8 de outubro de 2017

Vinte e oito - Nunca me peça para cozinhar o coração do meu inimigo

ATÉ AQUELE PONTO da missão, eu tinha me saído bem em não vomitar. Eu estava a caminho de me tornar um verdadeiro profissional nisso.
Mas a ideia de comer o coração de um dragão – comer a nojeira cruel que Alderman chamava de coração – foi demais.
Eu cambaleei para a floresta e vomitei por tanto tempo que quase desmaiei.
Quando melhorei um pouco, Blitz segurou meu ombro e me levou para longe da clareira.
— Tudo bem, garoto. Eu sei. Vamos.
Quando voltei a ficar mais ou menos bem, percebi que Blitzen estava me levando para o rio onde conhecemos Andvari. Eu não confiava na minha voz, exceto por um ocasional “Ai!” quando pisava descalço em uma pedra, um galho ou um formigueiro de formigas de fogo de Álfaheim.
Por fim, chegamos até a margem. Parado na beira de uma pequena cachoeira, olhei para a lagoa de Andvari. Não tinha mudado muito desde a última vez. Era impossível saber se o velho anão coberto de lodo ainda morava lá, disfarçado de peixe. Talvez depois que o roubamos ele tivesse desistido, decidido se aposentar e se mudado para Miami. Se sim, fiquei tentado a me juntar a ele.
— Está pronto? — A voz de Blitz soou tensa. — Vou precisar da sua ajuda.
Encarei-o com olhos semicerrados. Blitz segurou a bolsa de lona na beirada, pronto para jogar o conteúdo na lagoa, mas seus braços estavam tremendo. Ele puxou a bolsa de volta, como se para salvar o tesouro de seu destino, mas esticou os braços novamente com dificuldade, como se estivesse fazendo supino com o peso do ouro.
— Você vai ter… que me ajudar… — resmungou Blitz. — Um anão… jogar fora… um tesouro. Não é… fácil.
De alguma forma, consegui afastar a cabeça do pensamento Comer o coração do dragão? Como assim? Peguei a outra alça da bolsa. Na mesma hora, senti o que Blitz queria dizer. Minha mente foi tomada de ideias gloriosas do que eu poderia fazer com todo aquele tesouro… comprar uma mansão! (Mas espera aí… eu já tinha a mansão do tio Randolph, e nem fazia questão.) Comprar um iate! (Eu já tinha um barco amarelo enorme. Não, obrigado.) Guardar para a aposentadoria! (Já estava morto.) Mandar meus filhos para a faculdade! (Einherjar não podem ter filhos. Nós estamos mortos.)
A bolsa estremeceu e se debateu. Parecia estar reavaliando sua estratégia.
Tudo bem, sussurrou ela nos meus pensamentos, que tal ajudar os sem-teto? Pense em todo o bem que você poderia fazer com esse ouro, e o que está na bolsa é apenas uma parte! Se você colocar aquele belo anel, sua riqueza será infinita! Pode construir casas! Doar comida! Oferecer cursos de capacitação profissional!
Essas possibilidades eram mais tentadoras… Mas sabia que era um truque. Aquele tesouro nunca faria bem para ninguém. Eu olhei para as minhas pernas nuas, arranhadas e sujas de lama. Lembrei-me do cheiro sufocante da barriga do dragão. Lembrei-me da expressão de infelicidade de Hearthstone quando ele se despediu do pai.
Murmurei:
— Tesouro idiota.
— É — concordou Blitz. — No três? Um, dois…
Nós jogamos a bolsa na lagoa. Resisti à vontade de pular atrás dela.
— Aí está, Andvari. Divirta-se.
Ou talvez Andvari tivesse ido embora. Nesse caso, tínhamos acabado de transformar uma família de trutas em bilionários.
Blitz suspirou de alívio.
— Certo, é um problema a menos. Agora… a outra coisa.
Meu estômago se rebelou novamente.
— Eu não tenho mesmo que…?
— Comer o coração do dragão? Você? — Blitz balançou a cabeça. — Bom, foi você que o matou… Mas, nesse caso, não. Você não precisa comer o coração.
— Graças aos deuses.
— Hearth tem que fazer isso.
— O quê?
Blitz encolheu os ombros.
— O dragão era pai do Hearth, Magnus. Quando se mata um dragão de anel, o único jeito de seu espírito descansar é destruindo o coração. Pode ser queimando…
— Isso, parece uma ótima ideia.
— … ou ingerindo, e nesse caso você herda todas as lembranças e a sabedoria do dragão.
Tentei imaginar por que Hearthstone ia querer as lembranças ou a “sabedoria” do pai. Aliás, por que ele se sentia na obrigação de garantir que o espírito maléfico de Alderman descansasse? Andiron disse para ele não perder nem mais um minuto se preocupando com seu morto e velho pai, e isso me pareceu um excelente conselho de irmão.
— Mas se Hearth… Quer dizer, isso não é canibalismo, dragobalismo, sei lá?
— Não sei responder. — Blitz parecia estar morrendo de vontade de gritar bem alto SIM, EU SEI QUE É NOJENTO. — Mas vamos respeitar a decisão dele.

