8 de outubro de 2017

Vinte - Tveirvigi = Pior vigi

ENQUANTO ANDÁVAMOS PELAS ruas de York na madrugada, comi o bagel de alho e contei aos meus amigos sobre meu último sonho. Nossos novos amigos, Pottery Barn, andavam ao lado, atraindo olhares de reprovação dos moradores cujas expressões pareciam dizer: Ai, ai, esses turistas.
Pelo menos a minha história prendeu a atenção de T.J. e ele não perturbou muitos moradores com agradecimentos e apertos de mão.
— Hum… — disse ele. — Eu só queria entender por que precisamos da pedra de amolar. Acho que Odin falou do incidente de Bolverk em um dos livros dele… O caminho aesir para a vitória? Ou foi em A arte do roubo? Não consigo me lembrar dos detalhes. Você disse que no seu sonho a besta era grande e tinha olhos verdes?
— E muitos dentes. — Tentei afastar a lembrança. — Talvez Odin tenha matado a besta para recuperar a pedra. Ou será que bateu na cara dela com a pedra e foi assim que pegou o hidromel?
T.J. franziu a testa. Os óculos novos estavam apoiados na aba do quepe.
— Nenhuma das duas coisas me parece certa. Não me lembro de nenhum monstro. Tenho quase certeza de que Odin roubou o hidromel dos gigantes.
Eu relembrei meu sonho anterior com o massacre da serra elétrica de Fjalar e Gjalar.
— Mas não foram anões que mataram Kvásir? Como os gigantes pegaram o hidromel?
T.J. deu de ombros.
— Todas as histórias antigas são basicamente sobre um grupo assassinando outro para roubar seus pertences. Deve ter sido assim.
Isso me deixou com orgulho de ser viking.
— Tudo bem, mas não temos muito tempo para descobrir. As geleiras que eu vi estão derretendo rápido. O solstício será daqui a uns doze dias, mas acho que o navio de Loki terá condições de zarpar bem antes disso.
— Rapazes — disse Alex —, que tal isto? Primeiro vencemos o gigante, depois falamos sobre nossa próxima tarefa impossível.
Pareceu sensato, mas desconfiei de que Alex só queria que eu calasse a boca para não ter que lidar com meu bafo de alho.
— Alguém sabe para onde estamos indo? — perguntei. — O que é um Konungsgurtha?
— Significa pátio do rei — disse T.J.
— Isso estava no seu guia de viagem?
— Não. — T.J. riu. — É norueguês antigo básico. Você ainda não fez essa aula?
— Eu já tinha um compromisso — resmunguei.
— Bem, estamos na Inglaterra. Deve ter um rei com um pátio em algum lugar por aqui.
Alex parou no cruzamento seguinte. Apontou para uma das placas.
— Que tal uma Praça do Rei? Serve?
Pottery Barn pareceram achar que sim, já que viraram as duas faces naquela direção e saíram andando. Nós fomos atrás, pois seria irresponsabilidade deixar uma pilha de cerâmica de dois metros e meio andar desacompanhada pela cidade.
Tínhamos encontrado o local. Uhul.
A Praça do Rei não era uma praça e não era muito majestosa. As ruas formavam um Y em volta de um parque triangular pavimentado com ardósia cinza, com algumas árvores mirradas e dois bancos. Os prédios ao redor estavam escuros, as lojas fechadas. O único ser à vista era o gigante Hrungnir, as botas plantadas com firmeza dos dois lados de uma farmácia chamada, de forma um tanto apropriada, Boots. O gigante, que usava a mesma armadura de retalhos, tinha uma barba de pedra desgrenhada que parecia ter passado recentemente por uma avalanche, e seus olhos âmbar brilhavam com um toque de “mal posso esperar para matar vocês”. O martelo estava de pé ao lado dele como o maior poste de Festivus do mundo.
Quando Hrungnir nos viu, abriu a boca em um sorriso que faria o coração de pedreiros e calceteiros palpitar.
— Ora, ora, vocês vieram! Eu estava começando a pensar que iriam fugir. — Ele franziu as sobrancelhas de cascalho. — A maioria foge. É muito irritante.
— Não consigo imaginar por quê — falei.
