29 de novembro de 2017

Capítulo 1 - Águas paradas

Kit tinha acabado de descobrir o que era um mangual, e agora havia uma prateleira cheia deles sobre sua ca­beça, brilhantes, afiados e mortais.
Ele nunca tinha visto nada como a sala das armas do Instituto de Los Angeles. As paredes e o chão eram de granito branco prateados, e ilhas de pedra se erguiam a intervalos pela sala, fazendo com que todo o lugar parecesse uma exposição de armas e armaduras em um museu. Havia cassetetes e macas, bengalas, colares, sapatos e casacos acolchoados, engenhosamente desenhados, que escondiam lâminas finas e achatadas para apunhalar e arremessar. Estre­las da manhã, cobertas por terríveis espinhos, e bestas de todos os tipos e tamanhos.
As ilhas de granito eram cobertas por pilhas de instrumentos brilhantes talhados em adamas, a subs­tância similar a quartzo que os Caçadores de Sombras extraíam da terra e que só eles sabiam como trans­formar em espadas, lâminas e estelas. O que havia de mais interessante para Kit era a prateleira com as ada­gas.
Não que ele nutrisse qualquer interesse específico em aprender a usar uma adaga – nada além do interesse geral que achava que a maioria dos adoles­centes tinha em armas mortais, mas, mesmo assim, ele preferiria receber uma metralhadora ou um lança-chamas. Mas as adagas eram obras de arte, com seus cabos cravejados de ouro, prata e pedras preciosas – safiras azuis, cabochões de rubi, gravações brilhantes de espinhos, marcadas em platina e diamantes ne­gros.
Ele conseguia pensar em, pelo menos, três pessoas no Mercado das Sombras que as comprariam por um bom dinheiro, sem fazer perguntas.
Talvez quatro.
Kit retirou a jaqueta jeans que estava usando – ele não sabia a qual dos Blackthorn ela tinha pertencido; acordou na manhã seguinte à chegada ao Instituto e encontrou uma pilha de roupas recém-lavadas ao pé da cama – e vestiu um casaco acolchoado. Ele se viu no espelho, na outra ponta do quarto. Cabelos lou­ros sem corte, hematomas desbotados na pele pálida. Abriu o zíper do bolso interno do casaco e começou a encher o forro com adagas, escolhendo as de cabo mais bonito.
A porta da sala das armas se abriu. Kit deixou a adaga que estava segurando cair na prateleira e se virou apressadamente. Ele achou que tinha saído do quarto sem ser notado, mas se tinha uma coisa que ele aprendera durante a curta estadia no Instituto foi que Julian Blackthorn notava tudo, e seus irmãos não fica­vam muito atrás.
Mas não era Julian. Era um jovem que Kit nunca tinha visto, apesar de alguma coisa nele ser familiar. Ele era alto, tinha cabelos louros bagunçados e corpo de Caçador de Sombras – ombros largos, braços mus­culosos, e as linhas negras das Marcas com as quais se protegiam apareciam por baixo do colarinho e dos pu­nhos da camisa.
Seus olhos tinham uma cor dourada escura e incomum. Ele usava um anel de prata pesado em um dedo, como muitos Caçadores de Sombra faziam. E ergueu uma sobrancelha para Kit.
— Você gosta de armas, certo? — falou.
— São legais. — Kit recuou um pouco em direção a uma das mesas, torcendo para que as adagas no bolso interno não chacoalhassem.
O rapaz foi até a prateleira onde Kit estava mexendo e pegou a adaga que ele tinha largado.
— Esta foi uma boa escolha. Viu a inscrição no cabo? — perguntou ele.
Kit não viu.
— Foi feita por um dos descendentes de Wayland, o Ferreiro, que fez a Durendal e a Cortana. — O rapaz girou a adaga entre os dedos antes de colocá-la de volta na prateleira. — Não é tão extraordinária quanto Cortana, mas adagas assim sempre voltam para a sua mão depois que você as arremessa. Conveniente.
Kit deu um pigarro.
— Deve valer muito — observou ele.
— Duvido que os Blackthorn estejam interessados em vender — retrucou o outro secamente. — Eu sou Jace, a propósito. Jace Herondale.
Ele fez uma pausa. Parecia esperar uma reação, que Kit estava determinado a não dar. Ele conhecia o nome Herondale, sim. Era a única palavra que todos lhe diziam fazia duas semanas. Mas isso não signifi­cava que ele quisesse dar ao sujeito – a Jace – a satis­fação que ele claramente estava procurando.
Jace pareceu inabalado pelo silêncio de Kit.
— E você é Christopher Herondale.
— Como sabe disso? — quis saber Kit, mantendo o tom de voz neutro. Ele detestava o nome Herondale. Ele detestava a palavra.
— Semelhança de família — disse Jace. — Nós somos parecidos. Aliás, você se parece com os dese­nhos de muitos dos Herondale que já vi. — Nova pausa. — Além disso, Emma me mandou uma foto sua pelo celular.
Emma. Emma Carstairs tinha salvado a vida de Kit. Mas eles não tinham se falado muito desde então – logo após a morte de Malcolm Fade, o Alto Feiticeiro de Los Angeles, tudo foi um caos. Ele não tinha sido a prioridade de ninguém, e, além disso, tinha a sensa­ção de que ela o considerava uma criança.
— Tudo bem. Sou Kit Herondale. As pessoas não param de me dizer isso, mas para mim não significa nada. — Kit trincou o queixo. — Eu sou um Rook. Kit Rook.
— Eu sei o que seu pai te disse. Mas você é um He­rondale. E isso tem importância.
— Qual? Qual importância? — quis saber Kit.
Jace se inclinou para trás contra a parede da sala das armas, sob uma coleção de pesadas espadas claymores. Kit torceu para que uma delas caísse em sua cabeça.
— Sei que você sabe sobre os Caçadores de Sombras — falou ele. — Muitas pessoas sabem, principalmente integrantes do Submundo e mundanos com Visão. Que é o que você achava que fosse, certo?
— Nunca achei que eu fosse um mundano — disse Kit. Os Caçadores de Sombras não sabiam como soava quando eles usavam essa palavra?
Mas Jace o ignorou.
