8 de outubro de 2017

Vinte e dois - Tenho péssimas notícias, mas… Não, na verdade só tenho péssimas notícias mesmo

O NAVIO AINDA estava intacto. Mestiço, Mallory e Samirah aparentemente pagaram um preço alto para que permanecesse assim.
O braço esquerdo de Mestiço estava em uma tipoia. O volumoso cabelo ruivo de Mallory tinha sido cortado na altura do queixo. Na amurada, uma Sam encharcada torcia seu hijab mágico.
— Cavalos d’água? — perguntei.
Mestiço deu de ombros.
— Nada que a gente não pudesse resolver. Meia dúzia de ataques desde ontem à tarde. Nada fora do comum.
— Um me puxou para o rio pelo cabelo — reclamou Mallory.
Mestiço sorriu.
— Até que o corte ficou bem legal, considerando que tudo que eu tinha naquele momento era um machado. Tenho que confessar, Magnus, que com a lâmina tão perto do pescoço dela eu fiquei tentado…
— Cala a boca, pateta — rosnou Mallory.
— É disso que estou falando — disse Mestiço. — Mas a Samirah, olha… você tinha que ter visto. Ela foi impressionante.
— Não foi nada de mais — murmurou Samirah.
Mallory riu.
— Não foi nada de mais? Você foi arrastada para o rio e voltou montada em um cavalo d’água. Domou a fera. Eu nunca vi ninguém capaz de fazer isso.
Samirah fez uma careta e então deu outra torcida no hijab, como se quisesse espremer as últimas gotas da experiência.
— Valquírias se dão bem com cavalos. Deve ter sido só isso.
— Hum. — Mestiço apontou para mim. — E vocês? Estou vendo que estão vivos.
Contamos a história da nossa noite no estúdio de cerâmica e da nossa manhã destruindo a Praça do Rei.
Mallory franziu a testa para Alex, ainda coberta de argila.
— Isso explicaria a nova camada de tinta de Fierro.
— E a pedra na cabeça do T.J.
Mestiço se inclinou para mais perto para inspecionar o estilhaço. A testa de T.J. tinha parado de sangrar e o inchaço havia diminuído, mas, por motivos desconhecidos, a lasca de pedra ainda se recusava a sair. Sempre que eu tentava puxá-la, T.J. gritava de dor. Localizado acima da sobrancelha, o pequeno estilhaço dava a ele uma expressão de surpresa permanente.
— Dói? — perguntou Mestiço.
— Não muito — disse T.J., encabulado. — A não ser que tentem tirar.
— Espere aí, então.
Com a mão boa, Mestiço remexeu na bolsa pendurada em seu cinto. Tirou dali uma caixa de fósforos, soltou um e passou na pedra de T.J. O fósforo se acendeu na mesma hora.
— Ei! — reclamou T.J.
— Você tem um novo superpoder, meu amigo! — Mestiço sorriu. — Isso pode ser útil!
— Tá, chega disso — disse Mallory. — Fico feliz por vocês terem sobrevivido, mas conseguiram alguma informação com o gigante?
— Conseguimos — respondeu Alex, aninhando a cabeça de Pottery Barn.
— O hidromel de Kvásir está na Noruega. Em um lugar chamado Fläm.
O fósforo aceso caiu dos dedos de Mestiço e pousou no convés.
T.J. pisou na chama.
— Você está bem, amigo? Parece que viu um draugr.
Um terremoto parecia acontecer sob o bigode de Mestiço.
— Jórvík já foi ruim — disse ele. — Agora Fläm? Quais são as chances?
— Você conhece esse lugar — concluí.
— Vou lá pra baixo — murmurou ele.
— Quer que eu cure seu braço primeiro?
Ele balançou a cabeça com infelicidade, como se estivesse acostumado a viver sentindo dor. Em seguida, desapareceu escada abaixo.
T.J. se virou para Mallory.
— O que foi isso?
— Nem olhem pra mim — disse ela com rispidez. — Eu não sou a babá dele.
Mas havia um toque de preocupação na voz dela.
— Vamos zarpar — sugeriu Samirah. — Não quero ficar neste rio um segundo a mais do que o necessário.
Quanto a isso, todos concordávamos. York era uma cidade bonita. Tinha um bom fish and chips e ao menos um estúdio de cerâmica decente, mas eu estava pronto para ir embora.
Alex e T.J. desceram para trocar de roupa e descansar da manhã de combate. Isso deixou Mallory, Sam e eu para cuidar do navio. Levamos o resto do dia para navegar pelo rio Ouse até o mar, mas a viagem foi misericordiosamente tranquila. Nenhum cavalo d’água nos atacou. Nenhum gigante nos desafiou para um combate nem para jogar bingo. A pior coisa que encontramos foi uma ponte baixa demais, o que nos obrigou a dobrar o mastro, que pode ou não ter caído em cima de mim.
No pôr do sol, quando deixamos a costa da Inglaterra para trás, Sam fez sua lavagem ritual. Fez as preces voltada para o sudoeste e depois, com um suspiro de satisfação, sentou-se ao meu lado e desembrulhou uma porção de tâmaras.
