8 de outubro de 2017

Vinte e nove - Nós quase viramos atração turística norueguesa

PULAR DE UM penhasco com certeza foi a coisa menos estranha que eu fiz em Álfaheim.
Blitz, Hearth e eu andamos até uma área rochosa no final da propriedade de Alderman, o tipo de lugar em que um empresário megalomaníaco podia parar, olhar as propriedades dos vizinhos lá embaixo e pensar: Um dia, tudo isso vai ser meu! MUAHAHA!
Estávamos alto o bastante para quebrar a perna se caíssemos, então Hearth declarou que o local era perfeito. Ele lançou raidho, a runa das viagens, quando pulamos. O ar ondulou ao nosso redor, e em vez de cair no chão, caímos amontoados no convés do Bananão, bem em cima de Mestiço Gunderson.


— Eldhusfifls! — rugiu Mestiço.
(Esse era outro dos insultos favoritos dele. Pela explicação que nos dera, um eldhusfifl era um tolo que ficava o dia inteiro sentado ao lado do fogo da comunidade, então, basicamente, o bobo do vilarejo. Além do mais, a pronúncia em si soava como insulto: el-dus-fif-ful.)
Saímos de cima de Mestiço e pedimos desculpas. Precisei curar o braço dele – ainda de tipoia – que tinha acabado de quebrar novamente com o peso de uma bunda de anão do céu.
— Humf — resmungou ele. — Eu até perdoo vocês, mas acabei de tomar banho. Vocês estragaram meu penteado!
O cabelo dele não estava diferente do habitual, então eu não sabia se ele estava brincando. Mas como não nos matou com o machado, acho que não ficou tão chateado assim.
A noite tinha caído em Midgard. Nosso navio seguia por mar aberto sob uma rede de estrelas. Blitz tirou o sobretudo, as luvas e o chapéu de safári e inspirou fundo.
— Finalmente!
A primeira pessoa a aparecer foi Alex Fierro, vestida como James Dean em 1950: o cabelo verde e preto estava penteado para trás, a camiseta branca para dentro de uma calça verde-limão.
— Graças aos deuses! — Ela correu na minha direção, o que melhorou meu humor por um microssegundo, até ela arrancar os óculos cor-de-rosa à lá Buddy Holy que eu estava usando. — Minha roupa não estava completa sem isso. Espero que você não tenha arranhado as lentes.
Enquanto limpava os óculos, Mallory, T.J. e Samirah subiram no convés.
— Opa! — Sam desviou o olhar. — Magnus, cadê sua calça?
— Hã, longa história.
— Bom, veste uma roupa, Zé-Ninguém! — ordenou Mallory. — Depois você conta a história.
Desci para pegar uma calça e um par de sapatos. Quando voltei, a tripulação estava reunida em volta de Hearth e Blitz, que contavam sobre nossa aventura na terra mágica dos elfos, da luz e de carcaças fedorentas de dragão.
Sam balançou a cabeça.
— Ah, Hearthstone. Sinto muito pelo seu pai.
Os outros murmuraram, concordando.
Hearth deu de ombros. Tinha que ser feito. Magnus fez a pior parte. Provou o coração.
Eu fiz uma careta.
— É, bem, quanto a isso… Acho que preciso contar uma coisa.
Expliquei sobre a conversa que ouvi entre os pássaros.
Alex Fierro riu e cobriu a boca.
— Desculpa. Não é engraçado.
Ela sinalizou: Hearth, seu pai, o coração. Horrível. Não consigo imaginar. Depois continuou em voz alta:
— Na verdade, tenho uma coisa para você.
Ela tirou do bolso uma echarpe diáfana de seda rosa e verde.
— Reparei que você perdeu o outro.
Hearth pegou a echarpe como se fosse uma relíquia sagrada. Enrolou solenemente no pescoço. Obrigado, sinalizou ele. Amor.
— Pode apostar. — Alex se virou para mim, a boca se curvando em um sorriso malicioso. — Mas, sinceramente, Magnus. Você deixou o coração cair. Sentiu o gosto do sangue. E agora, está falando com animais…
— Eu não falei — protestei. — Só ouvi.
— … como o dr. Doolittle?
T.J. franziu a testa.
— Quem é dr. Doolittle? Ele mora em Valhala?
— É o personagem de um livro. — Samirah mordeu um pedaço do sanduíche de pepino. Como era noite, ela estava fazendo o melhor possível para comer toda a comida do navio o mais rápido que conseguisse. — Magnus, algum outro efeito que você tenha reparado do sangue do coração? Estou preocupada.
— Eu… acho que não.
— Os efeitos podem ser apenas temporários — sugeriu T.J. — Você ainda está se sentindo estranho?
— Mais do que o habitual? — esclareceu Alex.
— Não — respondi. — Mas é difícil ter certeza. Não tem animais aqui para eu ouvir.
— Eu posso virar um furão — ofereceu-se Alex —, e nós poderíamos ter uma boa conversa.
— Obrigado, mas não.
Mallory Keen experimentou a nova pedra de amolar em uma das facas antes de atirá-la no convés. A lâmina afiada afundou até que só o cabo despontasse da madeira maciça.
— Ora, ora.
— Tente não destruir nosso barco, mulher — advertiu Mestiço. — Ainda estamos navegando nele.
Mallory fez uma careta para ele.
— Foi um ótimo amolador esses que os meninos trouxeram.
T.J. tossiu.
— Posso ver para a minha baioneta?
— Na verdade, não. — Mallory colocou a pedra no bolso do casaco. — Não confio em você para cuidar dessa belezura. Acho que vou guardá-la comigo para vocês não se machucarem. Quanto ao sangue de dragão, Magnus, não se preocupe. Você é filho de Frey, um dos mais poderosos deuses da natureza. Talvez o sangue do dragão só tenha apurado suas habilidades naturais. Faz sentido você entender o que criaturas da floresta dizem.
— Hã. — Assenti, ligeiramente encorajado. — Talvez você esteja certa. Mesmo assim, me sinto mal por ter tirado uma parte da herança de Hearthstone. E se o sr. Alderman conseguia entender animais…?
Hearth balançou a cabeça. Meu pai não era o dr. Doolittle. Não se sinta culpado. Estou com a runa othala de volta. Isso basta para mim.
Ele parecia exausto mas aliviado, como se tivesse terminado uma prova longa e cansativa que vinha temendo o semestre todo. Ele podia não ter certeza se tinha passado, mas pelo menos o sofrimento chegara ao fim.
— Bom — disse Samirah —, estamos com a pedra de amolar. Agora, temos que ir até Fläm, encontrar o hidromel de Kvásir e descobrir como derrotar seus guardiões.
— E então dar o hidromel para Magnus — continuou Alex —, com a esperança de que isso dê a ele o dom de formar frases completas.
Mallory franziu a testa, como se achasse isso improvável.
— Depois, precisamos encontrar o navio dos mortos e rezar para Magnus conseguir vencer Loki em uma competição de insultos.
— E dar um jeito de recapturar aquele meinfretr — disse Mestiço —, impedir Naglfar de zarpar e dar início ao Ragnarök. Supondo, claro, que já não seja tarde demais.
Parecia uma suposição e tanto. Nós havíamos gastado mais dois dias em Álfaheim. Agora, o solstício de verão seria dali a dez dias, e eu tinha quase certeza de que o navio de Loki estaria pronto para zarpar bem antes do previsto.
Além disso, eu não parava de pensar nas palavras de Mallory: rezar para Magnus conseguir vencer Loki em uma competição de insultos. Eu não tinha a fé de Sam em orações, principalmente quando estava orando por mim.
Blitz suspirou.
— Vou tomar banho. Estou com cheiro de troll. Depois, vou dormir por muito tempo.
— Boa ideia — disse Mestiço. — Magnus e Hearth, vocês deviam fazer o mesmo.
Esse era um plano que eu queria seguir. Jacques tinha voltado à forma de pedra de runa no meu cordão, o que queria dizer que meus braços e ombros agora doíam como se eu tivesse passado o dia serrando couraça de dragão. Todo o meu corpo pinicava, como se o acabamento antiácido da minha pele tivesse sido severamente testado.
T.J. esfregou as mãos de empolgação.
— Amanhã de manhã devemos entrar nos fiordes da Noruega. Mal posso esperar para ver o que vamos matar lá!