— A história e a sociedade dos Caçadores de Sombras não são coisas sobre as quais quem não é Nephilim saiba. O mundo dos Caçadores de Sombras é feito de famílias, e cada uma tem um nome que estima. Cada família tem uma história que passamos às gera­ções seguintes. Carregamos as glórias e os fardos dos nossos nomes; o bem e o mal que nossos ancestrais fizeram, por todas as nossas vidas. Tentamos viver à altura dos nossos nomes, para que os que nos suce­dem possam carregar fardos menores. — Jace cruzou os braços. Seus pulsos eram cobertos por Marcas; tinha uma que parecia um olho aberto nas costas da mão esquerda. Kit havia notado que todos os Caçado­res de Sombras tinham esta mesma Marca. — Entre os Caçadores de Sombras, seu sobrenome é muito importante. Os Herondale são uma família que moldou os destinos dos Caçadores de Sombras por muitas ge­rações. Não restam muitos de nós; todos achavam que eu era o último. Só Jem e Tessa tinham fé de que você existisse. Eles o procuraram por um longo tempo.
Jem e Tessa. Junto com Emma, eles ajudaram Kit a escapar dos demônios que mataram seu pai. E lhe contaram uma história: a história de um Herondale que traiu seus amigos e fugiu, iniciando uma nova vida longe de outros Nephilim. Uma nova vida e uma nova linhagem.
— Eu ouvi falar de Tobias Herondale — disse. — Sou o descendente de um grande covarde então.
— As pessoas têm defeitos — comentou Jace. — Nem todo integrante da sua família vai ser incrível. Mas quando você encontrar Tessa outra vez, e você vai, ela pode te contar sobre Will Herondale. E James Herondale. E sobre mim, é claro — acrescentou ele, modestamente. — No que se refere aos Caçadores de Sombras, eu sou muito importante, mas não quero te intimidar.
— Não estou intimidado — disse Kit, se pergun­tando se esse sujeito era assim mesmo. Havia um brilho no olhar de Jace quando ele falava, que indicava que talvez não levasse a sério nada do que estava di­zendo, mas era difícil ter certeza. — Estou com von­tade de ficar sozinho.
— Sei que é muita coisa para digerir — falou Jace. Ele esticou o braço para afagar as costas do garoto. — Mas eu e Clary ficaremos aqui pelo tempo que você precisar que a gente...
O tapinha nas costas deslocou um das adagas no bolso de Kit. Ela caiu no chão entre eles, cintilado no chão de granito como se fosse um olho acusador.
— Ora — falou Jace. — Então você está roubando armas.
Kit, que sabia que não adiantava nada negar o óbvio, não disse uma única palavra.
— Muito bem, veja, eu sei que seu pai era trapaceiro, mas você é um Caçador de Sombras agora e... espera, o que mais tem aí? — quis saber Jace. Ele fez uma coisa complicada com o pé esquerdo, chutando a adaga para o ar para então a segurar; os rubis no cabo espalharam luz.
— Tire o casaco.
Silenciosamente, Kit tirou o casaco e o jogou sobre a mesa. Jace o virou do avesso e abriu o bolso interno. Ambos ficaram olhando silenciosamente para o brilho das lâminas e das pedras preciosas.
— Então. Você estava planejando fugir, suponho?
— Por que eu deveria ficar? — Kit explodiu. Ele sabia que não devia, mas não conseguiu evitar; era demais: a perda do pai, seu ódio ao Instituto, a arrogância dos Nephilim, a exigência de que ele aceitasse um sobrenome com o qual não se importava, nem queria se importar. — Meu lugar não é aqui. Você pode me falar todas essas coisas sobre o meu nome, mas não significa nada para mim. Sou filho de Johnny Rook. Passei a vida treinando para ser como meu pai, não para ser como você. Não preciso de você. Não preciso de nenhum de vocês. Preciso é de um pouco de dinheiro para começar, e posso ter minha própria tenda no Mercado das Sombras.
Os olhos dourados de Jace se estreitaram, e pela primeira vez Kit viu, sob a fachada arrogante e brincalhona, o brilho de uma inteligência aguda.
— E vender o quê? Seu pai vendia informações. Ele demorou anos, e precisou de muita magia ruim para criar essas conexões. Você quer vender sua alma assim? Para poder viver às sombras do Submundo? E quanto ao que matou seu pai? Você o viu morrer, não viu?
— Demônios...
— Sim, mas alguém os enviou. O Guardião pode estar morto, mas isso não significa que não tenha alguém te procurando. Você tem quinze anos. Pode achar que quer morrer, mas acredite em mim: você não quer.
Kit engoliu em seco. Ele tentou se imaginar atrás do balcão de uma tenda no Marcado das Sombras, como havia feito nos últimos dias. Mas a verdade é que sempre esteve seguro no Mercado por causa do pai. Porque as pessoas temiam Johnny Rook. O que aconteceria com ele sem a proteção do pai?
— Mas eu não sou um Caçador de Sombras — falou. Ele olhou em volta, para os milhões de armas, as pilhas de adamas, os uniformes de luta e os cintos de armas. Era ridículo. Ele não era um ninja. — Eu não saberia nem como começar a ser um.
— Espere mais uma semana — pediu Jace. — Mais uma semana aqui no Instituto. Se dê uma chance. Emma me contou que você lutou contra aqueles demônios que mataram seu pai. Só um Caçador de Sombras poderia ter feito isso.
Kit mal se lembrava de ter combatido os demônios na casa do pai, mas sabia que tinha feito. Seu corpo tinha assumido, e ele lutou. E, de um jeito pequeno e estranho, escondido, até gostou.
— Isso é o que você é — falou Jace. — Você é um Caçador de Sombras. Você é parte anjo. Tem o sangue de anjos nas veias. É um Herondale. O que, por sinal, significa que você não só é parte de uma família absurdamente atraente, mas também é parte de uma família que possui muitos bens valiosos, inclusive uma casa em Londres e uma mansão em Idris, à qual você provavelmente tem algum direito. Sabe, se tiver interesse.
Kit olhou para o anel na mão esquerda de Jace. Era prateado, pesado. Parecia antigo. E valioso.
— Estou ouvindo.
— Só estou dizendo para esperar uma semana. Afinal, os Herondale não resistem a um desafio. — Jace sorriu.


