5 de novembro de 2017

Capítulo 1

O homem corpulento na ponta do balcão está suando. Ele mantém a cabeça abaixada sobre o uísque duplo, mas de vez em quando se vira e olha para fora, pela porta às suas costas. Uma camada fina de suor brilha à luz das lâmpadas neon. Ele expira de forma trêmula e demorada, fingindo um suspiro, e se volta para a bebida.
— Ei, com licença.
Ergo os olhos dos copos que estou secando.
— Pode trazer mais um?
Quero dizer a ele que essa realmente não é uma boa ideia, que não vai ajudar e até poderia fazê-lo passar do limite. Mas ele já é adulto, faltam quinze minutos para o bar fechar e, segundo orientação da empresa, não tenho motivo para dizer não. Por isso, vou até ele, pego seu copo e levo ao dosador. O homem assente para a garrafa.
— Duplo — diz ele, deslizando a mão gorda pelo rosto úmido.
— São sete libras e vinte, por favor.
São quinze para as onze de uma terça-feira à noite, e o Shamrock and Clover, o pub irlandês do aeroporto East City, que é tão irlandês quanto Mahatma Ghandi, está num clima de fim de noite. O bar fecha dez minutos após o último avião decolar, e neste momento somos apenas eu, um jovem muito sério com um laptop, duas mulheres tagarelando na mesa dois e o homem que beberica um Jameson duplo enquanto espera o voo SC107 para Estocolmo ou o DB224 para Munique. Esse último está quarenta minutos atrasado.
Estou trabalhando desde o meio-dia, pois Carly estava com dor de estômago e foi para casa. Não me importo. Nunca me importo de ficar até tarde. Cantarolando baixinho para acompanhar as Gaitas Celtas da Ilha Esmeralda Vol. III, vou recolher os copos das duas mulheres, que estão assistindo atentamente a um vídeo no celular. Elas estão com o riso fácil, como acontece com quem já bebeu um bocado.
— Minha neta. Cinco dias de vida — diz a loura, assim que estico o braço para pegar seu copo na mesa.
— Linda.
Sorrio, apesar de achar que todos os bebês têm cara de brioche.
— Ela mora na Suécia. Nunca estive lá. Mas tenho que conhecer minha primeira neta, não é mesmo?
— Estamos bebendo para comemorar o nascimento da neném. — Elas caem na gargalhada mais uma vez. — Quer brindar com a gente? Vamos, sente-se aqui por cinco minutos. Não vamos conseguir terminar essa garrafa a tempo.
— Opa! Está na hora. Vamos nessa, Dor.
Alertadas por uma tela, elas juntam seus pertences, e talvez apenas eu repare num ligeiro cambaleio quando as duas se preparam para andar até a segurança do aeroporto. Coloco os copos delas no bar e observo o local à procura de qualquer outra coisa que precise ser lavada.
— Você nunca tentou?
A mulher mais baixa voltou para buscar o cachecol.
— Perdão?
— Simplesmente descer até lá, no fim do expediente, e entrar num avião. Eu faria isso. — Ela ri. — Todo santo dia.
Dou aquele sorriso profissional que poderia expressar qualquer coisa e me viro para o bar.

