8 de outubro de 2017

Vinte e um - Uma tarde de diversão com corações explosivos

POTTERY BARN SALVARAM nossas vidas.
(E, não. Eu nunca pensei que diria isso um dia.)
Nosso amigo de cerâmica explodiu de uma janela de terceiro andar da loja de empréstimos. O guerreiro se jogou na cara de Hrungnir, prendendo as pernas no lábio superior do gigante e batendo no nariz com os punhos de vaso.
— AI! SAI DAÍ!
Hrungnir cambaleou e largou T.J., que caiu no chão sem se mexer.
Enquanto isso, Mokkerkalfe se esforçou para levantar, o que devia ser difícil com Alex Fierro grudada em seu peito. Sob o peso dele, Alex gemeu.
Fui tomado de alívio. Pelo menos ela estava viva e talvez continuasse assim por mais alguns segundos. Após uma triagem rápida, decidi correr até T.J., cuja condição não me deixou tão otimista.
Eu me ajoelhei ao lado dele e coloquei a mão em seu peito. Quase puxei a mão de volta porque os danos que senti eram muito ruins. Um filete vermelho manchava o canto da boca como se ele tivesse bebido Tizer, mas eu sabia que não era refrigerante de cereja.
— Aguenta aí, amigo — murmurei. — Vou resolver isso.
Eu olhei para Hrungnir, que ainda estava cambaleando e tentando tirar Pottery Barn da cara. Até o momento, tudo bem. Do outro lado da praça, Mokkerkalfe tinha se descolado de Alex e agora estava de pé na frente dela, gorgolejando com raiva e batendo os punhos úmidos um no outro. Não parecia promissor.
Puxei a pedra de runa do cordão e conjurei Sumarbrander.
— Jacques! — gritei.
— Que foi? — gritou ele em resposta.
— Defenda Alex!
— O quê?
— Mas você não pode lutar de verdade!
— O quê?
— Tire aquele gigante de barro de cima dela!
— O quê?
— Crie uma distração. RÁPIDO!
Fiquei feliz de ele não ter dito o quê de novo, senão eu começaria a achar que minha espada tinha ficado surda.
Jacques voou até Mokkerkalfe e se posicionou entre o homem de barro e Alex.
— Oi, amigão! — As runas de Jacques brilharam pela lâmina como luzes de LED. — Quer ouvir uma história? Cantar uma música? Quer dançar?
Enquanto Mokkerkalfe tentava entender a estranha alucinação que estava tendo, voltei minha atenção para T.J.
Coloquei as mãos no peito dele e conjurei o poder de Frey.
Luz do sol se espalhou pelas fibras azuis do casaco de lã. Um calor penetrou seu peito, unindo costelas quebradas, remendando pulmões perfurados, desesmagando vários órgãos internos que não funcionavam muito bem quando esmagados.
Enquanto meu poder de cura fluía para dentro de Thomas Jefferson Jr., suas lembranças penetraram minha mente. Eu vi a mãe dele em um vestido surrado de algodão, o cabelo prematuramente grisalho, o rosto magro de anos de trabalho árduo e preocupação. Ela se ajoelhou na frente de T.J., que parecia ter dez anos, as mãos segurando com força os ombros dele como se tivesse medo de o filho sair voando em uma tempestade.
— Nunca aponte isso para um homem branco — repreendeu ela.
— Mãe, é só um graveto — disse T.J. — Eu estou brincando.
— Você não pode brincar — disparou ela com rispidez. — Se você brincar de atirar em um homem branco com um graveto, ele vai atirar em você de verdade com uma arma. Não vou perder outro filho, Thomas. Está me entendendo?
Ela o sacudiu, tentando fazer a mensagem entrar nele.
Uma imagem diferente: T.J. agora adolescente, lendo um panfleto preso em um muro de tijolos perto do píer.

AOS HOMENS DE COR!
LIBERDADE! PROTEÇÃO, SALÁRIO E UM CHAMADO AO SERVIÇO MILITAR!

