8 de outubro de 2017

Vinte e três - Siga o cheiro de sapos mortos (ao som de “Siga a Estrada dos Tijolos Amarelos”)

QUAL ERA O problema dos pais?
Quase todo mundo que eu conhecia tinha um pai horrível, como se todos estivessem competindo pelo prêmio de Pior Pai do Universo.
Eu tive sorte. Só conheci meu pai no último inverno. Mesmo assim, só conversei com ele por alguns minutos. Mas pelo menos Frey parecia legal. Ele me abraçou. Também me deixou ficar com sua espada falante que curte músicas da era disco e me mandou um barco amarelo em um momento de necessidade.
Sam tinha Loki, que era a maldade encarnada. O pai de Alex era um idiota abusivo e raivoso com sonhos de dominação de louça global. E Hearthstone… o pai dele era ainda pior do que o de todos nós juntos. O sr. Alderman fez da infância de Hearthstone um Helheim. Eu não queria passar perto da casa daquele homem, e só tinha ido lá uma vez. Não conseguia imaginar como Hearthstone aguentou morar ali.
Nós caímos pelo céu dourado do jeito como se cai no mundo aerado dos elfos. Pousamos delicadamente na rua em frente à mansão Alderman. Como antes, a rua ampla do subúrbio se prolongava nas duas direções, com muros de pedra e árvores bem cuidadas, escondendo as propriedades de muitos hectares dos milionários elfos umas das outras. A gravidade fraca fazia o chão parecer mole sob meus pés, como se eu pudesse quicar de volta para o céu. (Fiquei com vontade de tentar.)
A luz do sol continuava tão intensa quanto eu lembrava, deixando-me grato pelos óculos escuros que Alex me emprestou, mesmo tendo uma armação grossa e cor-de-rosa no estilo Buddy Holly. (Riram muito disso no Bananão.)
Por que deixamos Midgard ao pôr do sol e chegamos a Álfaheim no meio do que parecia a tarde, eu não fazia ideia. Talvez os elfos tivessem um horário de verão perpétuo.
Os portões elaborados de Alderman ainda brilhavam com o monograma de dourado. Dos dois lados, os muros altos ainda tinham arame farpado no topo para afastar invasores. Mas agora as câmeras de segurança estavam escuras e paradas, e os portões, fechados com uma corrente e um cadeado. Dos dois lados do portão, presas a colunas de pedra, havia placas amarelas idênticas com letras vermelhas gritantes.

PROPRIEDADE INTERDITADA POR ORDEM DO
DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE ÁLFAHEIM
INVASORES VÃO MORRER