— Um demônio Teuthida? — falou Julian ao telefone, erguendo as sobrancelhas. — É basicamente uma lula, certo?
A resposta foi inaudível: Emma ouviu a voz de Ty, mas não suas palavras.
— Sim, estamos no píer — prosseguiu Julian. — Ainda não vimos nada, mas acabamos de chegar. Que pena que não existem vagas para Caçadores de Sombras aqui...
Com a mente apenas parcialmente concentrada na voz de Julian, Emma olhou em volta. O sol tinha acabado de se pôr. Desde pequena, ela sempre adorou o píer de Santa Mônica; seus pais a traziam aqui para jogar pebolim e andar no carrossel. Ela adorava a comida – hambúrgueres e milk-shakes, mariscos fritos e pirulitos gigantes – e o Pacific Park, o parque de diversões no final do píer, com vista para o Oceano Pacífico.
Os mundanos gastaram milhões de dólares para reformarem o píer e transformarem-no em uma atração turística ao longo dos anos. O Pacific Park estava cheio de brinquedos novos e luminosos; os velhos carrinhos de churros tinham desaparecido, substituídos por sorvete artesanal e bandejas de lagosta. Mas os tacos sob os pés de Emma ainda estavam tortos e desbotados por anos de sol e sal. O ar ainda cheirava a açúcar e alga. O carrossel ainda girava sua música mecânica para o ar. Ainda havia brincadeiras nas quais, em troca de uma moeda, você poderia ganhar um panda de pelúcia gigante. E ainda havia espaços escuros embaixo do píer, onde mundanos sem rumo se reuniam e, às vezes, coisas mais sinistras.
Ser Caçadora de Sombras era isso, Emma pensou, olhando para a roda-gigante imensa decorada com luzes de LED. Uma fila de mundanos ansiosos para entrar se estendia pelo píer; depois das grades, ela podia ver o mar azul-escuro com a ponta branca onde as ondas quebravam. Caçadores de Sombras enxergavam a beleza em coisas que os mundanos criavam – as luzes da roda-gigante refletindo tão brilhantes no oceano, que parecia que alguém estava soltando fogos embaixo d'água: vermelho, azul, verde, roxo e dourado – mas eles também viam a escuridão, o perigo e a podridão.
— O que foi? — perguntou Julian.
Ele tinha guardado o telefone no bolso do casaco do uniforme. O vento – sempre ventava no píer, o vento que soprava sem trégua do oceano, cheirando a sal e a lugares distantes – suspendia as ondas suaves de seu cabelo castanho, fazendo com que beijassem suas bochechas e têmporas.
Pensamentos sombrios, Emma queria dizer. Mas não conseguia. Julian outrora tinha sido a pessoa para quem ela podia contar tudo. Agora ele era a única pessoa para quem não podia contar nada. Em vez disso, ela evitou o seu olhar.
— Onde estão Mark e Cristina?
— Ali. — Ele apontou. — Perto do arremesso de argolas.
Emma seguiu o olhar dele até a barraca colorida onde as pessoas competiam para ver quem conseguia arremessar uma argola de plástico e acertá-la em volta do gargalo de uma das doze garrafas enfileiradas. Ela tentou não se sentir superior pelo fato de que aparentemente isso era algo que os mundanos achavam difícil. O meio-irmão de Julian, Mark, estava com três argolas de plástico na mão. Cristina, com os cabelos escuros presos em um coque arrumado, estava ao lado dele, comendo pipoca doce e rindo.
Mark arremessou as argolas: as três de uma vez. Cada uma girou em uma direção diferente e aterrissou no gargalo de uma garrafa.
Julian suspirou.
— Lá se vai a discrição.
Uma mistura de aplausos e murmúrios incrédulos emergiu dos mundanos com o arremesso das argolas. Felizmente, não havia muitos deles. Mark pôde pegar o prêmio – alguma coisa em um saco de plástico – e escapar com o mínimo de alvoroço.
Ele voltou ao lado de Cristina. As pontas das pontudas orelhas apareciam através dos cachos do cabelo claro. Mas ele estava disfarçado para que os mundanos não pudessem vê-las. Mark era parte fada, e seu sangue do Submundo se apresentava na delicadeza de suas feições, nas pontas de suas orelhas, e no ângulo dos olhos e das maçãs do rosto.
— Então é um demônio lula? — repetiu Emma, essencialmente para ter algo a dizer e preencher o silêncio recorrente entre ela e Julian.
Fazia apenas duas semanas que tudo havia mudado, mas ela sentia a diferença profundamente, em seus ossos. Ela sentia a distância dele, apesar de ele nunca ter sido nada além de escrupulosamente educado e gentil, desde que ela contou sobre o namoro com Mark.