* * *

As lojas à minha volta vão fechando, portas de aço baixando com estrépito escondem bolsas caras demais e Toblerones para presentes de última hora. As luzes se apagam nos portões três, cinco e onze, os últimos viajantes do dia embarcam para o céu noturno. Violet, a faxineira congolesa, empurra o carrinho na minha direção, caminhando com um gingado lento, os sapatos de sola de borracha rangendo no piso reluzente.
— Boa noite, querida.
— Boa noite, Violet.
— Você não devia estar aqui a uma hora dessas. Devia estar em casa com seus entes queridos.
Ela me diz exatamente a mesma coisa toda noite.
— Não vou demorar — respondo com exatamente essas palavras toda noite.
Satisfeita, ela balança a cabeça e segue seu caminho.
O Jovem Muito Sério com o Laptop e o Bebedor de Uísque Suado foram embora. Termino de empilhar os copos e confiro a caixa registradora, verificando duas vezes até o rolo condizer com o que há na gaveta. Registro tudo no livro-razão, verifico as bombas, anoto o que precisamos encomendar. Então percebo que o casaco do homem corpulento continua no banco onde ele estava. Vou até lá e dou uma olhada no monitor. O embarque para Munique acabou de começar, mas não estou a fim de correr para devolver o casaco. Olho de novo e depois sigo devagar para o banheiro masculino.
— Olá? Tem alguém aí?
Surge uma voz abafada, com um leve tom de histeria. Empurro a porta.
O Bebedor de Uísque está debruçado na pia, jogando água no rosto. A pele dele está branca como giz.
— Estão chamando o meu voo?
— Acabou de aparecer no quadro. Você ainda tem alguns minutos.
Estou prestes a ir embora, mas algo me detém. O homem está me encarando, seus olhos parecem dois pequenos botões de ansiedade.
— Não posso fazer isso. — Ele pega uma toalha de papel e seca o rosto. — Não posso embarcar.
Fico esperando.
— Eu deveria viajar para conhecer meu novo chefe, mas não consigo. Não tive coragem de dizer a ele que tenho medo de avião. — Ele balança a cabeça. — Medo, não. Pavor.
Deixo a porta fechar atrás de mim.
— Qual é seu trabalho novo?
Ele pisca.
— Hã... autopeças. Sou o novo Gerente Regional Sênior barra Peças de Reposição da Hunt Motors.
— Parece um ótimo emprego — digo. — Tem até uma barra no título.
— Faz muito tempo que venho trabalhando para isso. — Ele engole em seco. — Então não quero morrer em uma bola de fogo. Não quero mesmo morrer em uma bola de fogo no ar.
Eu me sinto tentada a ressaltar que, na verdade, não seria uma bola de fogo no ar, pois ela despencaria rapidamente, mas desconfio que essa informação não ajudaria muito. Ele volta a jogar água no rosto e eu lhe entrego outra toalha de papel.
— Obrigado. — Trêmulo, ele solta o ar e se empertiga, tentando se recompor. — Aposto que você nunca viu um homem adulto se comportar como um idiota, hein?
— Umas quatro vezes por dia.
Seus olhos miúdos ficam arregalados.
— Pelo menos quatro vezes por dia tenho que tirar alguém do banheiro masculino. E geralmente é por medo de voar.
O homem me encara.
— Mas, sabe, como digo para todo mundo, nunca um avião que saiu deste aeroporto caiu.
Ele retrai o pescoço.
— É mesmo?
— Nenhum.
— Nem mesmo... uma batidinha na pista?
Encolho os ombros.
— Na verdade aqui é bem parado. As pessoas vão, seguem até seu destino e voltam alguns dias depois. — Empurro a porta com as costas para mantê-la aberta. Esses banheiros não ficam com um cheiro muito bom à noite. — E, enfim, na minha opinião, coisas piores podem acontecer com você.
— Bem. Acho que é verdade. — Ele fica refletindo, me olhando de soslaio. — Quatro por dia, hein?
— Às vezes mais. Se não se importa, realmente preciso voltar agora. Ser vista saindo do banheiro masculino com tanta frequência não pega bem para mim.
O cara sorri, e, por um instante, consigo perceber como ele poderia ser em outras circunstâncias. Um homem naturalmente entusiasmado. Um sujeito alegre, no auge de sua carreira na área de autopeças.
— Sabe, acho que estou ouvindo chamarem seu voo.
— Garante que eu vou ficar bem?
— Você vai ficar bem. É uma companhia aérea muito segura. E são só poucas horas da sua vida. Olhe, o SK491 pousou há cinco minutos. Quando você estiver indo até o portão de embarque, vai ver os comissários de bordo voltando para casa, e todos estarão conversando e rindo. Para eles, embarcar nesses voos é como entrar num ônibus. Alguns fazem isso duas, três, quatro vezes por dia. E eles não são bobos. Se não fosse seguro, eles não embarcariam, não é mesmo?
— É como entrar num ônibus — repete ele.
— Provavelmente muito mais seguro.
— Bem, com certeza. — Ele ergue as sobrancelhas. — Há muitos idiotas na estrada.
Concordo com um aceno de cabeça. Ele endireita a gravata.
— E é um trabalho importante.
— Seria uma pena perder isso por causa de algo tão pequeno. Você vai ficar bem quando se acostumar com o fato de estar lá em cima.
— Talvez. Obrigado...
— Louisa — digo.
— Obrigado, Louisa. Você é uma menina muito gentil. — Ele me olha de um jeito especulativo. — Imagino que você... não... gostaria de tomar um drinque qualquer hora dessas, não é?
— Acho que estou ouvindo chamarem o seu voo, senhor — respondo, abrindo a porta para deixá-lo passar.
Ele assente, tentando disfarçar seu constrangimento, e apalpa os bolsos de um jeito confuso.
— Certo. Claro. Bem... vou indo, então.
— Aproveite seu novo emprego.
Dois minutos depois de o homem ter ido embora, descubro que ele vomitou na terceira cabine do banheiro.

