8 de outubro de 2017

Vinte e seis - As coisas ficam esquisitas

EM VALHALA, NÓS passávamos muito tempo esperando.
Esperávamos nossa chamada diária para a batalha. Esperávamos nossas gloriosas mortes definitivas no Ragnarök. Esperávamos na fila da praça de alimentação para comer tacos, porque a pós-vida viking tinha apenas uma taqueria e Odin devia fazer alguma coisa quanto a isso. Vários einherjar diziam que esperar era a parte mais difícil da nossa vida. Normalmente, eu discordava. Eu ficava feliz de esperar o Ragnarök pelo máximo de tempo possível, mesmo que significasse enfrentar longas filas à espera do meu pollo asado.
Mas esperar para lutar contra um dragão? Não era minha atividade favorita.
Encontramos um túnel de brownie com facilidade. Na verdade, havia tantos buracos no chão da floresta que fiquei surpreso por não ter quebrado a perna em um. O túnel que encontramos tinha uma saída no bosque perto da clareira e outra a nove metros da entrada da caverna. Era perfeito, exceto pelo fato de que a passagem era claustrofóbica e lamacenta e cheirava a (juro que não estou inventando) brownies assados. Eu me perguntei se o exterminador tinha usado um maçarico para eliminar os pobrezinhos.
Com cuidado e em silêncio, colocamos galhos em cima do buraco perto da caverna. Era lá que eu ficaria escondido com a espada em punho, esperando o dragão passar sobre mim. Em seguida, fizemos alguns treinos práticos (que não eram de fato muito práticos naquele espaço apertado e úmido) para ver se eu conseguiria golpear com a espada para cima e deslizar para a saída mais distante do túnel.
Na terceira tentativa, quando saí ofegante e suado, Jacques anunciou:
— Vinte e um segundos. Foi pior do que da última vez! Você vai virar sopa de ácido com certeza!
Blitzen sugeriu que eu tentasse de novo. Ele me garantiu que tínhamos tempo, pois dragões de anel tinham hábitos noturnos. Só que estávamos trabalhando muito perto do covil do dragão e eu não queria abusar da sorte.
Além disso, não queria voltar para aquele buraquinho.
Retornamos ao monte de pedra, onde Hearthstone praticava sua magia sozinho. Ele não queria nos contar o que estava fazendo e nem quais eram seus planos. Achei que o cara já estava traumatizado o bastante sem que eu o interrogasse. Só esperava que a ideia de atrair o dragão funcionasse e que ele não precisasse servir de isca.
Esperamos o cair da noite e nos revezamos para tirar cochilos. Não consegui dormir muito e, quando peguei no sono, tive pesadelos. Eu me vi novamente no navio dos mortos, mas agora o convés estava estranhamente vazio. De uniforme de almirante, Loki andava de um lado para outro na minha frente, estalando a língua como se eu tivesse fracassado em uma inspeção de uniforme.
— Que negligência, Magnus. Ir atrás dessa pedra de amolar idiota restando tão pouco tempo? — Ele chegou bem perto do meu rosto, os olhos tão próximos que eu via os pontinhos de fogo em suas íris. O hálito tinha cheiro de veneno mal disfarçado com hortelã. — Mesmo que você encontre, e daí? A ideia do seu tio é tolice. Você sabe que não pode me vencer. — Ele deu um peteleco no meu nariz. — Espero que você tenha um plano B!
A gargalhada de Loki desabou sobre mim como uma avalanche, me derrubando no convés e espremendo meus pulmões até eu perder todo o ar. De repente, eu estava de volta no túnel dos nisser, com pequenos brownies empurrando freneticamente minha cabeça e meus pés, gritando enquanto tentavam passar. As paredes de lama desabaram. Meus olhos ardiam com a fumaça. Chamas rugiam aos meus pés, torrando meus sapatos. Acima da minha cabeça, gotas de ácido corroíam a lama, chiando ao redor do meu rosto.
Acordei arfando. Não conseguia parar de tremer. Queria pegar meus amigos e ir embora de Álfaheim. Esquecer a pedra de amolar idiota de Bolverk. Esquecer o hidromel de Kvásir. A gente ia encontrar um plano B. Qualquer plano B.
Mas a parte racional do meu cérebro sabia que essa não era a resposta. Nós estávamos seguindo o plano A mais insano e horrendo imaginável, o que queria dizer que devia ser o certo. Ao menos uma vez eu queria poder ter uma missão que envolvesse atravessar o corredor, apertar um botão de SALVAR O MUNDO, voltar para o quarto e dormir por mais algumas horas.