* * *

Jacques e Hearthstone tinham feito uma fogueira. Meu amigo elfo girava um espeto sobre as chamas enquanto Jacques flutuava ao lado cantando a polca “Barril de Chopp” a plenos pulmões inexistentes. Por ser surdo, Hearthstone era a plateia perfeita.
A cena teria sido encantadora se não fosse a carcaça de dragão de seis toneladas apodrecendo ali perto, a expressão nauseada no rosto pálido de Hearthstone e a coisa preta e brilhante do tamanho de uma bola de basquete estalando no espeto, espalhando um cheiro de churrasco no ar. O fato de o coração de Alderman ter cheiro de comida me deixou ainda mais enjoado.
Hearthstone sinalizou com a mão livre: Pronto?
Pronto, sinalizou Blitz. O tesouro e o anel já se foram. Os peixes estão ricos.
Hearthstone assentiu, aparentemente satisfeito. O cabelo louro estava sujo de lama e com umas folhinhas grudadas, o que ridiculamente me lembrou confete, como se a floresta estivesse comemorando a morte do pai dele.
— Hearth, cara… — Eu apontei para o coração. — Você não precisa fazer isso. Tem que ter outro jeito.
— Foi o que eu disse para ele! — exclamou Jacques. — Claro que ele não consegue me ouvir, mas mesmo assim!
Hearth tentou sinalizar com apenas uma das mãos, o que era como tentar falar sem usar as vogais, mas desistiu, frustrado. Apontou para mim e para o espeto: Segure isso para mim.
Eu não queria chegar perto daquele coração de dragão, mas era o único que conseguia falar e girar o espeto ao mesmo tempo.
Hearth podia ler meus lábios. Blitzen sabia sinalizar, mas o rosto estava coberto com a rede. E Jacques… bom, ele não era muito útil.
Então eu assumi o dever de assar o órgão no espeto. O coração parecia pesado demais e bambo demais para aquela estrutura improvisada de galhos de árvore. Manter o equilíbrio dele sobre as chamas exigia realmente muita concentração.
Hearthstone flexionou os dedos, se aquecendo para uma longa conversa. Seu pomo de adão subia e descia como se a garganta já estivesse protestando contra o menu-degustação do dia.
Se eu comer o coração, sinalizou Hearthstone, o conhecimento do meu pai não vai se perder para sempre.
— É — falei —, mas por que você quer isso?
Os dedos dele hesitaram. Lembranças da minha mãe, de Andiron. Conhecer o passado da família. Saber minha…
Ele fez um H com dois dedos esticados e bateu nas costas da mão oposta. Concluí que era o sinal de história, apesar de parecer mais um professor batendo com a régua em um aluno desobediente.
— Mas você só saberia as coisas da perspectiva do seu pai. Ele era venenoso. Como Andiron disse, você não deve nada a Alderman. Ele não tem sabedoria para oferecer.
Jacques riu.
— Não é? O sujeito colecionava pedras, afinal!
Concluí que a melhor coisa naquela situação era Hearth e minha espada não poderem se comunicar.
Hearth comprimiu os lábios. Ele me entendeu direitinho, mas percebi que eu não estava dizendo nada que meu amigo já não soubesse. Hearth não queria comer aquela coisa nojenta. Mas se sentia… eu não sabia a palavra certa em inglês nem em linguagem de sinais. Obrigado? Forçado pela honra? Talvez Hearth tivesse esperança de que, se conhecesse os verdadeiros pensamentos do pai, acabasse encontrando um pouco de amor neles, alguma coisa que pudesse redimi-lo a seus olhos.
Eu sabia que não seria o caso. Não gostava de reviver o passado. Era doloroso. Ao enxergar o que havia por trás do exterior horrível de alguém, normalmente se encontrava um interior igualmente horrível, moldado por uma história horrível. Eu não queria os pensamentos de Alderman afetando Hearthstone ao serem literalmente ingeridos por ele. Tinha que haver uma opção vegetariana. Ou budista. Eu teria escolhido até uma refeição adequada a cabelo verde.
Blitzen se sentou e cruzou as pernas. Deu um tapinha no joelho do elfo. A escolha é sua. Mas a alma dele ainda vai descansar se você se decidir pela outra opção.
— Sim! Destrua o coração. Deixe isso pra…