— Aparentemente — falou Julian.
Mark e Cristina se aproximaram a ponto de ouvir a conversa; a pipoca doce de Cristina estava acabando e a garota olhava triste para o saco, como se torcesse para aparecer mais. Emma entendia. Enquanto isso, Mark olhava para o prêmio.
— Ele sobe pela lateral do píer e agarra pessoas; principalmente, crianças e qualquer um que se incline para tirar uma foto noturna. Mas ele está ficando mais corajoso. Aparentemente alguém o viu na área de jogos perto do pebolim... isso é um peixinho dourado?
Mark levantou o saco plástico. Dentro dele, havia um pequeno peixe de cor laranja, nadando em círculos.
— Essa foi a melhor patrulha que já fizemos — falou. — Eu nunca tinha ganhado um peixe antes.
Emma suspirou internamente. Mark tinha passado os últimos anos da vida com a Caçada Selvagem, as fadas mais anárquicas e ferozes de todas. Eles cavalgavam pelo céu em todo o tipo de coisas encantadas – motos, cavalos, cervos, cachorros imensos e bravos – e saqueavam campos de batalhas, levando objetos de valor dos corpos dos mortos e oferecendo-os como tributos para as Cortes das Fadas. Mark estava se adaptando bem ao retorno à família de Caçadores de Sombras, mas ainda havia momentos em que a vida comum parecia pegá-lo de surpresa. Agora ele notou que todos o fitavam com sobrancelhas erguidas. Pareceu alarmado e colocou um braço cauteloso em volta do ombro de Emma, segurando o saco com a outra mão.
— Eu ganhei um peixe para você, minha bela — falou, e lhe deu um beijo na bochecha.
Foi um beijo doce, gentil e suave, e Mark estava com o cheiro de sempre: como o ar frio do lado de fora de casa e coisas verdes que cresciam. E fazia todo o sentido, Emma pensou, que Mark imaginasse que todos estavam espantados porque esperavam que ele desse o prêmio para ela. Afinal, ela era a namorada dele.
Ela trocou um olhar preocupado com Cristina, cujos olhos escuros tinham se arregalado. Julian parecia prestes a vomitar sangue. Foi apenas um breve olhar antes de ele se controlar e assumir uma nova expressão de indiferença, mas Emma se afastou de Mark, sorrindo para ele como se pedisse desculpas.
— Eu não conseguiria manter um peixe vivo — disse ela. — Eu mato plantas só de olhar para elas.
— Desconfio que eu teria o mesmo problema — retrucou Mark, olhando para o peixe. — É uma pena; eu ia chamá-lo de Magnus, porque ele tem escamas brilhantes.
Ao ouvir isso, Cristina riu. Magnus Bane era o Alto Feiticeiro do Brooklyn, e ele tinha uma atração por brilho.
— Suponho que seja melhor libertá-lo — concluiu Mark.
Antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, ele foi para a grade do píer e esvaziou o saco, com peixe e tudo, no mar.
— Alguém quer contar para ele que peixinhos dourados são peixes de água doce e não sobrevivem no mar? — perguntou Julian baixinho.
— Eu não — disse Cristina.
— Ele acabou mesmo de matar o Magnus? — perguntou Emma, mas antes que Julian pudesse responder, Mark se virou.
Todo o humor tinha deixado a expressão dele.
— Acabei de ver alguma coisa subindo em um dos pilares embaixo do píer. Uma coisa nada humana.
Emma sentiu um leve tremor pela pele. Os demônios que faziam do oceano a sua morada raramente eram vistos na terra. Às vezes, ela tinha pesadelos em que o oceano se revirava e vomitava seu conteúdo na praia: criaturas escuras, espinhosas, gosmentas e cheias de tentáculos, semiesmagadas pelo peso da água. Em segundos, cada um dos Caçadores de Sombras tinha uma arma na mão – Emma segurava Cortana, sua espada de lâmina dourada que tinha ganhado dos pais. Julian estava com uma lâmina serafim e Cristina empunhava seu canivete.
— Para que lado a coisa foi? — perguntou Julian.
— Para o final do píer — disse Mark; só ele não tinha alcançado uma arma, mas Emma sabia o quanto era rápido. Seu apelido na Caçada Selvagem era tiro de elfo, pois ele era veloz e preciso com o arco e flecha ou uma lâmina de arremesso. — Na direção do parque de diversão.
— Eu vou por ali — disse Emma. — Tentar afastá-lo da beira do píer. Mark, Cristina, vocês vão por baixo; peguem-no se ele tentar voltar para a água.
