente esperando. Em vez disso, ele fitava dois dos príncipes Unseelie, ambos vestidos de seda preta. Um era alto com pele marrom escura, o crânio de um corvo mergulhado em ouro pendurado em sua garganta. O outro era pálido e de cabelos negros, o rosto estreito e barbudo. Agachado entre eles estava a figura de um prisioneiro, a roupa manchada de sangue, o corpo machucado. A multidão se separou para eles, suas vozes em silenciosos murmúrios.
— Kieran — Mark sussurrou.
Ele começou a avançar, mas Julian pegou a parte de trás de sua camisa, segurando seu irmão com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Ainda não — ele sibilou em voz baixa. Seus olhos eram planos, brilhantes; neles, Emma viu a crueldade que uma vez lhe havia dito que assustou-a. Não por si mesma, mas por ele.
Os príncipes foram até uma árvore alta, de tronco branco, à esquerda e à frente ao pavilhão. O príncipe barbudo bateu Kieran contra ela com força. O príncipe com o colar de corvo falou com ele bruscamente, balançando a cabeça. O outro príncipe riu.
— O de barba é o Príncipe Erec — disse Mark. — O favorito do rei. O outro é o Príncipe Adaon. Kieran diz que Adaon não gosta de ver pessoas feridas. Mas Erec gosta disso.
Parecia ser verdade. Erec arranjou uma corda de espinhos e ergueu-a em direção a Adaon, que balançou a cabeça e se afastou para o pavilhão. Franzindo o rosto, Erec começou a atar Kieran no tronco da árvore. Suas próprias mãos estavam protegidas com luvas grossas, mas Kieran vestia apenas uma camisa e calções rasgados, e os espinhos cortaram seus pulsos e tornozelos, e então sua garganta quando Erec puxou uma parte da corda maléfica contra sua pele. Enquanto isso, Kieran caía inerte, os olhos meio fechados, claramente já longe de se importar.
Mark ficou tenso, mas Julian segurou-o. Cristina tinha se juntado a eles e pressionava a mão contra a própria boca; ela assistiu enquanto Erec terminou com Kieran e recuou.
Sangue brotou das lacerações que as cordas de espinho causaram na pele de Kieran. Sua cabeça tinha caído de volta contra o tronco da árvore; Emma podia ver seu olho prateado, e também o preto, ambos meio fechados. Havia contusões na pele pálida, na bochecha e acima do quadril, onde sua camisa estava rasgada.
Houve uma comoção no alto do pavilhão, e uma única explosão de uma trombeta de chifre quebrou o silêncio na clareira. A nobreza olhou para cima. Uma figura alta apareceu ao lado do trono. Ele estava todo de branco, branco cor de sal, com um gibão de seda branca e luvas branco osso. Chifres brancos ondulavam de cada lado da cabeça, surpreendentes contra a escuridão de seus cabelos. Uma faixa de ouro cercava sua testa.
Cristina exalou.
— O Rei.
Emma podia ver seu perfil: era lindo. Claro, preciso, limpo como um desenho ou pintura de algo perfeito. Emma não poderia ter descrito a forma de seus olhos ou maçãs do rosto ou a sua boca, e ela não tinha a habilidade de Jules para pintá-lo, mas sabia que era estranho e maravilhoso e que lembraria o rosto do Rei da Corte Unseelie pelo resto de sua vida.
Ele se virou, permitindo uma visão completa de seu rosto. Emma ouviu Cristina engolir fracamente. O rosto do rei era dividido ao meio. O lado direito era o rosto de um jovem, luminoso com elegância e beleza, embora seu olho fosse vermelho como uma chama. O lado esquerdo era uma máscara desumana, pele cinza enrugada e coriácea sobre os ossos, a cavidade ocular vazia e negra, manchada de cicatrizes brutais.
Kieran, preso à árvore, olhou uma vez para o rosto monstruoso do pai e virou a cabeça, o queixo baixando, o cabelo preto emaranhado caindo para esconder seus olhos.
Erec apressou-se em direção ao pavilhão, juntando-se a Adaon e uma multidão de outros príncipes do lado do pai.
Mark respirava com dificuldade.
— O rosto do Rei Unseelie — ele sussurrou. — Kieran falou sobre isso, mas...
— Firme — Julian sussurrou de volta. — Espere para ouvir o que ele dirá.
Como se seguindo a deixa, o rei falou.
— Povo da corte — disse ele. — Nós nos reunimos aqui com um propósito triste: testemunhar a justiça contra um dos nossos que pegou em armas e assassinou outro em um lugar de paz. Kieran Caçador é condenado pelo assassinato de Iarlath da Corte Unseelie, um dos meus próprios cavaleiros. Ele o matou com sua lâmina, aqui nas Terras Unseelie.