Ao pôr do sol, nos aproximamos do covil do dragão. Agora, tínhamos passado mais de um dia na floresta e nosso cheiro não estava muito bom. Isso trouxe lembranças de nossos dias de sem-teto, nós três encolhidos juntos em sacos de dormir imundos nos becos de Downtown Crossing. Ah, os bons e velhos tempos!
Minha pele coçava de sujeira e suor. Eu só conseguia imaginar como Blitz devia se sentir com aquela roupa pesada de proteção. Hearthstone parecia limpo e impecável como sempre, embora a luz noturna de Álfaheim deixasse seu cabelo da cor de refrigerante Tizer. Por ser elfo, o odor corporal mais pungente que ele produzia não era pior do que Pinho Sol diluído.
Jacques estava pesado na minha mão.
— Lembre-se, o coração fica na terceira fenda da armadura. Você tem que contar as linhas enquanto o dragão se arrasta acima de você.
— Supondo que eu consiga enxergar? — perguntei.
— Vou brilhar para você! Mas lembre-se: um golpe rápido e pule fora. O sangue vai jorrar como água de uma mangueira de incêndio…
— Entendi — interrompi Jacques, enjoado. — Obrigado.
Blitzen apertou meu ombro.
— Boa sorte, garoto. Vou esperar na saída para puxar você. A não ser que Hearth precise de ajuda…
Ele olhou para o elfo como se em busca de mais detalhes além de podem deixar comigo.
Hearthstone sinalizou: Podem deixar comigo.
Respirei fundo, trêmulo.
— Se tiverem que correr, corram. Não me esperem. E se… se eu não sobreviver, digam aos outros…
— Nós vamos dizer — prometeu Blitzen. Ele parecia saber o que eu queria dizer para todo mundo, o que era bom, porque eu mesmo não sabia. — Mas você vai voltar.
Eu abracei Hearth e Blitz e os dois toleraram o contato, apesar do fedor. Em seguida, como um grande herói da antiguidade, entrei no meu buraco.
Fui me contorcendo pelo túnel dos nisser, o nariz impregnado pelo cheiro de barro e chocolate queimado. Quando cheguei na abertura que ficava junto ao covil do dragão, me encolhi, grunhindo, chutando e contorcendo as pernas até minha cabeça estar voltada para o lado contrário. (Por mais horrível que fosse rastejar pelo túnel, sair de costas, com os pés na frente, teria sido ainda pior.)
Fiquei deitado de barriga para cima, olhando para o céu pelo emaranhado de galhos. Com cuidado para não me matar, conjurei Jacques. Coloquei-o do meu lado esquerdo, o cabo na minha cintura, a ponta apoiada no meu ombro.
Eu teria que golpear para cima em um ângulo complicado. Usando a mão direita, teria que enfiar a espada diagonalmente, guiar a ponta até a fenda na armadura da barriga do dragão e forçá-la para dentro com tudo até o coração, usando toda a minha força de einherji. Depois, teria que me arrastar até a saída do túnel antes de tomar um banho de ácido.
A tarefa parecia impossível. Provavelmente porque era mesmo.
O tempo passava devagar no túnel lamacento. Meus únicos companheiros eram Jacques e algumas minhocas rastejando pelas minhas panturrilhas, dando uma conferida nas minhas meias.
Comecei a achar que o dragão não sairia para jantar. Talvez fosse pedir uma pizza. E um entregador elfo da Domino’s acabaria caindo em cima de mim. Já estava quase perdendo a esperança quando o odor pútrido de Alderman me atingiu como se mil sapos kamikazes em chamas tivessem mergulhado nas minhas narinas.
Acima, os galhos entrelaçados estalaram quando o dragão saiu da caverna.
— Estou com sede, sr. Alderman — grunhiu ele para si mesmo. — E com fome também. Inge não me serve um jantar decente há dias, semanas, meses? Onde está aquela garota inútil?
Ele se arrastou para mais perto do meu esconderijo. Choveu terra no meu peito. Prendi a respiração enquanto eu esperava o túnel desabar em cima de mim.
O focinho do dragão surgiu na abertura. Ele só precisava olhar para baixo e me veria. Eu ficaria torrado como um nisse.
— Eu não posso sair — murmurou o sr. Alderman. — O tesouro precisa ser protegido! Os vizinhos! Não posso confiar neles!
Ele rosnou de frustração.
— Volte, então, sr. Alderman. Volte para seus deveres!