Não “serão julgados”. Não “serão presos” ou “levarão tiros”. O aviso simples – se você entrar, vai morrer – era bem mais sinistro.
Meu olhar percorreu o terreno, que era mais ou menos do tamanho do Public Garden de Boston. Desde nossa última visita, a grama tinha crescido bastante na luz intensa de Álfaheim e estava bem alta. Grandes bolas de musgo cobriam as árvores. O odor pungente da sujeira no lago dos cisnes chegou a nós pelos portões.
O caminho de oitocentos metros que levava até a casa estava coberto de penas brancas, possivelmente dos tais cisnes; de ossos e tufos de pelos que podiam ter sido esquilos e guaxinins; e de um único sapato social preto que parecia ter sido mastigado e cuspido.
No alto da colina, a antes imponente mansão Alderman estava em ruínas. O lado esquerdo havia desabado em uma pilha de destroços, vigas e paredes queimadas. Trepadeiras tinham coberto completamente o lado direito, tão densas que o teto afundou. Apenas dois dos janelões permaneciam intactos, as vidraças marrons nas beiradas por causa do fogo. Cintilando no sol, elas me lembraram os malfadados óculos de T.J.
Eu me virei para os meus amigos.
— Nós fizemos isso?
Eu estava mais impressionado, em vez de me sentir culpado. Na última vez que fugimos de Álfaheim, estávamos sendo perseguidos por espíritos da água do mal e pela polícia élfica armada, sem mencionar o pai louco de Hearth. Podemos ter quebrado algumas janelas no processo. Era possível que tivéssemos provocado um incêndio também. Se isso tivesse mesmo acontecido, não poderia ter sido em uma mansão mais cruel.
Mesmo assim… eu não entendia como o lugar podia ter ficado tão destruído, nem como um paraíso daqueles podia ter virado esse local sinistro tão rápido.
— Nós só começamos. — O rosto de Blitzen estava coberto pela rede, tornando impossível que eu visse sua expressão. — Essa destruição é culpa do anel.
Na luz quente e forte, não devia ser possível sentir um arrepio. Ainda assim, uma sensação gelada desceu pelas minhas costas. Na nossa última visita, Hearth e eu roubamos um monte de ouro de um anão velho e desonesto, Andvari, inclusive o anel amaldiçoado do sujeito. Ele tentou nos avisar que o anel só traria infelicidade, mas nós ouvimos? Nãããão. Na época, estávamos mais concentrados em coisas como, ah, salvar a vida de Blitzen. A única coisa que faria isso era a pedra Skofnung, que estava com o sr. Alderman. O preço dele? Um montão de ouro, porque pais malvados não aceitam cartão de crédito.
Em resumo: Alderman ficou com o anel amaldiçoado. Colocou no dedo e ficou ainda mais maluco e malvado, o que eu não achava possível. Pessoalmente, eu gostava que meus anéis amaldiçoados pelo menos fizessem alguma coisa legal, como deixá-lo invisível ou espiar o Olho de Sauron. O anel de Andvari não tinha nada de bom. Despertava o pior nas pessoas: ganância, ódio, inveja. De acordo com Hearth, até as transformava em um monstro de verdade, para que seu lado exterior pudesse ser tão repulsivo quanto o interior.
Se o anel ainda estivesse exercendo sua magia sobre o sr. Alderman e o tivesse dominado com a mesma rapidez com que a natureza tomou conta da propriedade dele… Pois é, isso não era um bom sinal.
Eu me virei para Hearth.
— Seu pai… ele ainda está aí dentro?
A expressão de Hearthstone estava triste e resignada, como a de um homem que finalmente aceitou um diagnóstico terminal. Por perto, sinalizou ele. Mas não é mais ele mesmo.
— Você não quer dizer…
Eu olhei para o sapato mastigado. Questionei o que tinha acontecido com seu dono. Eu me lembrei do meu sonho com olhos verdes enormes e fileiras de dentes afiados. Não, não podia ser isso o que Hearth queria dizer. Nenhum anel amaldiçoado podia agir tão rápido, podia?
— Vocês… vocês olharam lá dentro? — perguntei.
— Infelizmente. — Blitz sinalizou enquanto falava, porque Hearth não tinha como ler seus lábios. — A coleção inteira de pedras e artefatos raros de Alderman… sumiu. Junto com todo o ouro. Então, se a pedra de amolar que estamos procurando estivesse em algum lugar da casa…
Foi levada para outro lugar, sinalizou Hearthstone. Parte do tesouro dele.
O sinal que Hearth usou para tesouro foi um punho fechado na frente do queixo, como se ele estivesse segurando uma coisa valiosa: Fortuna. Meu. Não toque nele senão vai morrer.
Engoli um bolo de areia.
— E… vocês encontraram o tesouro dele?
Eu sabia que os meus amigos eram corajosos, mas pensar neles xeretando dentro daquela propriedade me apavorava. Com certeza não tinha sido bom para a população local de esquilos.
— Nós achamos que encontramos o covil dele — disse Blitz.
— Ah, que ótimo. — Minha voz soou mais aguda do que o habitual. — Alderman tem um covil agora. E, hã, vocês viram ele?
Hearthstone balançou a cabeça. Só sentimos o cheiro.
— Certo — falei. — Isso nem é sinistro.
— Você vai ver — disse Blitz. — É mais fácil mostrar do que explicar.
Era uma proposta que eu preferia recusar, mas de jeito nenhum eu ia deixar Hearth e Blitz passarem por aqueles portões de novo sem mim.
— P-por que os elfos daqui não fizeram nada em relação à propriedade? — perguntei. — Na última vez que estivemos aqui, queriam nos prender por vadiagem. Os vizinhos não reclamaram?
Eu indiquei as ruínas. Uma visão horrível daquelas, principalmente se matava cisnes, roedores e um ocasional carteiro élfico, tinha que ser contra as regras da associação de moradores do bairro.
— Nós conversamos com as autoridades — disse Blitz. — Na metade do tempo que ficamos fora, tivemos que lidar com burocracia élfica. — Ele estremeceu dentro do casaco pesado. — Você ficaria surpreso de saber que a polícia não queria nos ouvir? Não conseguimos provar que Alderman está morto ou desaparecido. Hearthstone não tem direitos legais ao terreno. Quanto a limpar a propriedade, o melhor que a polícia fez foi colocar esses avisos idiotas. Eles não querem arriscar o pescoço, por mais que os vizinhos reclamem. Os elfos fingem ser sofisticados, mas são tão supersticiosos quanto arrogantes. Nem todos os elfos, claro. Desculpe, Hearth.
Hearthstone deu de ombros. Não podemos culpar a polícia, sinalizou ele. Você ia querer entrar lá se não precisássemos muito?
Ele tinha razão. Só a ideia de entrar na propriedade, sem poder ver o que se escondia na grama alta, fazia vários nós se formarem no meu estômago. A polícia de Álfaheim era ótima em intimidar transeuntes para que saíssem do bairro. Enfrentar uma ameaça verdadeira nas ruínas da mansão de um louco… nem tanto.
Blitzen suspirou.
— Bom, não faz sentido ficarmos aqui parados. Vamos procurar o querido papai.