Eles mal tiveram tempo de assentir, e Emma já tinha saído correndo. O vento soprou suas tranças enquanto ela costurava pela multidão até o parque iluminado no final do píer. Cortana estava quente e sólida em sua mão, e seus pés voavam pelos tacos de madeira. Ela se sentiu livre, com as preocupações deixadas de lado, tudo na sua mente e no seu corpo concentrado na tarefa em mãos.
Ela conseguia ouvir os passos ao seu lado. Não precisava olhar para saber que era Jules. Os passos dele tinham estado ao seu lado durante todos os anos em que ela foi uma Caçadora de Sombras combatente. Ele havia sangrado quando ela sangrara. Ele salvara a vida dela, e ela, a dele. Ele era parte da vida guerreira dela.
— Ali. — Ela o ouviu dizer, mas já tinha visto: uma forma escura e corcunda subindo pela estrutura de suporte da roda-gigante. Os carrinhos continuavam girando, os passageiros gritando e se divertindo, sem saber de nada.
Emma chegou à fila da roda-gigante e começou a abrir caminho, empurrando as pessoas. Ela e Julian tinham aplicado Marcas de disfarce antes de chegarem ao píer e estavam invisíveis aos olhos mundanos. Mas isso não significava que não pudessem fazer sua presença ser sentida. Mundanos na fila xingaram e gritaram quando ela tropeçou nos pés deles e deu cotoveladas para avançar. Um carrinho estava passando e um casal – uma garota comendo algodão-doce roxo e seu namorado magrelo, vestido de preto – estava prestes a entrar. Olhando para cima, Emma viu um brilho quando o demônio Teuthida deslizou sobre o topo do suporte da roda. Xingando, Emma passou o casal, quase os derrubou pro lado, e entrou no carrinho. Era octogonal, um banco corria por toda a extensão interna, com muito espaço para ficar de pé. Ela ouviu gritos de surpresa quando o carrinho levantou, levando-a para longe da cena de caos que ela tinha criado abaixo, pois o casal que ia entrar estava gritando com a pessoa que recolhia os ingressos, e as pessoas da fila berravam umas com as outras.
O carrinho balançou sob seus pés quando Julian entrou ao lado dela. Ele esticou o pescoço.
— Está vendo?
Emma forçou a vista. Ela tinha visto o demônio, tinha certeza disso, mas ele parecia ter desaparecido. Desse ângulo, a roda-gigante era uma confusão de luzes brilhantes e barras giratórias de ferro pintadas de branco. Os dois carrinhos abaixo dela e de Julian estavam vazios; a fila provavelmente ainda estava se organizando.
Ótimo, Emma pensou. Quanto menos gente entrasse na roda-gigante, melhor.
— Pare. — Ela sentiu a mão de Julian em seu braço, virando-a. O corpo dela ficou todo tenso. — Marcas — falou ele rispidamente, e ela percebeu que ele estava segurando a estela com a mão livre.
O carrinho continuava subindo. Emma conseguia ver a praia abaixo, a água escura entornava na areia e as colinas do Palisades Park se erguiam verticalmente sobre a rodovia, coroadas por uma franja de árvores e de plantas verdes. As estrelas brilhavam com luz fraca, porém visíveis, além das luzes claras do píer. Julian segurou o braço dela de um jeito que não foi nem duro, nem delicado, mas mantinha certa distância calculada. Ele o virou, a estela fazendo movimentos rápidos sobre o pulso, desenhando símbolos de proteção ali, símbolos de velocidade, agilidade e de audição aumentada. Isso era o mais próximo que Emma tinha estado de Jules em duas semanas. Ela se sentiu tonta e um pouco inebriada. A cabeça dele estava abaixada, os olhos fixos na tarefa que estava executando, e ela aproveitou a oportunidade para assimilar a imagem dele.
As luzes da roda-gigante tinham adquirido tons de âmbar e amarelo e salpicavam a pele bronzeada de Jules com brilho dourado. O cabelo dele estava caído, ondas finas sobre sua testa. Ela sabia como a pele nos cantos de sua boca era suave, e como era tocar os ombros dele com as mãos: eram fortes, duros e vibrantes. Seus cílios eram longos e grossos, tão escuros que pareciam ter sido pintados com carvão; ela quase esperava que deixassem uma marca de poeira negra sobre as maçãs do rosto quando ele piscava. Ele era lindo. Sempre foi lindo, mas ela demorou muito para perceber. E agora ela mantinha as mãos coladas nas laterais do próprio corpo, e doía não poder tocá-lo.
Ela nunca mais poderia tocá-lo.