* * *

Naquela noite, não sonhei. Foi uma boa mudança que só durou até Sam me sacudir para me acordar. Ela sorria demais para alguém de jejum.
— Você tem que ver isso.
Eu saí do meu saco de dormir. Quando fiquei de pé e olhei por cima da amurada, perdi o fôlego.
Dos dois lados do navio, tão perto que eu quase conseguia tocar, penhascos íngremes se erguiam da água; muralhas de centenas de metros de altura feitas de pedra marmorizada por onde jorravam cachoeiras. Água de degelo escorria pela face da rocha, explodindo em uma névoa que fragmentava a luz do sol em arco-íris. Logo acima estava o céu, reduzido a uma ravina denteada de azul profundo. Em volta do casco do navio, a água era tão verde que parecia um purê de alga.
Na sombra daqueles penhascos eu me senti tão pequeno que só consegui pensar em um lugar onde poderíamos estar.
— Jötunheim?
T.J. riu.
— Não, é só a Noruega mesmo. Bonito, né?
Bonito não fazia jus. Parecia que tínhamos navegado para um mundo feito para seres bem maiores, um lugar onde deuses e monstros andavam livremente. Claro que eu sabia que deuses e monstros andavam livremente por toda Midgard. Heimdall gostava de uma certa lojinha de bagels perto de Fenway. Gigantes costumavam passear pelos pântanos de Longview. Mas a Noruega parecia um lugar apropriado para eles.
Senti uma dorzinha no coração ao pensar em quanto minha mãe adoraria aquele lugar. Conseguia imaginá-la andando pelo alto dos penhascos, aproveitando o sol e o ar frio e limpo. Desejei poder compartilhar aquele momento com ela.
Alex e Mallory, quietas e maravilhadas, observavam o cenário da proa do navio. Hearth e Blitz ainda deviam estar dormindo lá embaixo. Ao leme, Mestiço tinha uma expressão azeda no rosto.
— O que foi? — perguntei a ele.
O berserker olhou para os penhascos como se pudessem desabar em cima de nós caso ele fizesse um comentário ruim.
— Nada. É lindo. Não mudou desde que eu era garoto.
— Fläm era sua cidade natal?
Ele soltou uma gargalhada amarga.
— Bom, não era exatamente uma cidade. E não se chamava Fläm naquela época. Era só um vilarejo de pesca sem nome no ponto mais extremo do fiorde. Você vai ver o local em um minuto.
Os nós dos dedos dele ficaram esbranquiçados no leme.
— Quando eu era garoto, mal podia esperar para sair daqui. Eu me juntei a Ivar, o Sem-Ossos, aos doze anos e virei viking. Disse para a minha mãe… — Ele ficou em silêncio. — Eu disse que só voltaria quando os bardos estivessem cantando sobre meus feitos heroicos. Eu nunca mais a encontrei.
O barco seguiu em frente, o som suave das cachoeiras ecoava pelo fiorde. Eu me lembrava do que Mestiço tinha me contado sobre não gostar de voltar, de revisitar o passado. Eu me perguntei se ele se sentia culpado por ter abandonado a mãe ou decepcionado porque os bardos não fizeram dele um grande herói. Ou talvez tivessem cantado sobre seus feitos. Até onde eu sabia, a fama era algo que raramente durava mais do que alguns anos, nunca séculos.
Alguns einherjar em Valhala tornaram-se indivíduos amargurados ao perceber que ninguém nascido depois da Idade Média tinha ideia de quem eles eram.
— Você é famoso para nós.
Mestiço grunhiu.
— Eu posso pedir a Jacques para compor uma música sobre você.
— Que os deuses não permitam! — Ele franziu a testa, mas seu bigode tremeu como se ele estivesse tentando não sorrir. — Chega disso. Vamos atracar em breve. Keen, Fierro, parem de ficar babando pela paisagem e venham ajudar! Icem as velas! Preparem os cordames!
— Nós não somos suas empregadas, Gunderson — resmungou Mallory, mas ela e Alex fizeram o que ele pediu.
Após uma curva, fiquei sem ar mais uma vez. Um vale estreito separava as montanhas ao extremo do fiorde. Camadas e mais camadas de colinas verdes e florestas ziguezagueavam ao longe como um reflexo infinito. Na beirada rochosa, nas sombras dos penhascos, algumas dezenas de casas vermelhas, ocres e azuis se amontoavam, como se buscassem sua proteção. Um navio de cruzeiro maior do que a cidade toda, um hotel flutuante de vinte andares, estava atracado na doca.