* * *

Chego em casa à uma e quinze e entro no apartamento silencioso. Troco a roupa pela calça do pijama e um moletom com capuz, depois abro a geladeira, pego uma garrafa de vinho branco e sirvo uma taça. Está tão ácido que franzo os lábios. Dou uma olhada no rótulo e me dou conta de que devo ter aberto na noite passada e me esquecido de tampar. Então decido que nunca é uma boa ideia pensar muito nessas coisas. Segurando a garrafa, me jogo numa cadeira.
Há dois cartões no console da lareira. Um é dos meus pais me desejando feliz aniversário. O “parabéns” da minha mãe é tão incisivo quanto uma punhalada. O outro é da minha irmã, sugerindo que Thom e ela venham passar o fim de semana aqui. Já faz seis meses. Há duas mensagens de voz no meu celular, sendo que uma é do dentista. A outra, não.
Oi, Louisa. Aqui é Jared. A gente se conheceu no Dirty Duck. Bem, a gente ficou (risada abafada, esquisita). Foi só... sabe... eu gostei. Pensei que talvez pudéssemos repetir. Você tem meu número...
Quando acaba o conteúdo da garrafa, penso em comprar outra, mas não quero sair de novo. Não quero ouvir o Samir do mercado vinte e quatro horas fazer uma de suas piadas sobre minhas garrafas de Pinot Grigio. Não quero ter que falar com ninguém. De repente me sinto exausta, mas é o tipo de exaustão que faz a cabeça zumbir e significa que, se eu for para a cama, não vou conseguir dormir. Por um instante, penso em Jared e no fato de que suas unhas tinham um formato estranho. Estou me preocupando com unhas de formato estranho? Encaro as paredes vazias da sala e subitamente me dou conta de que na verdade preciso de ar. Preciso mesmo de ar. Abro a janela do corredor e, sem firmeza, subo a escada de incêndio até chegar ao telhado.
A primeira vez que subi, nove meses atrás, o corretor me mostrou como os inquilinos anteriores haviam montado um pequeno jardim lá em cima, espalhando alguns arbustos em vasos de metal e colocando um banquinho.
“O terraço não é oficialmente seu”, dissera ele, “mas o seu apartamento é o único que tem acesso direto. Acho bem agradável. Você poderia até dar uma festa aqui em cima!”
Fiquei olhando para ele, me perguntando se eu parecia o tipo de pessoa que dava festas.
Já faz tempo que as plantas murcharam e morreram. Pelo visto, não sou muito boa em cuidar das coisas. Estou de pé no telhado, observando a escuridão bruxuleante de Londres lá embaixo. À minha volta, há um milhão de pessoas vivendo, respirando, comendo, discutindo. Um milhão de vidas completamente diferentes da minha. É um tipo estranho de paz.
As luzes amareladas brilham enquanto os ruídos da cidade sobem no ar noturno, motores aceleram, portas batem. Vários quilômetros ao sul, o barulho brutal e distante de um helicóptero da polícia, o feixe de luz vasculhando a escuridão à procura de algum malfeitor que sumiu em algum parque. Ao longe, uma sirene. Sempre tem uma sirene.
“Não vai demorar muito para você se sentir em casa aqui”, dissera o corretor.
Quase caí na gargalhada. A cidade parece tão alheia a mim como sempre pareceu. Mas, por outro lado, ultimamente todos os lugares parecem alheios a mim.