Ele terminou o que estava fazendo e girou a estela de modo que o cabo ficasse voltado para ela. Ela pegou sem uma palavra quando ele puxou o colarinho da camisa, sob o casaco do uniforme. A pele ali era um tom mais pálido do que a pele bronzeada do rosto e das mãos, cheia de Marcas brancas desbotadas de símbolos que já tinham sido usados e gastos. Ela teve que se aproximar mais um passo para Marcá-lo.
Os símbolos floresciam sob a ponta da estela: agilidade, visão noturna. A cabeça dela batia no queixo dele. Ela estava olhando diretamente para a sua garganta e o viu engolir em seco.
— Diga — falou. — Apenas diga que ele te faz feliz. Que Mark te faz feliz.
Ela levantou a cabeça. Tinha acabado de desenhar; ele esticou o braço para pegar a estela da mão parada de Emma. Pela primeira vez, no que parecia uma eternidade, ele olhava diretamente para ela, e seus olhos estavam azul-escuros, transformados pelas cores do céu noturno e do mar, se espalhando ao seu redor à medida que se aproximavam do topo da roda.
— Estou feliz, Jules — falou ela. O que era mais uma mentira no meio de tantas outras? Ela nunca tinha mentido com facilidade, mas estava aprendendo. Quando a segurança das pessoas que amava dependia disso, ela havia descoberto que conseguia mentir. — Isso é... isso é mais inteligente, mais seguro para nós dois.
O contorno suave da boca de Jules enrijeceu.
— Isso não é...
Ela engasgou. Uma forma contorcida se levantou por trás dele – era da cor de uma mancha de óleo, e seus tentáculos de franja se prendiam à roda. A boca estava bem aberta, um círculo perfeito cheio de dentes.
— Jules! — gritou Emma e se jogou do carrinho, segurando em uma das barras finas de ferro que passavam entre as barras giratórias. Pendurada por uma das mãos, ela atacou com Cortana, acertando o Teuthida quando ele recuou. Ele gritou, e icor esguichou; Emma gritou quando respingou no seu pescoço, queimando sua pele. Uma faca se enterrou no corpo redondo e anelado do demônio. Subindo para uma barra giratória, Emma olhou para baixo e viu Julian empoleirado na beirada do carrinho, com outra faca já na mão. Ele abaixou o braço, deixou a segunda faca voar... Ela bateu no fundo de um carrinho vazio. O Teuthida, incrivelmente veloz, tinha saído de seu campo de visão. Emma conseguia ouvi-lo descendo pelo emaranhado de barras de metal que formavam o interior da roda.
Emma guardou Cortana e começou a descer pela barra giratória, indo até o fundo da roda.
Luzes de LED explodiam ao seu redor em roxo e dourado. Havia icor e sangue em suas mãos, tornando a descida mais escorregadia. Ao contrário do que se poderia imaginar, a vista da roda era linda, o mar e a areia se abriam diante dela em todas as direções, como se ela estivesse pendurada na beira do mundo. Ela sentia o gosto do sangue e de sal. Abaixo, conseguia ver Julian, que tinha saído do carrinho e estava percorrendo uma barra giratória mais embaixo. Ele olhou para ela e apontou; ela seguiu a linha da sua mão e viu o Teuthida quase no centro da roda. Seus tentáculos estavam chicoteando em volta do corpo, atingindo o centro do brinquedo. Emma sentia as reverberações pelos ossos. Ela esticou o pescoço para ver o que ele estava fazendo e ficou gelada – o centro da roda era um parafuso gigantesco, que a mantinha presa em seus suportes estruturais. O Teuthida estava puxando o parafuso, tentando arrancá-lo. Se o demônio fosse bem-sucedido na tarefa, toda a estrutura se desmontaria e rolaria para fora do píer, como uma roda de bicicleta solta. Emma não fingiu acreditar que alguém na roda ou perto dela fosse sobreviver. A estrutura ia se desfazer e destruir qualquer um embaixo.
Demônios se deleitavam com destruição, com a energia da morte. Ele teria um banquete.
A roda-gigante sacudiu. O Teuthida estava com os tentáculos firmemente presos no parafuso de metal em seu centro e começava a girá-lo. Emma dobrou a velocidade, mas ela estava longe demais. Julian estava mais próximo, mas ela sabia quais armas ele carregava: duas facas, que já tinha arremessado, e lâminas serafim, que não eram longas o suficiente para alcançarem o demônio.