Antes que ele pudesse recuar, de algum lugar na floresta, uma luz intensa pintou o focinho do dragão de âmbar, a cor da magia de runas de Hearthstone.
O dragão sibilou e soltou fumaça por entre os dentes.
— O que foi isso? Quem está aí?
— Pai.
A voz congelou minha medula. O som ecoou, fraco e suplicante, como uma criança gritando do fundo de um poço.
— NÃO! — O dragão bateu com os pés no chão, sacudindo as minhocas nas minhas meias. — Impossível! Você não está aqui!
— Venha até aqui, pai — suplicou a voz de novo.
Eu não conheci Andiron, o irmão morto de Hearth, mas achava que estava ouvindo a voz dele. Hearthstone usara a runa othala para conjurar essa ilusão ou tinha conseguido algo ainda mais terrível? Eu me perguntei para onde os elfos iam quando morriam e se seus espíritos podiam ser trazidos de volta para assombrar os vivos…
— Senti sua falta — disse a criança.
O dragão uivou de sofrimento. Soprou fogo por cima do meu esconderijo, mirando a direção de onde vinha a voz. Todo o oxigênio foi sugado dos meus pulmões. Lutei contra o impulso de ofegar. Jacques vibrou suavemente na lateral do meu corpo para me dar apoio.
— Eu estou aqui, pai — insistiu a voz. — Quero salvar você.
— Me salvar? — perguntou o dragão e seguiu em frente.
Veias pulsavam na parte de baixo da garganta verde e escamosa. Eu me perguntei se conseguiria perfurar a goela dele – parecia um alvo fácil – mas ela estava muito acima de mim, fora do alcance da espada. Além disso, Hearthstone foi bem específico: eu tinha que mirar no coração.
— Me salvar de quê, meu menino precioso? — O tom do dragão era torturado e grave, quase humano… ou melhor, quase élfico. — Como você pode estar aqui? Ele matou você!
— Não — retrucou a criança. — Ele me trouxe aqui para te ajudar.
O focinho do dragão estremeceu. Ele baixou a cabeça como um cachorro acuado.
— Ele… ele mandou você? Ele é seu inimigo. Meu inimigo!
— Não, pai — disse Andiron. — Por favor, escute. Ele me deu a chance de persuadir você. Nós podemos ficar juntos na próxima vida. Você pode se redimir e se salvar se abrir mão do anel por vontade própria…
— DO ANEL! Eu sabia! Mostre-se, traidor!
O pescoço do dragão estava muito próximo. Eu poderia enfiar a lâmina de Jacques na artéria carótida e… Jacques zumbiu um alerta mental. Não. Ainda não.
Eu queria conseguir enxergar o que estava acontecendo na beirada da clareira. Percebi que Hearth não tinha apenas criado uma distração mágica, ele havia conjurado o espírito de Andiron na esperança de que, mesmo contra todas as probabilidades, o irmão pudesse salvar o pai daquele destino miserável. Mesmo agora, depois de tudo que Alderman fizera para ele, Hearthstone estava disposto a dar ao pai uma chance de redenção, mesmo que isso significasse ficar à sombra do irmão uma última vez.
A clareira ficou silenciosa. Ao longe, ouvi o ruído de arbustos se mexendo. Alderman decretou:
— VOCÊ.
Eu só conseguia imaginar uma pessoa com quem Alderman falaria com tanto desprezo. Hearthstone devia ter se revelado.
— Pai — suplicou o fantasma de Andiron. — Não faça isso…
— O imprestável Hearthstone! — gritou o dragão. — Como você ousa recorrer à magia para manchar a memória do seu irmão?
Uma pausa. Hearthstone devia ter dito alguma coisa em linguagem de sinais, porque Alderman berrou em resposta:
— Use o quadro!
Trinquei os dentes. Até parece que Hearth carregaria com ele o tal quadrinho horroroso em que o pai obrigava o filho a escrever, não porque Alderman não fosse capaz de ler linguagem de sinais, mas porque gostava de fazer o filho se sentir diferente.
— Vou te matar — disse o dragão. — Você ousa me enganar com esse fingimento grotesco?
Ele avançou, rápido demais para eu reagir. Sua barriga cobriu o buraco dos nisser e me deixou na escuridão. Jacques acendeu as runas, iluminando o túnel, mas eu já estava desorientado de medo e choque. Uma fenda na armadura da barriga do dragão apareceu acima de mim, mas eu não tinha ideia de quanto do corpo dele já tinha passado. Se eu golpeasse agora, acertaria o coração? A vesícula? O intestino delgado?
Jacques zumbiu na minha mente: Não vai adiantar! Essa é a sexta fenda! O dragão precisa recuar!
Eu me perguntei se o sr. Alderman responderia a um pedido educado. Eu duvidava muito.