Foi nessa hora que eu me enrolei todo. Fiquei empolgado demais. Estava concentrado em Hearth, sem prestar atenção no meu trabalho de chef. Virei o espeto com força demais. O coração balançou. A estrutura toda desabou e caiu direto no fogo.
Ah, mas esperem um pouco. Fica pior. Com meus reflexos velozes como um raio e incrivelmente idiotas de einherji, eu tentei pegar o coração. Quase consegui, mas rolou pela ponta dos meus dedos e caiu nas chamas, entrando em combustão como se os ventrículos estivessem cheios de gasolina. Em um brilho vermelho, o coração sumiu.
Ah, mas esperem. Fica ainda pior. O coração quente deixou gordura fervente nos meus dedos. E, burro e incrivelmente nojento como sou, eu reagi como a maioria das pessoas reage quando toca em algo quente. Eu botei os dedos na boca.
O gosto era como de pimenta-malagueta misturada com xarope Hawaiian Punch. Tirei a ponta dos dedos da boca e tentei cuspir o sangue. Tive ânsia de vômito e limpei a língua. Engatinhei para o lado cuspindo.
— Não! Pffftss. Não! Pffftss. Não!
Mas era tarde demais. Aquela pequena prova de sangue de coração de dragão tinha se infiltrado no meu organismo. Consegui sentir penetrando na minha língua, se espalhando pelos meus capilares.
— Magnus! — Jacques voou na minha direção, as runas brilhando em laranja. — Você não devia ter feito isso!
Engoli um insulto sobre os poderes de análise quase divinos da minha espada.
O rosto de Blitzen continuava escondido pela rede, mas a postura estava ainda mais rígida do que quando ele foi petrificado.
— Garoto! Ah, deuses, você está bem? Sangue de dragão pode… bom, pode despertar umas coisas estranhas no seu DNA. Humanos têm DNA, não têm?
Eu queria responder que não. Segurei a barriga com medo de já estar virando um dragão. Ou pior, um pai elfo do mal.
Eu me obriguei a encarar os olhos de Hearthstone.
— Hearth, eu… sinto muito. Foi um acidente, juro. Eu não pretendia…
Minha voz falhou. Eu não sabia se eu acreditava em mim. Não sabia por que Hearth acreditaria. Eu tinha sugerido destruir o coração. Aí, fui lá e fiz exatamente isso. Pior, eu botei na boca.
O rosto de Hearth era uma máscara de choque.
— Me diga o que fazer — supliquei. — Vou procurar um jeito de consertar as coisas…
Hearthstone ergueu uma das mãos. Eu já tinha visto o muro de gelo que ele erguia nas raras ocasiões em que ficava realmente furioso, mas não era o que estava vendo agora. Os músculos pareciam estar relaxando, e a tensão, sumindo. Ele parecia… aliviado.
É wyrd, sinalizou Hearth. Você matou o dragão. O destino decidiu que você sentiria o gosto do sangue dele.
— Mas…
Eu me segurei para não pedir desculpas de novo. A expressão de Hearth deixava claro que ele não queria isso.
Você permitiu que a alma do meu pai descansasse, sinalizou Hearth. Me poupou de realizar essa tarefa. Mas isso tem um preço. Sou eu quem lamento.
Fiquei aliviado de ele não estar com raiva de mim. Por outro lado, não gostei do olhar de cautela que ele me lançou, como se esperasse para ver como o sangue de dragão me afetaria.
E então, de algum lugar acima, uma voz aguda disse: Que imbecil.
Eu me encolhi.
— Tudo bem, Magnus? — perguntou Jacques.
Olhei para a copa das árvores. Não vi ninguém.
Outra voz aguda disse: Ele não faz ideia do que fez, não é?
Não faz ideia, concordou a primeira voz.
Eu encontrei a origem das vozes. Em um galho uns seis metros acima, dois tordos me encaravam. Eles falavam em pios, como os pássaros fazem, mas de alguma forma o que eles estavam dizendo ficou claro para mim.
Ah, droga, reclamou o primeiro tordo. Ele nos viu. Voe! Voe!
Os dois pássaros saíram voando.
— Garoto? — me chamou Blitz.
Meu coração tinha disparado. O que estava acontecendo comigo? Estava tendo alucinações?
— Eu… hum… é. — Engoli em seco. — Estou bem. Eu acho.
Hearthstone me observou, nem um pouco convencido, mas decidiu não insistir. Ficou de pé e olhou uma última vez para o cadáver do pai dragão.
Ficamos tempo demais aqui, sinalizou ele. Temos que levar a pedra de amolar para o navio. Já pode ser tarde demais para impedir Loki.