Um murmúrio percorreu a multidão.
— Nós pagamos um preço pela paz entre nossos povos — disse o Rei. Sua voz era como um sino, adorável e ecoando em volta. Algo tocou o ombro de Emma. Era a mão de Julian, aquela que não apertava o braço de Mark. Emma olhou para ele com surpresa, mas ele olhava para frente, em direção à clareira. — Nenhuma fada Unseelie deve erguer a mão contra outra. O preço da desobediência é a justiça. A morte é paga com a morte.
Os dedos de Julian se moveram rapidamente contra a pele de Emma através da camisa, a língua antiga de sua infância compartilhada. F-I-Q-U-E A-Q-U-I.
Ela se virou para olhar para ele, mas ele já se movia. Ela ouviu a respiração de Mark sibilar em um suspiro e agarrou seu pulso, impedindo-o de ir atrás do irmão.
Sob a luz das estrelas, Julian saiu para a clareira cheia da nobreza Unseelie. Emma, seu coração batendo forte, apertando o pulso de Mark; tudo nela queria correr atrás de seu parabatai, mas ele pediu que ela ficasse, e ela ficaria, e seguraria Mark. Porque Julian estava se movendo como se tivesse um plano, e se ele tivesse um plano, ela devia confiar que poderia funcionar.
— O que ele está fazendo? — Cristina gemeu, em uma agonia de suspense. Emma só podia balançar a cabeça.
Algumas das fadas na beira da multidão o avistaram e estavam ofegantes, recuando quando ele se aproximou. Ele não tinha feito nada para cobrir as runas negras permanentes em sua pele – a runa da Visão nas costas de sua mão era como um olho examinando o Povo das Fadas em sua fina elegância.
A mulher com o vestido feito de ossos deu um grito.
— Caçador de Sombras! — ela exclamou.
O Rei sentou-se ereto. Um momento depois, uma fileira de cavaleiros fada em armadura de preto e prata – entre eles os príncipes que haviam arrastado Kieran para a árvore – cercaram Julian, formando um círculo ao redor dele. Espadas de prata, latão e ouro brilharam ao redor dele como um tributo sombrio.
Kieran ergueu a cabeça e olhou fixamente. O choque em seu rosto ao reconhecer Julian era completo.
O rei levantou-se. Seu rosto dividido era sombrio e terrível.
— Traga o espião Caçador de Sombras para que eu possa matá-lo com a minha própria mão.
— Você não vai me matar. — A voz de Julian, calma e confiante, subiu acima do barulho das vozes. — Eu não sou um espião. A Clave me enviou, e se me matar, isso significará uma guerra aberta.
O rei hesitou. Emma sentiu um desejo selvagem de rir. Julian falou a mentira com tanta calma e confiança que ela quase acreditou. Dúvida passou pelo rosto do rei.
Meu parabatai, pensou ela, olhando para Jules, de pé com as costas retas e a cabeça erguida, o único garoto de dezessete anos do mundo que poderia fazer o Rei da Corte Sombria duvidar de si mesmo.
— A Clave o enviou? Por que não uma delegação oficial? — indagou o rei.
Julian assentiu, como se esperasse a pergunta. Provavelmente ele esperava.
— Não houve tempo. Quando ouvimos falar da ameaça a Kieran Caçador, sabíamos que precisávamos nos mover imediatamente.
Kieran soltou um som sufocado. Havia uma restrição de espinhos ao redor de sua garganta. Sangue escorria para a sua clavícula.
— Que importa para a Clave ou para o Cônsul a vida de um garoto da Caçada Selvagem? — perguntou o Rei. — E um criminoso, ainda por cima?
— Ele é seu próprio filho — apontou Julian.
O rei sorriu. Era uma visão bizarra, metade do rosto dele floresceu na luz e a outra mostrou uma careta horrível.
— Ninguém poderá então — disse ele — me acusar de favoritismo. A Corte Unseelie estende a mão da justiça.
— O homem que ele assassinou — disse Julian. — Iarlath. Ele era um assassino da sua própria família. Ele planejou com Malcolm Fade matar outros do Povo das Fadas.
— Eles eram da Corte Seelie — disse o Rei. — Não da nossa gente.
— Mas você diz que é o governante de ambas as Cortes — lembrou Julian. — Não deveria, então, o povo que um dia será seu para governar, esperar sua justiça e clemência?
Houve um murmúrio na multidão, um tom mais suave. O rei franziu a testa.