— Hum… — Hrungnir assentiu para Pottery Barn. — Esse é seu guerreiro de cerâmica? Não parece grande coisa.
— Espera só — prometeu Alex.
— Mal posso esperar! — trovejou o gigante. — Eu amo matar pessoas aqui. Sabe, muito tempo atrás — ele indicou um pub próximo —, o pátio do rei nórdico de Jórvík ficava ali. E onde vocês estão ficava uma igreja cristã. Estão vendo? Vocês estão andando sobre o túmulo de alguém.
E realmente, a placa de ardósia debaixo dos meus pés tinha um nome e datas apagadas demais para ler. A praça toda era pavimentada com lápides, talvez do piso da antiga igreja. A ideia de andar em cima de tantos mortos me deixou enjoado, apesar de, tecnicamente, eu mesmo estar morto.
O gigante riu.
— Parece adequado, não é? Já tem tantos humanos mortos aqui, o que seriam alguns a mais? — Ele se virou para T.J. — Está pronto?
— Eu nasci pronto — disse T.J. — Morri pronto. Ressuscitei pronto. Mas vou dar uma última chance a você, Hrungnir. Não é tarde demais para escolher o bingo.
— Rá! Nada disso, pequeno einherji! Eu trabalhei a noite toda no meu parceiro de luta. Não pretendo desperdiçar ele com um bingo. Mokkerkalfe, venha cá!
O chão tremeu com um TUM TUM úmido. Na esquina, um homem de barro surgiu. Tinha dois metros e oitenta, sua modelagem era rudimentar e ainda brilhava de umidade. Parecia algo que eu faria na aula de cerâmica básica, uma criatura feia e cheia de caroços com braços finos demais e pernas grossas demais, a cabeça uma bola com duas órbitas e feições esculpidas em formato de careta.
Ao meu lado, Pottery Barn começaram a estalar e não achei que fosse de empolgação.
— Maior não quer dizer mais forte — disse para os dois bem baixinho.
Pottery Barn viraram os rostos para mim. Claro que as expressões não mudaram, mas senti que as duas bocas me diziam a mesma coisa: Cala a boca, Magnus.
Alex cruzou os braços. Tinha amarrado a capa de chuva amarela na cintura, revelando um colete xadrez cor-de-rosa e verde que julguei ser seu uniforme de combate.
— Seu trabalho é medíocre, Hrungnir. Você chama isso de homem de barro? E que nome é esse? Mokkerkalfe?
O gigante ergueu as sobrancelhas.
— Vamos ver qual trabalho é medíocre quando a luta começar. Mokkerkalfe quer dizer Filho da Neblina! Um nome poético e honrado para um guerreiro!
— Aham — disse Alex. — Bom, conheça Pottery Barn.
Hrungnir coçou a barba.
— Devo admitir que esse também é um nome poético para um guerreiro. Mas ele sabe lutar?
Eles sabem lutar muito bem — prometeu Alex. — E vão derrubar esse seu monte de escória sem problemas.
Pottery Barn olharam para sua criadora como quem diz: Vamos?
— Chega de conversa! — Hrungnir ergueu o martelo e fez cara feia para T.J. — Vamos começar, homenzinho?
Thomas Jefferson Jr. colocou os óculos de armação cor de âmbar, tirou o rifle do ombro e pegou um pequeno pacote cilíndrico de papel — um cartucho de pólvora — do kit.
— Este rifle também tem um nome poético — disse ele. — É um Springfield 1861. Criado em Massachusetts, como eu. — Ele abriu o cartucho com os dentes e virou o conteúdo na boca do rifle. Pegou o atacador e enfiou pólvora e balas lá dentro. — Eu conseguia atirar três vezes por minuto com esta belezinha, mas estou praticando há várias centenas de anos. Vamos ver se consigo disparar cinco hoje.
Ele pegou uma pequena cápsula de metal na bolsinha e colocou embaixo do cão. Eu já tinha visto T.J. fazer isso antes, mas o jeito com que conseguia carregar a arma, falar e andar ao mesmo tempo era tão mágico quanto a habilidade de Alex no torno. Para mim, fazer tudo isso teria sido como tentar amarrar os sapatos e assoviar o hino enquanto corria.
— Muito bem! — gritou Hrungnir. — QUE O TVEIRVIGI COMECE!

