8 de outubro de 2017

Vinte e sete - Nós ganhamos uma pedrinha

EU GOSTARIA DE dizer que me senti mal por deixar Jacques enfiado até o cabo no corpo do dragão.
Mas não senti. Eu larguei a espada e sumi dali, me arrastando pelo túnel como um brownie em chamas. O dragão rugiu e bateu os pés acima de onde eu estava, fazendo a terra tremer. O túnel desabou atrás de mim, quase enterrando meus pés, preenchendo o ar com vapores ácidos.
Eca!, eu pensei. Eca, eca, eca! Sou eloquente em momentos de perigo.
O tempo que levei me arrastando pareceu demorar muito mais do que vinte e um segundos. Não ousei respirar. A sensação era de que minhas pernas estavam pegando fogo. Se eu conseguisse sair, olharia para baixo e perceberia que havia sobrado apenas metade do Magnus.
Por fim, com pontos pretos dançando na visão, saí do túnel no desespero.
Ofeguei e me debati, tirando os sapatos e a calça jeans como se fossem veneno. Porque eram. Como eu temia, sangue de dragão tinha respingado na minha calça e o tecido começava a ser corroído. Meus sapatos soltavam fumaça. Arrastei as pernas nuas pelo chão da floresta na esperança de tirar qualquer gota de sangue que restasse. Não vi nada de errado com meus pés e panturrilhas, nenhuma nova cratera na pele. Não havia fumaça. Não havia cheiro de einherji queimado.
O que me fazia crer que eu havia sido salvo pelo desabamento do túnel – a lama tinha se misturado com o ácido e detido a maré corrosiva. Ou talvez eu tivesse gastado toda a minha sorte até o próximo século.
Meu coração começou a se acalmar. Cambaleei pela clareira e vi o dragão verde Alderman caído de lado, a cauda batendo, as pernas tremendo. Ele vomitou uma débil explosão de napalm, queimando um amontoado de folhas secas e esqueletos de esquilo.
O cabo de Jacques estava no peito do dragão. Meu antigo esconderijo era agora um buraco fumegante, sendo lentamente corroído até o núcleo de Álfaheim.
Perto do focinho do dragão estavam Hearthstone e Blitzen, os dois ilesos.
Ao lado deles, tremeluzindo como uma chama fraca de vela, estava o fantasma de Andiron. Eu só tinha visto o irmão de Hearth uma vez, no retrato acima da lareira do pai deles. No quadro, ele parecia um jovem deus, perfeito e confiante, tragicamente belo. Mas à minha frente havia apenas um garoto de cabelo claro, magricela e de joelhos protuberantes. Eu não o destacaria em um grupo de alunos de ensino fundamental, a não ser que estivesse tentando identificar aqueles com chance de sofrer bullying.
Blitz tinha levantado a frente da rede de proteção contra o sol, apesar do risco de petrificação. A pele em volta de seus olhos começou a ficar cinza. A expressão no rosto era triste.
O dragão respirava com dificuldade.
— Traidor. Assassino.
Blitzen cerrou os punhos.
— Você tem coragem…
Hearthstone tocou na manga dele. Pare. Ele se ajoelhou ao lado do rosto do dragão para que Alderman pudesse vê-lo sinalizando.
Eu não queria isso, sinalizou Hearthstone. Sinto muito.
Os lábios do dragão se curvaram por cima das presas.
— Use o quadro. Traidor.
A pálpebra interna de Alderman se fechou, cobrindo a íris verde-oleosa. Uma bufada final de fumaça saiu das narinas. E o corpo enorme ficou imóvel.
Esperei que ele voltasse à forma élfica. Mas não voltou.
Alderman pareceu perfeitamente satisfeito em permanecer dragão.
Hearthstone se levantou. Sua expressão era distante e confusa, como se tivesse acabado de ver um filme feito por uma civilização alienígena e tentasse entender a mensagem.
Blitzen se virou para mim.
— Você fez a coisa certa, garoto. Era necessário.
Eu olhei para ele, impressionado.
— Você enfrentou um dragão. Você o fez recuar.
Blitzen deu de ombros.
— Eu não gosto de valentões. — Ele apontou para as minhas pernas. — Acho que vamos precisar arrumar uma calça nova para você, garoto. Uma calça cáqui escura combinaria com essa camisa. Ou jeans cinza.
Eu entendia por que ele queria mudar de assunto. Não queria falar sobre quanto tinha sido corajoso. Não via suas ações como dignas de elogios. Era um fato simples: ninguém se metia com o melhor amigo de Blitzen.
Hearthstone olhou para o fantasma do irmão.
Andiron sinalizou: Nós tentamos, Hearth. Não se culpe.
As feições em seu rosto eram nebulosas, mas a expressão era inconfundível. Diferentemente do sr. Alderman, amor era tudo que Andiron sentia pelo irmão.
Hearth enxugou os olhos. Olhou para a floresta como se tentasse entender onde estava e sinalizou para Andiron: Eu não quero perder você de novo.
Eu sei, gesticulou o fantasma. Eu não quero ir.
Nosso pai…
Andiron cortou a palma da mão, o símbolo de pare.
Não perca nem mais um minuto com ele, aconselhou Andiron. Ele roubou grande parte da sua vida. Você vai comer o coração?
A frase não fez sentido, então achei que tinha interpretado mal os sinais.
O rosto de Hearth ficou sombrio. Ele sinalizou: Não sei.
Andiron gesticulou: Venha aqui.
Hearthstone hesitou. Ele chegou mais perto do fantasma.
Vou contar um segredo, disse Andiron. Quando eu sussurrei naquele poço, eu fiz um pedido. Eu queria ser tão gentil e bom quanto você, irmão. Você é perfeito.
O garotinho esticou seus braços de fantasma. Quando Hearthstone se inclinou para abraçá-lo, o fantasma explodiu em vapor branco.
A runa othala caiu na palma da mão de Hearth. Ele a observou por um momento, como se fosse algo que nunca tinha visto, uma joia perdida cujo dono ia querer de volta. Ele envolveu a pedra com a mão e a encostou na testa.
Pela primeira vez, fui eu que li os lábios dele. Eu tinha certeza de que ele sussurrou: obrigado.
Alguma coisa estalou no peito do dragão. Tive medo de Alderman ter começado a respirar de novo, mas percebi que era Jacques se sacudindo com irritação, tentando se soltar.
— ENTALADO! — Ele gritou com voz abafada: — METIRADAQUIIII!
Andei na direção da fossa ácida com cuidado, já que ainda estava descalço. O sangue que escorria do peito do dragão formava um lago fumegante e lamacento. Não tinha como eu chegar perto o bastante para segurar o cabo de Jacques.
— Jacques, não consigo alcançar você! Não consegue se soltar?
— ACABEIDEDIZERQUEESTOUENTALADO!
Eu franzi a testa para Blitz.
— Como a gente faz para tirar ele de lá?
Blitz colocou as mãos em concha perto da boca e gritou para Jacques, como se ele estivesse do outro lado do Grand Canyon.
— Jacques, você vai ter que esperar! O sangue do dragão vai perder a potência em uma hora. Só então vamos poder soltar você!
— UMAHORAESTÁDEBRINCADEIRA? — O cabo dele vibrou, mas Jacques permaneceu firmemente enfiado na barriga de Alderman.
— Ele vai ficar bem — garantiu Blitz.
Fácil para ele falar. Não era Blitz quem tinha que conviver com Jacques.
Blitz tocou no ombro de Hearth para pedir atenção. Preciso ir até a caverna para procurar a pedra de amolar, sinalizou ele. Está disposto?
Hearth apertou a runa othala com força. Observou o rosto do dragão como se tentasse encontrar algo familiar ali. Em seguida, colocou a runa na bolsa, deixando o kit completo.
Vão vocês dois na frente, sinalizou ele. Preciso de um minuto.
Blitz fez uma careta.
— Tudo bem, amigo, sem problemas. Você tem uma grande decisão a tomar.
— Que decisão? — perguntei.
Blitz me lançou um olhar de Pobre garoto inocente.
— Vem, Magnus, vamos olhar o tesouro desse monstro.