— Iarlath também matou Nephilim — disse Julian. — Kieran impediu que outras vidas de Caçadores das Sombras fossem perdidas. Portanto, nós devemos a ele, e nós pagamos nossas dívidas. Não deixaremos que tirem a vida dele.
— O que você pode fazer para nos impedir? — criticou Erec. — Sozinho como está?
Julian sorriu. Embora Emma o conhecesse por toda a sua vida, embora ele fosse como outra parte de si mesma, a segurança fria desse sorriso enviou gelo através de suas veias.
— Eu não estou sozinho.
Emma soltou Mark. Ele avançou para a clareira sem olhar para trás, e Emma e Cristina vieram depois. Nenhum deles desembainhou as armas, apesar de Cortana estar presa às costas de Emma, visível para todos. A multidão se separou para deixá-los passar e juntar-se a Julian. Emma percebeu, quando entraram no círculo de guardas, que os pés de Mark ainda estavam nus. Eles pareciam pálidos como as patas de um gato branco contra a longa grama escura.
Não que isso importasse. Mark era um guerreiro formidável, mesmo descalço. Emma tinha um bom motivo para saber.
O rei olhou para eles e sorriu. Emma não daquele sorriso.
— O que é isso? — ele perguntou. — Uma delegação de crianças?
— Nós somos Caçadores de Sombras — disse Emma. — Nós portamos o encargo da Clave.
— Assim dizem vocês — observou o Príncipe Adaon. — Qual é a sua demanda?
— Uma boa pergunta — disse o rei.
— Queremos um julgamento por combate — disse Julian.
O rei riu.
— Apenas alguém do Povo das Fadas pode entrar em um julgamento por combate nas Terras Unseelie.
— Eu sou do Povo das Fadas — disse Mark. — Eu posso fazer isso.
Com isso, Kieran começou a lutar contra suas cordas.
— Não — ele disse violentamente, sangue escorrendo pelos seus dedos, pelo peito. — Não.
Julian nem sequer olhou para Kieran. Kieran poderia ser quem eles estavam lá para salvar, mas se tivessem que torturá-lo para salvá-lo, Julian o faria. Você é o menino que faz o que tem que ser feito, porque mais ninguém o fará, Emma lhe dissera uma vez. Parecia anos atrás.
 — Você é da Caçada Selvagem — disse Erec. — E metade Caçador de Sombras. Não está vinculado a nenhuma lei, e sua lealdade é para Gwyn, não para a justiça. Você não pode lutar. — Seu lábio se curvou para trás. — E os outros não são fadas.
— Não é verdade — devolveu Julian. — Muitas vezes foi dito que as crianças e os loucos são da raça das fada. Que existe um vínculo entre eles. E nós somos crianças.
Erec bufou.
— Isso é ridículo. Vocês cresceram.
— O Rei nos chamou de crianças — argumentou Julian. — Uma delegação de crianças. Você chamaria seu senhor soberano de mentiroso?
Houve um engasgo coletivo. Erec ficou pálido.
— Meu Senhor — ele começou, voltando-se para o Rei. — Pai...
— Silêncio, Erec, você falou o suficiente — disse o Rei. Seu olhar estava em Julian, o olho brilhante e a órbita escura e vazia. — Interessante — disse ele, a ninguém em particular — Esse menino que se parece com um Caçador de Sombras e fala como a pequena nobreza. — Ele se levantou. — Você terá seu julgamento por combate. Cavaleiros, abaixem suas lâminas.
A parede piscante de metal brilhante em torno de Emma e seus amigos desapareceu. Rostos duros os consideravam em vez disso. Alguns eram príncipes, carregando os distintos traços delicados de Kieran. Alguns mal eram marcados por batalhas passadas. Poucos tinham os rostos escondidos por capuzes ou véus. Além deles, a nobreza da Corte murmurava e exclamava, claramente animada. As palavras “julgamento por combate” se espalharam pela clareira.
— Você terá seu julgamento — disse o rei novamente. — Mas eu escolherei qual de vocês será o campeão.
— Estamos todos dispostos — concordou Cristina.
— Claro que estão. Essa é a natureza dos Caçadores de Sombras. Sacrifícios de insensatez. — O Rei virou-se para olhar para Kieran, levando o lado esquelético do rosto para fora de vista. — Agora, como escolher? Eu sei. Um enigma para sortear.
Emma sentiu Julian ficar tenso. Ele não gostara da ideia de um enigma. Era aleatório demais. Julian não gostava de nada que não pudesse controlar.
— Aproximem-se — pediu o rei, acenando com um dedo. Suas mãos eram pálidas como casca branca. Um gancho como uma garra curta se estendia de cada dedo logo acima do nó.