* * *

Eu teria preferido outro jantar com as filhas assassinas de Aegir ou uma batalha até a morte com uma pilha de cerâmica. Caramba, até teria dividido suco de goiaba com uma matilha de lobos no terraço do tio Randolph.
Nós pulamos o portão e seguimos pela grama alta. Mosquitos e moscas atacaram nosso rosto. A luz do sol fazia minha pele pinicar e meus poros estalarem com suor. Decidi que Álfaheim era um mundo bonito quando estava bem cuidado, aparado e mantido pelos funcionários. Quando deixado à natureza, ficava selvagem de forma exagerada. Eu me perguntei se os elfos eram parecidos. Calmos, delicados e formais por fora, mas, se deixados soltos… Eu realmente não queria conhecer o novo e aprimorado sr. Alderman.
Nós contornamos as ruínas da casa, o que achei ótimo. Eu me lembrava muito bem do tapete azul peludo no antigo quarto de Hearthstone, que fomos obrigados a cobrir com ouro para pagar o wergild pela morte do irmão dele. Eu me lembrava do quadro de infrações na parede de Hearthstone, contabilizando a dívida infinita dele com o pai. Eu não queria chegar perto daquele lugar de novo, mesmo que em ruínas.
Conforme seguíamos pelo jardim, alguma coisa estalou embaixo do meu pé. Eu olhei para baixo. Meu sapato entrou direto na caixa torácica do esqueleto de um pequeno cervo.
— Eca.
Hearthstone franziu a testa para os restos ressecados. Nada além de algumas tiras de carne e pelo se prendiam aos ossos.
Comido, sinalizou ele, levando as pontas dos dedos unidas até a boca. O sinal era bem parecido com tesouro/fortuna. Às vezes, a linguagem de sinais era precisa demais para o meu gosto.
Com um pedido de desculpas silencioso ao pobre cervo, eu puxei o pé. Não sabia dizer o que podia ter devorado aquele animal, mas esperava que a presa não tivesse sofrido muito. Fiquei surpreso de animais selvagens terem permissão de existir nos bairros elegantes de Álfaheim. Eu me perguntei se a polícia tentava prender os cervos por vadiagem, talvez algemando as perninhas e os enfiando na traseira das viaturas.
Nós seguimos para o bosque nos fundos da propriedade. A grama estava tão alta que não dava para saber onde acabava o gramado e começava a vegetação da floresta. Aos poucos, a quantidade de árvores foi aumentando até a luz do sol ficar reduzida a pontinhos amarelados no chão da floresta.
Eu achava que não estávamos longe do velho poço onde o irmão de Hearthstone tinha morrido — outro lugar em posição de destaque na minha lista de “lugares para não visitar nunca mais”. Então, claro que demos de cara com ele.
Um amontoado de pedras cobria a área onde o poço tinha sido preenchido. Não havia mato nem grama crescendo na terra, como se as plantas não quisessem invadir uma clareira envenenada daquele jeito. Mesmo assim, não tive dificuldade de imaginar Hearthstone e Andiron brincando ali quando crianças, Hearth de costas enquanto empilhava pedras com alegria, incapaz de ouvir o grito do irmão quando o brunnmigi, o monstro que morava no poço, surgiu da escuridão.
Eu comecei a dizer:
— Nós não precisamos ficar aqui…
Hearth andou até o monte de pedras como se em transe. No alto da pilha, no mesmo lugar em que Hearthstone a deixou na nossa última visita, estava uma runa:


Othala, a runa que simbolizava herança familiar. Hearthstone decidiu que nunca usaria aquela runa novamente. O significado dela tinha morrido para ele naquele lugar. Nem o conjunto novo de runas de sorveira, que ele ganhou de presente da deusa Sif, continha othala. Sif avisou a ele que isso lhe causaria problemas. Ela disse que Hearth acabaria tendo que voltar para buscar a peça que faltava.
Eu odiava quando as deusas estavam certas.
Você vai pegar?, sinalizei.
Em um lugar assim, conversas silenciosas pareciam melhor do que em voz alta. Hearthstone franziu a testa, o olhar decidido. Ele fez um gesto rápido de cortar, na diagonal e depois para baixo, como se estivesse fazendo um ponto de interrogação ao contrário. Nunca.
Blitzen farejou o ar.
Estamos perto agora. Estão sentindo o cheiro?
Eu só sentia o odor suave de plantas podres.
Que cheiro?
— Credo — disse Blitzen em voz alta. Os narizes humanos são patéticos, sinalizou.
Inúteis, concordou Hearthstone, e adentrou ainda mais a floresta.
Nós não seguimos na direção do rio, como na última vez, quando estávamos atrás do ouro de Andvari. Dessa vez, fomos andando pela margem, abrindo caminho entre arbustos e raízes retorcidas de carvalhos enormes.
Depois de um tempo, comecei a sentir o cheiro que Hearth e Blitzen tinham mencionado. Tive um flashback de uma aula de biologia do oitavo ano, quando Joey Kelso escondeu o hábitat dos sapos do nosso professor no forro da sala de aula. Só descobriram um mês depois, quando o terrário de vidro caiu do teto e se quebrou na mesa do professor, espirrando vidro, mofo, gosma e corpos rançosos de anfíbios na primeira fileira.
O cheiro que senti na floresta era parecido com isso, só que muito pior.
Hearthstone parou na beira de uma nova clareira. Ele se agachou atrás de uma árvore caída e fez sinal para nos juntarmos a ele.
Ali, sinalizou ele. O único lugar para onde ele poderia ter ido.
Espiei em meio às sombras. As árvores em volta da clareira tinham sido reduzidas a palitos carbonizados. O chão estava coberto de gosma podre e ossos de animais. Uns quinze metros à frente havia um rochedo, com duas grandes pedras inclinadas uma sobre a outra formando o que parecia ser a entrada de uma caverna.
— Agora — sussurrou Blitz enquanto sinalizava —, a gente espera pelo que quer que os elfos chamem de noite neste lugar esquecido pelos anões.
Hearth assentiu. Ele vai sair à noite. Aí vamos ver.
Eu estava tendo dificuldade de respirar, e mais ainda de pensar em meio ao fedor de sapos mortos. Ficar ali parecia uma péssima ideia.
Quem vai sair?, sinalizei. Seu pai? Dali? Por quê?
Hearthstone afastou o olhar. Tive a sensação de que ele estava tentando ser piedoso ao não responder a minhas perguntas.
— Nós vamos descobrir em breve — murmurou Blitz. — Se for o que tememos… bom, vamos apreciar nossa ignorância enquanto ainda podemos.


3 comentários:

  1. Eu nunca havia sentido assim, "medo", nos livros do Tio Rick, mas esse está conseguindo. Achei-o bem mais elaborado que os anteriores...

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  2. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 11:54

    A runa Othala é a runa de Odin não é? Deve ser bem forte no seja lá o q faça.

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  3. Mano... Eu to com medo... o que sera que o pai do Hearthstone virou?
    Se bem que ele merecia.

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Boa leitura :)