Senti o coração de T.J. disparar. Ele nunca tinha ficado tão empolgado. As mãos formigavam para segurar um rifle. Ele sentiu um chamado… um impulso inegável, como todas as vezes em que foi desafiado para lutar no beco atrás da taverna da mãe. Era um desafio pessoal, e ele não podia recusar.
Eu o vi no porão de um navio da União, os mares agitados enquanto os colegas vomitavam em baldes ao redor dele. Seu amigo, William H. Butler, gemia de infelicidade.
— Eles trazem nosso povo em navios negreiros. Aí nos libertam. Prometem nos pagar para lutar. Então nos colocam de novo num navio — disse ele.
Mas T.J. segurava o rifle com avidez, o coração latejando de empolgação. Ele sentia orgulho do uniforme. Orgulho das estrelas e listras voando no mastro em algum lugar acima. A União deu a ele uma arma de verdade. Estavam sendo pagos para matar rebeldes, homens brancos que definitivamente os matariam se tivessem chance. Ele sorriu no escuro.
Depois, eu o vi correndo pela terra de ninguém na batalha de Fort Wagner, fumaça de tiros subindo como gás vulcânico em volta dele. O ar estava tomado pelo enxofre e pelos gritos dos feridos, mas T.J. estava concentrado em seu nêmeses, Jeffrey Toussaint, que ousou desafiá-lo. T.J. apontou com a baioneta e atacou, eufórico com o medo repentino nos olhos de Toussaint.
No presente, T.J. ofegou. Por trás dos óculos âmbar, sua visão ficou clara.
— Esquerda — disse ele, a voz rouca.
Eu mergulhei para o lado. Admito que não tive tempo de distinguir esquerda de direita. Eu rolei e fiquei de costas na hora que T.J. levantou o rifle e disparou.
Hrungnir, agora livre da demonstração de carinho de Pottery Barn, estava erguendo seu martelo, prestes a desferir um golpe mortal. A bala de mosquete de T.J. o acertou no olho direito, deixando-o cego.
— ARGH!
Hrungnir largou a arma e se sentou com tudo no meio da Praça do Rei, esmagando dois bancos do parque com a bunda ampla. Em uma árvore próxima, Pottery Barn estavam caídos, quebrados e danificados, a perna esquerda pendurada em um galho três metros acima da cabeça, mas quando viram a situação complicada de Hrungnir, eles moveram a cabeça no ombro com um som como gargalhada.
— Vai! — T.J. me tirou do choque. — Ajude a Alex!
Eu me levantei e corri.
Jacques ainda estava tentando distrair Mokkerkalfe, mas a coreografia de música e dança estava perdendo a graça (Isso acontecia rapidamente com Jacques.) Mokkerkalfe tentou dar um tapa nele e jogá-lo longe. A lâmina ficou grudada nas costas da mão grudenta do homem de barro.
— Eca! — reclamou Jacques. — Me solta!
Jacques era um pouco obsessivo com limpeza. Depois de ficar no fundo do rio Charles por mil anos, ele não era fã de lama.
Enquanto Mokkerkalfe andava de um lado para outro tentando soltar a espada falante da mão, eu me aproximei de Alex. Ela estava caída no chão de pernas e braços abertos, coberta de argila da cabeça aos pés, gemendo e mexendo os dedos.
Eu sabia que Alex não gostava do meu poder de cura. Ela odiava a ideia de eu espiar suas emoções e lembranças, o que fazia parte do processo. Mas decidi que sua sobrevivência era mais importante do que seu direito à privacidade.
Toquei o ombro dela. Uma luz dourada escorreu pelos meus dedos. Um calor se espalhou pelo corpo de Alex.
Eu me preparei para mais imagens dolorosas. Estava pronto para enfrentar seu pai horrível de novo ou ver Alex sofrendo bullying na escola ou vê-la apanhando nos abrigos para sem-teto.
Mas uma única lembrança clara me atingiu: nada de especial, só café da manhã no Café 19 em Valhala, uma imagem rápida minha, o idiota do Magnus Chase, como Alex me via. Eu estava sentado do outro lado da mesa, sorrindo por causa de alguma coisa que ela tinha dito. Um pedacinho de pão estava preso entre meus dentes da frente. Meu cabelo estava todo desgrenhado. Eu parecia relaxado e feliz e totalmente idiota. Encarei Alex por tempo demais, e a situação ficou constrangedora. Eu fiquei vermelho e afastei o olhar.
Essa era a memória dela.
Eu me lembrava daquela manhã. Lembrava que na hora eu pensei: Bom, acabei de fazer papel de idiota, como sempre. Mas não foi um evento tão memorável assim.
Então por que era uma das principais lembranças de Alex? E por que eu senti uma onda de satisfação ao ver meu eu pateta da perspectiva dela?
Alex abriu os olhos abruptamente e tirou minha mão do ombro dela.
— Chega.
— Desculpa, eu…
— Esquerda!
Eu mergulhei para o lado. Alex rolou para o outro. O punho de Mokkerkalfe, agora livre da lâmina de Jacques, bateu no chão de ardósia entre nós. Tive um vislumbre de Jacques, encostado na porta de uma farmácia, coberto de lama e gemendo como um soldado moribundo.
— Fui atingido! Fui atingido!
O homem de barro se levantou, pronto para nos matar. Jacques não podia ajudar. Alex e eu não estávamos em condição de lutar. Mas uma pilha de cerâmica surgiu do nada e caiu nas costas de Mokkerkalfe. De alguma forma, Pottery Barn tinham se soltado da árvore. Apesar da perna cortada, apesar de a mão de vaso do lado direito estar estilhaçada, Pottery Barn entraram em modo berserker de cerâmica. Os dois pularam nas costas de Mokkerkalfe, arrancando pedaços de argila molhada como se escavassem um poço. Mokkerkalfe cambaleou. Ele tentou agarrar Pottery Barn, mas os braços eram curtos demais. Com um POP alto, Pottery Barn tiraram algo do peito de Mokkerkalfe, e os dois guerreiros foram ao chão.
