8 de outubro de 2017

Vinte e quatro - Eu gostava mais do pai de Hearthstone quando ele era um alienígena que abduzia vacas

ENQUANTO ESPERÁVAMOS, HEARTHSTONE providenciou o jantar.
Do saco de runas, ele tirou este símbolo:


Parecia um X comum para mim, mas Hearthstone explicou que era gebo, a runa que simbolizava os presentes. Em um brilho de luz dourada, uma cesta de piquenique apareceu, transbordando de pão fresco, uvas, um queijo redondo e várias garrafas de água mineral com gás.
— Eu gosto de presentes — falei, mantendo a voz baixa. — Mas o cheiro não vai atrair… hã, atenções indesejadas?
Apontei para a entrada da caverna.
— Improvável — disse Blitzen. — O cheiro que vem da caverna é bem mais pungente do que qualquer coisa nesta cesta. Mas, só por segurança, vamos comer tudo rápido.
— Gosto da sua maneira de pensar.
Blitzen e eu fomos com tudo, mas Hearthstone só se posicionou atrás do tronco caído e ficou observando.
— Não vai comer? — perguntei a ele.
Ele balançou a cabeça. Não estou com fome, sinalizou. Além do mais, g-e-b-o faz presentes. Não para quem dá. Quem dá tem que fazer um sacrifício.
— Ah. — Eu olhei para o pedaço de queijo que estava prestes a colocar na boca. — Não parece justo.
Hearthstone deu de ombros e fez sinal para continuarmos com o banquete. Eu não gostava da ideia de que estivesse se sacrificando para podermos jantar. Só de ele estar em casa, esperando o pai sair de uma caverna, já parecia sacrifício suficiente. Não precisava de sua própria runa do ramadã.
Por outro lado, seria grosseria recusar um presente, então comi.
As sombras se alongavam à medida que o sol se punha. Por experiência, sabia que em Álfaheim nunca ficava escuro. Como o Alasca no verão, o sol só chegava até o horizonte e subia de novo. Os elfos eram criaturas da luz, o que era prova de que luz não era sinônimo de bom. Eu tinha conhecido vários elfos (com exceção de Hearth) que confirmavam isso.
As sombras aumentaram, mas não o bastante para Blitz tirar o equipamento protetor de sol. Devia estar uns mil graus dentro daquele casaco pesado. De tempos em tempos ele tirava um lenço do bolso e dava batidinhas suaves com ele por baixo da rede, enxugando suor do pescoço.
Hearthstone mexeu em alguma coisa no pulso, uma pulseira de cabelo louro trançado que eu nunca tinha visto. A cor das mechas me pareceu vagamente familiar…
Eu bati na mão dele para chamar sua atenção. Isso é da Inge?
Hearth fez uma careta, como se o assunto fosse constrangedor. Em nossa última visita, Inge, a criada maltratada do sr. Alderman, nos ajudou muito. Ela era uma huldra, uma espécie de elfo com cauda de vaca, e conhecia Hearth desde que os dois eram crianças. No fim das contas, Inge também tinha uma quedinha enorme por ele e até deu um beijo na bochecha de Hearth, declarando seu amor antes de fugir em meio ao caos da última festa do sr. Alderman.
Nós a visitamos alguns dias atrás, sinalizou Hearth. Enquanto estávamos observando. Ela mora com a família agora.
Blitz suspirou de exasperação, o que, é claro, Hearth não conseguiu ouvir. Inge é legal, sinalizou o anão. Mas… Ele fez Vs com as duas mãos e as moveu em círculo na frente da testa, como se tivesse tirando coisas da cabeça. Nesse contexto, imaginei que o sinal significava alguma coisa como louca.
Hearthstone franziu a testa. Não é justo. Ela tentou ajudar. A pulseira de uma huldra traz sorte.
Se você diz, sinalizou Blitz.
Estou feliz de ela estar bem, falei. A pulseira é mágica?
Hearth começou a responder. Mas suas mãos pararam. Ele farejou o ar e fez um sinal: ABAIXEM!
As aves tinham parado de piar nas árvores. A floresta toda pareceu prender a respiração.
Ficamos ainda mais agachados, os olhos mal conseguindo espiar por cima da árvore caída. Quando puxei o ar novamente, senti um fedor de sapo morto tão forte que precisei segurar a ânsia de vômito.
Dentro da entrada da caverna, gravetos e folhas secas estalaram sob o peso de uma coisa enorme.
Os pelos do meu pescoço se eriçaram. Desejei ter invocado Jacques para estar pronto para lutar se precisasse, mas Jacques não era bom em situações de tocaia, com sua tendência a brilhar e cantar.
Até que pela entrada da caverna saiu… Ah, deuses de Asgard.
Eu estava alimentando esperanças de que Alderman tivesse virado uma coisa não muito ruim. Talvez sua forma amaldiçoada fosse um filhote de Weimaraner ou uma iguana chuckwalla. Claro que no fundo eu sempre soube a verdade. Só não queria admitir.
Hearth tinha me contado histórias de terror sobre o que aconteceu com ladrões que ousaram pegar o anel. Agora, eu via que ele não estava exagerando.
O monstro que saía da caverna era tão horrível que não fui capaz de compreendê-lo à primeira vista.
Primeiro, notei o anel que cintilava no dedo do meio da pata dianteira direita, um aro dourado afundado na pele escamosa. Provavelmente causava muita dor e fazia latejar como um torniquete. A ponta do dedo estava preta e murcha. Cada uma das quatro patas do monstro tinha o diâmetro de uma tampa de lata de lixo. As pernas curtas e grossas sustentavam um corpo de lagarto, com talvez uns quinze metros do nariz à cauda, a coluna cheia de espinhos maiores do que minha espada.
A cara eu tinha visto no sonho: olhos verdes brilhantes, um focinho achatado com narinas gosmentas, uma boca horrível com fileiras de dentes afiados. A cabeça era coberta de penas verdes. A boca me fazia lembrar a do lobo Fenrir: era grande e expressiva demais para um monstro, os lábios muito humanos. Pior de tudo: havia tufos brancos grudados em sua testa, o que restava do cabelo antes impressionante do sr. Alderman.
O novo e draconiano Alderman saiu da caverna, resmungando, sorrindo, rosnando e rindo histericamente, tudo sem motivo aparente.
— Não, sr. Alderman — sibilou ele. — Você não deve sair, senhor!
Com um rugido de frustração, ele arrotou uma coluna de fogo pelo solo da floresta, torrando os troncos das árvores mais próximas. O calor fez minhas sobrancelhas crepitarem como papel de arroz.
Eu não ousei me mexer. Não podia nem olhar para os meus amigos para ver como estavam encarando aquilo.
Agora vocês podem estar pensando: Magnus, você já viu dragões. Qual é o problema?
Tudo bem, era verdade. Eu já tinha visto um dragão ou outro. Uma vez até lutei com um lindwyrm.
Mas eu nunca havia enfrentado um dragão que já tinha sido uma pessoa que eu conhecia. Eu nunca vira uma pessoa ser transformada em uma coisa tão horrível, tão fedorenta, tão malévola e… tão obviamente correta. Aquele era o verdadeiro sr. Alderman, suas piores qualidades encarnadas.
Isso me apavorou. Não só saber que aquela criatura podia nos torrar vivos, mas a ideia de que qualquer um podia ter um monstro assim dentro de si. Não pude deixar de me perguntar… se eu tivesse colocado aquele anel, se os piores pensamentos e falhas de Magnus Chase ganhassem forma, o que teria acontecido comigo?
O dragão deu outro passo até só a ponta da cauda ficar dentro da caverna.
Prendi a respiração. Se o dragão saísse para caçar, talvez pudéssemos correr até a caverna quando ele estivesse fora, encontrar a pedra de amolar e ir embora de Álfaheim sem precisar lutar. Eu gostaria de uma vitória fácil assim.
O dragão gemeu.
— Muita sede! O rio não fica longe, sr. Alderman. Só um gole rápido, talvez?
Ele riu sozinho.
— Ah, não, sr. Alderman. Seus vizinhos são ardilosos. Fingidos! Ambiciosos! Eles adorariam que você deixasse seu tesouro desprotegido. Tudo que você se esforçou tanto para ter… sua riqueza! Só sua! Não, senhor. Volte para dentro! Volte!
Sibilando e cuspindo, o dragão recuou para a caverna, deixando para trás apenas o fedor de sapo morto e algumas árvores em brasa.
Eu ainda não conseguia me mexer. Esperando para ver se o dragão reapareceria, contei até cinquenta, mas o show da noite parecia ter acabado.
Depois de um tempo meus músculos começaram a relaxar e me sentei atrás da nossa árvore caída. Minhas pernas tremiam incontrolavelmente. Eu estava com uma vontade absurda de fazer xixi.
— Deuses — murmurei. — Hearthstone, eu…
Palavras e sinais sumiram da minha cabeça. Como eu poderia me solidarizar ou mesmo começar a entender o que Hearthstone devia estar sentindo?
Sua boca ficou travada em uma linha fina. Os olhos brilhavam com uma determinação resoluta, uma expressão que me lembrava muito o pai dele. Ele abriu a mão e bateu com o polegar no peito. Estou bem.
Às vezes nós mentíamos para enganar as pessoas. Às vezes, mentíamos por querer que a mentira se tornasse verdade. Com Hearth, acho que era a segunda opção.
— Ei, amigo — sussurrou Blitzen enquanto sinalizava. A voz dele parecia estar esmagada sob o peso do dragão. — Magnus e eu podemos resolver isso. Deixe a gente tentar.
A ideia de Blitzen e eu enfrentando aquele monstro sozinhos não ajudou muito meu problema de bexiga, mas eu assenti.
— É. Claro. Talvez a gente consiga atrair o dragão para fora e entrar sorrateiramente…
Vocês estão errados, sinalizou Hearthstone. Nós temos que matá-lo. E eu preciso ajudar.