Ele olhou para ela no alto ao esticar o corpo pela barra de ferro, enrolou o braço esquerdo para se apoiar e esticou o outro braço, com a mão estendida. Ela soube, imediatamente, sem ter que se perguntar, o que ele estava pensando. Ela respirou fundo e soltou a barra giratória. Emma caiu na direção de Julian, esticando a mão para alcançar a dele. Eles se seguraram e apertaram com força, e ela o ouviu arfar ao sustentar seu peso. Ela balançou para a frente e para baixo, com o braço esquerdo preso no direito de Julian, e com a outra mão desembainhou Cortana.
O peso de sua queda a carregou para a frente, balançando-a para o meio da roda. O demônio Teuthida levantou a cabeça quando ela voou na direção dele, e, pela primeira vez, Emma viu os olhos da criatura – eram ovais, cobertos por uma capa protetora espelhada. Quase pareceram se arregalar como olhos humanos quando ela empunhou Cortana para a frente, enfiando-a na cabeça do demônio em direção ao seu cérebro. Seus tentáculos balançaram – um último espasmo de morte quando o corpo se livrou da lâmina e foi caindo, rolando por uma das barras giratórias que desciam pela roda. Ele chegou ao fim e caiu. Ao longe, Emma achou ter ouvido um splash.
Mas não havia tempo para pensar nisso. A mão de Julian apertava a dela com mais força, e ele a puxou para cima. Ela guardou Cortana de volta na bainha quando ele a puxou para a barra onde estava deitado, de modo que ela caiu sem jeito, meio em cima dele. Ele ainda estava agarrado à mão dela, respirando pesado. Os olhos encontraram os de Emma, só por um segundo. Em volta deles, a roda girava, baixando-os de volta para o chão. Ela podia ver grupos de mundanos na praia, o brilho da água na costa, até mesmo uma cabeça escura e outra clara, que poderiam ser Mark e Cristina...
— Bom trabalho em equipe — disse Julian afinal.
— Eu sei — falou Emma, e ela sabia mesmo. Isso era o pior: o fato de que ele estava certo, que eles ainda trabalhavam perfeitamente juntos como parabatai. Como parceiros guerreiros. Como um par combinado de soldados que nunca, jamais, poderia ser separado.
Mark e Cristina estavam esperando por eles embaixo do píer. Mark tinha tirado os sapatos e estava com parte do corpo na água. Cristina dobrava o canivete. Aos seus pés, um pedaço de areia gosmenta que estava secando.
— Viram aquela coisa lulesca caindo da roda-gigante? — perguntou Emma enquanto ela e Julian se aproximavam.
Cristina fez que sim com a cabeça.
— Ela caiu no raso. Não estava totalmente morta, então Mark a arrastou para a praia e terminamos o serviço. — Ela chutou a areia na frente dela. — Foi muito nojento. Mark se sujou de meleca.
— Eu me sujei de icor — disse Emma, olhando para baixo, para o uniforme manchado. — Esse foi um demônio bem trabalhoso.
— Você continua muito linda — disse Mark com um sorriso galante.
Emma sorriu de volta para ele o quanto conseguiu. Ela era incrivelmente grata a Mark, que estava desempenhando seu papel nessa história sem uma queixa, apesar de provavelmente achar tudo estranho. Na opinião de Cristina, Mark estava ganhando alguma coisa com isso, mas Emma não imaginava o quê. Não era como se ele gostasse de mentir – tinha passado tanto tempo entre fadas, que eram incapazes de inverdades, que ele não achava isso normal.
Julian tinha se afastado deles e estava novamente ao telefone, falando baixo. Mark saiu da água e calçou as botas com os pés molhados. Nem ele, nem Cristina estavam totalmente disfarçados, e Emma notou os olhares de passantes mundanos quando ele veio na direção dela – porque ele era alto, lindo, e tinha olhos que brilhavam mais do que as luzes da roda-gigante. E porque um de seus olhos era azul, e o outro dourado. E porque havia alguma coisa nele, alguma coisa indefinidamente estranha, um traço do espírito selvagem das Fadas que sempre fazia Emma pensar em espaços amplos de liberdade e anarquia.
Eu sou um garoto perdido, seus olhos pareciam dizer. Encontre-me. Alcançando Emma, ele levantou a mão para afastar uma mecha de cabelo dela. Uma onda de sentimentos passou por ela – tristeza e empolgação, um desejo de alguma coisa, apesar de ela não saber o quê.
— Era Diana — disse Julian, e, mesmo sem olhar para ele, Emma conseguia imaginar seu rosto enquanto ele falava; gravidade, consideração, uma análise cuidadosa da situação, não importa qual fosse. — Jace e Clary chegaram com uma mensagem do Cônsul. Estão fazendo uma reunião no Instituto, e nos querem lá agora.