Ela me passou uma e mordeu a dela. Fechou os olhos enquanto mastigava, o rosto transformado por puro êxtase, como se a fruta fosse uma experiência religiosa. E acho que era mesmo.
— A cada pôr do sol — disse ela —, o gosto da tâmara é como vivenciar a alegria da comida pela primeira vez. O sabor simplesmente explode na boca.
Mastiguei a minha. Estava boa, mas não explodiu nem me encheu de êxtase. Por outro lado, eu não tinha passado o dia inteiro de jejum.
— Por que tâmaras? — perguntei. — Por que não, sei lá, Twizzlers?
— É uma tradição. — Ela mordeu outro pedaço e fez um hmmm satisfeito. — O Profeta Maomé sempre encerrava o jejum comendo tâmaras.
— Mas você pode comer outras coisas depois, certo?
— Ah, sim — disse ela com seriedade. — Eu pretendo comer de tudo. Soube que Alex trouxe um refrigerante de cereja, não é? Também quero experimentar.
Estremeci. Eu podia fugir de gigantes, de países e até de mundos inteiros, mas parecia que nunca ia conseguir fugir do tal Tizer. Eu tinha pesadelos nos quais todos os meus amigos sorriam para mim com lábios vermelhos e dentes manchados de cereja.
Enquanto Sam descia para comer de tudo um pouco, Mallory relaxava ao leme, mantendo o olhar no horizonte, embora o navio parecesse saber para onde íamos. De tempos em tempos, ela tocava nos ombros como se procurando o resto do cabelo e suspirava, infeliz.
Eu entendia. Não muito tempo antes, Blitz cortou meu cabelo para fazer fios mágicos e bordar uma bolsa de boliche. Eu ainda tinha lembranças traumáticas.
— Navegar até a Noruega vai levar alguns dias — disse Mallory. — O mar do Norte às vezes é agitado. A não ser que alguém tenha um amigo deus do mar para pedir ajuda.
Eu me concentrei na minha tâmara. Não queria pedir a ajuda de Njord de novo. Já tinha visto os belos pés do meu avô o suficiente por uma eternidade inteira. Por outro lado, me lembrei do que ele me disse: depois de Jórvík, estávamos por nossa conta. Nada de proteção divina. Se Aegir ou Ran ou as filhas nos encontrassem…
— Talvez a gente tenha sorte — disse sem entusiasmo.
Mallory riu com ironia.
— É. Isso é algo que acontece muito. Mesmo se chegarmos a Fläm em segurança, que coisa é essa de o hidromel ter guardiões invencíveis?
Eu gostaria de ter uma resposta para dar a ela. Guardiões do hidromel parecia outro livro que eu nunca iria querer ler.
Eu me lembrei do sonho em que Odin me oferecia a pedra de amolar e de como o rosto dele se transformava em outra coisa: uma cara encouraçada com olhos verdes e fileiras de dentes afiados. Eu nunca tinha enfrentado uma criatura assim na vida real, mas a fúria fria em seu olhar me deixou nervoso, além de ser assustadoramente familiar. Pensei em Hearthstone e Blitzen e no lugar para onde Njord poderia tê-los mandado em busca da tal pedra. Uma ideia começou a surgir, assumindo a simetria de um pedaço de argila no torno de Alex, embora eu não gostasse nem um pouco do formato.
— Vamos precisar da pedra de amolar para derrotar os guardiões — falei. — Não tenho ideia do motivo. Nós vamos ter que confiar…
Mallory riu.
— Confiar? Certo. Gosto tanto de confiar quanto gosto de acreditar na sorte.
Ela pegou uma das facas. Casualmente, segurando a lâmina pela ponta, jogou a arma aos meus pés. Ela perfurou a madeira amarela e balançou como a agulha de um metrônomo.
— Dê uma olhada — ofereceu ela. — Veja por que não confio em “armas secretas”.
Puxei a faca do convés. Eu nunca tinha segurado uma das armas de Mallory. A lâmina era surpreendentemente leve, tanto que poderia causar problemas a quem a manipulasse. Manuseada como uma adaga normal, segurada com mais força do que o necessário, era o tipo de faca que podia pular da sua mão e cortar sua própria cara.
A lâmina era um triângulo isósceles comprido e escuro, cheio de runas e desenhos de nós celtas, e couro macio e gasto enrolava-se ao cabo.
Eu não sabia o que Mallory queria que eu visse, então só disse o óbvio:
— Faca legal.
— Ah. — Mallory tirou a faca gêmea do cinto. — Não são tão afiadas quanto Jacques. Não têm nenhuma propriedade mágica até onde sei. Supostamente salvariam minha vida, mas, como pode ver — ela abriu os braços —, estou morta.
— Então… você já tinha as facas quando estava viva.
— Pelos últimos cinco ou seis minutos de vida, sim. — Ela girou a faca entre os dedos. — Primeiro meus amigos… me incitaram a armar a bomba.
— Espera. Você armou a…
Ela me interrompeu com um olhar severo, como quem diz: Nunca interrompa uma garota com uma faca.