6 comentários:

  1. Completamente chocado...
    Nunca achei que pudesse sentir medo lendo um livro do tio Rick

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  2. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 12:38

    Alderman virou um Farnir ainda mais horrível. Eles estão f******s.
    Por outro lado isso pode ser uma oportunidade, se eles forem espertos. O sangue do dragão Fafnir era como o Rio Estige, acho que o do Alderman é igual.

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    1. Eu tinha lido uma lenda que era assim, que quando vc se banhava em sangue de dragão a pessoa se tornava "indestructível", mas isso é um livro do tio Rick e as coisas saem um pouco diferem do que já tínhamos visto antes, né???!!!

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  3. Não sei porque, mas só consegui imaginar o sr. Alderman como uma versão masculina da Cuca do sítio so pica-pau amarelo. Fui a única que imaginou assim???
    Tadinho do Hearth ainda mais sofrimento pra ele :(

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  4. A história do Hearth é muito triste, e parece que só piora

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  5. Eu achei que o monstro fosse mais nojento, esperava um bicho gosmento e deformado, mas acho que isso não existe na mitologia nórdica, cara, eu sempre me lembro de senhor dos anéis quando falam do "pai do ano".
    Cara, coitado do Hearth, tendo que suportar tudo isso... não consigo imaginar a dor dele.

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Boa leitura :)