* * *

O tesouro foi fácil de encontrar. Ocupava quase a caverna toda. O meio dele tinha o formato de um dragão: o ponto onde Alderman dormia. Não era surpresa ele viver tão mal-humorado. Aquela montanha de moedas, espadas e cálices encrustados de pedras não oferecia um bom apoio para as costas.
Eu andei em volta do tesouro, apertando o nariz para bloquear o fedor gigantesco. Minha boca ainda estava com gosto de terrário de aula de biologia.
— Cadê a pedra? — perguntei. — Não estou vendo nenhum dos antigos artefatos do sr. Alderman.
Blitz coçou a barba.
— Bom, dragões são vaidosos. Ele não colocaria por cima os exemplares sem graça de geologia. Deixaria esses por baixo e exibiria o que brilha. Eu queria saber…
Ele se agachou ao lado do tesouro.
— Rá! Como eu pensei. Olha.
Saindo do amontoado de ouro havia a ponta de uma corda trançada.
Demorei um segundo para reconhecer.
— É… a bolsa mágica que pegamos de Andvari?
— É! — Blitz sorriu. — O tesouro está em cima dela. Alderman podia ser ganancioso, cruel e horrível, mas não era burro. Ele queria que o tesouro fosse fácil de transportar, caso precisasse encontrar um novo covil.
Parecia que isso também tornava o tesouro fácil de roubar, mas eu não ia discutir com a lógica de um dragão morto.
Blitz puxou a cordinha. Um tsunami de lona envolveu o tesouro, tremendo e encolhendo até haver apenas uma bolsa aos nossos pés, adequada para compras no mercado ou para esconder vários bilhões de dólares em objetos valiosos. Blitz levantou a bolsa com dois dedos.
No fundo da caverna, embaixo de onde o tesouro tinha sido empilhado, estavam dezenas dos artefatos de Alderman. Muitos haviam sido esmagados pelo peso do ouro. Para nossa sorte, pedras eram objetos bem resistentes. Peguei a pedra de amolar redonda que vi no meu sonho. Segurá-la não me encheu de êxtase. Anjos não cantaram. Eu não me sentia todo-poderoso e capaz de derrotar os guardiões invencíveis e misteriosos do hidromel de Kvásir.
— Por que isto? — perguntei. — Por que vale…?
Eu não conseguia colocar em palavras os sacrifícios que tínhamos feito. Principalmente Hearthstone.
Blitzen tirou o chapéu de safári e passou os dedos pelo cabelo suado. Apesar do cheiro de morte e decomposição da caverna, ele parecia aliviado por não estar mais no sol.
— Não sei, garoto — disse ele. — Só posso supor que vamos precisar da pedra para amolar algumas lâminas.
Eu olhei para os outros artefatos de Alderman.
— Tem mais alguma coisa que deveríamos levar, já que estamos aqui? Porque eu realmente não quero voltar em Álfaheim.
— Espero que não, porque concordo totalmente. — Com relutância óbvia, ele colocou o chapéu de volta. — Vamos. Não quero deixar Hearthstone sozinho por muito tempo.