— Ah, isso não estava aí antes — disse Mestiço.
— Turistas — supôs Mallory. — O que você acha, T.J.? São interessantes o suficiente para você querer lutar com eles?
T.J. inclinou a cabeça como se considerasse a ideia.
Decidi que talvez fosse uma boa hora para mudar o assunto da conversa.
— Então, lá em York — falei —, Hrungnir nos disse para pegar o trem em Fläm e então encontraríamos o que estávamos procurando. Alguém está vendo algum trem?
T.J. franziu a testa.
— Como alguém conseguiria botar trilhos em um terreno assim?
Parecia mesmo improvável, mas mesmo assim olhei a bombordo. Um carro se deslocava pela base de um penhasco. Fez uma curva fechada e desapareceu em um túnel, direto para dentro da montanha. Se os noruegueses eram loucos o bastante para construir e dirigir em estradas assim, talvez fossem loucos para fazer estradas férreas.
— Vamos para a margem descobrir — sugeriu Alex. — Recomendo que paremos o mais longe possível daquele navio.
— Você não gosta de turistas? — perguntou Sam.
— Não é isso — disse Alex. — Mas tenho medo de que notem este barco viking amarelo e pensem que somos atração local. Você quer ficar guiando turistas pelo fiorde o dia todo?
Sam estremeceu.
— Bem pensado.
Entramos na doca mais distante do cruzeiro. Nossos únicos vizinhos eram dois barcos de pesca e um jet ski com o nome dúbio Odin II pintado na lateral. Eu achava suficiente a existência de um Odin. Não estava ansioso pela sequência.
Enquanto Mallory e Alex prendiam os cordames, eu analisei a cidade de Fläm. Era pequena, sim, embora mais complexa do que parecia, vista de longe. As ruas serpenteavam por colinas, passando por áreas de casas e lojas, se prolongando por uns oitocentos metros na beirada do fiorde. Eu achava que uma estação de trem seria fácil de ver, mas ali, da doca, não conseguia avistar nenhuma.
— Que tal a gente se separar? — sugeriu Mallory. — Cobriríamos uma área maior assim.
Franzi a testa.
— Isso nunca dá certo nos filmes de terror.
— Então você vem comigo, Magnus — disse Mallory. — Eu protejo você. — Ela franziu a testa para Mestiço Gunderson. — Mas me recuso a ficar com esse trapalhão de novo. Samirah, você é uma boa substituta. Quer vir com a gente?
O convite pareceu surpreender Sam, apesar de Mallory a estar tratando de maneira bem mais respeitosa desde o incidente com os cavalos d’água.
— Hã, é claro.
Mestiço fez uma careta.
— Por mim, tudo bem! Eu fico com Alex e T.J.
Mallory franziu as sobrancelhas.
— Você vai para terra firme? Achei que não fosse botar o pé…
— Bom, achou errado! — Ele piscou duas vezes, como se tivesse surpreendido a si mesmo. — Isto aqui não é mais minha cidade, é só uma parada turística qualquer! Que importância tem?
Ele não parecia muito seguro. Eu me perguntei se ajudaria oferecer trocar de equipe. Mallory tinha o dom de distrair Mestiço, e eu estaria disposto a trocá-la por… sei lá, Alex, talvez. Mas achava que ninguém mais iria curtir a ideia.
— E Hearthstone e Blitz? — perguntei. — A gente não devia acordar eles?
— Boa sorte com isso — disse Alex. — Os dois estão apagados.
— Você consegue dobrar o navio com eles dentro? — perguntou T.J.
— Não me parece seguro. Hearth e Blitz poderiam acordar e ver que estão presos em um lenço.
— Ah, vamos deixar os dois aqui — disse Mestiço. — Eles vão ficar bem. O lugar nunca foi perigoso, a não ser que você considere o tédio uma arma mortal.
— Vou deixar um bilhete — ofereceu Sam. — Que tal andarmos por aí por meia hora e nos reunirmos aqui de novo? Depois, supondo que alguém tenha encontrado o trem, podemos ir até lá juntos.
Concordamos que o plano tinha pouca possibilidade de uma morte violenta. Alguns minutos depois, Mestiço, T.J. e Alex seguiram em uma direção, enquanto Mallory, Sam e eu seguimos na oposta, para vagar pelas ruas de Fläm e procurar por um trem e uns inimigos interessantes para matar.