* * *

Minha primeira tarefa era a minha favorita: sair da frente.
Eu corri na hora que o martelo do gigante bateu em uma árvore, esmagando-a até ficar pequenininha. Com um CRACK seco, o rifle de T.J. disparou. O gigante rugiu de dor. Ele cambaleou para trás e saía fumaça do seu olho esquerdo, que agora estava preto em vez de âmbar.
— Que grosseria!
Hrungnir ergueu novamente o martelo, mas T.J. foi para o ponto cego dele enquanto recarregava calmamente. Seu segundo tiro acertou o nariz do gigante. Enquanto isso, Mokkerkalfe andou pesadamente, balançando os bracinhos, mas Pottery Barn foram mais velozes. (Eu queria o crédito pelo ótimo trabalho que tinha feito com as juntas de rolinhos.) Nosso guerreiro de cerâmica desviou para o lado e apareceu atrás de Mokkerkalfe, batendo com os dois punhos de vaso nas costas dele. Infelizmente, os punhos afundaram na pele macia e gosmenta de Mokkerkalfe, que logo se virou para encarar Pottery Barn. Mokkerkalfe ergueu e arrastou Pottery Barn como se eles fossem um brinquedo.
— Solta! — gritou Alex. — Pottery Barn! Ah, meinfretr.
Ela pegou o garrote, mesmo eu não sabendo bem como poderia ajudar na luta.
CRACK! A bala do mosquete ricocheteou no pescoço do gigante e estilhaçou uma janela de segundo andar. Fiquei impressionado de os moradores ainda não terem saído para investigar o barulho. Talvez houvesse um glamour forte em ação. Ou talvez o bom povo de York estivesse acostumado a brigas de vikings/gigantes na madrugada.
T.J. recarregou enquanto o gigante o fazia recuar.
— Fique parado, pequeno mortal! — rugiu Hrungnir. — Quero esmagar você!
A Praça do Rei era um espaço apertado para um jötunn. T.J. tentou ficar no ponto cego de Hrungnir, mas o gigante só precisava de um passo bem calculado ou de um golpe de sorte para transformá-lo em uma panqueca militar.
Hrungnir golpeou novamente, mas T.J. pulou para o lado na hora que o martelo rachou um monte de lápides, deixando um buraco de três metros no pátio.
Alex aproveitou o momento para atacar com seu garrote. Envolveu as pernas de Pottery Barn e puxou. Infelizmente, colocou força demais no instante em que Mokkerkalfe golpeou na mesma direção. Com o impulso excessivo, Pottery Barn voaram pela praça e invadiram a vitrine de um estabelecimento que oferecia empréstimos.
Mokkerkalfe se virou para Alex. O homem de argila emitiu um som úmido e gargarejado vindo do peito, como o rosnado de um sapo carnívoro.
— Opa, calma aí, rapaz — disse Alex. — Eu não estava lutando. Não sou sua…
GURG! Mokkerkalfe pulou como um lutador de luta livre, mais rápido do que eu acharia possível, fazendo Alex desaparecer debaixo de cento e quarenta quilos de barro molhado.
— NÃO! — gritei.
Antes que pudesse me mover ou avaliar como ajudar Alex, T.J. soltou um berro do outro lado do pátio.
— RÁ!
Hrungnir levantou o punho. Preso em seus dedos, se debatendo de forma inútil, estava Thomas Jefferson Jr.
— Basta um aperto — gabou-se o gigante — e essa competição acabou!
Fiquei paralisado. Queria me dividir em dois, ser duplo como nosso guerreiro de cerâmica. Mas, mesmo que isso fosse possível, eu não via uma forma de ajudar nenhum dos meus amigos.
O gigante apertou com força e T.J. berrou de dor.


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Boa leitura :)