A multidão se separou para permitir que Emma e os outros se aproximassem do pavilhão. Quando eles foram, Emma estava consciente de um cheiro estranho pendendo ao redor deles. Grosso e amargo, como a seiva da árvore. Intensificou-se enquanto se aproximavam do trono até que estavam olhando para ele, o Rei se aproximando deles como uma estátua. Atrás dele havia uma fileira de cavaleiros cujos rostos estavam cobertos por máscaras feitas de ouro, prata e bronze. Alguns tinham a forma de ratos, outros de leões dourados ou panteras de prata.
— A verdade é encontrada nos sonhos — disse o rei, olhando para eles. Sob esse ângulo, Emma podia ver que a estranha separação de seu rosto acabava em sua garganta, que tinha pele comum. — Digam-me, Caçadores de Sombras: você entra em uma caverna. Dentro da caverna tem um ovo, iluminado por dentro e brilhando. Você sabe que isso supera os seus sonhos, não os que você tem durante o dia, mas os que se lembra parcialmente pela manhã. Ele se abre. O que emerge?
— Uma rosa — disse Mark. — Com espinhos.
Cristina desviou os olhos para ele com surpresa, mas permaneceu imóvel.
— Um anjo — disse ela. — Com as mãos sangrentas.
— Uma faca — disse Emma. — Pura e limpa.
— Barras — disse Julian calmamente. — As barras de uma cela de prisão.
A expressão do rei não mudou. Os murmúrios da Corte em torno deles pareciam confusos ao invés de irritados ou intrigados. O Rei esticou uma mão branca e longa.
— Você aí, garota com o cabelo brilhante. Você será o campeão do seu povo.
Alívio percorreu Emma. Seria ela; os outros não se arriscaram. Sentiu-se mais leve, como se pudesse respirar de novo. Cristina virou o rosto para Emma, com um olhar aflito; Mark parecia segurar-se apenas com sua força. Julian pegou o braço de Emma, movendo-se para sussurrar em seu ouvido, urgência em cada linha de seu corpo.
Ela permaneceu parada, os olhos fixos em seu rosto, deixando cair o caos da Corte em torno dela. A frieza da batalha já começava a descer sobre ela: o frio que amortecia as emoções, deixando tudo além da luta desbotar.
Julian era parte disso, o início da batalha e o frio do meio e a ferocidade da luta. Não havia nada que ela quisesse olhar mais nos momentos que antecediam uma batalha do que o rosto dele. Nada que a fazia sentir-se mais completamente em casa em si mesma, mais como uma Caçadora de Sombras.
— Lembre-se — Julian sussurrou na orelha de Emma. — Você já derramou sangue de fadas antes, em Idris. Eles teriam matado você, matado todos nós. Esta é uma batalha também. Não mostre misericórdia, Emma.
— Jules. — Ela não sabia se ele a ouviu dizer o nome dele. Cavaleiros os cercaram de repente, separando-a dos outros. Seu braço escapou do aperto de Julian. Ela olhou uma última vez para os três antes de ser guiada para frente. Um espaço estava sendo limpo em frente ao pavilhão.
Um chifre soprou, o som afiado partindo a noite como uma faca. Um dos príncipes saiu de trás do pavilhão ao lado de um cavaleiro mascarado. O cavaleiro usava uma espessa armadura cinza como a pele de um animal. Um capacete cobria seu rosto. Um desenho grosseiro estava pintado na frente do capacete: olhos arregalados, uma boca esticada em um sorriso. Alguém tocou o capacete com as mãos molhadas de tinta, e havia riscos vermelhos ao longo das laterais que emprestavam um ar sinistro ao que de outra forma poderia ser risível.
O príncipe guiou o cavaleiro mascarado ao seu lado da clareira aberta e o deixou lá, de frente para Emma. Ele estava armado com uma espada de fabricação das fadas, sua lâmina de prata raiada com ouro, o punho cheio de gemas. As bordas reluziam como lâminas de barbear.
Uma espada forte, mas nada poderia quebrar Cortana. A arma de Emma não falharia com ela. Só ela mesma poderia falhar.
— Você conhece as regras — disse o rei com um tom entediado. — Uma vez que a batalha começa, nenhum dos guerreiros pode ser ajudado por um amigo. A luta é até a morte. O vencedor é aquele que sobreviver.
Emma empunhou Cortana. Ela piscou como o pôr-do-sol logo antes de se afogar no mar.
Não houve reação do cavaleiro com o capacete pintado. Emma concentrou-se em sua posição. Ele era mais alto do que ela, tinha maior alcance. Seus pés estavam cuidadosamente plantados. Apesar do elmo ridículo, ele era claramente um lutador sério.