Hesito, depois subo no parapeito com os braços erguidos ao lado do corpo, feito uma equilibrista ligeiramente bêbada. Colocando um pé na frente do outro, ando devagarinho pelo concreto e a brisa arrepia os pelos dos meus braços. Logo que me mudei para cá, quando tudo me atingiu com mais força, às vezes eu me desafiava a andar de uma extremidade a outra do prédio. No momento em que chegava do outro lado, eu ria sob o ar noturno. Viu? Estou aqui, viva, bem no limite. Estou fazendo o que você mandou!
Isto virou um hábito secreto: eu, a silhueta da cidade, o conforto do escuro, o anonimato e a compreensão de que aqui em cima ninguém sabe quem eu sou. Ergo a cabeça, sentindo a brisa noturna, ouvindo risadas lá embaixo, o som abafado de uma garrafa quebrando, o tráfego para o centro da cidade, observando o interminável fluxo vermelho de lanternas traseiras que mais parecem um suprimento de sangue automotivo. Só entre as três e as cinco da manhã é relativamente sossegado, os bêbados já desabaram na cama, os chefs de restaurante já tiraram seus aventais brancos, os pubs já fecharam as portas. O silêncio desse período é interrompido, apenas esporadicamente, pelos caminhões-tanque que passam à noite, pela padaria judaica abrindo na rua, pelo baque macio dos pacotes de jornal sendo jogados das vans de entrega. Conheço os movimentos mais sutis da cidade porque já não durmo mais.
Em algum lugar lá embaixo está rolando uma festa fechada no White Horse, lotada de hipsters e gente da East End. Há um casal discutindo do lado de fora, enquanto na outra ponta da cidade o hospital geral cuida dos doentes, dos feridos e dos que acabaram de sobreviver a mais um dia. Aqui em cima há apenas o ar e a escuridão e, em algum lugar, o transporte de carga aéreo do FedEx de LHR para Pequim, e milhares de viajantes, como o Sr. Bebedor de Uísque, estão a caminho de algum lugar novo.
— Dezoito meses. Dezoito meses inteiros. Até quando vai ser assim? — pergunto na escuridão. E pronto, posso senti-la fervendo de novo: aquela raiva inesperada. Dou dois passos olhando para os meus pés. — Porque isso não parece vida. Não parece nada.
Dois passos. Mais dois. Hoje à noite vou até o canto.
— Você não me deu uma vida, deu? De jeito nenhum. Só acabou com a minha antiga. Desfez em pedacinhos. O que eu faço com o que sobrou? Quando é que vai parecer... — Abro os braços, sentindo na pele o ar fresco da noite, e percebo que estou chorando outra vez. — Vá se foder, Will — murmuro. — Vá se foder por ter me deixado.
A mágoa ressurge de maneira súbita, intensa, opressora. E justo quando me sinto afundando nela, surge uma voz das sombras dizendo:
— Acho que você não deveria ficar em pé aí.
Eu me viro, e na escada de incêndio vislumbro um pequeno rosto pálido com olhos escuros arregalados. Em estado de choque, meus pés escorregam no parapeito e de repente meu peso pende para o lado errado.
Meu coração dá um pulo, uma fração de segundo antes do meu corpo acompanhá-lo. E então, como um pesadelo, fico leve, no abismo do ar noturno, minhas pernas se debatendo acima da cabeça enquanto ouço um grito agudo que talvez seja meu...
Cataploft.
Tudo fica preto.

3 comentários:

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Boa leitura :)