* * *

No fim das contas, Hearth não estava sozinho.
Ele tinha dado um jeito de libertar Jacques do peito do dragão. A espada, por sua vez, sendo uma arma bastante contraditória, no momento mergulhava de volta na carcaça do dragão, abrindo o peito dele como se estivesse executando uma autópsia. Hearth parecia estar orientando o movimento.
— Opa, opa, opa! — falei. — O que vocês estão fazendo?
— Ah, oi, Magnus! — Jacques flutuou no ar. Ele pareceu alegre para uma lâmina coberta de sangue gosmento. — O elfo pediu que eu abrisse o peito. Ou, pelo menos, tenho quase certeza de que foi isso. Achei que, como ele usou a magia dele para me soltar, era o mínimo que eu podia fazer! Ah, e eu já cortei o anel. Está bem ali, prontinho!
Olhei para baixo. E realmente, a alguns centímetros do meu pé descalço, o anel de Andvari cintilava no dedo inchado do dragão. Por pouco não comecei a vomitar.
— Prontinho? O que a gente vai fazer com ele?
Hearth sinalizou: Colocar junto com o tesouro. Levar para o rio e devolver para Andvari.
Blitz pegou o dedo de dragão e largou dentro da bolsa mágica.
— É melhor a gente fazer isso rápido, antes que o anel comece a nos tentar.
— Tudo bem, mas…
Eu apontei para o dragão parcialmente cortado. Eu nunca pratiquei caça, mas uma vez minha mãe namorou um cara que praticava. Ele nos levou para a floresta e tentou impressionar minha mãe me ensinando como limpar uma carcaça. (Aquilo não deu muito certo. Assim como o relacionamento deles.)
Ao olhar para o dragão, tive certeza de que Jacques estava tentando extirpar os órgãos não mais vitais do sr. Alderman.
— Por quê? — balbuciei.
Jacques riu.
— Ah, para com isso, eu achei que você soubesse! Depois de matar um dragão de anel, a gente tem que arrancar o coração, assar e comer!
E nessa hora meu almoço foi embora.


5 comentários:

  1. parabens riordan vc conseguiu q eu fizesse uma coisa q eu achava nao ser capaz, me fez chorar verdadeiramente com um trecho do seu livro


    "Andiron gesticulou: Venha aqui.
    Hearthstone hesitou. Ele chegou mais perto do fantasma.
    Vou contar um segredo, disse Andiron. Quando eu sussurrei naquele poço, eu fiz um pedido. Eu queria ser tão gentil e bom quanto você, irmão. Você é perfeito.
    O garotinho esticou seus braços de fantasma. Quando Hearthstone se inclinou para abraçá-lo, o fantasma explodiu em vapor branco.
    A runa othala caiu na palma da mão de Hearth. Ele a observou por um momento, como se fosse algo que nunca tinha visto, uma joia perdida cujo dono ia querer de volta. Ele envolveu a pedra com a mão e a encostou na testa.
    Pela primeira vez, fui eu que li os lábios dele. Eu tinha certeza de que ele sussurrou: obrigado."



    ~~filha de Hermes,neta de Hades~~

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  2. Jacques consegue carregar a trilogia no fio

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  3. Damon Herondale, filho de Zeus15 de outubro de 2017 15:42

    Só o Hearth vai comer ou os três vão? Pq se for só ele o Magnus fica com a parte de se banhar no sangue.
    Regra grega N° 6: Quem matou o monstro fica com o espólio.

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    1. Só por Heath que Magnus comeria um coração de dragão, tendo em vista o reação dele ao ouvir falar disso. mas sendo Magnus ele dividiria os louros com os amigos, mesmo sendo ele que matou o dragão.

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  4. ...
    Queimei minha língua. N era o Hearth com a voz do Andiroba: era o fantasminha msm... Teria sido mais sinistro/maneiro.

    Mesmo assim, foi MT lindo. Eu quase chorei com esses dois! 😢

    Ass.: Mutta Chase Herondale

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Boa leitura :)