— Foi Loki que me instigou — disse ela. — Foi a voz dele infiltrada no meu grupo, aquele trapaceiro disfarçado como um de nós. Na época eu não percebi, é claro. Mas, depois que tinha feito aquilo, minha consciência falou mais alto. Foi nessa hora que a bruxa velha apareceu.
Eu esperei. Admito que não estava acompanhando a história de Mallory muito bem. Eu sabia que ela tinha morrido desarmando um carro-bomba, mas era um carro-bomba que ela mesma tinha armado? Vê-la como alguém que faria isso era ainda mais difícil do que vê-la de cabelo curto. Não fazia ideia de quem era aquela garota.
Ela enxugou uma lágrima como se fosse um inseto irritante.
— A bruxa disse: “Ah, garota. Siga seu coração.” Blá-blá-blá. Uma besteirada dessas. E aí me deu essas facas. Disse que são indestrutíveis. Que não ficam cegas. Que não quebram. E estava mesmo certa quanto a isso, até onde eu sei. Mas ela também disse: “Você vai precisar delas. Use-as bem.” E aí eu voltei para… para desfazer o que fiz. Perdi um tempo enorme tentando descobrir como essas malditas facas iriam resolver meu problema. Mas elas não resolveram. E…
Ela abre os dedos em uma explosão silenciosa.
Minha cabeça zumbia. Eu tinha muitas perguntas que estava com medo de fazer. Por que ela armou a bomba? Quem ela havia tentado explodir? Ela estava completamente louca?
Ela guardou a faca e fez sinal para que eu jogasse a outra. Fiquei com medo de lançá-la ao mar por acidente ou matá-la, mas Mallory pegou com facilidade.
— A bruxa também era Loki — disse ela. — Tinha que ser. Não foi suficiente para ele me enganar uma vez. Teve que me enganar duas e ainda me fazer morrer.
— Por que ficou com as facas então, se elas são de Loki?
Os olhos dela brilharam.
— Porque, meu amigo, quando eu vir ele de novo, vou enfiar as duas no pescoço dele.
Ela guardou a segunda faca, e pela primeira vez em vários minutos eu soltei o ar que estava prendendo.
— A questão, Magnus, é que eu não botaria fé em arma, faca ou qualquer outro objeto mágico para resolver todos os nossos problemas, seja esse objeto o hidromel de Kvásir ou essa pedra de amolar que teoricamente vai nos levar até o hidromel. No fim das contas, só podemos contar com nós mesmos, com nossos amigos. Seja lá o que for isso que Blitzen e Hearthstone estão procurando…
Como se os nomes fossem um feitiço, uma onda surgiu do nada e caiu na proa do navio. Do jorro de água duas pessoas saíram cambaleantes. Nosso elfo e nosso anão tinham voltado.
— Ora, ora. — Mallory se levantou e enxugou outra lágrima, ao mesmo tempo forçando certa alegria na voz. — Legal vocês aparecerem, garotos.
Blitzen estava coberto da cabeça aos pés de equipamentos de proteção solar. Sal cintilava em seu sobretudo preto e nas luvas. Uma rede preta envolvia a aba do chapéu de safári, escondendo a expressão em seu rosto até ele levantar o véu. Os músculos faciais tremeram. Ele piscou várias vezes, como alguém que tinha acabado de sair de um acidente de carro.
Hearthstone se sentou no chão com um baque. Colocou as mãos nos joelhos e balançou a cabeça, Não, não, não. Sabe-se lá como, ele tinha perdido o cachecol e agora, todo de preto, parecia o estofamento de um rabecão.
— Vocês estão vivos — falei, tonto de alívio.
Fazia dias que eu estava com um nó na barriga de tanta preocupação. Mas agora, ao olhar para as expressões de choque, não consegui desfrutar do retorno dos meus amigos.
— Vocês encontraram o que estavam procurando — concluí.
Blitzen engoliu em seco.
— É… infelizmente, garoto. Njord estava certo. Nós vamos precisar da sua ajuda para a parte difícil.
— Álfaheim.
Eu queria dizer antes dele, só para tirar o ardor causado pela palavra. Eu esperava estar errado. Preferiria uma viagem ao canto mais selvagem de Jötunheim, aos fogos de Muspellheim ou até a um banheiro público na South Station de Boston.
— Sim — concordou Blitzen. Ele olhou para Mallory Keen. — Querida, você pode avisar seus amigos? Precisamos pegar Magnus emprestado.
Hearthstone precisa enfrentar o pai uma última vez.


5 comentários:

  1. Ele tem uma coleção de pedras? É isso?

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  2. Eu tenho uma teoria sobre como o pai do Hearth está: Fafnir
    Vamos ver se estou certo

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  3. Não... Aquele cara de novo não.

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Boa leitura :)