Mokkerkalfe soltou fumaça e começou a derreter. Pottery Barn rolaram para longe da carcaça do inimigo, os rostos duplos se virando para Alex. Com fraqueza, eles levantaram a coisa que estavam segurando. Quando percebi o que era, o bagel de alho que comi no café da manhã ameaçou voltar.
Pottery Barn estavam oferecendo a Alex o coração do inimigo: um coração de verdade, porém grande demais para ser humano. Talvez de um cavalo ou de uma vaca? Concluí que preferia continuar na ignorância.
Alex se ajoelhou ao lado de Pottery Barn. Colocou a mão em sua testa dupla.
— Você agiu bem — disse ela, a voz trêmula. — Meus ancestrais de Tlatilco ficariam orgulhosos. Meu avô ficaria orgulhoso. Mais do que tudo, eu estou orgulhosa.
A luz dourada piscou nos globos oculares no rosto de caveira e se apagou.
Os braços de Pottery Barn despencaram. As peças perderam a coesão mágica e se soltaram.
Alex se permitiu o espaço de três batimentos para sofrer. Consegui contar porque aquele coração nojento nas mãos de Pottery Barn ainda estava batendo. Em seguida, ela se levantou, os punhos cerrados, e se virou para Hrungnir.
O gigante não parecia muito bem. Estava deitado de lado, encolhido, cego e gemendo de dor. T.J. andou em volta dele, usando a baioneta de aço de osso para cortar os tendões do gigante. Os tendões de aquiles de Hrungnir já estavam cortados, tornando suas pernas inúteis. T.J. trabalhou com eficiência fria e cruel para dar aos braços do jötunn o mesmo tratamento.
— Pelo traseiro de Tyr — disse Alex, a raiva sumindo do rosto. — Quero que você me lembre de nunca duelar com Jefferson.
Nós fomos nos juntar a ele.
T.J. encostou a ponta da baioneta no peito do gigante.
— Nós vencemos, Hrungnir. Nos dê a localização do hidromel de Kvásir e não vou precisar matar você.
Hrungnir riu com fraqueza. Os dentes estavam sujos de um líquido cinza, como os baldes de argila no estúdio de cerâmica.
— Ah, mas você tem que me matar, pequeno einherji — grunhiu ele. — Faz parte do duelo! É melhor do que me deixar aqui, inválido e sofrendo!
— Eu posso curar você — ofereci.
Hrungnir abriu um sorriso de desdém.
— Típico de um filho de Frey patético e fraco. Eu recebo a morte de braços abertos! Vou me refazer no abismo gelado de Ginnungagap! E, no dia do Ragnarök, vou encontrar vocês no campo de Vigrid e rachar seus crânios com os dentes!
— Tá bom, então — disse T.J. — Uma morte saindo no capricho. Mas, primeiro, a localização do hidromel de Kvásir.
— Ah. — Hrungnir gorgolejou mais gosma cinza. — Muito bem. Não vai ter importância. Vocês nunca vão passar pelos guardiões. Vão para Fläm, na antiga terra nórdica que vocês chamam de Noruega. Peguem o trem. Vocês vão ver o que estão procurando bem rápido.
— Fläm?
A imagem de uma sobremesa gostosa de caramelo surgiu na minha mente. Mas aí lembrei que o nome dela era flan.
— Isso mesmo — respondeu Hrungnir. — Agora me mate, filho de Tyr! Rápido. Bem no coração, a não ser que você seja fraco como seu amigo!
Alex começou a dizer:
— T.J.…
— Espere — murmurei.
Tinha alguma coisa errada. O tom de Hrungnir era debochado demais, ansioso demais. Mas demorei a perceber o problema. Antes que pudesse sugerir de matarmos o gigante de outro jeito, T.J. aceitou o desafio final de Hrungnir.
Ele enfiou a baioneta no peito do jötunn. A ponta acertou alguma coisa lá dentro com um clink seco.
— Ahhh… — O suspiro de morte de Hrungnir pareceu quase arrogante.
— Ei, pessoal? — A voz fraca de Jacques chamou da farmácia. — Não perfurem o coração dele, tá? Os corações dos gigantes da pedra explodem.
Alex arregalou os olhos.
— Para o chão!
BUM!
Estilhaços de Hrungnir jorraram pela praça, estilhaçando janelas, destruindo placas e salpicando paredes de pedra.
Meus ouvidos zumbiam. Havia cheiro de fagulhas no ar. Não restava nada além de uma fileira fumegante de cascalho onde antes estivera o corpo de Hrungnir.
Eu não parecia ter nenhum ferimento. Alex também parecia bem. Mas T.J. estava ajoelhado no chão gemendo, a mão na testa sangrando.
— Vou resolver!
Eu corri até ele, mas o ferimento não tinha sido tão ruim quanto eu temia. Um estilhaço entrara acima do olho direito, uma lasca cinzenta triangular como um ponto de exclamação de pedra.
— Tira! — gritou ele.
Eu tentei, mas assim que puxei, T.J. berrou de dor. Eu franzi a testa. Não fazia sentido. O estilhaço não podia estar tão fundo. Nem tinha tanto sangue assim.
— Pessoal — disse Alex. — Temos companhia.
Os moradores estavam finalmente começando a sair para ver a confusão, provavelmente porque o coração explosivo de Hrungnir tinha quebrado todas as janelas do quarteirão.
— Você consegue andar? — perguntei a T.J.
— Consigo. É, acho que consigo.
— Então vamos voltar para o navio. Vamos curar você lá.
Eu o ajudei a ficar de pé e fui buscar Jacques, que ainda estava reclamando por estar coberto de lama. Eu o fiz voltar à forma de pedra de runa, o que não ajudou meu nível de exaustão. Alex se ajoelhou ao lado dos restos de Pottery Barn. Pegou a cabeça e a aninhou como um bebê abandonado.
Em seguida, nós três cambaleamos por York para voltar ao Bananão. Eu só esperava que os cavalos d’água não o tivessem afundado junto com nossos amigos.