Ela moveu seus próprios pés para a posição: pé esquerdo para frente, pé direito para trás, arqueando o lado dominante de seu corpo em direção ao oponente.
— Que comece — disse o rei.
Como um cavalo de corrida que explodiu fora da baia, o cavaleiro correu em direção a Emma, espada pulando para frente. Pega desprevenida por sua velocidade, Emma saiu do caminho da lâmina. Mas foi um começo tardio. Ela deveria ter erguido Cortana antes. Ela contou com a rapidez de sua runa Golpe Certeiro, mas já não funcionava mais. Um forte terror que ela não conhecia há muito passou por ela enquanto sentia o sussurro da ponta da espada do cavaleiro deslizando a centímetros ao seu lado.
Emma lembrou-se das palavras de seu pai quando ela começou a aprender. Golpeie seu inimigo, e não a arma dele. A maioria dos lutadores visa sua lâmina. Um bom lutador visa seu corpo.
Este era um bom lutador. Mas ela esperava algo mais? O rei o escolheu, afinal. Agora, ela só tinha que esperar que o rei a tivesse subestimado.
Duas voltas rápidas a levaram a um monte levemente elevado de grama. Talvez ela pudesse igualar sua diferença de altura. A grama explodiu. Emma não precisava olhar para saber que o cavaleiro estava mergulhando em sua direção novamente. Ela girou, trazendo Cortana em um arco.
Ele mal se moveu para trás. A espada cortou o material de sua espessa armadura de couro, abrindo uma fenda larga. Ele não se encolheu, ou pareceu ferido. Ele certamente não foi abrandado. Ele pulou para Emma, e ela deslizou em um agachamento, a lâmina do outro assobiando sobre sua cabeça. Ele pulou novamente e ela se ergueu.
Emma podia ouvir a própria respiração, alta no ar fresco da floresta. O cavaleiro das fadas era bom, e ela não tinha o benefício de runas, de lâminas serafim – qualquer um dos armamentos de um Caçador de Sombras. E se ela se cansasse mais cedo? E se essa terra escura estivesse sugando o poder em seu sangue?
Ela errou um golpe, saltou para trás e lembrou-se, estranhamente, da voz zombeteira de Zara Fadas lutam sujo. E Mark respondendo Fadas não jogam sujo, na verdade. Jogam notavelmente limpo. Elas têm um severo código de honra.
Ela já estava se dobrando, atacando os tornozelos do outro cavaleiro. Ele saltou para cima, quase levitando, e recuou sua própria espada no mesmo momento em que Emma agarrou um punhado de folhas, sujeira e pétala, lançando-as nas lacunas na máscara do guerreiro das fadas.
Ele engasgou e tropeçou de volta. Foi apenas um segundo, mas foi o suficiente; Emma cortou suas pernas, uma e duas vezes, e então o tronco dele. Sangue ensopou sua armadura; suas pernas perderam a firmeza e ele acertou o chão de costas com um barulho como uma árvore derrubada.
Emma chutou a lâmina dele para longe enquanto a multidão rugia. Ela podia ouvir Cristina chamando seu nome, e Julian e Mark. Com o coração batendo, ela ficou de pé sobre o cavaleiro imóvel. Mesmo agora, esparramado na grama escurecida ao redor por seu próprio sangue, ele não fez nenhum som.
— Retire o capacete e termine — disse o Rei. — Essa é a nossa tradição.
Emma respirou fundo.
Tudo nela que era um Caçador de Sombras se revoltava contra isso, contra tirar a vida de alguém que estava deitado sem armas a seus pés. Ela pensou no que Julian lhe dissera antes do combate. Não mostre misericórdia.
A ponta de Cortana bateu contra a borda do capacete. Ela a encaixou sob a borda e empurrou.
O capacete caiu. O homem deitado na grama abaixo de Emma era humano, não fada. Seus olhos eram azuis, os cabelos loiros manchados com cinza. Seu rosto era mais familiar para Emma do que o dela próprio.
A mão caiu ao seu lado, Cortana pendendo de dedos sem aperto.
Era o pai dela.

9 comentários:

  1. Meu Deus do céu
    Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
    Vai dar merda vai dar merda ops deu merda

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  2. Gente, uma ilusão das fadas������
    Elas podiam ser menos más, coitada da Emma vai ter que "matar" o próprio pai��

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  3. angel 05/12/2017 eu ja esperava por essa tava facil demais

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  4. É só ilusão carambaaaa... mata logo!

    Flavia

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Boa leitura :)