18 comentários:

  1. Obrigada Karina só muito obrigada

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  2. Finalmente S2
    Tô Amando!!
    Jules seu lindooooo!

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  3. Shadowhunters, selecionada, aluna da grifinoria, semi deusa, Hunter, meta humana, lenda do amanhã,30 de novembro de 2017 18:21

    Ahhhhhhh mds Karina eu te amo, sério muito obrigada
    💙💙💙

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  4. nunca vou me cansar de dizer isso: jace você é demis!😍

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  5. Enfim!! Mt obg karina...vc e demais❤❤

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  6. depois de meses finalmente vou poder ler esse livro que já começou maravilhoso!!!

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  7. Karina sua linda muito obrigado. Ja amando esse livro. Será que vai ter um capítulo da Clary aceitando o pedido de casamento do Jace? Seria mara😍😍

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    1. Obrigada, Eduarda <3
      Bom, leia e descobrirá! heuaheuaheua

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  8. Acho que Mark tá gostando da Emma.

    Flavia

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  9. Não consigo ler sobre o Mark e a Emma, não combina, é estranho

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  10. — No que se refere aos Caçadores de Sombras, eu sou muito importante, mas não quero te intimidar.
    — Não estou intimidado — disse Kit
    Ele conseteza e um herondale

    ~MIRELLE

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  11. Ah, que emoção *-* Meu Deus um ano esperando!

    Nunca é demais ter o Jace <3

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  12. KARINA SUA LINDAAAAAAA
    OBG POR COLOCAR O LIVRO NO BLOG. TAVA LOUCO PRA LER
    <3
    GUS AKI ^^

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  13. Ai mds como eu sou burra acabei de terminar os livros das peças infernais mais n li os instrumentos mortais e to lendo esse livro que eu acho q é dps de instrumentos mortais então.....bora ler instrumentos mortais ai Deus sentir uma ansiedade quando mencionaram a tessa essa linda pegadora n pode ser esquecida!!!




    Ass:louca por tessa

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  14. Karinaaa te amo♥Muito obrigada por postar esse livro.♥
    Jack sendo Jace♥♥♥♥
    Sobre os Herondales ♥Muito amor envolvido
    Jace♥ Will ♥

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  15. Estou prevendo passar muita raiva com essa historinha da Emma e do Mark. O Julian só tem desgosto,coitado ��

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Boa leitura :)