12 comentários:

  1. A história está ficando cada vez mais louca...

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  2. Magnus consegue ser mais desastrado que eu
    Huehuehuehuehuehuehuehue

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  3. Mahnus eh mais desastrado q eu e isso q eu ja quebrei um copo 1 cenyimetro do meu pé?
    Q q aconteceu com Magnus ele pode falar com os animais?!?!?!?!

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    1. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 18:10

      Ele fala só com pássaros

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    2. Pois é, parece que provar do pai de Hearth deu nisso. Mas sei lá, pelo o que o corvo disse, parece que foi mais do que isso. Talvez ele só entenda os corvos, talvez desenvolva outros poderes mais pra frente (?)

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  4. E então, de algum lugar acima, uma voz aguda disse: Que imbecil.






    Quando eu vou lá e faço alguma merda

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  5. Eu mal consegui ler, porque de dois em dois segundos eu tinha uma crise de risos. Em relação ao que aconteceu, não sei o que pensar. Sem comentários.

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  6. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 18:15

    Então o Magnus vai desperdiçar a chance de ficar invulnerável🙈, se bem que ninguém disse isso a ele

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  7. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk me acabei de rir, primeiro da idiotice do Magnus, depois da cara do Hearth, kkkkkkkkkkk rindo muuuuuiiiiito

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  8. NÃO CARA TU É BURRO?! Mano, Magnus superou meu nivel de estupidez. Sério, nem eu sou tão desastrada. E ó que eu já me cortei com uma colher. UMA COLHER!!! Mas ele me supera, nunca pensei que isso fosse possível.

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  9. Cara, os tordos falando com o Magnus... Lembrei da cena do filme Nárnia, quando o passarinho faz "psi" pra Suzana... Dr. Dolitle... Percy falando com Arion... Na verdade, me lembrou muita coisa. Kkkk


    Ass.: Mutta Chase Herondale

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  10. Eu já tinha experimentado o sentimento conflitante entre rir ou chorar... mas tio Rick despertou um novo sentimento, fique em duvida se vomitava ou tinha crise de risos (como isso é se quer possível??? não faço ideia!!!)

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Boa leitura :)