6 comentários:

  1. Mestiço fez uma careta.

    — Por mim, tudo bem! Eu fico com Alex e T.J.





    Esperem, essa é a melhor equipe, eu quero ver a história deles e não do Magnus

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    Respostas
    1. O livro é narrado por Magnus bobão 😒, pq falar isso é bobice

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    2. Ter uma opinião não faz de ninguém um bobo, fazer uma piada também não

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    3. Anônimo-san quem já leu livros do tio Rick sabe que ele pode mudar o narrador e a estoria continuar fluindo perfeitamente o que nesse casso seria uma oportunidade de conhecer melhor a/o Alex.

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  2. "— Graças aos deuses! — Ela correu na minha direção, o que melhorou meu humor por um microssegundo, até ela arrancar os óculos cor-de-rosa à lá Buddy Holy que eu estava usando. — Minha roupa não estava completa sem isso. Espero que você não tenha arranhado as lentes."
    Sweet Alex, não faça isso com o pobre coração do jovem Magnus hahahaha até eu tive uma impressão errada!!!

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  3. "Eu me perguntei se ajudaria oferecer trocar de equipe. Mallory tinha o dom de distrair Mestiço, e eu estaria disposto a trocá-la por… sei lá, Alex, talvez."

    😏😏😏😏

    Shippando MT aki!

    Ass.: Mutta Chase Herondale

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Boa leitura :)