8 comentários:

  1. "Bananão"... Sempre que leio esse nome morro de rir!😁

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  2. "Típico de um filho de Frey patético e fraco"
    Não discordo muito disso

    Eu ainda me pergunto pq o Magnus é tão diferente de Percy e Carter. Ele não é um guerreiro, não vai atingir um status Over Power no final, não está lutando pra vencer um "fim de mundo" e sim tentando evitá-lo e adiá-lo e ele nem tem um animal de estimação que pode matá-lo(como a Sra. O'Leary e o Freak)

    Acho que por Magnus ser de Boston, a cidade do Riordan, o Tio Rick não quis faze-lo "grande". Sim, ele fez o completo oposto de "grande".

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    1. Sim, o objetivo parece ter sido mais ou menos esse... Porém não entendi o que tem a ver com Magnus sendo de Boston também

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    2. A meu ver ele não e tao over power por se tratar de mitologia nórdica, os vikings nunca quiseram exatamente lutar o ragnarök, mas sim adia-lo eternamente, pq bem ia ser meio q a destruição deles neh...

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    3. O que tem haver Magnus ser de Boston e não ser "grande"??? E quanto ao pet creio eu que Jacques faz esse papel muito bem, já que os outros não tinham armas mágicas falantes, né???

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    4. Acho que o tio Rick tentou sair do clichê dele, fazer diferente

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  3. Eu acho o ferimento do TJ vai levar a uma merda...

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Boa leitura :)