O dragão tinha parado de se mover. Por quê? O único motivo em que conseguia pensar: Alderman estava arrancando o rosto de Hearthstone com os dentes. Entrei em pânico. Quase enfiei a espada na sexta fenda do monstro, desesperado para tirá-lo de cima do meu amigo. E então, abafada pelo rugido da criatura, ouvi uma voz poderosa gritar:
— PARA TRÁS!
Meu primeiro pensamento: o próprio Odin aparecera na frente do dragão. Estava intervindo para salvar a vida de Hearthstone para que suas sessões de treinamento em magia de runas não tivessem sido em vão. O grito de ordem foi tão alto que tinha que ser Odin. Eu já havia ouvido trombetas de guerra jötunn com menos poder.
A voz trovejou de novo:
— PARA TRÁS, SEU SER IMUNDO QUE FINGE QUE É UM PAI!
Então reconheci o sotaque: um pouco do sul de Boston com um toque de svartalfar.
Ah, não. Não, não, não. Não era Odin.
— VOCÊ NÃO VAI CHEGAR PERTO DO MEU AMIGO, ENTÃO PODE DAR RÉ NESSA CARCAÇA FEDORENTA COM CHEIRO DE SAPO MORTO!
Cristalina como água, visualizei a cena: o dragão, atordoado e perplexo, paralisado por um novo oponente. Como pulmões tão pequenos podiam produzir tamanho volume eu não fazia ideia, mas tinha certeza de que a única coisa entre Hearthstone e uma morte inflamada era um anão bem-vestido com chapéu de safári.
Eu devia estar maravilhado, impressionado, inspirado. Mas só queria chorar. Assim que o dragão se recuperasse do susto, eu sabia que mataria meus amigos. Ele lançaria chamas em Blitzen e Hearthstone e não deixaria nada para eu limpar além de uma pilha de cinzas cheias de estilo.
— PARA TRÁS! — berrou Blitzen.
Incrivelmente, Alderman recuou e revelou a quinta fenda na armadura.
Talvez ele não estivesse acostumado a gritarem com ele assim. Talvez temesse que algum tipo de demônio terrível estivesse escondido embaixo da redinha preta de Blitz.
— VOLTE PARA A SUA CAVERNA FEDIDA! — gritou Blitzen. — AGORA!
O dragão rosnou, mas recuou até aparecer mais uma fenda. Jacques zumbiu nas minhas mãos, pronto para o serviço. Mais uma seção da armadura e…
— Ele é só um anão idiota, sr. Alderman — murmurou o dragão para si mesmo. — Quer seu anel.
— EU NÃO LIGO PARA O SEU ANEL IDOTA! — gritou Blitz. — CHISPA DAQUI!
Talvez o dragão estivesse atordoado pela sinceridade de Blitzen. Ou talvez Alderman estivesse confuso por ver o anão de pé na frente de Hearthstone e do fantasma de Andiron, como um pai protegendo os filhos. Esse instinto teria feito tão pouco sentido para Alderman quanto uma pessoa que não era motivada por ganância.
Ele recuou mais alguns centímetros. Quase lá…
— O anão não é uma ameaça, senhor — garantiu o dragão para si mesmo. — Vai dar um ótimo jantar.
— VOCÊ ACHA? — rugiu Blitz. — EXPERIMENTA!
Ssssss.
Alderman recuou mais alguns centímetros. A terceira fenda apareceu. Agitado e em pânico, eu posicionei a ponta de Jacques no ponto fraco da couraça.
E, com toda a minha força, enfiei a espada no peito do dragão.


7 comentários:

  1. Brownies assados... por mais terrível que isso pareça eu tive uma crise de riso.

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  2. kkkkkkk deuses kk o povo ficou ate sem fala nesse cap

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  3. MORRE ENVIADO DO SATANÁS!

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    1. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 15:18

      Eu repito isso, grito no megafone e faço um letreiro neon

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    2. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 15:19

      Alderman é um saco!

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    3. Concordo, el é um saco e...
      Não o chame de enviado do satanás.
      É uma ofensa a satanás!

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  4. Só eu imaginei como se o Hearthstone estivesse usando a voz do irmão pra falar com o pai? Passou pela minha cabeça de início, mas o Alderman falando q o Hearth usou magia p manchar a memória do irmão me deixou MT suspeita.

    Ass.: Mutta Chase Herondale

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Boa leitura :)